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<institution><![CDATA[,Universidade NOVA de Lisboa Faculdade de Ciências Sociais e Humanas Instituto de História da Arte, Centro Interdisciplinar de Ciências Sociais - NOVA]]></institution>
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</front><body><![CDATA[ <p align="right"><font size="2"><b>ENTREVISTAS</b></font></p>     <p><font size="4"><b>Helena Sacadura Cabral</b></font></p>     <p> <b>Sandra Leandro*</b> </p>     <p> *Universidade de &#201;vora, Universidade NOVA de Lisboa, Faculdade de Ci&#234;ncias Sociais e Humanas, Instituto de Hist&#243;ria da Arte, Centro Interdisciplinar de Ci&#234;ncias Sociais &#8211; NOVA, <i>Faces de Eva</i> </p> <hr/>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="center"><a name="q1"></a><img src="/img/revistas/eva/n36/n36a12f1.jpg"/></p>     
<p>&nbsp;</p>     <p>En&#233;rgica, sorridente, de temperamento apaixonado, &#233; com desassombro e grande sentido de liberdade que manifesta as suas opini&#245;es. Para mim &#233; inesquec&#237;vel a cr&#243;nica &#171;Hoje n&#227;o se fala portugu&#234;s... linguareja-se!&#187;. Helena Sacadura Cabral nasceu em Lisboa em 7 de Dezembro de 1934. Economista e professora universit&#225;ria, licenciada pelo Instituto de Ci&#234;ncias Econ&#243;micas e Financeiras, foi a primeira mulher a entrar nos quadros do Banco de Portugal. Na d&#233;cada de 1970 iniciou a sua actividade como jornalista, dando origem a duas publica&#231;&#245;es exclusivamente centradas na an&#225;lise pol&#237;tica: a <i>PH</i> e a <i>PM &#8211; Pol&#237;tica Mesmo</i>. Continuaria essa traject&#243;ria como cronista em v&#225;rios jornais e revistas, entre os quais <i>Di&#225;rio de Not&#237;cias</i>, <i>Di&#225;rio de Lisboa </i>e<i> M&#225;xima</i>. Foi colaboradora em programas de r&#225;dio e televis&#227;o, nomeadamente da RTP e da SIC; actualmente, mant&#233;m o blogue <i>Fio-de-prumo</i>, escrevendo tamb&#233;m no <i>Delito de Opini&#227;o</i>. Com muitos t&#237;tulos publicados e um p&#250;blico fiel, define-se muitas vezes como &#171;escrevinhadora&#187;. As suas duas &#250;ltimas &#171;escrevinha&#231;&#245;es&#187; t&#234;m por t&#237;tulo <i>O que Aprendi com a Minha M&#227;e</i> e <i>Nada o Vento Levou</i>,<i> </i>ambas de<i> </i>2014; a primeira foi <i>Bocados de N&#243;s</i>, em 1993.</p>     <p><i>&#201; dif&#237;cil fazer-lhe perguntas porque j&#225; foi muito entrevistada. Que quest&#227;o ainda n&#227;o lhe fizeram a que gostaria de responder?</i> </p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>A de saber se h&#225; ou n&#227;o uma vis&#227;o feminina da sociedade e em caso afirmativo em que sentido &#233; que ela evoluiu.</p>     <p><i>Pode conhecer-se a resposta?</i></p>     <p>Do meu ponto de vista, essa vis&#227;o existe e ainda bem que assim &#233;, porque a sociedade portuguesa necessita dessa diversidade para se afirmar. Tempos houve em que a mulher se masculinizou para ter acesso a um sem -&#250;mero de profiss&#245;es &#8211; algumas at&#233; lhe estavam vedadas &#8211;, julgando que esse seria o caminho poss&#237;vel que lhe estava reservado.</p>     <p><i>Quer falar um pouco do ambiente familiar em que teve origem e que por afirma&#231;&#227;o ou oposi&#231;&#227;o a ajudou a ser quem &#233;?</i></p>     <p>Provenho de uma fam&#237;lia muito numerosa, da m&#233;dia/alta burguesia alentejana do lado materno e beir&#227; do lado paterno. Cresci sem dificuldades, mas tamb&#233;m sem quaisquer privil&#233;gios. Havia muito carinho, mas, em contrapartida, exigia-se um alto sentido de responsabilidade. Os av&#243;s maternos marcaram profundamente a minha vida pelo exemplo que me deram. N&#227;o seria quem sou se os n&#227;o tivesse tido.</p>     <p><i>Que influ&#234;ncia teve na sua vida o seu tio Artur Sacadura Cabral? Foi ele que a entusiasmou a conseguir o brevet para pilotar avi&#245;es?