<?xml version="1.0" encoding="ISO-8859-1"?><article xmlns:mml="http://www.w3.org/1998/Math/MathML" xmlns:xlink="http://www.w3.org/1999/xlink" xmlns:xsi="http://www.w3.org/2001/XMLSchema-instance">
<front>
<journal-meta>
<journal-id>1645-0523</journal-id>
<journal-title><![CDATA[Revista Portuguesa de Ciências do Desporto]]></journal-title>
<abbrev-journal-title><![CDATA[Rev. Port. Cien. Desp.]]></abbrev-journal-title>
<issn>1645-0523</issn>
<publisher>
<publisher-name><![CDATA[Faculdade de Desporto da Universidade do Porto]]></publisher-name>
</publisher>
</journal-meta>
<article-meta>
<article-id>S1645-05232006000300001</article-id>
<title-group>
<article-title xml:lang="pt"><![CDATA[Da falácia da ‘actividade física’]]></article-title>
</title-group>
<contrib-group>
<contrib contrib-type="author">
<name>
<surname><![CDATA[Bento]]></surname>
<given-names><![CDATA[Jorge Olímpio]]></given-names>
</name>
</contrib>
</contrib-group>
<aff id="A">
<institution><![CDATA[,  ]]></institution>
<addr-line><![CDATA[ ]]></addr-line>
</aff>
<pub-date pub-type="pub">
<day>00</day>
<month>10</month>
<year>2006</year>
</pub-date>
<pub-date pub-type="epub">
<day>00</day>
<month>10</month>
<year>2006</year>
</pub-date>
<volume>6</volume>
<numero>3</numero>
<fpage>259</fpage>
<lpage>261</lpage>
<copyright-statement/>
<copyright-year/>
<self-uri xlink:href="http://scielo.pt/scielo.php?script=sci_arttext&amp;pid=S1645-05232006000300001&amp;lng=en&amp;nrm=iso"></self-uri><self-uri xlink:href="http://scielo.pt/scielo.php?script=sci_abstract&amp;pid=S1645-05232006000300001&amp;lng=en&amp;nrm=iso"></self-uri><self-uri xlink:href="http://scielo.pt/scielo.php?script=sci_pdf&amp;pid=S1645-05232006000300001&amp;lng=en&amp;nrm=iso"></self-uri></article-meta>
</front><body><![CDATA[ <p><i> Nota editorial: Da falácia da ‘actividade física’</i></p>      <p>&nbsp;</p>      <p><b>Jorge Olímpio Bento</b></p>      <p>&nbsp;</p>      <p align="justify"><b>1. </b>As presentes considerações surgem como reacção a    um refinado ataque ao desporto, perpetrado por quem tem com ele uma relação    ditada por reservas, equívocos, complexos e preconceitos mentais, casados em    comunhão de bens com uma confrangedora indigência cultural e filosófica. O dito    ataque está a acontecer em duas frentes: no plano da lei e nas orientações perfilhadas    por algumas entidades académicas. Numa e noutra frente confluem correntes de    proveniências diversas, umas ingénuas e confusas e outras bem espertas e oportunistas,    contribuindo todas elas para alimentar e aumentar a onda neoliberal (revestida    do verniz de um hipócrita e falso humanismo) e a sua pretensão de neutralidade    ideológica e axiológica, de negar e retirar ao desporto dimensões constituintes    do seu património e legado de princípios e valores.</p>     <p align="justify">No primeiro caso trata-se da designação da nova Lei de Bases    que visa regular o sector em Portugal. Ela introduziu e chamou a primeiro plano    a expressão ‘actividade física’, desconsiderando e relegando o desporto para    um lugar secundário.<sup><a href="#1">1</a><a name="top1"></a></sup></p>     <p align="justify">No segundo caso trata-se da proliferação da tendência &#8211;    oriunda do espaço americano e com ramificações noutros quadrantes - de promover    igualmente a ‘actividade física’ a categoria e referência centrais, não apenas    no tocante à criação de cursos de pós-graduação, como também no estabelecimento    e desenvolvimento de programas de acção e de linhas de pesquisa.