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</front><body><![CDATA[ <p align="right"><font size="2"><b>LEITURAS</b></font></p>     <p><font size="4"><b>Com-Tens&#227;o. Souza, C. F. (2016). Lisboa: Editora Apenas, 157 pp.</b></font></p>     <p><b>Fernando Ribeiro*</b></p>     <p>&#160;* Universidade Nova de Lisboa &#8211; Universidade dos A&#231;ores, Faculdade de Ci&#234;ncias Sociais e Humanas, Centro de Hist&#243;ria D&#8217;Aqu&#233;m e D&#8217;Al&#233;m-Mar, <a href="mailto:f.ribeiro@fcsh.unl.pt">f.ribeiro@fcsh.unl.pt</a>.</p> <hr/>     <p>&nbsp;</p>     <p><i>A Paola Poma</i></p>     <p>Em obra estruturada em quatro cap&#237;tulos expandindo-se por cerca de quarenta p&#225;ginas cada, com a dimens&#227;o de 12,7cm&#215;20,32cm e envoltas em capa mole colorida a verde seco chamando a aten&#231;&#227;o do leitor logo atrav&#233;s de foto de orqu&#237;dea alva encimada por t&#237;tulo singular <i>Com-Tens&#227;o</i>, editora Apenas publicou em Outubro de 2016 segunda obra de fic&#231;&#227;o assinada por jovem autora, de ascend&#234;ncia, brasileira: Cl&#225;udia </p>     <p>Franco Souza, sobre a qual ficamos a saber em nota biobibliogr&#225;fica ser igualmente investigadora da obra de </p>     <p>Fernando Pessoa, havendo publicado em continentes americano e europeu. Orqu&#237;dea alva em capa re&#250;ne o segredo: amor rec&#237;proco entre &#8220;Pai e filha&#8221; de beleza e pureza t&#227;o assinal&#225;veis quanto a perfei&#231;&#227;o e espiritualidade de que esta esp&#233;cie floral &#233; s&#237;mbolo de renascimento maior, assim C. Franco Souza em excerto patente em contracapa. De assinalar modo &#8220;parco&#8221; como o livro se apresenta. Espa&#231;o embora para agradecimentos a ascendentes, descendentes, colaterais e companheiro. Amores tamb&#233;m. Bem como para cita&#231;&#227;o de F. Pessoa/&#193;lvaro de Campos: &#8220;Depus a m&#225;scara e vi-me ao espelho&#8221; (18-8-34) &#8220;(&#8230;) assim sou a m&#225;scara/ E volto &#224; personalidade como a um <i>terminus</i> de linha.&#8221; Obra de mulher: em busca da felicidade &#8211; da vida feliz &#8211; a mesma, da qual todos, desde h&#225; s&#233;culos, carecemos, como assinalado logo em in&#237;cio de &#8220;Da Vida Feliz&#8221; &#8211; escrito por S&#233;neca no primeiro meio s&#233;culo da nossa era. Em <i>Com-tens&#227;o</i> o narrador desvenda ao leitor p&#233;riplo essencial &#224; aproxima&#231;&#227;o, consecu&#231;&#227;o e obten&#231;&#227;o de tal escopo por protagonista de nome Daisy na senda de desejo natural sempre observando sabedoria de S&#233;neca: &#8220;n&#227;o o fa&#231;amos sem o apoio de um homem experimentado&#8221; para obviar o &#8220;caos de existir&#8221; (I: 31). Com Daisy, mulher carioca, m&#227;e e av&#243;, e arquitecta renomada nos seus cinquenta (I: 17) propriet&#225;ria a pulso de <i>atelier</i> &#8220;Daisy &amp; Cia&#8221; (I: 21), em comunh&#227;o de almejada vida feliz com seu quarto homem-marido: Fabr&#237;cio, passa leitor a fruir o valor ganho com di&#225;logos (representa&#231;&#227;o em <i>showing</i>) com Bira &#8211; pai: &#8220;seu grande amor, seu grande amigo&#8221; (I: 27) (de Daisy) &#8211; por este ser feito assumir a voz grave do Coro com fun&#231;&#227;o de exegeta respons&#225;vel por concentra&#231;&#227;o da