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</front><body><![CDATA[ <p align="right"><font size="2"><b>NOTA DE ABERTURA</b></font></p>     <p><b>Nota de Abertura</b></p>     <p><b>Isabel Henriques de Jesus</b></p> <hr/>     <p>&nbsp;</p>     <p>N&#227;o &#233; poss&#237;vel dissociar da nossa hist&#243;ria as ades&#245;es intelectuais que vamos processando. Sabemos hoje que o racional &#233; profundamente emocional, por isso, a receptividade que determinada forma de pensar tem em n&#243;s ocorre num substrato relacional em que os la&#231;os se v&#227;o apertando porque o encontro &#233; feliz. </p>     <p>Vem isto a prop&#243;sito da descoberta de Fran&#231;oise Collin, figura de capa deste n&#250;mero 36 da revista <i>Faces de Eva. Estudos sobre a Mulher. </i>H&#225; uns anos, o pensamento desta feminista ajudou-me a encontrar os fios, a orden&#225;-los, a construir a trama com que fui elaborando e reelaborando os significados do signo - feminismo - porque nele encontrei um ancoradouro para as minhas pr&#243;prias inquieta&#231;&#245;es. </p>     <p>De &quot;um problema sem nome&quot; identificado e denunciado por Betty Friedan, em 1963, que queria afinal dizer que as mulheres se sentiam mal na pele que se deixavam vestir, mas n&#227;o haviam ainda encontrado os termos para o verbalizarem, condi&#231;&#227;o necess&#225;ria para a liberta&#231;&#227;o, passando pelos movimentos feministas da segunda metade do s&#233;culo XX, muitas vezes disruptivos e radicais, a chamada segunda vaga do feminismo caracterizou-se pela extraordin&#225;ria diversidade de posi&#231;&#245;es, de emo&#231;&#245;es, de zangas, de dinamismo, aspectos que, no dizer de Judith Butler permitiram manter vivo o[s] movimento[s]. </p>     <p>Um desses diferentes posicionamentos assentava numa divis&#227;o entre Universalistas e Diferencialistas. Para Collin, a quest&#227;o de pertencermos a um todo humano ou sermos espec&#237;ficas de metade desse todo, tem pouca express&#227;o na pol&#237;tica dos sexos, considerando est&#233;ril essa contenda entre as feministas. A quest&#227;o n&#227;o deve, pois, ser colocada numa &#8220;l&#243;gica dos contr&#225;rios&#8221;, que facilmente enclausura qualquer argumento em termos de alternativa ideol&#243;gica, mas sim interrogar a forma e as modalidades de exist&#234;ncia de posi&#231;&#245;es sexuadas. Apesar de n&#227;o se poder negar o aspecto morfol&#243;gico e psicol&#243;gico da diferen&#231;a dos sexos, a quest&#227;o central &#233; saber se essa diferen&#231;a se traduz e como se traduz na rela&#231;&#227;o com o mundo e, ainda, como se inscreve na ordem social e simb&#243;lica.</p>     <p>O assunto estava lan&#231;ado e as diferentes posi&#231;&#245;es deviam ser equacionadas num quadro pol&#237;tico ditado pela praxis. N&#227;o havendo modelo a seguir, j&#225; que o masculino tinha assegurado a exclus&#227;o das mulheres do pensamento e da ac&#231;&#227;o pol&#237;tica e, consequentemente, do poder e do saber, as mulheres precisavam de o criar, inventando-o, atrav&#233;s da ac&#231;&#227;o, e da sua permanente reelabora&#231;&#227;o, ou seja, usando as palavras de Collin: &#8220;a diferen&#231;a dos sexos tornou-se uma praxis: uma praxis (ou uma pol&#237;tica) do irrepresent&#225;vel. Nada est&#225; dito sobre como ser&#225;. Vai-se dizendo, frase por frase, como quando se fala&#8221;.</p>     <p>Este avan&#231;ar atrav&#233;s de uma estreita interdepend&#234;ncia entre pensamento e ac&#231;&#227;o permite entender o feminismo como um processo inacabado, sujeito a um permanente questionamento assente na ac&#231;&#227;o pol&#237;tica. Nenhum pensamento ou ac&#231;&#227;o descansam sobre uma tese, uma teoria ou uma decis&#227;o. &#201; no agir que as solu&#231;&#245;es, ainda que provis&#243;rias, ser&#227;o alcan&#231;adas, tendo embora fundamentos conceptuais e te&#243;ricos. Agir &#233; come&#231;ar, &#233; correr riscos, &#233; n&#227;o se conformar a um modelo pr&#233;vio, &#233; fazer acontecer qualquer coisa. Mesmo quando se chega a um resultado concreto, o processo n&#227;o est&#225; terminado, recome&#231;a, induz novos enunciados e torna-se objecto de um novo pensamento.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Quando, num movimento sem retorno iniciado no fim dos anos 60 do s&#233;culo passado, as mulheres transformaram a diferen&#231;a em &#8220;diferendo&#8221;, o que elas fizeram foi algo de novo, com um peso e uma dimens&#227;o pol&#237;tica nunca antes verificada. A rela&#231;&#227;o entre os sexos foi ent&#227;o objecto desse tal agir onde as mulheres tiveram finalmente um lugar. Talvez pela primeira vez na hist&#243;ria os homens foram obrigados a responder a um debate iniciado por elas. Abriu-se como que uma nova era nas rela&#231;&#245;es humanas e toda a ordem secular foi abalada. N&#227;o sem custos!</p>     <p>Se, por um lado, &#233; justo que prestemos homenagem a uma feminista, pensadora, fil&#243;sofa, e ensa&#237;sta muito particular, que nos prop&#245;e uma sistem&#225;tica reelabora&#231;&#227;o do pensamento, confrontando ideias feitas e recusando qualquer tipo de fechamento ideol&#243;gico que impe&#231;a a liberdade de questionar e de se questionar, por outro, &#233;<b> </b>obriga&#231;&#227;o (n&#227;o no sentido de comando a que Collin era adversa, mas no sentido de um agir, de um acto pol&#237;tico) das feministas manterem viva a mem&#243;ria de uma mulher que tanto contribuiu para uma vis&#227;o do feminismo como algo em problematiza&#231;&#227;o permanente, de acordo com as circunst&#226;ncias da rela&#231;&#227;o entre os sexos. A sua abordagem e viv&#234;ncia do feminismo incorporaram sempre um di&#225;logo plural e poliss&#233;mico.</p>     <p>Em 1999 ela escreveu que as mulheres constitu&#237;am o pivot da mudan&#231;a. Em que medida o hoje de 1999 era diferente do hoje de hoje? Que influ&#234;ncia social e pol&#237;tica poder&#227;o as mulheres ter no sistema, apesar de j&#225; a&#237; estarmos representadas (numa semi-paridade)? O que queremos ou conseguimos mudar? Como?</p>     <p>A revista <i>Faces de Eva. Estudos sobre a Mulher</i> pretende dar o seu contributo, divulgando, numa edi&#231;&#227;o semestral, um conjunto de artigos, de ideias, de personagens, permitindo configurar a tal interdepend&#234;ncia entre pensamento e ac&#231;&#227;o que exclui as verdades inquestion&#225;veis de que o feminismo tantas vezes &#233; v&#237;tima.&#160; </p>      ]]></body>
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