</p>     <p align="justify">É contra esta tentativa de aplicar um garrote em torno do desporto    que urge desencadear um movimento que faça frente aos equívocos e traga à colação    a extraordinária valia da actividade desportiva. Eis uma responsabilidade e    uma obrigação indeclináveis para todos quantos amam o desporto, entendem e apreciam    a sua incumbência cultural ao serviço do processo de civilização dos humanos    e da respectiva sociedade. </p>     <p align="justify"><b>2. </b>O pretexto para este renovado ataque ao desporto    é fornecido pelos dados de numerosos estudos, bem como pelas preocupações da    <i>OMS - Organização Mundial de Saúde</i>. Ambos apontam a inactividade física    e a obesidade como as duas grandes ameaças à saúde pública no século XXI. A    partir daí a ‘actividade física’, sem clarificar o seu tipo e a sua forma, é    erigida em panaceia para combater a doença e para garantir a saúde; ela passa    a ser recomendada e receitada para a generalidade da população, enquanto o desporto    é reduzido à sua versão profissional e comercial e perspectivado como prática    de uma elite, com toda a aversão, condenação e rejeição que isto suscita. </p>     <p align="justify">Conhece-se bem o zelo fervoroso e ideológico que anima, em    regra, os arautos da dicotomia ‘povo - elite’. Assim a ‘actividade física’ é    a actividade que deve ser postulada e consumida por ser saudável, sã, genuína    e depurada dos excessos do desporto. Este deve consequentemente ser abandonado,    por ter em cima de si os desvios, estigmas e opróbrios que cobrem, aos olhos    dos populistas, todos quantos não se conformam à norma por baixo, à pequenez    e insignificância, ao apoucamento e à mediania e gostam de triunfar e vencer,    de almejar a superação e a excelência.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p align="justify">Mais, para os apologistas da ‘actividade física’ e para que    se consiga o efeito ‘saúde’ basta que o indivíduo ande, se mexa e agite, que    consuma minutos e calorias, que diga letras e sílabas, sem necessidade de compor    palavras e frases e, muito menos, textos com sentido e significado; basta-lhe    ser instintivo, natural e primitivo, não sendo necessário que melhore o seu    vocabulário e reportório motores, que aprenda e aprimore gestos e actos codificados,    com técnica e estética, que atinja competência desportiva, que tenha um corpo    ágil e hábil, culto e civilizado, que desenvolva relações com os outros e com    eles construa o seu auto-conceito e a sua auto-estima.</p>     <p align="justify">A falácia vai mais longe: para ter saúde e ser ‘activo’ o indivíduo    não carece de enfrentar os ‘horrores’ e incómodos, a ‘opressão’ e obrigações    da competição desportiva, de suportar os odores e olhares, as fintas, forças    e resistências, a superioridade e humilhações infligidas pelos adversários;    nem precisa de ouvir e aceitar os conselhos e reparos, as críticas e recriminações    dos colegas. Não, esse fardo é dispensável, chega um qualquer empenho muscular    e dispêndio energético. Como se vê, o conceito pluridimensional de ‘saúde” conta    pouco, sendo mesmo atirado para debaixo do tapete!</p>     <p align="justify">Há outras ‘razões’ de fundo que servem de fonte de inspiração    para os conselheiros da ‘actividade física’. O desmesurado enaltecimento da    recreação e lazer e a insana desvalorização do trabalho &#8211; tão em voga    nos dias de hoje em muitos quadrantes intelectuais - conjugam-se também para    encomendar o funeral apressado do desporto. Eis aqui uma outra faceta do delírio    mental! E porquê? Porque é no desporto que mais refulgem princípios caros ao    trabalho (rigor, seriedade, empenho, afinco, exigências, objectivos, regras,    disciplina, compromissos etc.), sem que isso leve à anulação ou subjugação dos    valores e dimensões associadas ao lúdico e prazeroso. Pelo contrário, o desporto    é a demonstração exuberante e cabal do quanto é possível humanizar e sublimar    o labor esforçado e suado, por constituir uma síntese extraordinária e ímpar    de coisas que apenas são opostas e contraditórias na aparência, nomeadamente    trabalho e jogo, dor e felicidade, exigência e diversão, obrigação e liberdade,    natureza e cultura, ter e ser etc. </p>     <p align="justify">Em suma, no modismo e americanismo da ‘actividade física’ escondem-se,    embora deixem um grosso, reluzente e comprido rabo de fora, tanto o apelo ao    regresso à ‘pureza’ original e selvagem como a recusa do progresso, da cultura,    da tecnologia e da civilização. Rousseau, se fosse vivo, por certo não faria    melhor!