<?xml version="1.0" encoding="ISO-8859-1"?><article xmlns:mml="http://www.w3.org/1998/Math/MathML" xmlns:xlink="http://www.w3.org/1999/xlink" xmlns:xsi="http://www.w3.org/2001/XMLSchema-instance">
<front>
<journal-meta>
<journal-id>0874-6885</journal-id>
<journal-title><![CDATA[Faces de Eva. Estudos sobre a Mulher]]></journal-title>
<abbrev-journal-title><![CDATA[Faces de Eva. Estudos sobre a Mulher]]></abbrev-journal-title>
<issn>0874-6885</issn>
<publisher>
<publisher-name><![CDATA[Equipa de Investigação Faces de Eva. Estudos sobre a Mulher, CICS.NOVA - Centro Interdisciplinar de Ciências Socias, Faculdade de Ciências Sociais e Humanas, Universidade NOVA de Lisboa, Portugal.]]></publisher-name>
</publisher>
</journal-meta>
<article-meta>
<article-id>S0874-68852017000100007</article-id>
<title-group>
<article-title xml:lang="pt"><![CDATA[Contextos socioculturais, discursos e percepções sobre a mutilação genital feminina]]></article-title>
<article-title xml:lang="en"><![CDATA[Female genital mutilation: Socialcultural contexts, discourses and perceptions]]></article-title>
</title-group>
<contrib-group>
<contrib contrib-type="author">
<name>
<surname><![CDATA[Cerejo]]></surname>
<given-names><![CDATA[Dalila]]></given-names>
</name>
<xref ref-type="aff" rid="A1"/>
</contrib>
<contrib contrib-type="author">
<name>
<surname><![CDATA[Teixeira]]></surname>
<given-names><![CDATA[Ana Lúcia]]></given-names>
</name>
<xref ref-type="aff" rid="A2"/>
</contrib>
<contrib contrib-type="author">
<name>
<surname><![CDATA[Lisboa]]></surname>
<given-names><![CDATA[Manuel]]></given-names>
</name>
<xref ref-type="aff" rid="A3"/>
</contrib>
</contrib-group>
<aff id="AA1">
<institution><![CDATA[,Universidade Nova de Lisboa Faculdade de Ciências Sociais e Humanas Centro Interdisciplinar de Ciências Sociais]]></institution>
<addr-line><![CDATA[Lisboa ]]></addr-line>
</aff>
<aff id="AA2">
<institution><![CDATA[,Universidade Nova de Lisboa Faculdade de Ciências Sociais e Humanas Centro Interdisciplinar de Ciências Sociais]]></institution>
<addr-line><![CDATA[Lisboa ]]></addr-line>
</aff>
<aff id="AA3">
<institution><![CDATA[,Universidade Nova de Lisboa Faculdade de Ciências Sociais e Humanas Centro Interdisciplinar de Ciências Sociais]]></institution>
<addr-line><![CDATA[Lisboa ]]></addr-line>
</aff>
<pub-date pub-type="pub">
<day>00</day>
<month>06</month>
<year>2017</year>
</pub-date>
<pub-date pub-type="epub">
<day>00</day>
<month>06</month>
<year>2017</year>
</pub-date>
<numero>37</numero>
<fpage>83</fpage>
<lpage>103</lpage>
<copyright-statement/>
<copyright-year/>
<self-uri xlink:href="http://scielo.pt/scielo.php?script=sci_arttext&amp;pid=S0874-68852017000100007&amp;lng=en&amp;nrm=iso"></self-uri><self-uri xlink:href="http://scielo.pt/scielo.php?script=sci_abstract&amp;pid=S0874-68852017000100007&amp;lng=en&amp;nrm=iso"></self-uri><self-uri xlink:href="http://scielo.pt/scielo.php?script=sci_pdf&amp;pid=S0874-68852017000100007&amp;lng=en&amp;nrm=iso"></self-uri><abstract abstract-type="short" xml:lang="pt"><p><![CDATA[A Mutilação Genital Feminina, ou Corte dos Genitais Femininos (MGF/CGF), constitui-se como mais uma das formas de violência baseada no género e um atentado aos direitos e liberdades das crianças, meninas e mulheres em vários países do mundo, incluindo Portugal. São graves as consequências para a saúde física e psicológica das mulheres e meninas a ela submetidas. A MGF/CGF é hoje considerada um problema de direitos humanos e de saúde pública incontornável para a maioria dos países europeus que acolhem populações migrantes oriundas dos países praticantes. Neste artigo, exploraremos a magnitude e extensão do fenómeno, ao mesmo tempo que analisaremos os contextos socioculturais da prática, sobretudo a partir de entrevistas realizadas a mulheres a residir em Portugal e que foram submetidas a esta prática nefasta]]></p></abstract>
<abstract abstract-type="short" xml:lang="en"><p><![CDATA[Female Genital Mutilation or Genital Cutting (FGM/GC) is a form of gender-based violence and an attack on the rights and freedoms of girls and women in several countries of the world, including Portugal. With serious consequences for the physical and psychological health of women and girls who have been subjected to FGM/GC, it is now considered as a human rights and public health issue, unavoidable for most European countries that host migrant populations from the countries where FGM/GC is practiced. In this article, we will explore the magnitude and extent of the phenomenon, while analyzing the sociocultural contexts of FGM/GC, namely through interviews conducted with women residing in Portugal who were subjected to this harmful practice]]></p></abstract>
<kwd-group>
<kwd lng="pt"><![CDATA[Mutilação Genital Feminina]]></kwd>
<kwd lng="pt"><![CDATA[violência contra as mulheres]]></kwd>
<kwd lng="pt"><![CDATA[género]]></kwd>
<kwd lng="en"><![CDATA[Female Genital Mutilation]]></kwd>
<kwd lng="en"><![CDATA[violence against women]]></kwd>
<kwd lng="en"><![CDATA[gender]]></kwd>
</kwd-group>
</article-meta>
</front><body><![CDATA[ <p align="right"><font size="2"><b>ESTUDOS</b></font></p>     <p><font size="4"><b>Contextos socioculturais, discursos e percep&#231;&#245;es sobre a mutila&#231;&#227;o genital feminina</b></font><a href="#0">*</a><a name="top0"></a> </p>     <p><b>Female genital mutilation: Socialcultural contexts, discourses and perceptions</b></p>     <p><b>Dalila Cerejo* , Ana L&#250;cia Teixeira**, &#160;Manuel Lisboa***</b></p>     <p>* Universidade Nova de Lisboa, Faculdade de Ci&#234;ncias Sociais e Humanas, Centro Interdisciplinar de Ci&#234;ncias Sociais, Observat&#243;rio Nacional de Viol&#234;ncia e G&#233;nero, <a href="mailto:dalilacerejo@fcsh.unl.pt">dalilacerejo@fcsh.unl.pt</a> </p>     <p>** Universidade Nova de Lisboa, Faculdade de Ci&#234;ncias Sociais e Humanas, Centro Interdisciplinar de Ci&#234;ncias Sociais, Observat&#243;rio Nacional de Viol&#234;ncia e G&#233;nero, <a href="mailto:analuciateixeira@fcsh.unl.pt">analuciateixeira@fcsh.unl.pt</a> </p>     <p>*** Universidade Nova de Lisboa, Faculdade de Ci&#234;ncias Sociais e Humanas, Centro Interdisciplinar de Ci&#234;ncias Sociais, Observat&#243;rio Nacional de Viol&#234;ncia e G&#233;nero, <a href="mailto:m.lisboa@fcsh.unl.pt">m.lisboa@fcsh.unl.pt</a></p> <hr/>     <p>&nbsp;</p>     <p><B>RESUMO</b></p>     <p>A Mutila&#231;&#227;o Genital Feminina, ou Corte dos Genitais Femininos (MGF/CGF), constitui-se como mais uma das formas de viol&#234;ncia baseada no g&#233;nero e um atentado aos direitos e liberdades das crian&#231;as, meninas e mulheres em v&#225;rios pa&#237;ses do mundo, incluindo Portugal. S&#227;o graves as consequ&#234;ncias para a sa&#250;de f&#237;sica e psicol&#243;gica das mulheres e meninas a ela submetidas. A MGF/CGF &#233; hoje considerada um problema de direitos humanos e de sa&#250;de p&#250;blica incontorn&#225;vel para a maioria dos pa&#237;ses europeus que acolhem popula&#231;&#245;es migrantes oriundas dos pa&#237;ses praticantes. Neste artigo, exploraremos a magnitude e extens&#227;o do fen&#243;meno, ao mesmo tempo que analisaremos os contextos socioculturais da pr&#225;tica, sobretudo a partir de entrevistas realizadas a mulheres a residir em Portugal e que foram submetidas a esta pr&#225;tica nefasta. </p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><b>Palavras-chave: </b>Mutila&#231;&#227;o Genital Feminina, viol&#234;ncia contra as mulheres, g&#233;nero. </p> <hr/>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>ABSTRACT</b></p>     <p>Female Genital Mutilation or Genital Cutting (FGM/GC) is a form of gender-based violence and an attack on the rights and freedoms of girls and women in several countries of the world, including Portugal. With serious consequences for the physical and psychological health of women and girls who have been subjected to FGM/GC, it is now considered as a human rights and public health issue, unavoidable for most European countries that host migrant populations from the countries where FGM/GC is practiced. In this article, we will explore the magnitude and extent of the phenomenon, while analyzing the sociocultural contexts of FGM/GC, namely through interviews conducted with women residing in Portugal who were subjected to this harmful practice.</p>     <p><b>Keywords<i>: </i></b><i>Female Genital Mutilation, violence against women, gender </i></p> <hr/>     <p>&nbsp;</p>     <p>1. Enquadramento e extens&#227;o do problema social da MGF/CGF </p>     <p>A mutila&#231;&#227;o genital feminina, ou corte dos genitais femininos (MGF/CGF), diz respeito a &#8220;todos os procedimentos que envolvam a remo&#231;&#227;o parcial ou total dos &#243;rg&#227;os genitais femininos externos ou quaisquer danos infligidos aos &#243;rg&#227;os genitais femininos por motivos n&#227;o m&#233;dicos&#8221; (APF, 2009, p. 1). &#201; uma pr&#225;tica perene ainda hoje realizada em v&#225;rios pa&#237;ses do mundo e que &#233; encarada como uma grave viola&#231;&#227;o aos direitos humanos e da cidadania das mulheres, bem como um problema de sa&#250;de p&#250;blica (Resolu&#231;&#227;o 1662 do CoE, 2009; Resolu&#231;&#227;o 2001/2035 (INI) do Parlamento Europeu, 2001; Declara&#231;&#227;o Universal dos Direitos Humanos, 1948; CEDAW, 1979). Enquanto problema social global que continua a p&#244;r em risco a vida de milh&#245;es de mulheres e crian&#231;as, a MGF/CGF &#233; uma pr&#225;tica que reflecte inequivocamente quest&#245;es de discrimina&#231;&#227;o e estigmatiza&#231;&#227;o com base no g&#233;nero, cristalizadas em assimetrias de poder, reflectindo uma das muitas formas de viol&#234;ncia contra as mulheres, com nefastas consequ&#234;ncias para a sa&#250;de, educa&#231;&#227;o e empoderamento das suas v&#237;timas (Gon&#231;alves, 2005; Otoo-Oyortey, 2007). </p>     <p>As estimativas da Organiza&#231;&#227;o Mundial de Sa&#250;de apontam para que cerca de 130 milh&#245;es de meninas tenham sido submetidas a algum dos tipos de mutila&#231;&#227;o genital e tr&#234;s milh&#245;es por ano estejam em risco, apenas no contexto do continente africano (WHO, 2000). O tipo de mutila&#231;&#227;o ou corte realizado varia consoante o pa&#237;s ou os grupos &#233;tnicos praticantes. &#201; comummente realizada em raparigas entre os 0 e os 15 anos, mas tamb&#233;m o pode ser em mulheres adultas, sendo que, conforme as comunidades e o contexto sociocultural, pode ser levada a cabo desde o nascimento at&#233; ao casamento e p&#243;s-parto.