aten&#231;&#227;o do destinat&#225;rio em exist&#234;ncia irredut&#237;vel &#224;quela condi&#231;&#227;o de mulher cujas anota&#231;&#245;es interessar&#227;o apenas por pr&#243;ximas de subjectividades comuns a toda a mulher de sempre. Mas tamb&#233;m por representa&#231;&#227;o narrativa em <i>telling</i>: incluindo descri&#231;&#245;es ora de situa&#231;&#245;es conjugais &#8211; com ou sem trai&#231;&#227;o ao marido residente &#8211; e momentos em <i>discurso indirecto livre</i> caldeados com analepses indispens&#225;veis ao tom intimista constru&#237;do por esta fic&#231;&#227;o singular. Esta obra, provida de peculiar modo pr&#225;tico-dram&#225;tico, &#233; ex&#237;mia na gest&#227;o do interesse em destinat&#225;rio, a ponto de faz&#234;-lo sentir as emo&#231;&#245;es pr&#243;prias de mulher-ao-rubro, para quem a exist&#234;ncia com seus quatro c&#244;njuges: Gon&#231;alo, Pedro, Johnny e Fabr&#237;cio<i> apenas </i>representa encena&#231;&#227;o das quatro fases, das quais qualquer mulher ter&#225; de ficar consciente para, com a dist&#226;ncia essencial, ascender &#224; assun&#231;&#227;o de arqu&#233;tipo do seu<i> animus</i> a integrar em plenitude observada a sabedoria personificada por Bira gradualmente investido de seu valor arquet&#237;pico qual <i>eu-superior </i>(<i>Selbst</i>): serenidade, generosidade, disponibilidade para o Outro. A narrativa dirige-se &#224; condi&#231;&#227;o do &#8220;Feminino&#8221;, do &#8220;se construir mulher&#8221;, atenta &#224; &#8220;condi&#231;&#227;o de fragilidade&#8221; (I: 28). E sem que, do princ&#237;pio ao final da obra, desapare&#231;a tom &#233;pico: &#8220;(&#8230;) sou mulher, mas tenho uma profiss&#227;o&#8221; (I: 18). Sendo resist&#234;ncia e fortaleza da personagem principal nutridas justamente por iluminado anci&#227;o persistente e atento &#224; transforma&#231;&#227;o vital &#224; supera&#231;&#227;o da condi&#231;&#227;o de fragilidade da humanidade cujos g&#233;neros carecem de aprendizagem pela maturidade. Atinge-se apogeu emocional com cena de viola&#231;&#227;o de Daisy pelo segundo marido &#8220;formatado para o trabalho&#8221; (II: 58) e com quem aceitou partilhar a supera&#231;&#227;o da solid&#227;o durante a exist&#234;ncia em Paris (II: 45): &#8220;Peter tampou rudemente a boca de Daisy. Ela mordeu a m&#227;o dele o mais forte que p&#244;de e continuou a gritar cada vez mais desesperada. Peter tirou a cueca: Daisy estava absurdamente horrorizada, enojada&#8221; (II: 84). Acusa assim narrador elementar &#8220;justi&#231;a&#8221; no masculino cego por trai&#231;&#227;o resultante de anos de casamento fact&#237;cio, por sua vez fabricado para superar o primeiro e quase adolescente fruto entre inexperientes jovens, velozmente tornados pais cuja imaturidade narrador encena atrav&#233;s de primeiro quadro de viol&#234;ncia conjugal (I: 29) &#8211; justamente em dia de formatura, no qual &#8220;os gritos e insultos se transformaram em tapas, em agress&#245;es f&#237;sicas&#8221; (I: 16), ap&#243;s as quais o espelho viu &#8220;todas as marcas de uma vida infeliz&#8221; (I: 17) no rosto de jovem rec&#233;m-formada que de Rio para S&#227;o Paulo e para Paris e de novo em Rio de Janeiro haveria de vencer vida de solid&#227;o apoiada por pai(s) cuidando de educa&#231;&#227;o de