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<publisher-name><![CDATA[Equipa de Investigação Faces de Eva. Estudos sobre a Mulher, CICS.NOVA - Centro Interdisciplinar de Ciências Socias, Faculdade de Ciências Sociais e Humanas, Universidade NOVA de Lisboa, Portugal.]]></publisher-name>
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</front><body><![CDATA[ <p align="right"><font size="2"><b>LEITURAS</b></font></p>     <p><font size="4"><b>POESIS. Horta, M. T. (2017). Lisboa: Dom Quixote, 256 pp.</b></font></p>     <p><b>Ana Raquel Fernandes*</b></p>     <p>*Universidade de Lisboa, Centro de Estudos Anglísticos, Universidade Europeia, Laureate International Universities, <a href="mailto:a_raquel_fernandes@yahoo.com">a_raquel_fernandes@yahoo.com</a></p> <hr/>     <p>&nbsp;</p>     <p>O título da mais recente coleção de poesia de Maria Teresa Horta, <i>Poesis </i>(D. Quixote, 2017), desafia o leitor a pensar no processo de criação. Oriundo do grego, o conceito refere-se às noções de produção, composição e poesia. Este elemento da obra é revelador do gesto metaficcional que a acompanha e permite uma reflexão sobre as relações transtextuais que são indissociáveis de um título que encerra em si mesmo a referência à poesia, enquanto género literário, e ao processo de composição da mesma.</p>     <p>O título surge acompanhado por uma reveladora imagem: o retrato de uma jovem mulher, supostamente Safo, encontrado num fresco de Pompeia, em Roma, no século I. Trata-se de um elemento que amplia a informação do título. A referência a Safo é incontornável, não só remetendo o leitor para a poesia lírica na Grécia Antiga, mas também sublinhando uma das temáticas recorrentes na obra poética da autora Maria Teresa Horta, o canto do amor de uma perspetiva que subverte as representações mais convencionais do feminino.</p>     <p>O volume de poesia encontra-se dividido em sete partes, com subtítulos que se agrupam, à exceção da última secção, em torno de um radical comum: Vocação, Invocação, Avocação, Convocação, Provocação e Evocação. Segue-se um momento final intitulado <i>Ad Finem</i>.</p>     <p>A estrutura da obra é meticulosa, como revela o título do seu primeiro poema, &#8220;Ab Initio&#8221;, constituindo-se como contraponto à secção final e acentuando a temática central da obra &#8211; a criação poética: &#8220;Primeiro escrevi/ com breves murmurações/ e lentos cuidados de asa/ (&#8230;) / Depois ganhei pé/ na fundura de mim mesma/ na ousadia dos versos (&#8230;)&#8221; (p. 17). Estes breves excertos são uma primeira reflexão sobre o processo de escrita. Com efeito, na primeira parte de <i>Poesis</i>, dar origem à poesia é, sobretudo, um processo corporal que se manifesta progressivamente, como revelam, por exemplo, os poemas: &#8220;A Pouco e Pouco&#8221; (p. 18), em que o sujeito poético enuncia: &#8220;Começo por escrever/ primeiro/ uma palavra apenas (&#8230;)&#8221;; &#8220;A Mão e a Escrita&#8221; (p. 19): &#8220;Deixo a mão/ correr pelo meu sonho (&#8230;)&#8221;; &#8220;As Folhas&#8221; (p. 20), em que há um jogo metafórico entre o desfolhar de uma flor e o folhear das folhas de um poema: &#8220;Desfolho as pétalas/ as folhas do poema/ até chegar à perdição (&#8230;)&#8221;; &#8220;Traços Furtivos&#8221; (p. 32): &#8220;Sinto-lhe os traços/ furtivos/ no côncavo da minha mão&#8221;; e no poema &#8220;Coleccionadora&#8221; (p. 37),em que o sujeito lírico se revela uma colecionadora de palavras a fim de alimentar a poesia: &#8220;Colecciono palavras/ com elas/ escrevo poesia (&#8230;)&#8221;.