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<article-title xml:lang="pt"><![CDATA[A hospitalização retratada na literatura infantil: diálogos com a educação em saúde]]></article-title>
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<abstract abstract-type="short" xml:lang="en"><p><![CDATA[Once children's books whose themes are related to illness and hospitalization, may prove to be especially significant work tools for professionals dealing with children hospitalized in contexts of health education, it was held a research that analyzed a sample of twenty illustrated children's books. The analysis judged the symbolic quality of the underlying discourses contained therein, running under the premises of the French School of Discourse Analysis. The findings indicated that books reproduce stereotypes socially conveyed about health professionals and carry moralizing messages about the ideal behavior expected from a hospitalized child. The research also checked if the books meet some informative function, representing in a convincing way the reality experienced by sick children at hospitals.]]></p></abstract>
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</front><body><![CDATA[ <p><font size="4"><b>A hospitalização retratada na literatura infantil: diálogos    com a educação em saúde</b></font></p>     <p><font size="3"><b>The retracted hospitalization in children&rsquo;s literature: dialogues    with health education</b></font></p>     <p><b>Alessandra Santana Soares e Barros<sup>1</sup></b></p>     <p><sup>1</sup> Faculdade de Educação - FACED, Universidade Federal da Bahia,    Salvador de Bahia, Brasil. <a href="mailto:alssb@ufba.br" target="_blank">alssb@ufba.br</a></p> <hr/>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>RESUMO</b></p>     <p>Considerando que os livros infantis, cujas temáticas são relacionadas à doença    e/ou à hospitalização, podem se mostrar ferramentas de trabalho especialmente    significativas para profissionais que lidam com crianças hospitalizadas em contextos    de educação em saúde, foi analisada uma amostra intencional de vinte livros    infantis ilustrados. A análise julgou a qualidade simbólica dos discursos subliminares    ali contidos, sendo executada segundo os pressupostos da Escola Francesa de    Análise de Discurso. Os achados indicaram que livros reproduzem os estereótipos    socialmente veiculados sobre os profissionais de saúde e carregam mensagens    moralizadoras sobre o comportamento ideal frente à hospitalização e/ou o sofrimento    na doença. A pesquisa intentou verificar, também, se os livros cumprem alguma    função informativa, representando de modo verossímil a realidade experimentada    pela criança na doença e/ou na hospitalização.</p>     <p><b>Palavras-chave:</b><b> </b>hospitalização pediátrica, análise de discurso,    literatura infantil. biblioterapia, educação em saúde</p> <hr/>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>ABSTRACT</b></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Once children&rsquo;s books whose themes are related to illness and hospitalization,    may prove to be especially significant work tools for professionals dealing    with children hospitalized in contexts of health education, it was held a research    that analyzed a sample of twenty illustrated children&rsquo;s books. The analysis    judged the symbolic quality of the underlying discourses contained therein,    running under the premises of the French School of Discourse Analysis. The findings    indicated that books reproduce stereotypes socially conveyed about health professionals    and carry moralizing messages about the ideal behavior expected from a hospitalized    child. The research also checked if the books meet some informative function,    representing in a convincing way the reality experienced by sick children at    hospitals. </p>     <p><b>Keywords:</b> pediatric hospitalization, discourse analysis, children&rsquo;s    literature, bibliotherapy, health education</p> <hr/>     <p>&nbsp;</p>     <p>A dimensão tradicional da Educação em Saúde foi aquela que privilegiou uma    abordagem preventivista e higienista, com ênfase em aspectos sobre aprendizagem    acerca das doenças e a atuação estreita sobre os grupos populacionais sob risco    de adoecimento, tendo como abordagem preferencial a forma da propaganda sanitária.    Neste contexto, a escola, e seu projeto de educação formal, foi apreciada como    um espaço preferencial para esse empreendimento prescritivo e comportamentalista,    dado o caráter sistematizado e de continuidade de suas práticas instrucionais.  </p>     <p>Outra dimensão da Educação em Saúde, a que se faz proclamar atualmente por    aqueles fóruns comprometidos com a emancipação dos sujeitos, orienta suas práticas    a partir do conceito ampliado de saúde. Nesta outra perspectiva, ansiosa pela    superação do caráter reducionista da primeira, a Educação em Saúde, mais do    que um empreendimento educativo fundado em bases didáticas e informativas, é    entendida como um processo que deve abranger a participação de toda população    e abordar os diferentes caminhos de construção social da saúde e bem-estar (Schall    &amp;Struchiner, 1999).</p>     <p>Para esta vertente, um projeto de renovação das práticas de saúde que logre    alcançar sucesso, deverá assim passar pelo investimento na retomada do valor    coletivo como preponderante em relação ao individual. Tem-se ainda que, os espaços    de intervenção propostos por uma prática educativa em saúde comprometida com    a mudança, justiça e equidade social, além de se localizarem nos limites do    setor saúde, se dariam para além destes muros institucionais, quer sejam de    postos de saúde e hospitais, quer sejam mesmo de escolas.