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</front><body><![CDATA[ <p align="right"><font size="2"><b>ENTREVISTAS</b></font></p>     <p><font size="4"><b>Gabriela Moita - Uma mulher que vive todo o &#8220;alfabeto&#8221;</b></font></p>     <p><b>Maria do C&#233;u Borr&#234;cho*, Rita Mira*</b></p>     <p> *Universidade Nova de Lisboa, Centro Interdisciplinar de Ci&#234;ncias Sociais, <i>Faces de Eva &#8211; Estudos sobre a Mulher</i>, </p>     <p><a href="mailto:mcborrecho@gmail.com">mcborrecho@gmail.com</a> </p>     <p><a href="mailto:mira.rita@gmail.com">mira.rita@gmail.com</a> </p> <hr/>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="center"><a name="q1"></a><img src="/img/revistas/eva/n36/n36a11f1.jpg"/></p>     
<p>&nbsp;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p> Como se vislumbra na fotografia, o horizonte e o seu avistamento foram o ponto de partida para a nossa entrevista &#224; Doutora Gabriela Moita, psic&#243;loga cl&#237;nica e especialista em Psicologia da Sexualidade. Dos primeiros doze anos vividos em Angola, recordou-nos a extens&#227;o do espa&#231;o como uma forte refer&#234;ncia, ligada &#224; abertura de pensamento que exige o pleno respeito pelas pessoas e pelos seus Direitos Humanos. </p>     <p> Em 1987, licenciou-se em Psicologia pela Faculdade de Psicologia e Ci&#234;ncias da Educa&#231;&#227;o da Universidade do Porto, a que se seguiu uma p&#243;s-gradua&#231;&#227;o em Psicoterapia da Crian&#231;a e do Adolescente e o doutoramento em Ci&#234;ncias Biom&#233;dicas, em 2001, no Instituto de Ci&#234;ncias Biom&#233;dicas Abel Salazar, com a disserta&#231;&#227;o <i>Discursos sobre a homossexualidade no contexto cl&#237;nico: a homossexualidade de dois lados do espelho</i>. Dirigiu a Sociedade Portuguesa de Sexologia Cl&#237;nica e a Sociedade Portuguesa de Psicodrama, bem como a Associa&#231;&#227;o para o Planeamento da Fam&#237;lia. Em 2013, foi agraciada com o pr&#233;mio <i>Arco-&#205;ris</i> pelo trabalho na luta contra a homofobia. </p>     <p> Recebe-nos de bra&#231;os abertos, e ao despedir-se com um &#8220;at&#233; j&#225;&#8221;, mant&#233;m acesa a chama do di&#225;logo iniciado, constitu&#237;do por palavras que s&#243; t&#234;m, no seu &#226;mago, um significado: liberdade! </p>     <p><i>Na sua forma&#231;&#227;o enquanto pessoa, quais foram ou s&#227;o as suas grandes refer&#234;ncias?</i></p>     <p>Esta &#233; uma pergunta de vida&#8230;</p>     <p>Eu nasci em Portugal, mas com um ano de idade fui para Angola, onde os meus pais viviam. O meu irm&#227;o e as minhas irm&#227;s nasceram em Angola. Eu fui a &#250;nica a nascer em Portugal, porque a minha m&#227;e era de c&#225; e queria ter uma filha natural da Metr&#243;pole, como se dizia (<i>risos</i>). Considero a grande dimens&#227;o de espa&#231;o existente em &#193;frica, onde vivi os meus primeiros 12 anos de vida, um dos meus factores fundadores. A primeira imagem que me surge, com a quest&#227;o que me colocam, &#233; a daquele espa&#231;o sem fim, sem limite. A extens&#227;o &#233; t&#227;o grande que o desconhecido &#233; a regra e n&#227;o o conhecido. Desde cedo, aprendi a viver com ele, e a sua aceita&#231;&#227;o faz parte da vida. O desconhecido significa descoberta e n&#227;o o temo!</p>     <p>&#201; muito grande na minha vida a necessidade que, ainda hoje e cada vez mais, sinto em ver o infinito, como a de poder viver numa casa de onde se aviste o horizonte sem fim. Al&#233;m disso, sempre vivi muito perto do mar, que tamb&#233;m tem essa lonjura. Esta minha rela&#231;&#227;o com o espa&#231;o est&#225; ligada, igualmente, &#224; minha forma de pensar e &#224;s rela&#231;&#245;es com as pessoas.