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<article-title xml:lang="pt"><![CDATA[Do corpo e do activismo na conjuntura de mercado e consumo]]></article-title>
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</front><body><![CDATA[ <P ><B  >Do corpo e do activismo na conjuntura de mercado e consumo</B></P>     <P >&nbsp;</P>        <P ><B  >Jorge Olímpio Bento</B></P>        <p><i>Centro de Investigação, Formação, Inovação e Intervenção em Desporto (CIFI2D),    Faculdade de Desporto, Universidade do Porto, Portugal</i></p>     <p>&nbsp;</p>     <P ><a name="topc1"></a><a href="#c1"><b>Correspond&ecirc;ncia</b></a></P>     <P >&nbsp;</P>       <P ><B  >RESUMO</B></P>       <P >Na      actual configuração da sociedade as pessoas tornaram-se objectos de consumo      e reféns da ansiedade. Esta situação é favorecida por uma globalização guiada      pela teologia do mercado, bem como pela tendência de intervencionismo e de      policiamento dos nossos comportamentos e passos. É sobre este plano de fundo      que se instituem uma política e um negócio que exploram o capital da insegurança      e do medo. Isso mesmo acontece no domínio das actividades corporais, tendo      gerado um poderoso movimento ideológico e económico que instituem o <I  >activismo físico </I>e um <I  >totalitarismo higienista e securitário</I>      como pedras basilares do estilo de vida urbano. No corpo consumido e consumidor      é praticado um controlo sem precedentes e ficam bem à vista a crise da identidade,      o mal-estar e as marcas de irracionalidade, de fanatismo, alienação e escravidão      que povoam a conjuntura pós-moderna<I  >.</I> A máxima do <I  >carpe diem</I>, que rege o quotidiano, e o      <I >paradigma produtivista,</I> que orienta      e desvirtua a ciência, tornaram urgente a necessidade de almejar o equilíbrio      e a sensatez, de reinventar a transcendência e de revalorizar o conhecimento      de orientação.</P>        <P><B  ><I  >Palavras-chave:</I></B> consumo, medo, corpo, activismo, intervencionismo, fanatismo,    irracionalidade e servidão, crise de identidade, mal-estar, necessidade de equilíbrio    e sensatez, de transcendência e conhecimento de orientação.</P>     ]]></body>
<body><![CDATA[<P>&nbsp;</P>     <P>&nbsp;</P>       <P ><B  >ABSTRACT</B></P>        <P ><B  >About the body and activism in the market and consumption conjuncture</B> </P>        <P >In the current configuration of society people have become objects of consumption    and anxiety hostages. This situation is favoured by a globalization guided by    the theology of the market as well as by the trend of interventionism and policing    of our behaviours and steps. It is on this background that it is instituted    a policy and a business that exploit the essence of insecurity and fear. That    even happens in the field of physical activities, having generated a powerful    ideological and economic movement that establishes the <I  >physical activism</I> and a <I  >hygienist and security totalitarianism</I> as cornerstones of urban lifestyle.    In the consumed and consumer body it is practiced an unprecedented control and    the<B  > </B>identity crisis, the malaise and the marks of irrationality, fanaticism,    alienation and slavery that populate the post-modern conjuncture<B > </B>are    open to the sight<B >. </B>The maxim of <I >carpe diem</I>, which governs the    daily life, and the <I  >productivist paradigm</I>, which guides and depreciates the science, made urgent    the need to aim for the balance and the wisdom, to reinvent the transcendence    and revalorize the knowledge of guidance. </P>        <P ><B  ><I  >Key-words:</I></B> consumption, fear, body, activism, interventionism, fanaticism,    irrationality and servitude, crisis of identity, malaise, need to balance and    wisdom, transcendence and knowledge of guidance</P>       <P >&nbsp;</P>       <P ><I >O que fazer com este corpo?     Onde deve ser enterrado? Ou deverá ser cremado? Que signo lembrará a sua morte?          Quem conhece este corpo?     Que nome tinha, como era o rosto, quais cicatrizes, como sua voz?          De onde vem este corpo?     Onde morava, com quem vivia, teria filhos, quem são seus pais?          O que fazia este corpo?     Com que lutava, o que comia, a quem amava, com quem dormia?          De quem é este corpo?     De algum vizinho, de algum parente, de alguém distante, talvez o meu?</I></P>        <P><i>Ronaldo Monte</i> [<a name="top1"></a><a href="#1">1</a>] </P>       <P >&nbsp;</P>        ]]></body>
<body><![CDATA[<P ><B  >OBJECTOS DE CONSUMO - REF&Eacute;NS DO MEDO</B></P>        <P >Como se sabe, a sociedade actual tem a marca do consumo incentivado e generalizado.    [<a name="top2"></a><a href="#2">2</a>] Todos os seus elementos, animados ou    inanimados, são objectos de consumo. Logo os seres humanos também o são; só    têm valor e utilidade enquanto conservarem a imagem e forma, as bitolas e performances    adequadas e devidamente cotadas, enquanto despertarem atracção e sedução e passarem    nas avaliações e comprovações vigentes. Tornam-se totalmente dispensáveis, gastos,    desqualificados, acabados e ultrapassados e são carimbados de inadaptados, sem    préstimo algum, inúteis, impróprios e mesmo nocivos, à medida que vão perdendo    capacidade para se encaixarem no quadro das exigências, bitolas e especificidades    fixadas e valoradas pelo mercado. </P>       <P >Não se livram desta punição,      se deixarem de ser <I >jovens vitalícios</I>,      se não lograrem contrariar e atrasar a obsolescência, esconder os traços,      sinais e rugas do uso e tempo, renegar a idade e a maturidade a ela inerente,      conservar o corpo fiável, apresentar a aparência como essência e ter sucesso      no confronto com o vasto e constantemente alterado leque de critérios de validade      estabelecidos no fluido código do consumo. </P>        <P >Sendo o envelhecimento, com todas as suas sequelas, uma constante e inevitabilidade    da vida humana, na nossa sociedade assiste-se a um fenómeno que Luc Ferry retrata    de forma fidedigna com a lente filosófica: “Às vezes tenho a impressão de só    cruzar com indivíduos cuja primeira preocupação, tanto do ponto de vista físico    como moral, é não envelhecer. Para eles (…) viver bem é ‘permanecer jovens’.    Isso se torna quase um fim em si mesmo”. [<a name="top3"></a><a href="#3">3</a>]  </P>        <P>É para tentar realizar esse sonho de concretização impossível que muita gente    gasta tempo e esforços consideráveis com a elaboração teimosa de um senso estético    flexível, susceptível de acompanhar a evolução dos usos e anelos. Como que a    dar razão à afirmação de Michel Foucault (1926-1984): “O homem moderno é o homem    que tenta constantemente inventar-se a si próprio”. [<a name="top4"></a><a href="#4">4</a>]    E concordando plenamente com Carlos Drummond de Andrade (1902-1987): “O problema    não é inventar; é ser inventado hora após hora e nunca ficar pronta nossa convincente    edição”.</P>        <P >Portanto é deveras angustiante e tirânica a obsessão de tentar escapar ao    contentor do lixo. Para a acalmar as pessoas submetem-se a cursos, cursinhos    e acções de formação de tudo e nada, assim como a cirurgias estéticas e às mais    diversas operações de cosmética e reciclagem tanto no plano físico e biológico    como no sentimental, comportamental, espiritual e moral. Coleccionam diplomas    por grosso e atacado, para somar ambições, pontos e ilusões no sistema de avaliação    e progressão na carreira e na vida. Sabem que, no dia em que forem reprovados    no exame do consumo, ficarão sem a carta de entrada e circulação na via existencial;    serão, sem dó nem piedade, abatidos no inventário dos activos válidos, irremediavelmente    removidos da esfera profissional e social, atirados para a lixeira da inaptidão    e desqualificação, da desconsideração e rejeição. Sofrem assim uma tortura horrível;    embora vivos fisicamente, morrem aos poucos e antecipadamente no conceito e    apreço de quem os rodeia. [<a name="top5"></a><a href="#5">5</a>] </P>       <P >Esta ameaça é terrível e não há maneira de se      subtrair a ela, porque na sociedade de consumidores ninguém fica de fora do      catálogo de objectos de consumo. Toda a gente se move diária e continuamente      entre os dois pólos e papéis: ser, em simultâneo, consumidor e objecto de      consumo. A distinção entre ambos é à condição temporária (obviamente mais      para alguns, não atingindo todos de igual modo!) e a reversão é uma certeza;      nenhum é mais poderoso do que o outro. </P>       <P >Por isso mesmo a mais cruel e inumana consequência      da sociedade de consumo, com as suas regras, prescrições, imposições e tentáculos      vigentes em todos os sectores, é a perspectiva de viver para acabar no caixote      do lixo. É este desígnio fatalista que acarreta a preocupação mais opressora,      requer e consome o maior dispêndio de atenção, energia e trabalho. A vida      gasta-se oscilando entre o prazer do consumo e o prenúncio do horror de ser      consumido. As posições não são fixas ou adquiridas para sempre. </P>        <P >E há ainda que contar com o cinismo, adverte Ronaldo Monte, de “um dispositivo    social montado para convencer os indivíduos de que eles são os culpados pela    sua exclusão do processo produtivo. São poucos aqueles que conseguem ver com    clareza os mecanismos socio-econômicos responsáveis pela sua derrocada existencial.    O próprio espírito contemporâneo, com a sobrevalorização do esforço individual    e aproveitamento das oportunidades, transfere para o indivíduo a responsabilidade    pelo seu sucesso ou fracasso em exibir um certo padrão de consumo que testemunhe    a sua pertença à galeria dos descolados que incorporam tal espírito”. [<a name="top6"></a><a href="#6">6</a>]  </P>        <P >Por outro lado, a humanidade padece, desde sempre, de temores graves e reverenciais    face a fenómenos da natureza que não domina e para os quais procura amparos    da mais diversa índole. A fragilidade vê-se hoje aumentada pelo facto do mundo    estar sujeito a uma globalização [<a name="top7"></a><a href="#7">7</a>] com    pendor orientado pela teologia do mercado. Este tipo, deveras negativo, de ‘mundialização’    ocasiona a passagem da vida ‘sólida’, assente nos organismos, mecanismos e estruturas    de apoio, protecção e segurança social, para a vida ‘líquida’, movediça, escorregadia    e diluída no viveiro de incertezas, medos e infortúnios pessoais e na destruição    da solidariedade. A isso conduz a retirada gradual da responsabilidade do poder    público em definir as políticas de investimento em áreas como a saúde, a educação,    a segurança e a previdência e em entregar à gula da privatização as acções anteriormente    atribuídas ao Estado. Quem o diz e prova, de modo magistral, é o eminente sociólogo    polaco Zygmunt Bauman em várias das suas obras. [<a name="top8"></a><a href="#8">8</a>]  </P>        ]]></body>
<body><![CDATA[<P >A globalização trouxe, é certo, à tona a “unidade da espécie humana”, traçada    por Kundera, porém deixando claro, de forma inequívoca e trágica, que o bem-estar    de uns nunca é inocente em relação à miséria de outros. À sedutora ideia de    “sociedade aberta”, de Karl Popper (1902-1994) [<a name="top9"></a><a href="#9">9</a>]    , corresponde a realidade aterrorizante da maioria da população infeliz e vulnerável,    submetida a forças que não entende nem, muito menos, controla. A Caixa de Pandora    abriu-se e expôs a humanidade aos fustigantes ventos de um destino malévolo.    A sociedade do perigo e do risco tornou-se uma sociedade abalada, alarmada,    atribulada e aprisionada pela invenção e exploração do medo. [<a name="top10"></a><a href="#10">10</a>]  </P>        <P >Ademais os medos contemporâneos são interiores e não mais exteriores, deslocaram-se    para dentro dos muros da cidade e de cada um de nós; é aí a morada do novo tipo    de inimigo: a suspeita em relação aos outros e à diferença, o ressentimento    com estranhos e a exigência de os isolar e banir, a preocupação histérica e    paranóica com a ‘lei e a ordem’. Por via disto a garantia de segurança assenta    na inexistência de vizinhos com pensamentos, atitudes, comportamentos e aparência    diferentes dos nossos; ou seja, implica e instaura a uniformidade. E esta, por    sua vez, alimenta a conformidade e a intolerância. O regime pós-moderno segue,    pois, à risca o propósito do <I  >Panóptico</I> de Foucault: vigiar e combater a diferença, a opção e a variedade,    disciplinar e impor ao comportamento dos cidadãos um padrão uniforme. [<a name="top11"></a><a href="#11">11</a>]  </P>        <P >“Tristes tempos estes, em que não há tempo nem lugar para a tristeza – constata    Ronaldo Monte. Todos os seus lugares públicos, igrejas e cemitérios inclusive,    foram transformados em templos maníacos. São, portanto, manicómios, lugares    para cuidar da mania, deixá-la expandir-se até certos limites, seguindo padrões    estereotipados de comportamento. (...) E não se trata mais daquele mal-estar    freudiano, necessário à nossa vida coletiva civilizada. É um excesso de mal-estar    que resulta justamente da falência do projeto coletivo e civilizado da modernidade.    O malogro da promessa iluminista de realização dos ideais da ordem, da limpeza    e da beleza resultou num excesso deprimente de desordem, lixo e feiura que o    espírito contemporâneo, na incapacidade de elaborar este excesso, tenta negá-lo    através do gerenciamento público da mania e da privatização da depressão”. [<a name="top12"></a><a href="#12">12</a>]  </P>       <P >&nbsp;</P>        <P ><B  >INTERVENCIONISMO E ACTIVISMO F&Iacute;SICO</B></P>        <P >É sobre este duplo plano de fundo que se instituem uma política e uma indústria    que exploram o capital do medo e colocam os cidadãos na respectiva mira. Isso    mesmo acontece no domínio das actividades corporais e no funcionamento da vida    urbana. As cidades são agora o local por excelência das ansiedades; “construídas    para fornecer protecção a todos os seus habitantes, as cidades hoje em dia se    associam com mais frequência ao perigo que à segurança”, sustenta Zygmunt Bauman.    [<a name="top13"></a><a href="#13">13</a>] Não é por acaso que também se multiplicam    nelas as organizações que aproveitam a insegurança, o pânico e a angústia. Há    manifestamente, de alguns anos a esta parte, uma indústria e um comércio florescentes    e em crescendo nesta área.</P>       <P  >Neste      desenvolvimento de uma série sofisticada e diferenciada de bens de consumo      adquirem particular notoriedade os serviços, as ofertas, actividades e experiências      que se voltam para o corpo e depositam nele frustrações, anseios e esperanças      de salvação e redenção. Através do recurso a uma panóplia de acções e tecnologias,      os corpos podem ser alterados e reparados segundo diferentes padrões e fins,      para melhor assumirem determinadas funções e papeis, corresponderem a diversas      motivações e fintarem os desamparos e vazios existenciais. </P>       <P >Como      é sabido, sempre houve e haverá uma conjuntura corporal, como parte da conjuntura      da forma humana – “a coisa mais digna de que se ocupa o homem”, no dizer de      Goethe (1749-1832). Ela      reflecte os problemas, anseios, ideais, princípios e valores da Vida e do      Homem, vigentes em cada época </P>       <P >As grutas e gravuras mais antigas não mentem a      esse respeito. Desde os tempos primitivos até aos nossos dias o homem não      cessou de manifestar insatisfação com o seu corpo - com a sua forma, fiabilidade      e plasticidade -, de praticar nele um confronto entre o real e o virtual e      de procurar outro corpo. A nossa      vida e a nossa identidade sempre foram corpóreas, o <I>corpo</I> sempre foi      uma <I>anatomia do nosso destino</I>. Desde tempos imemoriais o corpo foi      a medida de todas as coisas (media-se o mundo com o corpo e com os seus produtos      e actividades: pés, punhados, côvados, cestos, acres, jeiras).</P>        <P >De resto não foi a partir do nada que Leonardo Da Vinci (1452-1519) e Vesalius    (1514-1564) desenvolveram o projecto do <I>corpo-máquina</I>, que a ciência    moderna e a sua consequente tecnologia haveriam de apoiar e viabilizar ao possibilitarem    a transformação e recriação da natureza, tanto da extrínseca como da intrínseca.    [<a name="top14"></a><a href="#14">14</a>] </P>        ]]></body>
