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<publisher-name><![CDATA[Equipa de Investigação Faces de Eva. Estudos sobre a Mulher, CICS.NOVA - Centro Interdisciplinar de Ciências Socias, Faculdade de Ciências Sociais e Humanas, Universidade NOVA de Lisboa, Portugal.]]></publisher-name>
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</front><body><![CDATA[ <p align="right"><font size="2"><b>DI&#193;LOGOS</b></font></p>     <p><font size="4"><b>As mulheres e a filosofia</b></font></p>     <p><b>Maria Lu&#237;sa Ribeiro Ferreira, Margarida Gomes Amaral</b></p> <hr/>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>Maria Lu&#237;sa Ribeiro Ferreira (MLRF) </b>&#233; Professora Catedr&#225;tica da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. Aposentada desde 2013, leccionou disciplinas de Filosofia Moderna, Did&#225;ctica da Filosofia, Filosofia da Natureza e do Ambiente, Filosofia do Espa&#231;o P&#250;blico, Filosofia de G&#233;nero, em cursos de licenciatura, mestrado e doutoramento. Tem publicado in&#250;meros artigos nestas &#225;reas, em revistas de especialidade e em colect&#226;neas de textos. Coordenou projectos de investiga&#231;&#227;o sobre &#8220;Filosofia no Feminino&#8221;, &#8220;Espinosa&#8221; e &#8220;Did&#225;ctica da Filosofia&#8221;, no &#226;mbito dos quais publicou trinta livros, quer como autora quer como coordenadora. Pertence &#224; equipa de redac&#231;&#227;o das revistas <i>Conatus</i>, da Universidade Estadual do Cear&#225;, e <i>Communio</i>, da Universidade Cat&#243;lica Portuguesa. &#201; coordenadora de Filosofia da Sociedade Cient&#237;fica da Universidade Cat&#243;lica Portuguesa. &#201; membro investigador do Centro de Filosofia da Universidade de Lisboa e da Sociedade Portuguesa de Filosofia, tendo ocupado cargos directivos nestas institui&#231;&#245;es<i>. </i>&#201; tamb&#233;m membro do GT Benedictus de Spinoza, da Universidade Estadual do Cear&#225;, Brasil; do N&#250;cleo de Estudo Psicossocial da Dial&#233;tica Exclus&#227;o/Inclus&#227;o, da USP, S&#227;o Paulo; do Semin&#225;rio Spinoza, Espanha; da Association des Amis de Spinoza, Fran&#231;a; da Spinoza Huis, Holanda; da Accion Integrada Hispa&#241;a-Portugal, Leibniz<i>.</i> Presentemente integra os corpos directivos da Sociedade de &#201;tica Ambiental e da Sociedade Cient&#237;fica da Universidade Cat&#243;lica Portuguesa.</p>     <p><b>Margarida Gomes Amaral (MGA) </b>obteve o grau de Doutora em Filosofia, na especialidade de Filosofia Contempor&#226;nea, com uma tese sobre Hannah Arendt (Universidade de Lisboa, 2011). Desde esse ano, &#233; Professora Auxiliar Convidada na Faculdade de Ci&#234;ncias Humanas da Universidade Cat&#243;lica Portuguesa, onde j&#225; leccionou disciplinas de Licenciatura em Filosofia e uma disciplina de Mestrado em Filosofia. &#201; membro investigador do <i>Centro de Filosofia</i> da Universidade de Lisboa desde 2007, na linha de investiga&#231;&#227;o &#8220;Filosofia da Ac&#231;&#227;o e dos Valores&#8221;, que se inclui no grupo intitulado &#8220;&#201;tica, Filosofia Pol&#237;tica e Filosofia Ambiental&#8221;. Publicou dois livros e diversos artigos cujos assuntos se incluem nestas tr&#234;s &#225;reas. &#201; tamb&#233;m membro da Sociedade Cient&#237;fica da Universidade Cat&#243;lica Portuguesa desde 2015. Lecciona a disciplina de Filosofia no ensino secund&#225;rio desde 1998.</p>     <p><i>As mulheres na filosofia &#8211; h&#225; mulheres fil&#243;sofas?