<?xml version="1.0" encoding="ISO-8859-1"?><article xmlns:mml="http://www.w3.org/1998/Math/MathML" xmlns:xlink="http://www.w3.org/1999/xlink" xmlns:xsi="http://www.w3.org/2001/XMLSchema-instance">
<front>
<journal-meta>
<journal-id>1645-0523</journal-id>
<journal-title><![CDATA[Revista Portuguesa de Ciências do Desporto]]></journal-title>
<abbrev-journal-title><![CDATA[Rev. Port. Cien. Desp.]]></abbrev-journal-title>
<issn>1645-0523</issn>
<publisher>
<publisher-name><![CDATA[Faculdade de Desporto da Universidade do Porto]]></publisher-name>
</publisher>
</journal-meta>
<article-meta>
<article-id>S1645-05232010000100010</article-id>
<title-group>
<article-title xml:lang="pt"><![CDATA[Das pessoas às instituições: o Janus no ideário em educação física e ciências do desporto dos países lusófonos]]></article-title>
<article-title xml:lang="en"><![CDATA[From persons to institutions: the Janus in the system of academic ideas of physical education and sport sciences in the Portuguese language speaking countries]]></article-title>
</title-group>
<contrib-group>
<contrib contrib-type="author">
<name>
<surname><![CDATA[Tani]]></surname>
<given-names><![CDATA[Go]]></given-names>
</name>
<xref ref-type="aff" rid="A01"/>
</contrib>
</contrib-group>
<aff id="A01">
<institution><![CDATA[,Universidade de São Paulo Escola de Educação Física e Esporte ]]></institution>
<addr-line><![CDATA[São Paulo ]]></addr-line>
<country>Brasil</country>
</aff>
<pub-date pub-type="pub">
<day>00</day>
<month>00</month>
<year>2010</year>
</pub-date>
<pub-date pub-type="epub">
<day>00</day>
<month>00</month>
<year>2010</year>
</pub-date>
<volume>10</volume>
<numero>1</numero>
<fpage>207</fpage>
<lpage>217</lpage>
<copyright-statement/>
<copyright-year/>
<self-uri xlink:href="http://scielo.pt/scielo.php?script=sci_arttext&amp;pid=S1645-05232010000100010&amp;lng=en&amp;nrm=iso"></self-uri><self-uri xlink:href="http://scielo.pt/scielo.php?script=sci_abstract&amp;pid=S1645-05232010000100010&amp;lng=en&amp;nrm=iso"></self-uri><self-uri xlink:href="http://scielo.pt/scielo.php?script=sci_pdf&amp;pid=S1645-05232010000100010&amp;lng=en&amp;nrm=iso"></self-uri><abstract abstract-type="short" xml:lang="pt"><p><![CDATA[Existe um reconhecimento de que o chamado Movimento Lusófono da Educação Física e Desporto foi muito bem sucedido, ao longo dos seus 21 anos de existência, na realização de sua meta que é encurtar distâncias, aproximar pessoas e instituições que têm como objetivo comum o estudo da Educação Física e do Desporto, e que esse sucesso baseou-se fundamentalmente em ações de pessoas e muito pouco de instituições. O presente ensaio teve como objetivo colocar em discussão as metas desse Movimento visando ao seu desenvolvimento sustentável no futuro e propõe que para tanto é preciso, sem abrir mão do envolvimento e dedicação pessoais, absolutamente fundamentais, passar a ações mais concretas de natureza institucional, e discute algumas preocupações nessa mudança de estratégia tendo como pano de fundo a ideia de hólon proposta por Koestler (1967).]]></p></abstract>
<abstract abstract-type="short" xml:lang="en"><p><![CDATA[There is a recognition that the so-called Physical Education and Sport Movement of the Portuguese Speaking Countries was very successful, along its 21 years of existence, in the achievement of its goal which is shortening distances, and approaching persons and institutions that have as a common preoccupation the study of Physical Education and Sport. It is also recognized that this success was basically dependent on actions of people rather than institutions. The objective of the present essay was to put in discussion the goals of this Movement aiming at its sustainable development in the future. It proposes that to achieve that end the Movement needs more concrete institutional actions, without renouncing the absolutely fundamental involvement and dedication of people, and discuss some concerns related to change in that strategy having as a background the idea of holon proposed by Koestler (1967).]]></p></abstract>
<kwd-group>
<kwd lng="pt"><![CDATA[educação física]]></kwd>
<kwd lng="pt"><![CDATA[desporto]]></kwd>
<kwd lng="pt"><![CDATA[hólon]]></kwd>
<kwd lng="en"><![CDATA[physical education]]></kwd>
<kwd lng="en"><![CDATA[sport]]></kwd>
<kwd lng="en"><![CDATA[holon]]></kwd>
</kwd-group>
</article-meta>
</front><body><![CDATA[ <p><b>Das  pessoas às instituições: o <i>Janus</I> no  ideário em educação física e ciências do desporto dos países  lusófonos</B></P>     <p><b>&nbsp;</B></P>     <p><b>Go  Tani</B></P>     <p>Escola de Educação Física e Esporte, Universidade de São Paulo, São Paulo,    Brasil </P>     <p><a name="top0"></a><a href="#0">CORRESPONDÊNCIA</a></P>     <p>&nbsp;</P> <b></B>     <p><b>RESUMO</B></P>     <p>Existe um reconhecimento de que o chamado  Movimento Lusófono da Educação Física e Desporto foi muito bem sucedido, ao  longo dos seus 21 anos de existência, na realização de sua meta que é encurtar  distâncias, aproximar pessoas e instituições que têm como objetivo comum o  estudo da Educação Física e do Desporto, e que esse sucesso baseou-se  fundamentalmente em ações de pessoas e muito pouco de instituições. O presente  ensaio teve como objetivo colocar em discussão as metas desse Movimento visando  ao seu desenvolvimento sustentável no futuro e propõe que para tanto é preciso,  sem abrir mão do envolvimento e dedicação pessoais, absolutamente fundamentais,  passar a ações mais concretas de natureza institucional, e discute algumas  preocupações nessa mudança de estratégia tendo como pano de fundo a ideia de  hólon proposta por Koestler (1967).</P>     <p><b><i>Palavras-chave</I></B>: educação física, desporto, hólon</P>     <p>&nbsp;</P>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><b>From persons to institutions: the Janus in the system of academic ideas    of physical education and sport sciences in the Portuguese language speaking    countries</B></P>     <p><b>ABSTRACT</B></P>     <p>There is a recognition that the so-called Physical Education and Sport Movement    of the Portuguese Speaking<b> </B>Countries was very successful, along its 21    years of existence, in the achievement of its goal which is shortening distances,    and approaching persons and institutions that have as a common preoccupation    the study of Physical Education and Sport. It is also recognized that this success    was basically dependent on actions of people rather than institutions. The objective    of the present essay was to put in discussion the goals of this Movement aiming    at its sustainable development in the future. It proposes that to achieve that    end the Movement needs more concrete institutional actions, without renouncing    the absolutely fundamental involvement and dedication of people, and discuss    some concerns related to change in that strategy having as a background the    idea of holon proposed by Koestler (1967).