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<journal-title><![CDATA[Revista Portuguesa de Ciências do Desporto]]></journal-title>
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<publisher-name><![CDATA[Faculdade de Desporto da Universidade do Porto]]></publisher-name>
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<article-title xml:lang="pt"><![CDATA[Ensaio sobre a cegueira: danos colaterais, mentiras e perversões]]></article-title>
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</front><body><![CDATA[ <P><B >Ensaio sobre a cegueira: danos colaterais, mentiras e perversões</B></P>     <P>&nbsp;</P>     <P ><b>Jorge Bento</b></P>     <P >&nbsp;</P>       <P ><I>Se podes olhar, vê. Se podes ver, repara.</I></P>       <P ><I>&nbsp;</I>(Livro dos Conselhos, in: <I>Ensaio Sobre a Cegueira</I>,      José Saramago)</P>        <P >&nbsp;</P>     <P ><I  >A liberdade, Sancho, não é um pedaço de pão.</I></P>       <P >Miguel de Cervantes, 1547-1616</P>       <P >&nbsp;</P>        ]]></body>
<body><![CDATA[<P ><B  >1. </B>Nos últimos anos, nomeadamente durante a invasão do Iraque pelos EUA,    entrou no nosso vocabulário uma nova e esquisita terminologia, a propósito de    algumas baixas nos palcos da guerra. Trata-se dos putativos <I >danos colaterais</I>,    ocasionados, na maioria dos casos, por <I  >fogo amigo</I>, querendo com isso dizer que são secundários e provocados sem    intencionalidade, mas antes por acaso, por fatalidade ou por erro, como se fossem    uma consequência lamentável, porém não imaginada e premeditada. Logo são desculpáveis,    devendo portanto ser desvalorizados, ignorados e subestimados. No entanto sobejam    razões para suspeitar que o recurso a tal terminologia e a invocação do argumento    nela contido têm por objectivo negar ou encobrir a cegueira ética, condicionada    ou deliberada. Por isso temos o direito de desconfiar da ‘bondade’ da expressão;    e temos a obrigação de pôr em causa aquilo que ela esconde, a começar pela sua    refinada desfaçatez e hipocrisia. [<a name="top1"></a><a href="#1">1</a>] </P>       <P >Acresce que os teatros bélicos da actualidade      não são todos feitos de aviões, de bombas e tanques à vista. As formas da      guerra são diversas, umas manifestas e outras camufladas, sub-reptícias e      bem mais funestas. O campo de batalha está hoje em toda a parte, impulsionado      pela ‘lógica’ e pelos interesses de um mercado e negócio que não são nada      ingénuos ou inocentes; sustentam-se precisamente no avolumar crescente de      vítimas e <I  >danos colaterais</I>, não negligenciáveis,      mas, ao invés, contabilizáveis por serem o índice evidente do lucro e sucesso      obtidos. </P>       <P >A linguagem política desta era justifica a acusação      de George Orwell; afigura-se destinada a fazer com que as mentiras soem a      verdades, os crimes e atropelos à lei e à moral pareçam actos respeitáveis,      louváveis e confináveis no acervo dos direitos, garantias e liberdades individuais,      enaltecedores e afirmativos da livre iniciativa. Deste modo a ‘política’ (ainda      merecerá este nome?) tornou-se uma tragicomédia sem fim e sentido entre montes      de meias-mentiras (que jamais chegarão a ser meias-verdades!), de omissões      propositadas e maldosas e de intervenções conflituantes e exacerbadas, imprópria      para gerar consenso na denúncia das aleivosias intencionalmente maquinadas      e perpetradas pelo modelo social vigente. Num contexto de relativismo ético      e legal, os principais políticos e interventores mediáticos surgem apostados      em cantar as virtudes da versão prevalecente do mercado, em branquear as suas      perversões e esconder que os <I  >danos colaterais</I> são calculados, programados      e produzidos de modo absolutamente objectivo, frio e racional.</P>       <P >Sejamos ainda mais claros e assertivos, sem rodeios      na linguagem e sem medo das palavras e posições: a mentira e a propaganda      políticas e mediáticas visam a conformação total e abrangente de todas as      esferas da vida humana a modelos de organização e funcionamento favoráveis      e indutores da produção, em larga escala, de vítimas ou <I  >danos colaterais</I>. Estes são a expressão      real e fidedigna das vantagens e dos resultados almejados e conseguidos com      actos intencionais. Mais ainda, a produção de <I  >danos colaterais</I>, abandonados e acumulados      ao longo da trilha do progresso triunfante do mercado neoliberal e financeiro,      transformou-se numa espécie de filosofia-padrão que inspira, irriga, ordena      e baliza o discurso apologético das reformas em todos os campos da actividade.      São o alvo a atingir, o fim procurado, pouco ou muito encoberto ou manifesto,      o fio condutor e norteador das estratégias e medidas. Onde eles não aparecerem      em número significativo, aí estamos perante um caso de falhanço, de desvio      e quebra da norma reguladora do funcionamento da sociedade nos nossos dias.