<body><![CDATA[<P >Todavia o século XX pode ser visto como um tempo da <I >descoberta e invenção    teóricas do corpo</I>, da sua revalorização e envolvimento material – e também    das suas debilidades e fragilidades. É neste tempo que Freud (1856-1939) sustenta    que o inconsciente fala através do corpo;Edmund Husserl (1859-1938), nome insigne    da Fenomenologia, apresenta o corpo como “berço original” de toda a significação;    e Merleau-Ponty (1908-1961) e outras eminentes figuras do Existencialismo vêem    no corpo uma “encarnação do espírito”, chamam-lhe <I>corpo cognoscitivo e reflexivo</I>,    um “pivô do mundo”, uma “estrutura do viver”. [<a name="top15"></a><a href="#15">15</a>]    Vêem-no como sede de símbolos e significados, como artefacto cultural e axiológico,    para além do <I>protocorpo</I> biológico e natural, levando a proclamar: Nós    somos o nosso corpo! Ele é medida e expressão do nosso Ser. [<a name="top16"></a><a href="#16">16</a>]  </P>        <P >Como corolário deste movimento, Marcel-Mauss (1872-1950) assinala o aparecimento    da noção de “técnica corporal”, da multiplicação e expansão das formas, métodos    e usos do corpo pela sociedade e pelos indivíduos. Não é, pois, um acaso que    se assista a uma renovação das atenções ao corpo e ao seu carácter instrumental,    dando lugar a uma onda de <I >ativismo</I> e <I  >intervencionismo</I>, sem precedentes. O corpo deixa de ser apenas natureza primeira    para se tornar um grande campo experimental das visões, das esperanças e expectativas    mais elevadas e das fantasias mais prodigiosas. De corpo espontâneo, esquivo,    insubmisso, resistente e natural ele evoluiu paulatinamente para corpo intencional,    obediente, conhecido, dócil e artificial, lavrado, colonizado, transfigurado    e edificado pelas mais diversas culturas. Um <I>narciso</I> à medida dos desejos    e aspirações, das metáforas e utopias, da função e necessidade, tanto na superfície    como na profundidade. </P>       <P >Isto é, os exércitos      de conquistadores, impulsionados pela ciência, pela tecnologia e por outros      instrumentos e corporações de interesses em moda, focalizam a sua atenção      no corpo e este deixa de ser tolerado como algo natural, fruto do destino      e do acaso. Torna-se um artefacto. </P>       <P >Em suma, a tentativa      de manipular o corpo, de o tornar disponível para os fins e desejos eleitos,      faz parte de um projecto, estabelecido sobretudo pela modernidade, a partir      de Rousseau e de Descartes e dos caboucos que eles abriram à cultura, à ética      e à moral, à ciência, visando a liberdade do homem e o domínio total da natureza.</P>       <P >Sim, o corpo e a ideia de o fazer, melhorar e      modelar estão na moda, tal como escrever e desenhar nele, perfurá-lo e adorná-lo      com os mais estranhos adereços e tatuagens. O corpo transfigura-se - e transfigura      o sujeito - através dos sinais que o atravessam e das formas que reveste.      Deste modo os corpos, desejosos de ser outros, são cada vez mais corpos simbólicos,      expressam e representam outra identidade; neles o ideal passa a ser factual.      </P>       <P >A publicidade assume      neste quadro o papel de promotora de signos, visando construir uma <I  >hiper-realidade</I> e determinando que o virtual      seja mais concreto do que o real. Consagra-se o triunfo do mundo da representação      através de imagens e simulações de fantasias associadas a beleza e juventude.      É imperioso ser mais moderno do que o moderno, mais jovem do que o jovem,      estar mais na moda do que a própria moda.</P>        <P >Nesta nova urbe as pessoas rompem com padrões de regulação social que vinculam    os estilos de vida a grupos, a faixas etárias e a outras normatividades. O estilo    de vida nela vigente cumpre uma função de comunicação; os bens materiais e os    hábitos e rotinas do dia-a-dia não são usados como utilidades, mas sim como    comunicadores. Roupas, corpos e caras lembram-nos um mundo do faz de conta,    falam de um outro lado da vida, ou, se preferirmos, configuram um lado imaginário    da mesma. Uma vida que se revê na saúde, na beleza, na inovação, na eterna juventude,    na estética. [<a name="top17"></a><a href="#17">17</a>] Na nova cidade ninguém    é jovem, porque toda a gente o é ou procura ser pelos anos fora, através da    encenação do modo de viver. Isto é, as pessoas manifestam um interesse crescente    pela estilização e remodelação da sua vida, procurando enfatizar e modificar    a identidade, a aparência, a apresentação do Eu. Os adultos não querem envelhecer,    teimam em suspender a idade e em rejeitar a maturidade que a devia caracterizar.    A remodelação da identidade é, pois, um objectivo permanente, paradoxalmente    ligado à conservação e exibição de uma amostra de duradoira e desapontante infantilidade.</P>        <P >Ao encontro desta tendência vem o facto das sociedades ocidentais se terem    tornado progressivamente um campo de intervenções realizadas por peritos credenciados    e apostados em impor o primado do valor da racionalidade científica e tecnológica    em todas as áreas, inclusive no corpo. No caso deste, os respectivos especialistas    crescem em torno de um discurso acerca da diabolização dos perigos do tipo de    vida urbano, causador do aumento da densidade física e do decréscimo da densidade    moral dos indivíduos, apontando como remédio a mobilização geral contra o sedentarismo    e a hipodinamia, através da promoção do desporto e, particularmente, da indefinida    e conceptualmente aberrante ‘actividade física’. [<a name="top18"></a><a href="#18">18</a>]    Com isto veicula-se a certeza de formar o corpo e o carácter, servir a saúde    e melhorar a produtividade, a felicidade e a moralidade. Ou seja, assiste-se,    como refere Hugo Lovisolo, a um poderoso movimento ideológico e económico que    leva o <I >activismo físico</I> “a ser uma preferência na vida moderna juntamente    com um estilo esportivo no modo de se vestir, alimentar, construir e operar    com o corpo e na organização e prática do lazer”. </P>        <P >Consequentemente “os especialistas passaram a formular propostas de intervenção    nesse mundo amplo e diferenciado: regime alimentar e de sono, roupas, cosméticos,    atividades corporais, recreação, sexo e tantas outras esferas de atividades    foram reguladas por suas intervenções geralmente fundamentadas em conhecimentos    ditos científicos”. [<a name="top19"></a><a href="#19">19</a>] </P>        <P >O frenesim neo-higienista e intervencionista socorre-se da divulgação de listas    alarmantes de factores de risco, convida toda a gente a mexer-se, correr, caminhar,    andar e subir escadas, em vez de utilizar o automóvel e o elevador; vende a    ilusão de que cada um pode ter o corpo que escolher e a saúde que construir.    Para tanto apregoa-se e comercializa-se o ‘exercício’ e o ‘treino’ do corpo,    se necessário, com recurso ao complemento de regras dietéticas e operações cirúrgicas;    os ‘health centers’, ‘spas’ e ‘academias’ proliferam em todo o lado, oferecendo    fórmulas sagradas de vida feliz e saudável, em programas feitos à medida dos    desejos e da necessidade, da idade, sexo, peso e altura. [<a name="top20"></a><a href="#20">20</a>]  </P>        ]]></body>
<body><![CDATA[<P >O intervencionismo vai mais longe, assumindo laivos de perseguição e foros    de cruzada, com feições e implicações apontadas por Hugo Lovisolo: “Os desvios    corporais de peso, em relação aos padrões considerados normais, e em especial    a obesidade ou gordura, tornaram-se um inimigo combatido por uma forte aliança    de interesses, abrangendo desde o Estado, as companhias seguradoras, a indústria,    os profissionais da área da saúde, (...), as diversas organizações e profissionais    participantes do que poderíamos denominar movimento pela saúde. (...) A obesidade,    a inatividade corporal e o fumo são os grandes inimigos do movimento que aposta    na saúde (...) O valor da saúde (...) expande-se pelo mundo, associado numa    esportivização da cultura” e dos estilos de vida. “Trata-se, no seu sentido    mais amplo, da construção de ‘eus’, de identidades individuais ou subjectividades    nas quais os novos complexos de relações com os corpos passaram a ser centrais    e integrantes, portanto, do nosso cotidiano”. [<a name="top21"></a><a href="#21">21</a>]  </P>       <P >Esta apreciação não é uma lucubração visionária;      ao invés, tem os pés bem assentes no terreno da conjuntura. De todo o lado      surgem ordens e sinais a mandar exorcizar e expulsar o gordo ou a gorda, potencial      ou real, que há em nós. Para que a beleza da magreza se liberte desse espartilho      e o magro possa nascer e circular sem peias.</P>       <P >&nbsp;</P>        <P ><B  >CORPO CONSUMIDO E CONSUMIDOR</B></P>        <P   ><b>Primeiro</b><I >:</I></P>       <P  >Pode parecer,      mas não é de agora; é de ontem e de hoje, de todos os tempos e lugares, de      todos os contextos culturais e civilizacionais: o investimento no corpo, a      concepção, projecção e configuração das suas formas e potencialidades, segundo      ideais, ditames e interesses em vigor nas relações e circunstâncias sociais,      sempre estiveram em curso.</P>       <P  >É certo que      na actualidade estão manifestamente em alta a elaboração e a prescrição de      programas, manuais, cuidados, dietas, medidas e estilos de vida, com certificado      de rigorosa cientificidade e garantia de absoluta infalibilidade, para produzir      corpos belos e esbeltos, activos e ágeis, esguios e livres das amarras e enfados      da gordura. Esta não é mais o antigo sinónimo de santidade para devotos inflamados,      nem de beleza e abundância económica e material para noivos incautos ou gananciosos.      Todavia o corpo nunca foi um espaço neutro e espontâneo, esquecido ou ignorado      pelos inconformados com a realidade e desejosos de concretizar a concebida      virtualidade. Sobretudo a partir da vinda da modernidade e das respectivas      ciência e tecnologia e da abordagem transformadora da natureza que elas instauraram.</P>       <P  >O que desta      feita entra pelos olhos dentro - dos que não estão desatentos à realidade      e à sua evolução - é o <I >novo tipo de      intervenção no corpo</I>: uma tentativa de <I  >controlo sem precedentes</I>, levado até aos      mais ínfimos aspectos. Também aqui se revela a manifestação particular de      uma tendência mais geral, que é a de serem controlados todos os nossos actos      e passos, já não somente os públicos, mas inclusive os privados. Os sinais,      factos e leis de regulamentação, fiscalização e punição do que podemos e devemos      ou não fazer mostram-se e estendem-se cada vez mais, abarcando aquilo que      é do foro íntimo e pessoal. O espaço de manobra e assunção plena das nossas      decisões é crescentemente condicionado e cerceado. Há em toda a parte fixações      e indicações, meios áudio-visuais de observação e registo e agentes vigilantes,      sempre prontos a impor-nos o que é tido por certo e correcto e a atribuir      penalizações ou admoestações pelos comportamentos considerados inconvenientes,      errados e inadequados. Quem sabe se até os nossos sentimentos não serão esventrados      dentro em breve?!</P>       <P  >Para favorecer      a adesão a este clima, agitam-se medos e fantasmas, pavores e inseguranças,      ameaças de perigos, riscos e mesmo terrores susceptíveis de nos forçarem a      assumir uma nova maneira de lidar com a corporalidade. Goste-se ou não desta      afirmação, estamos a conviver com um ambiente exagerado de crenças e promessas      de domínio e poder sobre a nossa existência corporal. Isso convém obviamente      aos interesses do mercado neoliberal, tornando o nosso corpo um lucrativo      pólo de investimento, de criação e prestação de serviços e responsabilizando      cada um pela obrigação de tomar a seu cargo o bem-estar e destino pessoais.      Ao cabo e ao resto, o corpo não escapa às marcas, ajustamentos e conveniências      do consumo.</P>       <P  >Por outro      lado, não se pode esquecer que as crenças são filhas de visões e ilusões sumamente      apetecidas. Por isso é legítimo perguntar se somos tão capazes e estamos realmente      a conseguir controlar e moldar o corpo tão rigorosamente quanto se acredita      e diz. Ou se isto é apenas expressão da ânsia de segurança que nos assalta      em várias frentes. Como quer que seja, é evidente que alastra e se generaliza      o discurso acerca do dever obrigatório, firme e irrecusável de cuidarmos do      corpo e que isto concentra atenções e ocupa um espaço mais amplo do que em      épocas anteriores. Contudo e paradoxalmente este esforço não nos torna mais      seguros, antes expressa uma constância da preocupação em relação às fintas      e rasteiras que o corpo nos pode pregar em qualquer instante. </P>        ]]></body>
<body><![CDATA[<P   >Assim sendo, é muito questionável se estamos a alargar o raio da nossa liberdade    individual, se o nosso corpo viu ampliado o leque de escolhas e possibilidades    e reduzido o espartilho dos vínculos e apertos antigos. Ou se, pelo contrário,    tudo não passa de uma impressão de liberdade acrescida e estamos a substituir    os velhos condicionantes por outros ditados por ganâncias, necessidades e interesses    emergentes. Por outras palavras, para o corpo como para o resto são-nos recomendadas    e prescritas escolhas incessantes, provisórias, precárias, frouxas e fugidias,    a toda a hora revogáveis e trocadas por outras, fazendo com que a liberdade    e a restrição das nossas decisões assumam um equilíbrio instável e aparente.    Afinal, como é que se conciliam o direito e o dever individuais de controlar    o corpo? [<a name="top22"></a><a href="#22">22</a>] </P>        <P   ><b>Segundo:</b></P>       <P  >Uma análise      atenta da conjuntura revela, à saciedade, que o corpo (seja na versão de ‘consumido’,      seja nas de ‘consumista’ ou ‘consumidor’) é claramente um distintivo, objecto      e alvo de interesse da sociedade de consumo. Como tal é um palco preferencial      da onda da incessante reformulação da identidade e da exibição da tão incensada      novidade, ambas alimentadas, entre outros factores, pela agitação, pelo uso      e abuso, empolamento e exploração constantes do vasto e ‘valioso’ capital      de inseguranças e medos. Consequentemente a insana busca ou <I  >jihad</I> (na expressiva terminologia de Zygmunt      Bauman) pela imagem, forma, condição e aptidão corporais ideais - nunca de      todo atingidas e atingíveis - desperta enorme fervor e encaixa, de maneira      perfeita, na lógica do mercado. </P>        <P   >É neste ponto que urge separar as águas: uma coisa é a saúde, outra é a doença    da obsessão em modificar a superfície ou a profundidade corporal. O corpo ‘consumido’    tornou-se auto-télico, a imagem um deus, as rugas uma contravenção, a gordura    e a obesidade um pecado mortal, a celulite um descaso, a dieta uma religião    e a exercitação (sobretudo a musculação) um ritual de penitência e expiação    obrigatórias. O bom senso parece ser perdido à medida que cresce a obstinação    dos adultos em fabricar e manter a eterna juventude e em livrar-se ou evitar    o aparecimento dos incontornáveis e tão estigmatizados e infernizados sinais    de velhice. Ora isto não é sensato e natural. Tudo convida a gastar tempo, esforço    e recursos com o artificial e supérfluo; nada sobra para investir na cultura    e sabedoria da vida. [<a name="top23"></a><a href="#23">23</a>] </P>       <P  >De resto o      cultivo hodierno do corpo segue e desvirtua a linha aberta pela ciência da      modernidade. Confirma e expressa o aprofundamento da destruição do sagrado      e do eterno. A entrega total ao <I >aqui      e agora</I> e a absolutização e comunhão da máxima <I  >carpe diem</I> não deixam espaço para o transcendente;      retalham os grandes problemas e conduzem à concentração em assuntos de menor      escopo, que podemos abordar, tentar controlar e resolver e não se espraiam      aparentemente para além da nossa existência. Ademais, na voracidade da mudança      e no golpe mortal desferido no valor da durabilidade, a longevidade corporal      surge como a única identidade com expectativa de aumento progressivo. É, pois,      mais rentável investir na vida corpórea do que em causas eternas, actualmente      em situação de declarada falência; tudo o que não seja apostar no prolongamento      da existência física individual parece, portanto, um mau e desaconselhável      negócio. </P>        <P   >O mesmo é dizer que caiu em desuso o projecto de construção da ponte entre a    brevidade da nossa vida e a eternidade do universo, árdua e laboriosamente empreendido    durante milénios em todos os contextos culturais. Deste jeito é também abandonada    a reflexão filosófica acerca da ideia da verdadeira felicidade, resultante da    associação dos nossos actos e práticas a ‘coisas’ maiores e mais duradoiras    do que o trajecto corpóreo – e que este não contém. [<a name="top24"></a><a href="#24">24</a>]  </P>       <P  >No corpo (do)      ‘consumidor’ é semeada e zelosamente cultivada, regada e adubada uma ansiedade      permanentemente insatisfeita com a duração e validade temporais dos resultados,      convidando assim a ambicionar, visar e atingir uma sucessão ininterrupta de      metas parciais, precárias, transitórias e portanto carecidas de reformulação      e renovação infindas. O guião é inequívoco: nada está ganho para sempre; é      preciso exercitar todos os dias, sob pena de regredir. Até porque a ‘boa forma’      é um ideal inatingível, já que ela se vincula a um esforço persistente, contínuo      e inconcluso, porquanto a sua essência reside no determinismo de que é necessário      substituí-la por outra sempre nova, à medida que a anterior se gasta e caduca.      Ou seja, a ‘boa forma’ exclui os limites e um padrão plenamente estipulado,      nunca se alcança de todo, uma vez que tem imanente a noção de que é sempre      possível melhorá-la e resvala para a ‘má forma’, quando esse intento é abandonado.      Logo a procura da ‘forma’ não concede descanso e não tem fim, implicando uma      norma sem tecto, um chão que ninguém pisa, uma via e escada compulsórias e      geradoras de dependência, semelhante à resultante de uma droga viciante. Cada      dose de consumo conduz à seguinte, numa escalada ininterrupta. Por outras      palavras, a luta pela ‘boa forma’ e pela imagem acabada nunca está, nem pode      ser ganha de todo, havendo sempre pela frente uma batalha de desfecho incerto.</P>       <P >&nbsp;</P>        <P ><B >EXERCITA&Ccedil;&Atilde;O, RELIGI&Atilde;O E ALIENA&Ccedil;&Atilde;O</B></P>       <P >Correndo o risco de ser excessivo, oferece-se      propor que não devíamos descartar a hipótese de, no movimento do exercício,      do activismo ou da aptidão física, haver indícios de religião, fundamentalismo,      fanatismo e alienação. Com efeito não faltam os ‘viciados’ em ‘malhação’ muscular,      em ‘actividade física’ ou ‘ginástica aeróbica’, que se entregam de modo obsessivo      e devotado à tarefa de ‘reforma’ ininterrupta do seu corpo. Os ‘especialistas’,      quais inflamados e mandatados sacerdotes ou delegados de propaganda médica,      abençoam, apregoam e comercializam esse produto em nome de fins de purificação,      enquanto a gananciosa e nada ingénua sociedade de consumo e consumidores lhes      pisca o olho, esfrega as mãos e bate palmas de contentamento. Também aqui      os ventos sopram a favor dela.</P>       ]]></body>
