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</front><body><![CDATA[ <p align="right"><font size="2"><b>DI&#193;LOGOS</b></font></p>     <p><font size="4"><b>Maria Barroso, a Directora do meu Col&#233;gio</b></font></p>     <p><b>Jo&#227;o Diogo Nunes Barata, Pedro Cordeiro</b></p> <hr/>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>Jo&#227;o Diogo Nunes Barata (JDNB)</b>: Sobre Maria de Jesus Barroso, ocorre-me dizer o seguinte: foi uma grande Mulher, como esposa, m&#227;e e defensora dos direitos das pessoas do seu g&#233;nero; foi uma Cidad&#227; exemplar, como defensora da Liberdade e da Democracia e como promotora de in&#250;meras iniciativas no campo da solidariedade social; foi algu&#233;m que &#224; Cultura dedicou um labor incans&#225;vel at&#233; ao fim da sua vida (e j&#225; lhe direi porqu&#234;); foi uma primeira-dama (para utilizar um jarg&#227;o sem cobertura constitucional) exemplar, pela eleg&#226;ncia natural, pela proximidade com as pessoas e pela maneira como soube tirar partido da sua posi&#231;&#227;o para a p&#244;r ao servi&#231;o dos mais fracos e vulner&#225;veis. E, por &#250;ltimo (ser&#225; &#8220;por &#250;ltimo&#8221;?), recordaria a Amiga, que para mim, por raz&#245;es ligadas ao facto de ter estado separado de meus Pais pela dist&#226;ncia, quando estive no Col&#233;gio, ela ter sido para mim uma segunda M&#227;e.</p>     <p><b>Pedro Cordeiro (PC)</b>: Gostaria de pegar, mordendo o isco que lan&#231;ou, pelo final das suas palavras e pela no&#231;&#227;o de Maria de Jesus Barroso como M&#227;e que foi de tantos alunos do nosso Col&#233;gio. Por motivos biol&#243;gicos, j&#225; n&#227;o apanhei a fase em que havia internato no Moderno nem as col&#243;nias de f&#233;rias na Foz do Arelho, mas o cruzamento da vida escolar com a amizade familiar que nos unia levou a que Maria de Jesus fosse, para mim &#8211; e nisto as gera&#231;&#245;es batem certo &#8211;, uma esp&#233;cie de Av&#243; emprestada. Amiga dos meus Av&#243;s Maria Ant&#243;nia e Joaquim Catanho de Menezes, M&#227;e e Av&#243; de amigos, foi refer&#234;ncia que aprendi a acarinhar e respeitar desde crian&#231;a. V&#237;amo-nos na escola, mas tamb&#233;m em festas de fam&#237;lia &#8211; a dela, a minha, tantas vezes uma &#8211; e ocasi&#245;es ligadas &#224;s muitas causas que promoveu.</p>     <p><b>JDNB</b>: Falar de Maria de Jesus Barroso Soares &#233; falar de um ser humano excepcional, n&#227;o s&#243; porque assumiu posi&#231;&#227;o de relevo em v&#225;rios sectores de actividade, mas porque deixou em todos eles uma marca indel&#233;vel, pela entrega total com que assumiu o papel que neles lhe coube, bem como pela coer&#234;ncia que sempre demonstrou entre o pensamento e a ac&#231;&#227;o. Conheci a Sra. D. Maria de Jesus (assim a tratei sempre) quando aos 6 anos de idade fui internado, com meu irm&#227;o, no Col&#233;gio Moderno, onde ela n&#227;o s&#243; geria parte importante da log&#237;stica da escola, como, por vezes, substitu&#237;a professores temporariamente impedidos. Lembro-me de a ter tido como professora de Portugu&#234;s e Franc&#234;s, por curtos per&#237;odos, &#233; certo, mas os suficientes para guardar dela a mem&#243;ria de uma professora que incentivava os alunos a aprender em vez de se limitar a transmitir-lhes conhecimentos. Mencionarei tamb&#233;m as iniciativas que tomou para alargar