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</front><body><![CDATA[ <p align="right"><font size="2"><b>PIONEIRAS</b></font></p>     <p><font size="4"><b>Olga Mariano </b></font></p>     <p><b>Alexandra Alves Lu&#237;s*, Ana Catarina Andr&#233;**</b></p>     <p>&#160;* Universidade Nova de Lisboa, Faculdade de Ci&#234;ncias Sociais e Humanas, Centro Interdisciplinar de Ci&#234;ncias Sociais, Faces de Eva &#8211; Estudos sobre a Mulher, <a href="mailto:alexandraalvesluis@gmail.com">alexandraalvesluis@gmail.com</a></p>     <p>** Investigadora independente, <a href="mailto:acatarinaandre@gmail.com">acatarinaandre@gmail.com</a></p> <hr/>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="center"><a name="f1"></a><img src="/img/revistas/eva/n37/n37a14f1.jpg"/></p>     
<p>&nbsp;</p>     <p><i>Eu posso ser tudo o que eu quiser ser. Sem nunca deixar de ser quem sou.</i></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Os primeiros anos </p>     <p>Olga Nat&#225;lia Maia Mariano nasceu em 1950 no seio de uma fam&#237;lia cigana; o pai era natural de &#201;vora e a m&#227;e de Lisboa. Conheceram-se no Alentejo numa festa tradicional cigana, casaram-se e ficaram a viver no Fogueteiro, na freguesia da Amora, concelho do Seixal. </p>     <p>Na d&#233;cada de 1960, ainda n&#227;o havia escola no Fogueteiro, e a mais pr&#243;xima ficava na Amora, a cerca de cinco quil&#243;metros. Contrariando a tend&#234;ncia da &#233;poca, em que raramente as meninas ciganas eram instru&#237;das, Olga, com 8 anos, e Maria, a irm&#227; mais velha, com 11, come&#231;aram a frequentar a escola, deslocando-se a p&#233; com Fernanda, Branca e Elsa, outras meninas do p&#225;tio onde viviam. Nunca se sentiram discriminadas, porque a professora, Dona Mercedes, n&#227;o permitia que as colegas as chamassem ciganas. Olga e Maria iam assim aprendendo aritm&#233;tica, hist&#243;ria, geografia e portugu&#234;s, como as outras meninas.</p>     <p>Sendo os pais feirantes em Sesimbra, era Esmeralda, a filha da senhoria da casa onde viviam, quem as preparava para irem para a escola. Olga era uma crian&#231;a feliz, igual a tantas outras meninas ciganas, apesar de n&#227;o viver inserida numa comunidade cigana. Apesar de os contactos com a fam&#237;lia paterna serem espor&#225;dicos, Olga recorda as visitas anuais a familiares, durante uma feira tradicional, que se realizava em &#201;vora. Nestes encontros, Olga ia absorvendo a cultura do seu povo. </p>     <p>Emancipada pelo pai aos 17 anos, foi a primeira mulher cigana a tirar a carta de condu&#231;&#227;o, que, &#224; &#233;poca, custou dois contos. O pai tinha ficado com um carro, um Fiat 1100 cinzento claro, como pagamento de um neg&#243;cio, e Olga foi a escolhida, pois era a &#250;nica da fam&#237;lia com a quarta classe, requisito obrigat&#243;rio para fazer o exame de condu&#231;&#227;o. A partir de ent&#227;o, Olga passou a levar os pais &#224;s feiras de Sesimbra e de Cascais. Tamb&#233;m era ela quem transportava a fam&#237;lia sempre que iam a festas no Alentejo, tornando-se assim cada vez mais aut&#243;noma. </p>     <p>O casamento e a vida de feirante</p>     <p>Aos 22 anos, casou com o homem que escolheu, porque, segundo diz, aquele preconceito de que as meninas ciganas casam cedo porque os pais querem &#233; errado. Salvo raras exce&#231;&#245;es, n&#227;o h&#225; pais ciganos que deixem as suas filhas casar antes dos 18 anos. Da uni&#227;o nasceram tr&#234;s filhos: dois rapazes, Jair e Carlos, e uma rapariga, Noel. Viveram sempre no mesmo p&#225;tio, onde a m&#227;e de Olga apoiou a filha, cuidando das crian&#231;as e acompanhando-as &#224; escola, enquanto Olga trabalhava na feira com o marido. Durante 25 anos, tiveram banca na feira de Almada, vendendo t&#234;xteis e vestu&#225;rio de segunda a s&#225;bado: &#8220;Pod&#237;amos ir a uma festa de casamento, deitarmo-nos tarde, mas no dia seguinte l&#225; est&#225;vamos &#224;s 7h&#8221;.