</p>     <p>A segunda imagem que me invade s&#227;o os discos do Zeca Afonso e do S&#233;rgio Godinho, numa &#233;poca, a do Estado Novo, em que ter estes discos e ouvir estas m&#250;sicas era um verdadeiro tesouro. Se bem que em crian&#231;a tivesse a no&#231;&#227;o de que eram discos especiais e que aquelas composi&#231;&#245;es tinham um qualquer significado, eu ainda n&#227;o sabia qual. Foram tantas as horas de escuta que ainda hoje as conhe&#231;o, todavia recordo- -me mais das letras do que das m&#250;sicas. O significado da luta pela liberdade, pela justi&#231;a e pelos direitos das pessoas perpetua-se at&#233; hoje na minha forma de ver o mundo. </p>     <p>O sentido de justi&#231;a esteve presente desde muito cedo. Em Angola, a injusti&#231;a maior era a discrimina&#231;&#227;o em fun&#231;&#227;o da cor da pele. S&#243; quando vim viver para a Europa &#233; que percebi a diferen&#231;a entre as classes sociais. Em &#193;frica, no meu olhar de crian&#231;a, havia pessoas de uma cor e pessoas de outra cor. A pobreza, pensava eu com o olhar que era dado &#224; crian&#231;a, estava na cor da pele e n&#227;o nas classes sociais. Uma pessoa branca n&#227;o era pobre. O facto de ser branca dava-lhe sempre poder social, a aus&#234;ncia dele &#233; que era a pobreza. Na altura, eu n&#227;o compreendia nem a discrimina&#231;&#227;o, nem por que raz&#227;o os pobres eram todos negros. A percep&#231;&#227;o desta diferen&#231;a criou em mim um grande sentido de injusti&#231;a social. </p>     <p>A figura do meu pai foi tamb&#233;m muito forte. Era um homem de direita, com uma grande capacidade de p&#244;r em pr&#225;tica os seus ideais. Trabalhou sempre na &#225;rea da Sa&#250;de, primeiro como enfermeiro e depois como dentista. Tinha um enorme sentido de miss&#227;o relativamente &#224; remiss&#227;o do sofrimento, ao apoio das pessoas na doen&#231;a. Nunca se negava a ajudar ningu&#233;m que estivesse em sofrimento, a qualquer hora do dia ou da noite. Esse voluntarismo e essa solidariedade marcaram-me bastante, apesar de termos posi&#231;&#245;es pol&#237;ticas e ideol&#243;gicas muito divergentes. Por exemplo, recordo o momento em que o meu pai correu para socorrer uma pessoa que acabara de ser atropelada, salvando--a ao estancar, com a m&#227;o, at&#233; ao hospital mais pr&#243;ximo, o sangue proveniente de um corte no pesco&#231;o. Esta sua solidariedade perante a pessoa em sofrimento n&#227;o tinha limites. A ideia de que uma pessoa ou a vida s&#227;o um bem maior marcou-me profundamente.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Uma outra refer&#234;ncia, marcante para mim, foi ter vivido em diversos lugares, todos com prazer, porque me ensinaram que &#233; sempre poss&#237;vel refazer a vida e que a mudan&#231;a significa sobretudo novas descobertas e novos ganhos. N&#227;o tenho medo nem do desconhecido nem do que &#233; novo.</p>     <p>Mais tarde, j&#225; adolescente, duas professoras, a Fernanda Branco, professora de Portugu&#234;s, e a Fernanda Henriques, de Filosofia, tamb&#233;m foram muito importantes para mim. Ensinaram-me a olhar o mundo, a reflectir sobre ele e a gostar de aprender e de conhecer. </p>     <p>N&#227;o posso deixar de mencionar a pessoa que mais admiro no mundo, a minha tia Maria Orlanda, com quem aprendi a viver com alegria. Esta minha tia acolheu-nos quando regress&#225;mos de Angola, em 1975, e mais tarde, quando sa&#237; de casa dos meus pais, aos 15 anos; foi ela que me ensinou a saber viver. Viver &#233; f&#225;cil, mas saber viver exige sabedoria, e a ela devo o pouco que sei.</p>     <p>O meu irm&#227;o mais velho &#233; uma pessoa absolutamente extraordin&#225;ria e esteve sempre presente na minha vida. Ele tem uma avidez de conhecimento, al&#233;m de uma capacidade de abarcar o mundo todo e de o aceitar. Lembro-me de, quando &#233;ramos mais novos, fazermos longos ser&#245;es a conversar Agrade&#231;o-lhe muito toda a reflex&#227;o e o exerc&#237;cio de perguntar que me ensinou a fazer.</p>     <p><i>Desde quando sentiu que a Psicologia, em especial a Psicologia Cl&#237;nica, era a sua voca&#231;&#227;o?