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<journal-title><![CDATA[Faces de Eva. Estudos sobre a Mulher]]></journal-title>
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<publisher-name><![CDATA[Equipa de Investigação Faces de Eva. Estudos sobre a Mulher, CICS.NOVA - Centro Interdisciplinar de Ciências Socias, Faculdade de Ciências Sociais e Humanas, Universidade NOVA de Lisboa, Portugal.]]></publisher-name>
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<article-title xml:lang="pt"><![CDATA[Irada na alva beleza se excede: Quatro momentos com Natália]]></article-title>
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<abstract abstract-type="short" xml:lang="en"><p><![CDATA[Considering Natália Correia, it is difficult to put in different sides the writer and her role of a «causes defender», that in a diversity of levels influenced deeply Portuguese cultural life during the second half of the 20th century. Born at Azores islands, she assumed early this condition, but always with the major concern of integration at the sets of a comprehensive national contexts. We can find in her work a whole of issues, themes and concerns related with cultural, political and identity spirituality rooted in her native Island, a printing of her tremendous production. This article intends to present and reveal some not known, or not well known, significant episodes and moments of her life story.]]></p></abstract>
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</front><body><![CDATA[ <p align="right"><font size="2"><b>ESTUDOS</b></font></p>     <p><font size="4"><b>Irada na alva beleza se excede: Quatro momentos com Natália</b></font></p>     <p><font size="3"><b>Angry in her white beauty she exceeds herself: Four moments    with Natalia.</b></font></p>     <p><b>Luiz Fagundes Duarte*</b></p>     <p>* Universidade NOVA de Lisboa, Faculdade de Ciências Sociais e Humanas, Departamento    de Estudos Portugueses, IELT - Instituto de Estudos de Literatura e Tradição,    1069-061, Lisboa, Portugal.    <br>   Director Regional dos Assuntos Culturais (de 26-11-1996 a 24-10-1999) e Secretário    Regional da Educação, Ciência e Cultura (de 2-11-2012 a 8-7-2014), no Governo    Regional dos Açores. Deputado à Assembleia da República eleito pelos Açores    (de 25-10-1999 a 16-6-2011). Presidente da Comissão Parlamentar de Educação    e Ciência (de 15-10-2009 a 16-6-2011). <a href="mailto:lmfd@fcsh.unl.pt">lmfd@fcsh.unl.pt</a></p> <hr/>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>RESUMO</b></p>     <p>É difícil separar, em Natália Correia, a escritora da mulher de causas que,    aos mais diversos níveis, influiu muito profundamente na vida cultural portuguesa    da segunda metade do século XX. Tendo assumido a sua condição de açoriana, mas    sempre integrada no contexto nacional, encontramos na sua obra um conjunto de    temas e de preocupações relacionados com a defesa da identidade cultural, política    e espiritual da sua ilha natal, que, fatalmente, haveriam de marcar a sua vasta    produção literária. Neste artigo são revelados alguns episódios e momentos significativos,    mas pouco conhecidos, da sua história de vida.</p>     <p><b>Palavras-chave: </b>Natália Correia, Vitorino Nemésio, Açores, manuscrito    literário, identidade cultural.</p> <hr/>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>     <p><b>ABSTRACT</b></p>     <p>Considering Natália Correia, it is difficult to put in different sides the    writer and her role of a «causes defender», that in a diversity of levels influenced    deeply Portuguese cultural life during the second half of the 20th century.    Born at Azores islands, she assumed early this condition, but always with the    major concern of integration at the sets of a comprehensive national contexts.    We can find in her work a whole of issues, themes and concerns related with    cultural, political and identity spirituality rooted in her native Island, a    printing of her tremendous production. This article intends to present and reveal    some not known, or not well known, significant episodes and moments of her life    story.</p>     <p><b>Keywords: </b>Natália Correia, Vitorino Nemésio, Azores, literary manuscript,    cultural identity.</p> <hr/>     <p>&nbsp;</p>     <p>PRIMEIRO: AS TRÊS NATÁLIAS</p>     <p>Foi diversa a Natália que eu conheci. Na verdade, para mim, ela era como se    fossem três. E tudo se passava como se as três se olhassem entre si como se    fossem outras. Todas elas assinavam <i>Correia</i><i> </i>e se afirmavam como    açorianas, portuguesas e europeias.