</p>     <p>Um educador em saúde deve então, antes de tudo, ser um planejador em saúde,    ancorado, dentre outras ferramentas, na gestão ambiental urbana. Mais do que    um empreendimento educativo fundado em bases pedagógicas, a educação em saúde    deve ser um instrumento político, contra-hegemônico, de transformação da realidade    social. Os sujeitos deste processo são todos os atores sociais enquanto tidos    como agentes de transformação na perspectiva de um processo de promoção à saúde:    profissionais de saúde, lideres comunitários, professores e alunos nas escolas,    padres, freiras, pastores, farmacêuticos, população usuária dos vários serviços    - nos seus segmentos formais e informais, dentre outros. O mesmo princípio se    aplica à diversificação dos instrumentos, que então se estendem para além das    cartilhas, dos folhetos e das mídias audiovisuais para comportar, também, livros    de histórias, os quais, nesses termos, retomarão o lugar de possibilidades da    escola enquanto agência de socialização e de educação em saúde. </p>     <p>Mas para além da escola, livros infantis são fartamente utilizados em programas    de Educação em Saúde e em Programas de preparo pré-cirúrgico. Servem para auxiliar    enfermeiros, psicólogos, professores e terapeutas na adesão dos pacientes aos    tratamentos, rotinas e intervenções da assistência médica. Quando utilizados    em práticas menos dirigidas, se prestam a proporcionar prazer e satisfação e,    desse modo, contribuir no enfrentamento do stress da hospitalização.</p>     <p>Este uso terapêutico do livro parte do princípio que a leitura abre caminhos    para a conversa entre o cuidador e a criança em situações críticas sendo, assim    um facilitador do diálogo. O pressuposto instrumental, segundo o qual a literatura    possibilita a criança experimentar não só a sua dor como a do outro, alavancou    não apenas o interesse do mercado editorial em publicar livros sobre o adoecimento    e a hospitalização, como assim também o fez com a reflexão acadêmica que se    interessou em analisar, senão exatamente aqueles tipos de livros, por certo    as práticas neles apoiados. Isto se deu, por exemplo, nos estudos de Mattews    e Lonsdale (1992), Moreno et al. (2003), de Caldin (2002), e Trinca (2003),    de Seitz (2005), de Ribeiro(2006), de Orsini (1982) e de Pintos (1999).</p>     <p>O livro infantil ocupa historicamente um papel de importância relevante na    formação do leitor iniciante tanto quanto o faz na socialização dos costumes    e da moral. Embora a literatura infantil, em suas origens, tenha tratado de    temas como morte ou abandono - bastando para tanto lembrar os clássicos contos    de fadas, livros mais explícitos sobre esses assuntos foram, em tempos modernos    e ocidentais, considerados proibidos para crianças. A retomada destes temas    às prateleiras das livrarias é, portanto, um fenômeno relativamente recente.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Nas últimas décadas, os mercados editoriais brasileiros e estrangeiros têm    aumentado progressivamente a quantidade de livros infantis que exploram o tema    tabu da morte e, por aproximação ou influência, assim também livros que tratam    do tema do envelhecimento e do tema do adoecimento. </p>     <p>Livros infantis acerca deste último tema se fazem notar em variadas expressões    e associações: a doença degenerativa de avós (como o Alzheimer ou o Parkinson),    a doença terminal de pais, mães e entes queridos (especialmente o câncer), a    doença crônica na infância (novamente o câncer, mas também a AIDS e o diabetes),    a hospitalização infantil (centradas principalmente no evento cirúrgico e na    permanência na enfermaria pediátrica). </p>     <p>Nessas mesmas últimas décadas assistimos à institucionalização das políticas    de humanização da assistência médico-hospitalar, assim como à organização dos    movimentos da sociedade civil em favor da defesa dos interesses de crianças    e adolescentes. Dessa junção de interesses brotou um novo filão literário que    tem se voltado para obras que versam sobre a internação hospitalar na infância,    sobre o sofrimento na enfermidade crônica infantil, sobre itinerários de tratamento    e terapia na vida de jovens doentes. </p>     <p>A humanização da assistência, alçada à responsabilidade de fazer acontecer    o acolhimento dos pacientes sob seus cuidados pareceu, assim, ter encontrado    no livro infantil, empregado originalmente para o exercício lúdico de estímulo    dos sentidos e da criatividade, um valor de uso - então instrumental - para    a missão de educar para a tolerância ao sofrimento e para a obediência ao disciplinamento    imposto pela hospitalização. </p>     <p>Do mesmo modo, a promoção de práticas saudáveis, tradicionalmente empreendida    pela Educação em Saúde, encontrou no livro infantil o artefato didático necessário    quando assim precisou se dirigir às crianças. Em que pese o fato de que o argumento    central dessas narrativas seja a saúde e não a enfermidade, a referência a esta    última se dá por conseqüência e aproximação. Em que pese ainda ao fato de que    as enfermidades, as quais se podem dizer então, que a Educação em Saúde aborda,    não sejam preferencialmente as do tipo crônicas, assim como a assistência médica    a essas doenças associada não seja necessariamente aquela da hospitalização,    esse é mais um espaço de práticas que motivou a produção de livros infantis    sobre a doença e/ou sobre o cotidiano do internamento hospitalar em enfermarias    pediátricas.</p>     <p>Assim sendo há várias pesquisas que se detiveram em analisar criticamente livros    infantis que versam sobre doenças e agravos a saúde (Byrne &amp; Nitze, 2000;    Robinson, 2002; Turner, 2006; Jones et all, 2000; Manna, 1984).