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</front><body><![CDATA[ <p><b>Da conjuntura corporal e do ambiente obesogénico, relaxado e indolente</b></p>      <p ><b>Jorge Olímpio Bento</b></p>      <p>&nbsp;</p>      <p align="justify" ><b>1.</b>Tanto por boas como por más razões, as condições    de vida impõem-nos uma <i>conjuntura corporal</i>, ou seja, uma renovação das    atenções dedicadas ao corpo e ao seu carácter instrumental. De resto sempre    assim foi; a nossa vida e a nossa identidade sempre foram corpóreas, o corpo    sempre foi uma <i>anatomia do nosso destino</i>. Mas talvez esta circunstância    surja agora muito mais evidente do que noutras eras. </b></p>     <p align="justify" >Merleau-Ponty, entre outros pensadores existencialistas, tinha    alertado para isso nos anos 60 do século passado, negando a consciência como    pura espontaneidade desencarnada e soberana no tocante à doação de significados    e afirmando a sua encarnação num <i>corpo cognoscitivo e reflexivo</i>, dotado    de interioridade e sentido e capaz de se relacionar com as coisas como corpos    sensíveis que são. Com isso Merleau-Ponty retira o corpo da coisificação e institui-o    em sede de símbolos e significados, porque ele é não num mundo natural, mas    sim num universo cultural e axiológico. É um artefacto sócio-cultural; está    para além do <i>protocorpo</i> natural e biológico. E assim incorpora o sentido    estruturante da existência humana e da qualidade de vida imanente. Isto é, a    vida é uma performance corporal, nós somos o nosso corpo, ele é medida e expressão    do nosso ser; ambos os lados estão interrelacionados.<sup><a href="#1">1</a><a name="top1"></a></sup></p>     <p align="justify" >Nos nossos dias, Michel Serres assinala que a aparência e    a essência saem de uma mesma fonte e nada é tão profundo e abrangente como a    cosmética que aplicamos na nossa pele ou como a forma da nossa apresentação    e acção. Na superfície da nossa pele e comportamento torna-se visível a invisível    mas verdadeira identidade, mostram-se a sensibilidade e consciência, as inclinações    e tendências, as orientações e sentimentos que temos e aqueles que nos faltam.    A fachada corporal e comportamental revela a nossa autêntica identidade e sensibilidade,    o modo de pensarmos, idealizarmos e julgarmos.<sup><a href="#2">2</a></sup>    <a name="top2"></a>O mesmo é dizer que, na superfície e visibilidade das nossas    atitudes, hábitos e rotinas, das nossas acções e reacções, aflora pouco a pouco,    traço a traço aquilo que somos e, muitas vezes, queremos iludir. </p>     <p align="justify" >Goethe já havia sugerido o mesmo ao afirmar que atrás do visível    não há nada; no visível e na superfície é que está tudo. Que há uma relação    íntima entre a obscuridade das nossas entranhas e a nossa visibilidade; que    as primeiras não são mais importantes do que aquilo que é visível no corpo.    A metamorfose e o crescimento terão forças próprias, mas são manifestas à superfície.</p>     <p align="justify" >Também Carlos Drummond de Andrade navegou nas mesmas águas    com esta exclamação: <i>Salve, meu corpo, minha estrutura de viver / e de cumprir    os ritos do existir! </i><sup><a href="#3">3</a><a name="top3"></a></sup></p>     <p align="justify" >Esta função do corpo é bem evidenciada pelos obesos, mostrando    de modo dramático que a <i>obesidade</i> é uma <i>doença sinistra</i>, porquanto    as suas implicações vão além do plano estritamente biológico. Como se sabe,    pertencemos à sociedade da imagem e aparência e vivemos numa época em que a    beleza, juventude, perfeição e aptidão corporais são ambições generalizadas    e são definidas por um aspecto padronizado pelo culto da magreza. Ora a obesidade    não se inscreve nesta matriz, nem é fácil de esconder ou disfarçar. Altera a    imagem dos atingidos e causa marginalidade, com incidências negativas no plano    psicológico, afectivo e social. Mais ainda, torna-se um estigma que aponta os    obesos como pessoas fracas e indolentes, desprovidas de vontade e capacidade    de controlo. Isto é, num tempo em que a conjuntura corporal é sobremaneira marcada    pela estética e pelo culto da imagem, não é fácil aos obesos resistir aos olhares    dos outros. A doença torna-se a nova identidade e a única companhia; isolam-se    e evitam o contacto com as pessoas. Como resultado surge o desencanto em relação    à vida.