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<publisher-name><![CDATA[Equipa de Investigação Faces de Eva. Estudos sobre a Mulher, CICS.NOVA - Centro Interdisciplinar de Ciências Socias, Faculdade de Ciências Sociais e Humanas, Universidade NOVA de Lisboa, Portugal.]]></publisher-name>
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</front><body><![CDATA[ <p align="right"><font size="2"><b>HOMENAGEM A MARIA BARROSO</b></font></p>     <p><font size="4"><b>Maria Barroso - Liberdade no cora&#231;&#227;o</b></font></p>     <p><b>Guilherme D&#8217;Oliveira Martins*</b></p> *Centro Nacional de Cultura, Lisboa, Portugal.     <p></p> <hr/>     <p>&nbsp;</p>     <p>Maria Barroso tinha a liberdade no cora&#231;&#227;o. Testemunhei-o sempre e em especial nos &#250;ltimos encontros. Fal&#225;vamos longamente e recebi sempre de Maria de Jesus a express&#227;o de uma genu&#237;na generosidade. At&#233; ao fim teve sempre uma not&#225;vel energia, queria estar presente ao lado dos seus amigos e onde sabia que era querida, mas tamb&#233;m onde, mesmo com sacrif&#237;cio pessoal, achava que era seu dever estar. Este texto de homenagem e saudade poderia chamar-se &#8220;Carta aos Amigos Mortos&#8221;. De facto, no fim de maio de 2015, havendo que homenagear Sophia de Mello Breyner nos setenta anos do Centro Nacional de Cultura, Maria Barroso manifestou grande entusiasmo em participar. A melhor maneira de evocar a mem&#243;ria da Amiga e antiga Presidente do Centro seria atrav&#233;s da poesia. Depois de diversas combina&#231;&#245;es telef&#243;nicas, fui visit&#225;-la &#224; Estrela, na sede da Funda&#231;&#227;o Pro Dignitate, como acontecia muitas vezes. Encontrei-a a subir no elevador el&#233;trico, pois tinha sofrido uma pequena queda poucos dias antes, queixando-se de problemas de equil&#237;brio. Mal sab&#237;amos n&#243;s que seria talvez por causa dessas vertigens que teria o acidente que seria fatal. Com a eleg&#226;ncia de sempre, pediu desculpa pelo inc&#243;modo e pelo atraso. Convers&#225;mos animadamente na subida da escada &#8211; um pouco de tudo, dos &#250;ltimos acontecimentos pol&#237;ticos, das virtualidades dos elevadores eletr&#243;nicos, da mem&#243;ria da querida Sophia. Da&#237; a poucos minutos, j&#225; no seu gabinete, estava tudo combinado. Far-se-ia uma grava&#231;&#227;o em v&#237;deo de dois poemas de Sophia para passar no Museu do Oriente na festa do CNC, ainda que Maria de Jesus preferisse diz&#234;-los de viva voz, o que s&#243; n&#227;o aconteceria por um pequeno desencontro, que daria lugar a diversos telefonemas no dia seguinte, que permitiram podermos falar de outras coisas&#8230; De qualquer modo, o importante seria homenagear a poesia e as extraordin&#225;rias palavras da autora de <i>Mar Novo</i>. O primeiro poema escolhido foi o bel&#237;ssimo <i>Porque</i>, a melhor homenagem a Francisco Sousa Tavares, a quem o CNC deveu tudo e por cujo impulso Sophia foi presidente, atraindo uma pl&#234;iade not&#225;vel de jovens poetas e escritores. Essas palavras fortes, claras, serenas ultrapassam os umbrais de qualquer momento &#8211; ficam como letras de ouro e marca indel&#233;vel de liberdade e da coragem: &#8220;Porque os outros se mascaram, mas tu n&#227;o / (&#8230;) Porque os outros v&#227;o &#224; sombra dos abrigos / E tu vais de m&#227;os dadas com os perigos / Porque os outros calculam mas tu n&#227;o&#8221; (1958). Todos nos recordamos das inolvid&#225;veis imagens, poucos dias depois de 25 de abril de 1974, de Francisco e Sophia &#224;s portas de Caxias a abra&#231;arem o Nuno Teot&#243;nio