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</front><body><![CDATA[ <p align="right"><font size="2"><b>PIONEIRAS</b></font></p>     <p><font size="4"><b>Maria da Concei&#231;&#227;o Moura Borges - KUKAS - </b></font><b>Uma nuvem que desaba em chuva</b></p>     <p><b>Elisabeth &#201;vora Nunes *, Isabel Baltazar</b>*</p>     <p>Universidade Nova de Lisboa, Faculdade de Ci&#234;ncias Sociais e Humanas, Centro Interdisciplinar de Ci&#234;ncias Sociais, <i>Faces de Eva - Estudos sobre a Mulher</i></p>     <p><a href="mailto:ibaltazar@fcsh.unl.pt">ibaltazar@fcsh.unl.pt</a></p> <hr/>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="center"><a name="q1"></a><img src="/img/revistas/eva/n36/n36a14f1.jpg"/></p>     
<p>&nbsp;</p>     <p>A <i>designer</i> de joalharia de autor em Portugal chama-se Kukas, nome art&#237;stico de Maria da Concei&#231;&#227;o de Moura Borges, uma mulher singular que nasceu a 5 de Maio de 1928, na Quinta de Santa Marta, na Beira Baixa, no interior de Portugal. Passaria a sua vida em Lisboa. Embora tenha nascido com a paix&#227;o pelas artes, tamb&#233;m pensou estudar Direito, por sentir em si &#8220;a ideia, perfeitamente metaf&#243;rica de fazer justi&#231;a no mundo&#8221;. Esse desejo de justi&#231;a estaria ligado ao equil&#237;brio representado pela beleza das artes, que seria o caminho escolhido para tornar o mundo mais justo, porque mais harmonioso, se integrasse o desenvolvimento das artes como forma exemplar de um aperfei&#231;oamento humano integral. Para Kukas, a vida &#233; movimento e a sua forma de falar &#233; vida, expressa nas suas m&#227;os, que se viram e reviram, desenhando formas quais j&#243;ias em cria&#231;&#227;o permanente. A conversa tranquila e agrad&#225;vel reflecte essa harmonia que conjuga a palavra com o gesticular expressivo. Ela pr&#243;pria confessa: &#8220;senti-me sempre habitada por formas. Estou sempre a ver formas. N&#227;o vejo nada que n&#227;o pense em recriar&#8221;. Tudo &#224; sua volta &#233; motivo de inspira&#231;&#227;o.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><b>Hist&#243;ria de uma voca&#231;&#227;o</b></p>     <p>A origem do despertar desta voca&#231;&#227;o art&#237;stica de Kukas est&#225; ligada &#224; sua hist&#243;ria de vida. &#211;rf&#227; desde cedo, foi muito influenciada pelas tias que tinham uma grande actividade cultural. Mas a paix&#227;o pelas artes &#233; inata. Com um sentido est&#233;tico singular e uma criatividade fora de s&#233;rie, esta mulher estava preparada pelo destino para fazer um percurso absolutamente singular nas artes portuguesas. Tudo come&#231;ou com um anel que fez para oferecer a uma tia, ou melhor, desde crian&#231;a que brincava com as m&#227;os irrequietas e moldava arames de garrafas de champanhe para fazer abat-jours para a casa de bonecas. O seu talento revelou-se cedo: &#8220;sempre fui muito atenta &#224;s formas e sempre gostei de modelar, de usar as m&#227;os, de recortar, de todas essas coisas que se fazem quando somos crian&#231;as. Nunca me aborrecia enquanto mi&#250;da. Nem hoje me aborre&#231;o, n&#227;o sei o que &#233; isso. Tenho sempre que fazer, estou sempre ocupada. Moldar, fazer, criar sempre foi algo de instintivo, de cong&#233;nito&#8221;. As suas aptid&#245;es naturais foram sendo desenvolvidas na vida e na escola. Em 1940, ingressou no Col&#233;gio de Santa Maria, em Torres Novas, e, anos mais tarde, entrou no Liceu Rainha Dona Filipa de Lencastre, em Lisboa. Na capital, frequentou tamb&#233;m o Col&#233;gio Parisiense e o Col&#233;gio Acad&#233;mico, mostrando sempre o seu talento para as artes, muito particularmente, para o sentido da cor e da harmonia crom&#225;tica. Ao realizar um Curso de Educa&#231;&#227;o Familiar, Kukas estudou