</P>     <p><i><b>Key-words</B>:</i> physical education, sport, holon</P>     <p><b>&nbsp;</B></P> <b></B>     <p><b>1. Palavras  iniciais</B></P>     <p>O presente ensaio baseia-se na conferência de  encerramento que foi proferida no XIII Congresso de Educação Física e Ciências  do Desporto dos Países de Língua Portuguesa, realizado em Maputo - Moçambique,  em 2010. </P>     <p>É amplamente reconhecido que esse evento é a  face mais visível de um grande Movimento que congrega docentes e pesquisadores  das áreas de Educação Física e Desporto dos países lusófonos. Trata-se de uma  coletividade que não se caracteriza como uma associação ou sociedade científica  no seu sentido clássico, ou seja, uma entidade rigorosamente organizada e  estruturada, com estatuto, regulamentos e normas, mas sim um Movimento dinâmico  e adaptável em que a par de aspectos acadêmico-científicos, as relações humanas  entre seus membros são valorizadas e cultivadas com muito carinho.  </P>     <p>Essa natureza menos “formatada” desse Movimento  traz, sabidamente, vantagens e desvantagens. E pode-se afirmar que o seu grande  desafio reside exatamente nesse seu traço mais marcante: como conciliar a sua  informalidade peculiar e saudável com as metas precípuas de toda e qualquer  organização acadêmico-científica, que exigem cada vez mais estruturas bem  organizadas para serem efetivamente logradas? </P>     <p>Como todo movimento dessa natureza, esse também  é propositado, direcionado a uma meta. Quais seriam as metas desse Movimento?  Seriam as mesmas de 21 anos atrás, quando foi criado por iniciativa de dois  visionários - Professores Jorge Olímpio Bento e Alfredo Gomes de Faria Júnior?  Seriam as mesmas de treze anos atrás, quando da realização do primeiro congresso  de Maputo? Seriam as metas desse Movimento mais restritas à realização de  congressos bienais? Seria possível e teria sentido estabelecer metas  acadêmico-científicas apenas internas, circunscritas a países lusófonos, num  mudo cada vez mais globalizado? </P>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Mais especificamente, seriam as metas desse  Movimento vinculadas ao ciclo completo do conhecimento, ou seja, a sua produção,  sistematização, disseminação e aplicação, ou a algumas etapas desse processo em  particular? Seriam as metas relacionadas à investigação pura para saciar a  curiosidade acadêmica, aquelas que deveriam ser abraçadas com maior entusiasmo,  ou as direcionadas à intervenção visando à solução de problemas imediatos da  sociedade? </P>     <p>Este congresso, ao estabelecer como tema central  do evento a identidade acadêmica e profissional do Desporto, deu uma importante  contribuição para a discussão dessa temática. Mas é preciso dar continuidade e  avançar. Entendo que é chegado o momento de pensar de forma serena, mas focada,  nessas questões de fundo. O Movimento pede a definição de uma posição mais clara  que ilumine o caminho a ser percorrido. Oportuno lembrar que é a definição de  metas que permite a escolha de estratégias mais adequadas para a sua realização  e não o contrário. Nesse contexto, as relações humanas se estabeleceriam em  torno das ações para alcançar as metas e se fortaleceriam à medida de suas  concretizações.</P>     <p>O objetivo deste ensaio é refletir sobre essas  questões – metas e estratégias -  evidentemente não com o intuito de definir uma direção a ser seguida pelo  Movimento, mas com a intenção de estimular o esforço coletivo no sentido de  busca de uma melhor definição, talvez nos próximos congressos. Em outras  palavras, contribuir para a construção de um novo ideário, um grande desafio,  para o qual conto com a vossa compreensão, paciência e boa vontade.  </P>     <p>&nbsp;</P>     <p><b>2. Das pessoas às  instituições</B></P>     <p>O primeiro congresso de Educação Física e Ciências do Desporto dos Países de    Língua Portuguesa foi realizado em 1989 na cidade do Rio de Janeiro, tendo como    meta principal encurtar distâncias, aproximar pessoas e instituições que têm    como preocupação central o estudo da Educação Física e do Desporto, dando materialidade    à vontade de cooperação mais estreita para projetar e afirmar uma comunidade    científica no espaço da língua portuguesa <SUP>(<a name="top1"></a><a href="#1">1</a>)</SUP>.  </P>     <p>Nesses 21 anos que se passaram muito foi feito  para o alcance dessa meta inicialmente traçada no primeiro evento. Paremos para  um pequeno balanço das ações empreendidas. Só de congressos foram mais doze  edições em quatro países. Diz-se, frequentemente, que realizar o primeiro  congresso não é tão difícil, mas dar continuidade com regularidade é seguramente  um enorme desafio. Além dos congressos, várias ações foram desenvolvidas por  esse Movimento, de forma que se fizermos um levantamento, dos trabalhos  apresentados em todos esses congressos, das parcerias interinstitucionais  estabelecidas no oferecimento de programas de Pós-graduação, dos programas de  mobilidade docente e discente implementados tanto na Graduação como na  Pós-graduação, da mobilidade docente para participação em bancas examinadoras de  concurso, da publicação de artigos em periódicos de países irmãos, da publicação  compartilhada de livros e da co-orientação de teses e dissertações entre membros  desta comunidade, dentre tantas outras atividades acadêmicas relevantes, ficará  claramente evidenciado que muito caminhamos nesse período para encurtar  distâncias e aproximar pessoas e instituições. </P>     <p>Podemos concluir que o Movimento não se  restringe à realização de congressos bienais e motivos não faltam para celebrar  essas conquistas em altos brados: o Movimento é um sucesso. Mas, isto posto,  alguém poderia imediatamente indagar: por que então mudar? Para que mudar um  ideário que se revelou produtivo?</P>     <p>Posso estar enganado, mas encontro uma resposta  a essas dúvidas e indagações: apesar do sucesso, as ações realizadas e as  conquistas logradas por esse Movimento foram fundamentalmente baseadas em  pessoas - com suas visões, seus ideais, seus sonhos, suas utopias, suas  dedicações, seus compromissos, suas paixões - e muito pouco em  instituições.&nbsp; Não há dúvida de que  o modelo adotado até o presente foi bem sucedido, mas pensando o futuro entendo  que chegou a hora de, sem abrir mão de todo esse envolvimento e dedicação  pessoais, absolutamente fundamentais, passar a ações mais concretas de natureza  institucional.&nbsp;  </P>     <p>O cenário político, econômico, social, cultural, educacional e científico têm    mudado muito nesses tempos, cada vez com maior intensidade e rapidez, surpreendendo-nos    a todo o momento. Só para citar uma delas, de profunda implicação para todos    nós: a universidade perdeu a hegemonia do conhecimento e está em profunda crise<SUP>(<a name="top13"></a><a href="#13">13</a>)</SUP>.    