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<publisher-name><![CDATA[Equipa de Investigação Faces de Eva. Estudos sobre a Mulher, CICS.NOVA - Centro Interdisciplinar de Ciências Socias, Faculdade de Ciências Sociais e Humanas, Universidade NOVA de Lisboa, Portugal.]]></publisher-name>
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</front><body><![CDATA[ <p align="right"><font size="2"><b>NOTA DE ABERTURA</b></font></p>     <p><b>Isabel Henriques de Jesus</b></p> <hr/>     <p>&nbsp;</p>     <p>Neste número da revista <i>Faces de Eva. Estudos sobre a Mulher</i> escolhemos, como figura de capa, uma mulher chinesa, mulher destacada na história social e política do seu país, considerada, por muitos, a mãe da China moderna.</p>     <p>Na senda do que já fizemos em números anteriores, pretendemos suscitar a curiosidade por mulheres oriundas de geografias e de culturas que não nos são imediatamente acessíveis. Neste caso, trata-se mesmo de uma figura bastante desconhecida para nós, e que não tem originado uma análise e divulgação aprofundadas sobre o seu percurso de mulher pública e interventiva. </p>     <p>Apresentá-la tem como finalidade, não apenas recordar a sua actuação social e política, mas também desassossegar as mentes mais conservadoras, desafiando-as para outras realidades, diferentes na sua especificidade de tempo e de espaço, e únicas, como únicas são todas as mulheres. São-no, afinal, todos os seres humanos, uma &#8220;verdade de La Palice&#8221; que, contudo, nem sempre é observada nos discursos e nas práticas, principalmente quando se pretende homogeneizar para, em seguida, hierarquizar.</p>     <p>Nunca é demais recordar que a História, seja política, social, económica ou militar, tem sido fundamentalmente percepcionada e contada no masculino, razão pela qual desvendá-la no feminino é um imperativo ético que compete a todas/os, mas que exige das mulheres uma atenção constante e uma acção consciente e deliberada. A revista <i>Faces de Eva. Estudos sobre a Mulher</i> tem feito disso uma missão, desvendando mulheres mais ou menos célebres, através da recuperação dos seus legados, enquanto cidadãs de pleno direito, dando-lhes voz, nas entrevistas e auto-retratos, ou analisando-as individual ou colectivamente nas diferentes secções que estruturam a revista. O espanto, que nunca deixa de nos orgulhar e de nos alentar para uma tarefa seguramente muito exigente, é o grande número de possibilidades que nos surgem de cada vez que pensamos numa figura de capa, num artigo, numa mulher a entrevistar... quantidade e qualidade que suscitam algumas perguntas: porquê tanto tempo ocultadas, tanto tempo ausentes? Quem falava em vez delas? Quem se apresentava em seu nome? </p>     <p>Estas questões, tão sensíveis, &#8220;quase&#8221; deixam de fazer sentido em sociedades em que a presença das mulheres no espaço público é, não apenas uma evidência que importa acautelar permanentemente, mas uma marca indelével. Contudo, a sua formulação é recuperada por outras mulheres que não se acham representadas nos discursos &#8220;ditos&#8221; dominantes das mulheres europeias ou norte-americanas.</p>     <p>Recordo, a este respeito, a polémica gerada em torno do livro de Kristeva <i>About Chinese Women</i> (1977<a href="#_ftn1" name="_ftnref1" title=""><sup>[1]</sup></a>), escrito na sequência da curiosidade pela cultura chinesa, que levou a autora a visitar a China em 1974. As suas reflexões sobre as mulheres chinesas, fruto do impacto com uma &#8220;outra&#8221; cultura, evidenciam, segundo Spivack, um possível conflito na transposição de categorias europeias (neste caso absorvidas no contexto do feminismo francês dessa época) para a compreensão de vivências diferentes e heterogéneas que é necessário percepcionar adequadamente para que a sua apreensão seja viável. Só através de uma &#8220;crítica constante&#8221; que permita ao/à crítico/a entender a sua própria posição de sujeito, o/a &#8220;outro/a&#8221; pode escapar a tornar-se apenas um puro objecto do conhecimento, visto como entidade única e, assim, enviesado/a face à sua diversidade e, ao mesmo tempo, especificidade vivencial. </p>     <p>Representar o/a &#8220;outro/a&#8221;, enquanto grupo, comporta dificuldades múltiplas, nomeadamente pelo risco de generalização, mesmo quando se pretende identificar o que é desconhecido; por outro lado, não está imune aos efeitos de distorção provocados pelas referências culturais, pessoais e intelectuais de quem fala através da diferença. Estas questões foram acentuadas por diversas críticas feministas pós-coloniais, que viram, no livro de Kristeva, uma representação essencialista e &#8220;reverenciada&#8221; das mulheres chinesas, não apenas através de uma apreciação fixa e estabilizada destas mulheres mas também da imagem idealizada com que a autora pretendeu legitimar a sua abordagem do <i>feminino</i>. </p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Estas são, entre outras, preocupações amplamente manifestadas pelas feministas pós-coloniais, que enfatizam o lugar do sujeito na percepção das diferenças e pretendem acautelar os riscos de representações acríticas, pouco fundamentadas, e assentes em códigos e modelos produzidos a partir do &#8220;exterior&#8221;. </p>     <p>O nosso contributo para o conhecimento da mulher que consta na capa do presente número realiza-se com dois textos, introduzidos na secção &#8220;homenagem&#8221;, que ilustram o seu percurso, enquanto mulher com uma intervenção muito significativa no contexto social e político da China, durante grande parte do século XX. Esperamos que esta escolha estimule o interesse por outras mulheres que, em locais distantes, desempenharam papéis decisivos para a História das suas regiões, e permita incrementar o estudo das mulheres chinesas, acrescentando-lhe conhecimento crítico.</p>     <p>É com grande pesar que revelamos o desaparecimento de Eva-Maria von Kemnitz, colaboradora da equipa de investigação <i>Faces de Eva. Estudos sobre a Mulher</i>, onde se insere a revista com o mesmo nome. Investigadora na área dos Estudos sobre as Mulheres Árabes-Islâmicas e autora de artigos publicados em números anteriores, colabora, nesta 38.ª edição, com a recensão do livro de Ana Anjos Mântua, <i>A Americana que Queria Ser Rainha de Portugal</i>. Obrigada, Eva-Maria!</p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="center"><a name="q1"></a><img src="/img/revistas/eva/n38/n38a01f1.jpg"/></p>     
<p>&nbsp;</p>     <p><a href="#_ftnref1" name="_ftn1" title=""><sup>[1]</sup></a>. Publicado em França, em 1974, pelas Éditions des Femmes e republicado, em 1977, em língua inglesa.</p>      ]]></body>
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