hist&#243;ria da arte e cer&#226;mica, come&#231;ando a fazer pe&#231;as totalmente diferentes dentro desta &#225;rea, vendendo tudo o que fazia, mas n&#227;o era um campo que a satisfizesse, embora tenha sido importante para o contacto com a mat&#233;ria. Frequentou aulas particulares de desenho com o pintor e gravador Jos&#233; J&#250;lio. Estudou tamb&#233;m na Sociedade de Gravura e teve aulas de escultura com o escultor Martins Correia. Em 1961, terminou o curso de decora&#231;&#227;o de interiores na &#201;cole Sup&#233;rieure des Arts Modernes, em Paris, e recebeu v&#225;rias propostas de trabalho naquela cidade, entre as quais, trabalhar numa loja de decora&#231;&#227;o. Desejando regressar a Portugal, recusou por raz&#245;es afectivas. No ano seguinte, come&#231;ou a trabalhar em decora&#231;&#227;o de interiores o que, apesar de lhe permitir o sustento, a foi desmotivando gradualmente. Experimentou t&#233;cnicas de pintura em seda e cer&#226;mica, desenvolvendo trabalhos que apresentava e vendia na loja da pintora Menez, na rua Nova do Almada, no Chiado.</p>     <p><b>A influ&#234;ncia de Paris</b></p>     <p>Depois de uma viagem a Paris decidiu estudar na capital francesa. Como ela pr&#243;pria reconhece &#8220; na altura, Portugal era muito limitado e o que se fazia n&#227;o passava do estado embrion&#225;rio, especialmente do ponto de vista art&#237;stico&#8221;. Em Paris, frequentou as aulas de desenho de modelo na Galeria La Grande Chaumi&#232;re e fez um est&#225;gio de Educa&#231;&#227;o pela Arte no Museu do Louvre, onde conheceu o pintor Marc Chagall, que a convidou para a inaugura&#231;&#227;o da sua grande retrospectiva, em Paris. Visitou a exposi&#231;&#227;o J&#243;ias Pr&#233;-Colombianas, a qual ter&#225; pesado no seu interesse pela joalharia, revelando-lhe a nobreza t&#233;cnica e emotiva, para l&#225; dos sentidos ostentat&#243;rios. Durante a sua estadia em Paris, encontrou-se regularmente com outros artistas portugueses a&#237; residentes, nomeadamente Lourdes Castro, Ren&#233; Bertholo, Jo&#227;o Vieira e Jos&#233; Escada. Fascinada por tudo o que via e por tudo o que vivia numa descoberta permanente motivada pela sua grande curiosidade. Frequentava galerias, visitava todos os museus e muitas exposi&#231;&#245;es. Foi no percurso de casa para a escola que Kukas descobriu no Boulevard de Saint-Germain, a Galerie du Si&#232;cle, uma galeria que tinha j&#243;ias de car&#225;cter n&#243;rdico. Lembra-se perfeitamente desse que seria um marco hist&#243;rico para a sua carreira: &#8220;j&#225; nessa altura, os n&#243;rdicos eram muito depurados e imunes ao novo-riquismo que imperava nas j&#243;ias em Portugal &#8211; era um show-off de materiais que n&#227;o se preocupava com a natureza da forma. Foi uma inspira&#231;&#227;o muito forte e um complemento da escola. Acho que em Paris, mais do que a forma&#231;&#227;o propriamente dita, recebi muitos est&#237;mulos. E isso, &#224;s vezes, &#233; o mais importante&#8221;.</p>     <p><b>Uma Imagina&#231;&#227;o Criadora</b></p>     <p>Kukas nasceu com uma imagina&#231;&#227;o criativa extraordin&#225;ria, desenvolvida ao longo da vida. &#201; muito curiosa a forma como ela se descreve: &#8220;para mim, a imagina&#231;&#227;o &#233; uma bobine que nunca p&#225;ra de rodar. Criar tem um car&#225;cter obsessivo: olho seja para o que for e come&#231;o a ver a recria&#231;&#227;o daquela forma numa j&#243;ia ou num objecto. Acho que &#233; algo que acontece a todos os criativos&#8221;. Tudo inspira Kukas. De uma simples conversa &#224; contempla&#231;&#227;o da natureza, n&#227;o h&#225; limites para a sua imagina&#231;&#227;o, inspirada em tudo o que v&#234;, ouve e sente: a luz do Tejo que entra pela janela da casa na Encosta do