</p>     <p>A vida de Olga mudaria drasticamente, quando o marido, ent&#227;o com 43 anos, adoeceu. Durante tr&#234;s anos, dedicou-se totalmente ao cuidado dele. Jair, o filho mais velho, garantia, durante este per&#237;odo, o sustento da fam&#237;lia na feira. Mas Olga acabaria por ficar vi&#250;va. </p>     <p>O luto e a igreja evang&#233;lica</p>     <p>Cumprindo a tradi&#231;&#227;o cigana, ap&#243;s a morte do marido, foi todos os dias ao cemit&#233;rio durante um ano, cortou o cabelo muito curto, passou a andar sempre de preto integral, com roupas largas e compridas, len&#231;o na cabe&#231;a, e regressou a casa dos pais. </p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Hoje, garante que a comunidade cigana aceita segundos casamentos, havendo motivos v&#225;lidos para tal. Em vez de se criticar, d&#225;-se uma nova oportunidade.</p>     <p>Segundo Olga Mariano, esta mudan&#231;a de mentalidades deve-se &#224; influ&#234;ncia da igreja evang&#233;lica. Na atualidade, em Portugal, mais de metade da comunidade cigana faz parte da Assembleia de Fi&#233;is. Deste modo, na sua opini&#227;o, a religi&#227;o acabou por contribuir para a valoriza&#231;&#227;o da mulher e para a promo&#231;&#227;o da igualdade de g&#233;nero. Mas &#233; preciso &#8220;trabalhar mais sobre os benef&#237;cios da escola&#8221;. </p>     <p>Em 1999, por sugest&#227;o de uma amiga, Olga recorreu ao rendimento social de inser&#231;&#227;o, porque, segundo diz: &#8220;A necessidade era tanta que a perspetiva de receber 150 euros para ajudar nas despesas com os meus filhos me levou &#224; entrevista.&#8221; Acabaria por ser selecionada, juntamente com outras cinco mulheres ciganas e onze africanas, para frequentar um curso de mediadora sociocultural, recebendo uma bolsa equivalente ao sal&#225;rio m&#237;nimo nacional na &#233;poca (cerca de 350 euros). Esse curso permitiu-lhe descobrir aptid&#245;es quase esquecidas, como era o caso da escrita<a href="#1"><sup>1</sup></a><a name="top1"></a>.</p>     <p>Nessa altura, um dos formadores sugeriu &#224;s mulheres ciganas que formassem uma associa&#231;&#227;o &#8211; al&#233;m de Olga, estavam no grupo tamb&#233;m Alzinda, Anabela, S&#243;nia e Noel. Nascia assim a AMUCIP &#8211; Associa&#231;&#227;o para o Desenvolvimento das Mulheres Ciganas Portuguesas. Olga assumiu a presid&#234;ncia, por ser a mais velha, por isso, a mais experiente. Tornava-se assim a primeira mulher cigana a liderar a primeira associa&#231;&#227;o de mulheres ciganas em Portugal. Manteve-se no cargo durante 13 anos, hoje continua a ser s&#243;cia e a participar nas atividades da associa&#231;&#227;o. Inicialmente tinham como grande objetivo a abertura de um espa&#231;o onde as crian&#231;as pudessem brincar depois das aulas, enquanto as m&#227;es estavam na feira, porque a sua grande bandeira era a educa&#231;&#227;o das crian&#231;as. Por isso, desenvolveram v&#225;rios projetos, com diversas entidades parceiras, sendo o mais emblem&#225;tico o <i>P&#8217;lo sonho &#233; que vamos</i><a href="#2"><sup>2</sup></a><a name="top2"></a>, entre 2005 e 2009.</p>     <p>Sem sede pr&#243;pria, nos primeiros cinco anos reuniam dentro dos autom&#243;veis das fundadoras, onde guardavam toda a documenta&#231;&#227;o da Associa&#231;&#227;o. Em alternativa, recorriam a alguns caf&#233;s da zona de resid&#234;ncia. Mais tarde, com o apoio da C&#226;mara Municipal do Seixal, encontraram um espa&#231;o, no bairro da Cucena, inaugurado a 8 de mar&#231;o de 2006, que tinha sala com computadores, uma horta pedag&#243;gica e cozinha; em suma, &#8220;tudo para cuidarmos bem das crian&#231;as&#8221;. Em 2013, a Associa&#231;&#227;o organizou o primeiro <i>Encontro Nacional de Mulheres Ciganas</i>.</p>     <p>Paralelamente &#224; atividade da AMUCIP, Olga Mariano trabalhava como mediadora numa escola do Bairro Padre Cruz, em Lisboa, onde implementou diversas atividades inovadoras, em que todas as crian&#231;as pudessem mostrar as especificidades das suas culturas; com isso, foi ganhando a confian&#231;a das m&#227;es n&#227;o ciganas, e todos aprendiam e todos ensinavam. Ao fim de cinco anos &#8211; esteve l&#225; entre 2000 e 2005 &#8211;, as crian&#231;as continuavam a perguntar-lhe se era mesmo cigana. Outros diziam: &#8220;A tia &#233; Irm&#227;zinha? Porque vestia de preto e porque n&#227;o imaginavam que uma cigana pudesse ensinar numa escola&#8221;.