</p>     <p>A preval&#234;ncia da MGF/CGF &#233; muito diversificada, podendo variar entre 1% (como no caso dos Camar&#245;es e do Uganda) e 98% (como acontece na Som&#225;lia) (UNICEF, 2013), encontrando-se identificada em 29 pa&#237;ses africanos e do M&#233;dio Oriente, numa faixa que come&#231;a a oeste, no Senegal, at&#233; ao I&#233;men, a este, limitada pelo Egipto, a norte, e pela Tanz&#226;nia, a sul (<a href="#f1">Figura 1</a>). </p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>     <p align="center"><a name="f1"></a><img src="/img/revistas/eva/n37/n37a07f1.jpg"/></p>     
<p>&nbsp;</p>     <p>No entanto, a MGF/CGF n&#227;o se circunscreve &#224;s fronteiras dos pa&#237;ses onde ela &#233; mais conhecida. Enquanto pr&#225;tica enraizada culturalmente, a MGF/CGF acompanha as popula&#231;&#245;es migrantes, como elemento de uma identidade cultural que continuam a abra&#231;ar, tornando-se assim numa preocupa&#231;&#227;o de muitos outros pa&#237;ses que acolhem as popula&#231;&#245;es oriundas daqueles territ&#243;rios. &#201; esse o caso portugu&#234;s, onde se estima que 6576 mulheres com 15 ou mais anos tenham sido v&#237;timas de MGF/CGF (5246 mulheres em idade reprodutiva) e ainda que 1830 meninas (at&#233; aos 15 anos de idade) tenham j&#225; sido submetidas &#224; pr&#225;tica ou estejam em risco de o ser (Teixeira &amp; Lisboa, 2016).</p>     <p>De facto, a Europa<a href="#1"><sup>1</sup></a><a name="top1"></a>, a Am&#233;rica do Norte, a Austr&#225;lia e a Nova Zel&#226;ndia s&#227;o regi&#245;es do globo onde o fim da MGF/CGF se tornou j&#225; numa preocupa&#231;&#227;o premente (Andro, 2016), n&#227;o obstante a impossibilidade de obten&#231;&#227;o de um quadro comparativo das preval&#234;ncias nos diferentes pa&#237;ses, dada a variedade de metodologias e de dados que s&#227;o mobilizados para a sua estima&#231;&#227;o (Lisboa et al., 2015). Sabemos, contudo, que as realidades nos pa&#237;ses que acolhem estas popula&#231;&#245;es s&#227;o muito diversas; a t&#237;tulo de exemplo, podemos olhar para o caso da Inglaterra e do Pa&#237;s de Gales, onde se estima que a&#237; residam 137 mil mulheres que j&#225; foram submetidas &#224; MGF/CGF (Macfarlane &amp; Dorkenoo, 2014). </p>     <p>No contexto nacional, e em cumprimento das recomenda&#231;&#245;es estabelecidas na conven&#231;&#227;o do Conselho da Europa para a preven&#231;&#227;o e o combate &#224; viol&#234;ncia contra as mulheres e a viol&#234;ncia dom&#233;stica &#8211; Conven&#231;&#227;o de Istambul<a href="#2"><sup>2</sup></a><a name="top2"></a> (CoE, 2011), Portugal tem adoptado medidas de protec&#231;&#227;o das v&#237;timas, de preven&#231;&#227;o e de compreens&#227;o do fen&#243;meno, tendo sido o primeiro Estado-membro da Uni&#227;o Europeia a ratificar este instrumento internacional. </p>     <p>No que se refere &#224; moldura penal portuguesa sobre esta pr&#225;tica, a MGF/CGF constitui-se hoje como um crime p&#250;blico, atrav&#233;s da Lei n.&#186; 83/2015, de 5 de Agosto<a href="#3"><sup>3</sup></a><a name="top3"></a>. No artigo 144.&#186;-A pode ler-se: &#8220;1 &#8211; Quem mutilar genitalmente, total ou parcialmente, pessoa do sexo feminino atrav&#233;s de clitoridectomia, de infibula&#231;&#227;o, de excis&#227;o ou de qualquer outra pr&#225;tica lesiva do aparelho genital feminino por raz&#245;es n&#227;o m&#233;dicas &#233; punido com pena de pris&#227;o de 2 a 10 anos&#8221;. Tamb&#233;m os actos preparat&#243;rios s&#227;o punidos com pena de pris&#227;o at&#233; tr&#234;s anos. Esta nova moldura penal nacional alinha-se com a orienta&#231;&#227;o da Conven&#231;&#227;o de Istambul, adoptada em 11 de Maio de 2011, que, no artigo 38.&#186;, prev&#234; explicitamente que os seus signat&#225;rios tomem as medidas legislativas necess&#225;rias para assegurar a criminaliza&#231;&#227;o desta pr&#225;tica. Actualmente, menos de metade dos pa&#237;ses membros da Uni&#227;o Europeia (22 dos 47) ratificou a Conven&#231;&#227;o de Istambul (CoE, 2017), revelando-se como indicador da car&#234;ncia de um quadro penal e legislativo transnacional que puna a pr&#225;tica da MGF/CGF. </p>     <p>Todas estas medidas e orienta&#231;&#245;es promovidas pelas mais altas inst&#226;ncias internacionais, bem como todas as altera&#231;&#245;es legislativas e penais no contexto nacional, prendem-se, fundamentalmente, com a percep&#231;&#227;o, por parte dos decisores pol&#237;ticos, de que a MGF/CGF se constitui como um atentado &#224; liberdade e direitos de mulheres e meninas, com consequ&#234;ncias para a sa&#250;de f&#237;sica e psicol&#243;gica, atentat&#243;rias das suas vidas, como analisaremos de seguida.</p>     <p>2. A MGF/C como um problema de sa&#250;de p&#250;blica </p>     <p>A pr&#225;tica da MGF/CGF afecta gravemente os direitos e a sa&#250;de das mulheres, meninas e raparigas, n&#227;o apenas no que diz respeito &#224; sua sa&#250;de f&#237;sica e psicol&#243;gica, mas tamb&#233;m &#224; sa&#250;de sexual e reprodutiva. As consequ&#234;ncias para a sa&#250;de f&#237;sica s&#227;o extensas e algumas delas colocam em risco a pr&#243;pria vida das mulheres e raparigas. Ao n&#237;vel dos efeitos para a sa&#250;de f&#237;sica, reprodutiva e sexual destacamos: </p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&#183;&#160;&#160; &#8220;hemorragias, infec&#231;&#245;es localizadas e septicemias e tardias, estas persistindo durante uma vida: infec&#231;&#245;es genitais e urin&#225;rias, dores e lacera&#231;&#245;es durante as rela&#231;&#245;es sexuais, hemorragias e f&#237;stulas obst&#233;tricas acarretando dores, incapacidade, infertilidade&#8221; (Gon&#231;alves, 2005, p. 3);</p>     <p>&#183;&#160;&#160; &#8220;quistos seb&#225;ceos ou de inclus&#227;o (quistos derm&#243;ides), quel&#243;ide, &#250;lcera, neurinoma e dismenorreia&#8221; (Vicente, 2007, p. 91);</p>     <p>&#183;&#160;&#160; obstru&#231;&#227;o do trabalho de parto, ruptura dos tecidos, prolongamento do per&#237;odo expulsivo, aumento do n&#250;mero de cesarianas, sofrimento fetal ou trabalho de parto prolongado e doloroso (Campos, 2010);</p>     <p>&#183;&#160;&#160; aumento significativo do risco de contrair VIH e outras infec&#231;&#245;es sexualmente transmiss&#237;veis (EIGE, 2013); </p>     <p>&#183;&#160;&#160; impossibilidade de uma vida sexual saud&#225;vel, uma vez que a MGF/CGF pode causar les&#245;es graves e extensas no tecido vaginal: &#8220;a penetra&#231;&#227;o vaginal feita atrav&#233;s do tecido genital lesado e cicatrizado pode ser dif&#237;cil ou imposs&#237;vel, existindo ruptura do tecido, provocando novas hemorragias e dor intensa&#8221; (Gon&#231;alves, 2005, p. 21). </p>     <p>Mas n&#227;o &#233; apenas o corte propriamente dito que contribui para a extensa lista de consequ&#234;ncias que afectam a sa&#250;de e a vida das mulheres e meninas que a ele s&#227;o submetidas. O uso de facas, l&#226;minas ou mesmo peda&#231;os de vidro n&#227;o esterilizados na realiza&#231;&#227;o do corte, a aus&#234;ncia de anestesia e/ou cuidados anti-s&#233;pticos, num procedimento que pode demorar at&#233; 20 minutos (Frade &amp; Gon&#231;alves, n.d.), potenciam, em grande medida, as consequ&#234;ncias para a sa&#250;de acima enunciadas. Paralelamente, e ainda que a todos os tipos de mutila&#231;&#227;o estejam associadas consequ&#234;ncias para a sa&#250;de, a gravidade do impacto parece ser proporcional &#224; extens&#227;o do procedimento. Como nos explica Otoo-Oyortey: &#8220;crian&#231;as de m&#227;es que se submeteram a formas mais extensivas e (invasivas) da MGF/CGF tinham maior risco de morrer durante o parto, em compara&#231;&#227;o com as crian&#231;as de m&#227;es n&#227;o sujeitas &#224; MGF/CGF&#8221; (2007, p. 13).</p>     <p>Mesmo perante todas estas consequ&#234;ncias para a sa&#250;de das mulheres e meninas, esta pr&#225;tica continua a ser realizada em larga escala. Que explica&#231;&#245;es podem existir para a perenidade desta pr&#225;tica nefasta? Tentaremos em seguida analisar algumas das causas, percep&#231;&#245;es e representa&#231;&#245;es sobre a MGF/CGF e os contextos socioculturais que t&#234;m contribu&#237;do para a sua sobreviv&#234;ncia.