Pereira. E n&#227;o podemos esquecer o martelar sincopado das s&#237;labas: <i>Porque os outros se mascaram, mas tu n&#227;o</i>. Por mais que os dias e os anos passem, ficar&#225; para sempre a associa&#231;&#227;o forte entre um poema e a vit&#243;ria da liberdade&#8230; A voz de Maria de Jesus Barroso deu a esse poema a sua for&#231;a heroica, como s&#243; ela sabia fazer. E ficou-nos ainda na lembran&#231;a a imagem de Francisco no cimo da guarita do Largo do Carmo, no dia 25 de abril, a fazer o primeiro discurso de um civil naquele dia &#250;nico. Era o dia mais importante depois do 1.&#186; de dezembro de 1640. Francisco gostava dos gestos largos e teatrais, mas no essencial do que tratava ali era do reconhecimento de que a dignidade humana exigia o pleno exerc&#237;cio da liberdade. A segunda escolha foi da pr&#243;pria Maria Jesus Barroso, e quando hoje voltamos a ouvir a sua express&#227;o n&#237;tida e firme sentimos como que um fr&#233;mito. Essa grava&#231;&#227;o derradeira tornou-se premonit&#243;ria e simb&#243;lica. Tudo se passa agora como se assist&#237;ssemos a um estranho mas inexor&#225;vel passar de um lado para o outro de um espelho. &#201; separa&#231;&#227;o entre o ficar e o partir. Maria Barroso dirige-se na leitura a quantos foi agora reencontrar &#8211; a come&#231;ar por Sophia&#8230; Em <i>Carta aos Amigos Mortos</i>, Sophia disse-nos tudo o que pode ser dito num momento como este. N&#227;o s&#243; lembra quantos nos deixaram, mas tamb&#233;m compreende a fant&#225;stica for&#231;a libertadora da poesia. E n&#227;o &#233; de mais lembrar esse apelo ao pleno exerc&#237;cio da liberdade de consci&#234;ncia. &#8220;Eis que morrestes &#8211; agora j&#225; n&#227;o bate / O vosso cora&#231;&#227;o cujo bater / Dava ritmo e esperan&#231;a a meu viver / Agora estais perdidos para mim</p>     <p>/ &#8211; O olhar n&#227;o atravessa esta dist&#226;ncia &#8211; / Nem irei procurar-vos pois n&#227;o sou / Orpheu tendo escolhido para mim / Estar presente aqui onde estou viva / Eu vos desejo a paz nesse caminho / Fora do mundo que respiro e vejo&#8230;&#8221; (<i>Livro Sexto</i>, 1962).</p>     <p>Quando nos deixa algu&#233;m pr&#243;ximo, como agora aconteceu, n&#227;o h&#225; palavras. Mas tudo estava dito, quando ouvimos: &#8220;E eu vos pe&#231;o por este amor cortado / Que vos lembreis de mim l&#225; onde o amor / J&#225; n&#227;o pode morrer nem ser quebrado / Que o vosso cora&#231;&#227;o j&#225; n&#227;o bate / O tempo denso de sangue e de saudade / Mas vive a perfei&#231;&#227;o da claridade / Se compade&#231;a de mim e do meu pranto / Se compade&#231;a de mim e do meu canto&#8221;. A escolha foi premonit&#243;ria. Esse di&#225;logo com Sophia significa o encontro do esp&#237;rito, da lembran&#231;a e da liberdade.</p>     <p>Quando nos fomos despedir de Maria de Jesus, Leonor Xavier recordou-me (com a fragilidade da sua for&#231;a) o que foi a experi&#234;ncia inolvid&#225;vel de escrever a biografia da nossa Amiga. Relendo a obra, percebemos que h&#225; uma riqueza espiritual incontida numa vida de entrega &#224;s causas, aos ideais e aos outros. &#201; um percurso que nos enche de for&#231;a, esperan&#231;a e determina&#231;&#227;o. Maria de Jesus foi uma promessa e uma certeza do teatro portugu&#234;s e uma refer&#234;ncia indiscut&#237;vel na cinematografia, <i>Mudar de Vida</i>, de Paulo Rocha, ou <i>Benilde ou a Virgem M&#227;e</i>, s&#227;o inesquec&#237;veis. E, como muitos de n&#243;s testemunh&#225;mos, a sua mem&#243;ria l&#237;mpida trazia-nos intacta a for&#231;a dos poetas do &#8220;Novo Cancioneiro&#8221;. Era a liberdade, sempre fr&#225;gil, que tinha de ser recordada e que era ilustrada n&#227;o com abstra&#231;&#245;es, mas com gestos concretos. E se d&#250;vidas houvesse, leia-se a sua correspond&#234;ncia com M&#225;rio Soares nos dif&#237;ceis momentos da pris&#227;o. N&#227;o h&#225; vacila&#231;&#227;o &#8211; h&#225; vontade, determina&#231;&#227;o e certeza de que os ideais n&#227;o se abatem.