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<journal-title><![CDATA[Revista Portuguesa de Ciências do Desporto]]></journal-title>
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<article-title xml:lang="pt"><![CDATA[O importante é publicar. A (re)produção do conhecimento em educação física e ciências do desporto nos países de língua Portuguesa]]></article-title>
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<institution><![CDATA[,Universidade Federal do Rio Grande do Sul Escola Superior de Educação Física ]]></institution>
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</front><body><![CDATA[ <p> <b>O importante é publicar. A (re)produção do conhecimento em educação física    e ciências do desporto nos países de língua Portuguesa[<a name="topa1"></a><a href="#a1">1</a>]</B></P>     <p> <b>&nbsp;</B></P>     <p> <b>Adroaldo Gaya [<a name="topa2"></a><a href="#a2">2</a>]</B></P>     <p> Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Escola Superior de Educação Física,    Porto Alegre, Brasil</P>     <p>&nbsp; </P>     <p>&nbsp;</P>     <p><b>Introdução</B></P>     <p> <b>&nbsp;</B></P>     <p><i>A peruca é o símbolo mais apropriado para o  erudito puro. Trata-se de homens que adornam a cabeça com uma rica massa de  cabelo alheio porque carecem de cabelos próprios.</I></P>     <p> <b><i>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;    </I></B>Artur Schopenhauer<SUP>(<a name="top6"></a><a href="#6">6</a>)</SUP></P>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>A epígrafe dá o tom do presente ensaio. Devo prevenir o leitor de que o texto    que segue, embora repleto de sinceridade e paixão, provavelmente terá gosto    amargo. Principalmente ao sabor de alguns jovens cientistas e seus professores    que confessam e partilham o paradigma epistemológico hegemônico em nossas faculdades.    O paradigma que se funda no modelo de ciência que vou denominar de “modelo produtivista    da ciência”.</P>     <p><i>Há pessoas que simplesmente vivem da ciência: para eles, a ciência não passa    de “uma boa vaca que lhes fornece leite.” </I><SUP>(<a href="#6">6</a>, p.25)</SUP></P>     <p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Sequer percebem;</P>     <p><i>Que a ciência que criamos é apenas isso, nossa criação. Mesmo que maravilhosa,    será sempre limitada pelo que podemos conhecer do mundo. E como nunca poderemos    conhecer tudo o que existe, nossa ciência será sempre incompleta.</I> <SUP>(<a name="top3"></a><a href="#3">3</a>,    p. 217)</SUP></P>     <p>Desculpem a ousadia. Mas, como nos ensina Umberto Eco<SUP>(<a name="top2"></a><a href="#2">2</a>,    p.11)</SUP>, </P>     <p><i>Se alguém se abate por uma escolha política, civil ou moral </I>(e no meu    caso uma escolha epistemológica) <i>tem o direito-dever de estar disposto a    mudar de opinião. Mas no momento em que critica tem de estar convencido de que    a razão está do seu lado, para poder denunciar energicamente o erro daqueles    que tem o comportamento diferente do seu.</I></P>     <p>De minha parte, estou convencido das idéias que passo a defender. E, neste    ensaio sobre os desafios da internacionalização de nossa comunidade científica    de ciências do desporte e educação física de língua portuguesa, apresento uma    tese principal de onde decorrem três hipóteses orientadoras:</P>     <p>TESE: A Ciência que não está a serviço da vida, em todas as suas formas, é    eticamente insustentável.</P>     <p>&nbsp;&nbsp;&nbsp; </P>     <p><b>HIPÓTESES</b>:</P>        ]]></body>