</p>     <p>Poucos trabalhos, contudo, relatam pesquisas acerca de livros que versam sobre    o hospital e a internação pediátrica, especificamente. Um raro exemplo está    em Manworren &amp; Woodring (1998). Tratou-se de uma investigação que centrou    seus objetivos em aferir a correção conceitual dos procedimentos e rotinas médico-hospitalares    enquanto informações contidas nos livros. Os autores do estudo partiram do pressuposto    que os livros seriam tão mais úteis no auxílio aos programas de Educação em    Saúde, quanto mais coerentes fossem com a realidade que retratavam. </p>     <p>Pesquisas como essas, grandemente focadas no uso instrucional - implícito ou    explícito - da literatura infantil, investigaram, também, o quanto essas narrativas    ilustradas seriam compatíveis com a mentalidade dos jovens leitores. Pois a    cada idade e estágio do desenvolvimento cognitivo, a criança elabora diferentes    hipóteses, baseadas em princípios lógicos próprios, sobre as causas de uma internação    hospitalar, sobre as razões que explicam a necessidade de determinado tratamento,    sobre as chances de cura (Burbach &amp; Peterson, 1986; Redpath &amp; Rogers,    1984; Kalish, 1996; Solomon &amp; Cassimatis, 1999). </p>     <p>Tendo em conta a existência anterior das referidas pesquisas, a finalidade    da investigação, cujos resultados apresento aqui brevemente, foi ampliar o escopo    dos estudos empíricos sobre a literatura infantil que retrata a hospitalização    e a doença. Isto se deu, primeiro, porque diversifiquei a amostra de livros    infantis, de modo a incluir edições publicadas originalmente em quatro idiomas    diferentes: inglês, francês, alemão e português. </p>     <p>Assim o fiz tendo em vista que diferentes nacionalidades implicam não somente    em línguas distintas como derivam de cenários culturais diversos que se refletem    nos modos como, então, os autores e ilustradores retratam um aspecto da sociedade    ao apresentá-lo às crianças de seus países. </p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Digo ainda que a presente pesquisa somou conhecimento ao campo dos estudos    das representações sobre a doença e a saúde na literatura infantil porque, diferentemente    da maior parte dos trabalhos já existentes, este empregou, na apreciação e julgamento    do material, pressupostos teórico-metodológicos da Fenomenologia. Análises ancoradas    nesta escola do pensamento estão menos preocupadas com a verdade dos fatos e    mais ocupadas com o modo como um fenômeno quis se fazer aparecer.</p>     <p>Essa vertente de análise parte do princípio que os modos como um determinado    fenômeno está representado, por exemplo, em livros infantis, nos diz - subliminarmente    - acerca da forma como pensam os adultos que os escreveram e ilustraram e, por    conseguinte, a sociedade a qual eles pertencem.</p>     <p>Esses modos culturais - não necessariamente registrados e refletidos - de pensar    um fenômeno são chamados Representações Sociais. Eles não são imediatamente    visíveis nem tão óbvios à compreensão, pois estão contidos nos silêncios e nas    entrelinhas dos discursos, neste caso, das narrativas literárias. Extrair-lhes    o conteúdo latente requer a ferramenta da Análise de Discurso que, na pesquisa    em questão, teve inspiração teórica nos trabalhos dos sóciolinguistas franceses    Manguenou (2000, 2001) e Charedeau (2008).</p>     <p>Logo, o objetivo do estudo agora apresentado foi evidenciar os modos como a    hospitalização, em suas desdobradas nuances, está representada em livros infantis    ilustrados que versam sobre a internação hospitalar e o adoecimento. Trazer    à tona esses simbolismos relativamente ocultos poderá, então, ajudar a melhor    identificar que valores, princípios morais, preconceitos, sugestionamentos,    costumes, estão sendo igualmente &ldquo;ensinados&rdquo; às crianças através desse tipo    de literatura.</p>     <p><b>Método</b>    <br>   Tratou-se de uma pesquisa do tipo documental, tendo em vista que os livros infantis    foram utilizados como fontes primárias, ou seja, compuseram o corpus empírico    da investigação. O posicionamento teórico-metodológico adotado pressupôs que    as narrativas são compostas tanto pelos textos escritos em palavras quanto pelas    imagens, figuras e demais ilustrações ali articuladas.</p>     <p><i>Material</i></p>     <p>Trabalhei com uma amostra intencional de vinte livros infantis ilustrados que    possuíam, no máximo, trinta e duas páginas e nos quais as ilustrações cumpriam    um papel narrativo tão importante quanto o texto escrito. As edições dos livros    analisados se distribuíram entre os anos de 1988 e 2009 o que significou, de    certa forma, uma atualização do estudo de Manworren &amp; Woodring, (1998) cuja    análise abrangera livros escritos entre os anos de 1965 a 1986.</p>     <p>Além disso, os livros infantis ilustrados eram elegíveis para compor a minha    amostra se a estória contada: - dissesse respeito à hospitalização em uma enfermaria    pediátrica ou estivesse focada na descrição de um hospital infantil como instituição    de assistência a saúde; - estivesse dirigida a crianças ou jovens leitores;-    possuísse crianças como personagens da trama, ou mesmo bichos de estimação,    brinquedos com vida, seres não-humanos ou animais antropomorfizados em pessoas.    Desse modo, foram excluídos aqueles livros cujas estórias: - estivessem relacionadas    a crianças sadias fazendo consultas de rotina no consultório do pediatra; -    não tivessem um personagem doente; - a pessoa doente fosse um adulto. </p>     <p>Os livros foram identificados a partir de varreduras realizadas em páginas    virtuais de livrarias eletrônicas e de listas de títulos recomendáveis disponíveis    em páginas virtuais de grandes hospitais infantis. </p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><i>Procedimento</i></p>     <p><b> </b>A análise foi encaminhada, a princípio, nos modos de uma análise de    conteúdo, isto é, permitiu o registro quantitativo de regularidades presentes    no conjunto amostral das obras. Este registro inicial foi obtido por meio de    um formulário contendo uma série de quesitos que pré-qualificavam os livros    segundo categorias analíticas específicas. </p>     <p>Às categorias contidas no referido formulário de coleta se somaram outras,    derivadas da leitura exploratória de cada um dos livros, leitura esta que antecipou    a análise, propriamente dita. Este momento exploratório coincidiu com o armazenamento    digital dos livros, que garantiu mais agilidade na manipulação do material,    assim como da guarda do banco de informações que da pesquisa resultou. </p>     <p>Os