</p>     <p>Uma, a primeira, era a mulher pública, conhecida, de referência - aquela que    já tem direito a meia dúzia de linhas na história da literatura portuguesa e    a um busto nos claustros do Palácio de São Bento, assinado por João Cutileiro,    que tanto dá um retrato dela como de outra qualquer. É a Natália menos interessante,    a que cabe dentro de meia dúzia de livros e de umas poucas folhas do <i>Diário    da Assembleia da República</i>. Acerca dela já se escreveram páginas e páginas    de exegese (raramente com alguma utilidade), dela já se retiraram frases para    ornamentar os discursos de políticos, e a dado passo dos <i>Sonetos Românticos    </i>(1990) ela própria se descreveu, e à sua inevitável entrada na História,    como</p>     <p>Coroada de mirtos</p>     <p>visto a túnica de linho branco e aberta a porta,</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>caminho para o lugar onde cai o véu</p>     <p>do mistério final. (Correia, 1999, p. 613)</p>     <p>Outra, a segunda, era a mulher privada, desconhecida, equívoca - aquela que    recordarei como quando, depois de sairmos de um serão cultural, dei por ela    a olhar distraída para montras de lojas fechadas e que, ao perguntar-lhe se    queria que a levasse a algum lado, me respondeu que queria ficar só com a sua    solidão. É a Natália menos conhecida, aquela com quem ocasionalmente convivi,    que já tinha consciência de que ia chegando o fim do tempo da personagem que    de si própria criara, mas julgando ainda que seria capaz de gerar epígonos que    lha mantivessem viva: e, dela, lembro aquele serão do Café Concerto que eu,    com mais dois amigos, durante algum tempo, organizei num restaurante de Lisboa,    reunindo, de cada vez, um poeta que oferecia os seus poemas, um actor que os    declamava, um artista plástico que expunha as suas obras e um realizador de    televisão que de tudo isso fazia documentário - lembro o serão que foi o de    Natália e em que ela, à mesa do jantar, me tentou convencer a ficar-lhe com    o <i>Botequim </i>como única maneira de salvar aquele que era o palco da derradeira    tertúlia lisboeta. Eu respondi-lhe, como dizendo não à proposta, que o <i>Botequim    </i>era ela. Como lembro aquela Quinzena de Cultura Açoriana que uma vez se    fez no <i>Pátio Alfacinha, </i>de que foram organizadores, já não me lembro    porquê, entre outras pessoas, o Eduíno de Jesus, a Natália e eu; e lembro a    reacção da Natália ao afastar-se da organização quando lhe disseram que ela,    como todos nós, não poderia levar para o jantar inaugural mais do que um acompanhante:    «- Eu levarei quantas pessoas quiser!», declamando de seguida: «Porque há pessoas    notáveis a quem não se impõe limites!»...</p>     <p>E a última Natália, a terceira, era a mulher que trazia dentro de si um vulcão    que ninguém jamais apagara, e que só conheci verdadeiramente quando percebi    que ela era, afinal, a vera encarnação do busto em bronze policromado, da autoria    de Mestre Martins Correia, em cujo pedestal apenas se lê, em vez do nome, a    palavra <i>Poéta</i>, assim, com acento. É <i>a Natália</i>, a Natália metonímica    que por si só representa a poesia feita mulher, aquela que encontrei na casa    que fora dela e que vi a ser esvaziada em obediência das disposições testamentárias    de Dórdio Guimarães, logo após a morte dele em 2 de Julho de 1997: nos milhares    de livros que hoje constituem um fundo especial da Biblioteca de Ponta Delgada;    nos milhares de manuscritos literários, que foram tratados na Biblioteca Nacional;    nas centenas de obras de arte, que eu em tempos quis que constituíssem o núcleo    fundador do nunca concretizado Centro de Arte Moderna de Ponta Delgada; nas    peças de mobiliário, que os documentários televisivos de Dórdio Guimarães, especialmente    o seriado <i>Mátria</i>, transformaram em peças vivas do imaginário português    acerca do que seja a casa de um escritor, e que também já se encontram em Ponta    Delgada. E aquela que vislumbro na sua <i>Poesia Completa. O Sol nas Noites    e o Luar nos Dias </i>(1999), um livro que nos diz tanto acerca de Natália como    o busto de Martins Correia diz da Poeta: estão lá inteiras, e assim ficarão    para todo o sempre, <i>ad usum lectorum</i>.</p>     <p>Chamasse-se ela, esta Natália, também Marquesa de Alorna, ou Florbela Espanca,    ou Sophia de Mello Breyner - mulheres de quem se pode falar e tudo dizer pronunciando,    apenas, a palavra <i>Poeta</i>. Ou Bocage, antepassado próximo de Natália na    criação de um novo paradigma para a Poesia: se um, fugindo às malhas e aos esbirros    de Pina Manique, trouxe a poesia dos salões bafientos para os cafés da cidade,    Natália, depois de haver declarado, no poema «A Defesa do Poeta» publicado em    <i>A Mosca Iluminada </i>(1972) - </p>     <p>ó subalimentados do sonho! </p>     <p>a poesia é para comer. (Correia, 1999, p. 331)</p>     <p>- trouxe a poesia para o Parlamento, que, tal como os cafés do século XVIII,    deveria ser o local onde a voz do Povo, depois de coada por quem a melhor entendesse,    por todos se fizesse ouvir.</p>     <p>Esta Natália - a derradeira, a síntese de todas - repousa nos papéis, nos livros,    nas obras de arte que nos legou. Entrelê-se nas pequenas histórias que todos    aqueles que a conheceram se sentem, como eu me sinto aqui, tentados a contar    acerca dela. Sobrevoa-nos nas asas daquela misteriosa pomba que, pouco antes    da inauguração em Lisboa da grande exposição <i>Natália, Arte e Poesia. Colecções    de Arte do Espólio de Natália Correia e</i> <i>Dórdio</i><i> </i><i>Guimarães</i><i>    </i>(Azevedo &amp; Madeira, 1999), entrou, vá lá saber-se como, pelo Palácio    Galveias adentro e, perante o arrepio de quem a tudo assistiu, foi pousar no    alto de um candeeiro da sala principal, ali ficando por algum tempo a ver, cá    em baixo, expostos ao público, os quadros e esculturas que de antes lhe povoavam    as paredes de casa, lhe atafulhavam os armários, ou se escondiam debaixo da    cama de dossel que era, ao mesmo tempo, o tálamo da mulher trágica e a oficina    da mulher poeta.