<body><![CDATA[<P >Vem muito a propósito recordar que os <I  >taliban</I>, quando tomaram Cabul em 1996,      nomearam um vice-ministro para a <I >Promoção      da Virtude e a Prevenção do Vício</I>, que punia publicamente os ‘desvios’      com lapidações, enforcamentos e decapitações. E igualmente não é de olvidar      a célebre chamada de atenção de Martinho Lutero (1483-1546): “A medicina cria      pessoas doentes, a matemática pessoas tristes e a teologia pecadores”. Agora      tudo parece fundir-se no mesmo resultado. <I  >Mutatis mutandis!..</I></P>       <P >Há certamente unilateralidades e parcialidades,      quiçá algum excesso, nas tintas desta análise; mas exagerar é uma maneira de alertar, de      mostrar contradições, insuficiências, superficialidades e derivas numa conjuntura      corporal que acentua, enfatiza e concede a primazia ao culto das dimensões      biológicas e da aparência e ignora quase por completo os outros valores.</P>       <P >Importa, sobretudo, que nos interroguemos se não estamos possuídos      de uma mentalidade – ou a colaborar na sua construção – que vê em tudo ameaças      à integridade corporal. No sol, na comida, na bebida, nos temperos, no descanso,      no sexo, no tabaco etc, em tudo vemos maus agoiros e prenúncios, coisas hostis      e nocivas ao corpo. Perspectivamos assim a vida como um ambiente cheio de      malefícios assustadores e terrificantes que só podem ser vigiados, contidos      a alguma distância e impedidos de invadir o território corporal, fechando-o      ao convívio com o envolvimento e opondo a tudo quanto deste provém a barreira      de um <I >activismo</I> sem pausa e sem      medida. Porventura sem o querer, estamos a afirmar e evidenciar a grande vulnerabilidade      do corpo. Em vez de o celebrar e festejar como um território de esperança,      estamos a desconsiderá-lo e a mortificá-lo, a desconfiar dele, a chamar a      atenção para a sua extrema debilidade e para as traições e partidas que ele      nos pode pregar, sem o mínimo aviso. Enfim, eis a surpreendente e legítima      constatação, os conceitos negativos acerca do corpo sobrelevam hoje, de longe,      os positivos. </P>       <P >Tudo isto prova que a ambiguidade e ambivalência tomaram conta de nós. É assaz diminuta ou quase nula      a capacidade para traçar, com nitidez e razoabilidade, a ténue linha de separação      entre a norma e o excesso, para distinguir e decidir aquilo que nos convém      e aquilo que nos prejudica, o que faz bem e o que faz mal, o que é natural      e bom e o que é artificial e mau. Perdeu-se o sentido da harmonia, do equilíbrio      e das proporções; a vida torna-se inodora, insípida e monocromática, ao proclamar      e colorir tanto o desejo de a&nbsp; regular,      fiscalizar e unifirmizar e ao diminuir o sal que lhe dá tempero e gosto, saber      e sabor, significado e sentido. </P>       <P >O desconcerto e a indefinição, a insegurança e o temor daí advenientes      tomaram posse de nós e comandam os nossos passos. Da dúvida e do medo, como      essência e como uma fonte de alerta, prudência, estímulo, sabedoria e qualificação      da acção, resvalamos para rituais de auto-flagelação e anulação, para jogos      de simulação e engano. Fica claro que não sabemos ainda balizar a liberdade,      seja no geral, seja no caso particular do corpo e dos aspectos a ele concernentes.      Ciclicamente regressamos ao ponto de partida, inventando novos pretextos para      patentearmos a nossa incompetência e frustração. </P>       <P >Enquanto noutros domínios o terrorismo é um pesadelo iminente ou latente,      no corpo e nos acréscimos de peso e centímetros na cintura a gordura representa      a derrota da desatenção ao estilo de vida pessoal e das defesas somáticas,      o fracasso da vigilância, o terror concretizado, a vitória deste, a invasão,      a anexação e usurpação das nossas existências por inimigos traiçoeiros. </P>       <P >Eis assim aberta a frente de uma nova e apelativa batalha, que somos      intimados, pelas mais diversas e respeitáveis organizações, a travar nas próximas      décadas. Como em todas as outras guerras, muitas sem aviões, tanques e bombas      à vista, também nesta há quem acumule ingentes proveitos, quem seja louvado      e santificado e quem seja admoestado, exorcizado e crucificado. E há igualmente      uma linha de fronteira, um novo tipo de insidiosa discriminação ou divisão      de barreiras ou classes sociais: magros/gordos, belos/feios, jovens/idosos      etc. Mais, os magros, secos, mirrados e escanzelados, por cumprirem os preceitos,      bulas e exigências da exercitação e regulação, passarão a ocupar os altares      cimeiros e sagrados do reconhecimento e adoração; os gordos e obesos, por      serem profanos e inferiores, relaxados e indolentes, desnecessários e indesejados,      desleixados e pecaminosos, falhados, sem mérito para superar os seus vícios,      incapazes de agir da forma como se espera que ajam, de todo inúteis e por      driblarem as prescrições e metas da <I  >Tora</I> do emagrecimento, serão denunciados      e perseguidos e arderão no inferno da nova e reeditada inquisição. Para estes      infractores da lei e da ordem, tolerância zero; o seu lugar é fora e longe      das nossas vistas! </P>       <P >Quando as noções e considerações éticas são abandonadas, descuradas      ou silenciadas, a empatia em relação aos outros (particularmente os frágeis,      humilhados e marginalizados) extingue-se e as barreiras morais conhecem a      derrocada. Amalgamadas na indiferença moral, as receitas e soluções da racionalidade      técnica e as ambições e motivações da voracidade consumista formam uma mistura      explosiva. À semelhança do que sucede nos outros campos, igualmente no <I >activismo      físico</I> o número dos <I  >danos colaterais</I> está notoriamente em      ascensão. </P>       <P >Nisto não há exagero algum. Convém ter presente que o corpo, por ser      um material e terreno de enorme plasticidade e visibilidade, é alvo fácil      e benquisto para implementar a tentação e a estratégia de registo, domesticação      e acompanhamento de todos os nossos passos. Isto é, pode treinar-se bem nele      o controle que hoje a tecnologia possibilita e a ausência de sensatez e de      um pensamento filosaficamente bem fundado – e por isso néscio e sem escrúpulos      - não põe em causa. Desta sorte a intervenção no corpo é percursora ou reveladora      de novos mecanismos e instâncias de censura e constrangimento sociais que      acabarão por visar destinatários atinentes ao que podemos ver, ouvir, ler      e a outras necessidades vitais e existenciais. </P>       <P >Ou será que o ânimo controlista se dá por satisfeito exclusivamente      com o corpo? Não parece. Até onde isto nos levará, quer na normatização e      conformação do corpo, quer na de tudo quanto perfaz a nossa vida? Será que      a norma da saúde passará a habitar paredes meias, quando não em comunhão de      bens, com a demência, insanidade e loucura? </P>       ]]></body>
<body><![CDATA[<P >Há razões para admitir que já não é a ‘saúde’, na amplitude do seu      conceito, a presidir às apostas de aplicação no corpo; ela é o motivo invocado,      certamente válido, mas não é a causa genuína, nem tampouco a finalidade principal      que determina a onda expansionista em curso. Dir-se-á, com algum e bastante      fundamento, que é a estética. Mas... qual ‘estética’: a do gesto <I  >belus</I> e <I  >bonus</I>, a da beleza e bondade, da promessa      de felicidade? </P>       <P >Isto requer reflexão conexa e profunda e não formulações aligeiradas.      Até porque em assuntos de tamanha complexidade não há respostas simples e      fechadas. É preciso lançar ideias formadas à luz de conhecimentos tão científicos      quanto possível. Mas sem esquecer que os cientistas têm crenças e são sacerdotes      delas; isto é, os conhecimentos, por maior que seja a sua cientificidade,      não conseguem alijar aquela circunstância. Assim há que ser mais humilde e      menos convencido e peremptório no receituário e apologia de propostas de acção.      A questão do sentido da vida deve orientar a elaboração de fórmulas para a      sua concretização em todos os campos.</P>       <P >Seja como for, aquilo que se passa no tocante ao corpo, ao seu <I  >design</I> e modelação, ao combate à inactividade      e ao ambiente obesogénico, à formulação, apresentação, recomendação e consumo      de dietas, de cuidados, serviços e medidas afins serve de paradigma para ilustrar,      de maneira nítida, a dualidade dos critérios que balizam o esboço da condição      humana na sociedade de mercado neoliberal e do respectivo consumo. O relativismo      de princípios e valores é assaz patente.</P>       <P >&nbsp;</P>        <P ><B >IRRACIONALIDADE E SERVID&Atilde;O</B></P>        <P >Como se referiu atrás, o presente clima de desamparo existencial, de debilidade,    instabilidade, exclusão e desintegração social constitui um <I >habitat</I>    favorável à instauração e progressão de uma política, de uma indústria e de    um comércio de utilização da insegurança e do medo. [<a name="top25"></a><a href="#25">25</a>]  </P>        <P >Zygmunt Bauman caracteriza a sociedade pós-moderna e ‘líquida’ de consumidores    como uma “sociedade incerta acerca da sobrevivência de seu modo de ser”; o que    a leva a desenvolver uma “mentalidade de fortaleza sitiada” e a ver como “inimigos    que cercam suas muralhas” os seus próprios “demónios interiores”, ou seja, “os    medos reprimidos e ambientes que permeiam a vida diária, a ‘normalidade’, mas    que, para tornar suportável a realidade diária, devem ser esmagados e empurrados    para fora da cotidianidade vivida e fundidos a um corpo estranho – um inimigo    tangível dotado de um nome, um inimigo que se possa enfrentar, e enfrentar novamente,    e até esperar vencer”. [<a name="top26"></a><a href="#26">26</a>] </P>        <P >Paradoxalmente ou talvez não, em vez de tentarmos delimitar e erradicar as    causas dos problemas, injustiças e angústias, somos ‘preparados’ e instrumentalizados    para dar o aval a soluções que prometem ‘reduzir’ a probabilidade de sermos    vítimas dos incontáveis perigos que ameaçam a nossa segurança e a dos que nos    são próximos ou familiares. À conta de protecção e em nome do pretenso ataque    ao terrorismo real ou imaginário, aceitamos a limitação, a redução e a revisão    dos direitos individuais e sociais, a imposição de restrições, as medidas de    repressão etc. Fingimos ignorar ou ignoramos mesmo que isto aumenta a insegurança    e serve os interesses de quem medra nela; esquecemos que a perversa abertura    e entrega dos países ao apetite insaciável do mercado, imposta por esta globalização    negativa, é por si só a causa principal da injustiça e, por via disso, do terror,    da violência e conflitos pendentes. [<a name="top27"></a><a href="#27">27</a>]  </P>       <P >Mais, o demónio sinistro do medo e do vazio existencial      é agitado para atrair a nossa atenção para aspectos da vida cujos riscos –      assim nos leva a acreditar a razão ou a manipulação - podemos influenciar      ou minimizar. Deste modo somos dirigidos para alvos substitutos sobre os quais      descarregamos os medos excedentes e sobrantes do definhamento dos vínculos      laborais, da previdência e segurança sociais, da protecção de roubos e assaltos      etc. Povoados de ansiedades, somos intimados a reconhecer e vigiar sintomas      de doenças aterradoras, a tomar cuidados e precauções e a adoptar regras e      comportamentos para combater o stress, a pressão alta, as taxas elevadas de      colesterol e diabetes, a evitar comidas gordurosas e a ingestão de calorias      em demasia, o sexo sem preservativo, a inalação de fumo, a encurtar a exposição      ao sol, a beber muita água e ser moderado no consumo de outras bebidas, sobretudo      das alcoólicas - e não sei quantas coisas mais. </P>       <P >Ou seja, o progresso científico e tecnológico      e a melhoria das condições de vida tornaram-se uma ameaça para esta, ocasionando      fantasmas, desconfianças e reservas e a necessidade de a submeter a nova ordem.      É como se, para vermos e nos mantermos vivos, tivéssemos que prescindir da      visão das cores, amputar a própria vida ou sacrificar uma dimensão essencial      dela. Obviamente para nosso bem, conforto e conveniência!</P>       ]]></body>
<body><![CDATA[<P >Contra isto insurge-se Vasco Pulido Valente num      texto intitulado <I >Por bondade</I>, a      propósito da proibição de fumar em restaurantes. Atente-se nestes excertos:      “Isto não anuncia nada de bom. Por um lado, porque fatalmente à campanha contra quem fuma se vai seguir a      campanha contra quem bebe e a campanha contra quem come o que não deve ou come demais. E talvez, mais tarde, a campanha contra o ‘sedentarismo’      e a falta de exercício. Não custa nada argumentar com as doenças que o álcool e a gordura provocam (tantas como o tabaco), ou retirar do mercado ‘produtos de risco’, ou vigiar o que os restaurantes servem. Por outro lado, já se viu que o poder do Estado para converter a populaça ao objectivo tenebroso de ‘melhorar o homem’ é hoje ilimitado. A metamorfose das democracias do Ocidente em totalitarismos de uma nova espécie não incomoda ninguém. Não uso a      palavra descuidadamente (não uso, de resto, nenhuma palavra descuidadamente):      para Hitler (que não fumava, nem bebia), o alemão perfeito não andava muito      longe do perfeito espécime do Ocidente contemporâneo.</P>        <P >Imagino muitas vezes quem, de facto, quererá este mundo sufocante <I>e </I>asséptico,    obcecado com a ‘saúde’? Gente, como e óbvio, com pouca imaginação. Por mais    forte que seja<I> </I>o culto e a idolatria do corpo, a velhice chega. E, com    ela, a irrelevãncia, a obsolescência, a solidão. Esta sociedade de velhos trata    muito mal os velhos. A ideia (e <I>a </I>propaganda) de uma adaptação contínua    e<I> </I>uma grande e<I> </I>cruel mentira. Os velhos são um embaraço. Um peso    que se atura, que se arruma num canto, que <I>se </I>mete num ‘lar’. Setenta    anos de esforço para durar acabam num limbo à margem da verdadeira vida, quando    não acabam no sofrimento e na miséria<I>. </I>O Ocidente está a criar um inferno.    Por bondade, claro”. [<a name="top28"></a><a href="#28">28</a><a href="#28"></a>]  </P>       <P >(Em jeito      de parêntesis, vale a pena introduzir aqui um alerta. Os sistemas autoritários lançam desta arte os seus      alicerces: sendo maus no geral, apoiam-se na aceitação e agrado, no populismo      e demagogia de algumas medidas isoladas, tidas por boas; ou seja, começam      por atacar grupos sociais menos populares e hábitos mais questionáveis, concitando      assim o aplauso da maioria, para depois irem estendendo, passo a passo, as      suas ramificações e tentáculos). </P>        <P >Vasco Pulido Valente retoma o assunto num texto com o não menos pertinente    título <I  >Uma questão política</I>. [<a name="top29"></a><a href="#29">29</a>] Após insistir    na questão das campanhas contra o tabaco e o álcool, volta-se para o tema da    comida, da obesidade e exercício físico. Dão muito que pensar estas elaborações:    “<I >A obesidade também é uma questão política</I>. Política, reparem. E é bom    parar para uma pergunta: por que razão diz respeito aos Estados a obesidade    do sr. A ou da sra. B ou mesmo de uma parte considerável da plebe democrática?    Porque há tese, aliás controversa, de que morrem mais cedo (doenças cardiovasculares,    renais, diabetes, vários tipos de cancro)? Porque gastam mais dinheiro ao sistema    de saúde (embora com certeza poupando à segurança social)? Ou porque os governos,    levados por um irresistível sentimento estético e um novo zelo pelo seu prestígio    internacional, não querem a paisagem desfeada por gordos, nem a presença comprometedora    de gordos na televisão?