achados dessa primeira etapa foram, em seguida, interpretados à luz dos    contextos de realização de cada livro, ou seja, nos modos típicos de uma análise    de discurso. O significado do termo &ldquo;contexto de realização&rdquo; se refletiu ainda,    no confrontamento do livro - como um produto cultural - com a conjuntura sanitária,    no que tange às políticas de humanização da assistência médico-hospitalar vigentes    no pais onde foi originalmente publicado. </p>     <p>Importante destacar que o sentido explorado do conceito de discurso justificou,    na análise empreendida dos livros infantis, o escrutinamento dos textos tanto    como uma coleção de palavras escritas, quanto como de imagens - gravuras, fotografias,    demais ilustrações, assim como, igualmente, do arranjo gráfico que orienta o    olhar do leitor e faz resultar cada livro como um objeto único. Acerca da importância    especialmente destinada à apreciação gestáltica da imagem no livro infantil,    vale referir a observação a seguir:</p>     <p>[&hellip;] Considerando que as imagens de um livro criam a memória visual das crianças,    a leitura harmoniosa e participativa da palavra e da ilustração amplia o significado    e o alcance lúdico e simbólico de um livro. (Oliveira, 2008, p. 32)</p>     <p>Havia a expectativa de que os achados desta pesquisa pudessem, igualmente,    sugerir pistas acerca do alcance simbólico das práticas recomendadas na prestação    dos serviços hospitalares. Isto é posto tendo em vista que os livros infantis    que se prestam a tratar do tema da hospitalização têm trazido cada vez detalhes    em suas ilustrações, pois ambicionam um realismo que os aproximaria das intenções    educativas dos manuais e dos livros paradidáticos. </p>     <p>Assim, nesta profusão e riqueza de detalhes minha pesquisa buscou identificar,    também, o quanto alguns elementos idealmente constitutivos do cenário e da rotina    hospitalares - exigidos por gestores que perseguem os melhores indicadores de    qualidade na assistência hospitalar - estariam ou não representados em um meio    de comunicação como a literatura infantil. Enxergar esses e outros elementos    nos dá a medida do quanto já foram incorporados culturalmente na descrição do    hospital enquanto instituição. </p>     <p>Antes de seguir expondo os resultados da minha análise, penso que vale dizer    que uma boa maneira de entender a orientação filosófica deste trabalho, é apreciá-lo    como uma etnografia do ambiente e das práticas hospitalares pediátricas na qual    a imersão antropológica se deu no &ldquo;lugar&rdquo; empírico da literatura (Laplantine,    1986). Isso foi possível, porque embora os hospitais retratados no mundo dos    livros infantis não sejam concretos como os hospitais do mundo real, eles carregam    muitos dos signos que o constituem de verdade.</p>     <p><b>Resultados</b>    ]]></body>
<body><![CDATA[<br>   <b> </b>No mundo da literatura infantil, a criança que é hospitalizada tanto    poderá receber tratamento clínico - presente em onze dos vinte livros de estórias,    quanto tratamento cirúrgico, presente em nove dos vinte livros de estórias.  </p>     <p>Instruídas pelos livros de literatura infantil, as crianças serão levadas a    crer que braços e pernas quebrados são as grandes causas de internação nos hospitais    pediátricos, pois esse tipo de ocorrência está presente em doze dos vinte livros    analisados.</p>     <p>Quando buscamos, nas estórias contadas, a origem imediata dos traumas sofridos    pelas personagens do livro, encontramos que em grande parte das vezes, ou seja,    em oito dos quatorze livros que tratam de fraturas, engasgaduras e outras lesões,    os agravos haviam sido causados por acidentes deflagrados pelos comportamentos    inadequados das próprias crianças.</p>     <p>Assim, por exemplo: Em &ldquo;<b>Eddy va à l’hôpital&rdquo; (</b>Lamblin &amp; Roederer,    2002), o menino corre atrás de sua bola e é atropelado. Em &ldquo;<b>Conni im Krankenhaus&rdquo;    </b>(Schneider &amp; Wenzel-Bürger, 1998)<b>, </b>a menina coloca água e sabão    no escorregador, desliza com muita velocidade e bate a perna com força no armário.    Em &ldquo;<b>When you’re sick or in the Hospital&rdquo; </b>(McGrath &amp; Alley, 2002),<b>    </b>o pequeno gnomo caiu de seu skate depois de manobras radicais. Em &ldquo;<b>Gaspard    à l’hôpital&rdquo;(</b> Gutman &amp; Hallensleben, 2001), o cãozinho engole o chaveiro    que havia colocado em sua boca para escondê-lo dos amigos. Em &ldquo;<b>Teddy muss    ins Krankenhaus&rdquo;</b> (Mennen &amp; Flad, 2008), <b> </b>o urso de pelúcia é    derrubado da bicicleta porque sua dona se esquecera de colocar-lhe o cinto de    segurança. Em &ldquo;<b>A operação de Lili </b>&rdquo;(Alves, &amp; Ianni, 1999), a elefanta    filhote tem a tromba entalada com o amigo sapo que ali ficou preso enquanto    brincavam de &ldquo;aspirador.&rdquo;</p>     <p>No mundo da literatura infantil, a criança que é hospitalizada quase nunca    será atendida por profissionais médicas do sexo feminino. A julgar pelos livros    infantis que as crianças leem existem muito poucas pediatras mulheres, pois    estas estão presentes em somente cinco dos vinte livros analisados. </p>     <p>Se apreender as lições &ldquo;ocultas&rdquo; contidas nos livros infantis - lições implícitas,    mas nem por isso menos poderosas - as crianças serão levadas a acreditar que    num hospital as mulheres só podem ser enfermeiras. Nesta função elas são maioria:    estão presentes, de modo exclusivo, em dezesseis dos vinte livros. Estas enfermeiras,    a propósito, são muitas vezes caracterizadas pelo uso do chapéu, observável    em sete dos vinte livros infantis que contam estórias de hospitalização.</p>     <p>No mundo da literatura infantil, aquele médico que atende e/ou opera as crianças    internadas num hospital, além de homem, será branco. Assim ele estava caracterizado    em quatorze dos quinze livros que traziam médicos do sexo masculino. </p>     <p>O viés de raça esteve presente também na representação da criança/filhote/boneco    que protagonizava as estórias, pois em apenas dois dosvinte0 livros analisados    a personagem central hospitalizada era negra.