Castelo, em Lisboa, um livro que l&#234;, uma not&#237;cia do mundo &#224; sua volta, ou, simplesmente a pr&#243;pria imagina&#231;&#227;o criadora: uma pintura, uma obra arquitect&#243;nica ou um artista. A esse prop&#243;sito reconhece que foi influenciada, por exemplo, por &#8220;Braque, Picasso, Kandinsky e tamb&#233;m Morandi e as suas naturezas-mortas muito est&#225;ticas. Sim, porque para mim h&#225; naturezas-mortas din&#226;micas e outras est&#225;ticas, tudo &#233; diferente, rico e inspirador&#8221;. </p>     <p>Esta imagina&#231;&#227;o &#233; sentida pela pr&#243;pria como natural e intr&#237;nseca &#224; sua forma de ser e foi sempre desenvolvida na vida e na academia. Os mestres sempre lhe reconheceram essa capacidade inata, por exemplo, no car&#225;cter arrojado de fazer an&#233;is quadrados, impens&#225;veis &#224; &#233;poca, porque todos pensavam na impossibilidade ergon&#243;mica de os usar. Este pioneirismo passa pelo entendimento de a j&#243;ia ser uma arte de tr&#226;nsito e foi distinguida por isso pelos seus professores. Todos admiravam essa imagina&#231;&#227;o, um imenso sentido crom&#225;tico e uma capacidade extraordin&#225;ria de romper com padr&#245;es cl&#225;ssicos e inovar. </p>     <p>Embora Kukas tenha sido sempre uma artista pluridisciplinar, ficou marcada como pioneira na joalharia, nos anais do Design em Portugal. Foram as j&#243;ias que lhe trouxeram reconhecimento a n&#237;vel nacional. As raz&#245;es deste protagonismo est&#227;o ligadas &#224; decisiva capacidade de inovar e criar um mundo novo na &#225;rea da joalharia.</p>     <p>Foi uma mulher arrojada e apostou na inova&#231;&#227;o porque as suas j&#243;ias desafiam a l&#243;gica e a imagina&#231;&#227;o. Como reconhece a pr&#243;pria: &#8220;as minhas pe&#231;as t&#234;m uma superf&#237;cie linear, onde depois inscrevo elementos decorativos, como pedras, ou um tratamento diferente feito na pr&#243;pria pe&#231;a. O meu maior objectivo &#233; fazer com que a j&#243;ia passe deixe de ser um elemento convencional tradicional, que geralmente representa uma ostenta&#231;&#227;o de riqueza, e se torne num objecto que tenha um valor por si mesmo como pe&#231;a art&#237;stica&#8221;. E assumindo com determina&#231;&#227;o esse novo significado art&#237;stico das j&#243;ias, como obras de arte afirma: &#8220;desejo que a minha j&#243;ia seja arte de tr&#226;nsito, que tenha uma fun&#231;&#227;o humana, mediadora entre a pessoa que a usa e o mundo exterior em que ela vive&#8221;.</p>     <p>Kukas escolhe como materiais de elei&#231;&#227;o para as suas j&#243;ias, a platina e a prata e combina-os com pedras que tenham transpar&#234;ncia, interpenetra&#231;&#227;o de espa&#231;o e luz. Tamb&#233;m aqui &#233; pioneira: &#8220;nunca foi o valor das pedras que me fascinou. Posso usar uma pedra modesta mas linda. Gosto especialmente das semipreciosas como os cristais-de-rocha, as pedras da lua e os quartzos&#8221;. Esta mulher desafia todas as conven&#231;&#245;es art&#237;sticas e sociais para ser ela pr&#243;pria, uma artista criadora. E nesta cria&#231;&#227;o, tudo &#233; inova&#231;&#227;o, desde os materiais &#224;s formas e aos tamanhos, porque tamb&#233;m estes &#250;ltimos n&#227;o s&#227;o convencionais e rompe a tradi&#231;&#227;o: &#8220;desde que a pe&#231;a seja estudada para ser ergon&#243;mica n&#227;o h&#225; que ficar preso ao eterno chav&#227;o de que as pessoas pequenas n&#227;o podem usar pe&#231;as grandes. Nunca fui de usar j&#243;ias pequenas, detesto miniaturas&#8221;. Em s&#237;ntese, esta artista nunca ficou presa a modas nem a criar para agradar ou para comercializar a todo o custo. Resistiu a concess&#245;es &#224; moda porque sempre achou que a j&#243;ia era intemporal. Por isso, desafiou o seu tempo, criando novas formas e deixando a sua marca.