<body><![CDATA[<p>1. O modelo de    formação de pesquisadores e de produção do conhecimento científico que, a meu    ver, estamos consolidando em nossos cursos de graduação e pós-graduação,    fundamenta-se num produtivismo que privilegia a prática de uma ciência    alienada de valores epistemológicos e éticos. </p>       <p>2. &nbsp;Centrando-se predominantemente na    produção de artigos para revistas internacionais, ditas de alto impacto,    estamos submetidos a um sistema arbitrário que nos impõe uma vassalagem aos    ditames das grandes corporações científicas internacionais (leia-se editores    científicos), onde somos forçados a nos submeter a uma verdadeira ditadura de    métodos e de conteúdos.&nbsp; Enfim, só    se pesquisa o que se pode publicar e, por outro lado, só se publica o que os    editores internacionais permitem. </p>        <p>3. Nestas condições, seguindo a reboque das grandes corporações científicas    internacionais e limitando-nos às fronteiras de um dogmatismo epistemológico    produtivista, dificilmente alcançaremos algum reconhecimento e, como tal, permaneceremos    na periferia da comunidade científica internacional. </p>     <p>Sustentarei essas conjecturas por  meio de breves sentenças morais. Entremeando convicções teóricas e exemplos  concretos extraídos de nossa realidade, escreverei em linguagem direta e sem  subterfúgios. Pretendo desmitificar alguns credos que se repetem em nossa  academia como se fossem verdades absolutas. Pretendo desvendar mistérios para  que possamos enxergar além dos limites restritos de um fazer científico que se  orienta por princípios de um pragmatismo exagerado, onde o que realmente  interessa é obedecer a uma política produtivista que se mantém restrita a  modelos epistemológicos reducionistas e pouco criativos. Tocarei em pontos  nevrálgicos. Daí, o meu alerta inicial. Talvez este ensaio não seja agradável  aos cientistas da moda, mas tenho a convicção de sua necessidade.  </P>     <p>&nbsp;</P>     <p> <b>1</B></P>     <p>Permitam-me iniciar com uma longa, mas reveladora citação, retirada do excelente    romance de Peter Bieri, que o escreveu sob o pseudônimo de Pascal Mercier, o    <i>Trem Noturno para Lisboa</I><SUP>(<a name="top4"></a><a href="#4">4</a>)</SUP>.    Logo no início, na página 33, encontramos o seguinte texto atribuído a um dos    personagens da história (um pretenso escritor português de nome Amadeu de Prado,    autor de um também pretenso livro: <i>O ourives das palavras</I>)<i>.</I></P>     <p><i>Quando leio jornal, escuto rádio ou presto atenção no que as pessoas dizem    no café, sinto cada vez mais um enfado, um asco mesmo das palavras sempre iguais    que são escritas ou ditas, sempre as mesmas expressões, sempre os mesmos floreios,    as mesmas metáforas. (...) Essas palavras estão terrivelmente gastas e usadas,    esgotadas pelos milhões de vezes em que foram usadas. Terão ainda algum significado?    (...) A questão é: será que elas ainda exprimem pensamentos? Ou apenas formações    sonoras que impelem as pessoas de um lado para o outro porque iluminam os traços    de uma eterna tagarelice.</I></P>     <p>&nbsp;</P>     <p> <b>2</B></P>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>O que dizer de nossas tagarelices  científicas?</P>     <p>&nbsp;</P>     <p> <b>3</B></P>     <p>Será que esse modelo hegemônico de  ciência que exercitamos expresso numa tagarelice tão monótona quanto  sofisticada, permite que possamos acessar nosso cérebro antes de ligar nosso  computador? Ou será que andamos escravizados por modismos teóricos,  metodológicos, epistemológicos que nos conduzem a reproduzir idéias que nos são  impostas pelas corporações científicas internacionais? </P>     <p> <b>&nbsp;</B></P>     <p> <b>4</B></P>     <p>Onde somos originais? Onde se  materializa nossa criatividade? Onde nos livramos da ditadura do método? Quando  deixamos de tagarelar sempre as mesmas formas de dizer as mesmas coisas? Enfim,  quando “ligamos” nossos cérebros?</P>     <p> <b>&nbsp;</B></P>     <p> <b>5</B></P>     <p>Lembremos que uma atividade criativa,  como sugere Umberto Eco (<i>op.cit.