</P>       <P >Os <I >danos      colaterais</I> vêem-se em todo o lado e em todos os sectores, já que tudo      se encontra sujeito às receitas impostas pela trama do <I  >paradigma produtivista</I> neoliberal: são      as pequenas e médias empresas que não resistem ao garrote dos potentados do      dinheiro; são as editoras e livrarias, as casas do mais variado comércio obrigadas      a fechar portas por não lograrem competir com as grandes superfícies; são      as unidades de prestação de serviços, bem como as universidades e faculdades      de menor dimensão, sem tamanho para os arautos e reféns de uma gestão de bitola      curta e de vista míope; são os clubes desportivos locais, regionais e nacionais,      incapazes de cumprir as exigências monetárias ditadas pelas circunstâncias;      são os ludibriados pelas fraudes dos banqueiros que contam com a cumplicidade      dos políticos e a protecção de um sistema judicial feito por encomenda; são      os cidadãos com salários em atraso ou reduzidos e com trabalho aumentado,      os desempregados, os diplomados sem expectativa de trabalho decente, os emigrantes      ilegais, os frágeis, os pobres, os sem-tecto, mendigos e pedintes, os adolescentes      avessos à escola, os gangs de jovens, os ladrões de rua e viciados em droga;      são, enfim, os que não entram no topo da pirâmide cada vez mais estreito,      ocupado só pelos ricos e poderosos, definidores do que conta e vale.</P>       <P >Todos são marginais e pertencem      ao mundo subterrâneo, à escuridão nebulosa e sem forma que envolve os que      caem fora da hierarquia e ordem vigentes. Todos são <I  >danos colaterais</I> calculados e intencionais,      uma sub-classe sem papel social, falhada e inútil, que nem sequer atinge o      estatuto de sócio menor desta sociedade estribada na aldrabice e insensibilidade.      Não têm valor de mercado; e por isso não recaem sobre eles os olhares do apreço      e consideração, da sensibilidade desperta e inquieta. Não contam; são coisas      ou ainda menos. Será deturpação, exagero ou ficção? Antes fosse! </P>        <P ><B  >2. </B>Se olharmos em redor e prestarmos a devida atenção, veremos que a nossa    era está enredada numa teia de manipulações e mistificações, demências e mentiras.    Este ambiente crepuscular e de limbo, despido de inteireza, nobreza e hombridade,    em que habitam os princípios e valores, [<a name="top2"></a><a href="#2">2</a>]    é propício a que aprendamos, como diz, Arnaldo Jabor, de cabeça para baixo,    a partir do que é negativo e execrável, porque “os canalhas são mais didácticos    que os honestos. O canalha ensina mais (…) As tramóias e as patranhas de hoje    são deslavadas; não há mais respeito pela mentira. Está em andamento uma ‘revolução’    (…) na cara da população com o fito de nos acostumar ao horror”. Nunca se aprendeu    tanto de cabeça para baixo! Aprendemos que a corrupção, a farsa e demais iniquidades    não são “um ‘desvio’ da norma, um pecado ou crime; são a norma mesmo, entranhada    nos códigos, nas línguas, nas almas (…) Aprendemos a mecânica da sordidez; a    técnica de roubar o Estado”, a maneira de fazer “esgotos à flor da pele”, “orgasmos”    e o emocionante “sarapatel entre o público e o privado”. “Querem nos acostumar    a isso, mas poder ser (oh Deus!) que isto seja bom: perdermos o auto-engano,    a fé. Estamos descobrindo que temos de partir da insânia e não de um sonho de    razão, de um desejo de harmonia que nunca chega”. [<a name="top3"></a><a href="#3">3</a>]  </P>       <P >“Até que enfim – acrescenta Arnaldo Jabor – nossa      crise endémica está sujamente clara” e nos mostra uma “prodigiosa fartura      de novidades imundas”, oferecendo temas deliciosos para teses de “doutorado      sobre nós mesmos”!</P>       <P >Obviamente no desporto - notoriamente no futebol      - também se mente. Mas ele é, sobretudo, expressão do quanto nos mentem os      protagonistas deste tempo e do quanto assenta na obscenidade e no mais descarado      fingimento a força que os sustenta.<B  ></B></P>       <P >Sim, os sintomas da alienação e loucura reinantes      nesta era foram nítidos nas aquisições do Real Madrid, na enchente do seu      estádio para a apresentação de Cristiano Ronaldo, tal como na exploração mediática      do evento e nas absurdas cláusulas de outras transferências. Porém são outros      os principais sujeitos da cegueira e insanidade. São os que fazem com que      a utopia da democracia se transforme em dura desilusão. Os que usam todos      os ardis para encobrir a indecência do modo de ser e estar, de exercer o poder      para impor, por via legal, decisões abjectas e reprováveis pela moral. Os      que alargam o fosso da cada vez maior separação entre a lei e a ética. Os      que arrotam, medram e respiram bem na palhaçada hedionda e pérfida da quadratura      do círculo de interesses sujos que nos governam. Os abjectos corruptos e os      seus aliados, defensores e encobridores. Os desavergonhados autores e beneficiários      da promiscuidade entre a política e os negócios. A