</p>     <p>Continuou a ser mediadora e, entre 2007 e 2009, esteve no Gabinete de A&#231;&#227;o Social da C&#226;mara Municipal do Seixal. Trabalhando nos bairros, com as t&#233;cnicas da Autarquia, procurava resolver as necessidades que iam surgindo. As pessoas ciganas tamb&#233;m a procuravam para solucionarem os seus problemas. Ao mesmo tempo, Olga tornou-se volunt&#225;ria numa escola do concelho, por considerar importante que as pessoas ciganas sentissem que pessoas como ela tamb&#233;m estavam na escola, e porque os manuais escolares n&#227;o mencionavam nada sobre a cultura cigana, nem contavam a hist&#243;ria da sua vinda para Portugal.</p>     <p>Em 2013, desafiada por Bruno Gon&#231;alves, primeiro presidente da Associa&#231;&#227;o de Ciganos de Coimbra, criou a <i>Letras N&#243;madas</i>, uma Associa&#231;&#227;o cujo objetivo &#233; a investiga&#231;&#227;o-a&#231;&#227;o sobre as comunidades ciganas em Portugal, da qual &#233; presidente da dire&#231;&#227;o.</p>     <p>Tendo a educa&#231;&#227;o como foco, esta associa&#231;&#227;o elegeu como primeiro objetivo permitir um maior acesso da comunidade cigana &#224; Universidade. Nasceu assim o primeiro grande projeto &#8211; o <i>Opr&#233; Chaval&#233;</i>,&#160; que significa, em romani, <i>Erguei-vos jovens &#8211;</i>, desenvolvido em parceria com a Plataforma Portuguesa para os Direitos das Mulheres (PpDM). Este projeto centrou-se em tr&#234;s pilares fundamentais &#8211; a Media&#231;&#227;o, a Igualdade de G&#233;nero e o Programa de Capacita&#231;&#227;o. Considerada uma boa pr&#225;tica pela entidade financiadora, integrou em 2016 a estrat&#233;gia nacional do Alto Comissariado para as Migra&#231;&#245;es atrav&#233;s do OPRE &#8211; Programa Operacional para a Promo&#231;&#227;o da Educa&#231;&#227;o, a desenvolver em parceria com o Programa Escolhas, pela Associa&#231;&#227;o Letras N&#243;madas e pela Rede Portuguesa de Jovens para a Igualdade de Oportunidades entre Mulheres e Homens. O OPRE pretende atenuar as barreiras entre as comunidades ciganas e o sistema de ensino formal, atribuindo 25 bolsas de estudo a jovens ciganas e ciganos e incluindo um conjunto de medidas de forma&#231;&#227;o, tutoria e acompanhamento das/os jovens e respetivas fam&#237;lias. </p>     <p>No ano letivo 2015-2016, havia oito estudantes ciganos no ensino superior. Em 2016-2017, s&#227;o j&#225; 25 (treze mulheres e doze homens). T&#234;m duas mediadoras a trabalhar no terreno, que v&#227;o a casa &#8220;namorar&#8221; os pais para deixarem as filhas frequentar a Universidade e levam as m&#227;es a conhecer as institui&#231;&#245;es onde elas v&#227;o ter aulas. </p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>A Associa&#231;&#227;o Letras N&#243;madas promove ainda o acesso aos cuidados de sa&#250;de da comunidade cigana, atrav&#233;s do projeto <i>Latchim Sastipen</i>, que quer dizer <i>Boa Sa&#250;de</i>, porque, em Portugal, as pessoas ciganas t&#234;m uma esperan&#231;a m&#233;dia de vida 18 anos inferior &#224; comunidade maiorit&#225;ria, o que muitas pessoas desconhecem.</p>     <p>A Letras N&#243;madas, a entidade representante em Portugal do programa ROMED<a href="#3"><sup>3</sup></a><a name="top3"></a> do Conselho da Europa, &#233; respons&#225;vel por capacitar mulheres e homens ciganos para atuarem como mediadores entre a comunidade cigana e as autoridades locais. Para isso, existem parcerias em Alfandega da F&#233; e Viseu, e outras est&#227;o em negocia&#231;&#227;o. </p>     <p>&#8220;Sou uma mediadora nata no que toca ao relacionamento entre as duas culturas. Tenho o sonho de conseguir que o povo cigano obtenha a instru&#231;&#227;o necess&#225;ria para saber quais os seus direitos e deveres. Que estudem, que todas e todos estudem. Gostava muito de ter oportunidade de falar e ser ouvida. Isso consegue-se na pol&#237;tica, no Parlamento Europeu. Acho que est&#225; na altura&#8221;, afirma Olga Mariano.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><a href="#top1"><sup>1</sup></a><a name="1"></a>At&#233; 2016 escreveu quatro livros de poesia.</p>     <p><a href="#top2"><sup>2</sup></a><a name="2"></a>Cf. <a href="http://www.rcc.gov.pt/Directorio/Temas/ServicosCidadao/Paginas/P%C2%B4lo-Sonho-%C3%A9-que-vamos.aspx" target="_blank">http://www.rcc.gov.pt/Directorio/Temas/ServicosCidadao/Paginas/P%C2%B4lo-Sonho-%C3%A9-que-vamos.aspx</a> </p>     <p></p> <a href="#top3"><sup>3</sup></a><a name="3"></a>Cf. <a href="http://coe-romed.org/" target="_blank">http://coe-romed.org/</a>     ]]></body>
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