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<publisher-name><![CDATA[Equipa de Investigação Faces de Eva. Estudos sobre a Mulher, CICS.NOVA - Centro Interdisciplinar de Ciências Socias, Faculdade de Ciências Sociais e Humanas, Universidade NOVA de Lisboa, Portugal.]]></publisher-name>
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</front><body><![CDATA[ <p align="right"><font size="2"><b>PIONEIRAS</b></font></p>     <p><font size="4"><b>Ana Patrícia Cardoso Lopes</b></font></p>     <p><b>Ana Rosa Mota*</b></p>     <p>*Universidade Nova de Lisboa, Faculdade de Ciências Sociais e Humanas, Centro Interdisciplinar de Ciências Sociais, Faces de Eva &#8211; Estudos sobre a Mulher, <a href="mailto:a.r.sousamota@gmail.com">a.r.sousamota@gmail.com</a></p> <hr/>     <p>&nbsp;</p>     <p align="center"><a name="f1"></a><img src="/img/revistas/eva/n38/n38a14f1.jpg"/></p>     
<p>&nbsp;</p>     <p>Ana Patrícia Cardoso Lopes é uma militar portuguesa que comandou uma missão internacional da Guarda Nacional Republicana (GNR), facto assinalável pelo seu pioneirismo, enquanto mulher, numa organização tradicionalmente masculina.</p>     <p>Conversámos sobre este e outros assuntos, aqui deixando um apontamento, muitas vezes em discurso direto, do percurso de uma mulher determinada.</p>     <p>A capitão Ana Patrícia Cardoso Lopes<a href="#_ftn1" name="_ftnref1" title="">[1]</a> nasceu, há 35 anos, nas Caldas das Taipas, Guimarães, onde completou o ensino secundário. Com 18 anos decidiu optar por uma carreira militar, o que pressupôs, desde logo, uma mudança radical na sua jovem vida &#8211; deslocar-se para Lisboa. Diz que a família a apoiou desde que teve conhecimento da sua intenção e que &#8220;esteve sempre presente de uma forma ativa durante todo o processo de candidatura&#8221;. Recorda que o irmão, quando ela regressava a casa às sextas-feiras, &#8220;lá estava no sofá, independentemente da hora, por vezes já de madrugada&#8221; para a ouvir contar as vicissitudes da sua semana na Academia e o papel fundamental de um primo, sargento-ajudante no exército, que lhe explicou todo o processo de candidatura à Academia e &#8220;elucidou uma jovem de 18 anos sobre o que iria encontrar em ambiente militar, especialmente por ser mulher&#8221;. Reconhece, contudo, que a família se mostrava apreensiva, não só quanto às exigências do curso, mas também quanto à própria carreira que escolhera.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Recorda a sua opção pela vida militar:</p>     <p>&#8220;Tomei conhecimento da existência da Academia Militar durante a frequência do ensino secundário e logo fiquei fascinada pelas atividades académicas, desportivas e com a própria vivência desta grande escola. O gosto pelo desporto foi um fator relevante na minha decisão. Paralelamente, a possibilidade de enveredar por uma carreira prestigiante e estável também contribuiu para a minha escolha.</p>     <p>A ideia de me mudar para Lisboa foi entusiasmante porque estava muito motivada para estudar na Academia. Conheci a cidade nessa altura e gostei bastante, tanto que optei por ficar aqui a residir.&#8221;</p>     <p>Em 1993, a Academia Militar admitia pela primeira vez mulheres &#8211; só uma se inscreveu. Quando Ana Lopes, em 2000, realizou a sua prova de aptidão militar, última da seleção, já o fez na companhia de outras 29 mulheres &#8211; &#8220;Foi a primeira vez que se constituiu um pelotão só com mulheres&#8221; &#8211;, das quais 18 acederam ao curso e apenas sete acabaram por integrar a GNR. Esta prova, realizada ao longo de três semanas, permite que os candidatos &#8220;comecem a ter a perceção da sua eventual vocação para a vida militar, pois é aqui que conhecem as exigências subjacentes a esta opção de vida&#8221;; ao mesmo tempo, estimula a interiorização dos valores militares, nomeadamente a camaradagem e o espírito de corpo, &#8220;pois precisamos uns dos outros constantemente para superar as exigências e os obstáculos com que nos deparamos&#8221;.</p>     <p>Ana Lopes realça a importância da Academia enquanto espaço de &#8220;formação académica muito completa&#8221;, mas também, e releva-o particularmente, de crescimento pessoal, traduzido no &#8220;estimular de um espírito de camaradagem e amizade&#8221;.