</p>     <p>O processo corporal surge acompanhado de momentos de inspiração poética similares a um &#8220;bater de asas&#8221; (in &#8220;Espera&#8221;, p. 21) ou a uma &#8220;asa&#8221; (in &#8220;Inspiração&#8221;, p. 22), elementos que se constituem indissociáveis da figura simbólica do anjo: &#8220;Tenho um trato com os anjos/ conheço o traço da luz/ quero o rigor das palavras (&#8230;)&#8221; (in &#8220;Da Condição dos Versos&#8221;, p. 23). Aliás, os anjos são recorrentes na obra poética da autora, constituindo-se como título de uma das suas coletâneas poéticas (<i>Os Anjos</i>, 1983), na qual as temáticas do prazer, do corpo, da memória e das mulheres estão já presentes.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>O prazer da escrita poética é igualmente celebrado, em particular, em &#8220;Prazer&#8221; (p. 24), onde o poema assume corpo e é espaço de deleite: &#8220;O prazer do corpo/ do poema/ (&#8230;)</p>     <p>/ o êxtase/ das palavras&#8221;. Há ainda uma clara fusão entre a poesia e o &#8220;eu&#8221; lírico, como se constata no título de &#8220;Sou a minha Poesia&#8221; (p.25) e no último verso do poema, com a declarativa afirmativa: &#8220;Eu sou a minha poesia&#8221;.</p>     <p>A primeira parte de <i>Poesis </i>é, por conseguinte, uma celebração dos elementos constitutivos do ato de escrita poética: a linguagem, a palavra, o verso, a estrofe e o poema, com os seus símbolos e metáforas. Atente-se nos seguintes versos de &#8220;Poema a Poema&#8221; (p. 41): &#8220;Poema a poema escrevo poesia/ (&#8230;) / Poema a poema vou tocando, tomando/ o corpo da escrita, afagando a linguagem/ (&#8230;) / Sonho, após símbolo, após metáfora/ após sintaxe/ Palavra após palavra, após palavra/ após palavra&#8230;&#8221;</p>     <p>Na segunda secção de <i>Poesis</i>, subintitulada &#8220;Invocação&#8221;, o sujeito poético chama a si a matéria que se manifesta e que constitui a poesia, como é visível, a título de exemplo, em &#8220;De Liberdade em Liberdade&#8221; (pp. 53-54), um poema comemorativo do Dia Mundial da Poesia de 2013, onde se invoca a beleza, a desobediência, o deslumbramento, a insubmissão, o corpo, o sonho e a liberdade. Revela-se ainda a essência do/a poeta criador/a, em particular, no poema &#8220;O Voo da Linguagem&#8221;:</p>     <p><i>Ser poeta é correr riscos trazer consigo a vassoura de voar a linguagem</i></p>     <p><i>a paixão, a liberdade</i></p>     <p><i>As asas são seu ofício</i></p>     <p><i>onde resguarda a saudade</i></p>     <p>Assim, na terceira parte da coletânea &#8211; &#8220;Avocação&#8221; &#8211;, o &#8220;eu&#8221; poético apropria-se de elementos díspares para prosseguir com a reflexão sobre a relação da poesia consigo. Atente-se, em especial, nos poemas: &#8220;A minha Secretária&#8221; (p. 93), &#8220;No Rasto do Tempo&#8221; (p. 95),</p>     <p>&#8220;Palavras&#8221; (p. 97), &#8220;Escrita&#8221; (p. 98) e &#8220;Melomania&#8221; (p. 103). Os seus títulos remetem, uma vez mais, o leitor para aspetos intrínsecos à criação, à escrita, tanto materiais (como são as referências à secretária &#8211; espaço onde habita a escrita; à escrita &#8211; espaço onde habita a palavra; e à palavra, que por sua vez habita os versos do poema), como imateriais &#8211; o tempo e a própria música. Com efeito, em &#8220;Melomania&#8221;, o sujeito poético canta a sua paixão pela arte da música, indissociável da poesia lírica.