</p>     <p>É a Natália que é necessário que os literatos estudem, que a Universidade investigue,    que a comunicação social divulgue - e que o Povo receba como algo de seu, que    foi ao céu e voltou. É esta a Natália que nos falta: a Poeta (Duarte, 2017).</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><b>SEGUNDO: A REVOLUCIONÁRIA ROMÂNTICA</b></p>     <p>No poema «Corsários à Vista» - «Duas amigas telefonam-me de Lisboa de urgência»    (Nemésio, 1976) -, datado de 31 de Março de 1976, Vitorino Nemésio refere um    episódio ocorrido no âmbito da discussão parlamentar dos textos de dois documentos    estruturantes da Autonomia Regional dos Açores: o do Título VII da <i>Constituição    da República Portuguesa </i>- <i>Regiões Autónomas </i>- e o do <i>Estatuto    Político-Administrativo da Região Autónoma dos Açores</i>. O primeiro fora apresentado    pela 8.ª Comissão parlamentar no dia 18 daquele mês, e viria a ser aprovado,    com modificações, no dia 26, após uma acalorada discussão entre os partidos    de esquerda e os de centro-direita; e o segundo, baseado em duas propostas,    uma oriunda da Junta Regional dos Açores (Janeiro) e outra do Conselho da Revolução    (Março), sê-lo-ia, em versão provisória, a 30 de Abril.</p>     <p>Subjacente a tudo isto, encontramos neste poema ecos da agitação separatista    açoriana, verificada sobretudo na ilha de São Miguel, em reacção à situação    política vivida em Portugal na sequência do chamado Verão Quente de 1975 - e    de posições do próprio Nemésio que, num dos seus programas televisivos «Se bem    me lembro...» de finais de 1974, já adiantara: «E porque não a independência    dos Açores? Pois, viva a República Independente dos Açores!», o que lhe valeria    a honra de ver a sua efígie num projecto artesanal de nota de 100 escudos da    futura República açoriana… </p>     <p>Mas vamos então ao poema de Vitorino Nemésio.</p>     <p>Nemésio encontrava-se em Barcelona, sofria de ciática, e na noite de 30 para    31 de Março de 1976 foi acordado por «duas amigas» que, ao telefone, lhe pediam    que regressasse de imediato a Lisboa, onde seriam recebidos - elas e ele - pelo    recém-graduado General Ramalho Eanes, «herói» saído do 25 de Novembro de 1975    e futuro candidato à Presidência da República. Pretendiam expor ao general a    situação que então se vivia no Arquipélago e os receios perante os debates parlamentares    em curso, e pedir apoio para a causa da independência dos Açores. No imaginário    delas, romanticamente aceite por ele (embora disso não dê eco neste poema),    Nemésio seria o primeiro Presidente da República Independente dos Açores. Em    resposta ao pedido das duas amigas, e provavelmente sem uma noção muito objectiva    do que realmente se passava, o poeta regressou a Lisboa, de maca, e de maca    terá sido levado ao Palácio da Cova da Moura, sede do Conselho da Revolução,    onde, segundo consta, expôs as suas preocupações ao general - e dele recebeu    palavras de sossego.</p>     <p>Neste poema, as «duas amigas» aparecem como as «últimas Briandas do Arquipélago»    - numa alusão a Brianda Pereira, a lendária mulher da Ilha Terceira, heroína    da Batalha da Salga travada a 25 de Julho de 1581, em que foram lançadas manadas    de gado bravo contra os invasores espanhóis. Daí o facto de o brasão de armas    da Região Autónoma dos Açores ter dois toiros como suportes e como divisa a    frase «Antes morrer livres que em paz sujeitos», retirada de uma carta de Ciprião    de Figueiredo, Corregedor dos Açores, ao rei Filipe II de Espanha, datada de    13 de Fevereiro de 1582, em que se fundamentava a recusa da população da Terceira    em se sujeitar aos espanhóis; daí também, neste poema e no seu contexto, o verso    «E lá vamos bater o pé de Ciprião a Filipe»… Duas amigas que, no dizer do poeta,    o emprazam para tudo, «pelos gados, nuvens, calhetas» das ilhas - sendo que    esse <i>tudo </i>implicava, no horizonte imaginado pelas duas mulheres e exacerbado    pelo próprio Nemésio, a «libertação» dos Açores dos grilhões «que nos queiram    enfiar à socapa nos pulsos duros da canga». Neste cenário revolucionário (ou    contra-revolucionário, conforme a perspectiva...), as duas «Briandas» são referidas    apenas por traços físicos e de personalidade. Porém, existe no espólio de Nemésio    uma versão deste poema, com a mesma data mas algumas diferenças importantes,    que só viria a ser publicada, postumamente, muitos anos mais tarde, e que vale    a pena recordar</p>     <p>aqui:</p>     <p>Margarida e Natália falam-me de Lisboa, de urgência</p>     <p>Alta noite, dormindo em catalão, num salto as oiço</p>     <p>A perfídia extremista outorga carta de colónia às Ilhas</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Sofro as minhas dores de coxo, pràs do sabote falta-me a paciência.</p>     <p>Os fios telefónicos, como fogo de lagoa, vibram. </p>     <p>Aquelas são das últimas Briandas do Arquipélago: </p>     <p>Uma pobre mulher com traços de fogo nos olhos </p>     <p>A outra, irada na alva beleza se excede.