os horizontes culturais dos alunos, facultando-lhes o acesso a v&#225;rios dom&#237;nios das artes, nomeadamente o teatro. Passei depois durante sete anos as f&#233;rias de Ver&#227;o na col&#243;nia de f&#233;rias que o Col&#233;gio tinha na Foz do Arelho, onde tive oportunidade de conviver com a fam&#237;lia Soares e de beneficiar do ambiente familiar que a&#237; souberam criar com os jovens que se encontravam afastados de seus Pais, residentes em &#193;frica. Este era um tra&#231;o distintivo do nosso Col&#233;gio e para a sua consolida&#231;&#227;o tiveram um papel determinante a aten&#231;&#227;o constante, a bondade, o cuidado no trato com que a Sra. D. Maria de Jesus sempre orientou a sua ac&#231;&#227;o.</p>     <p><b>PC</b>: Tamb&#233;m eu recordo a ternura com que sempre se me dirigia e que conservou at&#233; ao &#250;ltimo encontro, no seu derradeiro dia com sa&#250;de, no dia da festa das crian&#231;as da infantil do Col&#233;gio (entre as quais a minha filha do meio, hoje com a idade que eu tinha quando formei as primeiras mem&#243;rias de Maria de Jesus). A sua presen&#231;a discreta, fr&#225;gil, fisicamente pequenina mas moralmente um colosso, marcava toda e qualquer celebra&#231;&#227;o onde estivesse (escolar, familiar, religiosa). Nessa ocasi&#227;o s&#243; nos cumpriment&#225;mos brevemente. Mas umas semanas antes vira-a no seu gabinete, onde sempre me dirigia &#224; sa&#237;da das aulas que dou no Col&#233;gio &#8211; outrora aluno, hoje professor, mais uma intera&#231;&#227;o do ciclo da vida em que se integrou esta amizade. Era fim de Maio e convers&#225;mos com tempo. Assinalava-se a Quinta-feira da Espiga e levei-lhe, como todos os anos, um raminho que comprara na rua, pela fresca, &#224; ida para o Col&#233;gio. Comoveu-se com a oferta e ali fic&#225;mos a p&#244;r a vida em dia.</p>     <p><b>JDNB</b>: Tamb&#233;m eu, embora tenha sa&#237;do do Col&#233;gio, acabados os meus estudos secund&#225;rios, n&#227;o deixei de manter contacto com a minha escola, tanto mais que a Faculdade que fui frequentar, a de Direito, estava ali mesmo ao lado, o que me facilitava as visitas, nas idas e vindas para a Faculdade.</p>     <p><b>PC</b>: Que engra&#231;ado, eu frequentei a Cl&#225;ssica, mas do outro lado da Alameda (Letras), o que favorecia as passagens pelo Col&#233;gio, onde, ali&#225;s, tinha familiares e amigos.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><b>JDNB</b>: Sempre que l&#225; ia, n&#227;o deixava de estar com a Sra. D. Maria de Jesus, que se interessava pela evolu&#231;&#227;o dos meus estudos e me perguntava sobre meu irm&#227;o, por quem tinha tamb&#233;m sincera amizade. Este interesse constante pelo percurso dos antigos alunos, que ela sempre teve, &#233; prova da autenticidade dos seus sentimentos e da import&#226;ncia que dava &#224; manuten&#231;&#227;o dos la&#231;os de afecto que no Col&#233;gio se haviam tecido. Mais tarde, quando trabalhei com o Dr. M&#225;rio Soares, como seu assessor quando foi primeiro-ministro e como seu chefe de gabinete quando Presidente, conheci de perto as facetas da Sra. D. Maria de Jesus como Mulher e como Cidad&#227;. Tirando partido da influ&#234;ncia que naturalmente a sua posi&#231;&#227;o lhe proporcionava, p&#244;-la ao servi&#231;o dos mais desfavorecidos, que a ela constantemente recorriam, expondo os seus problemas e contando com a sua ajuda, que nunca lhes faltou.