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<article-title xml:lang="pt"><![CDATA[Cuidar de quem cuida: histórias e testemunhos de um trabalho invisível. Um manifesto para o futuro, de José Soeiro, Mafalda Araújo e Sofia Figueiredo. Objectiva, Penguim Random House: Lisboa, 2020, 239 pp.]]></article-title>
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</front><body><![CDATA[ <p align="right"><b>RECENÇÕES</b></p>      <p>&nbsp;</p>      <p><b>Cuidar de quem cuida: histórias e testemunhos de um trabalho invisível. Um manifesto para o futuro, de José Soeiro, Mafalda Araújo e Sofia Figueiredo. Objectiva, Penguim Random House: Lisboa, 2020, 239 pp. </b></p>     <p>&nbsp;</p>       <p><b>Manuel Abrantes</b> </p>        <p>SOCIUS/CSG &ndash; Investigação em Ciências Sociais e Gestão, ISEG, Universidade de Lisboa</p>      <p>&nbsp;</p>    <p>&nbsp;</p>        <p>Num artigo de 2005, Michael Burawoy descreve as características distintivas da sociologia pública. Refere, a par de outros aspetos, o diálogo entre investigador/a e população estudada, o contributo para debates além da academia e o carácter orgânico da produção de saber: o desafio passa por &laquo;tornar o invisível visível, tornar o privado público, validar estas ligações orgânicas como parte da nossa vida sociológica&raquo; (Burawoy 2005, 7-8, tradução nossa). </p>        <p>Nesta perspetiva se inscreve o presente livro. Anuncia-se logo nas páginas iniciais como reacção a um problema social: a insuficiência do atual modelo de cuidados, marcado por acentuadas desigualdades de género e de classe, num contexto em que a mercantilização não pode garantir o acesso universal às infraestruturas necessárias. Se a organização social dos cuidados já vinha suscitando um debate crescente nos últimos anos, a pandemia da Covid-19 contribuiu para expor a urgência da temática (Dias, Brasão e Abrantes 2020). Escrito por um sociólogo, uma socióloga e uma dirigente associativa, o livro apresenta uma linguagem e uma organização de conteúdos que o tornam estimulante para públicos com diferentes graus de especialização, sem sacrificar qualquer premissa do trabalho académico: a solidez teórica, o dispositivo metodológico, a fundamentação empírica das conclusões, o sentido crítico permanente. </p>        ]]></body>
<body><![CDATA[<p>A primeira parte do livro divide-se em três capítulos. No capítulo inicial realiza-se um mapeamento do universo dos cuidados, campo vasto e complexo que abrange trabalho pago e trabalho não pago, esfera privada e esfera pública, e grupos profissionais variados &ndash; a heterogénea classe dos cuidados abarca médicos/ /as, enfermeiros/as, técnicos/as, auxiliares, assistentes, educadoras/es, administrativos/as e empregados/as domésticos/as, entre outras categorias. O segundo capítulo debruça-se especificamente sobre os cuidados informais em Portugal, descrevendo quer as suas componentes institucionais e históricas, quer as vivências de cuidadores/as a partir de testemunhos recolhidos para o efeito. O terceiro capítulo revê a literatura feminista sobre a desvalorização do cuidado, dos colectivos militantes na década de 1970 aos contributos mais recentes do feminismo descolonial. </p>        <p>A segunda parte do livro é focada nas políticas públicas de cuidado em Portugal, examinando, num primeiro capítulo, as suas tensões e transformações; e discutindo, num segundo, alternativas possíveis e experiências de medidas adotadas noutros países da Europa. A terceira parte do livro oferece um sumário das conclusões e um conjunto de recomendações agregadas no &laquo;Manifesto por uma nova política do cuidado&raquo;. Trata-se de delinear soluções com base na análise dos capítulos precedentes, proporcionando a cada leitor/a as ferramentas para compreender a argumentação, concordar ou discordar das propostas e, em qualquer dos casos, prosseguir e aprofundar o diálogo. </p>        <p>Merece destaque o contributo do livro para clarificar a dimensão e o valor económico dos cuidados. Segundo um estudo global da Organização Internacional do Trabalho (ILO, 2018), o trabalho de cuidado corresponde a 12% do emprego mundial, ou seja, 381 milhões de trabalhadores/as. O mesmo estudo calcula que o trabalho reprodutivo não remunerado, no qual se incluem os cuidados informais prestados a parentes ou pessoas amigas, equivale a 9% do PIB mundial. A <i>Eurocarers &ndash; European Association Working for Carers</i>, em 2017, estimava um total de 827 mil cuidadores/as informais em Portugal, cerca de 8% da população. Outras fontes são examinadas no livro, concluindo-se que a quantificação dos cuidados é estorvada, em Portugal como noutros países, por um leque de fatores: dificuldade em delimitar objetivamente os cuidados, inexistência de categorias estatísticas adequadas para este fim, subcontratação abundante no setor público e no setor privado, peso substancial da economia informal (contratação indeclarada). As lacunas de medição não devem ser entendidas como arbitrárias, nem como mero fruto de inércia ou ineficácia administrativa. &laquo;Ainda hoje&raquo;, como lemos na página 118, &laquo;só é contabilizado aquilo que é politicamente reconhecido&raquo;. </p>        <p>Igualmente digna de nota é a atenção prestada ao quotidiano de cuidadores/ as, incluindo as suas tarefas, estratégias, sacrifícios, modos de organização dos espaços e tempos domésticos, e consequências para a saúde mental. Uma observação empírica rigorosa é essencial para os avanços da teorização e do debate. O presente livro ilumina a relação dinâmica e multiforme entre as adversidades no mercado de trabalho &ndash; os horários longos, os salários baixos, a precariedade &ndash; e as estratégias familiares de prestação de cuidados a crianças, pessoas idosas ou pessoas com deficiência. Mostra também como essas estratégias, por sua vez, estão interligadas com decisões potencialmente