</i></p>     <p>O meu interesse pela Psicologia surgiu da necessidade que senti de perceber a constru&#231;&#227;o do sujeito humano e de desejar a possibilidade de cada pessoa encontrar uma forma de vida mais ajustada a si pr&#243;pria. Comecei a entusiasmar-me por esta &#225;rea ainda no Secund&#225;rio, pelo que foi, ent&#227;o, a minha primeira op&#231;&#227;o de entrada na Faculdade.</p>     <p>Num primeiro momento tive d&#250;vidas em seguir Medicina Dent&#225;ria ou Psicologia. A partir da 4.&#170; classe, depois da escola, costumava ajudar o meu pai no consult&#243;rio dent&#225;rio: na recep&#231;&#227;o aos clientes, na parte administrativa ou como assistente dent&#225;ria. Aprendi muito com o meu pai, foi uma aprendizagem de que gostei muito; no entanto, impressionava-me ver sangue e suturas. Aquela experi&#234;ncia &#8220;empoderou-me&#8221; bastante, fez-me sentir capaz de desempenhar uma fun&#231;&#227;o, o que tamb&#233;m enchia de orgulho o meu pai. Ele costumava dizer que eu era a melhor colaboradora que j&#225; tinha tido, e isso, claro, enchia-me de confian&#231;a. </p>     <p>Mais tarde, na adolesc&#234;ncia, comecei a sentir que o meu esfor&#231;o e dedica&#231;&#227;o n&#227;o eram valorizados nem reconhecidos. Eu tinha vontade de fazer outras coisas para al&#233;m da escola e do consult&#243;rio, como, por exemplo, estar com os meus amigos. Considerava que tinha direito ao meu tempo de lazer, mas tinha de o fazer &#224;s escondidas, pois para o meu pai a palavra &#8220;lazer&#8221; n&#227;o existia. Ele trabalhava 15 a 16 horas por dia, &#160;incluindo s&#225;bados e domingos, e n&#227;o fazia f&#233;rias. </p>     <p>A escolha da Psicologia foi tamb&#233;m uma manifesta&#231;&#227;o de oposi&#231;&#227;o ao meu pai. Sa&#237; de casa aos 15 anos, em revolta contra ele, e nunca mais voltei. Dez anos mais tarde, retom&#225;mos a rela&#231;&#227;o que se manteve, com tranquilidade, at&#233; ao fim da vida dele. Dos 15 aos 18 anos, porque era menor, vivi com a minha tia Maria Orlanda, que me aceitou em sua casa de novo, e com quem fiz o mais extraordin&#225;rio &#8220;<i>workshop</i> da vida&#8221; (<i>risos</i>). Aos 18 anos, entrei na Faculdade de Psicologia do Porto e passei a viver por minha conta, estudando e trabalhando ao mesmo tempo em v&#225;rios s&#237;tios: numa f&#225;brica, num sapateiro, nas vindimas, no teatro, como secret&#225;ria.</p>     <p><i>Como surgiu o seu interesse pelas quest&#245;es de g&#233;nero?</i></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p> Em crian&#231;a, eu tinha um ar de rapaz e, quando n&#227;o estava no consult&#243;rio do meu pai, os doentes perguntavam pelo seu &#8220;filho&#8221;, que era eu (<i>risos</i>), porque usava cabelo curto e roupas largas. Eu achava gra&#231;a a esta confus&#227;o, e entrava na brincadeira sempre que algu&#233;m me julgava um rapaz. At&#233; tinha um nome para mim nestas situa&#231;&#245;es, que era Miguel. Desempenhava, assim, todos os pap&#233;is de g&#233;nero, masculinos e femininos. Lembro-me de um dia ter ido cortar o cabelo ao barbeiro com os meus amigos e o barbeiro achar que eu era um menino. A certa altura, ele decidiu mostrar-nos revistas pornogr&#225;ficas, e os meus amigos, todos rapazes, acabaram por lhe dizer que eu era uma menina. O que deixou o barbeiro muito aflito! (<i>risos</i>) </p>     <p> Este meu ar de menino trouxe-me uma liberdade muito grande, brincava com os meninos e n&#227;o tinha quaisquer restri&#231;&#245;es de comportamento. Nunca senti que era diferente deles e que determinadas coisas n&#227;o eram pr&#243;prias de meninas; fazia tudo como eles: jogava &#224; bola, ia &#224; pesca ou &#224; ca&#231;a. Integrava-me bem em todos os grupos; quando estava com os meninos era como se fosse um deles, quando estava com as meninas, era claramente uma delas. Nunca senti que houvesse alguma coisa que n&#227;o pudesse fazer! </p>     <p> Na inf&#226;ncia, nunca vivi com meninas e meninos mas sim com pessoas. Esta &#233; uma ideia muito pol&#233;mica dentro de certos feminismos. H&#225; pessoas extraordin&#225;rias e outras