</p>     <p>3. Contextos socioculturais e hist&#243;ricos da MGF/CGF </p>     <p>A MGF/CGF &#8220;esconde uma diversidade de realidades, sentidos e experi&#234;ncias&#8221; (Cunha, 2013, p. 843), assumindo distintas denomina&#231;&#245;es em diferentes pa&#237;ses ou grupos que a praticam; &#8220;dependendo dos pa&#237;ses onde a MGF/CGF ocorre, podemos encontrar algumas das seguintes designa&#231;&#245;es: circuncis&#227;o feminina, excis&#227;o, <i>sunna</i>, opera&#231;&#227;o, cirurgia genital feminina, clitoridectomia, pr&#225;tica tradicional, fanado, entre outras. Algumas comunidades islamizadas ou mu&#231;ulmanas que praticam a MGF/CGF referem-se a ela como <i>sunna</i>, podendo ainda adquirir termos aut&#243;ctones, como <i>fanadu</i> no crioulo da Guin&#233;-Bissau, <i>&#241;yakaa emmandinga</i> e <i>gudniin gadbahaada</i> em somali&#8221; (Lisboa et al., 2015, p. 24). </p>     <p>No que se refere &#224; origem geogr&#225;fica da MGF/CGF, existem pistas que apontam para o seu aparecimento no Egipto, nomeadamente algumas an&#225;lises forenses realizadas nas m&#250;mias eg&#237;pcias, nas quais se observavam ind&#237;cios da realiza&#231;&#227;o da pr&#225;tica (Branco, 2006). No antigo Egipto acreditava-se que &#8220;o clit&#243;ris representava a parte masculina da mulher, tal como o prep&#250;cio representava a feminina do homem. A remo&#231;&#227;o quer de um quer de outro ser&#225; ent&#227;o necess&#225;ria para a assun&#231;&#227;o de um papel social definido em fun&#231;&#227;o do g&#233;nero, permitindo ser &#8216;verdadeiros&#8217; homens e &#8216;verdadeiras&#8217; mulheres, com as responsabilidades e os pap&#233;is inerentes&#8221; (Martingo, 2009, p. 47). Assim, j&#225; neste per&#237;odo hist&#243;rico a pr&#225;tica da MGF/CGF apontava para motiva&#231;&#245;es culturais e sociais de diferencia&#231;&#227;o de g&#233;nero. </p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>As dimens&#245;es culturais constituem-se, ali&#225;s, como um importante sustent&#225;culo da pr&#225;tica: &#8220;a preserva&#231;&#227;o da virgindade e uma maior fertilidade das raparigas e mulheres. A MFG/CGF &#233; vista como uma pr&#225;tica que visa reduzir os desejos sexuais das mulheres, as mant&#233;m fi&#233;is aos maridos e virgens antes do casamento; ser&#227;o estas as bases para um &#8216;bom casamento&#8217;&#8221; (Lisboa et al., 2015, p. 26). O tecido e a organiza&#231;&#227;o sociais destas comunidades, marcadamente patriarcais, s&#227;o baseados no pressuposto do casamento e da constitui&#231;&#227;o de fam&#237;lia e, nesse sentido, &#8220;a MGF/CGF surge como uma forma de perpetuar o controlo e o poder masculino e das fam&#237;lias sobre a sexualidade das mulheres e raparigas. Associada &#224; pureza e virgindade das mulheres, &#233;, em algumas comunidades, um pr&#233;-requisito para casar, ajudando a sua pr&#225;tica a manter a moralidade e a fidelidade. &#192;s fam&#237;lias incube-se a responsabilidade de tornar as filhas &#8216;aceit&#225;veis&#8217; para um futuro marido&#8221; (Lisboa et al., 2015, p. 27). No seio destas comunidades, a MGF/CGF &#233; condi&#231;&#227;o <i>sine qua non</i> para um casamento consonante com a tradi&#231;&#227;o e os valores destas comunidades (Mackie, 2000). S&#227;o manifestas as in&#250;meras formas como a MGF/CGF contribui para o controlo e opress&#227;o dos direitos das mulheres e raparigas, em prol da conserva&#231;&#227;o e perpetua&#231;&#227;o da &#8220;integridade da linhagem, sendo por essa via que as mulheres asseguram poder e estatuto no grupo de parentesco nalgumas sociedades patrilineares e patriarcais&#8221; (Cunha, 2013, p. 841). </p>     <p>Martingo analisa a MGF/CGF e o corpo mutilado como um espa&#231;o de inscri&#231;&#227;o: o acto de marcar ou produzir altera&#231;&#245;es nos &#243;rg&#227;os genitais &#233; o que vai permitir &#224; mulher integrar-se na sociedade a que pertence. O corpo &#233; usado como meio para a diferencia&#231;&#227;o e integra&#231;&#227;o social (Martingo, 2009, p. 31). A altera&#231;&#227;o do corpo da mulher, atrav&#233;s da interven&#231;&#227;o nos seus genitais, permite a sua progress&#227;o social, a sua passagem para a idade adulta ou, pelo menos, a sua disponibilidade social para ser considerada como tal.</p>     <p>Associada de forma vincada a valores patriarcais, s&#227;o fundamentalmente as m&#227;es, av&#243;s e tias que exercem press&#227;o e/ou efectivam a submiss&#227;o &#224; pr&#225;tica das meninas e raparigas das suas fam&#237;lias. No fundo, este &#233;, como vimos, um ritual incontorn&#225;vel para evitar, no futuro, processos de estigmatiza&#231;&#227;o e discrimina&#231;&#227;o social das mulheres no seio das suas comunidades. A pr&#225;tica refor&#231;a a &#8220;honra da fam&#237;lia&#8221; de forma t&#227;o extremamente marcada que se consegue sobrepor &#224;s consequ&#234;ncias nefastas para a sa&#250;de das meninas ou mulheres: as infec&#231;&#245;es ou outras complica&#231;&#245;es, e por vezes mesmo a morte, s&#227;o atribu&#237;das aos &#8220;pecados&#8221; que a fam&#237;lia possivelmente cometeu e que levou a uma &#8220;interven&#231;&#227;o divina&#8221; de castigo (Branco, 2006).</p>     <p>A realiza&#231;&#227;o do corte est&#225;, tradicionalmente, a cargo das mulheres mais velhas das comunidades, denominadas por <i>fanatecas</i> ou <i>excisadoras</i> (Martingo, 2009, p. 113). Estas mulheres s&#227;o vistas como detentoras de um &#8220;poder&#8221; ou &#8220;alquimia&#8221; que lhes foi sendo transmitido de gera&#231;&#227;o em gera&#231;&#227;o (Gon&#231;alves, 2005). Os contornos e din&#226;micas socioculturais da MGF/CGF t&#234;m conseguido sobreviver e ser perpetuados &#8220;numa rede de poder local, como (a participa&#231;&#227;o d)os l&#237;deres religiosos tradicionais, circuncisadores/<i>excisadoras</i>, anci&#227;os (&#8230;). Em muitas sociedades, as anci&#227;s que foram sujeitas &#224; mutila&#231;&#227;o actuam como guardi&#227;s da pr&#225;tica, considerando-a essencial &#224; identidade de meninas e mulheres&#8221; (APF, 2009, p. 9).</p>     <p>Apesar de, aparentemente, a decis&#227;o de submeter as meninas e mulheres &#224; pr&#225;tica seja atribu&#237;da &#224;s mulheres, este &#233; &#8220;um ritual perpetrado por mulheres&#8230; para capricho dos homens&#8221; (Branco, 2006, p. 51) e, nesse sentido, &#8220;os homens t&#234;m um papel na perpetua&#231;&#227;o da mutila&#231;&#227;o genital feminina uma vez que muitas das causas para a sua pr&#225;tica remetem para as cren&#231;as na fidelidade, na mutila&#231;&#227;o, uma ac&#231;&#227;o intencional, com base nos valores da honra da mulher e da sua fam&#237;lia e no aumento do prazer sexual masculino&#8221; (Lisboa et al., 2015, p. 29). </p>     <p>Para al&#233;m da dimens&#227;o cultural, que associa esta pr&#225;tica a estere&#243;tipos de g&#233;nero marcadamente patriarcais, encontramos a liga&#231;&#227;o entre MGF/CGF e religi&#227;o. Apesar de n&#227;o existir nenhuma refer&#234;ncia &#224; MGF/CGF em nenhum dos tr&#234;s livros sagrados (Branco, 2006), esta pr&#225;tica &#233; comummente associada a preceitos religiosos, particularmente isl&#226;micos, como ali&#225;s teremos oportunidade de analisar atrav&#233;s dos discursos das mulheres submetidas &#224; MGF/CGF. </p>     <p>A liga&#231;&#227;o entre o islamismo e a pr&#225;tica da MGF/CGF ter&#225; surgido de uma interpreta&#231;&#227;o incorrecta ou d&#250;bia de um dos epis&#243;dios da vida de Abra&#227;o, cuja hist&#243;ria assim se pode descrever: &#8220;profeta e patriarca das tr&#234;s religi&#245;es monote&#237;stas (&#8230;) casou com a bela mas est&#233;ril Sara, que, dada a impossibilidade de lhe dar filhos, sugeriu que ele tomasse outra mulher que lhe desse descendentes. Abra&#227;o escolheu Agar, a escrava eg&#237;pcia, que engravidou. Existem v&#225;rias vers&#245;es do fim da hist&#243;ria (a oficial consta do Velho Testamento, G&#233;nesis, 16), mas a que interessa para o caso conta que Sara, apercebendo-se do interesse crescente de Abra&#227;o por Agar, virou a sua ira contra a escrava, mutilando o seu &#243;rg&#227;o sexual&#8221; (<i>Branco, 2006</i>, p. 59). Martingo refere um outro epis&#243;dio que poder&#225; ajudar a compreender a liga&#231;&#227;o socio-hist&#243;rica entre MGF/CGF e a religi&#227;o isl&#226;mica: &#8220;A circuncis&#227;o foi ordenada por Deus a Abra&#227;o como sinal de alian&#231;a entre o seu povo e Deus, os defensores do corte v&#234;em-no como uma obriga&#231;&#227;o para os descendentes do patriarca, indistintamente para homens e mulheres&#8221; (Martingo, 2009, p. 171). Actualmente, alguns l&#237;deres religiosos t&#234;m-se pronunciado sobre a sua pr&#225;tica. Por exemplo, &#8220;Sheik David Munir, im&#227; da Mesquita de Lisboa, (...) &#233; perempt&#243;rio ao afirmar que o Isl&#227;o &#233; contra a mutila&#231;&#227;o de raparigas e mulheres, tal como &#233; contra qualquer sofrimento voluntariamente infligido a terceiros&#8221; (Martingo, 2009, p. 173). Apesar da aus&#234;ncia de refer&#234;ncias &#224; pr&#225;tica nos livros sagrados (o Alcor&#227;o desconstruiu a associa&#231;&#227;o entre a tradi&#231;&#227;o da pr&#225;tica da MGF/CGF e a religi&#227;o), parece ainda ser uma das quest&#245;es centrais no debate sobre as causas da perpetua&#231;&#227;o desta pr&#225;tica. Nesse dom&#237;nio, &#8220;divulga&#231;&#227;o da inexist&#234;ncia de refer&#234;ncias expl&#237;citas e inequ&#237;vocas a esta pr&#225;tica nos livros sagrados do Isl&#227;o ser&#225; necess&#225;ria para clarificar esta quest&#227;o&#8221; (<i>ibidem</i>, p. 121). Segundo Oberreiter (2008), a liga&#231;&#227;o entre religi&#227;o e a MGF/CGF est&#225; repleta de interpreta&#231;&#245;es err&#243;neas e pouco precisas. </p>     <p>4. Discursos, narrativas e percep&#231;&#245;es de mulheres submetidas &#224; pr&#225;tica </p>     <p>A MGF/CGF &#233; uma forma de viol&#234;ncia contra as mulheres que, como vimos, est&#225; ancorada na estrutura social das comunidades praticantes e colide frontalmente com os valores dos pa&#237;ses que as recebem. Um dos objectivos centrais do estudo nacional anteriormente identificado era o de entrevistar mulheres que tivessem sido submetidas &#224; mutila&#231;&#227;o. Para tal, foi constru&#237;do um gui&#227;o de entrevista estruturado, que foi aplicado a uma amostra de vinte mulheres oriundas da Guin&#233;-Bissau, sendo que o crit&#233;rio para a defini&#231;&#227;o da dimens&#227;o amostral foi o da satura&#231;&#227;o da informa&#231;&#227;o. Muito embora, segundo os dados censit&#225;rios de 2011, residam em Portugal mulheres oriundas de praticamente todos os 29 pa&#237;ses identificados como praticantes da MGF/CGF, &#233; a comunidade da Guin&#233;-Bissau aquela que se destaca numericamente, representando 89% das mulheres em idade reprodutiva provenientes de pa&#237;ses onde a MGF/CGF est&#225; identificada (Lisboa et al., 2015). </p>     <p>Assim, n&#227;o obstante se ter procurado entrevistar mulheres provenientes de outros territ&#243;rios (como o Senegal ou a Guin&#233;), apenas as mulheres oriundas da Guin&#233;-Bissau revelaram abertura para a realiza&#231;&#227;o das entrevistas. Apesar do apoio de Associa&#231;&#245;es como a Aguinenso, a Musqueba e a Associa&#231;&#227;o de Estudantes da Guin&#233;-Bissau em Lisboa para que nos fosse facilitado o acesso a mulheres oriundas dos v&#225;rios territ&#243;rios, foi-nos dito, por estas entidades e por outros/as informadores/as privilegiados/as, que a comunidade residente em Portugal que demonstra maior abertura para discutir o tema da MGF/CGF &#233; a da Guin&#233;-Bissau<a href="#4"><sup>4</sup></a><a name="top4"></a>, em grande medida porque esta comunidade se encontra mais bem adaptada e organizada no tecido social portugu&#234;s, quando comparada com outras origin&#225;rias de pa&#237;ses praticantes. Ainda, o facto de esta comunidade ser a que tendencialmente mais recorre a estas associa&#231;&#245;es pode ajudar a explicar a maior disponibilidade das mulheres da Guin&#233;-Bissau em falar sobre a tem&#225;tica em causa. </p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Sendo a MGF/CGF ainda um assunto tabu e inc&#243;modo para uma parte das pessoas oriundas dos pa&#237;ses praticantes, a abordagem &#224;s mulheres foi realizada atrav&#233;s de interlocutores/as e informadores/as privilegiados/as, pr&#243;ximos/as destas comunidades migrantes, a fim de averiguar a sua disponibilidade para a realiza&#231;&#227;o das entrevistas. Apesar dos referidos constrangimentos, que incluem igualmente barreiras lingu&#237;sticas<a href="#5"><sup>5</sup></a><a name="top5"></a>, os relatos que se seguem representam os testemunhos de algumas das vinte mulheres entrevistadas, oriundas da Guin&#233;-Bissau e com idades compreendidas entre os 21 e os 54 anos de idade<a href="#6"><sup>6</sup></a><a name="top6"></a>. </p>     <p>4.1. Percep&#231;&#245;es, representa&#231;&#245;es e consequ&#234;ncias da MGF/CGF: descri&#231;&#245;es de mulheres submetidas &#224; pr&#225;tica.<b>&#160; </b>Uma das dimens&#245;es da an&#225;lise discursiva das entrevistadas prende-se com as suas percep&#231;&#245;es, representa&#231;&#245;es e consequ&#234;ncias da MGF/CGF. Maioritariamente, estas mulheres manifestam-se contra a realiza&#231;&#227;o da pr&#225;tica. Um dos motivos mais apontado &#233; a gravidade das consequ&#234;ncias para a sa&#250;de: existe &#8220;uma consci&#234;ncia partilhada dentro da comunidade oriunda da Guin&#233;-Bissau de que a pr&#225;tica acarreta in&#250;meros problemas de sa&#250;de para as raparigas e mulheres e que essas consequ&#234;ncias se podem estender ao longo da vida&#8221; (Lisboa et al., 2015, p. 94). O testemunho que em seguida apresentamos &#233; demonstrativo da gravidade das consequ&#234;ncias para a sa&#250;de das mulheres, que resultam, em parte, da forma como o corte &#233; realizado: </p>     <p>A excis&#227;o n&#227;o &#233; nada bom, &#233; algo inventado que n&#227;o tem nenhum benef&#237;cio para as mulheres e as pessoas correm s&#233;rios riscos de serem infectadas com doen&#231;as porque as <i>fanatecas</i> usam a mesma faca para excisar todas as raparigas sem a esteriliza&#231;&#227;o da mesma. S&#243; limpam o sangue da faca e usam-na de seguida sem desinfectar, isso &#233; muito perigoso para a sa&#250;de das raparigas. Mas tamb&#233;m h&#225; riscos de hemorragias, como no meu caso. (E1, 54 anos)</p>     <p>No caso da comunidade da Guin&#233;-Bissau, o uso da faca para realizar o corte reveste-se de particular simbolismo. Martingo faz notar que a faca usada pela <i>fanateca</i> tem um significado &#8220;sagrado&#8221; e transgeracional, traduzindo-se numa &#8220;hereditariedade da profiss&#227;o&#8221; (2009, p. 49) e potenciando assim a exist&#234;ncia de mulheres <i>fanatecas</i> que continuam a perpetuar as l&#243;gicas simb&#243;licas do corte. Imbu&#237;da do seu car&#225;cter &#8220;sagrado&#8221;, a faca &#233; usada em meninas/mulheres diferentes contribuindo para a propaga&#231;&#227;o de todo o tipo de infec&#231;&#245;es e doen&#231;as infecto-contagiosas. Na Guin&#233;-Bissau, em 2003, 6% das gr&#225;vidas que recorreram aos centros de sa&#250;de do pa&#237;s eram portadoras do VIH/SIDA e, em 2004, as projec&#231;&#245;es apontavam para que, das sessenta mil gr&#225;vidas esperadas nesse ano, 3600 fossem portadoras do v&#237;rus (Martingo, 2009). </p>     <p>Estes relatos refor&#231;am a quest&#227;o das consequ&#234;ncias nefastas, por vezes mortais, para estas mulheres e meninas. Mesmo nas situa&#231;&#245;es em que as crian&#231;as desenvolvem quase de imediato sintomatologias relacionadas com a mutila&#231;&#227;o, os cuidados m&#233;dicos apropriados s&#227;o substitu&#237;dos por rituais de &#8220;cura&#8221; aplicados pelas <i>fanatecas</i>, como nos relata uma das entrevistadas: </p>     <p>A minha filha mais velha foi circuncidada com 7 anos de idade sem o meu conhecimento e do meu marido, quando foi passar f&#233;rias com a av&#243; paterna em Bafat&#225;. Ela tamb&#233;m teve hemorragia e passou pior que eu. Perdeu muito sangue e a <i>fanateca</i> ficou com medo, e eu pedi que deixassem que ela seja levada ao m&#233;dico mas n&#227;o me deram (&#8230;); depois a <i>fanateca</i> pegou na faca usada para circuncidar as meninas cheia de sangue, lavou-a e depois deram essa &#225;gua &#224; minha filha para beber a fim de parar a hemorragia e depois prepararam o f&#237;gado de vaca e fel cozinhando-os de uma forma meia cozida e deram &#224; mi&#250;da para comer e depois a hemorragia parou&#8230; mas ela tamb&#233;m tem um problema de anemia como eu. (E16, 37 anos)</p>     <p>Tamb&#233;m direitos sexuais e reprodutivos, postos em causa pela pr&#225;tica da MGF/CGF, foram repetidamente referidos pelas entrevistadas:&#160; </p>     <p>A MGF deixa marcas para sempre nas mulheres&#8230; acho que interfere muito com a intimidade da mulher, n&#227;o sei de que forma &#233; que fazem depois de cortarem o clit&#243;ris da mulher, se cosem ou n&#227;o, s&#243; sei que cortam o clit&#243;ris da mulher, mas pelo facto de cortarem o clit&#243;ris isso faz com que aquela mulher fique muito traumatizada e isso interfere depois na vida sexual da pessoa quando casar.</p>     <p>(E5, 44 anos)</p>     <p>Um corte deste tipo, que interfere na zona de maior sensibilidade e prazer sexual da mulher, condena-a a uma sexualidade ao servi&#231;o do outro, impossibilitando-a de usufruir do ciclo completo de resposta sexual humana e do prazer que seria poss&#237;vel (Lisboa et al., 2015).</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Apesar de todas as entrevistadas se terem manifestado contra a perpetua&#231;&#227;o da MGF/CGF, tamb&#233;m todas referiram como &#233; dif&#237;cil contrariar, muitas vezes no seio da pr&#243;pria fam&#237;lia, o enraizamento cultural da pr&#225;tica. O depoimento seguinte ilustra como este &#233;, ainda, um assunto tabu no seio da maioria das fam&#237;lias e como as meninas, raparigas e mulheres sofrem press&#245;es dos seus familiares mais pr&#243;ximos para que se sujeitem &#224; pr&#225;tica: </p>     <p>Mas n&#227;o &#233; f&#225;cil falar disto dentro da fam&#237;lia. Na fam&#237;lia, dentro mesmo da fam&#237;lia n&#227;o. Porque eles n&#227;o querem. N&#227;o querem falar do assunto, depois quando eles souberem que o assunto j&#225; est&#225; a ficar proibido, e a minha av&#243; n&#227;o queria que eu participasse na luta contra isso. Ela dizia assim &#8211; tu n&#227;o tens que participar na luta contra essa pr&#225;tica, porque tu &#233;s mu&#231;ulmana, tu &#233;s da religi&#227;o dessa pr&#225;tica. Eu j&#225; estou excisada, mas n&#227;o quero que isso aconte&#231;a com ningu&#233;m. (E7, 40 anos)</p>     <p>Na sua grande maioria, as meninas e raparigas que v&#227;o ser sujeitas &#224; pr&#225;tica n&#227;o s&#227;o disso informadas nem t&#227;o-pouco est&#227;o conscientes do que implica o ritual. Elas s&#227;o-lhe submetidas pelo peso e pela import&#226;ncia da tradi&#231;&#227;o no contexto das comunidades praticantes, como explica Martingo: &#8220;a realiza&#231;&#227;o do corte dos genitais, enquanto rito de inicia&#231;&#227;o, integra o conjunto de cren&#231;as e saberes que s&#227;o transmitidos de gera&#231;&#227;o em gera&#231;&#227;o, contribuindo assim para uma preserva&#231;&#227;o dos valores e tradi&#231;&#245;es que s&#227;o perten&#231;a de um grupo/comunidade&#8221; (2009, p. 134). Os depoimentos que se seguem reflectem o peso da tradi&#231;&#227;o e dos valores das comunidades e do contexto religioso no qual a pr&#225;tica se tem vindo a ancorar: </p>     <p>As crian&#231;as s&#227;o submetidas &#224; pr&#225;tica, n&#227;o pela vontade pr&#243;pria, mas sim sob a influ&#234;ncia dos pais e das av&#243;s ou por obriga&#231;&#227;o dos mesmos porque os mu&#231;ulmanos consideram que uma mulher tem de ser submetida &#224; pr&#225;tica para n&#227;o ser considerada impura; mas no entanto elas nem sabem das consequ&#234;ncias.