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<publisher-name><![CDATA[Equipa de Investigação Faces de Eva. Estudos sobre a Mulher, CICS.NOVA - Centro Interdisciplinar de Ciências Socias, Faculdade de Ciências Sociais e Humanas, Universidade NOVA de Lisboa, Portugal.]]></publisher-name>
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</front><body><![CDATA[ <p align="right"><font size="2"><b>ENTREVISTAS</b></font></p>     <p><font size="4"><b>Yvette Kace Centeno</b></font></p>     <p><b>Fernando Ribeiro*</b></p>     <p>*Universidade Nova de Lisboa, Faculdade de Ciências Sociais e Humanas, Centro de Humanidades e Universidade dos Açores, <a href="mailto:f.ribeiro@fcsh.unl.pt">f.ribeiro@fcsh.unl.pt</a></p> <hr/>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="center"><a name="f1"></a><img src="/img/revistas/eva/n38/n38a12f1.jpg"/></p>     
<p>&nbsp;</p>     <p><b>A </b>1947 &#8211; 7:</p>     <p>«São as avós não as mães</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>que nos abrem as portas</p>     <p>e nos guiam»</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><i>in </i>YKC, <i>Canções do Rio Profundo</i>, Porto, Asa 2001, p. 53</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><i>Vive em Lisboa? Estudou em Lisboa? É esta a sua </i>«pátria antiga» <i>como diz o poeta em </i>Poema VII<i>? A Tavira-da-Luz baixando sob as escadas de pedra da casa da Avó era tesouro de infância ou de adolescência ou de sempre?</i></p>     <p>Pergunto-me: «QUANTAS VIDAS VIVEMOS?»</p>     <p>Lembrando que a minha vida vai longa, e alongada mais até no tempo do que no espaço, ao fazer 77 anos no momento de dar esta entrevista, tentarei responder, na medida do possível, às perguntas feitas. Pelo menos a algumas.</p>     <p>Nasci em Lisboa, em 1940, em plena guerra, de que a minha mãe (polaca, nascida em Lodz) escapou por ter vindo para Portugal com o meu pai, com quem casou em 1939, a tempo de já não assistir à invasão de Paris, onde vivia com a irmã mais velha, que foi minha madrinha e uma quase segunda mãe. Pois vivi em Paris, com ela, frequentemente, até casar.</p>     <p>Vivi depois em vários outros sítios: Argentina, Buenos Aires, de 1946 até 1950, e de regresso a Portugal repartiu-se o meu tempo de infância e juventude por Tavira (a casa da minha avó), por Lagos (a casa dos meus tios, do irmão mais novo do meu pai), pelo Porto e, finalmente, por Coimbra, onde acabei o Liceu e entrei na Faculdade de Letras, tendo vindo acabar o curso de Germânicas já em Lisboa, também na Faculdade de Letras.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Em 1963-64 teve lá início a &#8220;aventura universitária&#8221;, que continuaria na Universidade Nova, até me aposentar em 2009.</p>     <p>Num poema, no momento da sua escrita, a &#8220;pátria antiga&#8221; não é um espaço definido, mas um espaço desejado, como o de <i>Mignon</i>, no poema de Goethe, ou o de um Baudelaire, tantas vezes sonhado, antigo porque a sua raiz é simbólica, profunda, do domínio do indizível. Todos temos uma pátria antiga, e por ela ansiamos, sabendo que não se alcança.</p>     <p>A Tavira da casa da minha avó Rosa pertence ao meu passado de criança e de jovem adulta, está recolhida em memórias felizes, de uma casa grande, onde nas tardes de calor imenso eu lia, sem ser incomodada, os primeiros romances de Agustina Bessa-Luís. Quando a avó morreu o meu tio João, herdeiro, vendeu a casa: ele vivia e trabalhava em Lagos, no seu escritório de advogados, onde agora um neto já exerce também a profissão.</p>     <p>Nessa casa de Lagos também passei tempos felizes, com primos e amigos, era o tempo das férias grandes de Verão, muita praia, muito mar, e sempre muita leitura pelo meio. A biblioteca do meu tio, aliás como a do meu pai, tinha de tudo, desde policiais à grande literatura portuguesa e universal (eu preferi as <i>Aventuras do Capitão Morgan</i>, na altura, quando tinha onze anos ao Alves Redol...), mas já lia em inglês e francês muita outra coisa.