</p>     <p>Ambas me emprazam a tudo pelos gestos, nuvens, calhetas.</p>     <p> O Conselho da Revolução espera-nos amanhã:</p>     <p>Mesmo de maca, ao general compareço</p>     <p>Um rumor de aguilhadas, de <i>bulldozers </i>velhos, latas de leite corre as    ondas.</p>     <p>Chamam-nos os mortos, o mulherio, os baleeiros mansos com o cabo do (arpão    nas unhas.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>As minhas velhas primas desamparadas esmolam dos senhores do MEIC<a href="#1"><sup>[1]</sup></a><a name="top1"></a>    (a renda dos vidros por que espreitam o mar que sempre foi nosso.</p>     <p>Confiam no Velho coxo, e o Velho corre a acudir</p>     <p>É como um fogo posto ou briga de arruaceiros de fora.</p>     <p>As furnas são nossas.</p>     <p>As pipas de vinho são nossas, As carroças do peixinho nossas,</p>     <p>O leite das tetas que ordenhamos, As pontas com poucos faróis,</p>     <p>Os caminhos seculares mal calçados.</p>     <p>Os chafarizes com um tapete de bosta quente cheiram bem. </p>     <p>Vamos revoltar as ilhas: eu tenho lá ossos de pai e mãe</p>     <p>Sujo seria se não acudisse ao chamamento, rufo ou roqueiras, fogueira acesa</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>(aos gravetos,</p>     <p>Urro de caldeira arrebentada.</p>     <p>Qualquer aperto de dedos na goela serve para a porrada.</p>     <p>Natália, espera-me com as tuas inesgotáveis reservas exoftálmicas, </p>     <p>Arregalar os olhos é um privilégio oportuno.</p>     <p>Margarida, conta comigo na tua <i>domage </i>repentina (pois que és sempre    menina) </p>     <p>E lá vamos bater o pé de Ciprião a Filipe.</p>     <p>O Marquês de Santa Cruz era uma ovelhinha comparado a estes carnívoros. </p>     <p>A sala das Batalhas no Escorial explica tudo.</p>     <p>E agarro uma insónia, além de perder a noite a berrar da ciática</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Mas estes filhos de mamã hão-de-nos pagar tudo o que nos fizeram. </p>     <p>Estes filhos da cerva hão-de afinal entrar na linha</p>     <p>E levar nas canelas, </p>     <p>Metidos nos porões</p>     <p> (As moças às janelas) </p>     <p>Os grilhões</p>     <p>Que nos queriam enfiar à socapa nos pulsos duros da canga, Esses insulsos rufiões    de ganga.</p>     <p>Barcelona, 31.3.1976</p>     <p>(Nemésio, 2003, pp. 212-213)</p>     <p>As «duas amigas» afinal tinham nome e chamavam-se <i>Natália </i>e <i>Margarida</i>.    O primeiro verso do poema é «Margarida e Natália falam-me de Lisboa, de urgência»,    e ainda não a versão que o poeta viria a publicar:</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>«Duas amigas telefonam-me de Lisboa de urgência»; uma das duas amigas do poeta,    que ele refere como «pobre mulher com traços de fogo nos olhos» e que é «sempre    menina», era Margarida Vitória, Marquesa de Jácome Correia; e a «outra, irada,    (que) na alva beleza se excede» e aguarda o poeta com as suas «inesgotáveis    reservas exoftálmicas», porque «arregalar os olhos é um privilégio oportuno»,    era, naturalmente, Natália Correia.</p>     <p>Por esses anos, Nemésio andava apaixonado por Margarida Vitória (que, segundo    ela própria me confirmou, tivera escondido, numa das suas vastas propriedades    em São Miguel, armamento da FLA, Frente de Libertação dos Açores…) e escrevia-lhe    fogosos poemas de amor (Nemésio, 2003), e Natália compunha os terríveis libelos    de desilusão pós-25 de Abril de 1974 que são os sonetos do livro <i>Epístola    aos Iamitas </i>(Correia, 1976) - onde são verberadas várias das personalidades    da esquerda comunista e revolucionária que terão inspirado, em sede dos referidos    debates parlamentares (embora Natália o não afirme em concreto), as posições    mais radicais contra o processo autonómico dos Açores e da Madeira.</p>     <p>O resto é História.</p>     <p><b>TERCEIRO: OS PAPÉIS E AS CINZAS</b></p>     <p>Na Primavera de 1997, estando eu a desempenhar funções como Director Regional    dos Assuntos Culturais nos Açores, constou-me que, em Lisboa, estariam a ser    vendidos, ao desbarato, papéis do espólio de Natália Correia, falecida quatro    anos antes (16 de Março de 1993). Temendo que isso fosse verdade, entrei em    contacto com Dórdio Guimarães, viúvo de Natália e seu herdeiro, propondo-lhe    a compra imediata, pelo Governo Regional, do espólio da escritora, a fim de    com ele se dar início àquilo que poderia ser a «Biblioteca Natália Correia»,    na Fajã de Baixo, localidade do seu nascimento, ou em Ponta Delgada. Soube,    em resposta, que não só não se estava a vender o espólio de Natália, como até,    pelo contrário, o mesmo tinha sido acrescentado por meio da aquisição de peças    até então dispersas; porém, Dórdio Guimarães aceitava vender todo o espólio    ao Governo Regional dos Açores, pelo que desde logo acertei com ele as linhas    gerais para a operação de compra e transporte dos documentos, bem como as modalidades    e condições de pagamento.