</i></p>     <p><b>MLRF </b>&#8211; Parece uma quest&#227;o absurda, mas o facto &#233; que continua a colocar-se, revelando a mentalidade preconceituosa de quem a formula. Para lhe responder farei um pequeno invent&#225;rio de algumas fil&#243;sofas, pois, como diz o ditado, &#8220;contra factos n&#227;o h&#225; argumentos&#8221;. Na verdade, no que se refere &#224; contemporaneidade, com uma mera pesquisa no Google deparamos com uma pl&#234;iade de nomes femininos marcantes no actual panorama filos&#243;fico. E quanto ao passado basta estarmos atentos &#224; hist&#243;ria da filosofia para percebermos que sempre houve mulheres fil&#243;sofas, com mais ou menos protagonismo consoante o meio e a &#233;poca em que viveram. Desde h&#225; alguns anos que investigadoras e investigadores se t&#234;m preocupado em recuperar e publicitar o pensamento de fil&#243;sofas da Antiguidade, como por exemplo, Asp&#225;sia, Eud&#243;xia, Hip&#225;tia, ou Diotima, cujas teses foram meramente referidas em doxografias. De entre as fil&#243;sofas medievais, de acesso mais f&#225;cil pois deixaram obra escrita, destacam-se Hildegaard de Bingen, Helo&#237;sa, Cristina de Pisano. Na modernidade relevamos a Princesa Elisabeth da Bo&#233;mia, Anne Conway, Lady Masham, Mary Astel e a pioneira do feminismo, Mary Wollstonecraft. Todas elas conseguiram ultrapassar os preconceitos mis&#243;ginos da sua &#233;poca, muitos deles constru&#237;dos com a participa&#231;&#227;o expl&#237;cita dos fil&#243;sofos.</p>     <p>Mas, se &#233; preconceituoso levantar esta quest&#227;o quanto &#224;s fil&#243;sofas do passado, faz&#234;-lo relativamente ao presente apenas revela ignor&#226;ncia. E a dificuldade que temos em responder &#224; quest&#227;o colocada deve-se ao &#8220;embara&#231;o da escolha&#8221;. Limitar-me-ei a citar alguns nomes de fil&#243;sofas que tenho investigado, inserindo-as nas correntes de que s&#227;o representativas. Tomando como refer&#234;ncia o grupo de fil&#243;sofas contempor&#226;neas n&#227;o feministas, dele destaco Hannah Arendt e Simone Weil pela originalidade das suas teses sobre &#233;tica e sobre pol&#237;tica; como fil&#243;sofas empenhadamente feministas, lembro Simone de Beauvoir e Mary Daly, dois marcos importantes respectivamente nos feminismos da igualdade e da diferen&#231;a. No campo da &#233;tica, relevo os contributos de Martha Nussbaum e a sua &#233;tica das capacidades, bem como de Adela Cortina na defesa de uma raz&#227;o cordial; no ecofeminismo temos grandes figuras como Val Plumwood e Vandana Shiva; enquanto representativas da p&#243;s-modernidade, Judith Butler e Elisabeth Spelman. &#160;Igualmente lembramos o papel de Nancy Tuana e de Genevi&#232;ve Lloyd na perspectiva&#231;&#227;o de uma hist&#243;ria da filosofia, analisando a responsabilidade dos fil&#243;sofos no silenciamento da presen&#231;a feminina e real&#231;ando esta ao longo dos tempos. </p>     <p><b>MGA</b> &#8211; Esta quest&#227;o s&#243; pode ter uma resposta: &#233; claro que h&#225; mulheres fil&#243;sofas! Na minha forma&#231;&#227;o universit&#225;ria tive o prazer de ser aluna de mulheres que considero (e n&#227;o apenas eu, mas a comunidade filos&#243;fica) fil&#243;sofas. Uma delas &#233; a minha interlocutora nestes di&#225;logos&#8230; Al&#233;m disso, h&#225; pouco tempo foi publicada uma obra, na qual participei com um texto sobre Hannah Arendt, intitulada Marginalidade e Alternativa. Vinte e seis fil&#243;sofas para o s&#233;culo XXI<a href="#1"><sup>1</sup></a><a name="top1"></a>. Esta obra prova bem que h&#225; mulheres fil&#243;sofas, isto &#233;, mulheres capazes de um pensamento