</p>     <p>(E8, 38 anos)</p>     <p>Sim, fui excisada, mas eu n&#227;o sabia de nada que isso aconteceu&#8230; e a minha m&#227;e tamb&#233;m n&#227;o&#8230; ela n&#227;o &#233; f&#227; dessa pr&#225;tica, mas a minha av&#243; que fez isso para mim e a minha m&#227;e n&#227;o estava, ela estava a viajar. A tradi&#231;&#227;o &#233; assim.</p>     <p>(E19, 21 anos)</p>     <p>Apesar de termos vindo a assinalar o papel das mulheres mais velhas das fam&#237;lias na perpetua&#231;&#227;o dos rituais e tradi&#231;&#245;es associados &#224; MGF/CGF, &#233; necess&#225;rio analisar este dado &#224; luz de um contexto sociocultural e de assimetrias de g&#233;nero muito particulares: &#8220;estas mulheres est&#227;o inseridas num determinado contexto social, dominado por homens onde a opini&#227;o delas vale menos que nada&#8221; (Branco, 2006, p. 52). A circunst&#226;ncia e o contexto sociocultural e ideol&#243;gico destas mulheres n&#227;o s&#227;o muito diferentes dos de outras em sociedades ocidentais erigidas em modelos patriarcais, onde &#8220;as mulheres s&#227;o confrontadas com modelos de masculino e feminino nos quais se promove a mulher a guardi&#227; e promotora do bem-estar do espa&#231;o casa-fam&#237;lia. Por isso se perpetua a import&#226;ncia da manuten&#231;&#227;o dos pap&#233;is de g&#233;nero, das press&#245;es familiares baseadas em modelos assim&#233;tricos do que significa ser homem e mulher&#8221; (Cerejo, 2014, p. 289). </p>     <p>4.2. O peso da tradi&#231;&#227;o e da religi&#227;o na manuten&#231;&#227;o da MGF/CGF.<b> </b>A maioria das mulheres entrevistadas considera que o peso da tradi&#231;&#227;o religiosa continua a ser o principal factor instigador da realiza&#231;&#227;o da pr&#225;tica. Apesar de n&#227;o existirem evid&#234;ncias, nomeadamente no Alcor&#227;o, que permitam associar a MGF/CGF com a religi&#227;o isl&#226;mica, ela tem vindo a reproduzir-se sob a &#233;gide dos pressupostos religiosos: &#8220;a religi&#227;o pode ser um instrumento muito poderoso, tanto no sentido da manuten&#231;&#227;o de uma pr&#225;tica (ao tentar fazer crer que &#233; uma obriga&#231;&#227;o de f&#233;, poder&#225; chegar o dia em que j&#225; ningu&#233;m duvide que assim seja), como no sentido de uma mudan&#231;a. Resta saber us&#225;-la e, at&#233; agora, pelo que pude observar, o primeiro campo leva uma vantagem clara sobre o segundo&#8221; (Branco, 2006, p. 67). </p>     <p>Uma das jovens entrevistadas explica como a maior parte da popula&#231;&#227;o da Guin&#233;-Bissau continua a acreditar que a pr&#225;tica se alicer&#231;a nos pressupostos religiosos isl&#226;micos: </p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Essencialmente nos pa&#237;ses afectados, a MGF/CGF continua muito por causa da religi&#227;o, por acharem que est&#225; associada ao Alcor&#227;o; por isso tem uma obrigatoriedade da mulher ser submetida &#224; pr&#225;tica e por uma quest&#227;o de tradi&#231;&#227;o, cultura; e est&#225; tudo interligado, a religi&#227;o faz com que se continue a dizer que &#233; uma tradi&#231;&#227;o e continua a ser uma cultura na Guin&#233;-Bissau. (E20, 24 anos)</p>     <p>Aproveitando um conhecimento insuficiente, e por outros manipulado, do Alcor&#227;o, a MGF/CGF continua a encontrar na religi&#227;o um dos maiores aliados para a sua perpetua&#231;&#227;o, tal como refere &#193;lvaro N&#243;brega, citado por Martingo, &#8220;n&#227;o &#233; errado dizer-se que o islamizado, (&#8230;) observa uma vida religiosa pautada por um conhecimento superficial da sua religi&#227;o e tem como importante a afirma&#231;&#227;o p&#250;blica da sua cren&#231;a, a execu&#231;&#227;o dos ritos e ora&#231;&#245;es fundamentais e a observa&#231;&#227;o mais ou menos escrupulosa das suas prescri&#231;&#245;es&#8221; (2009, p. 78).</p>     <p>Saudamos, no entanto, aquela que &#233; uma das conclus&#245;es do trabalho emp&#237;rico realizado e que se prende com a vontade manifesta entre as entrevistadas mais jovens de contribuir, activamente, no seio das suas comunidades, para a erradica&#231;&#227;o da MGF/CGF:&#160; </p>     <p>A excis&#227;o continua a existir por causa de algumas pessoas que continuam a pensar que as mulheres t&#234;m que ser excisadas e que isso est&#225; escrito no Alcor&#227;o. Mas nada justifica esta pr&#225;tica, ali&#225;s n&#227;o h&#225; nada escrito em nenhuma parte do Alcor&#227;o que diz que as mulheres t&#234;m que ser circuncidadas. </p>     <p>(E1, 54 anos) </p>     <p>Tal como algumas autoras defendem (Branco, 2006; Martingo, 2009), para a sua erradica&#231;&#227;o, e face a esta &#8220;nebulosa&#8221; sobre a poss&#237;vel rela&#231;&#227;o entre MGF/CGF e religi&#227;o, parece ser fundamental que os l&#237;deres religiosos se pronunciem claramente sobre esta quest&#227;o, uma vez que a inexist&#234;ncia de qualquer refer&#234;ncia &#224; MGF/CGF nos livros religiosos n&#227;o tem sido assertiva e inequivocamente clarificada, como est&#225; patente no seguinte trecho de entrevista: </p>     <p>Os im&#227;s continuam sem dizer nada &#224;s pessoas de concreto&#8230; noto (isso) quer em Portugal quer na Guin&#233;-Bissau. Em Portugal n&#227;o d&#225; muito jeito falar porque podem com isso afastar os crentes das mesquitas; como &#233; um assunto sens&#237;vel e no qual muitos acreditam, e de onde eu venho (Guin&#233;-Bissau) porque vai dando dinheiro a muita gente, &#233; a forma dos l&#237;deres continuarem a ser importantes nas comunidades. (E11, 39 anos)</p>     <p>Tal como em outros aspectos das sociedades de modernidade tardia (Giddens, 1997), a religi&#227;o isl&#226;mica tem vindo a ser instrumentalizada em prol de uma pr&#225;tica que subjuga e limita a vida, os direitos e as liberdades destas meninas e mulheres. N&#227;o obstante a consciencializa&#231;&#227;o de que a MGF/CGF &#233; uma pr&#225;tica nefasta com graves e duradouras consequ&#234;ncias ao n&#237;vel da sa&#250;de f&#237;sica e psicol&#243;gica de quem a ela &#233; submetida, esta forma de viol&#234;ncia contra as mulheres continua a encontrar formas de prevalecer, nomeadamente atrav&#233;s da tradi&#231;&#227;o religiosa, que carece ainda de uma desmitifica&#231;&#227;o assertiva por parte dos l&#237;deres religiosos isl&#226;micos. </p>     <p>Mesmo face a todos os argumentos acima enumerados, &#233;-nos poss&#237;vel reconhecer a forma incisiva como a MGF/CGF faz ainda parte do contexto cultural e social das comunidades praticantes, nomeadamente a da Guin&#233;-Bissau. Todavia, considerando a an&#225;lise feita &#224;s entrevistas realizadas, observam-se tamb&#233;m ind&#237;cios de uma crescente consciencializa&#231;&#227;o das mulheres oriundas da Guin&#233;-Bissau de que a MGF/CGF deve ser eliminada. Assim, escreve Martingo, &#8220;se transpusermos esta reflex&#227;o para a situa&#231;&#227;o vivida na Guin&#233; dita &#8216;ruralizada&#8217;, muito embora o peso da tradi&#231;&#227;o seja incontorn&#225;vel, a escolariza&#231;&#227;o dos jovens, fruto do alargamento da rede escolar, inevitavelmente trar&#225; mudan&#231;as&#8221; (2009, p. 204).</p>     <p>Notas conclusivas </p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Ao longo destas p&#225;ginas analis&#225;mos os contextos socioculturais, as l&#243;gicas, os valores e as tradi&#231;&#245;es associadas &#224; MGF/CGF, que continuam a possibilitar a sua perpetua&#231;&#227;o. Fornecemos alguns elementos sobre as percep&#231;&#245;es e representa&#231;&#245;es de mulheres, v&#237;timas desta pr&#225;tica nefasta, que permitem conhecer mais aprofundadamente as din&#226;micas e contextos sociais e culturais que suportam o acto da mutila&#231;&#227;o como algo necess&#225;rio para a &#8220;sobrevida social&#8221; destas mulheres e meninas. </p>     <p>Tendo alicer&#231;ado, de modo claro, a MGF/CGF como mais uma das formas de viol&#234;ncia contra as mulheres, erigida em assimetrias de g&#233;nero, sendo as meninas e mulheres as v&#237;timas directas, n&#227;o foi poss&#237;vel uma an&#225;lise mais centrada no papel dos homens nos meandros da perpetua&#231;&#227;o desta pr&#225;tica. Eles constituem-se como actores fundamentais na persist&#234;ncia da pr&#225;tica e, nesse sentido, dever&#227;o ser considerados num cen&#225;rio futuro de mudan&#231;a e de altera&#231;&#227;o de comportamentos. </p>     <p>&#192; perpetua&#231;&#227;o da MGF/CGF n&#227;o s&#227;o alheios os mitos que lhe est&#227;o associados e que, na sua grande maioria, est&#227;o relacionados com a rela&#231;&#227;o &#237;ntima destas mulheres com os seus futuros maridos. Salientamos, por exemplo, os mitos sobre a preserva&#231;&#227;o da virgindade das mulheres, o aumento das suas capacidades f&#233;rteis ou a ideia de que a pr&#225;tica reduz os desejos sexuais das mulheres, contribuindo assim para uma maior fidelidade aos seus maridos. Mesmo tendo em conta, como atr&#225;s salientado, que s&#227;o, muitas vezes, as mulheres das comunidades praticantes que submetem as meninas e raparigas ao corte, &#233; crucial interrogarmo-nos porque o fazem. Em comunidades patriarcais, onde a sobreviv&#234;ncia social das raparigas e mulheres depende da sua capacidade de casar e formar fam&#237;lia, quem s&#227;o os actores principais da perpetua&#231;&#227;o da pr&#225;tica? O que acontecer&#225; se os homens deixarem de a valorizar enquanto requisito para a escolha das suas futuras esposas? Se, como refere Martingo no caso da Guin&#233;-Bissau, todas as etnias, independentemente da religi&#227;o que praticam, t&#234;m em comum a &#8220;for&#231;a frequentemente desp&#243;tica&#8221; (2009, p. 74) do homem chefe de fam&#237;lia, torna-se fundamental analisar esta tem&#225;tica tamb&#233;m atrav&#233;s da dimens&#227;o dos pap&#233;is sociais, representa&#231;&#245;es e percep&#231;&#245;es dos homens sobre a MGF/CGF. </p>     <p>O trabalho efectuado deixou-nos indica&#231;&#245;es positivas sobre uma mudan&#231;a de comportamentos, atitudes e percep&#231;&#245;es sobre a pr&#225;tica. Este combate pela mudan&#231;a das mentalidades est&#225; em curso, mas existe ainda muito caminho para desbravar at&#233; erradicarmos por completo a Mutila&#231;&#227;o Genital Feminina.