</P>        <P >Não me parece que a verdadeira explicação esteja principalmente aí. Beber    ‘bem’ (mas não muito), comer pouco e só o que a medicina indica, ser magro (e,    por consequência, ‘bonito’) e fazer exercício com regularidade acabou por se    tornar uma distinção de ‘classe’. Uma distinção que separa os ‘ricos’ dos ‘pobres’    (que não frequentam um nutricionista) e os poderosos dos metecos (não por acaso    o primeiro-ministro insiste em correr meio nu pelo mundo inteiro). Como antigamente    o ouro, a prata e as rendas separavam a opulência da miséria, o corpo e a saúde    são hoje um sinal e um símbolo de superioridade. E, pior ainda, um meio de promoção    social. (…) <I >A obesidade é uma questão política</I>. Para nossa desgraça”.    [<a name="top30"></a><a href="#30">30</a>] </P>       <P >Contra estas      considerações poderá argumentar-se que contêm exageros manifestos e também      alguns e não desprezíveis enviesamentos na análise e na enunciação das causas      e implicações. Que o autor se serve de um álibi para ignorar ou contornar      a <I  >‘ética do cuidado’</I> de si e dos outros,      proclamada por Martin Heidegger (1889-1976), libertando assim cada um e, tão      ou mais grave, o Estado de cumprir a sua parte, no geral e no particular.      E que, por esta via, desculpa, branqueia e favorece, premeditadamente ou não,      comportamentos de incúria, laxismo, desleixo, abandono e descuido, de imoderação,      incontinência e desobrigação, desbragamento e abestalhamento, de irresponsabilidade,      frouxidão e moleza, propícios à progressão da vileza, do grotesco, do imundo      e desproporcionado e contrários ao dever de perseguir, com brio e coragem,      a busca da melhoria, da virtude, da perfeição, da estética, da excelência      e <I  >areté</I>.</P>       <P >Não é de      ignorar que na proclamação de cuidados e cautelas - em relação aos seus contrários      - conflui igualmente o <I  >princípio </I>e <I  >imperativo da responsabilidade</I>, enunciado      por Hans Jonas (1903-1993). Na falta de virtude e sabedoria, este filósofo      recomenda o uso do medo como método heurístico para conhecer e apreciar o      bem, com o intuito de sair das bandas da ignorância e da imprudência, de prever      e evitar o pior; e assim&nbsp; converte      aquele postulado numa espécie de ética. Do mesmo teor é a posição de Jacques      Rancière, pensador pós-marxista, que vê o medo como aliado e <I >cúmplice      da razão</I>, como meio de tomar consciência dos desequilíbrios, desordens,      desregulações e ameaças e como princípio natural das sociedades, coadjuvando      na substituição da brutalidade e do caos dos factos negativos e reprováveis      pela estética das ficções positivas e desejáveis. </P>       <P >Ou seja,      o medo é um sentimento vital, uma fonte de conhecimento e esclarecimento,      um estímulo enérgico, predisponente e produtivo e um motor da vontade e da      acção para prevenir e proteger de riscos, para originar efeitos bons e diminuir      e corrigir males. Nesta conformidade constitui um dever antecipar e apontar      ao máximo os perigos imersos nos mais distintos comportamentos, assim como      provocar um <I >temor adequado</I> a essa      representação. Adequado, justo e equilibrado, note-se bem!</P>        <P >Mas isto não se compagina com posições e maquinações tendentes a perverter    e transformar os receios em terror e pânico, a romper com “toda a possível mediação    entre medo e razão”, a criar um florescente mercado de medicamentalização, amedrontamento    e policiamento das vidas, a aumentar a incerteza, angústia e fobia, a sensação    de vulnerabilidade e dependência dos sujeitos, ao invés da pretensão iluminista    da sua emancipação. Porque este clima gera “a ausência de um sentido para a    civilização” e a impossibilidade de imaginar o futuro. Acima de tudo joga o    homem “para fora do ser sem o saber”, diminui-lhe a capacidade de autonomia.    Ao subtrair-lhe a condição e vocação de “ser-para-a-liberdade” induz a sua sujeição    à desnaturação, humilha-o e rebaixa-o para o estado de decadência e obediência    que engendram nele a adesão à <I >servidão voluntária</I>, isto é, a uma deprimente    e “estranha síntese, impensável conjuntura, inominável realidade”. [<a name="top31"></a><a href="#31">31</a>]  </P>        <P>Esta situação convida-nos a desconfiar do recurso grosseiro ao alvoroço do    veneno do medo e a recusar o seu aproveitamento como estratégia e ferramenta    da actuação política ou outra. Porque, diz Luc Ferry, “para viver bem, para    viver livremente, com alegria, generosidade e amor, precisamos, antes de tudo,    vencer o medo – ou, melhor dizendo, ‘os’ medos, tão diversas são as formas do    Irreversível”. [<a name="top32"></a><a href="#32">32</a>] E Bento (Baruch) de    Espinosa (1632-1677) alinhava por igual diapasão, com a alusão de que o sábio    “morre menos que o tolo” e com esta certeira advertência: governada pelo medo    e pela alienação a sociedade torna-se solidão e barbárie, <I  >cidade de escravos</I>, onde os cidadãos são bons e honestos à medida do temor    e da tristeza que sentem. Com isto coincide, na perfeição, a célebre proposição    de Montesquieu (1689-1755), vulto cimeiro do Iluminismo francês: “Como o princípio    do despotismo é o medo, o objectivo é a tranquilidade; mas isto não é absolutamente    uma paz: é o silêncio das cidades que o inimigo está prestes a ocupar”.</P>        ]]></body>
<body><![CDATA[<P >Entendamo-nos, sem equívocos: o medo não é negativo, nem tampouco vergonhoso;    “a vergonha está em construir uma política que usa o medo para dominar”. Ninguém    de sã consciência, de esclarecida razão e recta intenção pode aceitar e conformar-se    a um estado de manipulação e terrorismo psicológico. Pelo que, como lembra Adauto    Novaes, temos que retomar o sonho da filosofia para penetrar nas causas do medo,    com o intuito de o fazer desaparecer e desmistificar os ganhos ilusórios que    dele decorrem. O desafio não é pequeno, porquanto “o primeiro passo consiste    em desfazer-nos do próprio tipo de sociedade que cultiva o medo e o terror”.    [<a name="top33"></a><a href="#33">33</a>] </P>        <P >Por conseguinte temos que evitar maniqueísmos, cultivar a serenidade, situar-nos    no meio-termo e encontrar um justo equilíbrio, na esteira da sábia advertência    de Erasmo de Roterdão (1466 ou 1467-1536): “Não navega mal quem passa a igual    distância entre dois males extremos”. Contudo, na sua essência, os textos atrás    citados (de Vasco Pulido Valente)&nbsp; põem a nu os paradoxos desta hora, como    sejam, por exemplo, os de, por um lado, se advogar a longevidade e, por outro,    se tratar tão mal a velhice, retirando-lhe a segurança social e a assistência    na doença. Ao mesmo tempo as referidas análises convergem para elucidar, de    modo nítido e insofismável, que o ardil de recorrer ao medo e a formas de assustar    e condicionar representa um fracasso da razão argumentativa no convencimento    dos indivíduos a autolimitar os seus desejos e é um péssimo método para influenciar    e modificar as atitudes e condutas das pessoas. Mais, aqueles textos expõem    o engrossamento do caudal de instrumentalização e exploração do medo e&nbsp;    evidenciam o refinamento e a multiplicação dos mecanismos de controle das pessoas,    do seu corpo, dos estilos, estereótipos, conceitos, referências, padrões, projectos    e anseios de comportamento e vida. [<a name="top34"></a><a href="#34">34</a>]  </P>        <P >Eis os traços de um <I  >totalitarismo de cariz securitário e sanitário</I>, assaz semelhante à ideologia    fascista ou à hitlerista que via nas imperfeições um motivo suficiente para    varrer os seus portadores da face da Terra! E que parece estar assimilado por    muita gente, por força da profusão publicitária ao seu serviço, sem que ninguém    mais se incomode com sua origem, motivação, justificação e as drásticas consequências.    [<a name="top35"></a><a href="#35">35</a><a href="#35"></a>] </P>        <P >Estamos, pois, perante uma irracionalidade igual ou quiçá maior do que a da    indiferença face a estilos de vida indutores de risco. É à volta disto que cresce    um exército de regeneradores e zeladores da saúde e das suas rotinas, regras    e virtudes, uma onda de iluminados especialistas em tecnologias, serviços e    coisas quejandas. Tais peritos, em nome de determinadas ‘crenças’, conveniências    e promessas de aumento da vida e de obtenção e manutenção da sua qualidade,    limitam o seu usufruto, estabelecem inibições, decretam aquilo que deve ser    feito, consentido e enaltecido, proibido e censurado e esfalfam-se a tentar    convencer-nos e a incitar-nos a viver num nível inferior, comedido e contido    de possibilidades. [<a name="top36"></a><a href="#36">36</a>] Para tanto publicitam,    exageram e tiram partido, de maneira deliberada e assustadora, de pânicos, depressões    e angústias. Atarantam as criaturas, estimulam a adesão a acções defensivas,    favoráveis à auto-propagação do medo - sem tocar, nem sequer ao de leve, nas    suas origens! - e introduzem uma desordem que aproveita ao seu mister. Enfim    o capital do medo e da insegurança é usado para obter lucro e vantagem, a roçar    a ilicitude, no plano político e comercial e até no académico e ‘científico’.</P>       <P  >Os arautos      do <I >activismo físico</I> também se revêem      e bebem nestas águas. Os seus discursos, escritos, simpósios e recomendações      têm duas faces: numa faz-se a radiografia e o diagnóstico de causas e perigos      da morte; na outra tecem-se promessas e esperanças de saúde e longevidade      e tabela-se o preço a pagar pela salvação. Tal e qual como nas liturgias das      seitas religiosas! O círculo vicioso do medo e das acções nele inspiradas      segue em frente, sem sofrer o mínimo abalo e sem tocar no objectivo invocado.      Para que a fonte não seque e a mina não esgote. </P>       <P  >Devemos ainda      dizer e reconhecer que não são raros os congressos e publicações acerca das      relações entre ‘actividade física’ e saúde que se assemelham a um desfile      e ritual lúgubres e sistemáticos de palestras e intervenções alarmistas e      intimidadoras, destinadas a fazer cair sobre a vida um manto negro de sustos,      alarmes e proibições. Depois segue-se uma ementa generosa de receitas e bulas      infalíveis que visam exorcizar e esconjurar os demónios da morte e prometem      vida abundante.</P>       <P  >Estamos manifestamente      a cair em exageros, tanto no geral como no particular. O capital do medo virou      manancial de exploração e negócio rentável em todos os sectores, em nome da      preservação da saúde e do prolongamento da vida. A alienação e a manipulação      alastram!</P>       <P >&nbsp;</P>        <P ><B >DO MAL-ESTAR P&Oacute;S-MODERNO</B></P>       <P >A situação afigura-se, já foi dito, como paradoxal. Por um lado, no      plano ético, estamos a viver um período de relativismo, de elitismo invertido,      de desclassificação ou dificuldade e mesmo impossibilidade de estabelecer      hierarquias de princípios e valores, de afrouxamento dos vínculos a obrigações      e deveres, a normas e regras. Por outro lado, os interesses políticos, económicos      e comerciais impõem um progressivo policiamento e sancionamento dos nossos      hábitos e rotinas, bem como um pesado adormecimento das consciências e vontades,      com o fito de promover comportamentos propícios aos apetites e ganhos do mercado      e consumo. Daqui decorre que o grande produto da dita <I  >pós-modernidade</I> seja, sem tirar nem pôr,      a desorientação. </P>        ]]></body>
<body><![CDATA[<P >Curiosamente alguns autores contemporâneos carregam nas tintas do paradoxo,    ao definirem e saudarem a pós-modernidade como o tempo de consagração da autonomia,    da emancipação, da liberdade e individualização, a era do sujeito e da subjetividade    plena etc. Todavia, à sombra de uma pretensa liberdade de opção, vivemos reféns    de um poderoso sistema arbitrário e totalitário. Um GPS nos localiza, um telemóvel    nos denuncia, um computador nos incrimina. Aonde vamos somos filmados e convidados    a sorrir para a câmara. Os nossos corpos são “amarrados informaticamente”, diz    Mark Poster, “fisgados dentro das redes, dos bancos de dados, nas auto-estradas    da informação”, em locais que “não mais oferecem refúgio à observação ou uma    barreira em torno da qual se possa traçar uma linha de resistênca”. [<a name="top37"></a><a href="#37">37</a><a href="#37"></a>]  </P>       <P >Afinal no palco pós-moderno      não é somente encenada a liberdade; do cenário também fazem parte a feiura,      a servidão e escravidão. Qual das duas versões é a mais representativa? O      que é a liberdade hoje? Alguém está cego ou míope! Precisamos urgentemente      de um ensaio sobre esse conceito no mundo pós-moderno.</P>       <P >A modernidade e as respectivas filosofia e ciência,      de teor iluminista e humanista, erigiram e legitimaram a esperança e a idéia      de progresso de uma humanidade adulta, emancipada e livre das diversas formas      de idolatria, hemiplegia e obscurantismo pelo acendimento da luz da razão.      Como diz Adroaldo Gaya, a modernidade trouxe-nos a confiança “na capacidade      criadora e construtora do homem”. Graças a essa chama “a humanidade deveria      progredir, aperfeiçoar-se, caminhar triunfalmente para o seu apogeu. Neste      cenário se constituíram as utopias políticas que prometeram tempos de fraternidade,      felicidade. A ciência moderna constituiu-se e prometeu aos humanos a compreensão      racional do universo; a tecnologia, por sua vez, prometeu a emancipação do      homem frente às agruras dos determinismos biológicos e da natureza”.          [<a href="#38">38</a><a name="top38"></a>]          </P>       <P >Mas... o que resta dessa extraordinária e desmedida      visão? Não pouca frustração, devida a um dos grandes equívocos e erros das      ilusórias expectativas do mundo moderno, nomeadamente o de acreditar que as      funestas e trágicas coisas do passado não se repetiriam. A medida da desilusão      é, pois, a mesma da esperança que a precede.</P>       <P >Vivemos hoje num contexto distante do paraíso prometido. A ciência      tornou-se realmente um forte poder, como vaticinou Augusto Comte (1798-1857),      porém nem sempre ao serviço de fins nobres e causas superiores. O nosso tempo      ostenta o selo do desencanto com a irrealização das promessas do passado e      da desconfiança no futuro oferecido na bandeja da inconsistência e volatilidade      do presente. Estamos na <I  >pós-modernidade</I>, uma era de destruição e desesperança nuas e cruas.      Não acreditamos nas tradições (desacreditadas pela modernidade) e tampouco      confiamos no futuro associado a esta época desconcertante. Gastas as referências      e desfeitas as utopias, o tempo é o agora e o espaço é o aqui. O aqui e o agora são os paradigmas vigentes,      acusa Adroaldo Gaya. “Isto significa que só o presente vale.(...) O ontem ‘já      era’, não mais existe; o futuro, por sua vez, ainda não existe... Portanto,      tudo é o agora, o presente”. É a cultura      da velocidade e do efémero, da fatuidade e vacuidade, de um reformismo sem      perspectiva, de um caminhar sem rumo, de uma passada sem amplitude e firmeza.      </P>       <P >Pior ainda, continua Adroaldo Gaya: “Na pós-modernidade a verdade é      relativa, o mesmo é dizer que não mais nos preocupamos em tratar a verdade      como real sentido de nossas vidas, como valor moral e ético. A verdade se      apresenta como valor pragmático; serve para solucionar nossos problemas imediatos.      Na pós-modernidade tudo vale;      o que significa que nada vale.      (…) A sociedade é líquida, o amor é líquido, o tempo é líquido, tudo      é líquido, o sólido se desfaz. Nada mais é sequer viscoso, tudo escorre      pelos dedos das mãos”.</P>       <P >Em síntese,      o mal-estar da pós-modernidade e      das suas linhas axiais&nbsp; (<I>relativismo</I>,      <I>ética indolor</I>, <I>crepúsculo do dever, vazio e irracionalidade, </I>individualismo      e egoísmo, inconsistência e insatisfação, confusão, fragilidade e desconforto      interiores), do mercado neoliberal, da insegurança objectiva ou subjectiva,      real ou virtual atazana, comprime, deprime e asfixia o nosso quotidiano. A      percepção e o sentimento - ambos exagerados - do medo, da incerteza, da desconfiança      e do desconcerto vieram e estão aí para ficar e durar. A pós-modernidade e      a contemporaneidade são um hiato preenchido por uma inesgotável mania de folia,      hedonismo e <I  >carpe diem</I>, a lembrar um manicómio e um      reino da paranóia e da infantilidade demencial, tornando justo o apontamento      do filósofo alemão Artur Schopenhauer (1788-1860): “A dor e o tédio são os      maiores inimigos da felicidade”.</P>       <P >Este mal-estar      excessivo é, no dizer de Ronaldo Monte, a expressão de “uma profunda mutação histórica sofrida nos últimos      anos que deixa cada um de nós despojado de um projeto que nos permita vislumbrar      uma situação futura de bem-estar”. Os seus sintomas são visíveis nas crianças,      nos adultos e idosos.</P>        <P >As crianças “deixaram de ser os depositários dos sonhos inacabados dos adultos.    Não vemos mais nossos filhos como aqueles que encontrarão no futuro um modo    de remediar os males que afligem nossa geração. O que propomos agora para nossos    filhos – pelo menos àqueles que ainda fazem parte de uma proposta [<a name="top39"></a><a href="#39">39</a>]    – está reduzido (à preocupação de que) consigam as ferramentas futuras para    sobreviver em um mundo que se apresenta com uma crueldade maior que o presente.    Perdendo o seu caráter lúdico, a infância entra em moratória, transformando-se    apenas em uma etapa de trabalho. E não só as crianças excluídas são entregues    ao trabalho das ruas. Os filhos da classe média se submetem a jornadas com mais    de dez horas de trabalho em ambientes de aperfeiçoamento altamente competitivos,    chegando prematuramente ao <I >stress</I>. Isto apenas para não irem fazer companhia    às outras, do lado de fora do cinturão cada vez mais apertado dos beneficiários    da sociedade do espetáculo e do consumo”.&nbsp;&nbsp; </P>       <P >“No outro extremo da cadeia geracional, vemos      uma velhice degradada, condenada à indignidade das aposentadorias aviltadas      ou à má vontade da caridade pública, sofrendo o desdém de toda uma sabedoria      que perde a razão de ser pela substituição de valores e quebra de continuidade      dos saberes”. </P>       ]]></body>