</p>     <p align="justify"><b>3. </b>A defesa do desporto não é, pois, ditada por uma    oposição ou questão de natureza linguística; nem, muito menos, por uma embirração    ou preferência terminológica. Trata-se, sim, de uma importante diferença conceptual    e esta, por sua vez, contém em si essenciais diferenças filosóficas e ideológicas,    que não podem ser ignoradas e escamoteadas. Não, não é ingénuo ou indiferente    que a <i>LBAFD</i> (Lei de Bases) introduza na sua designação a ‘actividade    física’ e que coloque esta à frente do desporto.</p>     <p align="justify">Ademais a utilização, no contexto aqui em apreço, da expressão    ‘actividade física’ é absolutamente estapafúrdia. É provável que com ela se    queira enfatizar a relação das formas básicas da exercitação desportiva com    a saúde, assim como chamar a atenção para outra maneira, diferente da tradicional,    de olhar o desporto; porém isso não autoriza semelhante aberração. ‘Actividade    física’ é, neste contexto, uma expressão imprópria e equivocada, chegada tardiamente    e a más horas, porquanto ela engloba tudo o que exige dispêndio de energia.<sup><a href="#2">2</a><a name="top2"></a></sup>    Nisto cabem tanto actividades laborais (cavar, lavrar, jardinar, podar, assentar    tijolos, pintar muros etc.), como movimentos do quotidiano e actos desportivos    (andar, correr, saltar, nadar, jogar etc.), como ainda acções destinadas à satisfação    de elementares necessidades sexuais e biológicas (fornicar, urinar, defecar    e outros termos cuja inclusão nesta lista a educação não consente) etc. Ora    não parece, nem é crível que os autores de orientações académicas e de documentos    legais pretendam envolver-se, elaborar e impor normativos, prescrições e sentenças    em toda esta vasta panóplia de actividades.</p>     <p align="justify">‘Actividade física’ é, pois, um conceito vago, difuso e transversal,    sem qualquer relação de exclusividade ou de intimidade preferencial com o desporto,    tomado este tanto em sentido lato como em sentido restrito; isto é, não se coaduna    de modo claro com o vasto campo de exercitação desportiva, lúdica e corporal.    É tudo e nada, logo é impreciso e inadequado para o fim em vista e não vai além    de um pretensiosismo bacoco. Assim, por detrás da imprecisão e do acrescento    não distraído nem ingénuo da nova designação, moram estigmas e complexos académicos    que revelam mau relacionamento com o desporto, uma compreensão deficiente do    que este representa, do sentido cultural, social, educativo e humano que ele    encerra. </p>     <p align="justify">O país não carece de ‘actividade física’; precisa sim de fomentar    a actividade desportiva, de aumentar e melhorar a prática do desporto, em toda    a sua multiplicidade. É isto que o movimento associativo (com o COP à cabeça)    e as instituições que cuidam séria e responsavelmente da educação e do desporto    do nosso país devem afirmar. Para que não volte o tempo em que perdíamos por    muitos e já era uma alegria quando perdíamos por poucos. Não se lembram do que    sucedia, p. ex., no andebol, basquetebol e voleibol? Éramos os bombos certos    da festa, zurzidos de forma implacável e sem apelo nem agravo. Não são preferíveis    a melhoria que hoje exibimos, as vitórias que vamos conseguindo? Não sabe melhor    ganhar do que perder?! </p>     <p align="justify">Na mesma linha de raciocínio, os cidadãos não carecem de um    corpo e de um estilo de vida moldados pela ‘actividade física’; precisam sim    de acrescentar ao corpo do trabalho (seja ele predominantemente manual e ‘físico’    ou mental e intelectual) e à vida quotidiana outros corpos e dimensões enriquecedores    da existência; para adentrarem a porta da humanidade, precisam de ser senhores    de muitos corpos e de muitas vidas num só corpo e numa só vida. O corpo ‘desportivo’    e o estilo correspondente da vida fazem parte desse ideário.