</i></p>     <p> O meu tio, com quem dizem que me pare&#231;o, foi o chefe da fam&#237;lia depois de o meu av&#244; morrer. Protelou sonhos pessoais e ambi&#231;&#245;es profissionais para garantir aos irm&#227;os e &#224; m&#227;e tudo aquilo que ele considerava que lhes era devido. Da&#237; que a segunda gera&#231;&#227;o &#8211; a dos sobrinhos, j&#225; que ele n&#227;o teve filhos &#8211; na qual me incluo, tivesse por ele um enorme respeito e admira&#231;&#227;o. </p>     <p> O gosto pela avia&#231;&#227;o s&#243; indirectamente vir&#225; dele. Deve-se sobretudo, creio, aos dez anos que passei, como economista, na avia&#231;&#227;o civil. A&#237; sim, acredito que o gosto ter&#225; surgido de uma forma mais clara. </p>     <p><i>Essa capacidade de voo teve influ&#234;ncia no seu modo de olhar a vida?</i></p>     <p>Se, como dizem, sou parecida com ele, &#233; poss&#237;vel que tal tenha acontecido. Voar &#233; uma forma de liberta&#231;&#227;o. E eu gosto de fazer uso dessa liberdade!</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><i>Na sua forma&#231;&#227;o escolar, que momentos e pessoas destacaria?</i></p>     <p>Fui uma excelente estudante. Sabia que, n&#227;o sendo rica, a minha independ&#234;ncia dependeria, sempre, do meu trabalho. Por isso, ser a melhor constitu&#237;a o meu objectivo essencial. Estudei com uma bolsa e, para a n&#227;o perder, teria de estar entre os melhores. Foi o que fiz! Dois professores houve que me marcaram muito, como profissional. Um foi o soci&#243;logo Professor Ad&#233;rito Sedas Nunes, de quem fui assistente quando leccionei Hist&#243;ria dos Factos e das Doutrinas Econ&#243;micas; o outro foi o Professor Lu&#237;s Teixeira Pinto, de quem tamb&#233;m fui assistente em Economia Internacional, e que seria o nosso mais jovem Ministro da Economia aos 28 anos. Outros houve que me marcaram de outro modo, como pessoa. Felizmente para mim, mesmo aqueles de quem terei gostado menos acabaram por me obrigar a fazer um esfor&#231;o maior e nalguns casos, por causa disso, a descobrir em mim capacidades que desconhecia.</p>     <p><i>Foi a primeira mulher a pertencer aos quadros do Banco de Portugal. Em que ano isso aconteceu? Quando entrou, teve consci&#234;ncia do seu pioneirismo? Que mem&#243;rias guarda dos anos que trabalhou nessa institui&#231;&#227;o?</i></p>     <p> Aconteceu em 1973 e tive perfeita consci&#234;ncia de que o meu percurso n&#227;o seria f&#225;cil. E de facto, primeiro estranharam, mas depois aceitaram. </p>     <p> Guardo excelentes recorda&#231;&#245;es desse tempo, e em particular de alguns governadores como Jacinto Nunes, Silva Lopes e Costa Leal. Aprendi muito com qualquer deles e mantenho bem viva essa mem&#243;ria. </p>     <p><i>Quando estive a procurar outras entrevistas que lhe fizeram, comovi-me com as suas afirma&#231;&#245;es &#171;Adoro o meu Pa&#237;s&#187;, &#171;Portugal n&#227;o acaba&#187;, &#171;Eu morria se Portugal acabasse&#187;, porque estou absolutamente convencida de que este Pa&#237;s precisa de pessoas que o amem. Quer falar-nos um pouco da sua saud&#225;vel no&#231;&#227;o de patriotismo?</i></p>     <p>N&#227;o sei se &#233; patriotismo ou amor. Sei que &#233; indestrut&#237;vel o elo que me liga a Portugal e jamais me passou pela cabe&#231;a ser outra coisa al&#233;m de portuguesa. Gosto tanto do meu pa&#237;s que chego a amar os seus defeitos. Posso, ou n&#227;o, sentir-me europeia. Mas nunca, em tempo algum, deixei de sentir esta terra como aquela onde quero viver e morrer.</p>     <p><i>A sua for&#231;a e alegria de viver levam-na a afirmar: &#171;N&#227;o acho animador ir jantar com um grupo de amigos e queixar-me: &#8220;&#8211; Ai o joanete dos p&#233;s!