</p>     <p>Mas, pouco tempo depois, Dórdio Guimarães adoeceu gravemente, vindo a falecer    no dia 2 de Julho seguinte. Por isso, procurei a sua primeira testamenteira,    Helena Roseta (seguia-se-lhe Ramalho Eanes), a quem comuniquei aquilo que tinha    sido acertado - vindo a ser informado que, por testamento datado do dia 14 de    Janeiro anterior, Dórdio Guimarães constituíra a Região Autónoma dos Açores    como legatária de diversos bens, a saber:</p>     <p>«O integral recheio da sua casa de habitação, em Lisboa, a fim de se criar    o Museu Natália Correia», a que se acrescentaria a colecção inteira de pintura    e de escultura, propriedade de ambos, bem como a biblioteca, os manuscritos    e originais das obras já publicadas, e o acervo da exposição de Homenagem Nacional    a Natália Correia, inaugurada em Lisboa em Setembro de 1993.</p>     <p>Finalmente, o viúvo de Natália determinava que as suas cinzas deveriam ser    juntas às de Natália Correia, que se encontram no Mausoléu dos Escritores do    Cemitério dos Prazeres, em Lisboa, e trasladadas para o interior do Jardim sito    em frente da sala de leitura da Biblioteca Natália Correia, na Fajã de Baixo,    em local próprio, com a devida inscrição alusiva e réplica em bronze do busto    de Natália Correia, da autoria de Martins Correia.</p>     <p>(Guimarães, 1997)</p>     <p>Da colecção de arte faziam parte obras de arte religiosa antiga, e de artistas    como Abel Manta, Almada Negreiros, Artur Bual, Camarinha, Cassiano Branco, Cruzeiro    Seixas, Salvador Dalí, Albrecht Dürer, Mário Cesariny, Francisco Relógio, Gracinda    Candeias, Hansi Stäel, Isabel Meyrelles, Júlio Pereira, Júlio Pomar, Júlio Resende,    Júlio de Sousa, Lima de Freitas, Manuel de Lima, Martins Correia, Nikias Skapinakis,    Sam, Stuart de Carvalhais ou Vieira da Silva, entre muitos outros.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Havia, porém, um problema: em 1993, o mesmo Dórdio Guimarães tinha realizado    a escritura de constituição de uma «Fundação Natália Correia», à qual doara    todo o espólio da escritora. Ou seja, depois de tudo somado e verificado, verificou-se    que Dórdio Guimarães, naturalmente por esquecimento, legava em testamento aos    Açores - e a outras instituições, como a Sociedade Portuguesa de Autores (direitos    de autor), a Escola Superior de Belas Artes do Porto (quadros de seu pai, o    pintor Manuel Guimarães), o Governo Regional dos Açores (recheio da casa, incluindo    a pinacoteca, esculturas, biblioteca, manuscritos de obras publicadas em vida,    e o acervo da exposição de 1993), e a Biblioteca Nacional (manuscritos inéditos,    hemeroteca, e vídeos e filmes da sua autoria sobre Natália Correia) - um conjunto    de bens que já havia doado a uma outra instituição, que por sua vez contava    com avultadas dívidas à data da morte do seu fundador.</p>     <p>Depois de um complicado processo judicial - em que não faltou a intervenção    da Polícia Judiciária e um processo no Tribunal da Comarca de Leiria por causa    do «desvio» de algumas obras de arte (dois quadros da autoria de Natália Correia,    um conhecido auto-retrato e um retrato de sua Mãe), que viriam a ser encontradas    na casa de um dos credores das dívidas da Fundação Natália Correia, que entretanto    se viria a verificar não ter existência legal em virtude de os seus órgãos sociais    nunca terem tomado posse… -, mandou o tribunal, por sentença de 24 de Março    de 1998, que se cumprissem os legados do testamento de Dórdio Guimarães, tendo    a sua herança jacente, que incluía todo o espólio de Natália Correia e as obras    de arte, sido declarada vaga a favor do Estado em 14 de Abril seguinte - na    sequência do que a Região Autónoma dos Açores passou a integrar, no seu património    cultural, a parte mais preciosa da herança material de Natália Correia e Dórdio    Guimarães (incluindo aqueles dois quadros que tinham sido «desviados»): centenas    de obras de arte, milhares de livros e de fotografias, os manuscritos rasurados    de obras que deixou inacabadas, e milhares de cartas de personalidades importantes    do mundo cultural da época, tudo isto constituindo um verdadeiro tesouro de    cultura europeia e de memória universal que agora se encontra disponível para    consulta, em instalação própria, na Biblioteca Pública e Arquivo Regional de    Ponta Delgada - ao lado dos espólios bibliográficos de José, Ernesto e Eugénio    do Canto, de Teófilo Braga e de Antero de Quental, bem como do manuscrito das    <i>Saudades da Terra</i>, do historiador açoriano do século XVI, Gaspar Frutuoso.</p>     <p>No entanto, nem mesmo esta integração do espólio de Natália Correia nos bens    do Património Cultural dos Açores foi pacífica: antes da sua deslocação para    São Miguel, os papéis e a biblioteca de Natália Correia e Dórdio Guimarães foram    depositados na Biblioteca Nacional, onde durante cerca de dois anos uma técnica    especializada, paga pelo Governo Regional, procedeu à arrumação e classificação    das peças, com vista a separar, para que se pudesse cumprir a determinação do    testamento de Dórdio Guimarães no que aos manuscritos autógrafos dizia respeito,    os de obras inéditas, que deveriam ficar na Biblioteca Nacional, dos de obras    publicadas em vida, que deveriam seguir para os Açores. Porém, feito esse trabalho,    acabou por seguir tudo para Ponta Delgada, não tendo a Biblioteca Nacional assegurado    a posse e guarda dos preciosos documentos que, por disposição testamentária,    lhe pertencem.