especulativo que respeita o rigor conceptual da filosofia. &#201;, ali&#225;s, absurdo dar a esta quest&#227;o uma resposta negativa. Isso corresponderia a afirmar que a filosofia &#233; exclusiva dos homens, ou seja, que s&#243; o g&#233;nero masculino &#233; dotado da capacidade intelectual de pensar filosoficamente e, assim, de produzir textos filos&#243;ficos. A admiss&#227;o desta hip&#243;tese n&#227;o faz qualquer sentido, sendo portanto desprovida de razoabilidade. Mas, j&#225; que me referi a Hannah Arendt, n&#227;o posso ocultar uma afirma&#231;&#227;o sua numa entrevista a G&#252;nter Gaus, quanto este afirma que a considera uma fil&#243;sofa e, al&#233;m disso, sublinha o car&#225;cter peculiar de uma mulher estar inclu&#237;da no &#8220;c&#237;rculo dos fil&#243;sofos&#8221;. A este respeito, Hannah Arendt responde: &#8220;Receio ter de protestar. N&#227;o perten&#231;o ao c&#237;rculo dos fil&#243;sofos. A minha profiss&#227;o, se assim se pode dizer, &#233; a teoria pol&#237;tica. Nem me sinto uma fil&#243;sofa, nem penso ter sido admitida no c&#237;rculo dos fil&#243;sofos, como t&#227;o amavelmente sup&#245;e. Mas para falar de outra quest&#227;o presente na sua apresenta&#231;&#227;o: diz que a filosofia &#233; geralmente pensada como uma ocupa&#231;&#227;o masculina. N&#227;o tem de continuar a s&#234;-lo! &#201; perfeitamente poss&#237;vel que um dia uma mulher possa ser fil&#243;sofa&#8221;<a href="#2"><sup>2</sup></a><a name="top2"></a>. Esta resposta &#233; amb&#237;gua. Por um lado, Hannah Arendt declara que a filosofia pode ser uma actividade desenvolvida por homens e por mulheres, mas, por outro lado, sobretudo na &#250;ltima afirma&#231;&#227;o, d&#225; a entender que ainda n&#227;o h&#225; mulheres fil&#243;sofas. Creio, contudo, que podemos interpretar de outra forma esta passagem. A admiss&#227;o arendtiana de que a filosofia n&#227;o &#233; uma ocupa&#231;&#227;o exclusiva dos homens permite-nos afirmar que, segundo a autora, sendo as mulheres capazes de pensar filosoficamente, a comunidade ainda n&#227;o lhes reconheceu o estatuto de fil&#243;sofas. De qualquer forma, penso que isso mudou desde 1964, a data desta entrevista. Esta mudan&#231;a agrada-me muito, porque ela significa que vamos ultrapassando o obst&#225;culo do g&#233;nero, que &#233; apenas um dos muitos obst&#225;culos que temos de enfrentar, naquilo que verdadeiramente me interessa enquanto leitora de filosofia: n&#227;o se um texto &#233; escrito por um homem ou por uma mulher, mas se est&#225; bem escrito e se ajuda a iluminar os meus pr&#243;prios caminhos intelectuais.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><i>A filosofia no feminino &#8211; haver&#225; um pensamento filos&#243;fico especificamente feminino?</i></p>     <p><b>MGA</b> &#8211; &#201; um lugar-comum considerar que h&#225; caracter&#237;sticas femininas, reveladas na escrita e em muitos outros par&#226;metros, que nos distinguem dos homens. Identificamos com tal rapidez a capacidade para a sensibilidade com as mulheres que quando alguns homens se revelam seres sens&#237;veis s&#227;o considerados efeminados ou, no m&#237;nimo, capazes de surpreendentemente revelarem caracter&#237;sticas femininas. Isto &#233; v&#225;lido para os escritores, como para a vida quotidiana. Sou tamb&#233;m v&#237;tima deste lugar-comum, mas devo dizer que n&#227;o aprecio s&#234;-lo, j&#225; que ele resulta de um preconceito assente em ideias que me parecem ultrapassadas acerca da diferen&#231;a entre homens e mulheres. Ao longo dos meus