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<article-title xml:lang="pt"><![CDATA[A vivência de infertilidade e endometriose: pontos de atenção para profissionais de saúde]]></article-title>
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<institution><![CDATA[,Pontifícia Universidade Católica de Goiás  ]]></institution>
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<abstract abstract-type="short" xml:lang="en"><p><![CDATA[This study discusses aspects of the daily life of patients with endometriosis. It considers life habits related to endometriosis and the feelings of women confronted with the diagnosis and the treatment. Data were collected in a sample of 40 women with diagnosis of endometriosis, through a selection of patient files and through interviews. Exposure to toxic substances was high in this sample. More than half of the participants did not practice sufficient physical activity. The diets of many patients lacked vitamin E, C and fibras. Insecurity and anxiety were the main feelings when receiving the diagnosis, but, once the treatment started, positive emotions predominated. The most frequent sources of emotional support that helped the women to live through the treatment were: faith, the partner and the family. Health professionals need to pay attention to the destructive impact of cultural prejudices. They need to help the patient cope with her insecurity, anxiety, sadness and fear during the diagnostic process. They must provide coaching concerning life style changes and questions related to exposure to toxic substances. And they also need to help sustain both the patient’s positive emotional responses to treatment and her partner’s support during treatment.]]></p></abstract>
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<kwd lng="pt"><![CDATA[Endometriose]]></kwd>
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</front><body><![CDATA[ <p><b>A viv&ecirc;ncia de infertilidade e endometriose: pontos de aten&ccedil;&atilde;o    para profissionais de sa&uacute;de</b></p>      <p>&nbsp;</p>     <p><b>Ana Carolina Dias Vila, Luc Vandenberghe &amp; Nusa de Almeida Silveira</b></p>      <p>Pontifícia Universidade Católica de Goiás, Brasil.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p>Contactar para E­mail: <a href="mailto:luc.m.vandenberghe@gmail.com">luc.m.vandenberghe@gmail.com</a></p>     <p>&nbsp;</p>      <p><b>Resumo</b></p>     <p>Este estudo discute aspectos do cotidiano da paciente com endometriose. São    considerados alguns hábitos de vida relacionados com a endometriose e o sentimento    feminino perante o diagnóstico e o tratamento. Dados foram colhidos numa amostra    de 40 mulheres com diagnóstico de endometriose, por meio de seleção de prontuários    e aplicação de questionários. A frequência de exposição a substâncias químicas    tóxicas na amostra foi alta. Mais da metade das participantes não praticava    atividade física e a ingestão de vitaminas E, C e de fibras era insuficiente.    Insegurança e ansiedade foram os sentimentos mais frequentes frente ao diagnóstico,    mas, uma vez iniciado o tratamento, a maioria das participantes relatou bem-estar    como sentimento predominante. As mais frequentes fontes de apego que ajudaram    as mulheres durante o tratamento foram: a fé, o parceiro e a família. O profissional    da saúde precisa atentar para o impacto prejudicial de preconceitos culturais    e apoiar as tentativas da paciente de lidar com a insegurança, ansiedade, tristeza    e o medo ao receber o diagnóstico. Precisa orientar a paciente quanto às mudanças    de estilo de vida e exposição a substâncias tóxicas. Além disso, precisa amparar    a resposta emocional positiva da paciente ao tratamento e estimular o apoio    do companheiro no decorrer do tratamento. </p>     <p> Palavras­-chave:<i> </i>Endometriose; infertilidade; fatores ambientais; vivência    feminina. </p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>      <p><b>The experience of infertility and endometriosis: suggestions for health    professional</b></p>     <p><b>Abstract</b></p>     <p>This study discusses aspects of the daily life of patients with endometriosis.    