</I>), é  aquela que produz algo de inédito, que a comunidade está disposta a reconhecer  como tal, aceitá-la, fazer sua e a reelaborar. Além do que, como nos lembra  Peirce (<i>apud, </I>Eco, <i>idibid.</I>), se torna patrimônio coletivo,  à disposição de todos, subtraído ao gozo pessoal. </P>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p> <b>&nbsp;</B></P>     <p> <b>6</B></P>     <p> <b>A ciência produtivista</B></P>     <p>A ciência deve estar a serviço da  humanidade. A ciência não deveria ser utilizada predominantemente como meio de  afirmação pessoal ou como forma de satisfazer vaidades. Devíamos dar menos valor  ao gozo pessoal. Todavia, em nossas faculdades adotamos uma política de  pesquisas que se configura num palco de disputas e concorrências que chegam às  raias do inadmissível.&nbsp; É o modelo  produtivista de ciência. Nele o que interessa é publicar. Publicar  muito.</P>     <p>&nbsp;</P>     <p> <b>7</B></P>     <p>Mas, convenhamos! Em nossas  publicações estaremos realmente produzindo conhecimentos ou, em verdade o que  fazemos é publicar em língua inglesa reproduções dos estudos realizados no  estrangeiro com amostras de portugueses, brasileiros, moçambicanos, angolano...?   </P>     <p> <b>&nbsp;</B></P>     <p> <b>8</B></P>     <p>Basta uma breve revisão nas  publicações de nossa ciência no Brasil, em Portugal, Moçambique..., para  percebermos que nossos estudos não decorrem principalmente das necessidades  inerentes às populações locais, mas da necessidade de nos aproximarmos do  primeiro mundo da ciência. Eis um aspecto ético do maior significado. Mais  importante do que investigar problemas de pesquisa realmente relevantes para a  nossa realidade, a nossa cultura e para o nosso povo, é obter autorização para  publicar nas revistas internacionais de alto impacto.&nbsp;&nbsp; </P>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p> <b>&nbsp;</B></P>     <p> <b>9</B></P>     <p>Talvez imaginemos que nada temos a  acrescentar ao mundo desenvolvido da ciência. Mas, cabe a pergunta: será que  nada temos para investigar, que, sendo fruto de nossa criatividade e compromisso  com nossa gente, possa constituir conhecimento original e relevante? Quando  vamos realmente produzir conhecimentos, ao invés de seguirmos reproduzindo o que  se faz lá fora e que nem sempre nos diz respeito?</P>     <p> <b>&nbsp;</B></P>     <p> <b>10</B></P>     <p> <b>Um mundo de vaidades</B></P>     <p><b> </B><i>Infelizmente. Vaidosos que somos, atribuímos peso demais às nossas    conquistas. Iludidos pelo nosso sucesso, imaginamos que essas verdades parciais    são parte de um grande quebra-cabeça, componentes de uma Verdade Final</I>,    esperando ser desvendada<SUP>(<a href="#3">3</a>, p. 25)</SUP>.&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;  </P>     <p>&nbsp; </P>     <p> <b>11</B></P>     <p>Já é hora de enfrentarmos algumas  evidências. Em primeiro lugar, basta um olhar à nossa volta para verificarmos  que a comunidade científica, em grande parte, se configura num mundo de  vaidades. Nossa comunidade de língua portuguesa não é diferente. Habitamos um  mundo onde ocorrem acirradas lutas entre sujeitos e grupos de sujeitos pelo <i>glamour </I>de ter seus nomes registrados em  revistas internacionais de alto impacto, de poder anunciar cientistas famosos  como amigos “íntimos”, obter financiamentos para sofisticados laboratórios que  se tornam <i>bunkers </I>de pequenos grupos.  </P>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</P>     <p> <b>12</B></P>     <p><i>A vaidade é a inconsciência da estupidez - </I>diz-nos o pretenso escritor    português Amadeu Prado no romance de Pascal Mercier<SUP>(<a href="#4">4</a>)</SUP>,    atrás referido.