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><b>A Exposi&#231;&#227;o no Museu do Design e da Moda (MUDE)</b></p>     <p>Kukas sempre gostou de mostrar a sua arte como forma de comunicar com os outros, na sua maneira af&#225;vel e atenta a todos os pormenores do mundo &#224; sua volta e das pessoas no seu mundo. Privilegiou sempre as exposi&#231;&#245;es, sendo de destacar as da Bienal de Arte de S&#227;o Paulo e do Museu Nacional de Belas Artes, no Rio de Janeiro, no Brasil, ambas em 1977, e na Europ&#225;lia em 1991. A &#250;ltima foi no Museu do Design e da Moda (MUDE), de 14 de Outubro de 2011 a 19 de Fevereiro de 2012, com uma mostra que reuniu pe&#231;as suas e de colec&#231;&#245;es de 76 coleccionadores. Foi uma oportunidade &#250;nica para conhecer em profundidade o trabalho de uma artista &#237;mpar no panorama nacional. </p>     <p>A exposi&#231;&#227;o intitulou-se <i>KUKAS. Uma nuvem que desaba em chuva</i> e reuniu 171 pe&#231;as &#8211; maioritariamente j&#243;ias, incluindo tamb&#233;m pequenos objectos, como por exemplo jarras, todos desenhados entre 1960 e 2010. Foram os anos sessenta e setenta que marcaram o corte epistemol&#243;gico com a concep&#231;&#227;o tradicional de joalharia e levaram Kukas a protagonizar em Portugal esta arte, fazendo com que as suas pe&#231;as, espalhadas por muitos coleccionadores, n&#227;o tenham passado despercebidas.</p>     <p>Nesta exposi&#231;&#227;o estiveram presentes j&#243;ias de muitas tipologias: brincos e an&#233;is, alfinetes, colares ou gargantilhas, bot&#245;es de punho, pulseiras, caixas, jarras e floreiras. Esta variedade revela a versatilidade de Kukas e a grande imagina&#231;&#227;o criadora aplicada &#224; joalharia. A sua arte &#233; ampla e combina diferentes tipos de pe&#231;as tamb&#233;m em tempos e espa&#231;os diferentes, o que demonstra a riqueza e qualidade do seu trabalho. Nesta exposi&#231;&#227;o, como pode ver-se pela observa&#231;&#227;o do cat&#225;logo que a registou para a hist&#243;ria, Kukas estabelece rela&#231;&#245;es entre diferentes tipos de pe&#231;as, de diferentes &#233;pocas at&#233; &#224; actualidade, conseguindo dialogar com pe&#231;as diferentes, mas todas express&#227;o de uma beleza ornamental que as concilia sublinhando as suas afinidades. Kukas teve a grande habilidade de conjugar as diferentes linguagens e idiossincrasias das &#233;pocas da sua vida, estabelecendo rela&#231;&#245;es e conseguindo uma harmonia ao longo de todo o seu percurso. Esta unidade na diversidade art&#237;stica &#233; o resultado da conjuga&#231;&#227;o de uma expressividade extra&#237;da de linguagens diferentes, com formas geom&#233;tricas distintas.</p>     <p>O espa&#231;o expositivo organizado por Mariano Pi&#231;arro resultou numa feliz conjuga&#231;&#227;o de pe&#231;as diferentes ao longo da hist&#243;ria desta artista, que merecer&#225; o reconhecimento de diferentes gera&#231;&#245;es. Aqui foi mostrado um esp&#243;lio de uma vida, um tesouro partilhado com os outros, um tesouro que precisa de ser bem guardado porque, como bem afirma Ant&#243;nio Al&#231;ada Baptista, &#8220;as j&#243;ias da Kukas s&#227;o como o sol, o vento, a for&#231;a das mar&#233;s e os adormecidos fulgores da alma humana, fazem parte daquelas pequenas fontes de energia alternativa da qual &#8211; dizem- depende, para j&#225;, a nossa sobreviv&#234;ncia e, por isso, o futuro do universo&#8221;. Maria Helena Vieira da Silva tamb&#233;m dizia que olhava todos os dias para o seu anel feito por Kukas, mesmo quando, aos 80 anos, j&#225; n&#227;o o podia usar por deforma&#231;&#227;o das m&#227;os. Uma prova bem fundada de que esta exposi&#231;&#227;o foi feita de pe&#231;as vivas e que continuam a ter vida nas m&#227;os dos coleccionadores.