O Movimento necessita estar atento a essas mudanças e mostrar seu dinamismo    para dar respostas concretas à sociedade, e isto requer ações articuladas entre    instituições. </P>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Ademais, sabemos que quem faz a instituição são  as pessoas, mas nem todas as pessoas compartilham de um mesmo ideário  institucional. E cada pessoa tem o seu “tempo de validade” institucional.  Parece-nos que, nesses anos todos, por feliz coincidência, as pessoas em postos  de liderança nas institucionais partícipes compartilhavam do mesmo ideal no  tocante a esse Movimento, mas nada garante a sua continuidade enquanto não  houver compromissos institucionais estruturados e assumidos. As relações humanas  solidárias, fraternas, de profunda amizade, construídas entre os seus membros ao  logo desses 21 anos são um verdadeiro patrimônio desse Movimento que devem ser  preservadas. As ações institucionais poderão fortalecê-las e ampliá-las ainda  mais, mas isso depende das metas que se projetarem para o seu futuro.  </P>     <p>A mudança que aqui se propõe, isto é, de ações mais  centradas em pessoas para aquelas com maior envolvimento das instituições, pode  parecer apenas de natureza estratégica. No entanto, reconhecendo o caráter  indissociável entre metas e estratégias, entendo que essa mudança constitui um  momento privilegiado para rediscutir as metas adequando-as às transformações  sociais que ocorreram nesses 21 anos de vida do Movimento e às necessidades e  desafios acadêmico-científicos do futuro. </P>     <p>&nbsp;</P>     <p><b>3. Do <i>Janus</I></B></P>     <p>O título desta apresentação pode ter provocado  estranhamento em algumas pessoas. Por que <i>Janus</I>? Qual o seu significado e que  contribuições traria para a reflexão pretendida? O motivo é que desafios como  esse que abracei reclamam um pano de fundo conceitual para uma análise serena e  especialmente prudente. Perguntei-me: quais seriam as ferramentas conceituais  para refletir sobre uma questão tão complexa como é a meta de uma organização  acadêmico-científica nos dias atuais? Onde buscar inspiração para não cair numa  reflexão assente em dicotomias e dualidades que já se sabe inoperantes para  lidar com problemas complexos? </P>     <p>Nas minhas indagações sobre as metas desse  Movimento Lusófono da Educação Física e Desporto a conjunção “ou” esteve  teimosamente presente. Existiria um construto, um quadro de referência que nos  possibilitasse olhar para a árvore e a floresta ao mesmo tempo? Algo que  permitisse conciliar polaridades que o pensamento dicotômico criou em nossas  mentes, sem cair em discursos românticos esvaziados de praticidade,  desconectados da realidade ou descompromissados com conseqüências práticas?  Enfim, algo que permita substituir a conjunção “ou” por “e” em inúmeros pares  dicotômicos que abundam em nossa mente: todo ou parte, ordem ou desordem, regularidade ou irregularidade, informação ou  incerteza, consistência ou flexibilidade, regularidade ou aleatoriedade,  precisão ou erro, interno ou externo, nacional ou internacional, investigação ou  intervenção, entre tantos outros que costumeiramente lançamos mão em nossas  reflexões e análises? </P>     <p>Arthur Koestler, além de inúmeras obras literárias interessantes, deixou como    legado um livro com profundas implicações para o pensamento científico e reflexão    epistemológica: “O fantasma da máquina”<SUP>(<a name="top6"></a><a href="#6">6</a>)</SUP>.    Trata-se de uma obra que deixou marcas profundas no desenvolvimento inicial    do chamado pensamento sistêmico, ou mais amplamente, paradigma sistêmico. Ouso    conjeturar que, juntamente com o livro “Teoria geral de sistemas” escrito por    Ludwig von Bertalanffy<SUP>(<a name="top2"></a><a href="#2">2</a>)</SUP> e “Cibernética”    por Norbert Wiener<SUP>(<a name="top15"></a><a href="#15">15</a>)</SUP>, esse    livro forma o alicerce das principais proposições do pensamento sistêmico apresentadas    nas fases iniciais do seu desenvolvimento. Como é bem conhecido, o paradigma    sistêmico teve desdobramentos posteriores com base em outras importantes contribuições    teóricas como a complexidade<SUP>(<a href="#7">7</a><a name="top7"></a>,<a name="top14"></a>    <a href="#14">14</a>)</SUP>, a sinergética<SUP>(<a name="top4"></a><a href="#4">4</a>)</SUP>,    o caos<SUP>(<a name="top3"></a><a href="#3">3</a>, <a name="top8"></a><a href="#8">8</a>)</SUP>,    a auto-organização<SUP>(<a name="top5"></a><a href="#5">5</a>, <a name="top16"></a><a href="#16">16</a>)</SUP>,    dentre outras.</P>     <p>Koestler<SUP>(<a href="#6">6</a>)</SUP> afirma que qualquer forma de organização,    individual ou social, é ordenada hierarquicamente, e que uma importante característica    universal da hierarquia é a relatividade, e decerto a ambigüidade, entre os    termos parte e todo. Uma parte significa algo fragmentário e incompleto e o    todo algo completo em si mesmo. Além disso, Koestler<SUP>(<a href="#6">6</a>)</SUP>    enfatiza que partes e todos em sentido absoluto não existem em lugar nenhum,    no domínio dos organismos vivos e das organizações sociais. O que existem, na    realidade, são estruturas intermediárias em diferentes níveis e numa ordem ascendente    de complexidade. Essas estruturas intermediárias revelam, concomitantemente,    algumas das características atribuídas aos todos e às partes, isto é, num certo    sentido, são parte e todo ao mesmo tempo, dependendo da forma como as olhamos.    Elas têm, como o deus romano <i>Janus</I>, duas faces que olham para direções    opostas: uma voltada para os níveis subordinados que é a de um todo completo    em si mesmo, e a outra voltada para cima, a de uma parte dependente. </P>     <p>Ao não encontrar uma palavra adequada para expressar essas estruturas intermediárias    com tais características, Koestler<SUP>(<a href="#6">6</a>)</SUP> preferiu cunhar    um novo termo para designar esses nós da organização hierárquica que funcionam    parcialmente como todos e partes: hólon. Uma espécie de elo entre a concepção    atomista e holista. Os hólons são governados por conjuntos fixos de regras que    determinam as suas propriedades invariáveis, sua configuração estrutural, seu    padrão funcional, e apresentam estratégias flexíveis para responder a contingências    que caracterizam a sua propriedade variável. Cada hólon tem a tendência dupla    de preservar e afirmar a sua individualidade como um todo autônomo - a tendência    auto-afirmativa - e de funcionar como parte integrada de um todo maior - a tendência    integrativa. </P>     <p>No  comportamento humano a tendência auto-afirmativa se manifesta muitas vezes em  forma de padrões fixos de ação e rotinas estereotipadas de pensamento, e a  tendência integrativa reflete padrões flexíveis de ação e pensamentos criativos  que iniciam novas formas de comportamento. Em condições normais essas duas  tendências se contrabalançam e mantém um equilíbrio dinâmico. Em condições de  tensão, rompe-se o equilíbrio dando origem a comportamentos  desordenados.