<i></I></P>     <p> <b>&nbsp;</B></P>     <p> <b>13</B></P>     <p>Atenção! Que fique claro: não estou  advogando para abandonarmos a busca incessante pela qualidade do trabalho  científico que nos leve ao cenário internacional. Não se trata de criticar o  desejo de publicarmos em revistas científicas prestigiadas. O que estou  afirmando é que o caminho para lá chegarmos é indevido.&nbsp;&nbsp;&nbsp; </P>     <p> <b>&nbsp;</B></P>     <p> <b>14</B></P>     <p> <b>A produção em periódicos com índices de  impacto</B></P>     <p>A vaidade também se manifesta na  interpretação sobre o significado de impacto de uma pesquisa científica. Para  esses pesquisadores o impacto de um estudo não está nos benefícios sociais e  culturais que ele produz na população cuja amostra constituiu-se em cobaia para  o grupo de investigadores. O impacto que realmente lhes interessa é o da revista  onde o artigo será publicado. </P>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p> <b>&nbsp;</B></P>     <p> <b>15</B></P>     <p>Assim, o que na vida acadêmica  deveria ser cooperação, solidariedade e respeito, passa a ser concorrência  desenfreada, corporativismo de grupo e desrespeito da ética da convivência  coletiva.</P>     <p> <b>&nbsp;</B></P>     <p> <b>16</B></P>     <p>Precisamos admitir que nossa  comunidade das ciências do desporto e de educação física de língua portuguesa  não será reconhecida na comunidade internacional se não criarmos uma identidade.  Não seremos percebidos na comunidade científica, se não produzirmos  conhecimentos originais. Tenho a convicção de que não será apenas reproduzindo e  replicando pesquisas que vamos obter reconhecimento. Certamente, não será apenas  colaborando com pesquisadores de renome e fornecendo nossa mão de obra (ou de  nossos alunos) e nossa gente como cobaias para replicação de estudos que  obteremos reconhecimento da comunidade científica. </P>     <p>&nbsp;</P>     <p> <b>17</B></P>     <p> <b>Um mundo de disputas</B></P>     <p>Na edição do XII Congresso de  Ciências do Desporte e Educação Física dos Países de Língua Portuguesa,  realizado em Porto Alegre anunciei alguns fatos que insistem em ficar  escondidos, à sombra de um discurso público, que sugerem sentimentos de  solidariedade, cooperação e respeito mútuo, mas que na verdade dissimulam  acirradas disputas entre pesquisadores e grupos de pesquisadores no espaço  lusófono.  </P>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p> <b>&nbsp;</B></P>     <p> <b>18</B></P>     <p> <b>O descrédito no trabalho alheio</B></P>     <p>Falamos em comunidade das ciências do  desporto e educação física dos países de língua portuguesa. Mas será que podemos  realmente acreditar nesse discurso? Será que nossa comunidade vai além dos  encontros sociais em que celebramos nossa amizade em abraços fraternos?  Conseguimos ir além das edições de nossos congressos e alguns livros onde  reunimos virtualmente (tudo é feito pela internet) autores que sequer lêem uns  aos outros?</P>     <p>&nbsp;</P>     <p> <b>19</B></P>     <p>Conseguimos entre Brasil, Portugal e  Moçambique, de início, uma boa experiência de mobilidade discente e docente.  Muitos estudantes de graduação e mestrado atravessaram oceanos. Realizamos um  doutoramento em parceria UP, USP e UFRGS. Professores cruzaram o Atlântico para  ministrar aulas e conferências numa e noutra margem. E daí para frente? O que  realizamos efetivamente que possa nos fortalecer frente à comunidade  internacional?