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<publisher-name><![CDATA[Equipa de Investigação Faces de Eva. Estudos sobre a Mulher, CICS.NOVA - Centro Interdisciplinar de Ciências Socias, Faculdade de Ciências Sociais e Humanas, Universidade NOVA de Lisboa, Portugal.]]></publisher-name>
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</front><body><![CDATA[ <p align="right"><font size="2"><b>HOMENAGEM</b></font></p>     <p><font size="4"><b>Lembrando a Professora Doutora Virg&#237;nia Rau</b></font></p>     <p><b>Iria Gon&#231;alves*</b></p>     <p>* Professora Jubilada, Universidade Nova de Lisboa, Faculdade de Ci&#234;ncias Sociais e Humanas.</p> <hr/>     <p>&nbsp;</p>     <p>Aluna do primeiro ano do curso de Ci&#234;ncias Hist&#243;ricas e Filos&#243;ficas da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, o meu primeiro contacto &#8211; &#8220;por ouvir dizer&#8221; &#8211; com a Professora Doutora Virg&#237;nia Rau foi desastroso. A fama de que a Senhora gozava, e que os &#8220;veteranos&#8221; faziam quest&#227;o de transmitir aos &#8220;caloiros&#8221;, era a de algu&#233;m quase inacess&#237;vel, de uma exig&#234;ncia feroz, que infundia terror e de quem era melhor guardar toda a dist&#226;ncia poss&#237;vel.</p>     <p>Era o meu primeiro ano e por isso eu n&#227;o tinha de sofrer, ainda durante algum tempo, os seus rigores. Mas fui pensando neles. Porque, quando escolhi este curso, quando entrei na Faculdade, era j&#225; muito claro para mim que o que eu efectivamente queria era estudar Idade M&#233;dia. E a Senhora era a catedr&#225;tica de Hist&#243;ria Medieval! N&#227;o podia fugir!</p>     <p>Paci&#234;ncia! Eu estava ali para trabalhar e ia trabalhar mesmo. N&#227;o me poderia &#8220;chumbar&#8221;.</p>     <p>Como sempre, o ano acabou para dar lugar ao seguinte e, na devida altura, matriculei-me no segundo ano. Ia, finalmente, come&#231;ar a estudar Idade M&#233;dia e ser aluna da Professora Virg&#237;nia Rau. E nada &#8211; ou quase nada &#8211; daquilo que me tinha sido dito era verdade. A Senhora parecia-me simp&#225;tica, come&#231;ava quase sempre as suas aulas com um dito de humor, o que aligeirava tudo e ajudava a dispor bem. Nunca senti o temor que me tinham anunciado &#8220;os mais velhos&#8221;. E as mat&#233;rias versadas nas suas aulas abriram-me imensos horizontes, mostraram-me perspectivas de estudo muito estimulantes e consolidaram definitivamente o meu apego &#8211; ia a dizer amor &#8211; &#224; Idade M&#233;dia e &#224;s suas gentes. Foi s&#243; no final do ano que eu verifiquei, ao analisar as pautas de exame das suas duas cadeiras, como uma das caracter&#237;sticas que a fama lhe atribu&#237;a era verdadeira: a sua exig&#234;ncia estava ali bem espelhada, pois ningu&#233;m conseguira nota superior a 15. E em muitos poucos casos: quatro, em ambas as cadeiras. No entanto, mais tarde, ouvi a Senhora dizer que nunca tivera um curso t&#227;o bom como aquele de que eu fizera parte.</p>     <p>No in&#237;cio do meu terceiro ano foi inaugurado o actual edif&#237;cio da Faculdade de Letras, na Cidade Universit&#225;ria. Havia, finalmente, as condi&#231;&#245;es necess&#225;rias para a cria&#231;&#227;o e funcionamento do Centro de Estudos Hist&#243;ricos, em que a Professora Virg&#237;nia Rau pensava h&#225; tempos. Um grupo de estudantes do meu curso, do qual eu fazia parte, ofereceu-se para colaborar em quaisquer tarefas que a&#237; fosse necess&#225;rio levar a cabo. Foi aceite. Tivemos a nosso cargo a organiza&#231;&#227;o da biblioteca que se ia formando.