mixórdia asquerosa de mentirosos,      negadores, vigaristas, defraudadores, trampistas, intrujões, chupistas, golpistas,      tartufos e embusteiros. Os amorais que reclamam para si privilégios, intocabilidade      e honorabilidade e espezinham a dignidade e humanidade dos outros. Os que      tratam as pessoas como meras e rebaixadas coisas e lhes roubam os requisitos      de uma vida própria. Os prepotentes que condenam os trabalhadores por conta      de outrem, os humildes e pequenos ao esbulho dos seus direitos e ao infortúnio      e desdita. Os que pairam acima do desencanto e desolação desta época putrefacta      e se recusam a ver o chão juncado de <I  >danos colaterais</I>. Os que censuram, perseguem,      proíbem, reprimem ou vetam o pensamento divergente, ditam sempre mais exigências,      obrigações e restrições para os outros e para si desenham um mundo de fraude,      mentira, impunidade, deleite e regabofe. Os insensíveis e indiferentes ao      sofrimento alheio, avessos a reconhecer nos outros a condição de seus semelhantes.      Os que se situam a si na casta dos entes superiores e aos ignorados restantes      na sarjeta dos dejectos inferiores.</P>       ]]></body>
<body><![CDATA[<P >Esta choldra, que de tudo faz negócio imundo,      cria um asfixiante vazio ético e moral, obrigando-nos a procurar o oxigénio      existencial em qualquer sítio, onde a nossa fome de ilusões possa ser aquietada      e sobreviver. É por isso que nos voltamos para o futebol. Para nos encontrarmos      com muita gente que sente como cada um de nós e se vê desmotivada para expressar      indignação e revolta perante o desvario que marca o nosso destino e ignora      as aflições e aspirações, dramas e agruras das pessoas de bem, honradas, sérias      e laboriosas.</P>       <P >Vamos ao futebol, como quem      procura pão para a boca. Por isso ansiamos sempre pelo começo das novas temporadas.      Nós, os adeptos, investimos nele a paixão não correspondida na política e      nas actividades que a deviam merecer, por serem determinantes da nossa vida.      Devemos salvá-la e alimentá-la, para que não se perca e possa ser mobilizada      para pleitos nobres e transcendentes. Para tanto o futebol não devia cometer      traição; mas, infeliz e amargamente, está a trair nesta hora, pela mão dos      seus agentes e branqueadores mediáticos.</P>       <P ><B  >3.      </B>A propósito dos atropelos      que abalroam e ferem o sentido de humanidade e pervertem a razão na hora que      passa, podemos certamente apontar o contexto sócio-político mais lato para      justificar a avaliação negativa e o nada animoso estado de espírito; mas é      bom observar o terreno que pisamos na Universidade e no dia-a-dia das respectivas      organizações, porque reproduz os mesmos estigmas e sintomas. </P>        <P >Garcia Arocha, Reitora da Universidade Central da Venezuela, disse recentemente    numa entrevista ao jornal <I  >El Universal</I>, a propósito de uma lei voltada para o controlo do sector universitário    através do termo de eleições nas Faculdades, que “as Universidades jamais vão    estar ao serviço de nenhum governo”. [<a name="top4"></a><a href="#4">4</a>]    A expressão “jamais vão estar” vale como renovação do imperativo que obriga    a Universidade: não estar ao serviço de nenhum governo, de nenhum sistema ideológico,    de nenhum poder, seja ele sagrado ou profano.</P>       <P >Assim devia ser. Mas não está sendo assim e, ao      fazer esta acusação, não tenho o pensamento fixo na Venezuela ou num tempo      passado. Estou a pensar no intento de domesticação das Universidades europeias      que não tem parado de crescer desde que Margaret Tatcher meteu mãos à obra      e apadrinhou o processo. Mais, tenho sobretudo presente a política oficial      em vigor e o rosário de medidas, apregoadas como ‘reformas’ (p. ex. o RJIES      e a sua inspiração na doutrina do centralismo e do neoliberalismo), que tem      atingido a universidade portuguesa. E, ainda mais concretamente, não sou cego      à ‘orientação’ imprimida, nos anos recentes, a instituições universitárias,      alinhando-as de modo incondicional pelo reformismo governamental (através      da aceitação acrítica do RJIES, do método de eleição do Conselho Geral e da      composição deste, da subtracção de representatividade nos órgãos de topo às      unidades orgânicas mais pequenas, da nomeação do Reitor e dos Directores das      Faculdades, do regime fundacional e do regulamento dos servidores não docentes);      e colocando-as, de maneira mais ou menos manifesta ou encoberta, nos trilhos      neoliberais, obsoletos, imbecis e imorais, como se na heterodoxia da caduca      cantilena de tal doutrina houvesse mágicas capazes de sublimar os estragos      provocados pelas forças e interesses do mercado. No fundo há como que um envernizamento      das suas teses visando ressuscitar uma ideologia responsável pela destruição      das instituições de solidariedade e dos laços sociais, pelo descalabro moral      e económico e pela perda de sensibilidade e responsabilidade em relação ao      outro. </P>       <P >Sim, também se mente, pratica perversão e comete      traição na Universidade.