</p>     <p>O hospital para crianças, no mundo dos livros infantis, é um lugar caracterizado    pela presença marcante da figura da injeção, que aparece em dez dos vinte livros;    da figura das bolsas de soro, presente em doze dos vinte livros; da figura das    cadeiras de rodas ou das muletas, presentes em dez dos vinte livros; da imagem    de gessos e talas, constante em quatorze dos vinte livros; de referências à    anestesia, presente em oito dos nove livros que retratam cirurgias; da figura    ou da descrição de um acesso venoso, tratado em dez dos vinte livros analisados.</p>     <p>No hospital pediátrico do mundo dos livros infantis não há, porque estão absolutamente    ausentes das narrativas - escritas ou ilustradas, as caixas coletoras de material    perfuro-cortante e a prática da lavagem frequente das mãos por parte dos profissionais    de saúde. Assim também, quase não se veem grades nos leitos das enfermarias    e pulseiras de identificação nos braços das crianças.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Informada pelo hospital dos livros infantis, uma criança terá mais certeza    da companhia próxima e contínua de seu bicho de pelúcia, quando lhe ocorrer    uma internação, do que da companhia de sua mãe. Pois esta, embora tenha recebido    lugar garantido em dez das vinte estórias contadas, não se fez tão onipresente    quanto o ursinho de pelúcia que era coadjuvante do personagem hospitalizado    em nada menos que dezesseis dos vinte livros infantis.</p>     <p>O hospital pediátrico do mundo dos livros infantis é um lugar reconhecidamente    humanizado. Incorporou as práticas da psicologia da saúde em &ldquo;<b>O dodói da    Gigi</b>&rdquo; (Alves &amp; Souza, 2007) e em &ldquo;<b>Harry goes to the hospital</b>&rdquo;    (Bennett &amp; Weber 2008) , as intervenções dos médicos-palhaços em &ldquo;<b>L’hôpital&rdquo;    </b>(Schweikart &amp; Roederer, 2000),<b> </b>em<b> &ldquo;Camille va à l’hôpital&rdquo;    </b>(Pétgny &amp; Delvaux 2009)<b>, </b>em<b> &ldquo;Martine, l’accident&rdquo; </b>(Delahaye    &amp; Marlier, 1996),<b> </b>em<b> &ldquo;Teddy muss ins Krankenhaus&rdquo; </b>(Mennen    &amp; Flad, 2008),<b> </b>e em<b> &ldquo;Heut gehen wir ins Krankenhaus&rdquo; </b>(Hämmerle    &amp; Trapp, 2001)<b> </b>. Importante destacar que o hospital para crianças    que se vê nos livros infantis está inegavelmente associado à figura da Brinquedoteca,    representada em doze dos vinte livros analisados.</p>     <p>Todavia, referências - imagéticas ou textuais - à escolarização em hospitais    são esparsas, pois se fazem constar em apenas duas das vinte histórias: &ldquo;<b>L’hôpital&rdquo;    </b>(Schweikart &amp; Roederer, 2000)<b> </b>e<b> &ldquo;</b><b>Bald nach Hause zurückkehren&rdquo;    </b>(Worrall,1990).<b> </b>Do mesmo modo,<b> </b>e de forma ainda mais absoluta,    se destaca a ausência da Educação em Saúde retratada enquanto prática, quer    seja enquanto promovida por enfermeiras ou por quaisquer outros profissionais    da assistência hospitalar.</p>     <p><b>Discussão</b>    <br>   <b> </b>Alguns achados dessa pesquisa, como aquele que assinalou uma grande    proporção de livros que retratavam agravos provocados por acidentes para justificar    a hospitalização do personagem da estória, estão de acordo com estudos anteriores.    Turner nos diz que &ldquo;Injury themes are most likely portrayed in books related    to hospitals&rdquo; (Turner, 2006, p. 186)</p>     <p>O achado, segundo o qual foram comportamentos e atitudes das crianças ou personagens    que deflagraram os acidentes que resultaram nos agravos, que por sua vez os    levaram ao hospital merece um comentário à parte. Por um lado esse tipo de apropriação    simbólica pode favorecer a identificação da criança com a história, pois contém    elementos peculiares ao cotidiano infantil. Por outro lado, pode reforçar a    postura de introjeção da culpa, comumente elaborada cognitivamente pela criança,    quando ela busca entender as razões de sua hospitalização. (Perosa &amp; Gabarra,    2004)</p>     <p>O modelo explicativo denominado &ldquo;Immanent justice&rdquo;, nos diz que a criança tende    a pensar que a doença ou o agravo que lhe ocorreram são consequências de seu    mau comportamento (&ldquo;Cada qual recebe o que merece&rdquo;). Uma vez que muitos estudos    (Bibace &amp;Walsh, 1980; Kister &amp; Patterson, 1980; Ramos, 1975; Burbach    &amp; Peterson, 1986) sugerem que tanto crianças saudáveis quanto as hospitalizadas    puderam encarar sua doença ou internação como uma punição, profissionais de    saúde devem tomar cuidado com os modos possíveis como alguns jovens leitores    interpretarão as estórias sobre hospitalização contidas nos livros infantis.</p>     <p>Caso contrário, todo empenho aplicado nas mensagens morais contidas em frases    como &ldquo;Mas não foi sua culpa&rdquo; presente, por exemplo, em &ldquo;<b>Going to the Hospital&rdquo;    </b>(Rogers &amp; Judkis, 1997)<b> </b>ou<b> </b>&ldquo;Ninguém fica doente porque    fez ou deixou de fazer alguma coisa&rdquo; encontrada em &ldquo;<b>Harry goes to the Hospital</b>&rdquo;    (Bennett &amp; Weber, 2008) não atingirão o efeito esperado de absolver as crianças    da responsabilidade pela própria doença. Tendo em conta que o poder das mensagens    morais contidas em livros infantis é uma função tão antiga e incontestável quanto    o lugar da narrativa oral na vida das crianças, é melhor então que não pareçam    contraditórias.</p>     <p>O estereótipo identificado a partir dos achados que assinalaram que apenas    ¼ das médicas dos hospitais de crianças é mulher, merece ser confrontado com    os números da realidade em que se espelham as estórias. Ocorre que, nos últimos    trinta anos, tem havido uma crescente feminização do ofício médico em todos    os países. Assim, a profissão médica detém hoje cerca de 50% de mulheres nos    postos de trabalhos, principalmente em se tratando da Pediatria. </p>     <p>Com exceção da Europa oriental - entre 1980 e 1985 registrou-se um incremento    de quase sete pontos percentuais na participação das mulheres nas escolas de    medicina do mundo. Em todos os continentes, em 1984-1985, as matrículas femininas    representaram mais de 25% do total; chegaram a 54,1% na Europa oriental, 43,9%    na Europa ocidental, 38,9% nas Américas e na 36,8% na Oceania (Machado, 1997,    p.47).