</p>     <p>Por outro lado, e <i>a contrario sensu </i>do disposto no mesmo testamento,    verificou-se que a casa da Fajã de Baixo, onde Natália nasceu e viveu até aos    dois anos de idade, não reunia as condições necessárias, mesmo fazendo-se obras    de adaptação, para albergar um património tão rico e diversificado, constituído    por papéis e obras de arte que carecem de especiais condições de conservação,    consulta e exposição - mas acabara de ser inaugurada, em Ponta Delgada, o novo    edifício da Biblioteca Pública e Arquivo Regional, esse sim com as condições,    equipamento e pessoal técnico adequados.</p>     <p>Vale a pena lembrar que a colecção de arte era tão boa e tão completa que,    antes de ser encaixotada e enviada para Ponta Delgada, foi exposta em Lisboa,    ocupando seis salas do Palácio Galveias. Dessa exposição, feita em parceria    com a Câmara Municipal de Lisboa, fez-se um magnífico catálogo (Azevedo &amp;    Madeira, 1999). Como não havia então, em São Miguel, nenhum edifício com as    condições necessárias para expor a colecção, ficou a mesma à guarda da Biblioteca    Pública e Arquivo Regional de Ponta Delgada, até se encontrar um local condigno    para a depositar e onde a expor ao público. Mas, antes de se definir esse local,    era necessário criar um organismo público que assumisse, legal e juridicamente,    a propriedade e a gestão da colecção, em nome da Região. Criou-se então, por    Decreto Legislativo Regional, o Centro de Arte Moderna de Ponta Delgada, que    teria como núcleo fundador esta mesma colecção de arte - o qual, no entanto,    não teve qualquer seguimento: as obras de arte (incluindo algumas das peças    de mobiliário mais icónicas do ambiente doméstico da escritora, como a cama    de dossel, em que habitualmente escrevia, e a mesa de estilo «império» muito    frequente nos filmes de Dórdio Guimarães sobre Natália) foram integradas nas    colecções do Museu Carlos Machado, de Ponta Delgada, enquanto os livros e os    papéis o foram na Biblioteca Pública.</p>     <p>Quando, em 2013, regressei ao Governo dos Açores, agora na qualidade de Secretário    Regional da Educação, Ciência e Cultura, entendi que era tempo de se cumprir    a última determinação testamentária que ainda se encontrava em falta: a trasladação    das cinzas do casal - o que culminaria, já depois da minha saída do Governo,    na construção de um pequeno monumento funerário no jardim da Biblioteca Pública    de Ponta Delgada, em cujo interior foram, finalmente (Maio de 2016), depositadas    as cinzas de Natália e Dórdio. O monumento, que fica junto de um grande tanque    em cuja beira se encontra uma escultura em mármore da autoria de João Cutileiro,    que representa uma menina deitada a ler um livro, é coroado por uma réplica    em bronze do busto de Natália por Martins Correia.</p>     <p><b>QUARTO: OS «ERROS MEUS…»</b></p>     <p>Ao contrário do que foi determinado no testamento de Dórdio Guimarães, a parte    do espólio de Natália Correia que é propriedade da Biblioteca Nacional foi levada    para Ponta Delgada; nada de mal nisso, sabendo-se que os papéis, ainda que em    situação irregular, estarão devidamente tratados e protegidos. Mas existe na    Biblioteca Nacional, por aquisição ou por doação - para além de uma boa colecção    de fotografias que documentam o processo de desmontagem da casa, de reconhecimento    de peças, e de assinatura de instrumentos legais, após a morte de Dórdio Guimarães    e a decisão do tribunal acerca do destino da sua herança jacente -, o original    autógrafo da peça de teatro <i>Erros meus, má fortuna, amor ardente</i>, encomendada    a Natália pelo Teatro Nacional D. Maria II, no âmbito das comemorações do IV    Centenário da morte de Camões (1980); um conjunto de recortes de jornais com    entrevistas e textos diversos da escritora; e algumas fotocópias, sem grande    valor documental ou filológico, de obras originais de Natália dactilografadas    (peças de teatro), bem como de um documento autógrafo que me parece precioso    pelo que revela acerca da personalidade de Natália.</p>     <p>Só por si, a peça de teatro <i>Erros meus, má fortuna, amor ardente </i>tem    uma história que justificaria um estudo aprofundado: obra de características    operáticas, com muitas personagens, inúmeros figurantes e sugestões cénicas    de grande impacto, mas também dotada de um discurso mais adequado à leitura    do que à representação teatral (Brilhante, 1983), ter-se-á revelado de grande    dificuldade de produção em palco, o que, aliado a factores de ordem política    e circunstancial, terá impedido que fosse levada à cena no contexto para que    fora encomendada e escrita.</p>     <p>O manuscrito autógrafo desta peça, que foi oferecido por Natália à sua amiga    Ana Maria Adão e Silva, que mais tarde o viria a doar à Biblioteca Nacional,    onde integra o Arquivo de Cultura Portuguesa Contemporânea, tem por título integral</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><i>Erros meus, má fortuna, amor ardente</i></p>     <p><i>(peça em três actos sobre a grandeza e danos do Português Luís de Camões,    </i></p>     <p><i>em que todos, dolorosa e magnificamente, nos achamos)</i></p>     <p>e a dedicatória</p>     <p>Ana Maria:</p>     <p>Quem melhor do que tu, amor de Irmã e lindíssima Vestal, pode guardar estas    chamas do fogo que me há-de consumir?