It considers life habits related to endometriosis and the feelings of women    confronted with the diagnosis and the treatment. Data were collected in a sample    of 40 women with diagnosis of endometriosis, through a selection of patient    files and through interviews. Exposure to toxic substances was high in this    sample. More than half of the participants did not practice sufficient physical    activity. The diets of many patients lacked vitamin E, C and fibras. Insecurity    and anxiety were the main feelings when receiving the diagnosis, but, once the    treatment started, positive emotions predominated. The most frequent sources    of emotional support that helped the women to live through the treatment were:    faith, the partner and the family. Health professionals need to pay attention    to the destructive impact of cultural prejudices. They need to help the patient    cope with her insecurity, anxiety, sadness and fear during the diagnostic process.    They must provide coaching concerning life style changes and questions related    to exposure to toxic substances. And they also need to help sustain both the    patient’s positive emotional responses to treatment and her partner’s support    during treatment. </p>     <p> Keywords:<i> </i>Endometriosis; infertility; environmental factors; feminine    experience. </p>      <p>&nbsp;</p>      <p>Uma das causas mais comuns de esterilidade feminina é a endometriose, uma afecção    em que ocorre o crescimento anormal de tecido endometrial. As células en­dometriais    possuem a capacidade de se implantar fora da cavidade uterina. Esta pa­tologia    gera uma fibrose que pode encobrir os ovários a ponto de impedir a liberação    do óvulo na cavidade abdominal. A oclusão das trompas de Falópio pode ocorrer    nas extremidades fimbriadas ou em qualquer ponto ao longo de seu comprimento.    Em ordem de frequência, a endometriose pélvica envolve: os ovários, ligamentos    úte­rossacrais, fundo de saco, septo reto­-vaginal, peritônio uterovesical,    cérvix, umbigo, hérnias e apêndices (Guyton &amp; Hall, 2002; Lopez et al.,    2000; Machado et al., 2001). Durante a menstruação, o tecido ectópico sangra.    Principalmente nas áreas sem saída, isto pode causar dor. A sintomatologia depende    da localização e extensão da doença (Giudice &amp; Kao, 2004; Reis, 2002). Ainda    é uma doença de etiopatogenia incerta apesar de ter sido estabelecido um papel    importante do estresse oxidativo no cresci­mento dos tecidos endométricos (Aplay,    Saed, &amp; Diamond, 2006). O diagnóstico inicia-se na suspeita clínica, nos    sintomas e no exame físico. Para a confirmação é fundamental o exame histológico,    por meio da laparoscopia ou da laparotomia. O tratamento consiste em uma cirurgia,    realizada por meio de anestesia geral seguida de uma incisão abdominal para    a extirpação dos coágulos de endometriose.</p>      <p>Cada vez mais, os profissionais da saúde tendem a considerar que o sedenta­rismo    e a dieta não balanceada, álcool, tabaco e outras drogas, o frenesi da vida    co­tidiana>, são condicionantes das ditas doenças modernas. Este trabalho pretende    situar a endometriose no contexto dessa visão. O contributo do presente artigo    é de apre­sentar uma contextualização da doença e do seu tratamento na vida    da paciente. Par­timos do princípio de que considerar aspectos do cotidiano    e da vivência da mulher com endometriose contribui para que profissionais de    saúde, inclusive os de saúde mental, possam assisti-la de maneira mais abrangente.</p>      <p>Primeiro são caracterizados aspectos do cotidiano das pacientes que podem estar    relacionados com a doença. Em segundo lugar são descritos impactos do diagnóstico    sobre a experiência subjetiva das pacientes e seu modo de lidar com estes impactos.  </p>     <p>&nbsp; </p>      ]]></body>