</p>     <p><b>B </b>1957 &#8211; 17</p>     <p>«O que mais custa é ter a coragem para se ser aquilo que se é. Um enorme desejo de ternura tinha começado a crescer dentro de Vera» <i>in </i>YKC<i>, As palavras, que pena</i>, Lisboa, (1967) 1972, Ática, p. 41</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><i>Quais e como os tempos passados em Coimbra: os do findar do liceu, e do ballet, e das explicações de francês, a condição de universitária: prática, porquanto também co-fundadora do CITAC? Inicia-se nesta década na arte literária: poesia e teatro. Era manifestação da vontade da natureza primordial, da natureza lapidada já na Universidade de Coimbra ou de outras?</i></p>     <p>Acabei o liceu em Coimbra, e antes de entrar para a Faculdade fundámos, com mais três amigos e uma amiga, que o pai proibiria de continuar connosco, o CITAC, que ainda existe, está vivo e continua, com os seus projectos de modernidade e de vanguarda.</p>     <p>O nosso primeiro encenador foi António Pedro, vinha do Porto aos fins-de-semana.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>A primeira peça de relevo foi <i>O DIA SEGUINTE</i>, de Luís Francisco Rebello. E mais tarde, já com Paulo Quintela, <i>O MAR</i>, de MIGUEL TORGA, onde brilhou o poeta Manuel Alegre. Até hoje gosto do palco, não como possível actriz, mas antes como criadora, como participante nas ideias, na elaboração, na produção. O <i>backstage </i>é para mim o mais apaixonante. Assiste-se ao nascer das ideias, ao seu desenvolvimento, depuração, ao &#8220;acto de criação&#8221;. É disso que gosto, e apercebo-me de que é assim em tudo: ver nascer, ver crescer... é o que me motiva, em mim, como nos outros.</p>     <p>Posso dizer que todos os nossos Catedráticos de então apreciavam estas actividades, algo subversivas, no seu entender? Não. Mas outros sim e ficaram amigos para a vida.</p>     <p><b>C </b>1967 &#8211; 27</p>     <p>«Sou juiz de mim mesma E não me absolvo»</p>     <p>i<i>n </i>YKC<i>, Irreflexões, </i>Lisboa, Ática, 1974, p. 72</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><i>Termina o curso de Filologia Germânica na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa e aqui permanece como assistente universitária.</i></p>     <p><i>Começa então a desenhar o tema da tese de doutoramento: alquimia-simbologia em que se especializa sem deixar de continuar a escrever </i>Teatro Aberto, Quem se eu gritar (Ática, 1962), <i>Não só quem nos odeia </i>(Portugália, 1962) e As palavras que pena (1967), <i>a traduzir&#8230; Brecht&#8230;</i></p>     <p>Eu vivi, nesses tempos de Coimbra, quase mais em França, em Paris, com a minha tia Guenia, do que em Coimbra. De 1953 a 1958, foi frequente. Com a Campanha do General Delgado viemos então viver para Lisboa, e aqui acabei o curso.</p>     <p>A minha mãe, com saudades, levava-me no <i>Sud-Express </i>com ela. Fiquei longas temporadas, ora seis meses, ora um ano, ora só o Verão, era conforme. Em Paris respirava-se a liberdade que faltava em Portugal.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Ali foi a minha pátria, ali vi nascer a nova poesia, de Prévert, a nova pintura, as novas canções, os cafés dos artistas, o jazz pelas noites fora &#8211; já mais velha. Comecei em Paris muitos dos poemas de OPUS 1, muitos dos romances ou dos <i>sketches </i>de Teatro: com Prévert aprendi o riso dos <i>sketches </i>de teatro, que continuei por cá, no TEATRO ABERTO; mas só depois da Revolução de Abril foram publicados.</p>     <p>Escrever, sempre escrevi, em cadernos, por todo o lado, um pouco ao calhar. Desde os onze ou doze anos. Folhas que não iam longe, felizmente... Publicar já era outra aventura: muita escolha, muita depuração, buscando a palavra certa, o ritmo que não ofendesse quando ouvia os sons</p>     <p>dentro da cabeça. Horror à cacofonia.</p>     <p><b>D-E </b>1987-1997 &#8211; 47-57</p>     <p>«Lembro-me dos jardins: pequenos jardins japoneses de interior com as areias as pedras os arbustos e às vezes o fio de água. Inesperados em pleno Montmartre um bairro tão tradicionalmente francês. Mas a França, como o resto da Europa quer adoptar os ritmos do Oriente. Um jardim interior.»