</P>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Assim,  o termo hólon pode ser aplicado a todo e qualquer sistema biológico ou social  que manifeste coerência e estabilidade, ou seja, hierarquicamente ordenado. O  Movimento Lusófono da Educação Física e Desporto pode ser visto como um hólon  organizacional; uma faculdade de Educação Física e Desporto como um hólon  institucional; as áreas de conhecimento da Educação Física e Desporto como  hólons acadêmicos; os pesquisadores da Educação Física e Desporto como hólons  intelectuais.</P>     <p>&nbsp;</P>     <p><b>4. O <i>Janus</I> e as ações  interinstitucionais</B></P>     <p>Pensando o futuro do Movimento com essas proposições de Koestler<SUP>(<a href="#6">6</a>)</SUP>,    quais seriam as possibilidades mais visíveis para se intensificar as ações interinstitucionais    holonômicas no seu interior? Várias podem ser pensadas. </P>     <p>No plano da investigação, explorando a tendência  integrativa do hólon, o desenvolvimento de projetos temáticos entre instituições  e laboratórios parece-nos de fundamental relevância. Certamente, a mobilidade de  docentes e pesquisadores é importante para dar impulso à investigação, mas as  relações acadêmicas nesse âmbito só se concretizam de fato quando se chega ao  nível do desenvolvimento de projetos compartilhados de pesquisa, seja entre  instituições, laboratórios ou grupos de pesquisa constituídos. O estudo  longitudinal de crescimento e desenvolvimento motor em execução na cidade de  Muzambinho - Minas Gerais, Brasil, evolvendo a Universidade de São Paulo, a  Universidade do Porto, a Universidade Pedagógica de Moçambique e a Escola  Superior de Educação Física de Muzambinho pode ser visto como uma iniciativa  concreta nessa direção. </P>     <p>No domínio do ensino de Graduação, para além da  mobilidade estudantil, parcerias interinstitucionais para implantação da  co-tutela e obtenção de duplo diploma constituem interessantes desafios a serem  atacados. Respeitadas as peculiaridades institucionais e circunstâncias  particulares de natureza local, regional ou nacional, o compartilhar entre as  instituições lusófonas dos grandes desafios da formação universitária nos dias  atuais, das reflexões institucionais amadurecidas, dos conhecimentos acumulados,  das experiências inovadoras bem ou mal sucedidas no âmbito da formação  profissional parece ser de indiscutível relevância coletiva. A criação de um  fórum de discussões permanentes mediante o uso da tecnologia de informação seria  de muita utilidade. O protocolo de Bologna e os desdobramentos da sua aplicação  em Portugal é um bom exemplo de tema para discussão. A criação do bacharelado no  Brasil, diferenciado da licenciatura, é outro tema que julgo interessante de ser  abordado, sem querer provocar arrepios ou acordar fantasmas adormecidos em  certos segmentos ideológicos da academia brasileira. </P>     <p>&nbsp;No  âmbito do ensino de Pós-graduação, a mobilidade docente já ocorre de forma  regular e sistemática entre algumas instituições, mas no geral é ainda uma  prática tímida na comunidade lusófona. Poderia ser significativamente  intensificada mediante protocolos de cooperação acadêmica e convênios  interinstitucionais. Como Pós-graduação é fundamentalmente pesquisa, entendo que  é no desenvolvimento de projetos compartilhados de investigação entre  pesquisadores, que reside o segredo de um salto qualitativo nessa área. Envolver  pós-graduandos nesses empreendimentos interinstitucionais de investigação, por  exemplo, por meio de doutorados sanduíche, é uma maneira eficaz de formar  recursos humanos qualificados para a docência no ensino superior e para o  desenvolvimento de ciência e tecnologia. Decerto, esforços envolvendo uma ação  integrada de instituições terão mais chances de obter recursos financeiros para  viabilizar esses projetos junto aos órgãos de fomento nacionais e  internacionais. É preciso criar demandas qualificadas.</P>     <p>No universo das atividades de cultura e  extensão, a riqueza da cultura de movimento dos países lusófonos - especialmente  jogo e dança - tanto em especificidade, quantidade como diversidade constitui um  tesouro antropológico ainda inexplorado na nossa área, tanto em relação a sua  investigação quanto disseminação. A exploração dessa cultura, quando presente,  se sustenta em ações individuais e isoladas de docentes e pesquisadores, de  forma que a sua dinamização necessitaria de ações articuladas entre  instituições, procurando parceiros e financiadores de projetos nas suas  respectivas áreas. Existe uma enorme potencialidade de se integrar as atividades  de investigação, ensino e extensão relativas a essa cultura, mas a realização de  todas essas ações requer envolvimento institucional consistente e  duradouro.</P>     <p>Em suma, o desenvolvimento sustentável do  Movimento Lusófono da Educação Física e Desporto, incluindo a realização de seus  congressos bienais, parece não poder mais depender apenas de iniciativas e  esforços pessoais. Reclama também por ações institucionais planejadas  estrategicamente. Reconhece-se que cada instituição tem problemas e desafios  próprios que requerem a prática enfática da sua tendência auto-afirmativa, mas  exercitar a outra face do <i>Janus</I>  parece ser imprescindível quando se pensa no futuro dessa comunidade. E para  tornar possível a articulação de ações pessoais e institucionais, algumas  preocupações adicionais merecem destaque.</P>     <p>&nbsp;</P>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><b>5. Os pesquisadores  lusófonos como hólons</B></P>     <p>Considerando os pesquisadores lusófonos da  Educação Física e Desporto como hólons intelectuais, observa-se a sua tendência  auto-afirmativa refletir-se de forma cada vez mais forte na preocupação e  valorização das publicações em periódicos internacionais de impacto,  independentemente da pertinência dessa produção à especificidade da sua área de  conhecimento. A se continuar nessa tendência, corre-se o risco de tornar ainda  mais indefinido o que já se encontra suficientemente ambíguo - a identidade  acadêmica da Educação Física e do Desporto. Como pesquisadores vinculados a  essas áreas é fundamental fazer com que a tendência integrativa se manifeste com  mais vigor no sentido de utilizar a capacidade intelectual e criatividade para a  produção de conhecimentos devidamente identificados com as suas especificidades.  Muitas vezes, subjaz a essa forte manifestação da tendência auto-afirmativa o  narcisismo intelectual de busca do <i>status</I> acadêmico pelo <i>status</I>.</P>     <p>Obviamente, não há nenhuma objeção a se fazer em  relação à busca de publicações em periódicos internacionais de alta reputação.  