&#8221;&#187;. Atormentam-na as pessoas que se est&#227;o sempre a lastimar e a dramatizar at&#233; do que se sabe que o tempo inevitavelmente trar&#225;?</i></p>     <p>&#201; verdade. O envelhecimento &#233; um processo irrevers&#237;vel. E felizes daqueles que, como eu, envelhecem, porque isso significa que j&#225; viveram muito. Defendo desde que me conhe&#231;o que as alegrias se partilham e os desgostos se consomem. Quando estou com os amigos, n&#227;o &#233; para dividir tristezas. Ao contr&#225;rio, &#233; para p&#244;r em comum aquilo que nos torna felizes.</p>     <p><i>Se tivesse de escolher tr&#234;s livros que todos devessem ler, quais seriam? </i></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p> &#201; dif&#237;cil. Mas talvez escolhesse poesia de Eug&#233;nio de Andrade, as prosas de E&#231;a de Queiroz e Agustina Bessa-Lu&#237;s. Nos estrangeiros escolheria Marguerite Yourcenar e Sandor Marai. </p>     <p> Mas ficavam de fora muitos e muitos escritores que me marcaram e s&#227;o igualmente importantes. </p>     <p><i>Da sua vasta produ&#231;&#227;o escrita tem um livro preferido?</i></p>     <p>N&#227;o.</p>     <p>As Nove Magn&#237;ficas: o fasc&#237;nio do poder<i> &#233; o t&#237;tulo de um dos seus livros mais conhecidos. Quem s&#227;o essas nove? Quem ficou de fora a que poderia tamb&#233;m atribuir a qualifica&#231;&#227;o de magn&#237;fica?</i></p>     <p>Foram as nove rainhas que, no meu entender, mais marcaram a vida nacional da sua &#233;poca.</p>     <p>Todavia poderia atribuir essa qualifica&#231;&#227;o a milhares de mulheres portuguesas que, ontem como hoje, ningu&#233;m conhece, mas se esfor&#231;am, no seu trabalho e na sua fam&#237;lia, por fazer crescer o nosso pa&#237;s.</p>     <p><i>Foi Professora de que cadeiras e em que estabelecimento de ensino superior? Gostou de leccionar? Como v&#234; a voca&#231;&#227;o de ser Professora?</i></p>     <p> Fui professora em tr&#234;s Faculdades da Universidade T&#233;cnica, ao longo de quase vinte anos e gostei muito de transmitir e receber conhecimentos. Porque tamb&#233;m aprendi com os meus alunos. Ser professora s&#243; pode ser profiss&#227;o se houver voca&#231;&#227;o. </p>     <p> Na &#225;rea econ&#243;mica ensinei &#193;lgebra, Econometria, Economia Internacional e Hist&#243;ria dos Factos e das Doutrinas Econ&#243;micas. </p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p> Na &#225;rea da Comunica&#231;&#227;o ensinei Escrita Criativa e Guionismo. </p>     <p><i>Durante v&#225;rios anos teve uma coluna no </i>Di&#225;rio de Not&#237;cias<i> intitulada &#171;Fio-de-prumo&#187;. Depois transferiu essa coluna para um blogue que mant&#233;m. &#201; importante para si manter esse registo? Segue outros </i>bloggers<i>? Quais?</i></p>     <p> Durante cerca de cinco anos mantive a coluna &#171;Fio-de-prumo&#187; no <i>Di&#225;rio de Not&#237;cias</i>. Quando sa&#237;, decidi continu&#225;-la na blogosfera. </p>     <p> &#201; um registo di&#225;rio que mantenho com uma disciplina germ&#226;nica, porque &#233; importante para me definir e manter viva. E &#233; o enquadramento que me permite editar dois livros por ano. N&#227;o visito muito blogues, a n&#227;o ser o <i>Delito de Opini&#227;o</i>, um blogue colectivo do qual tamb&#233;m fa&#231;o parte. </p>     <p><i>Como v&#234; o facebook? </i></p>     <p>Como uma forma de comunica&#231;&#227;o e um meio de quebrar a solid&#227;o de certos quotidianos. O <i>Face</i> ser&#225;, sempre, o que cada um de n&#243;s quiser fazer dele!</p>     <p><i>A for&#231;a e a alegria de viver que manifesta apoiam-se no seu sentido de independ&#234;ncia ou em algo mais?</i></p>     <p>Talvez, tamb&#233;m, em Deus e na confian&#231;a que me merece a natureza humana, na qual continuo, ainda hoje, a acreditar.</p>     <p>2/2/2015</p>      ]]></body>
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