crian&#231;a a cargo (<i>passim</i>). Da m&#225;scara, n&#227;o s&#243; facial se fala agora, mas sobremodo de <i>persona. </i>Daisy retoma a vida com <i>maquillage</i> a preceito para poder enfrentar socialmente o real livre de fragilidades: &#8220;Levantou-se de madrugada e tomou seu rem&#233;dio para ansiedade h&#225; tempos guardado em sua gaveta. (&#8230;) maquilhou-se frente ao imenso espelho do banheiro. (&#8230;) Somente no espelho do elevador notou que o rem&#233;dio da noite anterior n&#227;o havia apagado todos os tra&#231;os da sua ansiedade (&#8230;) iria ver mesmo Johnny&#8221; (II: 62). Concomitantemente, narrador trabalha <i>ironia </i>o bastante para <i>diegesis</i> surgir a leitor mais verdadeiramente enriquecida a ponto de protagonista (logo em I: 4) desvendar necessidade de analepses elucidativas o bastante para colher a for&#231;a de dupla<i> </i>Daisy-Bira<i> </i>retrospectivamente. No cerne da narrativa: a instabilidade ps&#237;quica &#8211; o que faz destacar registo intimista como conv&#233;m a obra moderna ainda para mais sob voz igualmente no feminino, porquanto mulher, n&#227;o na primeira pessoa &#233; certo, d&#225; forma a este narrador heterodieg&#233;tico, e a focaliza&#231;&#227;o omnisciente tornando her&#243;i incans&#225;vel no confronto &#233;pico frente a realidade adversa. Mas logo tal luta se assume como viagem de transforma&#231;&#227;o essencial agora a modo n&#227;o apenas l&#250;dico e de entretenimento com que a obra poderia ser recebida. &#201; de interesse para a actualidade, apesar de manter forma pr&#243;xima de &#8220;Bildungsroman&#822    1;, n&#227;o apenas por tamb&#233;m formalmente assumir registo quase autobiogr&#225;fico. Na verdade, sabemos ter Daisy registado em seu &#8220;caderno de anota&#231;&#245;es&#8221; os momentos determinantes da sua exist&#234;ncia periclitante. Todavia esta narrativa decorre sob voz-de-terceira. Somos preparados para tal e no tempo certo somos instados a deixar de sermos leitores quando, em abertura espantosa e surpreendente, o criador liter&#225;rio suscita a apresenta&#231;&#227;o da narradora, pr&#243;xima de e tamb&#233;m mulher do sangue de Daisy, sua neta Sofia: &#8220;J&#225; no final de vida, Daisy me deu todos os seus cadernos de anota&#231;&#245;es. Conversamos sobre sua hist&#243;ria de vida. E ela sempre enfatizava: Sofia<i> </i>pode escrever a minha biografia, mas fa&#231;a dela uma bela hist&#243;ria. Dizem que a literatura &#233; capaz de nos salvar.&#8221; (III: 126). E a quarta gera&#231;&#227;o, pela escrita, &#8220;salvaguardou&#8221;, aquando do passamento de Bira, segundo estrutura&#231;&#227;o subtil de C. Franco Souza, o reconhecimento do valor da liberta&#231;&#227;o pela emo&#231;&#227;o em ep&#237;logo, no qual se sente ser toda a mulher espa&#231;o de processo de amadurecimento e transforma&#231;&#227;o em ac&#231;&#227;o potenciada por &#8220;emo&#231;&#227;o art&#237;stica caracter&#237;stica das almas sens&#237;veis permeando todo o que perceber a vida para al&#233;m da realidade brutal e concreta que o rodeia indo al&#233;m dos simples fen&#244;menos vividos na sua imediatez&#8221;, como gentilmente nos confessou Cl&#225;udia F. Souza em 20 de Fevereiro de 2017.</p>     ]]></body>
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