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>A partir da&#237; come&#231;ou para alguns de n&#243;s &#8211; aqueles que quer&#237;amos mesmo trabalhar em Hist&#243;ria &#8211; um outro tipo de rela&#231;&#227;o, que comigo se tornou ainda mais pr&#243;ximo a partir da altura em que, no final desse ano, lhe pedi que orientasse a minha disserta&#231;&#227;o de licenciatura &#8211; porque tencionava come&#231;ar a trabalhar nela bastante cedo &#8211; e me sugerisse um tema. Indicou-me a leitura de um c&#243;dice do Arquivo Municipal de Lisboa &#8211; o &#8220;Livro primeiro de servi&#231;os a el-rei&#8221; &#8211; como uma boa hip&#243;tese para iniciar a pesquisa. Assim foi. Gostei do que li e comecei de imediato a transcrever alguns dos documentos nele contidos. Penso que o meu entusiasmo agradou &#224; Senhora.</p>     <p>Como sua orientanda, com o apoio mais pr&#243;ximo do Professor Oliveira Marques, como colaboradora do Centro de Estudos Hist&#243;ricos, mais tarde como sua assistente, o nosso relacionamento foi-se tornando mais pr&#243;ximo, a desembocar numa sincera amizade. Penso que a conheci bastante bem.</p>     <p>Era uma Senhora nada distante dos seus colaboradores, ao contr&#225;rio do que soava pelos recantos da casa, mas de uma enorme frontalidade. Por isso, quando alguma coisa ou algu&#233;m lhe desagradava, n&#227;o se coibia de expressar o seu pensamento. E expressava-o perante a pessoa em causa, que poderia ent&#227;o, se fosse o caso, defender-se. N&#227;o o fazia escondendo-se ou insinuando. Era esta, por&#233;m, uma caracter&#237;stica que n&#227;o agradava a todos, porque n&#227;o gostamos de ser confrontados com os nossos erros, as nossas defici&#234;ncias, as nossas ignor&#226;ncias. Por isso concitou m&#225;s vontades.</p>     <p>Em muitas ocasi&#245;es se manifestou essa sua caracter&#237;stica de frontalidade, acompanhada de grande for&#231;a. Lembro, por exemplo, que, aquando das greves estudantis da d&#233;cada de 60, numa altura em que a pol&#237;cia fora chamada pela Faculdade de Direito a intervir dentro do respectivo edif&#237;cio, a Professora Virg&#237;nia Rau, ent&#227;o directora da Faculdade de Letras, mostrou o seu desagrado perante o facto e declarou bem alto: &#8220;Enquanto eu for directora desta Faculdade, a pol&#237;cia n&#227;o entrar&#225; aqui&#8221;. E assim foi. Mas, algum tempo depois, a direc&#231;&#227;o mudou para outras m&#227;os e dentro em pouco a pol&#237;cia entrava na Faculdade. Com consequ&#234;ncias, algumas delas graves, como muitos ainda se recordar&#227;o.</p>     <p>No desempenho daquele cargo a Senhora sofreu muitas desilus&#245;es, muitos desgostos.</p>     <p>N&#227;o era f&#225;cil, na altura, o exerc&#237;cio de qualquer poder no feminino.</p>     <p>Tinha um humor muito fino, por vezes bastante subtil. E n&#227;o raro esse humor se manifestava mais pela maneira como dizia as coisas do que pelas coisas que dizia.</p>     <p>Lembro um caso ocorrido durante as j&#225; referidas greves estudantis.