</p>     <p><b>PC</b>: Falava do pa&#237;s, do mundo, cujo futuro a inquietava e que tanto fez por melhorar. De guerras e injusti&#231;as, mas tamb&#233;m de f&#233;, de livros, amigos, pessoas, mem&#243;rias. &#8220;A tua Av&#243;, como anda?&#8221;, perguntava-me. &#192;s vezes ia &#224; secret&#225;ria buscar uma agenda alucinante, de t&#227;o preenchida. Mostrava-ma, como quem meio se queixa de n&#227;o ter descanso, meio se orgulha de n&#227;o parar. Debalde algu&#233;m sugerir que abrandasse. Trabalhou sempre, e ainda bem.</p>     <p><b>JDNB</b>: Noutros campos, todos conhecemos as iniciativas de car&#225;cter social que p&#244;s em marcha, nomeadamente as que visavam o combate contra a difus&#227;o de programas de televis&#227;o em que se propagandeava viol&#234;ncia e as que favoreciam pol&#237;ticas de apoio &#224;s crian&#231;as e a outros sectores mais fr&#225;geis da sociedade. Como mulher de um pol&#237;tico que teve cargos p&#250;blicos de grande responsabilidade e representa&#231;&#227;o (e foram todos os que M&#225;rio Soares desempenhou a partir de 1974), Maria Barroso foi algu&#233;m que soube conciliar com o devido equil&#237;brio a mod&#233;stia, que era seu timbre, com as exig&#234;ncias que a sua posi&#231;&#227;o, digamos, institucional impunha. E f&#234;-lo sempre com uma eleg&#226;ncia e uma distin&#231;&#227;o que todos reconheceram como um exemplo a ser seguido pelas futuras primeiras-damas.</p>     <p><b>PC</b>: Era exemplar na postura. Mesmo em crian&#231;a (e eu era-o quando entrei para o Col&#233;gio, aos 10 anos), era imposs&#237;vel n&#227;o reparar nos colares alinhados, no cabelo impec&#225;vel, no vestido sem um vinco. Mas essa eleg&#226;ncia n&#227;o lhe tirava proximidade: havia o sorriso, havia as m&#227;os que refor&#231;avam o que dizia e que &#224;s vezes &#8211; que saudade! &#8211; agarravam as nossas. Havia diminutivos e palavras de carinho que enchiam o cora&#231;&#227;o.</p>     <p><b>JDNB</b>: Tamb&#233;m pude testemunhar, em mais de uma ocasi&#227;o, como, em representa&#231;&#227;o de seu marido em actos oficiais no estrangeiro, foi Embaixadora da nossa Cultura, exprimindo-se em franc&#234;s, ingl&#234;s ou italiano com uma flu&#234;ncia que n&#227;o raras vezes causou a admira&#231;&#227;o da audi&#234;ncia. Quando fui embaixador em Roma, tive v&#225;rias vezes a honra de a hospedar na nossa resid&#234;ncia quando das suas desloca&#231;&#245;es para contactos relacionados com o seu empenho pela busca da Paz, quer junto de institui&#231;&#245;es italianas (que lhe outorgaram o prestigiado pr&#233;mio &#8220;Insieme per la Pace&#8221;) quer junto de entidades religiosas, nomeadamente quando da sua campanha pela paz em Mo&#231;ambique.</p>     <p><b>PC</b>: S&#243; tive conhecimento da ac&#231;&#227;o de Maria de Jesus em Mo&#231;ambique muito mais tarde, o que de resto &#233; consent&#226;neo com a discri&#231;&#227;o que sempre impunha a tudo quanto fazia. Recentemente, em missas mandadas rezar em sua mem&#243;ria, padres e fi&#233;is evocaram a simplicidade com que participava &#8211; a partir do seu reencontro com a f&#233;, em 1989, depois do acidente do Jo&#227;o &#8211; nas celebra&#231;&#245;es. A generosidade com que se oferecia, horas antes da missa, para ajudar outros membros da comunidade a fazer as leituras (com outro talento a que