estudos filos&#243;ficos, tive a oportunidade de aprofundar os meus conhecimentos sobre uma autora, Hannah Arendt, que nem sempre se revela capaz da sensibilidade extrema atribu&#237;da &#224;s mulheres. Por seu turno, outro autor que aprecio muito, George Steiner, &#233; capaz de, para mim, atingir este registo. Isso quer dizer que, por vezes, Arendt pensou e escreveu como se fosse um homem e que, do mesmo modo, Steiner pensou e escreveu como se fosse uma mulher? N&#227;o creio que esta divis&#227;o seja justa e tamb&#233;m n&#227;o tenho a certeza de que se possa identificar um pensamento filos&#243;fico masculino e um pensamento filos&#243;fico feminino, distintos um do outro. Isso n&#227;o significa que as mulheres n&#227;o desempenhem um papel fundamental no pensamento filos&#243;fico. Pelo facto de, por tantas vezes ao longo da Hist&#243;ria, as mulheres terem sido relegadas para segundo plano, as suas reflex&#245;es, de certeza existentes, n&#227;o conheceram na maior parte das vezes a luz p&#250;blica. O fim desta condi&#231;&#227;o a que as mulheres foram condenadas &#8211; a qual, por assim dizer, as obrigou a atrasarem a sua exposi&#231;&#227;o intelectual &#8211; permite-lhes trazer ao dom&#237;nio p&#250;blico a riqueza do seu pensamento. O que me parece pouco interessante, e at&#233; contraproducente relativamente &#224; pr&#243;pria valoriza&#231;&#227;o da mulher, &#233; insistir na ideia de um pensamento filos&#243;fico feminino ancorado no pressuposto de uma diferencia&#231;&#227;o de superioridade das mulheres em rela&#231;&#227;o aos homens. Creio que toda a humanidade teria a ganhar se se ultrapassasse a quest&#227;o da superioridade intelectual entre homens e mulheres, se esta quest&#227;o deixasse de ser sequer um assunto, e nos concentr&#225;ssemos na compreens&#227;o de um mundo j&#225; por si suficientemente, e cada vez mais, complexo.</p>     <p><b>MLRF </b>&#8211; A exist&#234;ncia de um pensamento especificamente feminino &#233; uma quest&#227;o que divide as pr&#243;prias fil&#243;sofas feministas. Exemplifico com Mary Warnock e Genevi&#232;ve Lloyd. A primeira pretende reabilitar a presen&#231;a das mulheres na filosofia, dando-lhes visibilidade e import&#226;ncia, mas considera irrelevantes as diferen&#231;as sexuais, combatendo mesmo uma &#8220;gendered philosophy&#8221;<a href="#3"><sup>3</sup></a><a name="top3"></a>; a segunda debru&#231;a-se sobre os estere&#243;tipos masculinos que t&#234;m marcado a filosofia ocidental, citando como exemplo o ideal de linearidade, de clareza e de distin&#231;&#227;o bem como as dicotomiza&#231;&#245;es e oposi&#231;&#245;es, nomeadamente entre o sujeito e a Natureza<a href="#4"><sup>4</sup></a><a name="top4"></a>.</p>     <p>Devo dizer que neste campo a minha posi&#231;&#227;o n&#227;o &#233; t&#227;o n&#237;tida quanto a da Margarida. Estou de acordo quando critica os feminismos agressivos que se empenham em defender a superioridade das mulheres relativamente aos seus parceiros masculinos. Trata-se de uma luta ingl&#243;ria que em nada interessa (e pode mesmo prejudicar) as justas pretens&#245;es das mulheres a serem consideradas seres humanos de pleno direito. No entanto, interrogo-me quanto ao modo diferente como homens e mulheres fazem filosofia. &#201; verdade que, se me apresentarem textos filos&#243;ficos an&#243;nimos, terei alguma dificuldade em identificar o sexo dos seus autores ou autoras. Da&#237; algumas reservas que levanto a movimentos como os da &#8220;escrita feminina&#8221; e &#224;s considera&#231;&#245;es