<body><![CDATA[<p><b>MÉTODO</b></p>      <p><i>Participantes</i></p>      <p>A amostra foi constituída por conveniência, por quarenta mulheres com diagnós­tico    principal de endometriose, com idade entre 24 a 44 anos. Para a realização do    es­tudo foi feita uma busca manual aos prontuários para a identificação de mulheres    que preenchiam os seguintes critérios de inclusão: ter idade maior ou igual    18 anos; estar em tratamento ou ter sido tratada para infertilidade e endometriose    em clínicas particulares da cidade de Goiânia­-GO; ter como principal diagnóstico    a endometriose. Foram ex­cluídas desta pesquisa, as informantes que não atenderam    aos critérios de inclusão des­critos acima, e aquelas que após a leitura e orientação    quanto aos objetivos do trabalho, demonstraram e verbalizaram o não consentimento    em participar.</p>      <p>Dezoito das mulheres participantes completaram o 3º grau e as profissões cita­das    entre elas foram: professora, estudante, vendedora, odontóloga, bancária, secre­tária,    psicóloga, engenheira e advogada. No momento da entrevista, as participantes    declararam-se casadas (31), divorciadas (6) ou solteiras (3). Apenas cinco,    entre elas referiram não seguir nenhuma religião, a maioria delas (18) sendo    católica e as ou­tras espírita (9), evangélica (5) ou de outra convicção.</p>      <p>Todas as mulheres estavam em tratamento por não conseguirem engravidar, sendo    que 25 delas nunca estiveram grávidas e quatro não conseguiram levar a ges­tação    a termo. Além disso, a queixa mais frequente foi a ocorrência de cólicas, prin­cipal    razão que motivou o aconselhamento médico. Outras queixas apresentadas no prontuário    foram: dor abdominal, dispareunia, irregularidade menstrual ou dor ao urinar,    sinais estes relacionados à endometriose segundo a literatura (Hassa al., 2004,    Guidice &amp; Kao, 2004; Reis 2002; Martin &amp; Ling, 1999). Os exames principalmente    realizados foram a histerossalpingografia (por 34 delas), ultrassonografia (por    30 delas), e a biópsia (por 20 delas). Nesta amostra 29 das mulheres apresentavam    trom­pas uterinas normais e apenas 5 participantes apresentaram trompas obstruídas    pro­vavelmente por coágulos. Nestes casos o diagnóstico de endometriose era    devido à presença do tecido endometrial em outra parte do aparelho genital uma    vez que a en­dometriose pode afetar outras estruturas do aparelho reprodutor,    que não as trompas uterinas.</p>     <p>&nbsp;</p>      <p><i>Procedimentos </i></p>      <p>Para caracterizar a amostra foi utilizado um questionário construído pelos    au­tores do trabalho que levantava informações a respeito de dados pessoais,    sócio­-de­mográficos e do cotidiano das participantes, assim como condições    de saúde, hábitos de vida e as principais reações apresentadas frente ao diagnóstico    de endometriose. </p>      <p>Primeiramente foi feita uma busca de pacientes em clínicas de reprodução, lo­calizadas    em Goiânia – Goiás, cujo diagnóstico principal fosse a endometriose. Esta busca    foi feita a partir dos prontuários e autorizada pelos proprietários das clínicas.    Um primeiro contato foi feito por telefone, convidando a paciente para participar    do estudo. Caso ela aceitasse, era agendado um encontro para o fornecimento    de maio­res esclarecimentos acerca da pesquisa e alguns dados eram coletados    do seu pron­tuário. No encontro pessoal, que ocorria em local da preferência    da paciente, ela era informada dos objetivos do estudo, convidada a ler e assinar    um termo de consenti­mento autorizando o uso de informações dos seus prontuários    e a responder ma­nualmente o questionário sobre aspectos do seu cotidiano. Foram    assegurados às pacientes sua privacidade, sigilo das informações e seu direito    de retirar-se do es­tudo a qualquer momento, sem danos de qualquer natureza.    O protocolo desse le­vantamento de informações foi encaminhado ao Comitê de    Ética em Pesquisa da Universidade Católica de Goiás, do qual obteve aprovação.</p>      <p>As informações retiradas do prontuário foram sobre o número de gestações, partos    e abortos anteriores; principais queixas, sinais e sintomas apresentados; ante­cedentes    cirúrgicos e realização prévia de exames como a ultrassonografia, biópsia e    histerosalpingografia. Para análise dos dados foram utilizadas técnicas descritivas,    sendo os resultados apresentados como médias e distribuição de freqüências.