</p>     <p>Todos n&#243;s, os membros do Centro de Estudos Hist&#243;ricos, reun&#237;amo-nos semanalmente para falarmos dos nossos trabalhos, dos projectos que entretanto desenvolv&#237;amos, do que gostar&#237;amos de fazer. Num desses dias, em plena greve e com a Faculdade ocupada pelos estudantes, t&#237;nhamos entrado por uma porta nas traseiras do edif&#237;cio &#8211; a que chamavam &#8220;porta da trai&#231;&#227;o&#8221; &#8211;, que se encontrava desocupada, e dirig&#237;amo-nos ao Centro para a nossa reuni&#227;o, quando, &#224; entrada do corredor que lhe dava acesso, verific&#225;mos que come&#231;ava rapidamente a constituir-se um grupo destinado a obstruir a passagem. A Senhora ia &#224; frente e n&#227;o se desviou um mil&#237;metro, nem modificou o ritmo do passo. Continuou em frente. N&#243;s segu&#237;amos na sua esteira. Ent&#227;o, quando nos aproxim&#225;mos, o grupo abriu alas e todos pass&#225;mos. A Senhora agradeceu. Entr&#225;mos no Centro, fech&#225;mos a porta. &#205;amos &#224; nossa reuni&#227;o. Come&#231;&#225;mos de imediato a ouvir cantar, em altas vozes, uma can&#231;&#227;o, n&#227;o lembro qual. Apenas recordo que n&#227;o era uma daquelas can&#231;&#245;es &#8220;revolucion&#225;rias&#8221; que os estudantes costumavam entoar &#224; porta da aula de alguns professores a quem queriam manifestar o seu pouco apre&#231;o, mas uma can&#231;&#227;o an&#243;dina, que os meios de comunica&#231;&#227;o social transmitiam e todos cantavam. Ent&#227;o a Senhora abriu a porta, espreitou para fora e s&#243; disse, com toda a amabilidade: &#8220;&#201; t&#227;o bonita essa can&#231;&#227;o, mas voc&#234;s desafinam tanto!&#8221; Ouvimos uma gargalhada colectiva e o grupo dispersou.</p>     <p>Numa altura em que a internacionaliza&#231;&#227;o era t&#227;o dif&#237;cil, mormente quando se tratava de algu&#233;m &#8211; ia a dizer de uma mulher &#8211; proveniente de um pa&#237;s t&#227;o perif&#233;rico quanto o nosso, a Professora Virg&#237;nia Rau tornou-se internacionalmente conhecida e apreciada. Figuras grandes da medieval&#237;stica europeia &#8211; Michel Mollat, Jacques Heers, Federigo Melis, entre outros &#8211; tinham-na em grande apre&#231;o e v&#225;rios foram aqueles que, a seu convite, aqui se deslocaram a fazer confer&#234;ncias, a participar em encontros cient&#237;ficos. O &#250;ltimo foi, precisamente, Michel Mollat, que aqui veio abrir as jornadas sobre a pobreza, realizadas em 1972. E foi o &#250;ltimo evento cient&#237;fico organizado pela Professora Virg&#237;nia Rau. Numa &#233;poca em que n&#227;o se valorizavam, como hoje em dia, os projectos internacionais, desenvolveu durante anos, com Federigo Melis, um trabalho sobre as rela&#231;&#245;es entre Portugal e It&#225;lia. Numa &#233;poca em que a hist&#243;ria econ&#243;mica era considerada &#8220;subversiva&#8221;, foi dentro dessas tem&#225;ticas que trabalhou mais afincadamente, de que s&#227;o exemplos os seus estudos sobre as feiras, as sesmarias, os mercadores e o com&#233;rcio ou o sal, entre outros. Trabalhos que ainda actualmente se consultam com muito proveito ou s&#227;o mesmo, para determinadas tem&#225;ticas, de leitura obrigat&#243;ria. Trabalhos que influenciaram outros investigadores, mais jovens, a seguir na mesma senda.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Deixou-nos precocemente, quando ainda muito havia a esperar do seu saber, dos seus ensinamentos, da sua capacidade de dirigir, motivar, abrir horizontes. Deixou um lugar em aberto, dif&#237;cil de preencher.</p>      ]]></body>
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