</p>     <p>Sobre a persistência de uma posição maioritariamente tradicionalista nas Forças Armadas Portuguesas, no que respeita à integração de mulheres nos seus quadros, reflete:</p>     <p>&#8220;A integração das mulheres na GNR depende muito da atitude e comportamento com os seus pares. É importante percebermos que estamos num meio militar, e por isso há uma conduta que tem de ser respeitada. Claro que isto serve para homens e mulheres. No entanto, as mulheres, por serem em menor número, estão mais expostas (&#8230;). Esta maior exposição pode ser uma dificuldade na integração das mulheres, principalmente se não estivermos preparadas para lidar com ela ou não tivermos uma noção correta do que é a condição militar. Quando trabalhamos de forma natural, honesta e profissional, vamos ter o reconhecimento certo e a camaradagem de que precisamos para integrar a vivência militar.&#8221;</p>     <p>No entanto, reconhece: &#8220;não sei se tive de me esforçar mais que os meus camaradas masculinos, mas tinha a noção de que, sendo tão poucas mulheres, tudo o que fazíamos era imediatamente notado, para o bem e para o mal; logo esforcei-me sempre por não falhar&#8221;.</p>     <p>Assegura que, hoje em dia, a maioria dos militares vê a presença de mulheres nas fileiras das Forças Armadas ou das Forças de Segurança com naturalidade, &#8220;pois, ao longo dos anos, as mulheres (&#8230;) souberam ocupar o seu lugar nas instituições. Os militares querem comandantes competentes, que ouçam as suas opiniões e que deem o exemplo. Desta forma o cumprimento das ordens é inequívoco e nunca colocado em causa. O género é o menos importante&#8221;.</p>     <p>Ana Lopes completou a licenciatura em Ciências Militares em 2005, ano em que se inscreveu no curso de Psicologia Clínica da Universidade Autónoma de Lisboa, onde concluiu, igualmente, um mestrado em Relação de Ajuda e Intervenção Terapêutica. É, também, pós-graduada em Direito e Segurança pela Universidade Nova de Lisboa.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Atribui à sua licenciatura em Psicologia Clínica a mais-valia que lhe permite &#8220;melhor estudar e compreender a pessoa humana, ajudá-la a lidar com as suas dificuldades, o seu sofrimento e fundamentalmente possibilitar-lhe as ferramentas necessárias para, de uma forma autónoma, ultrapassar problemas e obstáculos&#8221;. E isto para ela é parte integrante da sua missão como oficial da GNR. Acrescenta que a sua opção de integrar os quadros desta instituição decorreu da &#8220;diversidade, desafio e importância das missões, que (&#8230;) garantem a ordem e a tranquilidade públicas. Ser militar da GNR é um desafio diário, com responsabilidades acrescidas, mas de uma gratificação inigualável&#8221;.</p>     <p>Quando terminou o curso, em 2005, foi nomeada Comandante do Destacamento de Serviços Especiais da extinta Brigada Fiscal, onde chefiava 197 militares, todos homens, &#8220;com uma média de idades a rondar os 45 anos&#8221; e &#8220;grande parte deles com filhos da minha idade&#8221;. Diz ter sido uma magnífica experiência e ter-se sentido &#8220;apoiada e acarinhada&#8221;. &#8220;Na verdade não podia ter melhor sorte, pois também para eles era uma novidade terem uma comandante mulher, algo que nunca tinha acontecido naquela Unidade&#8221;, e acrescenta: &#8220;rapidamente percebi que tinha muito a aprender com estes militares (&#8230;), que me ensinaram e transmitiram as suas experiências, que se revelaram fundamentais para a minha integração na Instituição e, até, na profissional em que me tornei&#8221;.</p>     <p>Entre 2009 e 2012 foi Adjunta do Comandante de Destacamento de Vigilância Móvel da Unidade de Controlo Costeiro/GNR e, dessa data até 2016, Comandante no mesmo Destacamento.</p>     <p>Em 2016, durante três meses, liderou uma missão internacional da GNR, constituída por 31 homens, integrada na Frontex (Agência Europeia de Gestão de Cooperação Operacional nas Fronteiras Externas dos Estados-Membros da União Europeia). A missão Poseidon, que incorporava militares de outros Estados-Membros da União Europeia, tinha como objetivo o controlo e apoio a migrantes no Mediterrâneo, com os portugueses a patrulharem as águas do Egeu a partir das ilhas gregas de Kos e Chios.</p>     <p>Foi a primeira vez que uma mulher comandou uma missão internacional da GNR, facto que Ana Lopes desconhecia quando aceitou o cargo:</p>     <p>&#8220;Quando aceitei cumprir a missão na Grécia, não sabia que levava o &#8216;peso' de ser a primeira mulher a comandar uma missão no estrangeiro. No entanto, assumi esse facto como uma grande responsabilidade. Não queria falhar. Não podia deixar um rótulo de que a primeira mulher falhara. Queria sim trilhar um caminho para que outras mulheres pudessem cumprir estas missões de forma mais natural e apenas focadas nos objetivos da missão. Isto é o mais importante.