</p>     <p><a href="#top0">*</a><a name="0"></a>Parte dos dados e conclus&#245;es apresentados neste artigo decorrem do primeiro estudo nacional sobre a tem&#225;tica, intitulado <i>Mutila&#231;&#227;o Genital Feminina em Portugal: Preval&#234;ncias, din&#226;micas socioculturais e recomenda&#231;&#245;es para a sua elimina&#231;&#227;o</i>. Este projecto foi financiado pela Funda&#231;&#227;o para a Ci&#234;ncia e a Tecnologia, em parceria com a Comiss&#227;o para a Cidadania e Igualdade de G&#233;nero; foi coordenado pelo Prof. Doutor Manuel Lisboa e desenvolvido pela equipa do CICS.NOVA e do Observat&#243;rio Nacional de Viol&#234;ncia e G&#233;nero.</p>     <p><a href="#top1"><sup>1</sup></a><a name="1"></a>Os fluxos migrat&#243;rios africanos para os pa&#237;ses da UE variam bastante. Nos <i>rankings</i> dos pa&#237;ses europeus que mais acolhem popula&#231;&#245;es oriundas de pa&#237;ses onde a MGF/CGF est&#225; documentada encontramos a Fran&#231;a, o Reino Unido e a Alemanha. Mas, com a recente vaga de migra&#231;&#227;o da &#193;frica subsaariana, estas popula&#231;&#245;es tendem hoje a alcan&#231;ar outros destinos, at&#233; agora menos procurados. Assim, de acordo com esta actual redistribui&#231;&#227;o dos fluxos migrat&#243;rios subsaarianos, novos pa&#237;ses receptores surgiram na Europa, nomeadamente na Europa do Sul (Espanha, It&#225;lia e, em menor escala, Portugal e Gr&#233;cia) e no Norte da Europa (Noruega e Su&#233;cia). Estes pa&#237;ses s&#227;o agora destinos mais frequentes para migrantes que saem da &#193;frica subsariana e que s&#227;o potencialmente praticantes de MGF/CGF (Andro, 2016). </p>     <p><a href="#top2"><sup>2</sup></a><a name="2"></a>A referida Conven&#231;&#227;o &#233; o primeiro documento internacional com car&#225;cter legalmente vinculativo para todos os Estados-membros que a ratificam, sendo o seu principal objectivo a adop&#231;&#227;o de medidas de preven&#231;&#227;o e protec&#231;&#227;o das v&#237;timas de todos os tipos de viol&#234;ncia, incluindo a MGF/CGF, e a puni&#231;&#227;o dos respectivos perpetradores. Na sua formula&#231;&#227;o original, &#8220;the Istanbul Convention requires states to prevent, prosecute and eliminate physical, psychological and sexual violence, including rape, sexual assault and sexual harassment, stalking, forced marriage, forced abortion, forced sterilisation, female genital mutilation and killings, including crimes in the name of so-called &#8216;honour&#8217;. These are all manifestations of gender-based violence which aim to control women&#8217;s behaviour, sexuality and autonomy, and which are common to all cultures&#8221; (CoE &amp; AI, 2015, p. 9). </p>     <p><a href="#top3"><sup>3</sup></a><a name="3"></a>Esta moldura penal de 2015 veio substituir o anterior enquadramento legislativo, no qual a MGF/CGF n&#227;o se constitu&#237;a como um crime aut&#243;nomo, estando inclu&#237;do nas ofensas &#224; integridade f&#237;sica grave, de forma a &#8220;tirar ou afectar, de maneira grave, [...] as capacidades [...] de frui&#231;&#227;o sexual&#8221; (Decreto-Lei n.&#186; 48/1995 artigo 144.&#186;). </p>     <p><a href="#top4"><sup>4</sup></a><a name="4"></a>Refira-se que a MGF/CGF &#233; praticada por algumas etnias islamizadas guineenses, como Fulas, Mandingas, Biafadas e Peuls (Martingo, 2009).</p>     <p><a href="#top5"><sup>5</sup></a><a name="5"></a>Todas as entrevistas foram realizadas em crioulo por uma investigadora natural da Guin&#233;-Bissau. </p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><a href="#top6"><sup>6</sup></a><a name="6"></a>&#192;s entrevistadas foram garantidas todas as condi&#231;&#245;es de anonimato. As sec&#231;&#245;es das entrevistas transcritas ser&#227;o identificadas com o n&#250;mero de ordem da entrevista e a idade da entrevistada. Ex.: (E1, 30 anos) corresponde &#224; entrevista n.&#186; 1 feita a uma mulher com 30 anos.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p>REFER&#202;NCIAS BIBLIOGR&#193;FICAS</p>     <!-- ref --><p>Andro, A. (2016). <i>Methodological challenges in estimating FGM prevalence and pros and cons of some methods</i>: <i>FGM-prevalence</i> <i>studies</i>. Bruxelles, Belgium: University of Gent.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1838029&pid=S0874-6885201700010000700001&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <p>Associa&#231;&#227;o para o Planeamento da Fam&#237;lia (APF). (2009). <i>Elimina&#231;&#227;o da mutila&#231;&#227;o genital feminina: Declara&#231;&#227;o conjunta OHCHR, ONUSIDA, PNUD, UNECA, UNESCO, UNFPA, ACNUR, UNICEF, UNIFEM, OMS.</i> Lisboa: Associa&#231;&#227;o para o Planeamento da Fam&#237;lia.</p>     <!-- ref --><p>Branco, S. (2006). <i>Cicatrizes de mulher</i>. Lisboa: P&#250;blico.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1838032&pid=S0874-6885201700010000700003&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p>Campos, A. C. (2010). Mutila&#231;&#227;o genital feminina: A import&#226;ncia de reconhecer e de saber como agir. <i>Acta Obst&#233;trica e Ginecol&#243;gica Portuguesa, 4 </i>(3), 152-156.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1838034&pid=S0874-6885201700010000700004&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --> </p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Cerejo, D. (2014). <i>Viver sobrevivendo: Emo&#231;&#245;es e din&#226;micas socioculturais nos processos de manuten&#231;&#227;o das rela&#231;&#245;es conjugais violentas</i> (Tese de Doutoramento). Faculdade de Ci&#234;ncias Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa.</p>     <p>Council of Europe (CoE). (2009). <i>Resolution 1662 (2009): Action to combat gender-based human rights violations, including the abduction of women and girls.</i> Strasbourg: Council of Europe Publishing.</p>     <p>Council of Europe (CoE). (2011). <i>Conven&#231;&#227;o do Conselho da Europa para a Preven&#231;&#227;o e o Combate &#224; Viol&#234;ncia Contra as Mulheres e a Viol&#234;ncia Dom&#233;stica</i>. Strasbourg: Council of Europe Publishing.</p>     <p>Council of Europe (CoE). (2017). <i>Chart of Signatures and Ratifications of Treaty 210</i>. Dispon&#237;vel em <a href="http://www.coe.int/en/web/conventions/full-list/-/conventions/treaty/210/signatures" target="_blank">http://www.coe.int/en/web/conventions/full-list/-/conventions/treaty/210/signatures</a></p>     <p>Council of Europe (CoE) &amp; Amnistia Internacional (AI). (2015). <i>The Council of Europe Convention on Preventing and Combating Violence against Women and Domestic Violence: A tool to end female genital mutilation</i>. Strasbourg, France: Council of Europe Publishing.</p>     <!-- ref --><p>Cunha, M. I. (2013). G&#233;nero, cultura e justi&#231;a: A prop&#243;sito dos cortes genitais femininos. <i>An&#225;lise Social</i>,<i> XLVIII </i>(209), 834-856.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1838041&pid=S0874-6885201700010000700010&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --> </p>     <p>European Institute for Gender Equality (EIGE). (2013). <i>Female Genital Mutilation in the European Union and Croatia</i>. Vilnius, Lithuania: EIGE, European Union. </p>     <!-- ref --><p>European Parliament. (2001). <i>European Parliament Resolution of 20 September 2001 on female genital mutilation (2001/2035(INI)).    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1838044&pid=S0874-6885201700010000700012&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></i></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Frade, A. &amp; Gon&#231;alves, Y. (n.d.). Mutila&#231;&#227;o genital feminina: Direitos humanos de mulheres e crian&#231;as (folha de dados). Dispon&#237;vel em <a href="http://www.instituto-camoes.pt/images/cooperacao/folha_de_dados.pdf" target="_blank">http://www.instituto-camoes.pt/images/cooperacao/folha_de_dados.pdf</a> </p>     <!-- ref --><p>Giddens, A. (1997). <i>Modernidade e identidade pessoal</i>. Oeiras: Celta.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1838047&pid=S0874-6885201700010000700014&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p>Gon&#231;alves, Y. (2005). <i>Mutila&#231;&#227;o genital feminina</i>. Lisboa: APF.