Ela será sempre bem vinda e deve ser fortemente encorajada. Mas todos sabem que  ainda prevalece na ciência uma visão tendenciosa de considerar a pesquisa  básica, especialmente em níveis mais microscópicos de análise, como mais  científica e mais nobre do ponto de vista intelectual. E essa visão está  presente na política editorial de muitos periódicos e acaba refletindo na  avaliação dos artigos para efeito de publicação. Infelizmente, a tendência  auto-afirmativa dos pesquisadores da nossa área tende a se alinhar com esse modo  de ver a ciência, até mesmo pela pressão existente na academia no que se refere  à produtividade científica, de forma que a busca do conhecimento pelo  conhecimento os leva muitas vezes a negligenciar a necessária preocupação acerca  da pertinência das suas publicações à especificidade da área de conhecimento em  que atuam. </P>     <p>O pesquisador é ao mesmo tempo causa e efeito de essa tendência auto-afirmativa    prevalecer no interior da área. Tudo indica que a meta da Educação Física e    Desporto nos países lusófonos, no âmbito da produção de conhecimentos, está    fortemente orientada à obtenção do <i>status</I> e respeitabilidade acadêmicos.    Isso tem implicado em dar pouca ênfase às pesquisas aplicadas comprometidas    com solução de problemas encontrados na prática profissional. De fato, repetem-se    no nosso meio as mesmas consequências negativas do “movimento disciplinar” ocorrido    na década de 1960 nos EUA que foi uma ênfase quase que exclusiva à pesquisa    acadêmico-científica de natureza básica, resultando num abandono de estudos    de temas profissionalizantes e aplicados que abordassem problemas relevantes    encontrados no âmbito da intervenção<SUP>(<a name="top9"></a><a href="#9">9</a>,<a name="top10"></a>    <a href="#10">10</a>)</SUP>. A organização desse congresso procurou dar um equilíbrio    a esses dois tipos de investigação na programação, mas obviamente não pode deixar    de refletir, de alguma forma, essa tendência fortemente presente nas nossas    áreas. </P>     <p>&nbsp;</P>     <p><b>6. As áreas como  hólons</B></P>     <p>Mas, qual seria afinal a especificidade das  áreas de Educação Física e Desporto? Trata-se de um tema ainda cercado de  controvérsias. Parece-nos que existem ao menos dois problemas centrais de matriz  epistemológica a serem resolvidos: o primeiro refere-se à caracterização dessas  áreas como acadêmicas e/ou profissionalizantes, como já comentado; o segundo, se  essas áreas pertencem ao domínio das ciências biológicas e/ou humanas e  sociais.&nbsp; </P>     <p>Como profissões, a Educação Física e o Desporto fazem parte daquelas denominadas    de academicamente orientadas, ou seja, profissões em que o seu exercício pressupõe    uma formação de nível superior. Uma característica fundamental dessas profissões    é a existência de um corpo de conhecimentos acadêmico-científicos em que se    baseiam suas propostas, programas e procedimentos de intervenção profissional.    É bem sabido que a inexistência do suporte desse corpo de conhecimentos coloca    em cheque não apenas a legitimidade, mas também a própria existência e sobrevivência    dessas profissões<SUP>(<a href="#9">9</a>, <a href="#10">10</a>, <a href="#13">13</a>)</SUP>.    Mas, que corpo de conhecimentos?</P>     <p>É importante salientar que apesar de existirem  diferentes tipos de conhecimentos úteis à prática profissional - como aqueles de  natureza pessoal - assume-se que a legitimidade social e profissional de uma  profissão passam necessariamente pela legitimidade do corpo de conhecimentos em  que ela se apóia. Daí concluir-se que os conhecimentos acadêmico-científicos são  aqueles que devem constituir a base estrutural do corpo de conhecimentos que dá  sustentação a uma profissão academicamente orientada. O mesmo não pode ser dito,  evidentemente, em relação às profissões tecnicamente  orientadas.</P>     <p>A legitimidade acadêmico-científica do corpo de conhecimentos, por sua vez,    pressupõe uma estrutura que organize a produção e a sistematização de conhecimentos,    que seja capaz de projetar uma identidade à área específica de conhecimento    a que pertence. A essa estrutura dá se o nome de base epistemológica e ao conjunto    de conceitos compartilhados que viabiliza a comunicação interna, o nome de estatuto    epistemológico. Portanto, a definição de identidade acadêmica e sua consolidação    mediante pesquisas acadêmico-científicas abrangentes e profundas podem ser entendidas    como uma necessidade imperativa para a Educação Física e o Desporto<SUP>(<a href="#9">9</a>,    <a href="#10">10</a>)</SUP>. </P>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Para muitos pesquisadores, as necessidades da  profissão devem orientar a natureza e conteúdo da atividade acadêmica de uma  área, ou seja, as necessidades correntes e futuras da profissão devem ditar os  tipos de perguntas a serem formulados pelos pesquisadores associados à área.  Dentro dessa linha de raciocínio, a busca do conhecimento pelo conhecimento deve  acontecer nas áreas comumente denominadas de puras ou básicas, em que não se tem  preocupações com a sua aplicação prática por não haver nenhuma vinculação a um  campo profissional específico. </P>     <p>No entanto, excetuando-se as abordagens filosóficas sobre a função, o significado    e os objetivos da Educação Física e Desporto, além das tradicionais pesquisas    relativas à análise do ensino e do comportamento de professores e administradores,    em sua maioria caracterizada como pesquisas descritivas da situação, o quadro    atual mostra que ainda não foram desenvolvidas linhas de pesquisa em número    suficiente e produtivas, objetivando uma investigação sistemática de temas profissionalizantes    relevantes para que os seus resultados pudessem ser colocados à disposição da    preparação e intervenção profissionais. Pesquisadores envolvidos com o estudo    de aspectos profissionalizantes continuam produzindo ensaios e artigos de tomada    de posição, e tem faltado um esforço mais sistemático no sentido de se conduzir    estudos empíricos para buscar evidências que suportem as idéias e pensamentos    apresentados, problema já apontado há alguns anos<SUP>(<a href="#9">9</a>, <a href="#10">10</a>)</SUP>.</P>     <p>Temos aqui um problema de base epistemológica que necessita ser urgentemente    equacionado pelas áreas. É preciso que os pesquisadores das subáreas de investigação    atualmente existentes lancem mão da sua tendência integrativa como hólons intelectuais    para se articularem com o objetivo de definir uma área comum com base epistemológica    definida. Isto logrado, o próximo passo seria encontrar a grande área mais apropriada    na qual pertencer. Pessoalmente entendo que a Educação Física e o Desporto ficariam    adequadamente acomodados naquela que no cenário internacional mais amplo se    denomina de ciências da vida (<i>Life Sciences</I>). Todavia, enquanto essa    indefinição prevalece, a Educação Física e Desporto continuam a assistir a realização    de pesquisas de todos os tipos - básicas, aplicadas e tecnológicas sem a necessária    reflexão - fundamentalmente orientadas à busca do mérito acadêmico-científico,    mas muitas vezes com dificuldades de serem reconhecidas e enquadradas no que    se refere a sua pertinência às especificidades das respectivas áreas. Como sobre    esse assunto já me posicionei em trabalhos anteriores, aos interessados sugiro    a leitura dos originais<SUP>(<a href="#9">9</a>, <a href="#10">10</a>, <a name="top11"></a><a href="#11">11</a>,    <a href="#13">13</a>)</SUP>.