</p>     <p>No aroma da Rosa que nos une, </p>     <p>Tua</p>     <p>Natália Correia </p>     <p>Natal de 1981</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>(Correia, 1981)</p>     <p>Publicada a peça em livro (Correia, 1981), nele podemos ler, em texto de badana    assinado por David Mourão-Ferreira, a seguinte afirmação:</p>     <p>esta peça de Natália Correia, sem tão-pouco abdicar do intrínseco barroquismo    da sua autora, teria sido, em 1980, sobre o tablado de um Teatro Nacional que    pudesse a um tempo ser «nacional» e ser «teatro», a mais condigna homenagem    da criatividade contemporânea ao nosso maior poeta de todos os tempos, no 4.º    centenário da sua Morte. Assim o não quis, no entanto, o sombrio e sinistro    soba que «reinou», em 1980, na esfera oficial da cultura portuguesa.</p>     <p>E, na contracapa, este aviso:</p>     <p>Esta peça foi encomendada à autora pelo Teatro Nacional D. Maria II, para celebrar    em 1980 o 4.º Centenário da morte de Luís de Camões. A «má fortuna» que, em    vida, perseguiu o poeta, atravessou-se neste projecto impedindo a sua concretização,    por critérios que deslustram quem os assumiu.</p>     <p>Embora David Mourão-Ferreira não tenha identificado o «sombrio e sinistro soba»    a quem se referia, recorde-se que o titular da pasta da Cultura em 1980 era    Vasco Pulido Valente (VI Governo Constitucional, 1980-1981, de Francisco Sá    Carneiro) - que sucedera, no exercício das mesmas competências governativas,    a Hélder Macedo (V Governo Constitucional, 1979-1980, de Maria de Lurdes Pintasilgo).    Provavelmente, David Mourão-Ferreira estaria a referir-se, metaforicamente,    ao contexto geral e crónico da política do governo português para o sector cultural...</p>     <p>Quanto ao outro documento (em fotocópia), é a resposta de Natália, manuscrita,    a um daqueles «jogos da verdade» muito frequentes em certos círculos privados.    O questionário, dactilografado, é constituído por vinte perguntas, tendo três    delas ficado sem resposta. Aqui ficam, na sua crueza e sem comentários, as respostas    de Natália às perguntas que lhe fizeram:</p>     <p><i>1. </i><i>Qual é o seu nome?</i></p>     <p>(<i>sem resposta</i>)</p>     <p><i>2. </i><i>Que idade tem?</i></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>(<i>sem resposta</i>)</p>     <p><i>3. </i><i>Acha que tem competência para desempenhar o lugar que ocupa?</i></p>     <p>De mais.</p>     <p><i>4. </i><i>Qual o seu prato preferido?</i></p>     <p>Cozido à portuguesa.</p>     <p><i>5. </i><i>Qual a obra literária que mais o impressionou?</i></p>     <p>Vermelho e Negro (<i>Stendhal</i>).</p>     <p><i>6. </i><i>Qual a figura histórica que mais admira e a que mais detesta?</i></p>     <p>(<i>sem resposta</i>)</p>     <p><i>7. </i><i>Qual é a sua sensação ao ser reconhecido na rua?</i></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Aflição (<i>primeiro escreveu </i>Timidez<i>, que riscou</i>).</p>     <p><i>8. </i><i>Com que idade fez amor pela primeira vez?</i></p>     <p>17 anos.</p>     <p><i>9. </i><i>Qual a sua actriz de cinema preferida?</i></p>     <p>Não tenho esse género de preferências.</p>     <p><i>10. </i><i>Na</i><i> </i><i>sua vida de que mais se orgulha e de que mais    se envergonha?</i></p>     <p>De ter desafiado. De ter tido paciência para aturar imbecis.</p>     <p><i>11. </i><i>Qual a sua posição perante a homossexualidade?</i></p>     <p>Acho-a natural.</p>     <p><i>12. </i><i>Como gostava de morrer?</i></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>A rir.</p>     <p><i>13. </i><i>Quando está nervoso qual o seu tique?</i></p>     <p>Fumo.</p>     <p><i>14. </i><i>Tem </i><i>vícios? Quais?</i></p>     <p>Fumo desalmadamente.</p>     <p><i>15. </i><i>Seria capaz de matar alguém?</i></p>     <p>Não: mandava matar.</p>     <p><i>16. </i><i>Que pensa dos militares?</i></p>     <p>A generalização é incorrecta. O que penso de alguns militares é a pergunta    a que dou a seguinte resposta: Entre eles há homens ordinários e extraordinários    como em todos os agrupamentos.</p>     <p><i>17. </i><i>Já</i><i> </i><i>roubou?</i></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Nunca. Por vergonha.</p>     <p><i>18. </i><i>Acredita em Deus?</i></p>     <p>Sim.</p>     <p><i>19. </i><i>Acha-se uma pessoa interessante?</i></p>     <p>Acho.</p>     <p><i>20. </i><i>Qual a sua frustração?</i></p>     <p>Não ser homossexual.</p>     <p>(Correia, n.d.)</p>     <p>Natália era mesmo assim: como Vitorino Nemésio a descreveu, por breves pinceladas,    naqueles momentos de revolucionários românticos; como ela se autodescreveu,    por pinceladas igualmente breves, neste questionário privado mas que alguém    recolheu e guardou; e como todos nós a podemos ler na vasta e diversificada    obra que nos legou, e que bem precisada anda de um estudo atento e desapaixonado,    que consiga destrinçar a escritora lúcida e interveniente, a aniquiladora de    certezas que é capaz de, a qualquer momento, abalar pela ironia, pelo sarcasmo    e pela frontalidade, mas sobretudo pela inteligência de observação e pelo poder,    dela decorrente, de transformar em discurso as dúvidas que nos abalam as certezas    - da mulher plena, ao mesmo tempo vivida e barroca, ingénua e desassombrada,    lírica e excessiva, que há-de ficar na História como uma das figuras mais perturbadoras    do século XX português, e que sempre recordaremos como uma mulher poderosa,    por vezes irada contra os imbecis mas sempre envolta na alva beleza em que se    excede. Uma beleza que lhe vem de dentro.