&#8221;</p>     <p>Relativamente a esta missão, Ana Lopes reconhece as dificuldades sentidas pelos gregos no confronto com a enorme crise humanitária, sendo indispensável o rigor e a correção na postura, o profissionalismo e a conduta da missão da GNR.</p>     <p>Recorda a apreensão dos migrantes em relação às intenções dos militares, ao ponto de se recusarem a parar as embarcações quando abordados, arriscando o naufrágio. Daí muito se orgulhar da resposta dos nossos militares às difíceis situações com que se depararam: &#8220;não houve qualquer incidente nas nossas abordagens. Todos foram resgatados com vida&#8221;. Sobre a possibilidade de entre os resgatados haver possíveis terroristas, responde: &#8220;Se uma pessoa está numa situação crítica, naufragada, não sou eu que decido quem vai ou não ser salvo. Esse não é o nosso trabalho. A nossa missão é salvar todos. Depois serão avaliados&#8221;. Admite ser muito difícil para qualquer militar envolvido neste tipo de missões esquecer os dramas humanos a que assiste diariamente, quantas vezes envolvendo mulheres e crianças. Apesar de esta ser, sem dúvida, a mais importante, não foi a sua primeira missão internacional; já em 2013 fora coordenadora operacional e avaliadora do projeto PERSEUS, que englobava forças espanholas, gregas e portuguesas, e, em 2015, avaliadora do projeto CLOSEYE (Espanha).</p>     <p>A ONU Mulheres tem vindo a realçar a importância da presença de mulheres nas diversas operações de manutenção da paz, salientando o seu contributo decisivo para aumentar a credibilidade dessas forças, ganhar acesso às comunidades, facilitando a obtenção de informação vital para a persecução dos objetivos e contribuindo para uma visão das mulheres como prestadoras de proteção e segurança. Ana Lopes reforça que &#8220;pensar estas Instituições [Forças Armadas e de Segurança] sem mulheres é completamente desajustado às necessidades das populações em matéria de segurança&#8221;.</p>     <p>É casada com um também oficial da GNR, seu camarada de curso na Academia Militar, e mãe de uma menina de quatro anos. Reconhece não ser fácil harmonizar a vida familiar com a carreira que escolheu, &#8220;principalmente quando estamos longe da família. No entanto, é possível com o apoio do meu marido e com a ajuda de amigos&#8221;.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Recorda que a primeira mulher oficial da GNR ingressou na Academia Militar apenas em 1994, tendo atualmente o posto de Tenente-Coronel e desempenhando funções administrativas nos serviços sociais da Instituição.</p>     <p>Quanto à evolução da presença de mulheres na GNR, realça que é um número que tem vindo a aumentar de ano para ano, recordando que começaram por ser apenas 16 em 1993. Neste momento, a instituição conta com 1414 mulheres nos seus quadros, entre oficiais, sargentos e guardas (apenas cerca de 6% do total de efetivos da Instituição). Quanto a mulheres em funções de comando, são, atualmente, 29: 13 oficiais, em comando de destacamento ou equivalente, e 16 sargentos, em comando de postos ou equivalente. Apenas duas mulheres integram o Grupo de Intervenção da Ordem Pública da GNR, de um total de 367 elementos.</p>     <p>Apesar destes números, vê com otimismo o futuro das mulheres na carreira militar, particularmente na GNR, onde garante não existir &#8220;qualquer diferenciação em termos de progressão de carreira&#8221;, e diz-se convicta de que &#8220;teremos, na próxima década, mulheres a comandar grandes unidades, em funções de grande responsabilidade (&#8230;). Desta forma, no que concerne ao género, uma oficial poderá alcançar a classe de oficial general&#8221;.</p>     <p>Admite, porém, que muitas mulheres, principalmente da classe de guardas, &#8220;prescindem da progressão a novos postos por motivos familiares, para cuidarem dos filhos ou até darem apoio aos seus pais idosos. Sempre que há uma promoção, fica-se sujeito a novos locais, novas vagas e muitas vezes longe do local de residência. Muitas acabam por não arriscar&#8221;.</p>     <p>Ela própria concluiu recentemente o Curso de Promoção a Oficial Superior no Instituto Universitário Militar &#8211; foi dos(as) mais bem classificados(as) &#8211; e com as novas funções, como major, também virá uma nova colocação, que espera seja em Lisboa, o que facilitaria um outro e importantíssimo objetivo na sua vida: ser mãe de novo.</p>     <p><a href="#_ftnref1" name="_ftn1" title="">[1]</a> Segundo informação da própria, o regulamento militar não prevê o uso do feminino nos postos.</p>      ]]></body>
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