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp; </p>      <p><b>RESULTADOS</b></p>      <p>A maioria das mulheres participantes deste trabalho (57,5%) não pratica ativi­dade    física. As demais mencionaram: caminhada, academia, musculação de 2 a 3 vezes    por semana. Quase todas apresentam uma incidência alta de exposição a subs­tâncias    tóxicas, como desinfetantes (80%), água sanitária (72,5%), inseticidas (20%),    soda cáustica (12,5%), gás de cozinha (7,5%). Duas mulheres referiram fumar    ci­garros por mais de 5 anos; treze tomam café diariamente e três usam bebidas    alcoó­licas socialmente. Nenhuma participante referiu usar algum tipo de droga    ilícita. </p>      <p>Para estimar a ingestão de alimentos fontes de vitaminas E, C e de fibras foi    proposto juntamente com o questionário, um recordatório de ingestão em que foram    relacionados alimentos fontes desses nutrientes e anotadas as quantidades ingeridas.    Desta forma foi possível observar que a maioria das participantes não ingere    frequentemente alimentos ricos em vitamina C (69% delas); em vitamina E (55%    delas) ou em fibras (75% delas) não alcançando as recomendações de ingestão    diária des­tes nutrientes. Segundo o <i>Institute of Medicine/Food and Nutrition    </i>(2000; 2002), a recomendação diária de ingestão desses nutrientes entre    mulheres em idade repro­dutiva é de: vitamina E: 15mg, vitamina C: 75mg e fibras    dietéticas: 25g. </p>      <p>Os sentimentos que se sobressaíram diante do diagnóstico, no relato das parti­cipantes,    foram: insegurança (19 participantes), ansiedade (18 participantes), tristeza    (16 participantes) e medo (13 participantes). O sentimento positivo mais relatado    foi alívio (8 participantes) em tomar conhecimento de um diagnóstico que explicava    sua condição. </p>      <p>O tratamento é uma nova fase, que evoca outros sentimentos nas pacientes. De­zessete    participantes referiram ter sofrido mudanças negativas na qualidade de vida    após o início do tratamento, como: ganho excessivo de peso, efeitos colaterais    va­riados de medicações e estresse ligado à antecipação da maternidade. Quatro    mu­lheres interromperam o tratamento médico, alegando frustração com o mesmo.    Mesmo assim, 31 mulheres relataram bem-estar como sentimento predominante ao    enfrentar o tratamento; 5 se sentiam fragilizadas, mas apenas uma referiu a    vivência como conclusivamente negativa. O sentimento positivo em relação ao    tratamento está em contraste com o impacto negativo ao receber o diagnóstico.  </p>      <p>Trinta e três mulheres referiram que o companheiro as apoiou e que estiveram    mais próximos após o diagnóstico e início do tratamento. As demais referiram    não terem recebido apoio dos companheiros. Houve outras fontes de apego mencionadas    pelas pacientes, entre as quais se destacou principalmente a fé religiosa e    o apoio da família. Mas mesmo considerando estas alternativas, a carência de    apoio por parte do parceiro, foi relatada por 7 das participantes. </p>     <p>&nbsp;</p>      <p><b>DISCUSSÃO </b></p>      <p><i>Hábitos de vida </i></p>      ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Existem indicações na literatura que relacionam a endometriose com a falta    de atividade física, exposição a substâncias tóxicas, baixa ingestão de vitaminas    e fi­bras, aspectos que foram relatados pelas participantes dessa pesquisa.</p>      <p>A prática de exercícios diários melhora o sistema imunológico e por consequência,    o corpo elimina com maior facilidade os coágulos de endometriose. Outro fator    importante relacionado à atividade física é a diminuição da secreção do estro­gênio,    o qual favorece a progressão da doença (Lorençatto et al., 2002). </p>      <p>Rier e Foster (2002) referem que a exposição a dióxido de carbono (CO2), hi­drocarbonetos,    polihalogênicos (substâncias que estão presentes na composição de detergentes,    desinfetantes e pesticidas) e outras substâncias, favorecem o apareci­mento    da endometriose, pois essas substâncias se alojam nos tecidos e na corrente    sanguínea, afetando o sistema imune. O uso de produtos químicos tais como solven­tes,    pesticidas e hidrocarbonetos, está relacionado a um risco aumentado para o de­senvolvimento    da endometriose e pode provocar alterações na fertilidade feminina (Cahill &amp;    Wardle, 2002; Joffe, 2003; Sharara, Seifer, &amp; Flaws, 1999; Tinger, Stanford,    &amp; Dunson, 2004). Cada vez mais dados ficam disponíveis sobre a presença    de gran­des variedades de químicos tóxicos no pó dentro de casas e apartamentos    e em amos­tras de urina e