</p>     <p>&nbsp;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><b>REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS</b></p>     <!-- ref --><p>Azevedo, F. &amp; Madeira, J. L. (Coord.). (1999). <i>Natália, arte e poesia:    Colecções de arte do espólio de Natália Correia e Dórdio Guimarães</i>. Lisboa:    Câmara Municipal de Lisboa/Governo Regional dos Açores.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1842942&pid=S0874-6885201900010000500001&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <p>BNP. Biblioteca Nacional de Portugal, Arquivo de Cultura Portuguesa Contemporânea,    <i>Colecção Natália Correia</i>: Esp. N65.</p>     <!-- ref --><p>Brilhante, M. J. (1983). Recensão crítica a <i>Erros meus, má fortuna, amor    ardente</i>, de Natália Correia. Revista Colóquio/Letras, <i>73</i>, 82-84.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1842945&pid=S0874-6885201900010000500002&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p>Correia, N. (1981). <i>Erros meus, má fortuna, amor ardente: (peça em três    actos sobre a grandeza e danos do português Luís de Camões, em que todos, dolorosa    e magni&#64257;camente, nos achamos)</i>. Colecção Natália Correia, Esp. N65/1.    Arquivo de Cultura Portuguesa Contemporânea, Biblioteca Nacional de Portugal,    Lisboa.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1842947&pid=S0874-6885201900010000500003&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p>Correia, N. (n.d.). [Resposta a um questionário]. Colecção Natália Correia,    Esp. N65. Arquivo de Cultura Portuguesa Contemporânea, Biblioteca Nacional de    Portugal, Lisboa.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1842949&pid=S0874-6885201900010000500004&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<!-- ref --><p>Correia, N. (1972). <i>A mosca iluminada</i>. Lisboa: Quadrante. Edição citada:    Correia, 1999, pp. 307-351.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1842951&pid=S0874-6885201900010000500005&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p>Correia, N. (1976). <i>Epístola aos Iamitas</i>. Lisboa: Publicações Dom Quixote.    Edição citada: Correia, 1999, pp. 409-430.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1842953&pid=S0874-6885201900010000500006&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p>Correia, N. (1981), <i>Erros meus, má fortuna, amor ardente</i>. <i>Peça em    três actos. </i>Lisboa: Fernando Ribeiro de Mello/Edições Afrodite.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1842955&pid=S0874-6885201900010000500007&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p>Correia, N. (1990), <i>Sonetos românticos</i>. Lisboa: O Jornal. Edição citada:    Correia, 1999, pp. 567-616.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1842957&pid=S0874-6885201900010000500008&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p>Correia, N. (1999), <i>Poesia completa. O sol nas noites e o luar nos dias</i>.    Lisboa: Publicações Dom Quixote.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1842959&pid=S0874-6885201900010000500009&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<!-- ref --><p>Duarte, L. F. (2017). <i>Retratos imperfeitos</i>. Lajes do Pico: Companhia    das Ilhas.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1842961&pid=S0874-6885201900010000500010&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --> </p>     <!-- ref --><p>Guimarães, D. (1997). Testamento de 14 de Janeiro de 1997. Lisboa: 13.º Cartório    Notarial.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1842963&pid=S0874-6885201900010000500011&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --> </p>     <!-- ref --><p>Nemésio, V. (1976). <i>Sapateia açoriana, andamento holandês e outros poemas</i>.    Lisboa: Arcádia.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1842965&pid=S0874-6885201900010000500012&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p>Nemésio, V. (2003), <i>Caderno de caligraphia e outros poemas a Marga </i>(ed.    Luiz Fagundes Duarte). Lisboa: Imprensa Nacional-Casa da Moeda.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1842967&pid=S0874-6885201900010000500013&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>Recepção: 28/03/2019</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Aceite para publicação: 04/04/2019</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><a href="#top1"><sup>[1]</sup></a><a name="1"></a><i>Ministério da Educação    e Investigação Científica</i>. Designação utilizada no VI Governo Provisório    (1975-1976) e no I Governo Constitucional (1976-1978).</p>     <p>&nbsp;</p>      ]]></body><back>
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