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</front><body><![CDATA[ <p align="right"><font size="2"><b>LEITURAS</b></font></p>     <p><font size="4"><b>Terceto para o fim dos tempos. Dal Farra, M. L. (2017). São    Paulo, Brasil: Editora Iluminuras.</b></font></p>     <p><b>Rejane Vecchia da Rocha e Silva *</b></p>     <p>* Universidade de São Paulo, Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas,    Departamento de Letras Clássicas e Vernáculas, CEP: 05508-010 - Cidade Universitária,    São Paulo, Brasil..</p> <hr/>     <p>&nbsp;</p>     <p> &ldquo;Penso que a gente morre</p>     <p>tal qual o frango no prato que destrinçamos</p>     <p> (alheadamente)</p>     <p> em prosa com os convivas.</p>     <p> Às vezes sem ruído, outras esmagados</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p> </p>     <p> Sob o pecado, a falta não redimida -</p>     <p>como um trem que atravessasse as vísceras.&rdquo;</p>     <p> </p>     <p>Publicado em 2017, <i>Terceto para o fim dos tempos</i>, de Maria Lúcia Dal    Farra, organiza-se em torno de um conjunto - profundamente afetivo - de lembranças,    cujo percurso comovente entre passado, presente e futuro (ou a expectativa dele)    revela-se ao longo das três partes que o compõem: &ldquo;Casa Póstuma&rdquo;, &ldquo;Parque de    diversões&rdquo; e &ldquo;Circo de Horrores&rdquo;. Logo no início de sua apresentação, a poetisa    adianta ao leitor seu ponto de partida, &ldquo;- eu, concentrada neste contemporâneo    campo nacional do adiado, tenho apenas a mim mesma. E por isso me multiplico    três: para registrar a miséria (e a magnitude) das nossas idades e cataclismos&rdquo;.    Assim e desta forma, serão organizados e dispostos os poemas que integram cada    uma das partes de <i>Terceto</i> e que guardam, inevitavelmente, muitas confluências    entre as vidas dispostas nos poemas e as nossas próprias vidas, nós, leitores    de Dal Farra, no auge de nossas experiências, desencadeando também a possibilidade    de perceber e sentir o desolamento das perdas, a tristeza das ausências e o    vazio deixado pelo que não existe mais, a não ser como fragmento, às vezes longínquo,    da memória em uma espécie de aprendizado da própria vida. A começar pelos poemas    &ldquo;Visita à casa paterna&rdquo;, &ldquo;Oh mãe!&rdquo;, &ldquo;Mãe!&rdquo; e &ldquo;Visita à casa materna&rdquo;, cernes    da existência filial em que assomam a sombra e a luz do passado, é possível    observar o rastro profundo de um denso entrelaçamento das ruínas deixadas que,    contraditoriamente, entretecem-se com as intransponíveis saudades.</p>     <p>No entanto, e talvez paradoxalmente, trata-se de uma leitura que acaba por    nos impor um saudável enfrentamento, uma vez que convoca uma atenção detida    para tempos que não voltam mais e para as inconsoláveis lembranças, mas também    uma atenção que faz emergir, ao mesmo tempo, um passado em que as potencialidades    da existência e da experiência humana foram construídas e, portanto, vividas.    A escrita de Dal Farra se propõe a uma releitura dos movimentos dessa experiência    e acaba por revelar um profícuo entrosamento entre as formas diferentes de ser    e de estar no mundo que se concatenam na medida em que se revelam, em suas especificidades,    as experiências cotidianas no círculo sempre marcado dos afetos.</p>     <p>Na primeira parte, &ldquo;Casa Póstuma&rdquo;, vislumbram-se outros tempos em que a exposição    a diversos conflitos da vida também foi capaz de nos fundar como seres humanos.    As cicatrizes parecem marcar negativamente a existência e, nesse movimento dialético    na tessitura dos sujeitos, vamos aprendendo com Dal Farra a enfrentar o passado    e dele retirar além das cicatrizes a nossa própria história, identidade composta    pela narrativa de todos nós, e assim: &ldquo;o amor persiste ainda/ na sombra que    se estende// pela cadeia eterna das montanhas.&rdquo;</p>     <p>Já na segunda parte, &ldquo;Parque de diversões&rdquo;, a experiência da escrita, do fazer    literário, desvenda-se em interlocução afinada com poetas de outros tempos cujas    especificidades da vida ainda incidem no presente deste &ldquo;contemporâneo campo    nacional do adiado&rdquo;. Assim, evocados estão, por exemplo, Camões, Dante, Beckett,    Shakespeare, Florbela Espanca, Jorge de Lima, Herberto Helder, Fernando Pessoa,    entre ironia, tristeza, alegria e, às vezes, uma certa brincadeira com as palavras    e seus sentidos, confirmando assim a refinada leitora e crítica literária que    é Dal Farra e que se afirma também, com maestria, na arte da produção poética.  </p>     <p>Se os tempos passado e presente, nas partes um e dois, estão imbricados com    a rotina da vida, com a rotina da existência humana, na parte três, &ldquo;Circo de    Horrores&rdquo;, o leitor segue em direção a projeções antes futuras, mas agora já    ultrapassadas e também irrealizadas, a olhares milimétricos ao redor do cotidiano    da vida, a pequenos detalhes do dia a dia, a lamentos da mãe que vela o filho    jamais nascido, vivendo, no entanto, a mesma dor de perdê-lo. Esses poemas parecem    sofrer a ausência delicada de alguém que deveria fazer parte da vida e que sequer    na lembrança consegue se materializar, pois é uma existência construída apenas    ficcionalmente e é nessa margem, e somente nessa margem, que pode permanecer.    Portanto, a terceira parte abarca, com diferentes intensidades, os conflitos    e as amenidades entre as sofridas e cálidas experiências diárias, somadas ao    desejo de realização do que permanece no campo dos sonhos e das possibilidades,    daquilo que não foi vivido plenamente ou experienciado de fato. Decorrem dessa    parte ambíguos sentimentos de desejo e de lamento, desenhando um movimento difuso    por vezes, mas que está intrinsecamente relacionado à constituição do cotidiano    das experiências simples da vida que compõem, indubitavelmente, todas as identidades,    sejam elas pessoais e/ou coletivas. E são essas experiências cotidianas e simples,    ora tristes, ora emblemáticas, ora contundentes, que alimentam <i>Terceto para    o fim dos tempos</i> e convocam os leitores para uma reflexão sincera da existência    humana.</p>     <p> </p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&ldquo;Descanso sobre uma página ainda </p>     <p>por escrever. Orgia de odores</p>     <p>na cozinha. Tanto crime por cometer.</p>     <p> </p>     <p>Meus cabelos apertados nos bobs</p>     <p>e que suntuosa baixa vida</p>     <p>essa</p>     <p>de miúdas medidas metidas na [garrafa!</p>     <p>Os mastros do navio veleiro [desvirginam</p>     <p> </p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>o respectivo horizonte.&rdquo;</p>      ]]></body>
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