de sangue de seus habitantes. Porém, a crença que    exposição a tóxicos só é perigosa quando em grandes dosagens, continua amplamente    aceita. Para uma geração de mulheres que conheceu desastres ambientais como    eventos dramáticos de grande escala e que são veiculados na mídia, pode fazer    pouco sentido a infor­mação de que os produtos utilizados dentro da sua casa    para fins de limpeza e hi­giene possam ter efeitos tão danosos. Por isso, pesquisas    atuais que evidenciam danos importantes sobre a saúde decorrentes de exposições    graduais e contínuas, não pro­duzem muita repercussão sobre as atitudes das    pessoas (Altman et al., 2009). </p>      <p>Uma vida estressante e agitada (Lorençatto et al., 2002; Hemmings et al., 2004)    pode ser fator de risco para o desenvolvimento da doença. O consumo de álcool    e a baixa atividade física foram os maiores preditores do desenvolvimento de    endome­triose num grande estudo prospectivo (Heiler et al., 2007). O uso de    cigarro atrapa­lha a maturação dos óvulos e é responsável por 13% dos casos    de infertilidade feminina (Sharara, Seifer, &amp; Flaws, 1999; Bhatt, 2000;    Lindbohm et al., 2002).</p>      <p>A baixa ingestão de vitaminas “C”, “E” e de fibras na dieta já foi relacionada    ao desenvolvimento da endometriose (Menezes, 2005). A literatura recomenda como    prevenção, consumo regular de verduras, frutas e legumes, que são alimentos    ricos nestes nutrientes (Lorençatto et al., 2002) ou uma suplementação a base    de combi­nados de vitaminas “E” e “C” (Agarwal et al., 2005). Há dados empíricos    que mos­tram uma redução significativa no risco de desenvolver a doença em pessoas    com um alto consumo de verduras verdes e frutas (Parazzini et al., 2004). Além    disso, foi mostrado que antioxidantes, como vitamina C e A podem evitar a evolução    de pro­cessos que prejudicam o endométrio (Santanam, Kavlaradze, &amp; Dominguez,    2003; Mier­-Cabrera et al., 2008).</p>     <p>&nbsp;</p>      <p><i>Vivência do diagnostico</i></p>      <p>A teoria psicogênica da infertilidade atribuía a causa da infertilidade a conflitos    in­conscientes da mulher. Esse modelo foi criticado pelo seu escasso apoio empírico    (Greil, 1997). Recentemente também foi alvo de crítica por parte de psicanalistas    (e.g. Giuliani, 2009; Leon, 2010) que argumentam que o psicoterapeuta prejudica    a paciente quando atribui a causa do problema ao seu psiquismo. Os conflitos    intrapsíquicos e turbulências interpessoais vistos em mulheres inférteis, de    acordo com esses autores, resultam da in­fertilidade. A dificuldade de engravidar    pode ameaçar a percepção de si como ser sexual, já que a infertilidade mantém    o objetivo primitivo da sexualidade fora de alcance. Em pa­cientes que acreditam    que engravidar é um aspecto essencial de ser mulher, a visão de si, que desde    a adolescência abrange a possibilidade de dar a luz, pode entrar em colapso.    E em decorrência disso, dúvidas sobre o que de mais profundo pode estar errado    consigo, podem ser evocadas (Cousineau &amp; Domar, 2006). </p>     <p>Na cultura geral, a maternidade ainda continua um aspecto importante da rea­lização    da identidade feminina (Barbosa &amp; Rocha­-Coutinho, 2007). Representações    sociais da infertilidade como sendo estigmatizante para a mulher continuam podero­sas    na atualidade (Trindade &amp; Enumo, 2002) e a própria mulher pode se sentir    cul­pada e envergonhada como se estivesse quebrando uma regra cultural (Clay,    2006; Conceição, 2000; Cousineau &amp; Domar, 2006). A literatura popularizante,    derivada da ideologia predominante na área de prevenção e auto-ajuda contribui    para esta situa­ção, por exagerar a autonomia que o indivíduo tem em prevenir    doença. A informa­ção pública pode enfatizar demasiadamente o poder de controle    da mulher em relação à endometriose (Seear, 2009).