<body><![CDATA[<P >Entre a infância e a velhice, vagueiam os adultos,      uma geração perdida e “à procura de um rumo. A aceleração do processo de globalização,      a ruptura do precário equilíbrio que dividia ideologicamente o mundo, o descolamento      da ordem econômica da política, fizeram com que as pessoas perdessem os pontos      de apoio para sua organização subjetiva. Tudo o que vinha sendo pensado, entrou      em crise. (…) Vivemos a perplexidade de não saber o que conservar e o que      descartar. Perdemos, enfim, o fio da meada”.&nbsp; </P>        <P >Ronaldo Monte conclui, com traços sombrios, o retrato do mal-estar contemporâneo:    “Perplexo frente a esta massa aterrorizante de ataques ao seu equilíbrio social    e psíquico, restam, a meu ver, duas saídas defensivas ao indivíduo. A primeira,    de ordem paranóica, faz com que escolha um grupo cujas características étnicas,    religiosas, de género, ou simplesmente comportamentais sirvam para projetar    toda a culpa pelo mal de que se sente vitimado. A segunda, de ordem depressiva,    faz com que tome para si toda a responsabilidade sobre o seu fracasso. Seja    qual for a saída defensiva, o que se observa é a êxtase do desejo pelo não reconhecimento    de um objeto de atração que o coloque em movimento”. [<a name="top40"></a><a href="#40">40</a>]  </P>       <P >Martin Heidegger, eminente pensador do Ser, acertou      em cheio, quando declarou: “O seguro não é seguro, é terrível”. Estava a fazer      uma premonição. Com efeito foram-se os parâmetros, as bóias e âncoras,      os alicerces e pilares legados pelo humanismo e modernidade. E, no seu lugar,      ficou um vazio onde se instala toda a sorte de inquietudes, descrenças, descorçoamentos      e nevoeiros que invadem paulatinamente a vida. O mundo natural é cada      vez mais incerto e menos fiável; e o social – das instituições credoras de      apreço e respeitabilidade, que aprendemos a ver como guardiãs do apoio, segurança      e tranquilidade, em caso de problemas – desmorona-se com fragor e a olhos      vistos. Somos crianças perdidas,      confusas e errantes, inundadas e possuídas pela sensação de impotência, carentes      de orientação e protecção.</P>        <P >Como diz Kundera, o ambiente é de cerração, embora não de escuridão total,    impeditiva de qualquer olhar ou movimento. Somos livres, porém só temos a liberdade    de uma pessoa na neblina: vemos coisas e gente à nossa volta e reagimos aos    seus actos e efeitos, mas não enxergamos para além de um raio diminuto. Viver    no lusco-fusco obriga-nos a focalizar a atenção na proximidade, nos problemas    e perigos visíveis, imediatos e prováveis. Vemos e vivemos no perto, no superficial    e transitório, no curto prazo e alcance; não divisamos ao longe, na obscuridade    e profundidade. [<a name="top41"></a><a href="#41">41</a>] </P>        <P >A luz brilha nalgumas casas, mas em muitas – e são cada vez mais! – a claridade    esvai-se e cresce o desespero do negrume. A estreiteza e a farsa da vida na    neblina assemelham-nos aos passageiros da primeira e última viagem do <I>Titanic.</I>    [<a name="top42"></a><a href="#42">42</a>] </P>       <P >Sabemos que há um iceberg à nossa espera e que      ele nos afundará fatalmente. Contudo, despojados dos meios e da vontade de      o localizar e contornar, damo-nos à cegueira e à fatalidade e avançamos para      o choque, bebendo e dançando ao som da orquestra da leviandade e irresponsabilidade,      indiferentes a advertências e sussurros de maus presságios. As tábuas de navegar      são postas de lado. Na neblina vale tudo. Por isso brutal e preocupante não      é o iceberg, mas a falta de um plano sensato e viável para evacuar e salvar      os passageiros do navio que segue para o abismo, sem botes e coletes de salva-vidas.      É este logro ilusório que apanha as vítimas desprevenidas e incapazes de reagir.      Aquilo que não se afunda é quase nada; o que resta é um papel fino, encharcado      e enregelado. Tapado pela neblina o sol da humanidade, o sonho esfuma-se e      toma a deformação de um pesadelo. </P>       <P >Como se percebe bem, o ‘progresso’ dos nossos      dias tem uma matriz estranha: aproveita-se da falta de difusão da luz; nutre-se      e cresce do cinzentismo e do oportunismo, da miopia e da anestesia, da irreflexão      e alienação, da trapaça e do embuste que nos envolvem. E conduz inevitavelmente      ao colapso; porque este clima cerceia o espaço vital e fecha o horizonte,      como se não houvesse amanhã.</P>       <P >A profecia está a ser cumprida: o apocalipse acontece      aqui e agora, no coração do orbe civilizado, euforicamente aclamado pelo seu      esplendor e pelo deleite da ilimitada diversão e indiferença. Confirmando      que a casca da civilização tem a      espessura de uma hóstia. Que somos frágeis, náufragos, transitórios      e passageiros, errantes e fracassados; andamos à procura de um ombro para      reclinar o rosto do desassossego. E que lutamos nova e rijamente pela sobrevivência      como cães esfaimados e selvagens, num contexto de regressão e descivilização,      convidativo à peleja de todos contra todos.</P>        <P >O maior problema que enfrentamos, acusa Zygmunt Bauman, é o de nos demitirmos    de questionar a condição contemporânea, de não sabermos ou querermos distinguir    entre a cobardia e a coragem. “O preço do silêncio é pago na dura moeda corrente    do sofrimento humano. Fazer as perguntas certas constitui, afinal, toda a diferença    entre sina e destino, entre andar à deriva e viajar. Questionar as premissas    supostamente inquestionáveis do nosso modo de vida é provavelmente o serviço    mais urgente que devemos prestar aos nossos companheiros humanos e a nós mesmos”.    [<a name="top43"></a><a href="#43">43</a>] </P>        <P >Em que regime vivemos? Liberdade ou escravidão? Que transcendência e sentido    alumiam os nossos dias? A que nível de cidadania, civilidade, civilização, cultura    e sabedoria estamos chegando? É isto que queremos e procuramos e nos realiza    e exalta? Somos seres de fuga e deriva. Donde fugimos e para onde vamos? Que    sociedade estamos a desfazer e que humanidade estamos a construir? Que <I >respublica</I>,    <I >democracia</I> [<a name="top44"></a><a href="#44">44</a>] e vida são estas?  </P>       ]]></body>
<body><![CDATA[<P >Yves de la      Taille é conciso e conclusivo: “Vivemos no eterno presente (...), pulamos de pequenas urgências para      outras pequenas urgências, de eventos para outros eventos, de fragmentos para      outros fragmentos. Verificamos também que, desde o século XVIII, negamos ao      passado poderes fertilizadores para o presente e que, desde o final do século      XX, negamos esses mesmos poderes ao futuro, que passa a ser antes ameaçador      do que promissor. E, finalmente, verificamos que, hoje em dia, é preciso antes      esquecer do que aprender, antes descartar do que conservar, antes consumir      do que poupar. </P>        <P >Em resumo, cortamos o tempo e, assim sendo, penamos em atribuir um sentido    à vida. Para que tal sentido tenha chances de voltar a fluir, precisamos resgatar    o passado e retomar em nossas mãos as rédeas do futuro”. [<a name="top45"></a><a href="#45">45</a>]    Precisamos, nota Barack Obama, de entender a crise deste tempo como nova oportunidade    para forjar uma “humanidade comum”, como um indicador de que “acabou a era da    satisfação imediata e começou a era da responsabilidade” e de que a luta contra    “o medo e a necessidade” é um dever moral, no interesse vital da democracia.    [<a name="top46"></a><a href="#46">46</a>] </P>       <P >&nbsp;</P>        <P ><B >NECESSIDADE DE EQUIL&Iacute;BRIO E SENSATEZ</B><B  > </B></P>       <P >Perante os desvarios atrás expostos, reveladores      de uma manifesta crise de identidade e periclitante condição, não se defende      nem intenta regressar ao passado ou carpir saudades e lamentos por ele; porém      é necessário aprofundar e construir outro presente. Ora isto manda recriar ideias e ideais que balizem o desenvolvimento      e permitam obviar e abater os cúmulos do desconcerto. Essa obrigação      não a podemos alijar, como me lembrou Ronaldo Monte, muito a preceito, quando      em tempos lhe dei conta do estado de alma expresso nas páginas anteriores;      ele reagiu assim: “Esta neblina nos envolve a todos, em todos      os continentes. Mas ainda      não estamos cegos. E mesmo vendo muito pouco, podemos nos apalpar e      acharmos as mãos. E trôpegos, mas lúcidos, ainda podemos fazer um caminho      que nos leve além da neblina, à clareira da solidariedade. Aí nos reencontraremos      novamente”. </P>       <P >Para tanto devemos confrontar-nos com a desmesurada percepção de medos,      em tudo e em toda a parte, porquanto ela está a lavrar o terreno para novas      formas de totalitarismo, nomeadamente o securitário e higienista. Está a enterrar      valores axiais do Humanismo e Iluminismo - liberdade, autonomia, emancipação,      maioridade e florescimento da razão – e a ceder o lugar a um regime de vida      próximo da escravidão.</P>        <P >Mais ainda, sem tomarmos a devida nota, deixamo-ns envolver na construção    de um gigantesco condomínio de barreiras existenciais, edificado com os tijolos    da absurdidade e policiado por uma legião de proibições, restrições e coações,    de penas e coimas sempre aquém da necessidade. Reclamamos cada vez mais ‘lei,    ordem e disciplina’, mais prisões e polícias de todos os gestos e gostos, dos    nossos e dos outros, instaurando em cada pessoa um bloqueio e sufoco infernais    e olhares paralisantes. Tudo é controlado, modelado e prescrito, desde o tamanho    das frutas, passando pela obrigatoriedade de indicação de calorias dos alimentos    e bebidas etc. e do fabrico e embalagem dos mais diversos e tradicionais produtos    alimentícios, até às regras e hábitos da conduta individual. [<a name="top47"></a><a href="#47">47</a>]  </P>       <P >Em toda a rua e esquina, em toda a estrada e encruzilhada queremos      ter quem nos defenda e proteja e nos aconselhe e indique o caminho a tomar.      O equilíbrio entre a rigidez e dureza das virtudes,&nbsp; valores e hábitos espartanos e a abertura      e flexibilidade dos atenienses é muito difícil de alcançar. Mais, parece até      que, na actual e paradoxal deriva, nos inclinamos mais para Esparta do que      para Atenas.</P>       <P >Isto demonstra, de modo sobejo e eloquente, que padecemos da falta      de conhecimento de orientação. Para ser mais preciso, pagamos e sofremos o      preço da sua desvalorização. A ciência, seja no silêncio e anonimato dos laboratórios,      seja nos conhecidos e badalados centros de investigação e reflexão, não é      paga para isso, vê-se despida dos grandes ideais e fins, em proveito dos meios;      e é convertida em mera técnica. Simultaneamente altera-se total e radicalmente      a noção de progresso que anteriormente a animava. Não se orienta tanto por      referências e finalidades transcendentes; está sujeita<B> </B>ao predomínio      e ditadura do <I >paradigma</I> <I>produtivista</I>,      visa sobretudo competir, medir-se, igualar-se e, tanto quanto possível, superar      a concorrência em números e citações, apresentar a toda a hora dados novos,      segundo os normativos de consumo em moda e face à realidade constantemente      mutante. Ajuda assim a impor esta e serve os fins e a voracidade de um mercado      volátil e caótico, em permanente e febril ebulição. Ela é o fim em si mesmo,      segue um imperativo de produção consumista absolutamente vital, em obediência      a ditames semelhantes aos da selecção natural de Charles Darwin (1809-1882).      Não espanta, por isso, que a ciência se funda com a técnica e tecnologia e      evolua (?!) para ‘tecnociência’ e as três se enlacem com o contexto económico      e vejam o seu avanço requerido, incensado e financiado por ele.&nbsp; </P>       <P >Desta forma parecem      ficar suficientemente delineados os contornos do “mundo da técnica”, traçados      por Heidegger, tal como se percebem as razões que o animavam e levavam a denunciá-lo:      não se trata mais de dominar a natureza ou aconselhar a sociedade em função      da liberdade e felicidade, mas apenas em função da necessidade de competir,      uma necessidade de proveniência exógena, isto é, imposta de fora pela obrigação      absoluta de ‘progredir ou perecer’. </P>       ]]></body>
<body><![CDATA[<P >O aparato científico da modernidade estabelecia      o objecto, os métodos, os resultados e a sua aplicação, com base na autonomia da razão, segundo      critérios de independência imanentes ao conhecimento. A nova situação, decretada e aplaudida      pelos ‘papagaios do pós-modernismo’, subordina o saber a imperativos exteriores.      Deste modo a ciência, uma das mais belas e exaltantes criações      do génio humano, fica à mercê dos interesses económicos e empresariais;      são eles e o mercado que determinam a utilidade e inutilidade, a validade      e caducidade dos saberes; são eles que concedem orçamentos e financiamentos.      </P>       <P >Consequentemente a tradicional autonomia da ciência,      dos centros de saber e investigação deriva para heteronomia; cai na dependência dos poderes neoliberais.      Também assim se perde a liberdade      que era condição tanto da qualidade do saber como da autoridade moral dos      intelectuais - e das suas instituições - envolvidos com as causas da sociedade.      Por isso é legítimo perguntar se as organizações académicas ainda são genuínos      foros de conhecimento e de reflexão sobre o devir social ou se resvalaram      para instrumentos de conformação e imposição do ‘pensamento’ único e dominante.</P>       <P >Concretizando, a “tecnização do mundo” e da competição      técnica globalizada, que nos envolvem, surgem a partir da desconstrução e demolição de marcos e alvos      transcendentes e superiores; deixaram de parte a racionalidade instrumental      da técnica, afundaram o reino dos fins e consagraram a lógica independentista      e absolutista dos meios. É esta a larga, amarga e dura linha que demarca e      afasta o Iluminismo, o Humanismo e a Modernidade do mundo contemporâneo: as      febris e instáveis evoluções e circunstâncias, decorrentes aqui e agora e      a toda a hora, não se ligam a nenhum projecto comum e não almejam um mundo      melhor, antes se demitem de equacionar e chamar a si intenções dessa envergadura      e empresas desse teor. </P>       <P >Ao fim e ao cabo, o vazio e a pobreza de espírito,      as inseguranças, temores e depressões, a insatisfação e a crise da identidade      povoam cada vez mais esta hora. As tão cantadas promessas esboroam-se como      um castelo de areia e não vão além de um logro impingido aos incautos. A ética      prevalecente tem a matriz de ‘indolor’; mas, ao invés, a vida e a sociedade      do presente são uma fonte e um mar de mortificação e dor, de iniquidade e      injustiça, de abandono e frustração, de esquecimento e solidão, de tantas      esperanças e promessas destruídas e vidas desperdiçadas. Chamam a isto civilização      e evolução, um avanço da democracia e cidadania, um acréscimo da qualidade      de vida!</P>        <P >É certo que nada nos impede de manter o optimismo. Mas essa atitude provém    mais da necessidade e aspiração, do desejo e da boa-vontade do que de convicções    fundadas nos factos em que a realidade é sobeja. Basta olhar em redor e reflectir    um pouco para cair no pessimismo e para notar que o receio e a angústia tendem    a tornar-se, como assinala Luc Ferry, “a paixão democrática por excelência”.    [<a name="top48"></a><a href="#48">48</a>] </P>        <P >Como corolário, remata - e bem! - Frei Bento Domingues, “se a crise financeira    e económica de consequências globais não for aproveitada para questionar e alterar    a orientação absurda da nossa civilização, se não fizer surgir um novo olhar    sobre o mundo e o ser humano, se não levar a um novo caminho, só resta continuar    de alienação em alienação, na rota da autodestruição”. [<a name="top49"></a><a href="#49">49</a>]  </P>        <P >Continua, pois, por edificar uma residência estável para o homem, nesta terra    donde os deuses debandaram ou foram retirados. Talvez porque ele, lembra Michel    Foucault, “não é o mais velho problema nem o mais constante que se tem posto    ao ser humano”. E apesar do homem ser “uma invenção, e uma invenção recente”,    os rumos deste tempo, se não forrem corrigidos, indicam “o seu próximo fim”.    [<a name="top50"></a><a href="#50">50</a>] </P>       <P >&nbsp;</P>        <P   ><B >CONCLUS&Atilde;O: MANUTEN&Ccedil;&Atilde;O DO MIST&Eacute;RIO</B></P>        <P ><b>Primeiro:</b></P>        ]]></body>