</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Nesse sentido, cabe destacar dois livros quem ao superarem esse viés e gênero,    o fizeram localizando a médica mulher numa especialidade de destaque: a cirurgia.    São eles &ldquo;<b>Heut gehen wir ins Krankenhaus&rdquo; (</b>Hämmerle &amp; Trapp, 2001)<b>    </b>e <b> &ldquo;A operação de Lili&rdquo;.</b> (Alves &amp; Ianni, 1999).</p>     <p>O assinalamento acerca da profissão da enfermagem, tomada como que exclusivamente    feminina e caracterizada por vestimenta ultrapassada, reafirma os achados da    pesquisa de Manworren &amp; Woodring (1998), realizada por sobre livros do mesmo    tipo, quase vinte anos antes. Arrisco aqui, que uma explicação possível reside    na inexistência de um projeto político de afirmação da especificidade do ato    de cuidar, enquanto atividade fundadora do ofício da enfermagem. Como o ato    de cuidar é muito próximo dos afazeres domésticos, ele não logra impor um valor    que o institua como profissão qualificada de status diferenciado no mundo do    trabalho. O ato de cuidar, por sua vez, pareceu retratado na qualidade mais    clínica e curativa possível, haja vista a ausência de referências a intervenções    educativas em saúde, enquanto desempenhadas por enfermeiros.</p>     <p>A título de arremate dos achados vale retomar que a inclinação narrativa dos    livros analisados denuncia uma incompatibilidade de funções na maioria desses    livros infantis, qual seja: favorecer a adesão terapêutica e proporcionar prazer    aos sentidos a partir do exercício da leitura. A tônica dos livros infantis    que tematizam a doença e/ou a hospitalização na infância é aquela que induz    à reprodução dos estereótipos socialmente veiculados sobre os profissionais    de saúde e secundariza o compromisso lúdico que os livros deveriam ter com a    oferta de prazer no ato da leitura. Assim o fazem em favor da oferta de mensagens    moralizadoras sobre o comportamento ideal frente à internação hospitalar e/ou    o sofrimento na doença, o que se dá em detrimento da melhor execução estética    dessas obras.</p>     <p>Além disso, não obstante o reconhecido e necessário exercício de alteridade    que um livro deve estabelecer ao dialogar com seus leitores possíveis, os livros    infantis comumente não antecipam a ampla variedade de modos de conceber a doença    por parte das crianças. Pois, ainda que, a princípio, mantenham o cuidado editorial    de pré-definir faixas etárias para o enquadramento de cada livro, este se limita    a compatibilizar os pequenos leitores em função de suas capacidades de interpretação    dos códigos lingüísticos. Isto é posto em relevância na medida em que se sabe    que, a depender da faixa etária (e, por conseguinte, da maturidade psíquica    para o desenvolvimento do senso moral), da identidade de gênero e do ambiente    em que foram socializadas, elas percebem e expressam compreensões sobre a doença,    e por aproximação sobre a hospitalização, bastante díspares.</p>     <p>A pesquisa aqui relatada espera ter cumprido algum papel no preenchimento de    uma lacuna na produção do conhecimento sobre a relação entre temas que são tabu    - como o adoecimento - e a produção de livros para crianças. Acredita tê-lo    feito, principalmente, visando o propósito de instrumentar os profissionais    da assistência médica que, eventualmente, venham a se valer de livros de estórias    como ferramentas auxiliares às práticas educativas em saúde. Embora não tenha    apreciado especialmente a correctude científica das informações sobre doenças    contidas nos livros que, dirigidos às crianças, retratam a hospitalização, reafirmo    a utilidade do presente estudo para o campo teórico da Educação em Saúde. Assim    o faço na medida em que acredito ter contribuído para o descortinamento do cenário    simbólico onde se desenrolam as tramas que dramatizam a hospitalização infantil.    Informados, então, acerca da constituição destes &ldquo;bastidores&rdquo; imaginários, enfermeiros,    psicólogos, fisioterapeutas, nutricionistas, professores, dentre outros sujeitos,    mais adequadamente virão sobrepor os roteiros e scripts das práticas e intervenções    da Educação em Saúde.</p>     <p>A importância desta pesquisa se justificou, ainda, pela possibilidade de incorporação,    por parte de escritores e ilustradores, dos indicadores de qualidade que foram    assinalados pelos resultados finais. Esta apropriação poderá, então, ser aplicada    quando da concepção literária de novas estórias para crianças que venham a versar    sobre a experiência da hospitalização e seus desdobramentos sociais e culturais.    Nesse sentido, fica aqui a recomendação de que se incorpore nas narrativas sobre    as práticas da assistência em saúde, comumente retratadas nas estórias, não    apenas aquelas tipicamente curativas, o que se faria, então, em favor, por exemplo,    da caracterização das intervenções preventivas, ou seja, aquelas da Educação    em Saúde.</p>     <p>Os resultados que se alcançou com a pesquisa, assim como apropriações outras    que se possa fazer das estratégias de análise empregadas na investigação se    desdobrarão, também, em possível impacto cientifico para o campo dos estudos    sociolingüísticos. Isto se dará, num primeiro momento, em razão da oportunidade    de problematizar o conhecimento produzido nesta área, acrescentando, pois, elementos    lógico-conceituais aos estudos semióticos sobre livros infantis, uma vez que    os referentes simbólicos em questão - doença e hospitalização - são incomuns    às análises interpretativas normalmente encaminhadas pela crítica literária.  </p>     <p>Contribuições semiológicas provenientes dos resultados da pesquisa aqui apresentada    podem ser identificadas, ainda, na possibilidade de somar provocações aos estudos    sobre as peculiaridades do exercício da tradução de Literatura Infantil, a qual    se mostra bastante permeável à influência das questões culturais, nas decisões    sobre fidedignidade ao original ou do ajuste em adaptações. </p>     <p>A tradução de um livro exige o desafio de fazer recontextualizar as realidades    descritas. Uma vez que a amostra de livros infantis analisada por essa pesquisa    continha obras traduzidas, esse aspecto do trânsito cultural de valores e dos    respectivos ajustes ou inobservâncias poderá ser futuramente considerado. Logo,    os estudos lingüísticos sobre tradução de livros infantis, podem ser beneficiados    por reflexões problematizadoras oriundas da crítica de livros infantis traduzidos    que retratam a doença e a hospitalização na infância.</p>     <p>O desafio de escrever e ilustrar um livro infantil que aborda um assunto delicado    está em trazer a realidade o suficiente para que haja empatia e identificação    por parte da criança, ao mesmo tempo em que se mantém o cuidado de ocultar eventuais    aspectos muito chocantes sobre aquele tema. Nesse jogo de verdade e verossimilhança    alguns livros e autores são mais bem sucedidos que outros.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Acompanhar as novidades de um fenômeno quando ele se transforma rapidamente,    assim como tem se dado nos últimos cinquenta anos com o hospital moderno e suas    práticas é um desafio que se soma àquele de tratar temas delicados. Se considerarmos    que existem livros infantis sobre hospitalização de crianças que circulam em    sucessivas reedições desde a década de sessenta e que, de certo modo esses livros,    embora ultrapassados no modo de retratar o hospital ainda agradam jovens leitores    do presente e inspiram os autores de hoje, podemos entender a dificuldade de    retratar aspectos verdadeiros, mas relativamente exóticos ao imaginário social.</p>     <p>Um bom livro infantil é aquele que provoca na criança que o lê ou ouve as estórias    contadas a sensação de empatia com as cenas de hospitalização ali retratadas,    quer seja porque já viveu ela mesma situação parecida, quer porque a conheceu    através de relatos de amigos, irmãos, filmes ou de livros da escola.</p>     <p>Ela exercitará, então, tranquilidade psíquica em manipular simbolicamente uma    realidade que não lhe é de todo desconhecida e, com a qual dialoga quando reconhece    ali artefatos, instrumentos e pessoas típicos do ambiente hospitalar. Nesse    jogo de familiaridade e estranhamento alguns livros e autores são, novamente,    mais bem sucedidos que outros. Alguns souberam habilmente incorporar à narrativa    sobre hospitalização, elementos típicos do acolhimento doméstico, o qual a criança    tanto anseia retornar. O fizeram, por exemplo, quando trouxeram a figura do    Ursinho de Pelúcia. Acerca da presença ostensiva desse personagem nas estórias    analisadas, vale conferir as colocações abaixo:</p>     <p>O ursinho Teddy foi portador de fortes significados, de ricas mensagens que    não se limitavam à representação animal e à função lúdica. E esses significados    remetiam à infância e aos seus valores. [&hellip;] Isso fez do urso de pelúcia o    brinquedo ideal para a criança pequena, o brinquedo que simbolizava a doçura,    a ternura, ao longo do século e até hoje em dia. Nessa representação se inseriu    um novo universo lúdico, que se dirige aos dois sexos sem distinção, símbolo    por excelência da infância. [&hellip;] O objeto, reinterpretado nas categorias da    psicanálise, foi integrado totalmente ao universo da criança para representar    todos os animais reais ou imaginários, [&hellip;] que serão dotados de pelúcia, adaptada    a incontornável função afetiva dos animais da primeira idade (Brougère, 2004,    p. 19-20).</p>     <p>Concluo este trabalho afirmando a necessidade de algum espaço de liberdade    artística na literatura para que, mesmo nos livros infantis atuais, enfermeiras    sejam retratadas usando chapéus e os prontuários dos pacientes apareçam presos    às cabeceiras dos leitos. Pela mesma razão, sou obrigada a relativizar as críticas    que dirigi às tendências ideológicas que eu própria identifiquei.</p>     <p>No fim das contas devemos lembrar que a realidade que o livro infantil reproduz    não é apenas aquela da hospitalização em si. Ele reproduz, ainda que não declaradamente,    todo um panorama de conflitos estabelecidos entre as profissões da assistência    médico-hospitalar ou entre os direitos do paciente e os interesses do mercado    dos serviços de saúde. Para que seja, então, acolhido sem desagrado pelo público    leitor o livro infantil haverá de se equilibrar entre as mudanças que se anunciam    e as tradições simbólicas que confortam.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>REFERÊNCIAS</b></p>     <p>Adamson, Jean; Adamson, Gareth &amp; Worsley, Belinda (2010). <i>Topsy and    Tim go to Hospital.</i> Toronto: Penguin Company.</p>     <p>Alves, Francisco &amp; Souza, Renata Alves (2007). <i>O dodói da Gigi.</i><b>    </b>São Paulo: Signus.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Alves, Ruben &amp; Ianni, Andre (1999). <i>A operação de Lili.</i> São Paulo:    Paulus.</p>     <p>Bennett, Howard &amp; Weber, Michael (2008). <i>Harry goes to the Hospital.</i>    Washington: Magination Press.</p>     <!-- ref --><p>Bibace, R., &amp; Walsh, M. (1981). Children’s concepts of illness. In Roger    Bibace &amp; Mary Walsh (Eds.), <i>Children’s conceptions of health, illness,    and bodily functions</i> (pp. 31-48). San Francisco: Jossey-Bass.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=557791&pid=S1645-0086201800030000300005&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p>Brougère, G. (2004). <i>Brinquedos e companhia</i>. São Paulo: Cortez.