discriminatórias das entidades patronais quando se deparam com trabalhadores/as, sobretudo mulheres, que têm de combinar a atividade profissional com a prestação de cuidados na esfera familiar. </p>      <p>As especificidades de Portugal são claramente enunciadas ao longo do livro, permitindo discernir padrões internacionais e singularidades do caso nacional. A insuficiência do sistema público de cuidados é explicada à luz de um Estado social tardio e de um modelo de reprodução social &laquo;familialista&raquo;, mas também do envelhecimento demográfico e da contenção dos orçamentos públicos. O Estado assume funções de financiador ou regulador dos cuidados sociais, não de fornecedor, mantendo-se um panorama de assistencialismo no qual nem a forte presença das instituições de cariz caritativo-religioso tem colmatado a escassez de oferta. </p>        <p>As medidas de política pública para uma melhor articulação da atividade profissional com a prestação de cuidados, entre as quais a redução do horário de trabalho, as licenças para assistência à família e as formas flexíveis de organização do trabalho, estão concebidas em primeira instância para a prestação de cuidados a crianças e adequam-se menos à realidade dos cuidados a pessoas idosas. Os/as autores/as mostram como o mesmo viés se manifestou, após a declaração de pandemia em 2020, no apoio diferenciado concedido às famílias perante o encerramento das escolas e perante o encerramento dos centros de dia. </p>        <p>A desvalorização social e económica do cuidado está estreitamente relacionada com as fragilidades da organização coletiva e do poder negocial dos/as cuidadores/as. Esta ligação torna-se evidente quando os/as autores/as traçam o percurso do movimento social que conduziu à aprovação do Estatuto do Cuidador Informal na Assembleia da República em julho de 2019, enfatizando a sua marca de género e as reivindicações formuladas desde 2016. Se entre estas encontramos necessidades concretas em matéria de transportes, consultas médicas, apoio domiciliário, instituições de acolhimento especializadas, direitos e deveres fiscais, entre outras, encontramos também uma exigência mais ampla no plano simbólico: a dignificação dos cuidados informais, prestados frequentemente com grande sofrimento e sacrifício pessoal. A análise mostra que o debate não envolveu apenas o movimento de cuidadores/as e o Estado: nele intervieram instituições de solidariedade social, sindicatos, confederações patronais. Contrariando a noção de que se trataria de um assunto com o qual poucos se importam, verifica-se afinal que muitos têm algo em jogo. Com efeito, a invisibilidade do trabalho realizado na esfera doméstica deve menos a um desinteresse generalizado pelo assunto que ao oposto: a consciência nítida de que o modo como organizamos coletivamente este trabalho tem repercussões para todas as partes, alterando a distribuição de custos e benefícios que há muito tempo penaliza duramente as mulheres e as famílias com baixos rendimentos (Abrantes 2013). </p>        <p>Por último, saliente-se o contributo do livro para conhecermos algumas políticas que outros países têm implementado relativamente a cuidadores/as informais, em particular os orçamentos pessoais na Holanda, o subsídio de cuidador/a no Reino Unido e o assalariamento e proteção social na Finlândia e na Suécia. Os potenciais e riscos destas experiências são analisados sem perder de vista as diferenças institucionais e socioeconómicas entre os países. É ainda discutido o desafio comum de reconhecer o trabalho de cuidadores/as informais sem com isso incentivar desigualdades de género nem reforçar inadvertidamente o entendimento do cuidado como uma responsabilidade familiar ao invés de um direito social. </p>        <p>Fica por definir o Estado ideal no qual se baseia o entendimento dos/as cuidadores/as informais como existindo numa &laquo;clandestinidade legal&raquo; ou como operando &laquo;em substituição do Estado&raquo; (pp. 60-61). Mais relevante, na minha perspetiva, será a construção de um consenso quanto à repartição de responsabilidades e de encargos. Terão medidas como a Rede Nacional de Cuidados Integrados ou o Serviço de Apoio Domiciliário refletido já um pouco desse acordo social? Pensemos no consenso existente quanto aos cuidados a crianças, também este dinâmico e sujeito a ameaças. No artigo que referimos inicialmente, Burawoy (2005, 16) indica justamente o consenso como a forma possível de &laquo;verdade&raquo; na sociologia pública. </p>         <p>&nbsp;</p>    ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>     <p><b>Referências </b></p>      <!-- ref --><p>Abrantes, Manuel. 2013. &laquo;A matter of decency? Persistent tensions in the regulation of domestic service.&raquo; <i>Revista de Estudios Sociales </i>45, 110-122.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=265577&pid=S0874-5560202000020001500001&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --> </p>        <!-- ref --><p>Burawoy, Michael. 2005. &laquo;For public sociology.&raquo; <i>American Sociological Review </i>70 (1), 4-28.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=265579&pid=S0874-5560202000020001500002&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --> </p>        <!-- ref --><p>Dias, Nuno, Inês Brasão e Manuel Abrantes. 2020. &laquo;Trabalho sem fronteiras: perspetivas sobre os serviços domésticos e a prestação de cuidados. Editorial do Dossier Especial.&raquo; <i>Cidades, Comunidades e Territórios </i>40, iv-xii.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=265581&pid=S0874-5560202000020001500003&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --> </p>       <p>ILO &ndash; International Labour Organisation. 2018. <i>Care Work and Care Jobs for the Future of Decent Work</i>. Geneva: ILO.</p>        ]]></body><back>
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