</P>     <p> <b>&nbsp;</B></P>     <p> <b>20</B></P>     <p>Como imaginar uma cooperação efetiva no espaço da língua portuguesa com tantas    vaidades e sentimentos de superioridade que se manifestam de lado a lado e que    se mostram em vários cenários? Vou enumerar alguns exemplos. Sei que revelarei    comportamentos e atitudes constrangedoras. Evidentemente, anunciarei os milagres,    mas não vou identificar os santos. Colegas tenham certeza, o que lhes relato    é retirado da vida real, ocorre em trabalhos publicados, em simpósios, nos gabinetes,    em sala de aula, nos corredores e em mensagens de e-mail que, ao longo de quase    20 anos, tenho acompanhado. </P>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</P>     <p> <b>21</B></P>     <p>Consultem os trabalhos publicados de nossos principais autores. Autores de    uma mesma área de pesquisa. Área da atividade física e saúde, por exemplo, e    tentem encontrar nos trabalhos de pesquisadores portugueses citações de autores    brasileiros e vice-versa. É muito raro. Já disse em Porto Alegre e repeti em    Maputo[<a name="topa3"></a><a href="#a3">3</a>], nós não nos lemos. Não valorizamos    nossos pares. Não acreditamos em nossa própria capacidade de produzir conhecimentos.&nbsp;    No entanto, principalmente portugueses e brasileiros publicam com muita frequência    em periódicos internacionais ditos de alto impacto. Basta uma breve consulta    nos principais indexadores científicos para verificarmos essa afirmação.</P>     <p>&nbsp;</P>     <p> <b>22</B></P>     <p>O que dizer quando um orientador de  doutorado de um estudante brasileiro sugere que seu aluno retire autores  brasileiros de sua tese, argumentando que tais autores não possuem  representatividade científica? Percebam o absurdo. Não é o conteúdo das  pesquisas que interessa, mas o status do pesquisador e, principalmente, se ele  fala, escreve, é de origem ou reside num espaço não lusófono.&nbsp; </P>     <p> <b>&nbsp;</B></P>     <p> <b>23</B></P>     <p>O que pensar quando congressos  internacionais de grande relevância são realizados no Brasil e em Portugal, sem  a presença de convidados portugueses no Brasil e convidados brasileiros em  Portugal? E sem a presença de moçambicanos num e noutro  país?</P>     <p>&nbsp;</P>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p> <b>24</B></P>     <p>Será que o sonho da comunidade das  ciências do desporto e educação física dos países de língua portuguesa limita-se  apenas aos nossos congressos? </P>     <p> <b>&nbsp;</B></P>     <p> <b>25</B></P>     <p> <b>Dissertações e teses</B></P>     <p>O produtivismo científico atingiu em  cheio a formação de professores. Nossas dissertações e teses já não são mais  monografias que permitem aos nossos mestrandos e doutorandos um aprofundamento  teórico e metodológico. O que importa é publicar, em co-autoria com orientador e  os colegas de grupo, três, quatro ou cinco artigos para “engordar” o currículo  acadêmico dos pares. </P>     <p>&nbsp;</P>     <p> <b>26</B></P>     <p>Quando participarmos de um júri de  mestrado ou doutorado, já não sabemos mais quem estamos avaliando. Será o  estudante que está perante o júri a apresentar o trabalho ou será o orientador,  orientadores ou um grupo de pesquisa?</P>     <p>&nbsp;</P>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p> <b>27</B></P>     <p>Os programas de pós-graduação já não  se preocupam com a formação de pesquisadores. Os programas se preocupam em  produzir artigos, independente se os mestrandos e doutorandos, quando concluem  os cursos, terão capacidade para seguirem suas vidas acadêmicas com autonomia  intelectual e criatividade.</P>     <p> <b>&nbsp;</B></P>     <p> <b>28</B></P>     <p>Hoje em muitos júris de mestrado e  doutorado a primeira pergunta de um arguente é a seguinte: em que revista você  pretende publicar os resultados de sua dissertação ou tese? E a partir da  resposta do candidato se desenvolve a argüição, tendo como parâmetro de  qualidade as exigências dos editores do referido periódico científico.  </P>     <p> <b>&nbsp;</B></P>     <p> <b>29</B></P>     <p> <b>E  o modelo produtivista de ciência contaminou os cursos de  graduação</B></P>     <p>O modelo produtivista atingiu em  cheio os cursos de formação professores de educação física, principalmente nas  grandes universidades, onde a pesquisa é atividade inerente à formação e,  diga-se de passagem, é tratada com muita competência.