</p>     <p><i>in </i>YKC<i>, No Jardim das Nogueiras</i>, Lisboa, Bertrand, 1982, pp. 89-90</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><i>Foi Bolseira </i><i>da Fundação Calouste Gulbenkian (1968-72), investigou dentro e fora de Portugal sobre Goethe: Alquimia em Faust e esteve na primeira linha dos jovens professores convidados a ingressarem na Universidade Nova de Lisboa </i><i>&#8211; em formação (1973) &#8211;, vindo a integrar a Comissão Directiva da Área das Ciências Sociais e Humanas da UNL ecorroborando a marca da interdisciplinaridade nodesenho dos Cursos então emproposição. Continuou investigando, e publicando, até ao presente sobre &#8211; aquém e além-fronteiras &#8211;Fernando Pessoa. Doutoramento (1979), Associação (1980), Agregação (1983) e Cátedra (1986). Reconhecimento em França: </i>Chevalier de L'ordre des Palmes Académiques (1987), <i>sendo igualmente distinguida com a Medalha da Cidade de Bona (1988) aquando da visita de Mário Soares à República Federal da Alemanha, cuja comitiva presidencial integrou; mais tarde em 1994, o Presidente da República Richard von Weizsäcker agraciou-a com a </i>Verdienstkreuz 1. Klasse.</p>     <p>Fui privilegiada, em Lisboa, por ter amigos como um David Mourão-Ferreira, que me levaram à antiga editora Ática e a mim como a outros (era o Herberto Helder) abriram as portas da edição.</p>     <p>Depois fui caminhando, sempre pelo privilégio de ter amigos que estavam atentos à produção dos mais jovens, como na Portugália Editora (José da Cruz Santos e outros), e na verdade nem sempre o que eu escrevia era bem acolhido pelos Papas da crítica de então. Mas na verdade pouco me importava, a minha pulsão era a da escrita, e não a da leitura dos críticos. Houve a certa altura quem escrevesse num jornal: &#8220;mas donde lhe vem o K.?&#8221; Seria bem simples perguntar-me... o K. é o Kace da minha família polaca, o apelido da minha mãe, que desejei honrar, assinando com uma discreta inicial: Y. K. Centeno, de início, e depois, por insistência dos editores, queriam que se soubesse que eu era mulher, Yvette Kace Centeno ou, outras vezes, Yvette K. Centeno. Foi-se a primeira intenção de fazer como T. S. Eliot, esconder-me atrás das iniciais... Começou a tirania editorial... que ainda hoje se calhar continua, com outros autores.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><b>F </b>1997 &#8211; 57</p>     <p>«Será preciso combater esta sociedade em que vivemos e que nos mata o Desejo. Uma cultura que tudo relativiza não é compatível com o Desejo, pois o Desejo é um Absoluto no Ser. E na consciência de Ser.<i>»</i></p>     <p><i>in YKC, Amores Secretos</i>, Porto, Asa, 2006, p. 51</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><i>O espaço da arte literária de Y. K. Centeno, porquanto assim assina singelamente, é também o da meditação e por esta via da intervenção no espaço sociocultural de uma nação acordando para a sua grandeza (e pobreza</i> <i>igualmente) também em momento de dor e guerra. Como viveu a vida intelectual nesta década, na qual teve programas literários e juvenis na RTP, e durante a qual o espaço de edição-publicação era também espaço ganho pelos criadores-editores, para, pela arte, afirmarem a vinda da modernidade?</i></p>     <p>Não gosto de falar dos meus livros. Escrevi, estão escritos. Interessa-me mais o que possa fazer a seguir: colaborações várias, como fiz, na rádio, na televisão, concertos comentados com o pianista Nuno Vieira de Almeida, outro privilégio, pelo país fora. Se estou disponível, gosto de colaborar com tudo o que se prenda com a intervenção na Educação e na Arte. É aí que respiro à vontade, me sinto mais útil ao meu país. Como quando dava aulas: sempre gostei de dar aulas, havia nas aulas um intercâmbio de ideias, nasciam projectos que outros levariam a cabo. Era o &#8220;ver crescer&#8221; um país de pequeninos, durante tantos anos asfixiado.