</p>     <p align="justify"><b>4. </b>O desporto instala em conceitos e preceitos, princípios    e ideais, deveres e obrigações, ilusões e utopias. Implica metas e compromissos,    hábitos e rotinas de trabalho para lá chegar. Coloca barreiras, desafios e dificuldades    e convida a nossa natureza a não se dar por satisfeita com o seu estatuto, a    suplantar-se e a obter carta de alforria, procurando alcandorar-se a níveis    para os quais não se apresenta como particularmente predestinada. Nele aprendemos    que não podemos descansar e que o mérito e o sucesso sérios e honrados custam    entrega porfiada e suada, uma vez que o talento é raro, porquanto, ao contrário    do que consta no registo bíblico, Deus não criou o homem conforme à Sua imagem    e semelhança; somente quando se distrai, em dia de aniversário, é que faz uma    criatura à Sua medida. O desporto é uma opção pela dificuldade, em face da tentação    da facilidade. Socializa no trabalho em grupo e em equipa e leva a partilhar    anseios e projectos com os demais. Civiliza a conduta corporal, ética e moral    em relação a nós e aos outros. E é também com o seu concurso, estímulo e ideário    que, parafraseando Richard Bach (autor do hino à liberdade humana intitulado    <i>Fernão Capelo Gaivota</i>), “podemos sair da ignorância, podemos ser criaturas    perfeitas, inteligentes e hábeis. Podemos ser livres! Podemos aprender a voar!”    E é isto mesmo que eu vou tentar.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p align="justify">Se nos dermos a comparações para o medir e avaliar, só aumentam    as razões para nele acreditar; a todas as depreciações ele consegue ganhar.    ‘Actividade física’ é accionismo natural; desporto é acto cultural. Ela é imanência    da nossa condição; ele é prótese criada pela civilização. Ela é ditada pelo    peso da excrescência; ele provém da noção de insuficiência. Desporto é algo    mais e além; ela é algo menos e aquém. Nele moram a consciência da falta de    forças e capacidades e a vontade da sua criação e exaltação; ela cinge à conformação,    limitação e resignação. Ele aponta a lonjura e o cume da elevação; ela contenta-se    com o umbigo e em olhar o chão. Nele enfrenta-se o vento e as marés; nela gasta-se    o tempo e os pés. Ele quer fazer do corpo uma encarnação do espírito e inteligência;    ela satisfaz-se em queimar gordura e aligeirar a indolência. Ele é marco civilizacional;    ela é moda ocasional.</p>     <p align="justify">Ele ocupa-se da formação do carácter e do quanto este obriga;    ela cuida da forma das pernas e do volume da barriga. Ele é beleza, paixão e    encantamento; ela é penitência, obrigação e sofrimento. Ela é remédio e necessidade;    ele é opção e exercício da liberdade. Ela pode diminuir a obesidade; ele gera    riso e habilidade. Ele assume o risco com optimismo; ela segue a regra do conformismo.    Ele visa o tecto ilimitado e infinito; ela o gesto contido e restrito. Ele é    comunicação, partilha e comunhão; ela cumpre-se no isolamento e solidão. Ele    é impulso, orgasmo, êxtase e ousadia; ela é medicamento, bula de calorias e    sensaboria. Ele é euforia e sublimação da vida; ela é expiação da culpa assumida.    Ela é comum ao animal; ele é próprio do ser cultural. </p>      <p>&nbsp;</p>      <p align="justify"><sup><a href="#top1">1</a><a name="1"></a></sup> <i>LBAFD -    Lei de Bases da Actividade Física e do Desporto</i></p>     <p align="justify"><sup><a href="#top2">2</a><a name="2"></a></sup> ‘Actividade    física’ é definida por Caspersen, Powell &amp; Christenson (<i>Symposium: Public    health aspects of physical activity and exercise</i>, 1985, p.126), especialistas    de renome mundial, “como qualquer movimento produzido pelos músculos esqueléticos    que resulta em dispêndio energético para além do metabolismo de repouso”. Somente    isto e nada mais; tudo e nada ao mesmo tempo. Fica assim claro quão inapropriado    é o uso daquela expressão numa lei destinada a regular o sistema desportivo.</p>       ]]></body>
</article>