que tecem sobre a diferen&#231;a de ritmo, de estrutura e de tom nos textos de mulheres fil&#243;sofas<a href="#5"><sup>5</sup></a><a name="top5"></a>. Mas reconhe&#231;o que h&#225; diferen&#231;as na elei&#231;&#227;o de temas, como &#233; o caso da identidade e da diferen&#231;a, das &#233;ticas do cuidado, da defesa (filosoficamente justificada) dos direitos das mulheres, da especificidade de uma cultura feminina, do questionamento do conceito de g&#233;nero, da rela&#231;&#227;o entre mulheres e Natureza. De facto eles s&#227;o uma constante que encontramos recorrentemente nos escritos de fil&#243;sofas contempor&#226;neas.</p>     <p><i>Os fil&#243;sofos e o feminino &#8211; como lidar com a vis&#227;o negativa de alguns autores sobre as mulheres?</i></p>     <p><b>MGA</b> &#8211; S&#227;o diversas as refer&#234;ncias liter&#225;rias e filos&#243;ficas que revelam uma vis&#227;o negativa das mulheres. Para come&#231;ar, basta pensar na primeira mulher grega, Pandora, e na primeira mulher da tradi&#231;&#227;o crist&#227;, Eva. As duas foram incapazes de conter a sua curiosidade e, por isso, geraram todos os males do mundo. Ao longo dos tempos, as mulheres foram vistas como dotadas de uma natureza col&#233;rica e perigosa, seres fr&#225;geis, pouco confi&#225;veis, interesseiras, meros elementos decorativos, incapazes de se deixarem compreender ou de, elas pr&#243;prias, compreenderem fosse o que fosse&#8230; Uma mulher que estude filosofia e que leve a s&#233;rio tais &#8220;ofensas&#8221;, ao ponto de deixar de parte os autores que as pronunciaram, v&#234;-se circunscrita a um universo muito reduzido. Sobre este aspecto posso contar um pequeno epis&#243;dio. Um dia fiz uma comunica&#231;&#227;o sobre Rousseau em que pretendi defend&#234;-lo da acusa&#231;&#227;o de &#8220;irrespons&#225;vel&#8221; que Hannah Arendt lhe dirige. Assumi, uma vez mais, a minha prefer&#234;ncia por autores &#8220;malditos&#8221;, entre os quais est&#227;o Descartes e Rousseau, os dois talvez por coincid&#234;ncia de l&#237;ngua francesa. No final, fui interrogada sobre como podia defender um autor que disse t&#227;o mal das mulheres. A minha resposta imediata foi que admitia defender autores que diziam mal das mulheres desde que estivessem mortos&#8230; Esta resposta, que causou alguns risos na sala, n&#227;o era totalmente uma brincadeira. Confesso que seria para mim imposs&#237;vel admirar um fil&#243;sofo actual que discriminasse um dos g&#233;neros. No nosso tempo, isso seria simplesmente inaceit&#225;vel. Agora, quanto ao passado, como podemos deixar de parte fil&#243;sofos que se pronunciaram negativamente sobre as mulheres? Esse, para mim, n&#227;o pode ser um crit&#233;rio, at&#233; porque, se o fosse, ficar&#237;amos muito restringidos&#8230; Algo semelhante pode ser dito de autores que assumiram posi&#231;&#245;es pol&#237;ticas terr&#237;veis: Heidegger, C&#233;line, Ezra Pound, para citar apenas alguns exemplos. Neste caso, devo admitir que a resist&#234;ncia a pensar com eles &#233; bem maior do que com aqueles que foram pouco simp&#225;ticos com as mulheres. De uma forma muito triste, a hist&#243;ria recente ensinou-nos que nem sempre os homens cultos s&#227;o homens bons. George Steiner dedica grande parte da sua obra &#224; tentativa de compreens&#227;o deste paradoxo: como pode a cultura n&#227;o nos salvar da barb&#225;rie? Para usar as suas belas palavras: &#8220;Como se pode tocar Schubert &#224; noite, ler Rilke de manh&#227; e torturar ao meio-dia?