<B > </B>E muito!      Quando<B > </B>dela se assenhoram admiradores,      filiados ou representantes de corporações e oligarquias alinhadas pelo pensamento      neoliberal dominante. Quando esses agentes, animados por uma mentalidade e      vocação primárias, obstinadas,<I  > fanáticas e jihadistas</I>, porfiam em implementar,      obsessivamente e a todo o custo, aquele pensamento na sua versão mais crua      e dura. Ou seja, quando a missão essencial da Universidade é assim diminuída      e rebaixada à função reprodutora do senso comum actualmente vigente – um estranho,      mas real e gravoso paradoxo! Quando, por essa via, a Universidade é festiva      e enfaticamente conformada à lógica empresarial e à panóplia de negócios próprios      de um supermercado. Quando tem que vender cursos e cursinhos por grosso e      atacado, a toda a hora criados, modificados e adaptados às ordens do mercado,      como quem vende e muda de camisas ou sapatos. Quando isto se inscreve no programa      e centro das suas obrigações cimeiras! Quando, através dos mecanismos e medidas      da subvalorização e depreciação avaliativas, abdica de contribuir para a vida      criativa, espiritual, intelectual, ética e moral dos cidadãos e da sociedade      e para a reflexão acerca das vias em que esta transita. Quando isto acontece      e está a acontecer cada vez mais, o ambiente torna-se deprimente, inquietante      e irrespirável. E é por conseguinte difícil, para não dizer impossível, desmentir      esta tese de José Saramago: “A mentalidade antiga formou-se numa grande      superfície que se chamava catedral; agora forma-se noutra grande superfície      que se chama centro comercial. O centro comercial não é apenas a nova igreja, a nova catedral,      é também a nova universidade”. </P>       <P >Portanto igualmente nas várias frentes e vertentes      da Universidade se vão amontoando os <I  >danos colaterais</I> da estagnação, regressão      e arcaísmo do pensamento e da razão. Sobre ela abateu-se uma brutal e encarniçada      cruzada destruidora da sua autonomia e liberdade, ardilosamente disfarçada      sob um espesso manto de opacidade, de oportunismo, cinzentismo e golpismo      que paulatinamente lhe toldam o espírito e olhar, mudam e substituem o nome,      tolhem os passos, desfazem a alma, desfiguram o rosto, calam o clamor da indignação      e do protesto, congelam o ânimo e a vontade de acção e intimam à passividade      e resignação. </P>       <P >Tudo o que releva do humano está a perder nela      o lugar central, o seu <I >habitat</I>      natural; está a ser atirado para o caixote das coisas inúteis e prejudiciais,      carecidas de remoção, por serem lixo contaminador, pernicioso e perturbador      do ‘novo’ regime jurídico e fundacional. Também nela as causas, os ideais,      princípios e valores de teor humanista são hipotecados e calcados com a bota      escura da prepotência e pesporrência neoliberal. Também nela se faz ouvir,      tem assento e dá conselhos e ordens a voz do dono deste tempo de mercado financeiro      depravado e apodrecido, cego, mudo e surdo às dimensões mais genuínas e relevantes      da dignidade humana. Também nela o vírus da nova gripe A (H1N1) alastra e      sofre metamorfoses!</P>        <P >A desmontagem da Universidade, como instância de referência para balizar os    caminhos da ascensão do humano, está em curso, tal como a extinção dos mestres    eminentes na generosidade das ideias e na palavra limpa e flamejante, críticos    e lúcidos, frontais e cristalinos, criadores e idealistas, projectistas e anunciadores    do futuro. Rareiam e definham nela os intelectuais contra-poderes e livres-pensadores,    enquanto sobem de tom os doces e pios avisos e as amigas e calorosas ‘sugestões’    e insinuações para que os inconformados e ‘renitentes’ às ‘inevitáveis’ e ‘necessárias’    mudanças sejam ‘realistas’, não se prejudiquem, não respeitem muito séria e    sinceramente a consciência, dêem mostras de ‘abertura’, ‘flexibilidade’, ‘bom    senso’ e ‘pragmatismo’, resignem e se adaptem, vendam e desqualifiquem, aquietem    e contentem com o papel de castiçal e enfeite das mesas do poder. [<a name="top5"></a><a href="#5">5</a>]  </P>       <P ><B  >4.      </B>A fidelidade ao optimismo      impõe a resistência. É isto que manda perguntar pelo substituto da Universidade      na missão de elaborar e levantar símbolos, condições, pressupostos, advertências,      proibições e restrições como setas indicativas das direcções e roteiros de      bom senso e sensatez a tomar pela sociedade. Numa altura em que é fragoroso      o clamor do mundo por orientação, face à iminência e gravidade do declive      e naufrágio, a Universidade acomoda-se a forças que desvalorizam e querem      riscar essa tarefa na ementa do novo figurino.</P>        ]]></body>
