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</front><body><![CDATA[ <p align="right"><font size="2"><b>LEITURAS</b></font></p>     <p><font size="4"><b>A americana que queria ser rainha de Portugal. Mântua, A. A. (2017). Lisboa: Letras &amp; Diálogos, Manuscrito, 253 pp.</b></font></p>     <p><b>Eva-Maria von Kemnitz*</b></p>     <p>*Investigadora sénior. Universidade Católica Portuguesa, Centro de Estudos de Comunicação e Cultura, Faces de Eva &#8211; Estudos sobre a Mulher</p> <hr/>     <p>&nbsp;</p>     <p>Uma informação sobre um leilão de joias suscitou o interesse de Ana Anjos Mântua, Coordenadora da Casa-Museu Dr. Anastácio Gonçalves, e lançou-a numa exaustiva investigação em arquivos institucionais e coleções particulares. Assim, surgiu &#8220;<i>a incrível- história de Nevada Hayes, mulher de D. Afonso, Duque do Porto</i>&#8221;, contada na primeira pessoa.</p>     <p>O poeta diz que o sonho comanda a vida, mas no caso da Nevada Hayes (1870-1841), estas palavras adquirem um significado crucial. Nascida numa América provinciana e conservadora, no seio duma família numerosa, cujos pais, de origem irlandesa, eram donos de uma mercearia, cedo adquiriu &#8220;<i>a certeza de que não pertencia ali</i>&#8221;, certeza confirmada na adolescência por um acontecimento que a marcou, mas a incentivou a lutar. Tinha consciência de que poderia tirar partido dos seus atributos físicos, dos seus olhos azulados e dos seus caracóis dourados, mas sabia que o caminho a seguir eram os estudos. Subiu a pulso; de professora de liceu, em Nova Filadelfia, aos 19 anos, passou a funcionária do Departamento Financeiro, em Washington, e, volvidos cinco anos, era secretária no jornal <i>Town Topics</i>, onde, em breve, incumbida de redigir a coluna <i>Lady Modish</i>, teve ocasião de conhecer tudo com que sempre sonhara: riqueza, sofisticação, <i>glamour</i>.</p>     <p>Seguiu-se um breve casamento com um jornalista de sucesso, Lee Albert. Todavia, nem o matrimónio, nem a maternidade a preencheram. Separaram-se amigavelmente e, pouco tempo depois, Nevada contraiu um segundo casamento com um milionário, William Henry Chapman, que em breve faleceu, deixando-a viúva e senhora de vasta fortuna.</p>     <p>Novamente livre, Nevada prosseguiu o desejo há muito acalentado &#8211; casar com&#8230; um verdadeiro príncipe real. Era o ano de 1908, corriam notícias do assassinato do Rei de Portugal e do Herdeiro Real e, simultaneamente, da disponibilidade do Infante D. Afonso (1866-1920), irmão do Rei, um eterno solteirão que suscitou a curiosidade de Nevada. Desembarcou em Lisboa, em junho de 1908, e dias depois, em Sintra, o destino fê-la cruzar-se&#8230; com D. Afonso. Como registou no seu diário, teve um pressentimento de que este homem iria mudar a sua vida.</p>     <p>Isto só se concretizaria em 1917. Entretanto, Nevada casou, pela terceira vez, com o banqueiro Philipp van Valkenburg, mas o conto de fadas acabou num estrondoso divórcio.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Nevada regressou à Europa, onde soube pelos jornais da implantação da república em Portugal e do exílio da Família Real. Seguindo, pela imprensa, as notícias do Infante D. Afonso, decidiu ir ao seu encontro.</p>     <p>Entre passeios, jantares e bailes, completou-se a definitiva conquista do Infante. Nevada, não tendo conseguido a anulação do último casamento, conseguiu, todavia, um novo passaporte americano, onde foi averbado o seu estatuto de viúva. Vencidas inúmeras dificuldades, casaram-se, em 26 de setembro de 1917, em Roma. Não sendo, porém, esta união reconhecida pela lei portuguesa, o casal deslocou-se a Madrid, onde foi celebrado o casamento morganático, em 23 de novembro de 1917, e passada a certidão de casamento no Consulado de Portugal. Na mesma altura, o Infante D. Afonso redigiu o seu testamento, deixando tudo a sua mulher; autenticado pelos serviços consulares, o documento foi, cautelosamente, remetido ao Ministério dos Negócios Estrangeiros de Portugal.</p>     <p>Embora nos termos do casamento não tivesse direito ao título, Nevada construiu a sua identidade como Princesa de Bragança, Duquesa do Porto. O casal, proscrito pela realeza, estabeleceu-se nos arredores de Nápoles. Passada a euforia dos primeiros tempos, o estado de saúde de D. Afonso foi-se agravando, sendo os últimos meses passados numa cadeira de rodas. Faleceu em 21 de fevereiro de 1920 e Nevada perdeu o seu &#8220;<i>grande amor</i>&#8221;.</p>     <p>Com o intuito de perenizar a sua imagem, Nevada mandou publicar em Londres uma biografia de D. Afonso, <i>H.R.H. The Duke of Oporto (Crownprince of Portugal), </i>em 1921, e começou os preparativos para a trasladação dos restos mortais do marido, cumprindo a promessa de o levar para Portugal. Simultaneamente, requereu ao Governo português os bens que pertenciam por direito ao seu falecido marido, dos quais era a legítima herdeira.</p>     <p>Em 1 de março de 1922, um navio de guerra português trouxe os restos mortais de D. Afonso para Lisboa, sendo depositados no Panteão Real.</p>     <p>Nevada sobreviveu a D. Afonso por 21 anos, vivendo-os plenamente, viajando, jogando, dançando, mas não voltando a casar. A sua lápide tumular ostenta os dizeres: <i>H.R.H. Princesse de Braganza, Duchesse d'Oporto, born Nevada Stoody died Jan 11 1941</i>.</p>     <p>A Autora retrata Nevada de forma bastante positiva, como uma mulher inteligente, ousada e determinada, trabalhadora e disciplinada, perseguindo o seu sonho de, um dia, vir a ser princesa, contrastando com a imagem pouco favorável transmitida por uma parte da imprensa coeva e alguns depoimentos.</p>     <p>O que torna Nevada uma pessoa interessante é a encarnação da modernidade, a sua preocupação não apenas em deslumbrar, mas também com a sua carreira profissional, o modo de vida regrado, seguindo um regime e praticando exercício físico que lhe permitiram manter uma figura elegante até ao fim da vida. De referir os seus interesses culturais, a participação em tertúlias literárias e as viagens, entre outras, à Índia, em memória de D. Afonso, que foi o último vice-rei português do Estado da <b>Í</b>ndia. Entre os seus conhecimentos, contava-se Tennessee Celeste Claffin, viscondessa de Monserrate, sua conterrânea, sufragista e a primeira mulher que abriu uma corretora em Wall Street, cujos lucros serviram para financiar um jornal feminista radical. Nevada, muito embora não partilhasse as suas convicções feministas, admirava-a bastante.</p>     <p>Para si traçou outro caminho, assente na feminilidade, que concretizou com êxito.</p>      ]]></body>
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