</p>     <p align="justify" ><b>2.</b> A actual <i>conjuntura corporal</i> tem razões e    expressões diferentes das de outras épocas. À medida que a civilização desenvolve    a ciência e cria tecnologia, torna-se possível substituir o gado humano por    máquinas. E quanto mais estas se aperfeiçoam e generalizam, mais aumenta a dimensão    mental e intelectual das distintas actividades, o que redunda em <i>afisicidade</i>,    em inactividade física e na desconsideração do corpo na maior parte das tarefas    laborais e mesmo das acções quotidianas.<sup><a href="#4">4</a><a name="top4"></a></sup></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p align="justify">Daqui resultam consequências iniludíveis para os estilos e    formas de vida, para a saúde, para a civilização, para a condição humana e para    a identidade das pessoas e até da nossa espécie. </p>     <p align="justify" >Esta é uma evolução objectiva, que apresenta motivos óbvios    tanto para justificado contentamento como para reflexões ponderosas. Entre estas    merece particular atenção o facto de estarmos a caminhar em todo o mundo em    direcção à obesidade. Ela atinge não só os adultos e idosos, mas penetra cada    vez mais na população infantil, afectando já muitos milhões de crianças com    menos de 5 anos de idade. </p>     <p align="justify" >O <i>ambiente obesogénico</i>, o relaxamento, a indolência    e a preguiça alastram por toda a parte, constituindo uma séria ameaça tanto    para a saúde como sobretudo para a realização de valores educativos e sociais.  </p>     <p align="justify">A gravidade do problema encaminha para a activação desportiva,    como se esta fosse uma <i>tábua de salvação</i>, uma <i>prótese</i> para uma    infinitude de insuficiências e deficiências que nos limitam e apoucam. Uma réstia    de esperança! Para o corpo que temos e somos, “sem cuja satisfação &#8211; lembra    Fernando Savater &#8211; não há bem-estar nem bem viver que resistam”.<sup><a href="#5">5</a></sup><a name="top5"></a>    O mesmo é dizer que a aptidão desportiva e a condição corporal cumprem uma função    instrumental; ‘condicionam’, prestam serviços e constituem pressuposto para    a qualificação das restantes dimensões ou ‘condições’ da pessoa. O que é sobejamente    ilustrado no caso dos idosos; é neles que melhor se vê como, na nossa sociedade    da concorrência e rendimento, a ‘condição física’ serve as outras condições,    como cumpre uma relevante função humanista, contribuindo para que a pessoa não    morra antes do tempo no conceito de quem a rodeia.</p>     <p align="justify" ><b>3. </b>A inactividade corporal e mental, hoje reinante,    convida portanto a aumentar e melhorar o índice do desempenho corporal e da    condição física das pessoas. Essencialmente porque o <i>ambiente obesogénico</i>    não pode ser subestimado; ao invés, exige que olhemos através e para além dele.    A situação é tão alarmante que já há mais indivíduos com excesso de peso do    que com fome. Ou seja, aquilo que uns comem a mais e lhes é inteiramente prejudicial    dava e sobrava para matar a fome no mundo, se houvesse suficiente sensibilidade    e decência. Mas não há, nem se descortina que elas possam surgir.</b></p>     <p align="justify" >Fazendo fé no que atrás ficou exposto e na constatação de    Fernando Pessoa, de que o corpo é a pessoa de fora que dá a imagem da pessoa    de dentro, vivemos num mundo anafado e afogado em obesidade e adiposidade, em    gordura e banha, em sebo e unto, em relaxamento, desídia, preguiça e indolência.    