n&#227;o; &#224;s vezes, estas pessoas s&#227;o meninos, outras vezes, s&#227;o meninas. Ainda hoje, &#233; assim que penso a sociedade. Mais tarde, por volta dos 16 anos, com os namoros, isso come&#231;ou a ser mais complicado porque os meus amigos gostavam de raparigas que n&#227;o se comportavam como eu. A certa altura, pensei que nunca iria ter um namorado! (<i>risos</i>) </p>     <p> Para mim sempre foi muito claro o tipo de mulher que eu queria ser: n&#227;o uma mulher que correspondesse s&#243; a metade do alfabeto, queria ser uma pessoa que pudesse fazer tudo o que existe no alfabeto. N&#227;o haveria nada que eu n&#227;o pudesse fazer por ser mulher. Era uma rota definida desde muito cedo, tanto que, caso fosse necess&#225;rio, chamar-me-ia Miguel para fazer tudo o que eu quisesse! (<i>risos</i>) </p>     <p> A minha bandeira foi sempre a de ser capaz de viver de forma independente e aut&#243;noma. N&#227;o o fiz apenas para responder &#224; necessidade que Virginia Woolf t&#227;o sabiamente (dada a &#233;poca) sublinhava, a de ter um quarto s&#243; para mim, mas porque n&#227;o sentia justo as meninas n&#227;o poderem fazer o que faziam os meninos, e n&#227;o percebia muito bem as meninas e os meninos que n&#227;o se sentiam capazes de fazer tudo o que gostassem (estou a dar o meu olhar de crian&#231;a...). Nunca aceitei que as mulheres n&#227;o pudessem ter autonomia, nem que houvesse uma rela&#231;&#227;o que as obrigasse a viver uma situa&#231;&#227;o de subservi&#234;ncia. </p>     <p> No geral, as mulheres s&#227;o ainda educadas para serem dependentes e m&#227;es. A organiza&#231;&#227;o social continua fortemente constru&#237;da neste sentido, existindo diversas &#8220;armadilhas&#8221; sociais que impedem a sua autonomia. Uma delas &#233; a forma como se percepciona a maternidade, associando-a ao chamado &#8220;instinto maternal&#8221; e remetendo as mulheres para o espa&#231;o privado. As crian&#231;as precisam de cuidadores, de pessoas que gostem delas, n&#227;o necessariamente os pais ou em particular a m&#227;e. </p>     <p> Uma batalha dos primeiros feminismos foi o div&#243;rcio, que surgiu associado &#224; liberta&#231;&#227;o da mulher. No entanto, esta luta n&#227;o destruiu a manuten&#231;&#227;o do casamento enquanto institui&#231;&#227;o de regula&#231;&#227;o social. Essa conquista fant&#225;stica que foi o div&#243;rcio (n&#227;o o nego), n&#227;o deixa, todavia, de ser uma forma de manuten&#231;&#227;o da institui&#231;&#227;o casamento, n&#227;o o anulando, mantendo o regime jur&#237;dico como regulador das rela&#231;&#245;es de conjugalidade. </p>     <p> <i>Em 1949, no livro </i>O Segundo Sexo<i>, Simone Beauvoir referia que &#8220;uma das maldi&#231;&#245;es que pesa sobre a mulher est&#225; em que, na inf&#226;ncia, ela &#233; abandonada &#224;s m&#227;os das mulheres&#8221;&#8230; </i> </p>     <p> As mulheres reproduzem o sistema social hegem&#243;nico, tendo sido educadas para isso. N&#227;o podemos condenar essas mulheres, mas temos de reflectir sobre a realidade social. No momento em que os rapazes e as raparigas forem educados de outra maneira, vamos ter uma profunda transforma&#231;&#227;o social. </p>     <p> A &#225;rea do privado &#233; uma das &#225;reas mais dif&#237;ceis de mudar porque est&#225; ligada &#224;s emo&#231;&#245;es. A mitifica&#231;&#227;o da maternidade tamb&#233;m n&#227;o traz nenhum benef&#237;cio para as mulheres, perpetua antes, com mais veem&#234;ncia, o seu lugar social. </p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p> <i>E, como surgiu o interesse pela Sexualidade?