</p>     <p>Como disse, deu-se a feliz coincid&#234;ncia de termos falado muito nas &#250;ltimas semanas em que pudemos contar com a sua presen&#231;a. A &#250;ltima vez, de viva voz, foi no Hotel Pal&#225;cio do Estoril, numa sess&#227;o com convidados dos Encontros promovidos&#160; por Jo&#227;o&#160; Carlos Espada. Jamais esquecerei a palavra amiga que me segredou e que foi mais uma demonstra&#231;&#227;o de uma rela&#231;&#227;o de confian&#231;a constru&#237;da ao longo de muitas d&#233;cadas, em que a vida pol&#237;tica e c&#237;vica se confundiu naturalmente com a amizade e o afeto. Maria de Jesus n&#227;o escondia esse sentido quase maternal que significava, afinal, que a vida humana n&#227;o faz sentido se n&#227;o cuidar da dignidade e da humanidade. Dias antes do acidente, telefonara-me a pedir um conselho t&#233;cnico, mas muito liter&#225;rio&#8230; Com a sua intelig&#234;ncia e arg&#250;cia foi f&#225;cil rapidamente partilharmos uma conclus&#227;o, que sem dificuldade seguiu. E terminou o telefonema dizendo &#8211; &#8220;Era o que me parecia, mas n&#227;o quis avan&#231;ar sem o ouvir.&#8221; De facto, eu em nada a ajudara, disse-lhe apenas o que pensava e que j&#225; a minha interlocutora estava num caminho que me parecia certo, mas ao menos tive o gosto de a ouvir. Hoje, quando tudo aconteceu t&#227;o repentinamente, recordo no &#237;ntimo esse sinal de profunda amizade. E, em mar&#233; de recorda&#231;&#245;es, invoco a homenagem de surpresa que pudemos partilhar por ocasi&#227;o dos seus noventa anos, em que estive a seu lado com enorme gosto. Mas tamb&#233;m lembro o que me disse, com que entusiasmo, sobre a conversa que tivera com o Papa Francisco. E que sinais extraordin&#225;rios p&#244;de revelar, de abertura, de aten&#231;&#227;o, de cuidado, de justi&#231;a e de paz&#8230; Nunca olvidarei esse testemunho vivo. Jos&#233; Cutileiro disse melhor do que algu&#233;m poderia dizer o que Maria Barroso foi: &#8220;a sua intelig&#234;ncia, grandeza de alma, do&#231;ura, simpatia e toler&#226;ncia t&#234;m sido louvadas. Mas n&#227;o esquecer a rijeza diamantina da sua fibra moral, alicerce onde tudo o resto assentava.&#8221;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Appolonyus de Tyana disse um dia: &#8220;Ningu&#233;m morre sen&#227;o em apar&#234;ncia, do mesmo modo que ningu&#233;m nasce sen&#227;o aparentemente. A mudan&#231;a do ser para o devir parece ser o nascimento e a mudan&#231;a do devir para o ser parece ser a morte, mas na realidade ningu&#233;m jamais nasce nem ningu&#233;m jamais morre. &#201; apenas um ser-se vis&#237;vel e logo ap&#243;s invis&#237;vel&#8230;&#8221;. Era Alberto Vaz da Silva quem costumava lembrar essa alus&#227;o &#224; morte e &#224; vida. E se lembramos a mem&#243;ria deste outro Amigo do cora&#231;&#227;o, admirador de Sophia, &#233; porque ele nos deixou quase em simult&#226;neo em rela&#231;&#227;o a Maria de Jesus. Na nossa lembran&#231;a ficou indel&#233;vel a refer&#234;ncia a ambos naqueles dias de chumbo. Os momentos dolorosos misturaram-se assim e a media&#231;&#227;o po&#233;tica tornou-se motivo de esperan&#231;a e de renascimento. E n&#227;o poderia deixar de vir ainda &#224; baila o extraordin&#225;rio poema de Carlos Queiroz: &#8220;Ver s&#243; com os olhos / &#201; f&#225;cil e v&#227;o: / Por dentro das coisas / &#201; que as coisas s&#227;o.