</P>     <p>Considerando as áreas de conhecimento da Educação Física e Desporto como hólons    acadêmicos, outro aspecto que merece reflexão diz respeito à natureza da sua    investigação. A ausência de uma estrutura que oriente os diferentes conteúdos    e formas de investigação tem contribuído para disputas em torno de as pesquisas    no seu interior serem realizadas numa concepção de ciências naturais ou humanas    e sociais que têm resultado em divisões e cisões desnecessárias. E com frequência,    isto tem sido acompanhado de uma boa dose de ideologização e politização das    discussões. Como as subáreas de investigação que adotam concepções e metodologias    das ciências naturais são identificadas como sendo alinhadas à corrente epistemológica    positivista (por exemplo, Fisiologia do Exercício, Biomecânica, Comportamento    Motor), são sistematicamente alvo de críticas daqueles que se identificam com    correntes não-positivistas - a fenomenológica, a hermenêutica e mais especificamente    a histórico-crítica. O inverso também é verdadeiro, sendo as subáreas sócio-culturais    que adotam concepções e metodologias das ciências humanas e sociais (por exemplo,    Antropologia do Desporto, Sociologia do Desporto, História do Desporto) alvo    de críticas de que suas pesquisas não passam de discursos e opiniões desprovidos    de qualquer verificação, ou ainda de que não têm sido capazes de ir além das    discussões filosóficas genéricas para apresentar perspectivas concretas de pesquisa    que enfoquem o fenômeno em si mediante linhas de pesquisa devidamente delineadas<SUP>(<a href="#9">9</a>,    <a href="#10">10</a>)</SUP>. </P>     <p>Evidentemente, essa disputa não é nada  produtiva, mesmo porque o cerne da questão está na qualidade das pesquisas e  publicações feitas, respeitadas as peculiaridades metodológicas e  epistemológicas de cada subárea. A manutenção desse embate, por motivos outros  que não sejam a busca do rigor no empreendimento acadêmico-científico certamente  não contribuirá para o avanço das áreas. </P>     <p>Mas, independente dessa disputa, o que de  concreto se observa na Educação Física e Desporto é o fato de a produção de  conhecimentos profissionais de aplicação prática estar sendo colocada num  segundo plano. As pesquisas básicas dominam o cenário, com o mérito,  reconhece-se, de encontrar espaços para a sua publicação até em periódicos de  áreas correlatas, muitas pertinentes às chamadas ciências mãe, de alta reputação  e impacto. No entanto, é mais do que evidente a necessidade de fortalecer as  pesquisas aplicadas, profissionalizantes, vinculadas à intervenção, buscando nos  conhecimentos dessa natureza também a sua inserção internacional, ou seja,  publicando-as em periódicos de reconhecida reputação e impacto.  </P>     <p>Não se confunde, portanto, com o pensamento  muito comum na nossa área de que conhecimentos aplicados são publicados em  periódicos locais, regionais ou nacionais, de menor exigência e baixo impacto.  Sabidamente, conhecimentos que passam por um crivo rigoroso são mais confiáveis,  inclusive na sua aplicação a problemas locais, regionais e nacionais. A garantia  é a qualidade e não a naturalidade ou a nacionalidade do conhecimento.&nbsp;&nbsp; </P>     <p>A comunidade científica entende que a inserção internacional é o melhor indicador    de qualidade. Em outras palavras, o trabalho que se submete à crítica de uma    comunidade mais ampla tem maiores probabilidades de possuir melhor qualidade    do que aquele que se submete à avaliação de uma comunidade mais restrita, por    exemplo, local ou regional. Um artigo publicado em um periódico de reconhecimento    internacional é entendido como um trabalho que tem inserção internacional<SUP>(<a name="top12"></a><a href="#12">12</a>)</SUP>.</P>     <p>Parte da comunidade de pesquisadores prognostica que a ênfase à publicação    em periódicos internacionais resultará no empobrecimento e até no desaparecimento    de periódicos nacionais. A carreira acadêmica envolve um processo de qualificação    crescente em que o pesquisador vai gradativamente adquirindo competência científica,    avalizada pelo reconhecimento da sua produção pelos pares. Por esse motivo,    é altamente plausível, numa comunidade de pesquisadores, uma distribuição normal    dos periódicos em que seus artigos são publicados, desde os locais aos internacionais.    Fazer com que a média dessa comunidade se mova para a direita da curva, quando    os periódicos são colocados em ordem crescente de qualidade, deve constituir-se    uma meta de qualquer área. A Educação Física e o Desporto não podem ser diferentes<SUP>(<a href="#12">12</a>)</SUP>.  </P>     <p>Ademais, todos reconhecem que, no âmbito  internacional, a competitividade para publicar em periódicos mais qualificados  aumenta sem parar, da mesma forma que cresce o número de pesquisadores  qualificados. Portanto, é também plausível ter periódicos lusófonos publicando  artigos cada vez mais qualificados que, como consequência, poderão obter a  indexação internacional, como já ocorre, com alguns de seus periódicos. Os  periódicos lusófonos devem buscar a indexação internacional e não permanecerem  subscritos aos indexadores do seu nicho geográfico. O reconhecimento  acadêmico-científico da comunidade lusófona de Educação Física e Desporto deve  ser também holonômico: internamente pela vinculação cultural da sua produção  intelectual e externamente pela inserção internacional dessa  produção.</P>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Outra crítica freqüente é que a busca pela internacionalização da sua produção    científica pode levar a Educação Física e o Desporto a abandonarem temas de    investigação de interesse local ou regional. Um equívoco. Nada impede o pesquisador    de diversificar as suas linhas de pesquisa para contemplar investigações de    interesses mais específicos. E, para cada tema investigado, deve procurar um    veículo de publicação mais adequado. Investigar tema de interesse local não    significa que o estudo deva ser avaliado apenas localmente. O fato de o tema    ser de interesse local ou regional não garante, obviamente, a qualidade do estudo    realizado. Portanto, seria altamente salutar uma pesquisa em torno de um tema    de interesse local ser avaliada, por exemplo, com o mesmo rigor que se aplica    à análise de um artigo nacional ou internacional. De fato, se o método de investigação    for único e original, apesar de o tema ser local, poderá atrair também o interesse    de periódicos inclusive internacionais<SUP>(<a href="#12">12</a>)</SUP>. </P>     <p>A vinculação do estudo a temas locais e a sua conseqüente publicação em periódicos    domésticos pode ter um apelo meritório que é a pertinência do estudo a interesses    específicos e concretos, mas o demérito de não expor o trabalho a crítica e    avaliação mais amplas. Quando se submete um artigo a um periódico internacional,    ele tem a possibilidade de ser avaliado por pesquisadores de diferentes países,    apesar de o periódico ser publicado em um país específico. Evidentemente, um    artigo necessita ser analisado e avaliado tanto na óptica do seu valor teórico-científico    como da sua significância social. No entanto, não podemos deixar de ter sempre    em mente que artigos sem qualidade não têm significado social. Poderá, ao contrário,    ter um significado anti-social, especialmente se recebeu recursos financeiros    públicos para a sua produção, sejam em forma de bolsas, auxílios ou equipamentos<SUP>(<a href="#12">12</a>)</SUP>.  </P>     <p>As divergências em torno da caracterização e  pertinência da produção científica numa determinada área de conhecimento  precisam levar em consideração a natureza da própria área, o que reforça a  necessidade de uma melhor definição da base epistemológica da Educação Física e  Desporto. Enquanto não se definem como uma área de natureza acadêmica ou  profissionalizante, os simpatizantes de uma ou de outra concepção continuarão a  defender um tipo de produção mais adequado à sua escolha.&nbsp; </P>     <p>Do ponto de vista dos periódicos, sugere-se que  a comunidade lusófona pense na possibilidade de publicar três tipos de  periódicos: os centrados em artigos originais de pesquisa (possuem dados  empíricos) de natureza acadêmica e profissionalizante (a exemplo do <i>Research Quarterly</I>), os que veiculam  artigos direcionados à disseminação de conhecimentos, pontos de vista,  orientações e experiências úteis à intervenção profissional (a exemplo do <i>Journal of Physical Education, Recreation  and Dance - Joperd</I>) e aqueles direcionados para a divulgação de ensaios  temáticos de posicionamento e de reflexão (a exemplo da <i>Quest</I>). </P>     <p>Essas considerações em relação à publicação de artigos em periódicos não devem,    em nenhuma hipótese, serem confundidas com pouca valorização da produção acadêmico-científica    em forma de livros e capítulos de livro. Os conhecimentos produzidos pelas pesquisas    realizadas nas subáreas ditas humanas e sociais da Educação Física e Desporto    constituem uma parte fundamental do seu acervo acadêmico-científico que deve    ser ampliado e enriquecido. No entanto, cabe uma reflexão: nessas subáreas a    produção de conhecimentos está muito concentrada em ensaios e capítulos de livro    e, proporcionalmente, poucos artigos originais são produzidos. Até alguns anos    atrás, esse quadro se justificava, em parte, pela ausência de periódicos específicos    da área em número, qualidade, periodicidade e com regularidade garantida, mas    hoje isso não mais corresponde à realidade. É necessário estimular mais a publicação    de artigos originais, pois esses são os melhores indicadores de que existem    linhas de pesquisa consolidadas e produtivas. O suposto número reduzido de opções    de periódicos para quem investiga na área de humanas e sociais, tão propalado    no nosso meio, não mais corresponde à realidade<SUP>(<a href="#12">12</a>)</SUP>.  </P>     <p>&nbsp;</P>     <p>7<b>. A pós-graduação como  hólon</B></P>     <p>Considerando o sistema de Pós-graduação como um  hólon, observa-se a tendência auto-afirmativa dos programas refletir-se de forma  cada vez mais forte na formação de mestres e doutores com uma visão estreita de  ciência e de vida acadêmica e universitária, orientada apenas às dimensões  microscópicas do seu objeto específico de investigação e a publicação de seus  resultados em periódicos especializados. Na ânsia de concluir os seus cursos nos  prazos estipulados e produzir artigos, ou mesmo para atender a exigências da  competitividade instalada para obtenção de bolsas, o pós-graduando parece não  mais entender como prioridade reservar um tempo na sua agenda para uma reflexão  e aprendizagem sobre essas questões macroscópicas. </P>     <p>Reconhece-se que, muitas vezes, as exigências de dedicação num curso de doutorado    não permitem maior aprofundamento em temas mais amplos que fogem às preocupações    específicas do projeto de tese<SUP>(<a name="top11"></a><a href="#11">11</a>)</SUP>.    Entretanto, considerando que as atividades desenvolvidas após a conclusão do    doutorado incluem, invariavelmente, a orientação de alunos de Pós-Graduação,    a formação de grupos de estudo, a estruturação de laboratórios de pesquisa e    outras atividades que requerem um conhecimento mais abrangente não apenas da    área, mas da própria ciência, torna-se fundamental sensibilizar e estimular    os pós-graduandos a adquirirem uma visão sistêmica de todo o processo. Nesse    particular, entende-se que falta à Pós-graduação em Educação Física e Desporto    promover uma formação mais sólida em História e Filosofia da Ciência, para que    os pós-graduandos possam aprender a exercitar as duas faces do <i>Janus</I>.    Em outras palavras, é preciso fazer a sua tendência integrativa se manifestar    com mais vigor no sentido de utilizar sua capacidade de adaptação e criatividade    na formação de mestres e doutores com uma visão sistêmica que lhes permita se    posicionar acerca das dimensões macroscópicas da área de conhecimento, da universidade    e da ciência<SUP>(<a href="#11">11</a>)</SUP>. Os programas em funcionamento    têm uma grande responsabilidade acadêmico-científica e social na formação de    doutores devidamente capacitados para exercerem liderança científica na esfera    de sua atuação. Deles depende, em grande parte, o futuro da Educação Física    e Desporto dos países lusófonos. </P>     <p>Outro aspecto da Pós-graduação que merece uma  reflexão profunda refere-se à distribuição dos programas na comunidade lusófona.  Os programas de Pós-Graduação em funcionamento estão implantados em sua maioria  em Portugal e no Brasil. Diluir essa concentração é um grande desafio, mas o  processo é complexo em razão da necessidade de um corpo docente qualificado em  nível de doutorado. Como se tem poucos doutores, não se criam novos programas de  Pós-Graduação. E, em não se criando, não se formam os recursos humanos  necessários para se implantar novos programas. Certamente, não existem soluções  simples para se quebrar esse círculo vicioso. Exige-se muita ousadia e,  especialmente, otimização de recursos humanos. Evidentemente, isso requer, em  nível individual, uma disponibilidade para lutar por um projeto coletivo e, em  nível institucional, um espírito cooperativo realçando em ambos a tendência  integrativa do hólon. O programa de Pós-graduação da Universidade Pedagógica de  Maputo, em parceria com a Faculdade de Desporto da Universidade do Porto e a  Escola de Educação Física e Esporte da Universidade de São Paulo pode ser visto  como uma evidência de que isso é possível. </P>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><b>&nbsp;</B></P>     <p><b>8. Considerações  finais</B></P>     <p>Como foi visto, a definição de uma identidade  acadêmica que oriente e organize a produção de conhecimentos em primeiro lugar,  e, em segundo lugar, a consolidação da área mediante pesquisas científicas  abrangentes e profundas devem ser entendidas não apenas como metas, mas como  necessidades imperativas para a Educação Física e Desporto até mesmo para se  justificarem como áreas de conhecimento merecedores de um lugar na academia e  consequentemente na universidade.