</p>     <p><b>Das J&#243;ias do novo-riquismo a um Design das j&#243;ias</b></p>     <p><b>&nbsp;</b>Kukas assumiu sempre o corte epistemol&#243;gico com a concep&#231;&#227;o tradicional da joalharia portuguesa que &#233; vis&#237;vel na escolha dos materiais e das formas. Cristina Filipe, a curadora, artista e directora do departamento de joalharia da Arco, que Kukas apelidou de sua &#8220;Poirot&#8221;, reconhece a joalharia quase arqueol&#243;gica de Kukas, feita de seixos e f&#243;sseis: &#8220;este era o modo de Kukas se libertar de todos os clich&#233;s da &#233;poca&#8221;. Conversando com Kukas, confirmamos este desejo de se libertar de toda a superficialidade, pois, como ela pr&#243;pria afirma &#8220;a joalharia estava numa onda de novo-riquismo, era o casaco de vison e o colar de p&#233;rolas. A ideia de imita&#231;&#227;o e a da aparente riqueza, com muitas pedras de todas as cores mas com aus&#234;ncia total de design&#8221;. Cristina Filipe, respons&#225;vel por toda a investiga&#231;&#227;o hist&#243;rica que acompanhou a exposi&#231;&#227;o, n&#227;o hesita em salientar o pioneirismo de Kukas no Design das J&#243;ias: &#8220;as formas que encontrava para traduzir as ideias que a assolavam compulsivamente eram o resultado de uma depura&#231;&#227;o formal, de um rigor e aten&#231;&#227;o muito pr&#243;prios das preocupa&#231;&#245;es base do design desde o in&#237;cio da sua carreira&#8221;. A express&#227;o <i>Design</i> era um termo pouco usado e conhecido na primeira metade do s&#233;culo XX, como reconhece Kukas: &#8220;quem falava em Design na &#233;poca era o Sena da Silva, o Ant&#243;nio Garcia, o Daciano Costa e mais meia d&#250;zia de pessoas ligadas &#224; arte e &#224; arquitectura&#8221;. Esta pioneira quis romper com o estabelecido, como confessa a brincar, para se situar na contemporaneidade. Kukas quer fazer j&#243;ias do seu tempo e para as pessoas do seu tempo. Muito influenciada pelos n&#243;rdicos, cujo trabalho e est&#237;mulo encontrou em Paris, quis rasgar convencionalismos e inventar formas novas com materiais, tamb&#233;m eles, diferentes da tradi&#231;&#227;o. Tamb&#233;m ela se pretende livre de todas as escravid&#245;es, at&#233; do tempo: &#8220;o hor&#225;rio &#233; uma escravid&#227;o. Quando estamos &#224; beira de uma descoberta, corta para a hora de almo&#231;o e perde-se a din&#226;mica daquele tempo. &#201; como o p&#244;r-do-sol, da&#237; a um bocadinho j&#225; l&#225; n&#227;o est&#225;&#8221;. &#201; preciso ser livre de todas as amarras para criar e viver.</p>     <p>Kukas lembra-se de muitos coleccionadores das suas j&#243;ias, que n&#227;o quer citar para n&#227;o privilegiar uns em detrimento de outros, pessoas com quem faz a sua pr&#243;pria hist&#243;ria: &#8220;encontro hist&#243;rias minhas porque as situo numa &#233;poca da minha vida. Podemos estar mais ligados afectivamente &#224;s pessoas para quem as fazemos&#8221;. &#201; neste mundo de afectos que as j&#243;ias criadas por Kukas acabam por representar um tempo e uma hist&#243;ria para a artista, mas tamb&#233;m para os coleccionadores: &#8220;h&#225; pessoas que me diziam que as minhas pe&#231;as eram elementos desinibidores em ambientes em que estavam menos &#224; vontade ou algo hostis, porque se desencadeava sempre uma conversa a prop&#243;sito delas&#8221;. A escola desta artista &#233; uma escola de valores diferentes, porque sempre valorizou os materiais pela componente art&#237;stica e n&#227;o pelo valor fiduci&#225;rio: &#8220;n&#227;o desprezo o valor material, gosto imenso de platina, por exemplo, de ouro branco, mas nunca fiz concess&#245;es e optei sempre pelo valor art&#237;stico. Sou a antigestora de mim pr&#243;pria&#8221;. Foi a primeira artista a expressar-se plasticamente atrav&#233;s de j&#243;ias. Kukas teve sempre presente a ideia de joalharia de autor porque todas as pe&#231;as tinham um cunho de individualidade que lhes desse um reconhecimento, uma alma pr&#243;pria, um cunho de criatividade que as identificasse num mundo globalizado, para a autora um mundo desumanizado.