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1838049&pid=S0874-6885201700010000700015&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p>Lisboa, M.; Cerejo, D.; Teixeira, A. L.; Frade, A.; Moreira, C.; Brasil, E.; Oliveira Martins, R. &amp; Moita, G. (2015). <i>Mutila&#231;&#227;o genital feminina em Portugal: Preval&#234;ncias, din&#226;micas socioculturais e recomenda&#231;&#245;es para a sua elimina&#231;&#227;o</i>. Vila Nova de Famalic&#227;o: H&#250;mus.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1838051&pid=S0874-6885201700010000700016&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p>Macfarlane, A. &amp; Dorkenoo, E. (2014). <i>Female genital mutilation in England and Wales: Updated statistical estimates of the numbers of affected women living in England and Wales and girls at risk. Interim report on provisional estimates</i>. London: City University London &amp; Equlity Now.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1838053&pid=S0874-6885201700010000700017&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --> </p>     <p>Mackie, G. (2000). Female genital cutting: the beginning of the end. In B. Shell-Duncan &amp; Y. Hernlund (Eds.), <i>Female &#8220;circumcision&#8221; in Africa: Culture, controversy, and change</i> (pp. 253-282). Colorado, EUA: Lynne Rienner Publishers. </p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<!-- ref --><p>Martingo, C. (2009). <i>O corte dos genitais femininos em Portugal: O caso das guineenses</i>. Lisboa: ACIDI.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1838056&pid=S0874-6885201700010000700019&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p>Minist&#233;rio da Justi&#231;a. (2015). Decreto-lei n.&#186; 48 de 15 de Mar&#231;o. 38.&#170; vers&#227;o (Lei n.&#186; 83/2015, de 05/08). Dispon&#237;vel em <a href="http://www.pgdlisboa.pt/leis/lei_mostra_articulado.php?artigo_id=109A0144A&amp;nid=109&amp;tabela=lei_velhas&amp;pagina=1&amp;ficha=1&amp;so_miolo=&amp;nversao=38#artigo" target="_blank">http://www.pgdlisboa.pt/leis/lei_mostra_articulado.php?artigo_id=109A0144A&amp;nid=109&amp;tabela=lei_velhas&amp;pagina=1&amp;ficha=1&amp;so_miolo=&amp;nversao=38#artigo</a>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1838058&pid=S0874-6885201700010000700020&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><!-- ref --><p>Minist&#233;rio da Justi&#231;a. (1995). Decreto-lei n.&#186; 48 de 15 de Mar&#231;o. 37.&#170; vers&#227;o (Lei n.&#186; 81/2015, de 03/08). Dispon&#237;vel em <a href="http://www.pgdlisboa.pt/leis/lei_mostra_articulado.php?artigo_id=109A0144&amp;nid=109&amp;tabela=lei_velhas&amp;pagina=1&amp;ficha=1&amp;so_miolo=&amp;nversao=1#artigo" target="_blank">http://www.pgdlisboa.pt/leis/lei_mostra_articulado.php?artigo_id=109A0144&amp;nid=109&amp;tabela=lei_velhas&amp;pagina=1&amp;ficha=1&amp;so_miolo=&amp;nversao=1#artigo</a>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1838059&pid=S0874-6885201700010000700021&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><p>Oberreiter, J. A. (2008). <i>A cut for lifetime. The case of female genital mutilation among the community of Guinea Bissau in Lisbon</i>. Disserta&#231;&#227;o de Mestrado em Direitos Humanos e Democratiza&#231;&#227;o. Faculdade de Direito da Universidade Nova Lisboa.</p>     <!-- ref --><p>Otoo-Oyortey, N. (2007). Mutila&#231;&#227;o genital feminina. Uma preocupa&#231;&#227;o da sa&#250;de e direitos sexuais e reprodutivos. In A. Frade (Coord.), <i>Por nascer mulher&#8230; Um outro lado dos direitos humanos</i> (pp. 10-15). Lisboa: APF.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1838061&pid=S0874-6885201700010000700023&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p>Teixeira, A. L. &amp; Lisboa, M. (2016). Estimating the prevalence of female genital mutilation in Portugal. <i>Public Health, 139</i>, 53-60.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1838063&pid=S0874-6885201700010000700024&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <p>United Nations Children&#8217;s Fund (UNICEF). (2013). <i>Female genital mutilation/cutting. A statistical overview and exploration of the dynamics of change</i>. New York: UNICEF.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<!-- ref --><p>United Nations General Assembly. (1948). <i>Declara&#231;&#227;o universal dos direitos humanos</i>. Dispon&#237;vel em <a href="http://www.ohchr.org/EN/UDHR/Pages/Language.aspx?LangID=por" target="_blank">http://www.ohchr.org/EN/UDHR/Pages/Language.aspx?LangID=por</a> &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1838066&pid=S0874-6885201700010000700026&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><!-- ref --><p>United Nations General Assembly. (1979). <i>Convention on the elimination of all forms of discrimination against women (CEDAW</i>).    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1838067&pid=S0874-6885201700010000700027&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p>Vicente, L. (2007). Interven&#231;&#227;o de profissionais de sa&#250;de em mulheres sujeitas a mutila&#231;&#227;o genital feminina (MGF)/Corte dos genitais femininos (CGF). In A. Frade (Coord.), <i>Por nascer mulher&#8230; Um outro lado dos direitos humanos</i> (pp. 81-92). Lisboa: APF.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1838069&pid=S0874-6885201700010000700028&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <p>World Health Organization (WHO). (2000). <i>Female genital mutilation. A handbook for frontline workers</i>. Geneva: WHO.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p>Recebido: 07/04/2017</p>     <p>Aceite para publica&#231;&#227;o:24/04/2017</p>      ]]></body><back>
<ref-list>
<ref id="B1">
<nlm-citation citation-type="book">
<person-group person-group-type="author">
<name>
<surname><![CDATA[Andro]]></surname>
<given-names><![CDATA[A.]]></given-names>
</name>
</person-group>
<source><![CDATA[Methodological challenges in estimating FGM prevalence and pros and cons of some methods: FGM-prevalence studies]]></source>
<year>2016</year>
<publisher-loc><![CDATA[Bruxelles ]]></publisher-loc>
<publisher-name><![CDATA[University of Gent]]></publisher-name>
</nlm-citation>
</ref>
<ref id="B2">
<nlm-citation citation-type="book">
<collab>Associação para o Planeamento da Família</collab>
<source><![CDATA[Eliminação da mutilação genital feminina: Declaração conjunta OHCHR, ONUSIDA, PNUD, UNECA, UNESCO, UNFPA, ACNUR, UNICEF, UNIFEM, OMS]]></source>
<year>2009</year>
<publisher-loc><![CDATA[Lisboa ]]></publisher-loc>
<publisher-name><![CDATA[Associação para o Planeamento da Família]]></publisher-name>
</nlm-citation>
</ref>
<ref id="B3">
<nlm-citation citation-type="book">
<person-group person-group-type="author">
<name>
<surname><![CDATA[Branco]]></surname>
<given-names><![CDATA[S.]]></given-names>
</name>
</person-group>
<source><![CDATA[Cicatrizes de mulher]]></source>
<year>2006</year>
<publisher-loc><![CDATA[Lisboa ]]></publisher-loc>
<publisher-name><![CDATA[Público]]></publisher-name>
</nlm-citation>
</ref>
<ref id="B4">
<nlm-citation citation-type="journal">
<person-group person-group-type="author">
<name>
<surname><![CDATA[Campos]]></surname>
<given-names><![CDATA[A. C.]]></given-names>
</name>
</person-group>
<article-title xml:lang="pt"><![CDATA[Mutilação genital feminina: A importância de reconhecer e de saber como agir]]></article-title>
<source><![CDATA[Acta Obstétrica e Ginecológica Portuguesa]]></source>
<year>2010</year>
<volume>4</volume>
<numero>3</numero>
<issue>3</issue>
<page-range>152-156</page-range></nlm-citation>
</ref>
<ref id="B5">
<nlm-citation citation-type="">
<person-group person-group-type="author">
<name>
<surname><![CDATA[Cerejo]]></surname>
<given-names><![CDATA[D.]]></given-names>
</name>
</person-group>
<source><![CDATA[Viver sobrevivendo: Emoções e dinâmicas socioculturais nos processos de manutenção das relações conjugais violentas]]></source>
<year>2014</year>
</nlm-citation>
</ref>
<ref id="B6">
<nlm-citation citation-type="book">
<collab>Council of Europe.</collab>
<source><![CDATA[Resolution 1662 (2009): Action to combat gender-based human rights violations, including the abduction of women and girls]]></source>
<year>2009</year>
<publisher-loc><![CDATA[Strasbourg ]]></publisher-loc>
<publisher-name><![CDATA[Council of Europe Publishing]]></publisher-name>
</nlm-citation>
</ref>
<ref id="B7">
<nlm-citation citation-type="book">
<collab>Council of Europe.</collab>
<source><![CDATA[Convenção do Conselho da Europa para a Prevenção e o Combate à Violência Contra as Mulheres e a Violência Doméstica]]></source>
<year>2011</year>
<publisher-loc><![CDATA[Strasbourg ]]></publisher-loc>
<publisher-name><![CDATA[Council of Europe Publishing]]></publisher-name>
</nlm-citation>
</ref>
<ref id="B8">
<nlm-citation citation-type="">
<collab>Council of Europe</collab>
<source><![CDATA[Chart of Signatures and Ratifications of Treaty 210]]></source>
<year>2017</year>
</nlm-citation>
</ref>
<ref id="B9">
<nlm-citation citation-type="book">
<collab>Council of Europe</collab>
<collab>Amnistia Internacional</collab>
<source><![CDATA[The Council of Europe Convention on Preventing and Combating Violence against Women and Domestic Violence: A tool to end female genital mutilation]]></source>
<year>2015</year>
<publisher-loc><![CDATA[Strasbourg ]]></publisher-loc>
<publisher-name><![CDATA[Council of Europe Publishing]]></publisher-name>
</nlm-citation>
</ref>
<ref id="B10">
<nlm-citation citation-type="journal">
<person-group person-group-type="author">
<name>
<surname><![CDATA[Cunha]]></surname>