&#8221; E o Alberto ainda dizia, com palavras muito suas: &#8220;Um dia serei alegre!&#8221;, com a &#8220;a m&#225;goa de n&#227;o sentir / Essa alegria sem par / que t&#234;m os santos a agir / E as crian&#231;as a brincar, / Essa alegria gerada / Numa suprema inoc&#234;ncia / que toca de transcend&#234;ncia / At&#233; as coisas de nada.&#8221; Como era verdadeira a frase de Saint-Martin: &#8220;Houve certos seres atrav&#233;s dos quais Deus nos amou.&#8221; E Maria de Jesus Barroso Soares fica na nossa lembran&#231;a n&#227;o apenas pela serenidade da poesia, mas tamb&#233;m pela for&#231;a das palavras duras de combate pela liberdade, cantadas no &#8220;Novo Cancioneiro&#8221;. Mas ainda mais do que tudo isso, n&#227;o podemos esquecer a pedagoga, a diretora do Col&#233;gio Moderno, a sucessora do Dr. Jo&#227;o Soares, que deixou nas suas m&#227;os o testemunho que os mestres apenas transmitem a quem seja digno da sua linhagem de exce&#231;&#227;o, a exigente cultora da arte de educar e de realizar a &#8220;escola de cidad&#227;os&#8221;, defendida por Lu&#237;sa e Ant&#243;nio S&#233;rgio. Para Maria de Jesus havia sempre tempo para tudo &#8211; para ir ao encontro da alvorada no seu Algarve, para escolher bem cedo os alimentos para o Col&#233;gio, mas tamb&#233;m para desempenhar exemplarmente as fun&#231;&#245;es de cidad&#227;, sempre com a mesma coer&#234;ncia, fosse nos tempos em que M&#225;rio Soares era preso ou foi for&#231;ado ao ex&#237;lio, fosse, depois de restaurada a democracia, no exerc&#237;cio de fun&#231;&#245;es de deputada do parlamento da democracia portuguesa ou como representante da Rep&#250;blica Portuguesa ao lado de M&#225;rio Soares nos governos, nas campanhas pol&#237;ticas ou na Presid&#234;ncia da Rep&#250;blica.&#160;&#160; A sua identidade pr&#243;pria nunca deixou de se afirmar com muita clareza. A cidadania da Rep&#250;blica exerce-se sempre plenamente, e assim foi com a nossa homenageada de hoje. Mulher de liberdade e de fam&#237;lia, foi um extraordin&#225;rio porto de abrigo, em que os portugueses se puderam rever. Que &#233; a cultura portuguesa sen&#227;o um lugar de di&#225;logo e de afetos, como gostava de lembrar um outro amigo comum que n&#227;o pode deixar de ser lembrado neste momento: Ant&#243;nio Al&#231;ada Baptista. Por isso, para fechar este feixe de lembran&#231;as, cientes de que Unamuno tinha raz&#227;o quando dizia que a nossa cultura entrela&#231;a a l&#237;rica e a hist&#243;ria tr&#225;gico-mar&#237;tima &#8211; e assim se projeta universalmente &#8211; devemos reler esse poema &#250;nico do s&#233;culo XX, que lembra um amor sublime e &#233;, tamb&#233;m ele, de novo com Sophia de Mello Breyner a glorifica&#231;&#227;o da palavra como realidade viva: &#8220;&#8230;Nunca mais amarei quem n&#227;o possa viver / Sempre. / Porque eu amei como se fossem eternos</p>     <p>/ A gl&#243;ria, a luz e o brilho do teu ser, / Amei-te em verdade e transpar&#234;ncia</p>     <p>/ E nem sequer me resta a tua aus&#234;ncia, (&#8230;) / Nunca mais servirei senhor que possa morrer.&#8221;. A confiss&#227;o do Duque de G&#226;ndia, futuro S. Francisco de Borja, sobre a morte de Isabel de Portugal, &#233; a invoca&#231;&#227;o pura da poesia. Que melhor lembran&#231;a de Maria de Jesus Barroso?</p>      ]]></body>
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