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Nas subdivisões &#8220;IV Convocação&#8221; e &#8220;V Provocação&#8221;, os poemas convocam e reúnem, de modo desafiador, temas e figuras, da mitologia clássica, do universo da tradição oral e da literatura, que habitam a obra poética da autora Maria Teresa Horta: &#8220;Eurídice&#8221; (p. 132), &#8220;Gola de Névoa&#8221; (p. 145), com referência à personagem tradicional Branca de Neve, &#8220;No Bule de Alice&#8221; (pp. 157-161), &#8220;Morgana&#8221; (p. 180) e &#8220;Cassandra&#8221; (p. 181) constituem significativos exemplos. De assinalar ainda a referência no final da quinta secção de <i>Poesis </i>a inúmeros animais selvagens que se confundem com o sujeito poético e que assombram a poesia: a loba em &#8220;A Loba da Poesia&#8221; (p. 183), o lince em &#8220;O Lince do meu Poema&#8221;, os tigres em &#8220;O Lento Sonho dos Tigres&#8221; (p. 187), a pantera no poema de título homónimo (pp. 188-189), o leopardo em &#8220;O Leopardo Distante&#8221; (p. 191) e &#8220;Poetisa ou Leopardo?&#8221; (p. 194). Pondere-se, em particular, o poema &#8220;Lobo-Tigre&#8221; e o modo como estes predadores, designadamente, o lobo e o tigre, livres e selvagens, se confundem com a figura criadora:</p>     <p><b><i>Lobo-Tigre</i></b></p>     <p><i>Os passos do lobo-tigre que caminha no poema dialoga com os versos as águias e as estrelas</i></p>     <p><i>Bebe a arte dos sonetos devora os veados da cerca está de vigia nas estrofes onde o lobo-tigre inventa</i></p>     <p>Segue-se a secção &#8220;VI Evocação&#8221; e a poesia, cujo sujeito de enunciação é marcadamente feminino, homenageia a longa e rica tradição do género lírico no mundo ocidental, em particular, das poetas que desde a Antiguidade Clássica, desde Safo, até à contemporaneidade, se têm distinguido pela beleza da sua obra poética e pelo modo como as suas vidas, pautadas pela criação, permitiram celebrar a emancipação da mulher. Em poemas como &#8220;Poetisas&#8221; (p. 207), &#8220;Os Abismos de Safo&#8221; (p. 208), &#8220;Visionárias&#8221; (pp. 209-211), &#8220;O Voo de Hildegarda de Bingen&#8221; (pp. 212-213), &#8220;Alumbramentos&#8221; (p. 215), &#8220;A Noite de Leonor&#8221; (217), &#8220;As tuas Regras e o meu Arbitrário&#8221; (p.229) e &#8220;A Asa de Sylvia&#8221; (p. 231), traz-se à lembrança todo um universo feminino de criadoras e pensadoras. A secção termina com um poema mais extenso, intitulado &#8220;Escritoras&#8221; (pp. 232-235), que se constitui precisamente como hino às mulheres escritoras ao longo da história da humanidade: &#8220;<b>Escrevemos </b>(sic)/ corremos riscos/ (&#8230;) / Somos aquelas que imprimem/ às histórias outros olhares/ outras formas e maneiras/ escrevemos na sarça/ ardente, a semear o diferente/ a empurrarmos o vento/ somos aquelas que mudam/ por dentro do pensamento&#8221;.</p>     <p><i>Ad Finem </i>corresponde ao final da coletânea, assinalando a natureza eterna da obra poética e a entrega total do sujeito de enunciação à poesia. Ponderem-se os dois últimos poemas de <i>Poesis</i>: &#8220;Sem Vassalagem&#8221; e &#8220;Epopeia&#8221;. No primeiro, o &#8220;eu&#8221; poético contrapõe a sua efemeridade à memória que a poesia encerra: &#8220;Nada mais de mim/ haverá memória/ &#8211; sei &#8211; / só os poemas darão conta/ da minha avidez/ da minha passagem/ (&#8230;)&#8221;. Por fim, em &#8220;Epopeia&#8221; o sujeito poético canta a poesia e o processo de criação do poema como a sua epopeia, proporcionando uma reflexão sobre o modo metarreflexivo como a obra <i>Poesis </i>é pensada e, por associação, como a obra poética de Maria Teresa Horta surge enquanto projeto que celebra simultaneamente a literatura, a poesia, e a vida.</p>     <p><b><i>Epopeia</i></b></p>     <p><i>Esta é a minha epopeia feita de poesia perdimentos e palavras</i></p>     <p><i>sem deuses sem batalhas sem heróis nem lágrimas sem o bronze das armas</i></p>     <p><i>Poema a poema a poema paixão após fulgor após beleza na sua dimensão mais ávida</i></p> <i></i>    ]]></body>
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