<body><![CDATA[<P >Obviamente a Universidade não tem a possibilidade, nem deve cultivar a pretensão    de ser uma bússola e traçar um rumo para o presente e futuro da sociedade. Mas    isto não significa que deva aceitar os destinos impostos pelo abjecto e sórdido    sistema financeiro, [<a name="top6"></a><a href="#6">6</a>] pelo mercado e consumo    de matriz neoliberal ou que deva incensar e venerar os líderes desses campos    e ajoelhar-se perante outros interesses, poderes e forças de idêntica natureza.    Ela tem a obrigação de não encobrir o desconcerto e o constrangimento que tomaram    conta do mundo, de não se acocorar perante os seus autores, de “dar nome aos    bois” em todas as coisas, de pôr a nu e discutir todos esses caminhos e intuitos,    expostos ou ocultos, e de alertar para os perigos que eles acarretam para a    maioria das pessoas. Deve mover-se pela causa do bem público e não se mancomunar    com ninguém estranho a esse horizonte.</P>        <P >Numa conjuntura em que são patentes e deveras sentidas as consequências da    desindustrialização e esta lega como herança o desemprego estrutural e permanente    para uma fracção crescente da população, é correcto e decente que a Universidade    se remeta ao silêncio? A Universidade não tem nada a dizer, quando estamos a    assistir ao falhanço clamoroso de um tipo de acumulação desenfreada e gananciosa    - ainda por cima hipocritamente defendido em nome de balizas pretensamente ancoradas    na ética do trabalho e noutras referências ‘morais’! - que produz ininterruptamente    uma ampla sub-classe em contínua expansão e diversificação de indivíduos empurrados    para as franjas de um modo de vida sem valores comuns? Não lhe compete pronunciar-se,    quando isso é o produto colectivo principal da actividade e do parasitismo do    ignóbil sistema económico-financeiro?! Quando parcelas enormes da população    são ignoradas e destinadas à exclusão, sem nenhum tipo de estatuto de sujeitos    e, para cúmulo, não têm sobre isso qualquer controle ou influência, nem tampouco    voz, então a Universidade cala-se?! [<a name="top7"></a><a href="#7">7</a></sup>]  </P>       <P >Numa altura em que a política foi objecto de privatização,      isto é, não está mais ao serviço da comunidade, mas foi colocada às ordens      de lobies e grupos poderosos, delapidadores e usurpadores da coisa pública      (eis uma triste constatação decorrente da fria e objectiva examinação dos      factos, aqui e em toda a parte!), quem levanta a voz da razão pela gente que      engrossa a legião dos <I >danos colaterais</I>?      Quem acenderá o lume da inquietação, descongelará a frieza e acordará para      esta medonha realidade a sensibilidade adormecida da ‘sociedade’ bem sucedida,      cómoda e principescamente instalada, dos mandarins e nababos, dos ricos e      abastados, afogados na diversão? Quem se insurgirá em face do largo espectro,      sempre em crescimento, de indivíduos incapazes e proibidos de circular nas      avenidas do mercado de consumo e mantidos fora da fronteira e da norma que      esta traça?</P>       <P >Perante o embuste, propalado de forma cavilosa,      de que o presente modelo de ‘estruturação’ social oferece a cada um a possibilidade      de reger a sua vida e de escolher o que há-de ser e de que o fracasso, a pobreza,      a marginalização etc. são apenas o corolário de escolhas erradas, de aprendizagens,      competências e habilidades não adquiridas, de responsabilidades não assumidas      e de vontades não exercidas, quem apontará e desmontará o dolo e a pulhice,      as petas e tretas de semelhante e despudorado sofisma? </P>        <P >Quem questionará a imoralidade e falácia da <I >modernização</I> inaugurada    por Margaret Thatcher e estendida a todos os sectores pelo zelo ‘modernizador’    dos trabalhistas ingleses e dos seguidores nos outros países, incluindo o nosso,    da profética e tão apregoada <I  >terceira via</I>? Para todas as ‘reformas’ foi dada a explicação “não há alternativa”,    que tudo ‘explica’ e tudo e a todos desculpa, para calar a necessidade de se    explicar e a impossibilidade de se justificar. E para tentar tornar invisível    a mão suja do mercado neoliberal e das tropas escuras que o animam. Lá fora    e cá dentro, todas as leis e medidas ditas de ‘modernização’ e ‘reforma’ têm    servido activamente o fito da “<I  >decomposição e fragmentação contínuas dos vínculos sociais e da coesão comunal</I>…”    e do triunfo da ordem do egoísmo e do “consumismo desenfreado” sobre a economia    social e a sociedade moral. [<a name="top8"></a><a href="#8">8</a>] </P>        <P >(Abra-se aqui um parêntesis para integrar o texto no contexto. O termo ‘reforma’    significa uma mudança ou alteração para melhor. Todavia o afã reformista tem    tentado arrasar tudo quanto encontra na sua passagem e que não se encaixa no    ideário neoliberal. Para tanto entregou-se à produção de uma parafernália de    leis, por grosso e atacado, para dar a impressão de uma transformação em grande    escala. [<a name="top9"></a><a href="#9">9</a>] Abatem-se políticas sociais    para montar campos de negócio em todos os sectores. Eis aonde chegamos: a política    deixou de estar ao serviço do interesse público e passou a ser mandada pelos    patrões dos negócios. Não é a economia quem mais ordena; é tão-somente o desprezível    sub-mundo da especulação financeira, das negociatas e afins.