</i> </p>     <p> Tem a ver sobretudo com o meu percurso profissional. Colaborei muitos anos com a Associa&#231;&#227;o para o Planeamento da Fam&#237;lia (APF), onde, muito cedo, assumi o cargo de Coordenadora Regional da Delega&#231;&#227;o do Porto. Esta associa&#231;&#227;o &#233; uma organiza&#231;&#227;o n&#227;o-governamental centrada nas quest&#245;es do planeamento familiar, da sexualidade e dos direitos sexuais e reprodutivos. Trabalhei directamente no terreno, nomeadamente na &#225;rea da educa&#231;&#227;o sexual e no apoio a adolescentes, no centro de atendimento para jovens &#8211; o primeiro em Portugal &#8211; criado na Delega&#231;&#227;o Regional do Porto da APF. Devo muito a esta Associa&#231;&#227;o; para mim, foi um verdadeiro &#8220;ninho&#8221; de desenvolvimento profissional. O doutoramento nesta &#225;rea da Sexualidade &#8211; sobre os discursos em rela&#231;&#227;o &#224; homossexualidade &#8211; foi uma consequ&#234;ncia &#243;bvia do percurso. Tem&#225;ticas que abordo na minha pr&#225;tica cl&#237;nica e que, junto com outras, tiveram eco na doc&#234;ncia na Escola Superior de Educa&#231;&#227;o e no Instituto Superior de Servi&#231;o Social do Porto. </p>     <p> <i>Como surgiu o Psicodrama na sua pr&#225;tica profissional?</i> </p>     <p> O conhecimento do Psicodrama come&#231;ou curiosamente no Teatro e n&#227;o na Faculdade, atrav&#233;s do meu encenador, que me deu a conhecer Jacob Levy Moreno, o fundador do Psicodrama. Fiz teatro durante alguns anos &#8211; no Teatro Universit&#225;rio do Porto, no Teatro Experimental do Porto e, mais tarde, como co-fundadora de <i>Os Comediantes</i>. Esta &#233; outra &#225;rea constituinte para mim, pois considero muito libertador o trabalho de prepara&#231;&#227;o de actor. Mais tarde, tive de escolher entre a plateia e o palco, e optei pela plateia! (<i>risos</i>)&#160; </p>     <p> Os anos em que trabalhei no teatro foram uma d&#225;diva que agrade&#231;o. A aprendizagem desenvolvida atrav&#233;s do teatro foi-me muito &#250;til para a &#225;rea da Psicologia, sobretudo para as din&#226;micas de grupo. No contexto da Psicologia Cl&#237;nica, trabalho tamb&#233;m em Psicoterapia de grupo atrav&#233;s do Psicodrama, que creio ser um contexto mais rico do que o individual. &#160; </p>     <p> Ap&#243;s a licenciatura, fiz um curso de p&#243;s-gradua&#231;&#227;o &#8211; Psicoterapia da crian&#231;a e do adolescente &#8211;, onde o psicodrama foi abordado pelo Dr. Jos&#233; Teixeira de Sousa, com quem aprendi muito no in&#237;cio da minha caminhada enquanto psic&#243;loga. A partir desse encontro, iniciei a minha forma&#231;&#227;o como directora de Psicodrama, que &#233; hoje a minha psicoterapia de elei&#231;&#227;o, visto ter uma abordagem muito abrangente e uma gram&#225;tica de leitura com grande abertura. Nele, a regra &#233; o sujeito, devendo ser ele a construir-se a si pr&#243;prio, a encontrar as suas verdades. O poder est&#225; no indiv&#237;duo e n&#227;o no terapeuta. Esta perspectiva est&#225; absolutamente ligada ao princ&#237;pio de respeito pelos Direitos Humanos e &#224; vontade de construir um mundo melhor, onde todos tenham lugar. </p>     <p> <i>Considera que a Psicologia e a Psican&#225;lise, na sua Hist&#243;ria, t&#234;m contribu&#237;do para o refor&#231;o e legitima&#231;&#227;o das desigualdades entre mulheres e homens? </i> </p>     <p> Sem d&#250;vida. Considero que a Psicologia &#233; um dos instrumentos de conhecimento de maior controlo social, precisamente porque nos fornece leituras do desenvolvimento, em si reprodutoras do sistema social. Alguns modelos e teorias da Psicologia perpetuam essa l&#243;gica desigual, como por exemplo, algumas teorias ligadas ao instinto maternal e &#224; forma como se interpreta a teoria da vincula&#231;&#227;o, uma vez que esta n&#227;o se aplica s&#243; &#224;s m&#227;es ou &#224;s mulheres. A vincula&#231;&#227;o constr&#243;i-se em rela&#231;&#227;o &#224;s pessoas que est&#227;o mais perto da crian&#231;a, aquelas que dela cuidam. Na nossa cultura, normalmente &#233; a m&#227;e, mas isso &#233; algo cultural e n&#227;o biol&#243;gico. N&#227;o &#233; a teoria da vincula&#231;&#227;o que est&#225; errada, mas sim a interpreta&#231;&#227;o que dela se faz com base em elementos culturais. </p>     <p> Mais do que a Psicologia, a