j&#225; iremos). Se h&#225; coisa que toda a gente destaca (ainda h&#225; dias o recordava com a neta Mafalda) &#233; esta disponibilidade permanente para os outros, mesmo quando tinha fun&#231;&#245;es de responsabilidade ou, no m&#237;nimo, muito exigentes em termos de tempo. Se em mi&#250;do me impressionava v&#234;-la tantas vezes na escola (era, ent&#227;o, primeira-dama), n&#227;o menos impressionante foi que at&#233; aos 90 anos continuasse a l&#225; ir quase diariamente, antes de seguir para a sua Funda&#231;&#227;o Pro Dignitate. Aquela presen&#231;a perene fez com que nos convenc&#234;ssemos, incautos, de que nunca deixaria de ali estar. A silhueta &#8220;pequenina&#8221;, como a pr&#243;pria se descrevia, era afinal um pilar sem o qual as pernas hoje me tremem ao entrar no p&#225;tio do Col&#233;gio.</p>     <p><b>JDNB</b>: Por &#250;ltimo, deixo ainda um outro testemunho do seu permanente interesse por tudo o que se relacionava com a Cultura. Maria Barroso foi at&#233; ao &#250;ltimo dia um dos membros mais distintos do Conselho Liter&#225;rio do Gr&#233;mio Liter&#225;rio, &#243;rg&#227;o que prop&#245;e e organiza manifesta&#231;&#245;es nos v&#225;rios dom&#237;nios culturais naquela prestigiada institui&#231;&#227;o. Como membro que sou tamb&#233;m daquele &#243;rg&#227;o, constatei a sua grande assiduidade e a total disponibilidade com que colaborou nas diferentes iniciativas, que enriqueceu com os especiais atributos que tinham feito dela a grande actriz que todos n&#243;s lamentamos ter sido obrigada a abandonar os palcos quando estava em pleno dom&#237;nio da sua arte.</p>     <p><b>PC</b>: &#201; verdade. Mais uma das vergonhas da ditadura que ela tanto combateu. Chegou a partilhar palco com o meu tio-av&#244; Augusto de Figueiredo&#8230; mas, curiosamente, os meus familiares que conheciam Maria de Jesus de h&#225; muito dizem que nunca deixou de ser actriz. Ou seja, como diz o Senhor Embaixador, os atributos nunca a abandonaram, e escolheu p&#244;-los ao servi&#231;o das suas causas. Felizmente nunca deixou de dizer poemas, e tamb&#233;m deles fez armas pela justi&#231;a, democracia e liberdade. Sempre achei muito engra&#231;ado um costume que tinha: por saber tantos poemas de cor, de repente, a prop&#243;sito de algo de que fal&#225;vamos, a do&#231;ura na voz enchia-se de for&#231;a e fulgor, ao converter-se o discurso na declama&#231;&#227;o de um verso que algum assunto lhe fizera lembrar. Dizia-os com uma paix&#227;o, um crescendo a que era imposs&#237;vel ficar indiferente, e que era o mesmo perante uma plateia ou entre amigos. Hoje, quando me d&#227;o aquelas saudades que mais doem, socorro-me do manancial que h&#225;, felizmente, de declama&#231;&#245;es suas, discursos, entrevistas. Umas vezes presto aten&#231;&#227;o ao que est&#225; a dizer (ainda surgem coisas para mim in&#233;ditas), de outras j&#225; conhe&#231;o o conte&#250;do mas deixo-me estar apenas a ouvir o timbre daquela voz terna, a mesma que um dia me veio acordar no Vau, &#224;s seis da manh&#227;, porque aceitara o seu convite para acompanh&#225;-la na caminhada di&#225;ria de nove quil&#243;metros at&#233; aos molhes da Rocha. &#8220;Sempre queres vir comigo?&#8221; &#8220;Ent&#227;o n&#227;o quero, querida amiga?&#8221; Quem me dera ir outra vez&#8230;</p>      ]]></body>
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