</P>       <P >Em favor dessa gula foi      necessário produzir pacotes de leis que diminuíssem a participação e abertura      democráticas e acentuassem o centralismo e o controle burocráticos, em todas      as áreas. O poder está cada vez mais concentrado nas oligarquias e no cume      das instituições. À imensa maioria dos indivíduos é destinado o papel de figurantes      num filme com enredo e final ardilosamente definidos muito acima e bem longe      deles. O corporativismo, o lobismo, o populismo e o caudilhismo estão vivos      e sadios; venha o diabo e escolha). </P>        <P >Fechado o parêntesis, regressemos à indagação. Quem falará dos indivíduos    como portadores de direitos e não apenas como contribuintes e entes de deveres?    Quem advogará e dará o exemplo de aplicação do estado social, extensivo a toda    a comunidade, como amenizador da desventura individual? Quem clamará pela reconversão    desta sociedade - cada dia mais abstracta e fictícia – numa real “comunidade    sentida e vivida” que substitua a “ordem do egoísmo” geradora de “uma atmosfera    de desconfiança e suspeita mútuas, pela ordem da igualdade que inspire confiança    e solidariedade”? Quem despertará o interesse no benefício comum, numa “rede    de instituições compartilhadas em que se pode confiar”, como um seguro abrangente    e capaz de providenciar a defesa esclarecida “contra os horrores gémeos da <I  >miséria</I> e da <I  >indignidade</I>” e contra a brutalidade da desesperança e a ignomínia da infelicidade?    [<a name="top10"></a><a href="#10">10</a>] </P>       <P >Sem esse seguro, sem esse amparo e protecção,      os impiedosos desafios da vida não funcionam como a oficina em que se forjam      a autoconfiança, o senso de dignidade humana e a auto-estima. Sem ele, não      se pode esperar das pessoas a disponibilidade para o engajamento que alimenta      a democracia. Sem ele, a democracia perde a razão de ser, afunda-se e destrói-se      em todo o regime político que não seja ou recuse ser um estado social.</P>        <P >Dito de outra maneira, é o estado social que sustenta a democracia e defende    a sociedade dos ‘danos colaterais’, fatalmente ocasionados e multiplicados,    sem tal controle e garantia, pelo mercado de consumo neoliberal. Zygmunt Bauman    explicita assim a interdependência entre os direitos políticos e os sociais:    “Sem direitos sociais <I  >para todos</I>, um número grande e provavelmente crescente de pessoas vai achar    que seus direitos políticos são inúteis ou indignos de atenção. Se os direitos    políticos são necessários para estabelecer os direitos <I >sociais</I>, estes    são indispensáveis para manter os direitos <I  >políticos</I> em funcionamento. Os dois tipos de direito precisam um do outro    para sobreviverem”. [<a name="top11"></a><a href="#11">11</a>] </P>        ]]></body>
<body><![CDATA[<P >Não há outro método para “evitar a erosão da solidariedade humana e o desaparecimento    dos sentimentos de responsabilidade ética”. [<a name="top12"></a><a href="#12">12</a>]    Sem estado social a ideia de comunidade queda-se ao nível da abstracção e não    conhece o solo da sua concretização institucional. [<a name="top13"></a><a href="#13">13</a>]  </P>       <P >Ou seja, a democracia inspira-se e realiza-se      na concretização do estado social, visando atender as fragilidades dos mais      fracos; se renunciar a este, renuncia a si mesma, torna-se dispensável e inútil.      Por isso mesmo importa ressuscitar o significado original, inicial e essencial      da ‘democracia’, que fez dela a bandeira, o fervor, o grito, o entusiasmo      e o lema da batalha com que os indivíduos explorados, excluídos e sofredores      lutaram por direitos políticos e sociais.&nbsp;      </P>       <P >Defender a democracia e      avivar-lhe as tonalidades sociais não será tarefa da Universidade? Julgo que      sim e julgo também que uma universidade atenta contra isso ao privilegiar      os fortes (sejam eles unidades orgânicas ou pessoas), ao restringir os direitos      dos seus servidores, nomeadamente os não docentes, tratando-os como sujeitos      menores e como se fossem estranhos e até nocivos ao seu bom funcionamento.      No mínimo, exemplifica como se colabora na destruição da democracia e do congénito      estado social.</P>        <P ><B  >5. </B>Em síntese, a Universidade parece imersa num sono, não se apercebendo    do perigo de estar a ser arregimentada e deformada. Já afloram os alicerces    da sua desfiguração como escola técnico-profissional. A ciência é desvirtuada    e despromovida a técnica e a investigação subordinada aos ditames de uma alienante    e idiota competição ou luta pela sobrevivência, destinada a alimentar e sustentar    servilmente a absurdidade consumista e voraz dos <I  >rankings</I>, focalizando-se nisso a sua finalidade suprema e despindo-se da    inspiração filosófica, humanista, imagética, poética, sagrada e transcendental.    [<a name="top14"></a><a href="#14">14</a>] O que conta é o imediato e mero fazer,    entendido este na acepção simplória do operacional, desprovido do fundamento    da palavra lógica e racional, ética e estética, da consciência inquieta e vigilante    acerca dos meios e dos fins, da apetência e competência para ligar o acto e    o pensamento, para intervir, criticar e questionar, para divergir e propor opções    e rupturas, tomar partido, assumir posições e compromissos, criar e renovar    utopias, ser livre e senhor. O conhecimento de orientação, que funda o saber,    o sabor e o sentido da vida, é desconsiderado, abandonado e até combatido, ridicularizado    e perseguido. Ah!, este dano não é colateral, mas central e de proporções e    ilações assaz funestas, ainda não inteiramente imagináveis, a requerer, com    todo o cabimento e urgência, um <I >ensaio sobre a cegueira</I>; antes que a    poeira do abandono se adense e soterre o que teima em respirar e resistir. </P>       <P >A Universidade      não deve pôr de lado a prudência e a lucidez de pensar a longo prazo; nem      inebriar-se com o seguidismo em moda e passar apressadamente para as fileiras      do modernismo, reformismo e do ‘egoísmo’ neoliberais, sem coração e sem alma;      tampouco deve enterrar o legado recebido como se fosse o indesejado e pesado      fardo de um passado frustrado e sem futuro. Nenhum Reitor devia cair na tentação      de lidar com ela e tudo fazer para a configurar, como se estivesse a conjecturar      e costurar o projecto de si mesmo no leito do encantamento pela miragem neoliberal.      </P>       <P >Esse projecto apenas vinga num clima de apatia      e desencanto face à política e de falta de disponibilidade para o compromisso      e o envolvimento nos assuntos públicos e institucionais. Qualquer cúpula universitária      tem o dever de se incomodar com esta realidade e apostar na sua alteração,      em vez de tirar proveito dela. Se o não fizer, o seu triunfo é soturno e trágico;      é o das mentes retrógradas que sempre tentaram amordaçar a Universidade, domesticá-la      e conformá-la aos seus desejos insaciáveis. Ademais não se distancia das balelas      e do arrazoado do pensamento único e vulgar do senso comum, difundido e generalizado      pela máquina de propaganda mediática, controlada e manipulada pelos diversos      poderes e correntes do mercado neoliberal. É esta a função substantiva da      Universidade? Não lhe compete elaborar um discurso de contraponto? Compraz-se      no desempenho do papel de cabo de ordens?</P>       <P >Contra isto a memória convida a lembrar que os      golpes decisivos do avanço social na história humana nunca surgiram do lado      da submissão e sujeição aos potentados e receitas vigentes. Questionar a ordem      estabelecida, o estado das coisas, as verdades feitas e as esparrelas e soluções      montadas, propaladas e impingidas – eis uma peça inalienável do património      universitário. A missão da Universidade não é produzir quadros que engrossem      as fileiras da demissão cívica e do ‘activismo do consumo’ aparentemente apolítico.      Produzir quadros com as exigências, marcas e virtudes que o conceito de cidadão      reclama – isso deve continuar a ser a sua meta cimeira.</P>        <P >Retomo Arnaldo Jabor: “Só nos resta a praga. Meu desejo é maldizer…” Contudo,    além do aprumo cristão me proibir a queda nas maldições, “sou um otimista inveterado;    fico procurando algo de bom…” em toda esta impingidela, depredação e deprimência.    Mas não espero que isso surja espontaneamente, sem a acção correspondente. “A    esperança (passiva e demissionária) tem de ser extirpada como um furúnculo maligno.    Através deste escracho, pode ser que entendamos a beleza que poderíamos ser!”    [<a name="top15"></a><a href="#15">15</a>] </P>       <P >Assim creio que, um dia,      o futuro terá outro semblante; a cerração deste tempo, de festa e riso para      uma minoria e de angústia, decepção, desilusão e inquietude para a maioria,      não durará para sempre. Para tanto requerem-se esforços e tomadas de atitudes,      visando <I >A</I> <I  >Implosão da Mentira</I>, título de um extenso      poema de Affonso Romano de Sant’ Anna, do qual deixo aqui o Fragmento 1:</P>       <P ><I  >Mentiram-me. Mentiram-me ontem</I></P>       ]]></body>
<body><![CDATA[<P ><I  >e hoje      mentem novamente. Mentem</I></P>       <P ><I  >de corpo      e alma, completamente.</I></P>       <P ><I  >E mentem      de maneira tão pungente</I></P>       <P ><I  >Que      acho que mentem sinceramente.</I></P>       <P ><I  >Mentem, sobretudo, impune/mente.</I></P>       <P ><I  >Não      mentem tristes. Alegremente</I></P>       <P ><I  >mentem. Mentem tão nacional/mente</I></P>       <P ><I  >que      acham que mentindo história afora</I></P>       <P ><I  >vão      enganar a morte eterna/mente.</I></P>       <P ><I  >Mentem. Mentem e calam. Mas suas frases</I></P>       ]]></body>