</P>     <p>&nbsp;</P>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p> <b>30</B></P>     <p>&nbsp;Dessa contaminação resultaram, entre  outras, duas conseqüências que estão diretamente relacionadas com a formação  científica dos graduandos: (1º) ou a  iniciação científica induz o estudante de graduação a tornar-se um pesquisador  precocemente especializado numa determinada disciplina científica; (2º) ou a  iniciação científica faz do estudante de graduação mão de obra para aumentar a  produção científica de seus orientadores. </P>     <p>&nbsp;</P>     <p> <b>31</B></P>     <p>No primeiro caso, o estudante de  graduação se integra aos grupos de pesquisa e passa a ter uma formação  científica disciplinar altamente especializada (muito competente, sem dúvida!).  É comum observarmos que, na medida em que este aluno obtenha sucesso, logo ao  final do curso de graduação realizará seu mestrado, ato contínuo, seu doutorado  e, como tal, será um doutor em educação física, sem sequer ter dado aulas de  educação física. Isto, se ainda não fizer um concurso para a carreira  universitária e, em consequência do peso atribuído à sua produção científica,  for aprovado e acabe ministrando aulas nos cursos de formação de professores de  educação física. </P>     <p>&nbsp;</P>     <p> <b>32</B></P>     <p>No segundo caso, a situação é mais grave. O estudante, servindo como mão de    obra num laboratório ou gabinete de um grupo de pesquisadores mais experientes,    realiza tarefas específicas para auxiliar os mestrandos e doutorandos do orientador    e, como tal, não segue um percurso devidamente planejado para sua formação científica.    Produz um trabalho de conclusão de curso de graduação (TCC)[<a name="topa4"></a><a href="#a4">4</a>]    em co-autoria com vários estudantes de pós-graduação e o respectivo orientador,    sem, no entanto, aprender os caminhos para a sua autonomia científica. Torna-se    um escravo de técnicas e métodos de pesquisa que seus colegas mais experientes    lhe apresentaram de forma acrítica num programa de computador onde digita comandos    que lhe fornecem dados, sem sequer compreender o respectivo significado.&nbsp;  </P>     <p> <b>&nbsp;</B></P>     <p> <b>33</B></P>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>É fácil concluir que tais caminhos  nos distanciam da formação pedagógica em educação física e esportes. A pesquisa  deixa de ser um instrumento de autonomia para a produção do conhecimento. A  especialização disciplinar precoce limita os horizontes do estudante. Ele passa  a ver o mundo através de uma janela única. Uma janela estreita. Reduz o mundo às  fronteiras da sua disciplina. Assim, a educação física e os conhecimentos sobre  as práticas desportivas implodem em fragmentos de fisiologia, biomecânica,  bioquímica, psicologia, sociologia, antropologia; e correm o risco de nunca  encontrar sua matriz transdisciplinar. </P>     <p>&nbsp;</P>     <p> <b>34</B></P>     <p>Considerando minha experiência como  professor de epistemologia e metodologia da pesquisa em cursos de graduação e  pós-graduação em educação física, me preocupo com os rumos que a produção  científica tem seguido já a partir do TCC de graduação. Afinal, nossos cursos de  graduação formam professores de educação física ou pesquisadores profissionais?!  </P>     <p>&nbsp;</P>     <p> <b>35</B></P>     <p>A pesquisa nos cursos de graduação é  um instrumento para propiciar ao professor produzir conhecimentos que possam dar  sustentação à sua prática pedagógica? Ou será uma nova especialização  profissional com fim em si mesmo? </P>     <p>&nbsp;</P>     <p> <b>36</B></P>     <p>O que se torna mais relevante num  curso de graduação em educação física? Formar um bom professor? Ou formar um  excelente pesquisador mesmo que não saiba ministrar aulas?  </P>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</P>     <p> <b>37</B></P>     <p>Tenho a convicção de que o objetivo  dos cursos de graduação em educação física é formar bons professores de educação  física. Sendo assim, é neste contexto que se deve pensar a finalidade da  formação científica do estudante de graduação.</P>     <p> <b>&nbsp;</B></P>     <p> <b>38</B></P>     <p>Há certamente unilateralidades e parcialidades, quiçá algum excesso, nas tintas    desta análise; mas exagerar é uma maneira de alertar, de mostrar contradições,    insuficiências, superficialidades e derivas numa conjuntura que acentua e enfatiza    o culto da vaidade e ignora tantos outros valores relevantes. Importa, sobretudo,    que nos interroguemos se não estamos possuídos de uma mentalidade meramente    pragmática e (re)produtivista, onde os objetivos da produção do conhecimento    científico se limitam a dar prestigio ao nosso currículo acadêmico,&nbsp; insuflar    nossos egos, independentemente do significado e do compromisso humano de nossas    pesquisas[<a name="topa5"></a><a href="#a5">5</a>]. </P>     <p> <b>&nbsp;</B></P>     <p> <b>39</B></P>     <p> <b>Em forma  de conclusão</B></P>     <p><B><i> </I></B><i>O valioso tempo dos maduros</I></P>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Mário de Andrade</P>     <p>&nbsp;</P>     <p><i>Contei meus anos e descobri que terei menos tempo para viver daqui</I></P>     <p><i>para a frente do que já vivi até agora.</I></P>     <p><i>Tenho muito mais passado do que futuro.</I></P>     <p><i>Sinto-me como aquele menino que&nbsp;recebeu uma bacia de cerejas.</I></P>     <p><i>As primeiras, ele chupou displicente, mas percebendo que faltam</I></P>     <p><i>poucas, rói o caroço.</I></P>     <p><i>Já não tenho tempo para lidar com mediocridades.</I></P>     <p><i>Não quero estar em reuniões onde desfilam egos inflados.</I></P>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><i>Inquieto-me com invejosos tentando destruir quem eles admiram,</I></P>     <p><i>cobiçando seus lugares, talentos e sorte.</I></P>     <p><i>Já não tenho tempo para conversas intermináveis, para discutir</I></P>     <p><i>assuntos inúteis sobre vidas alheias que nem fazem parte da minha.</I></P>     <p><i>Já não tenho tempo para administrar melindres de pessoas, que apesar</I></P>     <p><i>da idade cronológica, são imaturos.</I></P>     <p><i>Detesto fazer acareação de desafetos que brigaram pelo majestoso cargode    secretário geral do coral.</I></P>     <p><i>'As pessoas não debatem conteúdos, apenas os rótulos'.</I></P>     <p><i>Meu tempo tornou-se escasso para debater rótulos, quero a essência,minha    alma tem pressa...</I></P>     <p><i>Sem muitas cerejas na bacia, quero viver ao lado de gente humana,</I></P>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><i>muito humana; que sabe rir de seus tropeços, não se encanta com</I></P>     <p><i>triunfos,&nbsp;não se considera eleita antes da hora, não foge de sua mortalidade,</I></P>     <p><i>Caminhar perto de coisas e pessoas de verdade,</I></P>     <p><i>O essencial faz a vida valer a pena.</I></P>     <p><i>E para mim, basta o essencial!</I></P>     <p>&nbsp;</P>     <p><b>40</B></P>     <p>Talvez a  deselegância de minhas palavras decorra da impaciência de quem tem apenas poucas  cerejas na bacia. Já não tenho tempo para compartilhar de vaidades e seguir por  caminhos que nos trazem sempre de volta ao mesmo lugar. Sonho com o dia em que  nossa comunidade científica seja respeitada pelo que produz e não pelo que  reproduz. Portanto, sinto ser meu dever denunciar o que entendo como um  descaminho. São: o apego ao ideal da lusofonia e ao princípio da  responsabilidade, a força anímica que motivam a minha militância e inflamam o  meu discurso.