<given-names><![CDATA[M. I.]]></given-names>
</name>
</person-group>
<article-title xml:lang="pt"><![CDATA[Género, cultura e justiça: A propósito dos cortes genitais femininos]]></article-title>
<source><![CDATA[Análise Social]]></source>
<year>2013</year>
<volume>XLVIII</volume>
<numero>209</numero>
<issue>209</issue>
<page-range>834-856</page-range></nlm-citation>
</ref>
<ref id="B11">
<nlm-citation citation-type="book">
<collab>European Institute for Gender Equality.</collab>
<source><![CDATA[Female Genital Mutilation in the European Union and Croatia]]></source>
<year>2013</year>
<publisher-loc><![CDATA[Vilnius ]]></publisher-loc>
<publisher-name><![CDATA[EIGE, European Union]]></publisher-name>
</nlm-citation>
</ref>
<ref id="B12">
<nlm-citation citation-type="">
<collab>European Parliament</collab>
<source><![CDATA[European Parliament Resolution of 20 September 2001 on female genital mutilation: 2001/2035(INI)]]></source>
<year>2001</year>
</nlm-citation>
</ref>
<ref id="B13">
<nlm-citation citation-type="">
<person-group person-group-type="author">
<name>
<surname><![CDATA[Frade]]></surname>
<given-names><![CDATA[A.]]></given-names>
</name>
<name>
<surname><![CDATA[Gonçalves]]></surname>
<given-names><![CDATA[Y.]]></given-names>
</name>
</person-group>
<source><![CDATA[Mutilação genital feminina: Direitos humanos de mulheres e crianças (folha de dados)]]></source>
<year></year>
</nlm-citation>
</ref>
<ref id="B14">
<nlm-citation citation-type="book">
<person-group person-group-type="author">
<name>
<surname><![CDATA[Giddens]]></surname>
<given-names><![CDATA[A.]]></given-names>
</name>
</person-group>
<source><![CDATA[Modernidade e identidade pessoal]]></source>
<year>1997</year>
<publisher-loc><![CDATA[Oeiras ]]></publisher-loc>
<publisher-name><![CDATA[Celta]]></publisher-name>
</nlm-citation>
</ref>
<ref id="B15">
<nlm-citation citation-type="book">
<person-group person-group-type="author">
<name>
<surname><![CDATA[Gonçalves]]></surname>
<given-names><![CDATA[Y.]]></given-names>
</name>
</person-group>
<source><![CDATA[Mutilação genital feminina]]></source>
<year>2005</year>
<publisher-loc><![CDATA[Lisboa ]]></publisher-loc>
<publisher-name><![CDATA[APF]]></publisher-name>
</nlm-citation>
</ref>
<ref id="B16">
<nlm-citation citation-type="book">
<person-group person-group-type="author">
<name>
<surname><![CDATA[Lisboa]]></surname>
<given-names><![CDATA[M.]]></given-names>
</name>
<name>
<surname><![CDATA[Cerejo]]></surname>
<given-names><![CDATA[D.]]></given-names>
</name>
<name>
<surname><![CDATA[Teixeira]]></surname>
<given-names><![CDATA[A. L.]]></given-names>
</name>
<name>
<surname><![CDATA[Frade]]></surname>
<given-names><![CDATA[A.]]></given-names>
</name>
<name>
<surname><![CDATA[Moreira]]></surname>
<given-names><![CDATA[C.]]></given-names>
</name>
<name>
<surname><![CDATA[Brasil]]></surname>
<given-names><![CDATA[E.]]></given-names>
</name>
<name>
<surname><![CDATA[Oliveira Martins]]></surname>
<given-names><![CDATA[R.]]></given-names>
</name>
<name>
<surname><![CDATA[Moita]]></surname>
<given-names><![CDATA[G.]]></given-names>
</name>
</person-group>
<source><![CDATA[Mutilação genital feminina em Portugal: Prevalências, dinâmicas socioculturais e recomendações para a sua eliminação]]></source>
<year>2015</year>
<publisher-loc><![CDATA[Vila Nova de Famalicão ]]></publisher-loc>
<publisher-name><![CDATA[Húmus]]></publisher-name>
</nlm-citation>
</ref>
<ref id="B17">
<nlm-citation citation-type="book">
<person-group person-group-type="author">
<name>
<surname><![CDATA[Macfarlane]]></surname>
<given-names><![CDATA[A.]]></given-names>
</name>
<name>
<surname><![CDATA[Dorkenoo]]></surname>
<given-names><![CDATA[E.]]></given-names>
</name>
</person-group>
<source><![CDATA[Female genital mutilation in England and Wales: Updated statistical estimates of the numbers of affected women living in England and Wales and girls at risk. Interim report on provisional estimates]]></source>
<year>2014</year>
<publisher-loc><![CDATA[London ]]></publisher-loc>
<publisher-name><![CDATA[City University London & Equlity Now]]></publisher-name>
</nlm-citation>
</ref>
<ref id="B18">
<nlm-citation citation-type="book">
<person-group person-group-type="author">
<name>
<surname><![CDATA[Mackie]]></surname>
<given-names><![CDATA[G.]]></given-names>
</name>
</person-group>
<article-title xml:lang="en"><![CDATA[Female genital cutting: the beginning of the end]]></article-title>
<person-group person-group-type="editor">
<name>
<surname><![CDATA[Shell-Duncan]]></surname>
<given-names><![CDATA[B.]]></given-names>
</name>
<name>
<surname><![CDATA[Hernlund]]></surname>
<given-names><![CDATA[Y.]]></given-names>
</name>
</person-group>
<source><![CDATA[Female &#8220;circumcision&#8221; in Africa: Culture, controversy, and change]]></source>
<year>2000</year>
<page-range>253-282</page-range><publisher-name><![CDATA[Lynne Rienner Publishers]]></publisher-name>
</nlm-citation>
</ref>
<ref id="B19">
<nlm-citation citation-type="book">
<person-group person-group-type="author">
<name>
<surname><![CDATA[Martingo]]></surname>
<given-names><![CDATA[C.]]></given-names>
</name>
</person-group>
<source><![CDATA[O corte dos genitais femininos em Portugal: O caso das guineenses]]></source>
<year>2009</year>
<publisher-loc><![CDATA[Lisboa ]]></publisher-loc>
<publisher-name><![CDATA[ACIDI]]></publisher-name>
</nlm-citation>
</ref>
<ref id="B20">
<nlm-citation citation-type="">
<collab>Ministério da Justiça</collab>
<source><![CDATA[Decreto-lei n.º 48 de 15 de Março: 38.ª versão (Lei n.º 83/2015, de 05/08)]]></source>
<year>2015</year>
</nlm-citation>
</ref>
<ref id="B21">
<nlm-citation citation-type="">
<collab>Ministério da Justiça</collab>
<source><![CDATA[Decreto-lei n.º 48 de 15 de Março: 37.ª versão (Lei n.º 81/2015, de 03/08)]]></source>
<year>1995</year>
</nlm-citation>
</ref>
<ref id="B22">
<nlm-citation citation-type="">
<person-group person-group-type="author">
<name>
<surname><![CDATA[Oberreiter]]></surname>
<given-names><![CDATA[J. A.]]></given-names>
</name>
</person-group>
<source><![CDATA[A cut for lifetime. The case of female genital mutilation among the community of Guinea Bissau in Lisbon]]></source>
<year>2008</year>
</nlm-citation>
</ref>
<ref id="B23">
<nlm-citation citation-type="book">
<person-group person-group-type="author">
<name>
<surname><![CDATA[Otoo-Oyortey]]></surname>
<given-names><![CDATA[N.]]></given-names>
</name>
</person-group>
<article-title xml:lang="pt"><![CDATA[Mutilação genital feminina: Uma preocupação da saúde e direitos sexuais e reprodutivos]]></article-title>
<person-group person-group-type="editor">
<name>
<surname><![CDATA[Frade]]></surname>
<given-names><![CDATA[A.]]></given-names>
</name>
</person-group>
<source><![CDATA[Por nascer mulher&#8230; Um outro lado dos direitos humanos]]></source>
<year>2007</year>
<page-range>10-15</page-range><publisher-loc><![CDATA[Lisboa ]]></publisher-loc>
<publisher-name><![CDATA[APF]]></publisher-name>
</nlm-citation>
</ref>
<ref id="B24">
<nlm-citation citation-type="journal">
<person-group person-group-type="author">
<name>
<surname><![CDATA[Teixeira]]></surname>
<given-names><![CDATA[A. L.]]></given-names>
</name>
<name>
<surname><![CDATA[Lisboa]]></surname>
<given-names><![CDATA[M.]]></given-names>
</name>
</person-group>
<article-title xml:lang="en"><![CDATA[Estimating the prevalence of female genital mutilation in Portugal]]></article-title>
<source><![CDATA[Public Health]]></source>
<year>2016</year>
<volume>139</volume>
<page-range>53-60</page-range></nlm-citation>
</ref>
<ref id="B25">
<nlm-citation citation-type="book">
<collab>United Nations Children's Fund.</collab>
<source><![CDATA[Female genital mutilation/cutting: A statistical overview and exploration of the dynamics of change]]></source>
<year>2013</year>
<publisher-loc><![CDATA[New York ]]></publisher-loc>
<publisher-name><![CDATA[UNICEF]]></publisher-name>
</nlm-citation>
</ref>
<ref id="B26">
<nlm-citation citation-type="">
<collab>United Nations General Assembly</collab>
<source><![CDATA[Declaração universal dos direitos humanos]]></source>
<year>1948</year>
</nlm-citation>
</ref>
<ref id="B27">
<nlm-citation citation-type="">
<collab>United Nations General Assembly</collab>
<source><![CDATA[Convention on the elimination of all forms of discrimination against women (CEDAW)]]></source>
<year>1979</year>
</nlm-citation>
</ref>
<ref id="B28">
<nlm-citation citation-type="book">
<person-group person-group-type="author">
<name>
<surname><![CDATA[Vicente]]></surname>
<given-names><![CDATA[L.]]></given-names>
</name>
</person-group>
<article-title xml:lang="pt"><![CDATA[Intervenção de profissionais de saúde em mulheres sujeitas a mutilação genital feminina (MGF)/Corte dos genitais femininos (CGF)]]></article-title>
<person-group person-group-type="editor">
<name>
<surname><![CDATA[Frade]]></surname>
<given-names><![CDATA[A.]]></given-names>
</name>
</person-group>
<source><![CDATA[Por nascer mulher&#8230; Um outro lado dos direitos humanos]]></source>
<year>2007</year>
<page-range>81-92</page-range><publisher-loc><![CDATA[Lisboa ]]></publisher-loc>
<publisher-name><![CDATA[APF]]></publisher-name>
</nlm-citation>
</ref>
<ref id="B29">
<nlm-citation citation-type="book">
<collab>World Health Organization.</collab>
<source><![CDATA[Female genital mutilation: A handbook for frontline workers]]></source>
<year>2000</year>
<publisher-loc><![CDATA[Geneva ]]></publisher-loc>
<publisher-name><![CDATA[WHO]]></publisher-name>
</nlm-citation>
</ref>
</ref-list>
</back>
</article>