</p>      <p>Os sentimentos negativos relatados pelas participantes em nossa pesquisa são    encontrados com alta frequência em outras pesquisas (Ardenti et al., 1999; Domar    &amp; Dreher, 1997; Moreira et al., 2005). Estas reações são esperadas porque    a endome­triose afeta áreas tão diversas da vida, como o preenchimento dos papéis    sociais, se­xualidade, vitalidade, preocupação com aparência, isolamento social    e preocupação com as próprias filhas. Além disso, o encontro com os profissionais    de saúde, às vezes sugere o trivial dos sintomas e das perdas envolvidas na    doença (Cox et al., 2003; Jones, Jenkinson, &amp; Kennedy, 2004). Por outro    lado, obter uma explicação clara para as dores e outros sintomas, às vezes depois    de uma longa busca de diagnóstico, é uma fonte de alivio compreensível (da Matta    &amp; Muller, 2006).</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>      <p><i>Vivência do tratamento </i></p>      <p>Exames e tratamentos podem gerar estresse considerável e resultados negati­vos,    por sua vez, constituem uma nova perda (Moreira et al., 2005; Cousineau &amp;    Domar, 2006). Porém, o tratamento pode também gerar esperança a respeito do    con­trole da endometriose (da Matta &amp; Muller, 2006), e assim se tornar uma    fonte de bem-estar. Ardenti et al. (1999) referem existência de sentimentos    positivos como a determinação e o desejo de conseguir sucesso com o tratamento,    apesar de ser mui­tas vezes invasivo, doloroso e incerto.</p>      <p>O apoio do parceiro, da família e dos amigos é importante e sua ausência pode    favorecer transtornos emocionais (Carvalho &amp; Carvalho, 2004; Cunha et al.,    2008). Os parceiros, em muitos casos também passam por sentimentos de ansiedade,    de­samparo e um processo de luto. Alguns deles também relatam que as situações    pelas quais passam por causa da doença, promovem aceitação e crescimento no    relaciona­mento (Fernandez, Reid &amp; Dziurawiec, 2006).</p>      <p>O profissional deve validar estas fontes de resiliência como valiosos recursos    que ajudarão a mulher a superar a fase difícil pela qual está passando. A carência    de apoio por parte do parceiro, sentido por várias das participantes deste estudo    como também na amostra de mulheres inférteis de Cunha et al. (2008) é particularmente    preocupante quando se considera que todas as pacientes estavam passando por    um tra­tamento incerto e emocionalmente carregado, na tentativa de poder engravidar.    Isto sugere que há um papel para o profissional de saúde em promover e estimular    a par­ticipação ativa do parceiro.</p>      <p>Pontos que merecem destaque em nossa discussão dos hábitos de vida das pa­cientes    com endometriose são a falta de atividade física, a alta frequência de exposi­ção    direta a produtos tóxicos e a carência de vitaminas e fibras na dieta. Estes    dados devem ajudar os profissionais na orientação das pacientes. Condizem com    a literatura em geral e são intuitivamente aceitos pelas leigas.</p>      <p>As pacientes relataram emoções negativas profundas ao receber o diagnóstico    de endometriose. Seguindo nossa revisão de literatura cogitamos que o impacto    do diagnóstico pode evocar o estigma cultural da infertilidade e a atribuição    irracional de culpa à paciente por não ter prevenido a doença. As tendências    contemporâneas na teoria psicanalítica e as críticas sociais revistas na discussão    podem subsidiar um acompanhamento psicológico mais adequado da mulher infértil.    De qualquer forma, o profissional de saúde deve estar preparado para o impacto    emocional do diagnós­tico na paciente e levá-lo em conta no acompanhamento.  </p>      <p>O próprio tratamento também traz efeitos negativos para várias mulheres, sendo    que algumas abandonam o mesmo. Aqui novamente, percebe-se a necessidade de um    bom acompanhamento, com transparência e apoio humano da parte do profis­sional.    Adicionalmente, os nossos dados também permitem ver outro lado dos senti­mentos    envolvidos: o relato da maioria das pacientes mostra que o tratamento também    pode representar uma vivência positiva. E este é um aspecto do processo que    não pode ser desqualificado pelo profissional, negligenciando a importância    da esperança, e o tamanho do investimento emocional que a paciente faz ao iniciar    o tratamento.</p>      <p>A maioria das nossas participantes relatou receber apoio emocional do parceiro,    um elemento de notória importância para que a paciente supere bem as dificuldades    en­contradas durante o diagnóstico e o tratamento. É enfim, um ponto que deve    ser levado em conta pelos profissionais de saúde que precisam valorizar este    apoio e envolver o parceiro de maneira ativa no acompanhamento da paciente durante    todo o tratamento.</p>     <p>&nbsp;</p>      ]]></body>