</p>     <p><b>G </b>2017 &#8211; 77</p>     <p>«Quero escrever, e de novo recorro a fragmentos da memória, guardados como se fossem sonhos. Vou escrevendo, contando, pelo caminho. A escrita é uma aprendizagem, e aprender não tem fim.»</p>     <p><i>in </i>YKC, <i>Do Longe e do Perto-Quase Diário</i>, Porto, Sextante, 2011, p. 9</p>     <p>&nbsp;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><i>Está escrevendo. Está sempre criando. E também escreveu histórias infantis. Como emerge canto-da-criação em YKC&#8230; Mulher de, também, artista, posto ser senhor seu marido engenheiro (civil) de profissão e músico de jazz: contrabaixista&#8230; Gosta de música! Gosta de partilhar seus momentos predilectos! Sente-se bem com a bênção de netas e netos, alguns dos quais já universitários estudando dentro e fora de Portugal. Qual o «canto» que ofereceria a senhor seu marido com quem partilha existência singular há&#8230;?</i></p>     <p>Tive a sorte de em casa, com o meu marido &#8211; engenheiro-músico &#8211;, e com os meus filhos e amigos, que vinham de todo o lado, poder ter vivido, durante anos, num ambiente de alegria, de riso (a par do estudo, é óbvio, pois sem trabalho não se vai a nenhum lado) e de noitadas que mesmo assim não me impediam de investigar e de escrever, de um modo que direi &#8220;atravessado&#8221;.</p>     <p>Ainda hoje vivo de modo atravessado: ora eu com os outros, ora os outros comigo.</p>     <p>«O eu individual é transitório, votado à decadência e ao desaparecimento, mas o Eu Universal manter-se-á sempre unido e perfeito»</p>     <p><i>in </i>YKC, «Notas sobre a &#8220;Viagem ao Oriente&#8221;» in <i>5 Aproximações António Ramos Rosa, Peter Weiss, alquimia, Hermann Hesse, Fernando Pessoa</i>, Lisboa, <i>Ática, 1975</i>, p. 131</p>     <p>&nbsp;</p>     <p>Estudei piano, ainda que mal e pouco, em Coimbra... Mas ficou-me o amor da música clássica. Gosto de ópera, os meus compositores de eleição, Mozart e Wagner.</p>     <p>Com Wagner é um amor-ódio: puxa de mim uma embirração especial, pelo seu egoísmo gigantesco, que se entrelê nos <i>Diários </i>de Cosima, ela a submissa, ele o centro do mundo... mas depois, esquecendo isso a matéria dos <i>librettos</i>, a fusão desejada de texto, mito e música...</p>     <p>De Mozart escolheria tudo: nasceu noutra esfera, desceu até nós, partiu cedo demais. Escrevi AS PALAVRAS QUE PENA a ouvir o seu Requiem... E não me canso de ouvir e tentar entender indo mais longe &#8211; a FLAUTA MÁGICA. De cada vez encontro algo de novo.</p>     <p>Mas voltando à pergunta: ao meu marido, jazz, de todos os tempos, e a bossa nova de Vinicius de Morais, com Chico Buarque, que ele tantas vezes acompanhou ao contrabaixo, no Teatro Villaret... Ao poema <i>Pedro, meu Filho</i>, que Vinicius recitou uma vez, e eu na plateia ouvia, estando à espera do meu terceiro filho, se deve esse filho que nasceria em breve se chamar Pedro.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Quando o concerto acabou e o meu marido veio ter comigo, anunciei-lhe: diz ao Vinicius que o nosso filho se vai chamar Pedro. E assim foi. Também ele é músico, intérprete e compositor...</p>     <p>Que mais posso desejar: rodeada de poesia e música, nunca de outro modo poderia ter sido tão feliz!</p>     <p>Falar da alegria das netas e dos netos (são 12!) não caberá aqui. Fica para outra altura.</p>     <p>Y. K. Centeno Lisboa, Fevereiro de 2017</p>     <p>Faces em «Faces de Eva» &#8211; e a minha não menos &#8211; devolvem-lhe sorriso: Bem haja YKC</p>     <p>&nbsp;</p>     <p>No caminho que pisas</p>     <p>qual o rasto que deixas</p>     <p>de estrelas ou de sangue</p>     <p>De quanta gente levas contigo</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>as queixas</p>     <p>De quanta gente O corpo</p>     <p>luminoso ou exangue</p>     <p>O que procuro?</p>     <p>O teu nome.</p>     <p>Mas o teu nome secreto aquele que não se encontra nas letras do alfabeto</p>     <p>&nbsp;</p>     <p>in <i>A Oriente</i></p>     <p>YKC</p>      ]]></body>
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