<body><![CDATA[<P >Esta nossa sociedade de consumo nutre-se do ambiente de medos e preocupações    existenciais em que ela assente e ajuda a multiplicá-lo. É uma <I >sociedade    da reinvenção do medo</I> e de novas modalidades da sua exploração, para finalidades    de negócio e lucro nos mais diversos campos. O poeta António Gedeão disse que    “<I >uns se organizam no medo; outros na esperança”</I>. [<a name="top51"></a><a href="#51">51</a>]    Quanto à primeira parte da afirmação, ela está amplamente comprovada; quanto    à segunda, tudo aponta para o facto de a esperança viver em letargia ou num    notório definhamento. Parece que as pessoas precisam de entrar no jogo, não    tanto por esperança, mas sobretudo pela necessidade de se submeterem a uma constante    remodelação, para que não lhes suceda o que acontece às roupas e não ficarem    obsoletas. O mesmo é dizer que têm de orientar a sua vida para o consumo, sendo    elas mesmo transformadas em mercadorias, como regista Zygmunt Bauman. [<a name="top52"></a><a href="#52">52</a>]  </P>       <P >A <I  >transformação das pessoas em mercadorias</I>      é o objectivo último - não declarado, porém não tão oculto e sub-reptício      que não deixe à mostra sinais que o tornam perfeitamente claro e visível -      da actual sociedade de consumo. A sua aparência e forma de apresentação estão      sujeitas a um desgaste contínuo, carecidas portanto de constante reciclagem,      até ao ponto em que já não conseguem corresponder ao figurino da moda; aí      também vêem ultrapassado o prazo de validade e são deitadas fora. A modificação      é obrigatória e compulsiva, está para os consumidores como o metabolismo está      para os organismos vivos; se deixarem de consumir e de seguir os continuamente      mudados padrões em vigor, os indivíduos põem-se à margem da existência, por      desrespeitarem uma nova e cimeira máxima: <I  >Consumo, logo existo!</I></P>       <P >Consequentemente o activismo físico, para além      de respeitar os alertas de ordem funcional, é parte do empreendimento mais      lato, destinado a promover e permanecer uma mercadoria apreciada e atraente,      bem cotada e desejável. A manutenção e a remodelação da ‘boa’ condição corporal      são um imperativo decorrente da necessidade de captar as boas graças das atenções      e olhares, de vigiar e conter à distância os perigos e ameaças da marginalização,      de se subtrair ao esquecimento e à eliminação. Ou seja, os diversos tipos      de cuidados e intervenções no corpo não são propriamente um luxo ou extravagância      dispensável; ao invés, têm perfeita justificação existencial.</P>        <P >Ademais, o normativo vigente ordena que o privado (seja ele de ordem física    ou psíquica ou social) se torne público, que nada fique escondido ou invisível.    À mulher de César não basta sê-lo; tem mesmo que parecê-lo, tem que cuidar da    aparência, desenvolver um considerável esforço para recompor a toda a hora a    sua subjectividade com as qualidades inerentes a um produto estimulador de apetência    e consumo; tem que se exibir e comprovar na praça pública e receber desta a    consequente aprovação ou reprovação. É assim que o consumidor se transforma    e dilui no mar das mercadorias. Zygmunt Bauman remata de modo cru, mas pleno    e certeiro: “Numa sociedade de consumidores, tornar-se uma mercadoria desejável    e desejada é a matéria de que são feitos os sonhos e contos de fadas”. [<a name="top53"></a><a href="#53">53</a>]  </P>        <P ><b>Segundo:</b></P>       <P >No concernente à gigantesca onda      do <I >activismo físico</I>, propagandeado      e aconselhado por ser saudável e positivo face a um desporto difamado como      maléfico e negativo, subscrevem-se e sublinham-se os reparos feitos por Adroaldo      Gaya: “convenhamos que assumir o paradigma da atividade física facilita muito      a professores e alunos. Por quê? Ora! Por uma simples razão. No esporte é      necessário deter muitos conhecimentos científicos e filosóficos para planejar      programas de aprendizagem e treino esportivo com o rigor pedagógico necessário.      Na atividade física, basta um exame <I  >médico</I> que ‘libere’ o cidadão e ele poderá      ‘exercitar-se’ lavando seu carro, cortando a grama do jardim, indo trabalhar      a pé e usando escada ao invés de elevadores (…) Entrega-se exclusivamente      à medicina a propriedade de assumir a responsabilidade com a prática da atividade      física e, dessa forma, excluindo a necessidade de programas de treino, de      exercícios físicos que, como sabemos, devem ser planejados por profissionais      competentes e que apontem objetivos claros. Por outro lado, e aqui vai uma      acusação frontal, as bases científicas que sustentam os programas de atividade      física são parcialmente escamoteadas pelos defensores do <I  >higienismo pós-moderno</I>. O que a ciência      nos informa, com elevados níveis de confiança, é de que na comparação entre      indivíduos sedentários e aqueles que realizam algumas atividades físicas sistemáticas      o risco de doenças hipocinéticas diminui significativamente entre os ativos.      Todavia, isto não significa que estas atividades físicas são mais eficientes      que as práticas esportivas ou os programas de treino no combate aos fatores      de risco. Os dados mostram com clareza, embora alguns importantes pesquisadores      insistam em esconder, que há uma relação forte entre níveis de aptidão física,      prática esportiva e prevenção de fatores de risco para doenças do sedentarismo      (…) Mesmo que o esporte como expressão da cultura corporal tenha história      e objetivos que vão muito além das questões higienistas. Mesmo assim, é evidente      que reduzi-lo, substituí-lo ou compará-lo à atividade física é um <I>non sense      </I>injustificável, principalmente em se tratando de idéias de cientistas      renomados. De políticos não trato, pois já há muito tempo percebi que seu      pragmatismo, como um <I>tsunami, </I>leva de roldão toda a razão. Em política      o que vale é estar em evidência e aí o relativismo moral, filosófico, ideológico,      conceitual, ético é o que interessa. Mas, o oportunismo, oriundo da ingenuidade      de alguns e da evidente intenção de outros, sem dúvidas tem sido o motivo      principal em desconstituir o esporte em nome de ‘qualquer coisa que se mova      um pouco’. É a vontade de aparecer como cientista de ponta, como representante      da elite científica das áreas biológicas, de publicar artigos em revistas      internacionais da área médica que tem sido uma das principais fontes deste      desalentador discurso higienista que desconstitui o esporte de suas mais evidentes      qualidades como fenômeno cultural. Enfim, <I  >medicalizou-se</I> o esporte”. &nbsp;</P>        <P >“Ser cientista para o grupo dos higienistas pós-modernos é fazer ciência médica,    epidemiológica, biológica e, como o esporte não se encerra exclusivamente nessas    categorias, o melhor realmente é desqualificá-lo para que caiba no espaço de    interesses corporativos. Mas, o esporte é mais forte e a cada evento importante    ele supera na prática as teorias que o querem reduzir a uma especialização da    medicina”. [<a name="top54"></a><a href="#54">54</a>] </P>       <P >No fundo, as dimensões biológicas do conceito de saúde são mais fáceis      de mensurar e controlar do que as sociais e psicológicas; nelas exerce-se      melhor o mandato intervencionista do paradigma <I  >produtivista</I> da ciência e tecnologia.      Por isso mesmo, são também elas e a respectiva investigação que detêm o predomínio,      levam a palma e implicam, por arrasto, modificações e desvirtuamentos no vasto      complexo das práticas lúdicas e corporais. Porém a obtenção da saúde continua      dependente das possibilidades, da capacidade e lucidez disponíveis para traçar      o rumo existencial. Ou seja, para além das condições e pressupostos materiais,      imprescindíveis ao bem-estar social e psíquico, é igualmente indispensável      o conhecimento de orientação – e este é hoje muito escasso, por não ser defendido      e fomentado, desejado e estimulado, sendo mesmo ostracizado, subvalorizado,      combatido e olhado com desdém, nomeadamente pelas agências fomentadoras e      financiadoras de bolsas e projectos e acreditadoras e avaliadoras das instituições      e centros de formação investigação - e dos seus professores, pensadores e      pesquisadores.</P>       <P >Há, no entanto, um grande e iniludível problema e uma dura frustração      que não podem ser escamoteados. Apesar de toda a inegável panóplia de ganhos      em termos de conhecimentos biológicos, de cuidados e intervenções, não se      registam rupturas nos estilos de vida e nos comportamentos de risco. Pelo      contrário, as evidências provam que o risco e a atracção por ele persistem      e que as medidas de controle não passam de paliativos para o conservar e poder      suportar. Ou seja, o alvo da procura não é tanto o equilíbrio justo, correcto      e harmonioso, mas, sim, a preocupação de evitar o pior. </P>        <P >Como assinala John Adams, a mega-estrutura do negócio e da indústria de redução    do risco – “a maior do mundo” – não impede a persistência e teimosia de muitas    pessoas em assumirem atitudes, condutas e actos arriscados. O mesmo é dizer    que o <I >Homo Prudens</I> - da cautela, da prudência e do controlo - não está    a consolidar-se, a progredir e impor-se, a levar a melhor, a predominar. É antes    o <I  >Homo Aleatorius</I>, pouco abordado, reflectido e conhecido, aquele que sente    um forte apelo do perigo, que se entrega cada vez mais ao risco; é ele que está    em alta e na moda e que toma muitas vezes o comando da vida. Ambos pertencem    à nossa natureza e estão dentro de nós; é com os dois que temos de conviver.    [<a name="top55"></a><a href="#55">55</a>] &nbsp; </P>        ]]></body>
<body><![CDATA[<P >Enfim, o clima de medo instala na paranóia do estado de alerta permanente,    turva o olhar, subjuga as mentes e atrapalha o trânsito da razão e do discernimento.    Perde-se a visão do conjunto e a compreensão dos valores que conferem ligação    e unidade a todos os elementos do empreendimento. Na esteira de Agostinho da    Silva (1906-1994), [<a href="#56">56</a><a name="top56"></a>] o transcendente,    isto é, a procura da felicidade, da ética e virtude da vida, deve guiar a reflexão    e os conhecimentos e mediar a relação destes com os aconselhamentos e propostas    de acção. Isto vale no caso do corpo e em tudo o resto. [<a name="top57"></a><a href="#57">57</a><a href="#57"></a>]    <I></I></P>        <P ><b>Terceiro:</b></P>       <P >Há outro e fundamental reparo que deve ser feito aos propagandistas      da ‘actividade física’. Nós, os humanos, somos seres simbólicos e <I  >artísticos</I>; vivemos      num universo simbólico e não num mero contexto físico. Consumimos arte;      alimentamos e afirmamos a nossa condição através da arte - a <I  >areté</I> dos gregos, agregadora da técnica,      da estética, da virtude e excelência – dos nossos gestos e movimentos, das      nossas palavras e atitudes, dos nossos sentimentos e expressões. Somos seres      interpretativos e instituidores de sentidos. Confrontamo-nos com a natureza e a realidade      material, social etc tendo símbolos por intermediários, ‘significativos’      tanto para os praticantes de um acto como para os que o observam, significando,      codificando, organizando e regulando a conduta de uns em relação aos outros.      Isto é, somos criadores e consumidores      de símbolos, conferindo ritual à vida e associando as acções e objectos a      um significado que transcende os seus efeitos palpáveis. </P>       <P >As preocupações e intencionalidades em relação à saúde, imanentes ao      activismo físico (<I >made in USA</I>),      são louváveis e originaram um meritório movimento de programas de investigação      e intervenção. Mas correm o risco de não irem além de um neo-higienismo, ao      ignorarem e não trazerem a plano cimeiro um compromisso essencial com as traves-mestras      da condição humana: a beleza das emoções e intenções, dos actos e comportamentos,      das configurações e relações. Dito de outro modo, no conceito de saúde ‘humana’      não é curial separar o biológico e motor do cultural e social, ético e estético.</P>        <P >É nisto que se funda o desporto; nele também nos mexemos, ‘activamos’ e cultivamos    o corpo, mas vamos mais além do imediato e tangível. Do mesmo modo que não criamos    a culinária e preparamos a comida só para nos alimentarmos, mas para desenvolvermos    o gosto e o paladar, também não praticamos desporto só para nos movimentarmos,    para visar ou conservar a saúde corpórea, para melhorar a ‘condição física’.    Sem o desporto e as formas afins, a nossa motricidade e civilidade ‘culturais’    regrediriam, ficariam prisioneiras da rudeza e bestialidade ‘naturais’. Em suma,    são a incorporação de arte e o nosso teor ‘artístico’ que nos conferem o estatuto    humano. [<a name="top58"></a><a href="#58">58</a>] </P>        <P ><b>Quarto:</b></P>       <P >No império pós-moderno assemelhamo-nos      a crianças de um mundo novo, ignorando ou desdenhando os mitos do passado,      fascinados e angustiados com a pergunta acerca dos mitos do futuro. Fatiguemos      – incita Vergílio Ferreira – “o nosso espanto, a nossa interrogação, até que      ela nos canse de a enfrentarmos. Como solução (será uma solução?) não temos      outra. Porque Deus não é solução, como um regresso à infância é impossível”.      </P>        <P >O regresso ao corpo é, afinal, o termo da viagem que nos coube. Nesse regresso    “se implica pois somente a certeza, que até certo ponto é nova, de que tudo    o que é para o homem foi do homem que nasceu, que todo o mistério, todo o indizível,    toda a transfiguração e beleza são uma criação do homem com que a si próprio    se cria, que os valores objectivados são valores subjectivos, que toda a ordem    de vida é uma ordem humana, sem transcendência que a disfarce numa ordem divina,    que o homem, pelo espírito encarnado, ou seja, pelo seu corpo humano, é definitivamente    o seu verdadeiro Deus. À sucessão dos mitos que nele germinaram responde agora    o anúncio do mito de si próprio com a total ausência de outros mitos, ou seja    de verdades-aparição ou de verdades sem justificação e que nos orientam. Falo,    porém, do mito do homem, princípio e fim de si mesmo, não do ídolo que segregue    e com ele os seus carrascos (…) Todo o mito acaba onde o ídolo começa…” Sem    esquecer que “o ser-se homem e o ser-se livre – são dois valores mutuamente    convertíveis”. Eis porque “o último confronto da nossa liberdade é com a nossa    condição. E se não está em nós emendá-la, está em nós o reconhecê-la na sua    irredutível e inexorável realidade.” [<a name="top59"></a><a href="#59">59</a>]  </P>       <P >Impõe-se, pois, reflector      acerca daquilo que andamos a fazer e do caminho aonde isso nos leva.</P>        <P ><b>Quinto:</b></P>       ]]></body>