</p>     <p>Embora tenha reeducado o uso e o olhar sobre a joalharia e criado uma legi&#227;o de coleccionadores das suas j&#243;ias, num culto que tem passado ao longo de gera&#231;&#245;es, Kukas n&#227;o fez escola. S&#243; em 1978 abriu o primeiro curso de joalharia em Portugal, na Arco. Kukas acabaria por reeducar o olhar dos ourives que lhe realizam as pe&#231;as, como atesta Cristina Filipe. Encontrou um caminho original no mundo estanque do Design dos anos 50 e 60, em Portugal, como a pr&#243;pria reconhece: &#8220;mais tarde, o termo vulgarizou-se, mas as pessoas n&#227;o sabiam sequer o que isso significava. Para mim, o Design &#233; o est&#233;tico aliado ao funcional; s&#227;o indissoci&#225;veis&#8221;. </p>     <p>Pe&#231;as que continuam a nascer da imagina&#231;&#227;o criadora de Kukas que n&#227;o deixa de criar e tamb&#233;m de sonhar. Como a pr&#243;pria admite, resta-lhe um sonho: &#8220;o meu ideal agora era encontrar um mecenas que me financiasse uma exposi&#231;&#227;o de homenagem &#224; pintura e &#224; arquitectura, as artes que mais admiro. S&#227;o aquelas que me causam a maior da emo&#231;&#227;o est&#233;tica&#8221;. Entretanto, continua a fazer pe&#231;as por encomenda a partir da sua casa junto ao Castelo de S&#227;o Jorge. Tamb&#233;m visita a gaveta onde tem as suas pedras - os cristais e o quartzo-, cuja transpar&#234;ncia sempre apreciou. E a ver o Tejo, vai pensando e criando maquetas de coisas, mesmo que n&#227;o saiam da sua imagina&#231;&#227;o. Viver &#233; Criar. Criar &#233; Viver. </p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><b>A olhar o mundo com olhos de ver</b></p>     <p>Esta pioneira continua cheia de jovialidade, apesar dos 88 anos que s&#243; o arquivo de identifica&#231;&#227;o consegue atestar. Ao fim de mais de 50 anos de carreira, Kukas continua &#8220;habitada por formas&#8221;. A sua apar&#234;ncia engana-nos e parece mais jovem, porque a sua alma n&#227;o deixou que as marcas do tempo lhe retirassem imagina&#231;&#227;o criativa que torna o seu esp&#237;rito de uma leveza t&#227;o grande como as formas das suas j&#243;ias. Como ela pr&#243;pria confessa &#8220;senti-me sempre seduzida e atenta &#224;s formas, descobrindo-lhes o sentido criativo e l&#250;dico, num exerc&#237;cio de poder de s&#237;ntese. Encontrar harmonia, sem recorrer a excessos, tanto na palavra, no som ou no tra&#231;o, &#233; coisa que muito admiro. Tentei sempre esta &#233;tica/est&#233;tica no meu trabalho, em que privilegio a fase mais depurada, mais geom&#233;trica, mais linear. Trabalhei sempre em independ&#234;ncia e liberdade e assim me manterei at&#233; ao fim do caminho&#8221;. Ap&#243;s mais de 50 anos de trabalho, com duas lojas pr&#243;prias, a artista tem dificuldade em escolher as suas j&#243;ias favoritas. Com um sorriso meigo, lembra-se do colar da nuvem que desaba em chuva e que acabaria por dar nome &#224; exposi&#231;&#227;o, onde se sente a grandeza da imagem criadora da autora e a poesia dos gestos e formas do quotidiano. Kukas foi sempre gratificada pelos afectos, porque sempre existiu uma liga&#231;&#227;o entre a j&#243;ia e quem a usa, e lembra uma express&#227;o de Madalena Cabral em resposta &#224; pergunta: &#8220;continuas a usar e a gostar do teu anel? Eu? Eu durmo com ele!&#8221;.</p>      ]]></body>
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