Psican&#225;lise refor&#231;ou os pap&#233;is diferenciadores de pai e de m&#227;e, associando-os, e com isso fortaleceu o que era o masculino e o feminino. No entanto, saliento que Sigmund Freud tem um texto em que refere os pap&#233;is de pai e m&#227;e, e &#233; muito claro ao situ&#225;-los na &#233;poca, sublinhando: &#8220;o papel do pai e o papel da m&#227;e, tal como s&#227;o vividos na minha &#233;poca&#8221;. Esta segunda parte caiu pois, apesar de ter sido uma cita&#231;&#227;o muito repetida, raramente o foi na sua totalidade. O papel de pai e o papel de m&#227;e t&#234;m sido abundantemente atribu&#237;dos ao pai e m&#227;e biol&#243;gicos. De facto, na sua &#233;poca, estes pap&#233;is eram muito r&#237;gidos, sobretudo se referidos a fam&#237;lias pertencentes &#224; burguesia. Felizmente, existem cada vez mais teorias que questionam esta rigidez de pap&#233;is, contribuindo para a sua desconstru&#231;&#227;o.&#160; </p>     <p> Tamb&#233;m a interpreta&#231;&#227;o dada &#224; anatomia e &#224; fisiologia contribuiu para a perpetua&#231;&#227;o dos pap&#233;is sociais diferenciados. A forma como s&#227;o lidas as dissemelhan&#231;as fisiol&#243;gicas ajudou a estigmatizar as diferen&#231;as culturais e sociais. </p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p> <i>Qual o seu papel nesta desconstru&#231;&#227;o?</i> </p>     <p> Em todas as minhas actividades profissionais, tenho presente a dissemina&#231;&#227;o da discrimina&#231;&#227;o com base no g&#233;nero e na orienta&#231;&#227;o sexual. S&#227;o duas constru&#231;&#245;es estruturantes da nossa organiza&#231;&#227;o social. Tudo o que eu puder fazer para denunciar os mecanismos que nos enredam e nos prendem de tal forma que nos fazem estar condenados ao corpo com que nascemos, f&#225;-lo-ei! </p>     <p> <i>Na pr&#225;tica de Psicologia Cl&#237;nica, utiliza uma perspectiva feminista?</i> </p>     <p> Sem d&#250;vida! N&#227;o posso compreender que muitas pessoas digam que n&#227;o s&#227;o feministas quando praticam no seu dia-a-dia valores feministas. Esta nega&#231;&#227;o significa um total desconhecimento do verdadeiro significado dessa palavra. O feminismo &#233; sobretudo um modelo de interpreta&#231;&#227;o social e de den&#250;ncia das desigualdades de g&#233;nero, centrando-se nos direitos das pessoas. &#201; uma teoria pol&#237;tica que denuncia a subjuga&#231;&#227;o a que as mulheres ainda est&#227;o sujeitas, na actualidade. </p>     <p> <i>Quais s&#227;o os principais problemas e necessidades das pessoas que a procuram nos seus consult&#243;rios? </i> </p>     <p> &#201; uma pergunta muito ampla e a resposta teria de ser t&#227;o ampla quanto a pergunta. </p>     <p> Para al&#233;m das quest&#245;es da sexualidade, a que as pessoas na generalidade mais me associam, a minha interven&#231;&#227;o &#233; alargada ao desenvolvimento humano e &#224; psicopatologia. Poderia, em resumo, dizer que s&#227;o o bem-estar, a sa&#250;de mental e sa&#250;de sexual o foco da minha interven&#231;&#227;o.&#160; </p>     <p> Relativamente &#224; &#225;rea da sexualidade, uma das queixas frequentes liga-se ao desejo sexual e ao prazer. Com mais frequ&#234;ncia s&#227;o as mulheres que se queixam. A maioria das vezes, n&#227;o por um mal-estar pessoal, mas por dificuldades relacionais. Algo que traz problemas no relacionamento com as suas parceiras ou os seus parceiros. Houve uma &#233;poca em que ele era encarado como uma doen&#231;a. Por parte da ci&#234;ncia m&#233;dica, o desejo e o prazer n&#227;o faziam parte do mundo que era considerado &#8220;das mulheres&#8221;. Acreditava-se que eram doentes, aquelas que tinham desejo. Mais tarde, no s&#233;culo XX, &#233; a aus&#234;ncia de prazer que passa a ser considerada uma disfun&#231;&#227;o. Transit&#225;mos de uma &#8220;ditadura&#8221; para outra, e isso &#233; muito dif&#237;cil de desmontar. </p>     <p> &#201; preciso que cada pessoa encontre o seu ritmo de desejo e de prazer