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=557793&pid=S1645-0086201800030000300006&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p>Burbach, D.J, &amp; Peterson, L.E. (1986). Children’s concepts of physical    illness: A review and critique of the cognitive-developmental literature. <i>Health    Psychology, 5</i>, 307-325.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=557795&pid=S1645-0086201800030000300007&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p>Byrne, E. M. &amp; Nitze, S.A. (2000). Nutrition messages in a sample of children’s    picture books. <i>Journal of the American Dietetic Association,</i> 3, 359-362.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=557797&pid=S1645-0086201800030000300008&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<!-- ref --><p>Caldin, C. F. (2002). A aplicação da biblioterapia em crianças enfermas. <i>Revista    ACB: Biblioteconomia em Santa Catarina,</i> 7,157-169.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=557799&pid=S1645-0086201800030000300009&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p>Charaudeau, P. (2008). <i>Linguagem e discurso</i>. São Paulo: Contexto.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=557801&pid=S1645-0086201800030000300010&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <p>Delahaye, Gilbert &amp; Marlier, Marcel (1996).<i> </i><i>Martine, l’accident.</i>    Bruxelles: Casterman.</p>     <p>Duquernnoy, Jacques (1998).<i> Opération Fantôme.</i> Paris: Édition Albin    Michel.</p>     <p>Gutman, Anne &amp; Hallensleben, Georg (2001). <i>Gaspard à l’hôpital.</i>    Paris: Hachette Livre.</p>     <p>Hämmerle, Susa &amp; Trapp, Kyrima (2001). <i>Heut gehen wir ins Krankenhaus.</i>    Austria: Annette Betz.</p>     <!-- ref --><p>Jones, V.F.; Franco, S.M., Metcalf, S.C.; Popp, R.; Stagg, S. &amp; Thomas,    A.E. (2000). The value of book distribution in a clinic-based literacy intervention    program. <i>Clinical Pediatrics</i>, 39, 535-541. <a href="http://dx.doi.org/10.1177/000992280003900905">doi.org/10.1177/000992280003900905</a>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=557807&pid=S1645-0086201800030000300015&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><!-- ref --><p>Kalish, C. W. (1996). Causes and symptoms in preschoolers’ conceptions of illness.    <i>Child Development,</i>67, 1647-1670.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=557808&pid=S1645-0086201800030000300016&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <p>Lamblin, Christian &amp; Roederer, Charlotte (2002).<i> Eddy va à l’hôpital.</i>    Paris: Éditions Nathan.</p>     <!-- ref --><p>Laplantine, F. (1991). <i>Antropologia da doença</i>. São Paulo: Martins Fontes.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=557811&pid=S1645-0086201800030000300018&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <p>Linares, Bel &amp; Linares, Alcy (2008). <i>Hospital não é mole.</i> São Paulo:    Salamandra.</p>     <!-- ref --><p>Machado, M.H. (1997). <i>Os médicos no Brasil</i>. Rio de Janeiro: Fiocruz.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=557814&pid=S1645-0086201800030000300020&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p>Maingueneau, D. 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<body><![CDATA[<!-- ref --><p>Moreno,<sup> </sup>R. L.; Diniz,<sup> </sup>R. L.; Magalhães, E. Q.; Souza,    S. M. P. O. &amp; Silva, M. S., A. (2003). Contar histórias para crianças hospitalizadas:    relato de uma estratégia de humanização. <i>Revista Pediatria</i>. São Paulo,    25, 164-169&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=557829&pid=S1645-0086201800030000300029&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><!-- ref --><p>Oliveira, I. (2008) <i>O que é qualidade em ilustração no livro infantil e    juvenil:</i> com a palavra o ilustrador. 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Children’s books: a resource for children’s    nursing care<i>. </i><i>Paediatric Nursing</i>, 14, 26-31.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=557843&pid=S1645-0086201800030000300038&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <p>Rogers, Fred &amp; Judkis, Jim (1997). <i>Going to the Hospital.</i> New Zealand:    PaperStar Books.</p>     <!-- ref --><p>Schall, V. &amp; Struchiner, M. (1999). Educação em Saúde: novas perspectivas.    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<body><![CDATA[<p>Schweikart, Eva &amp; Roederer, Charlotte. (2000) <i>L’hôpital. </i>Paris:    Édition Gallimard Jeunesse.</p>     <!-- ref --><p>Seitz, E. M. (2005). Biblioterapia: uma experiência com pacientes internados    em clínica médica. <i>Educação Temática Digital, </i>7, 96-111.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=557850&pid=S1645-0086201800030000300043&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p>Solomon, G. &amp; Cassimatis, N. (1999). On facts and conceptual systems: young    children’s integration of their understandings of germs and contagion. <i>Developmental    Psychology, 35</i>, 113-126.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=557852&pid=S1645-0086201800030000300044&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p>Stone, Bernard &amp; Steadman, Ralph (1978). <i>Emergency Mouse.</i> London:    Andersen Press Ltd.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=557854&pid=S1645-0086201800030000300045&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --> </p>     <!-- ref --><p>Turner, J. (2006). Representations of illness, injury and health in children’s    picture books. <i>Children’s Health Care</i>, 35, 179-189.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=557856&pid=S1645-0086201800030000300046&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <p>Wierzchowski, Letícia; Pires, Marcelo &amp; Neves, Virgílio (2007). <i>O menino    paciente.</i> Rio de Janeiro: Record.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Worrall, Linda (1990). <i>Bald nach Hause zurückkehren.</i> Berlin:Pestalozzi-Verlag.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p>Recebido em 11 de Janeiro de 2018/ Aceite em 25 de Outubro de 2018</p>      ]]></body><back>
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