Isto é, o <i>ambiente obesogénico</i> afecta em igual medida por fora e por    dentro; configura não apenas a fachada corporal, mas repercute-se de maneira    indelével nos sentimentos, desejos e atitudes, nas posturas, comportamentos    e expressões, nos olhos, no coração e na alma. Por isso o mundo exala cada vez    mais um cheiro nauseabundo, tornando-se insuportável para viver. Ora é neste    mundo que crescem as crianças e jovens. É mesmo assim que os queremos educar?    É nesse mundo e ambiente relaxados, ditados pela <i>‘razão’ indolente</i> que    devem crescer? <b></b></p>     <p align="justify" >Para combater este panorama não se aconselha uma <i>deriva</i>    de natureza <i>higienista</i> ou <i>sanitária</i>, por mais aliciantes, encantatórios    e refulgentes que pareçam os propósitos. Não precisamos de abandonar a matriz    antropológica e axiológica que o desporto encerra. Do que carecemos é de mais    labor pedagógico e não tanto de <i>‘activismo físico’</i>, de mais moral em    acção e não tanto de fisiologia, de mais reflexão filosófica e não tanto de    prescrições médicas.</p>     <p align="justify" >Nesta nossa era de crescente <i>afisicidade</i>, de <i>ética    indolor</i> e de <i>crepúsculo do dever </i>&#8211; tão bem assinaladas por    Hannah Arendt<sup><a href="#6">6</a><a name="top6"></a></sup> e Lipovetsky<sup><a href="#7">7</a></sup><a name="top7"></a>    &#8211; agudiza-se a necessidade de cultivar qualidades, princípios e atitudes    que, sendo centrais na condição de rendimento desportivo e corporal, são marcas    fundamentais do carácter e do modelo de pessoa que tanto enaltecemos e valorizamos.    A partir do momento em que os humanos, por terem comido a saborosa maçã ou terem    aberto a Caixa de Pandora e terem assim espalhado no mundo os ventos e sementes    da desgraça, foram expulsos do paraíso e se viram condenados a comer o pão ganho    com o suor do rosto, a civilização e a cultura ocidentais instituíram um modelo    de Homem e de vida, inteira e fidedignamente configurado no desporto e nas exigências    e ideais que ele comporta. </p>     <p align="justify" >Assim, enquanto não renunciarmos ao modelo de Homem que tem    guiado a civilização, desde o início até aos nossos dias, o desporto continuará    a ser um investimento no progresso corporal, gestual e comportamental das pessoas.    Ele desafia-nos a tomarmos a gnose e a técnica, a ética e a estética dos nossos    actos como pontes para a liberdade. Porque nós somos livres não pela boca falante,    mas sim pela mistura que o corpo sabe realizar com os sentidos, ou seja, pelo    saber, pelo querer e fazer consequentes e não pelo crer e dizer negligentes.    Somos livres pela palavra convincente e pela acção correspondente. Por fazermos    convergir o eixo da visão e o eixo das coisas e acções. </p>     <p align="justify" >No desporto participamos na construção de pessoas e identidades    cujo Ego<i> </i>é sempre um <i>espírito incarnado, </i>uma<i> tatuagem corpórea    </i>da alma. Ocupamo-nos da apropriação e irradiação de mitos, símbolos e ideais    através de desempenhos corporais. Da instalação em conceitos e preceitos, deveres    e obrigações, ilusões e utopias. Da adesão a uma cultura de metas e compromissos,    de dificuldades e desafios, de hábitos e rotinas de trabalho para lá chegar.    E assim procuramos anular as fronteiras entre a alma e o mundo exterior; lavramos    no esforço severo, incansável e sistemático de projectar a nossa natureza, nomeadamente    o corpo, contra si própria, para além e acima de si mesma, convidando-a a não    se dar por satisfeita com o seu estatuto, a suplantar-se e a chegar-se a níveis    para os quais não se apresenta como particularmente predestinada. Por isso renunciar    ou afrouxar na observância dos seus princípios e valores equivale a empobrecer    os cidadãos nas dimensões técnicas e motoras, éticas e estéticas, cívicas e    morais e a favorecer a proliferação do laxismo e relativismo, do clima relaxado    e indolente.