sexual sem que viva com impossibilidades ou obriga&#231;&#245;es socialmente impostas. Este tema, do desejo e do prazer, &#233; um tema desafiante no modelo dicot&#243;mico do g&#233;nero, por estarem, uns e outras, obrigados e obrigadas a cumprirem expectativas ligadas aos seus pap&#233;is de g&#233;nero. </p>     <p> A sociedade contribui para a reprodu&#231;&#227;o destes modelos regidificados. O que eu pretendo &#233; denunciar aquelas duas obrigatoriedades, para que cada pessoa, com tranquilidade e serenidade, consiga desenvolver o que sente e o que quer. Outra tarefa dif&#237;cil &#233; ainda a articula&#231;&#227;o, em casal, das vontades de cada um dos elementos. </p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p> <i>No seu entender, o que esperam da paix&#227;o os homens e as mulheres? </i> </p>     <p> As expectativas sobre a viv&#234;ncia da paix&#227;o apresentam-se de modo diferente nos dois sexos e, mais uma vez, se relaciona com a educa&#231;&#227;o. &#201; um cl&#225;ssico, as mulheres queixarem-se mais de falta de aten&#231;&#227;o, de um abra&#231;o, de romance, e os homens queixarem-se de falta de encontros er&#243;ticos e sexuais e da falta de iniciativa por parte das mulheres. &#201; claro que falo da generalidade, h&#225; muitos homens e mulheres que n&#227;o s&#227;o assim, e quando comparados os casais heterossexuais com os casais de gays e de l&#233;sbicas, verifico que em qualquer um deles, estes temas surgem como factor de mal-estar. </p>     <p> Outro conceito que pode gerar um conflito interior &#233; o do amor e a sua rela&#231;&#227;o com a sexualidade. H&#225; uma s&#233;rie de comportamentos previstos para que os elementos do casal se considerem amados. Nesta &#225;rea, os pap&#233;is de g&#233;nero quanto &#224; organiza&#231;&#227;o das tarefas como a domesticidade e o exerc&#237;cio da parentalidade s&#227;o, muitas vezes, vari&#225;veis referidas. </p>     <p> A &#233;tica da Sa&#250;de &#233; muitas vezes um excelente campo para a manuten&#231;&#227;o de alguns comportamentos socialmente esperados, e muitos s&#227;o resultado de princ&#237;pios religiosos que primeiro estiveram presente no Direito e depois passaram para a Sa&#250;de. A orienta&#231;&#227;o sexual &#233; um claro exemplo do que afirmo: os comportamentos sexuais entre pessoas do mesmo sexo foram primeiro considerados pecado, mais tarde crime, e posteriormente doen&#231;a. Em cada discurso dominante, algumas das altera&#231;&#245;es que parecem ser aparentemente libertadoras servem apenas para n&#227;o alterar a ordem institu&#237;da. Temos vindo a alcan&#231;ar muitas, e muito importantes, reformula&#231;&#245;es liberais, mas ainda n&#227;o foi poss&#237;vel a cria&#231;&#227;o de uma nova ordem, uma ordem que permita a cada ser humano uma organiza&#231;&#227;o de vida que, n&#227;o invadindo direitos humanos, n&#227;o seja alvo de discrimina&#231;&#227;o por parte de uma qualquer hegemonia, seja ela cultural, religiosa, estat&#237;stica ou outra. </p>     <p> <i>Como avalia a sa&#250;de sexual dos/as portugueses/as?</i> </p>     <p> H&#225; poucos estudos sobre a mat&#233;ria, embora os existentes sejam suficientes para enumerar muitas das dificuldades. Todavia, n&#227;o h&#225; uma equival&#234;ncia de resposta dos servi&#231;os p&#250;blicos de sa&#250;de. H&#225; consultas de Sexologia em alguns hospitais p&#250;blicos, dependendo maioritariamente da boa vontade dos t&#233;cnicos e da consci&#234;ncia desta necessidade de resposta. O estudo da sexualidade humana come&#231;a agora a surgir, timidamente, nos <i>curricula</i> dos cursos de Psicologia, de Medicina, de Enfermagem, de Fisioterapia. Quem procura forma&#231;&#227;o nesta &#225;rea tem de a obter fora das institui&#231;&#245;es oficiais, encontrando cursos de forma&#231;&#227;o em associa&#231;&#245;es cient&#237;ficas, como &#233; o caso, em Portugal, da Sociedade Portuguesa de Sexologia Cl&#237;nica. Claro que esta insufici&#234;ncia tem implica&#231;&#245;es na pr&#225;tica cl&#237;nica e no abandono das queixas dos e das pacientes relativamente a estas tem&#225;ticas. </p>     <p> <i>Qual o papel da educa&#231;&#227;o na forma&#231;&#227;o sexual dos jovens? Considera que tem sido bem-sucedida?