<body><![CDATA[<P >O corpo é a anatomia do nosso destino, o santuário e altar da nossa      transcendência e sublimação. Com ele queremos e podemos manter uma relação      óptima com a vida, merecendo por isso um cuidado especial. Não se pode viver      em permanência nos excessos que ele permite, mas também eles não devem ser      inteiramente dispensados. Como afirmou o sociólogo francês Henri Lefebre (1901-1991),      “a arte tanto pode morrer do      excesso de rigor quanto da extrema liberdade”. </P>       <P >Ademais, disse Fernando Pessoa, “viver não é preciso”, não é assunto      que possa ser definido com o rigor e a exactidão da régua e do compasso. Isto      mesmo se aplica ao corpo e aos rituais de o exercitar. O bom senso e o equilíbrio      são requeridos, mas para tanto não bastam as prescrições de especialistas.      <I></I></P>       <P >É      estultícia supor que será possível criar uma forma de vida sensata e racional,      guiada exclusivamente por critérios científicos, definidores do que é certo      ou errado. Para dar sentido último à complexidade da condição e da aventura      humanas precisamos de colocar e laborar em questões e mistérios que ultrapassam      a racionalidade científica e esta não consegue controlar. Precisamos de pensar      no transcendente. Nada é substituto de outra coisa. Conhecimento científico      e sabedoria de orientação não se substituem ou excluem; antes se complementam.      </P>        <P  >Mais, os esforços investidos na transformação e metamorfose, na conservação    e ganho da fiabilidade do corpo são a face visível do desejo e da possibilidade    de nos tornarmos outra pessoa, de nos despirmos de uma gasta e cansada identidade,    de a reciclarmos e substituirmos por outra. Infelizes e desiludidos com o antigo    gerente divino do mundo, procedemos à Sua demissão, mudamos de crença e estratégia    e somos nós agora os gestores do projecto, empreendimento e negócio de procurar    melhorar a vida. Para tanto as ambições “se concentram em nossos próprios Egos    e se reduzem a consertar nossos corpos e almas…”, fazendo o ego crescer ainda    mais e recusando a imposição e aceitação dos limites. [<a name="top60"></a><a href="#60">60</a><a href="#60"></a>]  </P>       <P  >A nova e paradoxal      ‘utopia’ convida-nos a inventar constantemente a vida e administrá-la a nosso      bel-prazer, a deixar de lado as promessas longínquas e a procurar aqui e agora      as curas, soluções e gratificações. Julgamos que, com a mudança de Ego, tornamos      a incerteza menos assustadora e a felicidade mais palpável e presente. E que,      mediante a cosmética do corpo, isto é, a troca incessante do formato e <I  >design</I> do figurino, mudamos para melhor      o nosso Ego. Aprendemos, com Sartre, que a existência precede a essência;      logo, intervindo nas modalidades da primeira, queremos determinar, modificar      e melhorar a segunda.</P>        <P  >Esta pretensa utopia, obsessiva em eliminar a ansiedade e o desamparo existenciais,    parece consumir as nossas atenções e energias, aliviando-nos do fardo de pensar    nas incuráveis insuficiências da nossa condição e adiando e dispensando até    a reflexão acerca do sentido da vida e da impossibilidade de um dia atingirmos    na plenitude aquilo que nos agita e anima. É neste ponto que o <I  >dilema</I> e a <I  >contradição</I> se introduzem: em vez de censurar, devemos incentivar a continuidade    da procura das nossas ‘verdadeiras’ identidade e essência, no pressuposto de    que elas nunca sejam encontradas. Sob pena de a graça e o encanto acabarem e    o mistério e a felicidade se perderem para sempre. [<a name="top61"></a><a href="#61">61</a>]  </P>       <P>&nbsp;</P>        <P >&nbsp;</P>     <P >[<a name="1"></a><a href="#top1">1</a>] Ronaldo Monte é Professor do Departamento    de Psicologia da Universidade Federal da Paraíba, João Pessoa, Brasil. Tem dois    blogues (blog-do-rona.blogspot.com e memoriadofogo.blogspot.com) na Internet,    onde publica textos deveras interessantes.</P>        <P > [<a name="2"></a><a href="#top2">2</a>] Quando se diz que vivemos numa <I >sociedade    de consumo</I>, não se olvida que todos os seres humanos, desde tempos imemoriais,    são consumidores. O que se pretende é, sim, enfatizar a diferença de prioridades    entre a <I >sociedade de produtores</I> – a da era moderna e industrial que    nos precedeu, orientada pela norma de formar a vontade e a capacidade de produzir    – e a sociedade actual, cuja norma é a de moldar os seus membros para, acima    de tudo, desempenharem o papel de consumidores seduzidos pela busca compulsiva    e incessante de atracções e desejos sempre novos, por nunca estarem satisfeitos    de todo. Mais, vivemos num “mundo que avalia qualquer pessoa e qualquer coisa    por seu valor como mercadoria”; assim são consideradas “pessoas sem valor de    mercado”, “<I  >consumidores falhos</I>” e “de todo inúteis” os não consumidores, ou seja, os    indivíduos incapazes de “atingir os padrões de normalidade”, de cumprir o dever    crucial de ser compradores activos e efectivos de bens e serviços, de “reagir    pronta e eficientemente às tentações do mercado de consumo”, de “contribuir    com regularidade para a demanda que esvazia a oferta”, de alcançar o estatuto    de membro pleno, correto e adequado da sociedade”. Ora de nada disto são capazes    os cidadãos pobres, sem casa decente, sem cartão de crédito e perspectivas de    melhoria de vida. Logo os pobres de hoje não o são tanto pelo <I >desemprego</I>,    mas sim por quebrarem a norma “da <I  >competência</I> ou <I  >aptidão de consumo”</I>; é isto que os rotula de ‘anormais’, os coloca à parte,    na “coluna dos débeis” e na sub-classe dos intencionais e previsíveis ‘danos    colaterais’. (Zygmunt Bauman, <I  >Vida para consumo: a transformação das pessoas em mercadorias</I>, p. 157-160.    Jorge Zahar Editor, Rio de Janeiro, 2008.</P>     ]]></body>
<body><![CDATA[<P > [<a name="3"></a><a href="#top3">3</a>] Luc Ferry: Para que serve a filosofia    contemporânea? Pensar o “insubstituível de nossas vidas”. In: André Comte-Sponville    e Luc Ferry, <I  >A sabedoria dos modernos</I>, p. 522. São Paulo: Martins Fontes, 1999.</P>     <!-- ref --><P > [<a name="4"></a><a href="#top4">4</a>] Michel Foucault: <I >As palavras    e as coisas</I>, Edições 70, Lisboa, 1991.&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=748617&pid=S1645-0523200900030000800001&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><P > [<a name="5"></a><a href="#top5">5</a>] Atente-se nesta passagem da autoria    de Ronaldo Monte: </P>     <P >“Como exemplo, a pura e simples exclusão do mercado de trabalho, pela obsolescência    de função ou redução de contingente, é suficiente para transformar um indivíduo    de qualquer classe social num excedente sobre o qual não incidirá qualquer esforço    de preservação de sua integridade existencial. Aos que acusarem qualquer manifestação    de defesa contra esta exclusão, restará sempre o recurso aos psicofármacos ou    a inclusão em um dos comitês de ética em voga. </P>         <P >(...)        Como resultado final do processo de privatização da loucura, cada indivíduo        torna-se culpabilizado por se sentir como único responsável pelo seu fracasso.        Reduzido à sua solidão, ele próprio é transformado em um não-lugar de uma        tópica só reconhecida em sua negatividade. Não há um outro com que fazer        fronteira e estabelecer trocas. Há apenas a barreira marcando a intransicionalidade,        constituindo uma alteridade absoluta na qual se deposita tanto a origem        do mal quanto a fonte de um poder de vida e de morte sobre este ser de falência.&nbsp; </P>         <P >...        O que somamos, enfim, são faltas. Somos seres de falta”. (Ronaldo Monte:        Os novos manicómios e a privatização da loucura, in <I  >Loucura, ética e política: escritos militantes…</I>,        Conselho Federal de Psicologia, São Paulo, Casa do Psicólogo, 2003).</P>          <P >[<a name="6"></a><a href="#top6">6</a>] Ronaldo Monte: Os novos manicómios    e a privatização da loucura, in <I  >Loucura, ética e política: escritos militantes…</I>, Conselho Federal de Psicologia,    São Paulo, Casa do Psicólogo, 2003.</P>     <P > [<a name="7"></a><a href="#top7">7</a>] O conceito <I >globalização</I> é    o oposto de <I >universalização</I>, próprio da modernidade. O último - em consonância    com a sua inspiração humanista e iluminista - tinha por fito o estabelecimento    de uma ordem à escala universal, visando tornar semelhantes e até mesmo igualar    as condições de vida em toda a parte; era esta a intenção de iniciativas, medidas    e empreendimentos globais. A <I >globalização</I> remete para a inexistência    de controlo, para uma desordem mundial imposta por forças, nebulosas e sem rosto,    actuando numa terra aparentemente de ninguém, sem rei nem roque, com efeitos    para todos nós. Sob o seu império o mundo transformou-se numa selva lamacenta,    manufacturada ao sabor dos escuros e ignominiosos interesses da desregulação    do mercado neoliberal, dos seus negócios e proveitos.</P>     <P > [<a name="8"></a><a href="#top8">8</a>] Zygmunt Bauman: <I >TEMPOS LÍQUIDOS</I>.    Jorge Zahar Editor, Rio de Janeiro, 2007.</P>     <P > [<a name="9"></a><a href="#top9">9</a>] Karl Popper, filósofo do racionalismo    crítico e defensor da sociedade aberta, ocupou-se de questões da epistemologia,    da teoria e lógica da ciência.</P>     ]]></body>
<body><![CDATA[<P > [<a name="10"></a><a href="#top10">10</a><a href="#top10"></a>] Gilles Lipovetsky    é particularmente incisivo neste capítulo: “Abandonado a si próprio, numa sociedade    hiper-individualista, o indivíduo hiper-moderno é frágil. (…) Apesar de vivermos    mais anos, com mais saúde e com melhores condições materiais – com uma liberdade    sexual quase total, podendo escolher se casamos ou não, se vamos ter filhos    ou não – nunca houve tantos casos de depressão (aumentaram sete vezes em 20    anos), tantas perturbações do comportamento, tantas tentativas de suicídio,    tantos divórcios, tanta solidão”.</P>     <P > [<a name="11"></a><a href="#top11">11</a>] Zygmunt Bauman: <I >Globalização:    as consequências humanas,</I> p. 54-58, Jorge Zahar Editor, Rio de Janeiro,    1999.</P>                 <P > [<a name="12"></a><a href="#top12">12</a>] <I  > Ibidem.</I></P>                 <P > [<a name="13"></a><a href="#top13">13</a>] Zygmunt Bauman: <I >TEMPOS LÍQUIDOS</I>.    Jorge Zahar Editor, Rio de Janeiro, 2007.</P>          <P  >[<a name="14"></a><a href="#top14">14</a>] Leonardo Da Vinci foi expoente    de um ecletismo florescente, desenvolveu estudos em várias áreas e representa    bem o esplendor do génio humano. Por isso mesmo ele pode ser apontado como modelo    oposto ao que inspira hoje o dito Processo de Bolonha</P>          <P > [<a name="15"></a><a href="#top15">15</a>] Carlos Drummond de Andrade (1902-1987)    exclama assim:</P>          <P ><I>Salve, meu corpo, minha estrutura de viver / </I><I>e de cumprir os ritos    de existir!</I></P>          <P > [<a name="16"></a><a href="#top16">16</a>] Nos nossos dias Michel Serres    celebra a unidade da aparência e da essência; as duas saem da mesma fonte. Pelo    que a fachada corporal e comportamental é reveladora da identidade. Ou seja,    as intervenções na primeira têm implicações na segunda, tal como postulou Sartre    (1905-1980), ao afirmar que a existência precede e determina a essência. Antes    deste, Goethe tinha proposto que no visível e na superfície é que está tudo    e que há uma relação íntima entre a obscuridade das nossas entranhas e a visibilidade.    Fernando Pessoa disse mais ou menos o mesmo: O corpo é a pessoa de fora que    dá a imagem da pessoa de dentro. </P>          <P >A esta luz o actual ambiente obesogénico revela um estado de relaxamento,    indolência e desídia no corpo e na alma, nos sentimentos, atitudes e comportamentos,    na observância de normas e ideais, de princípios e valores. Para o combater    é preciso intervir nos terrenos da vontade, deitando mãos a uma actividade corporal    (desporto) que prefigura uma <I>pedagogia da vontade</I>, é uma arte performativa    de decisões, esforços e gestos da vontade.</P>     <P >[<a name="17"></a><a href="#top17">17</a>] Hoje parece ter atingido maior    observância a máxima de Oscar Wilde (1854-1900): “É melhor ser bonito do que    ser bom, mas é melhor ser bom do que ser feio”.</P>          ]]></body>
<body><![CDATA[<P > [<a name="18"></a><a href="#top18">18</a>] A expressão ‘actividade física’    é deveras estapafúrdia, imprecisa e inadequada, vaga e difusa, imprópria e equivocada.    É tudo e nada, porquanto, conforme a definição dada pelos especialistas, engloba    tudo o que ocasiona dispêndio de energia. Nisto cabem tanto <I  >atividades laborais</I> (cavar, lavrar, jardinar, podar, assentar tijolos, pintar    muros etc.), como <I  >movimentos do quotidiano e actos desportivos</I> (andar, correr, saltar, nadar,    jogar etc.), como ainda <I  >acções destinadas à satisfação de elementares necessidades sexuais e biológicas</I>    (fornicar, urinar, defecar e outros termos cuja inclusão nesta lista a educação    não consente) etc. Ora não parece, nem é crível que os arautos e utentes daquela    expressão pretendam envolver-se, elaborar e impor normativos, prescrições e    sentenças em toda esta vasta panóplia de actividades.</P>         <P >Ademais        uma actividade (escrever, lavrar, pintar, correr etc.), sendo física na        forma da sua execução, não se define e designa em função desta, mas sim        da intencionalidade que a preside, do efeito e performance que visa e alcança.        É aqui que reside a sua fonte matricial. É isto que faz toda a diferença        e reduz a fanicos a falta de pensamento lógico e coerente que subjaz à tentativa        de querer impor como        referência cimeira, sólida, credível e aceitável a pretensa ‘actividade        física’. </P>                 <P> [<a name="19"></a><a href="#top19">19</a>] Hugo Lovisolo: <I >Estética, Esporte    e Educação Física</I>, Editorial Sprint, Rio de Janeiro, 1997.</P>                 <P > [<a name="20"></a><a href="#top20">20</a>] A onda do <I >activismo físico</I>    desvirtua e afronta o modelo e a tradicional ênfase educativa do desporto. Em    conformidade com o relativismo característico desta era, tudo o que mexe é movimento    positivo e louvável, como tudo o que emite som é música e todo o rabisco é uma    obra de arte. O lato sector do desporto, que sempre afirmou o valor da saúde,    vê-se pervertido e avaliado por bitolas sanitárias, caindo no menoscabo os seus    valores matriciais e essenciais, culturais, éticos e estéticos. De categoria    pedagógica resvala para categoria médica.</P>                 <P > [<a name="21"></a><a href="#top21">21</a>] <I  >Ibidem.</I></P>                 <P > [<a name="22"></a><a href="#top22">22</a>] Zygmunt Bauman: <I >VIDA LÍQUIDA</I>,    p. 119-134, Jorge Zahar Editor, Rio de Janeiro, 2005.</P>                 <P > [<a name="23"></a><a href="#top23">23</a>] O cantor e compositor brasileiro    Herbert Viana é particularmente duro no convite à reflexão: “Cirurgia de lipoaspiração?    Pelo amor de Deus, eu não quero usar nada nem ninguém, nem falar do que não    sei, nem procurar culpados, nem acusar ou apontar pessoas, mas ninguém está    percebendo que toda essa busca insana pela estética ideal é muito menos lipo-as    e muito mais piração?</P>         <P >Uma        coisa é saúde e outra é obsessão. O mundo pirou, enlouqueceu. Hoje Deus        é a auto-imagem. Religião é dieta. Fé, só na estética. Ritual é malhação.        (...)</P>         <P >Gordura        é pecado motal. Ruga é contravenção. Roubar pode, envelhecer não. Estria        é caso de polícia. Celulite é falta de educação. (...)</P>         <P >A        sociedade consumidora, a que tem dinheiro, a que produz, não pensa em mais        nada além da imagem, imagem, imagem, imagem, estética, medidas, beleza.        Nada mais importa. Não importam os sentimentos, não importa a cultura, a        sabedoria, o relacionamento, a amizade, a ajuda, nada mais importa. </P>         ]]></body>
<body><![CDATA[<P >Não        importa o outro, o coletivo. Jovens não têm mais fé, nem idealismo, nem        posição política. Adultos perdem o senso em busca da juventude fabricada.        </P>         <P >OK,        eu também quero me sentir bem, quero caber nas roupas, quero ficar legal,        quero caminhar, correr, viver muito, ter uma aparência legal, mas...</P>         <P >Uma        sociedade de adolescentes anoréxicas e bulímicas, de jovens lipoaspirados,        turbinados, aos vinte anos, não é natural. Não é, não pode ser. Que as pessoas        discutam o assunto. Que alguém acorde. Que o mundo mude”.</P>                 <P > [<a name="24"></a><a href="#top24">24</a><a href="#top24"></a>] Zygmunt Bauman:    <I >IDENTIDADE – Entrevista a Benedetto Vecchi</I>, p. 80-82, Jorge Zahar Editor,    Rio de Janeiro, 2005.</P>          <P >[<a name="25"></a><a href="#top25">25</a>] Obviamente os mais afectados por    este clima são os idosos e aqueles que caem nas garras do desemprego. Contudo    todos os grupos da população são, de maneira mais directa ou indirecta, atingidos    pelo ambiente de vulnerabilidade reinante.</P>                 <P > [<a name="26"></a><a href="#top26">26</a>] Zygmunt Bauman: <I >Vida para    consumo: a transformação das pessoas em mercadorias,</I> p. 163, Jorge Zahar    Editor, Rio de Janeiro, 2008.</P>                 <P > [<a name="27"></a><a href="#top27">27</a>] A jornalista São José Almeida,    num artigo (“A imagem da Cimeira de Lisboa tem como contraponto a da manifestação    de 18 de Outubro”) inserido no jornal <I  >Público</I>, de 22 de Dezembro de 2007, vê nas reformas efectuadas na educação    e na saúde apenas uma “política propagandística de ‘terrorismo psicológico’    para colocar os cidadãos perante a verdade única e absoluta da nova revolução    em marcha: a de que as pessoas e os seus direitos custam caro ao Estado e à    sociedade. Como se as pessoas fossem parasitas. (…) Logo, a alternativa é o    mercado privado. Onde se compram e pagam os serviços, não se usufruindo de direitos,    como o de ter educação e de ter saúde”. A partir do facto de os cidadãos estarem    “a ser espoliados nos seus direitos”, a articulista conclui que os líderes europeus    “estão a ganhar esta nova forma de luta de classes”. Resta saber “se os cidadãos    nas ruas e nas lutas pela manutenção dos seus direitos os vão fazer perder o    sorriso e estragar-lhes a festa”.</P>                 <P > [<a name="28"></a><a href="#top28">28</a>] In: <I >Público</I>, 9 de Novembro    de 2007, p. 48.</P>                 <P > [<a name="29"></a><a href="#top29">29</a>] Texto publicado no dia 10.11.2007    no mesmo jornal.</P>                 <P > [<a name="30"></a><a href="#top30">30</a>] Vasco Pulido Valente volta à carga    num texto intitulado <I  >Fora o gordo (ou a gord</I>a), publicado também no Jornal <I >Público</I> (Porto,    4 de Abril de 2009, p. 40):</P>         ]]></body>