&quot; <a href="#6"><sup>6</sup></a><a name="top6"></a> O autor confessa a sua incapacidade para dar uma resposta definitiva a esta quest&#227;o. Referindo-se concretamente a Heidegger, Steiner recorre &#224;s palavras que Gadamer lhe ter&#225; dito quando, na cerim&#243;nia comemorativa do centen&#225;rio do nascimento do seu mestre, estava j&#225; cansado de ver esmiu&#231;ada a proximidade deste ao nazismo: &#8220;J&#225; chega, &#233; t&#227;o simples! Porqu&#234; todas estas explica&#231;&#245;es torturadas, hist&#243;ricas: Martin Heidegger era o maior dos pensadores e o mais pequeno dos homens&#8221;<a href="#7"><sup>7</sup></a><a name="top7"></a>. A tentativa que fa&#231;o diante daqueles &#8220;pequenos homens&#8221; &#8211; que o s&#227;o porque manifestaram opini&#245;es negativas sobre as mulheres ou porque, de forma ainda mais infeliz, apoiaram sistemas pol&#237;ticos deplor&#225;veis &#8211; &#233; concentrar-me nos &#8220;grandes pensadores&#8221;. Confesso que nem sempre &#233; f&#225;cil, mas, ainda assim, procuro sempre encarar o g&#233;nio para l&#225; dos seus comportamentos.</p>     <p><b>MLRF &#8211; </b>&#201; habitual pensarmos nos fil&#243;sofos como indiv&#237;duos que lutaram contra preconceitos, que anteciparam teorias libertadoras e que prepararam grandes revolu&#231;&#245;es intelectuais. No entanto &#233; doloroso constatar que grandes fil&#243;sofos foram mis&#243;ginos, ignorando as mulheres ou tratando-as como seres de segunda ordem, impedindo a sua entrada em lugares onde se filosofava (academias, universidades, etc.) e ignorando o tema &#8220;mulher&#8221; enquanto digno de ser abordado filosoficamente. Se fizermos uma incurs&#227;o pela hist&#243;ria da filosofia &#224; procura de textos que os pensadores dedicaram &#224;s mulheres, verificamos que s&#227;o raros e que, quando existem, revelam geralmente uma vis&#227;o negativa. Exemplifico com alguns cl&#225;ssicos: Plat&#227;o no <i>Timeu</i> (41d-42d) amea&#231;a os homens que se portaram mal nesta vida com o castigo de reencarnarem num corpo de mulher; Arist&#243;teles sustenta que a f&#234;mea &#233; um macho mutilado (<i>Gera&#231;&#227;o dos Animais</i>, 737a 24-25); Espinosa recusa a participa&#231;&#227;o das mulheres num governo democr&#225;tico e constata a sua &#8220;imbecilitas&#8221; (<i>Tratado Pol&#237;tico</i>, XI, &#167;4); Kant considera dif&#237;cil a passagem das mulheres &#224; maioridade intelectual (<i>Resposta &#224; pergunta: que &#233; o Iluminismo?</i>); Nietzsche afirma que at&#233; na cozinha a mulher &#233; est&#250;pida (<i>Para Al&#233;m do Bem e do Mal</i>, &#167; 23). O espa&#231;o que nos &#233; concedido neste di&#225;logo impede que fa&#231;amos um levantamento do modo como os fil&#243;sofos pensaram as mulheres. Mas, ao faz&#234;-lo, conclu&#237;mos que os fil&#243;sofos nem sempre anteciparam o seu tempo com novas teorias e que muitas vezes foram filhos da sua &#233;poca, aceitando sem discuss&#227;o preconceitos generalizados no homem comum<a href="#8"><sup>8</sup></a><a name="top8"></a>. De tal modo generalizados que muitas mulheres os interiorizaram. &#201; verdade que, como diz a Margarida, hoje o problema da mulher e da condi&#231;&#227;o feminina come&#231;a a ganhar terreno no dom&#237;nio da filosofia, embora ainda possamos considerar actual a den&#250;ncia de Nancy Tuana: &#8220;Uma mulher ao ler filosofia logo se apercebe de que nos textos dos fil&#243;sofos ela &#233; apresentada como &#8216;o outro&#8217; mais do que como &#8216;sujeito&#8217; <a href="#9"><sup>9</sup></a><a name="top9"></a>. Penso que