<sup><a href="#8">8</a><a name="top8"></a></sup></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p align="justify" >Em suma, o sedentarismo, a inactividade física e as suas sequelas    combatem-se não com um qualquer <i>activismo higienista</i> que se esgota em    si mesmo, mas sim com uma actividade chamada ‘desporto’ que, por ter matriz    cultural, agrega uma panóplia de valores. </p>     <p align="justify" ><b>4.</b> Fernando Savater convida a situar na escola “o campo    de batalha oportuno para prevenir males que mais tarde serão muito difíceis    de erradicar.” A sociedade “deve reclamar a iniciativa e converter a escola    em ‘tema de moda’ quando chega a hora de executar programas colectivos de futuro…    Caso contrário, ninguém poderá queixar-se e apenas lhe resta resignar-se ao    pior ou falar no vazio.” <sup><a href="#9">9</a></sup> <a name="top9"></a></p>     <p align="justify">Também neste caso da inactividade, do <i>ambiente obesogénico</i>,    relaxado e indolente, da <i>ética indolor</i>, do <i>crepúsculo do dever</i>    e do <i>eclipse da vontade</i> é preciso situar na escola a principal frente    de batalha, embora convidando a participar nela outros sectores. Ao desporto    pertence um papel cimeiro neste empreendimento, tendo em atenção que os actos    desportivos somente são físicos na aparência; na sua essência são sempre decisões    e exercícios da vontade. Ademais nele não se faz o que se quer, mas quer-se    o que se faz.</p>     <p align="justify">&nbsp;</p>     <p align="justify" ><sup><a name="1"></a><a href="#top1">1</a></sup> Merleau-Ponty    (1964): <i>Fenomenologie de la Perception</i>. Paris: Gallimard.</p>     <p align="justify" ><sup><a name="2"></a><a href="#top2">2</a></sup> Serres, Michel    (2001): <i>OS CINCO sentidos &#8211; Filosofia dos corpos misturados</i>. Rio    de Janeiro: Bertrand Brasil.</p>     <p align="justify" ><sup><a name="3"></a><a href="#top3">3</a></sup>de Andrade,    Carlos Drummond (1996): <i>FAREWELL</i>. Rio de Janeiro: Record.</p>     <p align="justify" ><sup><a name="4"></a><a href="#top4">4</a> </sup>de Masi,    Domenico (2000 ): <i>O Ócio Criativo</i>. Rio de Janeiro: GMT Editores Ltda.</p>     <p align="justify" ><sup><a name="5"></a><a href="#top5">5</a></sup> Savater,    Fernando (1991): <i>ÉTICA PARA UM JOVEM.</i> Editorial Presença, Lisboa.</p>     <p align="justify" ><sup><a name="6"></a><a href="#top6">6</a></sup> Arendt, Hannah    (2001): <i>A CONDIÇÃO HUMANA</i>. Relógio D’Água Editores, Lisboa.&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;  </p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p align="justify" ><sup><a name="7"></a><a href="#top7">7</a></sup> Lipovetsky,    Gilles (1994): <i>O crepúsculo do dever: a ética indolor dos novos tempos democráticos</i>.    Publicações Dom Quixote, Lisboa.&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; </p>     <p align="justify" ><sup><a name="8"></a><a href="#top8">8</a></sup> A renúncia    às exigências do desporto ajuda ainda a minar o pilar da emancipação dos indivíduos,    constituído por três lógicas ou linhas de autonomia racional, particularmente    notórias e centrais na prática desportiva, a saber: a racionalidade expressiva    das artes, a racionalidade cognitiva e instrumental da ciência e da técnica    e a racionalidade prática da ética e do direito. (Boaventura dos Santos: <i>Crítica    da razão indolente. Contra o desperdício da experiência</i>. Cortez Editores,    São Paulo, 2000).</p>     <p align="justify" ><sup><a name="9"></a><a href="#top9">9</a></sup> Savater,    Fernando (1997): <i>O VALOR DE EDUCAR</i>. Editorial Presença, Lisboa.</p>      ]]></body>
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