<body><![CDATA[<p><b>REFERÊNCIAS</b></p>      <p>Agarwal, A., Gupta, S., &amp; Sharma, R. K. (2005). Role of oxidative stress    in female reproduction. <i>Reprodução. Biology and Endocrinology, 14, </i>3­28.  </p>      <p>Altman, R. G., Morello­-Frosch, R., Brody, J. G., Rudel, R., Brown, P., &amp;    Averick, M. (2009). Pol­lution comes home and gets personal: Women`s experience    of household chemical expo­sure. <i>Journal of Health and Social Behavior, </i>49,    417­435.</p>      <p>Aplay, G., Saed, G. M., &amp; Diamond, M.P. (2006). Female infertility and    free radicals: Potential role in adhesions and endometriosis. <i>Journal of    the Society for Gynecologic Investigation, 13, </i>390–398.</p>      <p>Ardenti, R., Campari, C., Agazzi, L., &amp; La Sala, G. B. (1999). Anxiety    and perceptive functioning of infertile women during in­-vitro fertilization:    exploratory survey of an Italian sample. <i>Human</i><i> Reproduction, 14</i>(12),    3126­3132.</p>      <!-- ref --><p>Barbosa, P. Z., &amp; Rocha­-Coutinho, M. L. (2007). Maternidade: Novas possibilidades,    antigas vi­sões. <i>Psicologia Clínica, 19</i>(1), 163­185.&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000068&pid=S1645-0086201000020000400001&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><p>Bhatt, R.V. (2000). Environmental influence on reproductive health. <i>International    Journal of Gy­necology and Obstetrics, 70</i>, 69­75.</p>      <p>Cahill, D. J., &amp; Wardle, P. G. (2002). Management of infertility. <i>BMJ    Journal, </i>325, 28­32. Carvalho, C. A., &amp; Carvalho, W. D. P. (2004). Apoio    psicológico ao casal infértil em reprodução humana. In: J.W. Barros Leal (Org.).    <i>Reprodução Humana, </i>Rio de Janeiro: Revinter. </p>      <p>Clay, A. R. (2006). Battling the self-­blame of infertility: The frustration    of infertility. <i>Monitor on psychology, 37</i>(8), 44­45.</p>      <p>Conceição, S. C. (2000). A infertilidade no feminino. In: <i>Dossiê do IV Congresso    Português de So­ciologia. </i>Coimbra: APSIOT.</p>      ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Cousineau, T. M., &amp; Domar, A. D. (2006). Psychological impact of infertility.    B<i>est Practice and Research in Clinical Obstetrics and Gynaecology, 21, </i>293­308.</p>      <p>Cox. H., Henderson, L., Anderson, N., Cagliarini, G., &amp; Ski, C. (2003).    Focus group study of en­dometriosis: Struggle, loss and the medical merry­-go-­round.    <i>International</i><i> Journal of Nur­sing Practice, 9</i>(1), 2­9.</p>      <p>Cunha, M. C. V. da., Carvalho, J. A., Albuquerque, R. M., Ludermir, A. B.,    &amp; Novaes, M. (2008). Infertilidade: Associação com transtornos mentais comuns    e a importância do apoio social. <i>Revista Psiquiatria do Rio Grande do Sul,    30</i>(3), 201­210.</p>      <p>Domar, A. D., &amp; Dreher, H. (1997). <i>Equilíbrio mente­-corpo na mulher:    uma abordagem holística para administrar o estresse e assumir o controle de    sua vida. </i>Rio de Janeiro: Campus.</p>      <p>Fernandez, I., Reid, C., &amp; Dziurawiec, S. (2006). Living with endometriosis:    The perspective of male partners. <i>Journal of Psychosomatic Research, 61</i>(4),    433­438.</p>      <p>Giudice, L. C. &amp; Kao, L. C. (2004). Endometriosis. <i>The lancet, 364,    </i>1789­1799.</p>      <p>Giuliani, J. (2009). Uncommon misery: Modern psychoanalytic perspectives on    infertility. <i>Jour­nal of the American Psychoanalytic Association, 57, </i>215­226.</p>      <p>Greil, A. L. (1997). Infertility and psychological distress: A critical review    of the literature. <i>Social Science in Medicine, 45, </i>1679­1704.</p>      <p>Guyton, A. C., &amp; Hall, J. E. (2002). <i>Tratado de fisiologia médica. </i>10.    ed. Rio de Janeiro: Guana­bara Koogan.</p>      <p>Hassa, H., Tanir, H. M., &amp; Uray, M. (2004). Symptom distribution among    infertile and fertile en­dometriosis cases with different stages and localizations.    <i>European Journal of Obstetrics &amp; Gynecology and Reproductive Biology,    119, </i>82­86.</p>      ]]></body>
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