<body><![CDATA[<P ><I  >falam.      E desfilam de tal modo nuas</I></P>       <P ><I  >que      mesmo um cego pode ver</I></P>       <P ><I  >a verdade      em trapos pelas ruas.</I></P>       <P ><I  >Sei      que a verdade é difícil</I></P>       <P ><I  >e para      alguns é cara e escura.</I></P>       <P ><I  >Mas      não se chega à verdade</I></P>       <P ><I  >pela      mentira, nem à democracia</I></P>       <P ><I  >pela      ditadura.</I></P>        <P ><B  >&nbsp;</B></P>        <P > [<a name="1"></a><a href="#top1">1</a>] BAUMAN, Zygmunt (2008): <I >Vida    para consumo: a transformação das pessoas em mercadorias</I>, p.149-190. Jorge    Zahar Editor, Rio de Janeiro.</P>          ]]></body>
<body><![CDATA[<P > [<a name="2"></a><a href="#top2">2</a>] “Sem valores não se pode construir    nada”, Lech Walesa, in: Jornal <I  >Público</I>, p.3, 01.09.2009.</P>                 <P > [<a name="3"></a><a href="#top3">3</a>] Arnaldo Jabor: Aprendemos de cabeça    para baixo, <I  >Jornal do Comércio</I>, Caderno C, p.6, Recife, 25 de Agosto de 2009.</P>          <P > [<a name="4"></a><a href="#top4">4</a>] In: <I >Diário de Pernambuco</I>,    Recife, 15 de Agosto de 2009.</P>                 <P > [<a name="5"></a><a href="#top5">5</a>] Repare-se nesta deprimente constatação,    que é simultaneamente uma pesada acusação vinda de fora do terreno universitário:    “Tempos houve em que os intelectuais eram verdadeiros contra-poderes. Hoje (…),    os intelectuais servem apenas para enfeitar os poderes.” – João Pereira Coutinho,    jornal <I  >Correio</I> <I  >da Manhã</I>, Lisboa, 25 de Julho de 2009.</P>                 <P > [<a name="6"></a><a href="#top6">6</a>] “A maneira como os bancos ganham    dinheiro é tão simples que é repugnante”, segundo o insuspeito economista norte-americano    John Galbraith (1908-2006). In: Jornal <I >Público</I>, P2, p.3, 2 de Setembro    de 2009.</P>                 <P > [<a name="7"></a><a href="#top7">7</a>] Segundo o relatório <I >Education    at a Glance</I>, referente e 2007 e da autoria da OCDE, o desemprego de longa    duração afecta 51 por cento dos desempregados portugueses com diploma universitário    e idades entre os 25 e 34 anos. Nos restantes países da OCDE esta taxa é de    42 por cento. (In: Jornal <I >Público</I>, p. 2, 8 de Setembro de 2009).</P>                 <P > [<a name="8"></a><a href="#top8">8</a>] BAUMAN, Zygmunt, <I >ibidem</I>,    p.183.</P>                 <P > [<a name="9"></a><a href="#top9">9</a>] O ponto da situação é exactamente    igual ao resumido, deste modo, por Tácito no seu tempo (cerca de 55-120): <I >Plurimae    leges, pessima republica – muitas leis, péssima república</I>.</P>                 <P > [<a name="10"></a><a href="#top10">1</a><a href="#top10">0</a>] BAUMAN, Zygmunt,    <I >ibidem</I>, p.177-178. </P>          <P > [<a name="11"></a><a href="#top11">11</a>] <I  >Ibidem</I>, p.179.</P>                 ]]></body>
<body><![CDATA[<P > [<a name="12"></a><a href="#top12">12</a>] <I  >Ibidem</I>, p.181.</P>                 <P > [<a name="13"></a><a href="#top13">13</a>] Atente-se no modo como o Partido    Socialdemocrata sueco se distancia da política neoliberal inaugurada por Margaret    Thatcher, prosseguida por John Major e consolidada pelos trabalhistas de Toni    Blair e por todos os pregoeiros da dita <I >terceira via</I>. No programa de    2004 pode ler-se esta exaltação dos benefícios da solidariedade humana e nas    respectivas instituições: “Todo mundo é frágil em algum ponto do tempo. Precisamos    uns dos outros. Vivemos nossas vidas no aqui e agora, juntamente com outros,    envolvidos de forma involuntária pelas mudanças que ocorrem. Seremos mais ricos    se todos pudermos participar e ninguém for deixado de fora. Seremos todos mais    forte se houver segurança para todo mundo e não apenas para uns poucos”. </P>         <P >O        mesmo é dizer que a justiça e a solidariedade sociais, por um lado, e a        eficácia económica e a aptidão para a modernização, por outro lado, não        precisam de ser colocadas em oposição ou desacordo. Pelo contrário, como        sublinha a proposta social-democrata dos suecos, a procura da coesão social        “é a pré-condição necessária para a modernização por consentimento”. (<I  >Ibidem</I>, p.179-180)</P>                 <P > [<a name="14"></a><a href="#top14">14</a>] “A ciência sem consciência destrói    a alma”, disse Rousseau (1712-1778). (Não é isto que está a acontecer?) E Teixeira    de Pascoaes (1879-1952) disse o mesmo, de outra forma: “A essência das coisas    é de natureza poética, e não científica”; é isso que as espiritualiza e abeira    da alma.</P>                 <P > [<a name="15"></a><a href="#top15">15</a>] Arnaldo Jabor, <I>ibidem.</I>  </P>         <P >&nbsp;</P>          ]]></body>
</article>