<body><![CDATA[<P >&nbsp;“O        Governo, como bom pai, mãe, tia, vigilante e polícia anda preocupado com        o nosso peso. (Por isso) resolveu congeminar um ‘plano’ contra a gordura.        Dizem que dentro de um homem gordo há sempre um homem magro que sonha nascer.        Pois respondendo a esse justo sonho, o Estado vai finalmente ajudar o parto        da magreza indígena. Já este ano, cada um dos 68 agrupamentos de Centros        de Saúde poderá contar com o seu nutricionista privado e próprio. Há hoje        apenas 75 em exercício, não tardará, esperemos, que haja mais 500. </P>         <P >Se        até agora o senhor, ou a senhora, por ignorância ou vício, passeava por        aí a sua repugnante corpulência (ou, pior ainda, a mostrava na praia), daqui        em diante assim que penetrar num Centro de Saúde será imediatamente conduzido        a um nutricionista, que o porá numa dieta rigorosa e, em menos de nada,        lhe arrancará a casca da adiposidade que preocupa a Pátria e o seu chefe.        Pense que, depois de uma vida de erro e masoquismo, irá para o futuro comer        e beber bem (…) Pense e rejubile. Imagine a sua pessoa elegante e bela e        sobretudo esqueça que a mesa é um prazer. A mesa não é um prazer, é, como        oportunamente lhe explicarão, um puro suicídio.</P>         <P >Claro        que o Estado não se dá a tanto trabalho só por altruísmo. O excesso de peso        e a obesidade estão na origem de várias doenças, com o Estado não deseja        gastar dinheiro consigo. Por isso o Estado desejaria que o senhor, ou a        senhora, não fumasse (e o persegue quando fuma) e não ingerisse muito sal        (e lhe tirou o sal do pão) e se prepara pouco a pouco para o reduzir a um        perfeito exemplar da espécie, destinado a morrer impecável e robusto numa        extrema e acéfala velhice. Onde fica no meio disto a sua liberdade é melhor        não perguntar. O Estado, que o trata e o educa, não se interessa pela sua        liberdade. Uma liberdade que o senhor, ou a senhora, se o deixarem à solta,        usa com certeza mal. É preferível que o eng. Sócrates, que de resto o conhece        bem, o meta na ordem. Ou julgava que a beneficência do Governo era de graça?”</P>          <P >[<a name="31"></a><a href="#top31">31</a>] Adauto Novaes: <I >ENSAIOS SOBRE    O MEDO</I>, Editora Senac, São Paulo, 2007.</P>                 <P > [<a name="32"></a><a href="#top32">32</a>] Luc Ferry: <I >APRENDER A VIVER</I>,    Rio de Janeiro: Objetiva, 2007.</P>                 <P > [<a name="33"></a><a href="#top33">33</a>] Adauto Novaes, <I  >ibidem</I>.</P>                 <P > [<a name="34"></a><a href="#top34">34</a>] O cúmulo do extremismo é atingido    e demonstrado pela campanha movida pelas autoridades da Holanda, na quadra natalícia    de 2007, contra o surgimento de figuras de Pai-Natal com porte indiciador de    obesidade!</P>                 <P > [<a name="35"></a><a href="#top35">35</a>] O sociólogo António Barreto, num    artigo intitulado <I  >“Eles estão doidos!”</I>, igualmente publicado no jornal <I >Público</I>, após    abordar toda uma série de regras que estão a ser impostas na comercialização,    venda e transporte de alimentos e na configuração e condições climáticas dos    estabelecimentos de restauração, bem como na tipologia das facas, colheres e    garfos, conclui: “Tudo isto, como é evidente, para nosso bem. Para proteger    a nossa saúde. Para modernizar a economia. Para apostar no futuro. Para estarmos    na linha da frente. E não tenhamos dúvidas: um dia destes, as brigadas vêm,    com estas regras, fiscalizar e ordenar as nossas casas. Para nosso bem, pois    claro”. </P>                 <P > [<a name="36"></a><a href="#top36">36</a>] Desde Aristóteles até aos nossos    dias os pensadores, que se dedicam a reflectir acerca da felicidade e das vias    que a ela conduzem, colocam-na na dependência do modo como usamos as possibilidades.    Quanto mais elevado é o uso que fazemos das nossas potencialidades, tanto maiores    são as probabilidades de nos abeirarmos da felicidade. E o inverso vale igualmente    como lei. O lema olímpico do desporto – <I >Citius, Altius, Fortius! </I>– tem    subjacente esta noção; é uma exortação a que façamos um uso sempre superior    e renovado das nossas capacidades. É um apelo para que não nos contentemos com    o pequeno, o mediano e o relativo; para que ousemos ir cada dia mais além, porquanto    o absoluto e o infinito são a medida do Homem e não há felicidade mais genuína    do que a resultante dos actos e feitos que nos transcendem e configuram na superação.    No fundo a felicidade é uma <I  >performance</I> da vida.</P>         <P >Albert        Schweizer, médico e filósofo francês (1875-1965), acrescenta que a “felicidade        não é mais do que boa saúde e má memória”. Má memória para esquecer o que        nos perturba, penaliza, atormenta, diminui e apouca.</P>                 ]]></body>
<body><![CDATA[<P > [<a name="37"></a><a href="#top37">37</a>] Zygmunt Bauman: <I >Globalização:    as consequências humanas,</I> p. 57-58, Jorge Zahar Editor, Rio de Janeiro,    1999.</P>                 <P > [<a name="38"></a><a href="#top38">38</a>] Adroaldo Gaya: texto de um discurso    proferido no dia 8 de Janeiro de 2009, na Escola de Educação Física da UFRGS,    Porto Alegre, Brasil, por ocasião da cessação da função de Diretor do LAPEX.</P>                 <P > [<a name="39"></a><a href="#top39">39</a><a href="#top39"></a>] As recentes    revoltas e manifestações de rua dos jovens na Grécia traduzem esta dura realidade:    no Maio de 1968 os contestatários pertenciam à sociedade, faziam parte dela,    reivindicavam a sua transformação; ao passo que muitos jovens estão hoje excluídos    da sociedade, lutam pela inclusão nela. A diferença é abissal: em 1968 os jovens    eram movidos por utopias e perspectivas sociais; aos jovens de agora a sociedade    não oferece qualquer perspectiva.</P>                 <P > [<a name="40"></a><a href="#top40">40</a>] Ronaldo Monte, <I  >ibidem.</I></P>                 <P > [<a name="41"></a><a href="#top41">41</a>] Ver Zygmunt Bauman: <I >TEMPOS    LÍQUIDOS</I>. Jorge Zahar Editor, Rio de Janeiro, 2007.</P>                 <P > [<a name="42"></a><a href="#top42">42</a>] O <I >Titanic</I> foi um navio    transatlântico, considerado inafundável. Na noite de14 de Abril de1912, pelas    23h40, chocou com um iceberg, na Latitude 41º 46´N e Longitude 50º 14´W. Passados    20 minutos afundou-se, tendo perdido a vida 1517 pessoas. </P>                 <P > [<a name="43"></a><a href="#top43">43</a>] Zygmunt Bauman: <I >GLOBALIZAÇÃO:    As consequências humanas</I>, p. 11, Jorge Zahar Editor, Rio de Janeiro, 1999.</P>                 <P > [<a name="44"></a><a href="#top44">44</a>] Democracia significa etimologicamente    o poder outorgado pelo povo. A separação introduzida aqui na palavra é para    traduzir a inquietação em relação à sua perversão como poder do demo.</P>                 <P > [<a name="45"></a><a href="#top45">45</a>] Yves de la Taille: <I>Formação    Ética: do Tédio ao Respeito de si</I>, p. 115, Porto Alegre, ARTMED, 2009.</P>                 <P > <a name="46"></a>[<a href="#top46">46</a>] Encontro de Barack Obama com jovens    em Estrasburgo, em 03.04.2009. In: Jornal <I  >Público</I>, p. 5, Porto, 4 de Abril de 2009.</P>                ]]></body>
<body><![CDATA[<P></P>              [<a name="47"></a><a href="#top47">47</a>] Atente-se neste texto (<I >Cruzamento  de dados em 2019</I>), entrado no meu e-mail em 12.02.2009. É ficção, mas não  tanto como parece à primeira vista:</P>      <P >       <I  >- Telefonista: Pizza Hut, boa noite!</I></P>         <P ><I  >-        Cliente: Boa noite, quero        encomendar Pizzas...</I></P>         <P ><I  >-        Telefonista: Pode dar-me        o seu NIN?</I></P>         <P ><I  >-        Cliente: Sim, o meu Número        de Identificação Nacional é o 6102 1993 8456 5463 2107.</I></P>         <P ><I  >-        Telefonista: Obrigada, Sr.        Lacerda. O seu endereço é na Avenida Paes de Barros, 19, Apartamento 11,        e o número do seu telefone é o 21549 4236, certo?        O telefone do seu escritório na Liberty Seguros, é o 21 574 52 30 e o seu        telemóvel&nbsp; é o 96 266 25 66, correcto?</I></P>         <P ><I  >-        Cliente: Como é que conseguiu        todas essas informações?</I></P>         <P ><I  >-        Telefonista: Porque estamos        ligados em rede ao Grande Sistema Central.</I></P>         <P ><I  >-        Cliente: Ah, sim, é verdade!        Quero encomendar duas Pizzas: uma Quatro Queijos e outra Calabresa...</I></P>         <P ><I  >-        Telefonista: Talvez não        seja boa ideia...</I></P>         ]]></body>
<body><![CDATA[<P ><I  >-        Cliente: O quê...?</I></P>         <P ><I  >-        Telefonista: Consta na sua        ficha médica que o senhor sofre de hipertensão e tem a taxa de colesterol        muito alta. Além disso, o seu seguro de vida proíbe categoricamente escolhas        perigosas para a saúde.</I></P>         <P ><I  >-        Cliente: Claro! Tem razão!        O que é que sugere?</I></P>         <P ><I  >-        Telefonista: Por que é que        não experimenta a nossa Pizza Superlight, com Tofu e Rabanetes? O senhor        vai adorar!</I></P>         <P ><I  >-        Cliente: Como é que sabe        que vou adorar?</I></P>         <P ><I  >-        Telefonista: O senhor consultou        a página "Receitas Gulosas com Soja" da Biblioteca Municipal, no dia 15        de Janeiro, às 14:27 e permaneceu ligado à rede durante 39 minutos. Daí        a minha sugestão...</I></P>         <P ><I  >- Cliente: Ok, está bem! Mande-me então        duas Pizzas tamanho familiar!</I></P>         <P ><I  >-        Telefonista: É a escolha        certa para o senhor, a sua esposa e os vossos quatro filhos, pode ter a        certeza</I></P>         <P ><I  >-        Cliente: Quanto é?</I></P>         <P ><I  >-        Telefonista: São 49,99.</I></P>         ]]></body>
<body><![CDATA[<P ><I  >-        Cliente: Quer o número do        meu Cartão de Crédito?</I></P>         <P ><I  >-        Telefonista: Lamento, mas        o senhor vai ter que pagar em dinheiro. O limite do seu Cartão de Crédito        foi ultrapassado</I></P>         <P ><I  >-        Cliente: Tudo bem. Posso        ir ao Multibanco levantar dinheiro antes que chegue a Pizza.</I></P>          <P ><I  >- Telefonista: Duvido que consiga. A sua Conta de Depósito à Ordem está com o    saldo negativo. </I></P>     <P ><I  >- Cliente: Meta-se na sua vida! Mande-me as Pizzas que eu arranjo o dinheiro.    Quando é que entregam?</I></P>         <P ><I  >-        Telefonista: Estamos um        pouco atrasados. Serão entregues em 45 minutos.        Se estiver com muita pressa pode vir buscá-las, se bem que transportar duas        Pizzas na moto, não é lá muito aconselhável. Além de ser perigoso...</I></P>         <P ><I  >-        Cliente: Mas que história        é essa? Como é que sabe que eu vou de moto?</I></P>         <P ><I  >-        Telefonista: Peço desculpa,        mas reparei aqui que não pagou as últimas prestações do carro e ele foi        penhorado. Mas a sua moto está paga e então, pensei que fosse utilizá-la.</I></P>         <P ><I  >-        Cliente: Chiça!...</I></P>         <P ><I  >-        Telefonista: Gostaria de        pedir-lhe para não ser mal educado... Não se esqueça de que já foi condenado        em Julho de 2006 por desacato em público a um Agente da Autoridade.</I></P>         ]]></body>
<body><![CDATA[<P ><I  >-        Cliente: (Silêncio).</I></P>         <P ><I  >-        Telefonista: Mais alguma        coisa?</I></P>         <P ><I  >-        Cliente: Não. É só isso...        Não. Espere... Não se esqueça dos 2 litros de Coca-Cola que constam na promoção.</I></P>         <P ><I  >-        Telefonista: O regulamento        da nossa promoção, conforme citado no artigo 095423/12, proíbe a venda de        bebidas com açúcar a pessoas diabéticas...</I></P>         <P ><I  >-        Cliente: Aaaaaaaahhhhhhhh!        Vou atirar-me pela janela!</I></P>         <P ><I  >-        Telefonista:<B> </B>E torcer        um pé? O senhor mora no rés-do-chão!...</I></P>          <P >[<a name="48"></a><a href="#top48">48</a><a href="#top48"></a>] Luc Ferry,    <I  >ibidem</I>.</P>                 <P > [<a name="49"></a><a href="#top49">49</a>] Frei Bento Domingues, <I >Público</I>,    Domingo 11 de Janeiro 2009.</P>                 <P > [<a name="50"></a><a href="#top50">50</a>] Michel Foucault, <I  >ibidem</I>.</P>                 <P > [<a name="51"></a><a href="#top51">51</a>] António Gedeão é o pseudónimo    literário de Rómulo Vasco da Gama de Carvalho (1906-1997), ilustre professor    e cientista na área de Físico-Química.</P>                 ]]></body>
<body><![CDATA[<P > [<a name="52"></a><a href="#top52">52</a>] Zygmunt Bauman: <I  >Vida para consumo: a transformação das pessoas em mercadorias</I>. Jorge Zahar    Editor, Rio de Janeiro, 2008.</P>                 <P > [<a name="53"></a><a href="#top53">53</a>] <I  >Ibidem, </I>p. 22.</P>                 <P > [<a name="54"></a><a href="#top54">54</a>] Estas afirmações de Adroaldo Gaya    constituem um comentário corroborativo do teor essencial de um texto assaz pertinente    (<I  >Metamorfoses do desporto e os novos delegados de propaganda médica</I>), publicado    por José Manuel Constantino no blogue <I  >Colectividade Desportiva</I>, em 8 de Janeiro de 2009.</P>                 <P > [<a name="55"></a><a href="#top55">55</a>] Entre a cautela e o forte apelo    do perigo. Entrevista com John Adams, in: <I  >O Estado de S. Paulo</I>, J4/ALIÁS, 4 de Maio de 2009.</P>                 <P > [<a name="56"></a><a href="#top56">56</a>] Filósofo, poeta e ensaísta português;    passou largo tempo da sua vida no Brasil. </P>                 <P > [<a name="57"></a><a href="#top57">57</a>] E vale também a convicção de Aristóteles    (384-322 a. C): “É lícito afirmar que são prósperos os povos cuja legislação    se deve aos filósofos”. Tendo em consideração que da filosofia emana um conhecimento    orientado essencialmente pela transcendência.</P>                 <P > [<a name="58"></a><a href="#top58">58</a>] Num capítulo intitulado “Felicidade    contra necessidade” Hugo Lovisolo apoia-se em vários autores e aforismos para    afirmar: “Os animais se alimentam, o homem come; só o homem refinado sabe comer”.    E acrescenta: “a identidade do homem está no que come. (…) Comer deixa de ser    uma mera necessidade biológica e desenvolve-se (…) como gosto, como ato estético    e civilizador”. (<I  >Ibidem</I>).</P>                 <P > [<a name="59"></a><a href="#top59">59</a>] Vergílio Ferreira: <I >Invocação    ao meu corpo</I>. Livraria Bertrand, Lisboa, p. 324-329, 1978.</P>                 <P > [<a name="60"></a><a href="#top60">60</a>] Ver Zygmunt Bauman: <I >TEMPOS    LÍQUIDOS</I>. Jorge Zahar Editor, Rio de Janeiro, 2007.</P>                 <P > [<a name="61"></a><a href="#top61">61</a>] “Precisamos de mitos para tornar    suportáveis os nossos dilemas irresolúveis. (…) Se fôssemos demolidores irresponsáveis    de mitos, rasgaríamos os nossos direitos humanos e começaríamos de novo: repensando    o que queremos dizer com vida humana e dignidade humana. Por enquanto, se quisermos    continuar a acreditar que somos humanos, e justificar o status especial que    nos atribuímos – se, na verdade, quisermos permanecer humanos através das mudanças    que enfrentamos -, é melhor não descartar o mito, mas começar tentando viver    à sua altura”. (Felipe Fernández-Armesto, in: <I >Então você pensa que é humano?</I>    <I>Uma breve história da humanidade</I>. São Paulo: Companhia das Letras, 2004).</P>     ]]></body>
<body><![CDATA[<P >&nbsp;</P>     <P ><B  ><a name="c1"></a><a href="#topc1">CORRESPONDÊNCIA</a></B></P>     <P ><B  >Jorge Olímpio Bento</B></P>     <P >Faculdade de Desporto, Universidade do Porto</P>     <P >Rua Dr. Plácido Costa, 91</P>     <P >4200-450, Porto</P>     <P >Portugal</P>     <P >E-mail: <a href="mailto:jbento@fade.up.pt">jbento@fade.up.pt</a></P>     <P >&nbsp;</P>        ]]></body><back>
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<surname><![CDATA[Foucault]]></surname>
<given-names><![CDATA[Michel]]></given-names>
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<source><![CDATA[As palavras e as coisas]]></source>
<year>1991</year>
<publisher-loc><![CDATA[Lisboa ]]></publisher-loc>
<publisher-name><![CDATA[Edições 70]]></publisher-name>
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