</i> </p>     <p> Em termos de educa&#231;&#227;o sexual, num dado momento, fez-se muito, depois essa evolu&#231;&#227;o cessou. Refiro-me aos anos a seguir ao 25 de Abril, particularmente na d&#233;cada de 80 e in&#237;cio da d&#233;cada de 90 do s&#233;culo passado. E, disso ficou uma sensa&#231;&#227;o menos gratificante. O resultado em termos de avan&#231;os na legisla&#231;&#227;o foi maior do que os avan&#231;os feitos no terreno. </p>     <p> <i>Como encarou a recep&#231;&#227;o do pr&#233;mio ILGA/Portugal, em 2003?</i> </p>     <p> Claro que &#233; sempre bom que o nosso trabalho seja reconhecido como v&#225;lido e fico muito contente com isso. No entanto, n&#227;o posso deixar de lamentar a necessidade deste pr&#233;mio, por ser exactamente revelador da discrimina&#231;&#227;o ou da diferente valoriza&#231;&#227;o do amor entre pessoas do mesmo sexo. </p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p> <i>Porque abra&#231;ou a causa da co-adop&#231;&#227;o?</i> </p>     <p> Pelo que ficou dito, a defesa da co-adop&#231;&#227;o era &#243;bvia! Primeiro, porque considero que a crian&#231;a tem direito a que as pessoas que querem cuidar dela o possam fazer, independentemente do modo de organiza&#231;&#227;o de vida, desde que isso n&#227;o viole direitos de ningu&#233;m. Temos de ser capazes de nos organizar para que aqueles cuidadores legitimamente possam zelar pela crian&#231;a. Al&#233;m disso, o sistema vigente n&#227;o tinha em conta as pessoas e eu defendia acima de tudo a liberdade. Sou contra todos os sistemas que se oponham &#224;s pessoas. O modelo de fam&#237;lia tradicional &#233; excelente para alguns, mas n&#227;o o &#233; para todos! A Biologia mostra-nos com clareza que, quanto maior a diversidade, maior a probabilidade de vida, e eu n&#227;o consigo ver um s&#243; sistema de funcionamento, n&#243;s somos todos diferentes! &#201; o direito &#224; vida, &#224; dignidade, que est&#225; aqui em causa! </p>     <p> <i>Actualmente, que tema gostaria de investigar?</i> </p>     <p> Muitos haveria. A quest&#227;o do desejo sexual &#233; um tema sem fim, que merece uma investiga&#231;&#227;o muito cuidada. </p>     <p> <i>Ao longo da vida, o que mais a realizou?</i> </p>     <p> Realiza-me estar no lugar onde estou. Em termos macro, se voltasse atr&#225;s, faria tudo igual. Realiza-me tamb&#233;m ter sido capaz de fazer esta caminhada sem cair, com todas as ajudas que j&#225; referi. Regozijo-me igualmente com as &#250;ltimas conquistas no plano jur&#237;dico no que respeita &#224;s quest&#245;es de g&#233;nero. De igual modo me aprazem, como cidad&#227;, todas as transforma&#231;&#245;es operadas em Portugal ap&#243;s o 25 de Abril, embora numa fase inicial n&#227;o tenha contribu&#237;do especialmente, dada a minha idade. O facto de ter estado empenhada em toda a legisla&#231;&#227;o sobre a educa&#231;&#227;o sexual, particularmente no que diz respeito &#224;s quest&#245;es da igualdade de g&#233;nero e da identidade de g&#233;nero, realiza-me. </p>     <p> <i>Na p&#225;gina pessoal, deixa-se fotografar sentada no tronco de uma &#225;rvore. Qual o significado dessa representa&#231;&#227;o? </i> </p>     <p> Essa fotografia &#233; do <i>Di&#225;rio de Not&#237;cias</i>, e acompanhou uma entrevista. O <i>ficus</i> <i>macrophylla</i><i> </i>&#233; uma &#225;rvore particular, e bel&#237;ssima pela sua estrutura din&#226;mica. As ra&#237;zes tanto crescem de baixo para cima como de cima para baixo. &#201; uma bela met&#225;fora da vida! A funda&#231;&#227;o pode dar-se em qualquer altura. N&#227;o estamos condenados &#224;s condi&#231;&#245;es com que nascemos. </p>      ]]></body>
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