esta situa&#231;&#227;o &#233; um desafio para as estudiosas de filosofia, levantando-lhes novos problemas e propondo-lhes outras chaves de leitura. Por um lado motivando-as para uma abordagem diferente dos fil&#243;sofos, questionando se as suas perspectivas mis&#243;ginas sobre as mulheres s&#227;o um pormenor sem import&#226;ncia ou se, pelo contr&#225;rio, t&#234;m um peso relevante nos sistemas que constru&#237;ram. Por outro, avan&#231;ando com novas tem&#225;ticas e novos conceitos, justificativos de um protagonismo feminino. Deste modo far-se-ia justi&#231;a ao papel que as mulheres desempenham no panorama filos&#243;fico, tanto no passado como no presente.</p>     <!-- ref --><p><a href="#top1"><sup>1</sup></a><a name="1"></a> Maria Lu&#237;sa Ribeiro FERREIRA e Fernanda HENRIQUES (coord.) <i>Marginalidade e Alternativa. Vinte e seis fil&#243;sofas para o s&#233;culo XXI</i>, Lisboa, Colibri, 2016.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1836820&pid=S0874-6885201600020001000001&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p><a href="#top2"><sup>2</sup></a><a name="2"></a> Hannah ARENDT, &#8220;What remains? The language remains&#8221;, <i>in Essays in Understanding</i>, New York, Schocken Books, 2005, pp. 1-2.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1836822&pid=S0874-6885201600020001000002&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p><a href="#top3"><sup>3</sup></a><a name="3"></a> Mary WARNOCK, <i>Women Philosophers</i>, London, Everyman, 1996.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1836824&pid=S0874-6885201600020001000003&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p><a href="#top4"><sup>4</sup></a><a name="4"></a> Genevi&#232;ve LLOYD, <i>The Man of Reason. &#8216;Male&#8217; &amp; &#8216;Female&#8217; in Western Philosophy</i>, London, Routledge, 1986.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1836826&pid=S0874-6885201600020001000004&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <p><a href="#top5"><sup>5</sup></a><a name="5"></a> Como defensoras do movimento &#8220;&#233;criture f&#233;minine&#8221;, destacam-se Julia KRISTEVA, Luce IRIGARAY, Hel&#232;ne CIXOUS.</p>     <!-- ref --><p><a href="#top6"><sup>6</sup></a><a name="6"></a> George STEINER, Ramin JAHANBEGLOO, <i>Entretiens</i>, Paris, &#201;ditions du F&#233;lin, 1992, p. 62.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1836829&pid=S0874-6885201600020001000005&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p><a href="#top7"><sup>7</sup></a><a name="7"></a> George STEINER, Antoine SPIRE, <i>Barbarie de l&#8217;ignorance</i>, Saint-&#201;tienne, &#201;ditions de l&#8217;Aube, 2000, p. 511.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1836831&pid=S0874-6885201600020001000006&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<!-- ref --><p><a href="#top8"><sup>8</sup></a><a name="8"></a> Vj. Maria Lu&#237;sa Ribeiro FERREIRA (org.), <i>O que os fil&#243;sofos pensam sobre as mulheres</i>, Lisboa, Centro de Filosofia, 1998.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1836833&pid=S0874-6885201600020001000007&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p><a href="#top9"><sup>9</sup></a><a name="9"></a> Nancy TUANA, <i>Woman and the History of Philosophy</i>, New York, Parangon, 1992, p. 4.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1836835&pid=S0874-6885201600020001000008&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --> </p>      ]]></body><back>
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