</P>     <p>&nbsp;</P>     <p> <b>41</B></P>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><i>Na investigação do conhecimento eu não sinto mais do que a alegria da minha    vontade, a alegria de engendrar; e se há inocência em meu conhecimento, é porque    há nele vontade de ser fecundado </I><SUP>(<a name="top5"></a><a href="#5">5</a>,    p.120)</SUP>.</P>     <p>&nbsp;</P>     <p> <b>Referências</B></P>     <!-- ref --><p> 1.&nbsp;&nbsp; Bento JO (2010). <i>Do Corpo e do Activismo na conjuntura de    mercado e consumo. Revista Portuguesa de Ciências do Desporto</I>, 9(2-3): 203–227,&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=751274&pid=S1645-0523201000010000900001&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><p><a href="#top2">2</a>.&nbsp;<a name="2"></a>&nbsp; Eco U (2008). <i>A passo    de caranguejo. </I>(6ªed.) Tradução de Ana Eduardo Santos. Lisboa: DIFEL,.</P>     <p><a href="#top3">3</a>.&nbsp;<a name="3"></a>&nbsp; Gleiser M (2010). <i>Criação    Imperfeita. Cosmos, vida e o código oculto da natureza.</I> Rio de Janeiro:    Record</P>     <p><a href="#top4">4</a>.&nbsp;<a name="4"></a>&nbsp; Mercier P (2009). <i>O Trem    Noturno para Lisboa. </I>(4ªed.) Tradução de Kristina Michahelles. Rio de Janeiro:    Record</P>     <p><a href="#top5">5</a>.&nbsp;<a name="5"></a>&nbsp; Nietzsche F (2009). <i>Assim    falava Zaratustra. </I>Tradução de Mário Ferreira dos Santos (3ª ed.) Rio de    Janeiro: Vozes</P>     <p><a href="#top6">6</a>.&nbsp;<a name="6"></a>&nbsp; Schopenhauer A (2009). <i>A    arte de escrever. </I>Tradução de Pedro Süssekind. Porto Alegre: L&amp;PM</P>     <p>&nbsp;</P>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p> <b>Notas</b></P>         <p><a name="a1"></a>[<a href="#topa1">1</a>] O presente ensaio é uma adaptação    da palestra conferida pelo autor durante o XIII Congresso de Ciências do Desporto    e de Educação Física dos Países de Língua Portuguesa, realizado em Maputo (Moçambique),    de 30 de Março a 2 de Abril de 2010.</P>      <p>[<a href="#topa2">2</a>]<a name="a2"></a> Professor Titular do Departamento    de Educação Física e do Programa de Pós-graduação em Ciências do Movimento Humano    da UFRGS. Doutor em Ciências do Desporto pela UP. Pesquisador 1D CNPq. Membro    do Comitê de Ética em Pesquisa da UFRGS e Coordenador do Projeto Esporte Brasil.</P>      <p>[<a href="#topa3">3</a>]<a name="a3"></a> Durante o XIII Congresso de Educação    Física e Ciências do Desporto dos Países de Língua Portuguesa.</P>      <p>[<a href="#topa4">4</a>]<a name="a4"></a> TTC é como são conhecidos os trabalhos    de conclusão de cursos de graduação em educação física no Brasil Trata-se de    uma monografia de caráter científico que o aluno deve apresentar a um júri como    requisito parcial para sua colação der grau.</P>      <p>[<a href="#topa5">5</a>]<a name="a5"></a> O texto original é de Jorge Bento    em outro contexto de análise e foi adaptado ao presente ensaio. Bento JO (2010).    <i>Do Corpo e do Activismo na conjuntura de mercado e consumo. Revista Portuguesa    de Ciências do Desporto</I>, 9 (2-3): 203–227</P>      ]]></body><back>
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<surname><![CDATA[Bento]]></surname>
<given-names><![CDATA[JO]]></given-names>
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<article-title xml:lang="pt"><![CDATA[Do Corpo e do Activismo na conjuntura de mercado e consumo]]></article-title>
<source><![CDATA[Revista Portuguesa de Ciências do Desporto]]></source>
<year>2010</year>
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<issue>2-3</issue>
<page-range>203-227</page-range></nlm-citation>
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