</P>     <p>A solução para esse problema implica uma ampla  reflexão sobre a base epistemológica, o que se constitui um dos maiores desafios  das nossas áreas. Neste particular, um aspecto muito importante para a nossa  consideração é que, apesar de, nos últimos anos, ter havido um aumento  substancial no número de oportunidades para discussão e na quantidade de  material escrito para leitura e reflexão, a preocupação com a identidade  acadêmica da área ainda se restringe a um grupo muito reduzido de docentes e  pesquisadores, dentre aqueles que atuam nas instituições de ensino superior.  </P>     <p>Muitos continuam completamente afastados ou alienados da discussão, uns por    puro desconhecimento (os chamados especialistas preocupados apenas com o seu    campo específico de atuação e que dizem não ter tempo para discussões “paralelas”),    outros por desinteresse para com qualquer coisa que seja acadêmica, por convicção    ou limitação (os chamados práticos), outros ainda por insensibilidade ao problema    por considerar essa discussão inútil e irrelevante, ou seja, uma especulação    filosófica sem resultados práticos (os chamados pesquisadores ortodoxos que    fazem uma brutal ruptura entre ciência e filosofia, relegando o segundo a um    plano secundário). As implicações dessa omissão, alienação e desinteresse são    imensas, particularmente o seu efeito multiplicador tanto na Graduação quanto    na Pós-graduação, por formar um ciclo autorreprodutor que, se não rompido, retardará    em muito o desenvolvimento da área<SUP>(<a name="top10"></a><a href="#10">10</a>)</SUP>.  </P>     <p>Para finalizar, conclamo os docentes e  pesquisadores lusófonos para nos envolvermos nesse desafio utilizando a nossa  capacidade intelectual e criatividade que a tendência integrativa do hólon nos  proporciona, sem deixar de pesquisar temas do nosso campo específico de  investigação que a tendência auto-afirmativa já garante. Isto é, desenvolver as  nossas atividades mantendo o equilíbrio dinâmico das duas faces do <i>Janus</I>. </P>     <p><b>&nbsp;</B></P>     <p><b>Referências  bibliográficas</B></P>     <p><a href="#top1">1</a>.<a name="1"></a>&nbsp;&nbsp; Bento JO, Marques AT (1991).    Uma língua, um espaço, uma comunidade de ciência do desporto. In J.O. Bento    e A.T. Marques (Eds.), <i>As ciências do desporto e a prática desportiva</I>.    Volume 1. Porto: Faculdade de Ciências do Desporto e de Educação Física, p.23-28.</P>     <p><a href="#top2">2</a>.&nbsp;<a name="2"></a>&nbsp; von Bertalanffy L (1968).    <i>General systems theory</I>. New York: George Braziller.</P>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><a name="3"></a><a href="#top3">3</a>.&nbsp;&nbsp; Gleick J (1987). <i>Chaos:    Making a new science</I>. New York: Penguin Books.</P>     <p><a href="#top4">4</a>.&nbsp;<a name="4"></a>&nbsp; Haken H (1977). <i>Synergetics</I>.    Heidelberg: Springer - Verlag.</P>     <p><a href="#top5">5</a>.&nbsp;<a name="5"></a>&nbsp; Jantsch E (1980). <i>The    self-organizing universe: Scientific and human implications of an emerging paradigm    of evolution</I>. Oxford: Pergamon Press.</P>     <p><a href="#top6">6</a>.&nbsp;<a name="6"></a>&nbsp; Koestler A (1967). The ghost    in the machine. London: Hutchinson.</P>     <p><a href="#top7">7</a>.&nbsp;<a name="7"></a>&nbsp; Lewin R (1993). <i>Complexity:    Life on the edge of chaos</I>. London: Phoenix.</P>     <p><a href="#top8">8</a>.&nbsp;<a name="8"></a>&nbsp; Prigogine I, Stengers I    (1984). <i>Order out of chaos: man's new dialog with nature</I>. New York: Bantam    Books.</P>     <!-- ref --><p><a href="#top9">9</a>.&nbsp;<a name="9"></a>&nbsp; Tani G (1996). Cinesiologia,    educação física e esporte: Ordem emanente do caos na estrutura acadêmica. <i>Motus    Corporis</I>, v.3, n.2, p.9-49.&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=751388&pid=S1645-0523201000010001000001&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><p><a href="#top10">10</a><a name="10"></a>.&nbsp;&nbsp; Tani G (1998). 20 anos    de ciências do esporte: um transatlântico sem rumo? <i>Revista Brasileira de    Ciências do Esporte</I> - Número Especial Comemorativo dos 20 Anos de Fundação,    p.19-31.</P>     <p><a href="#top11">11</a><a name="11"></a>.&nbsp;&nbsp; Tani G (2000). Os desafios    da pós-graduação em educação física. <i>Revista Brasileira de Ciências do Esporte</I>,    v. 22, n. 1, p.79-90.</P>     <p><a href="#top12">12</a><a name="12"></a>.&nbsp;&nbsp; Tani G (2007). Educação    física: por uma política de publicação visando à qualidade dos periódicos. <i>Revista    Brasileira de Ciências do Esporte</I>, 29, 1, 9-22.</P>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><a href="#top13">13</a><a name="13"></a>.&nbsp;&nbsp; Tani G (2008). Área de    conhecimento e intervenção profissional. In U.C. Corrêa (Org.), <i>Pesquisa    em comportamento motor: A intervenção profissional em perspectiva</I>. São Paulo:    Escola de Educação Física e Esporte da Universidade de São Paulo, p.14-25.</P>     <p><a href="#top14">14</a><a name="14"></a>.&nbsp;&nbsp; Waldrop MM (1992). <i>Complexity:    The emerging science at the edge of order and chaos</I>. London: Penguin Books.</P>     <p><a href="#top15">15</a><a name="15"></a><a href="#top15">.</a>&nbsp;&nbsp;    Wiener N (1948). <i>Cybernetics</I>. New York: John Wiley &amp; Sons.</P>     <p><a href="#top16">16</a><a name="16"></a>.&nbsp;&nbsp; Yates EF (Ed.) (1987).    <i>Self-organizing systems: The emergence of order</I>. New York: Plenum Press.</P>     <p>&nbsp;</P>     <p><b><a name="0"></a><a href="#top0">CORRESPONDÊNCIA</a></B></P>     <p><b>Go Tani</B></P>     <p>Escola de Educação Física e Esporte - USP</P>     <p>Av. Prof. Mello Morais, 65 – São Paulo – SP, CEP 05508-030 – Brazil</P>     <p>E-mail: <a href="mailto:gotani@usp.br">gotani@usp.br</a></P>     ]]></body>
<body><![CDATA[ ]]></body><back>
<ref-list>
<ref id="B1">
<nlm-citation citation-type="journal">
<person-group person-group-type="author">
<name>
<surname><![CDATA[Tani]]></surname>
<given-names><![CDATA[G]]></given-names>
</name>
</person-group>
<article-title xml:lang="pt"><![CDATA[Cinesiologia, educação física e esporte: Ordem emanente do caos na estrutura acadêmica]]></article-title>
<source><![CDATA[Motus Corporis]]></source>
<year>1996</year>
<volume>3</volume>
<numero>2</numero>
<issue>2</issue>
<page-range>9-49</page-range></nlm-citation>
</ref>
</ref-list>
</back>
</article>
