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<abstract abstract-type="short" xml:lang="en"><p><![CDATA[Although it is often assumed that the predominant southern African systems of misfortune interpretation are deterministic, the notion of "deterministic chaos" seems to be more accurate to understand the underlying principles of the Mozambican divination with tinhlolo. This divination practice does not foresee the future but both the past causes to the present situation, and how would be the future (assumed as mutable and dynamic) if the current conditions would remain unchanged. The aim is, however, to manipulate effectively such conditions, in order to achieve the most desirable result. This system is based on a deterministic structure, it seeks to explain and to regulate uncertainty, but its outcome is chaotic due to the complexity of the involved factors, unknowable in their totality and characterized by agency. To understand it as a "domestication of uncertainty" system legitimates new comparison fields worldwide (including with the probabilistic notion of "risk"), and refocus the study of Ngoma-like phenomena, from their reproduction mechanisms as "affliction cults" to their underlying logics and world views.]]></p></abstract>
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</front><body><![CDATA[  	    <p><b>O que &eacute; que a Adivinha&ccedil;&atilde;o Adivinha?</b></p>  	    <p><b>Paulo Granjo*</b></p>  	    <p>*Instituto de Ci&ecirc;ncias Sociais &#150; Universidade de Lisboa</p>  	    <p><a href="mailto:paulo.granjo@ics.ul.pt">paulo.granjo@ics.ul.pt</a></p> 	    <p>&nbsp;</p> 	    <p><b>Resumo</b></p>  	    <p>Embora seja habitual assumir que os sistemas de interpreta&ccedil;&atilde;o do infort&uacute;nio dominantes na &Aacute;frica Austral t&ecirc;m uma natureza determinista, a no&ccedil;&atilde;o de "caos determin&iacute;stico" parece mais adequada para compreender os princ&iacute;pios subjacentes &agrave; adivinha&ccedil;&atilde;o com <i>tinhlolo</i> que &eacute; praticada em Mo&ccedil;ambique. Nela n&atilde;o &eacute; adivinhado o futuro, mas as causas passadas para a situa&ccedil;&atilde;o presente, a par de como seria o futuro (que se sabe ser mut&aacute;vel e din&acirc;mico) caso se mantivessem as condi&ccedil;&otilde;es presentes, que se pretendem manipular da forma mais vantajosa. Esse sistema &eacute; baseado numa estrutura determinista, aspira a explicar e regular a incerteza, mas o seu resultado &eacute; ca&oacute;tico em virtude da complexidade dos factores envolvidos, incognosc&iacute;veis na sua totalidade e caracterizados por ag&ecirc;ncia. Encar&aacute;&#45;lo como um sistema de "domestica&ccedil;&atilde;o da incerteza" legitima a abertura de novos campos comparativos a n&iacute;vel mundial (incluindo neles a no&ccedil;&atilde;o probabil&iacute;stica de "risco"), e altera o fulcro das pesquisas sobre fen&oacute;menos de tipo <i>Ngoma</i>, deixando a aten&ccedil;&atilde;o de estar centrada nos seus mecanismos de reprodu&ccedil;&atilde;o, enquanto "cultos de afli&ccedil;&atilde;o", para passar a privilegiar as l&oacute;gicas e vis&otilde;es do mundo que lhes est&atilde;o subjacentes.</p>  	    <p>Palavras&#45;chave: adivinha&ccedil;&atilde;o; <i>tinhlolo</i>; caos determin&iacute;stico; risco; incerteza; Mo&ccedil;ambique</p> 	    <p>&nbsp;</p> 	    ]]></body>
<body><![CDATA[<p><b>Abstract</b></p>  	    <p>Although it is often assumed that the predominant southern African systems of misfortune interpretation are deterministic, the notion of "deterministic chaos" seems to be more accurate to understand the underlying principles of the Mozambican divination with <i>tinhlolo</i>. This divination practice does not foresee the future but both the past causes to the present situation, and how would be the future (assumed as mutable and dynamic) if the current conditions would remain unchanged. The aim is, however, to manipulate effectively such conditions, in order to achieve the most desirable result. This system is based on a deterministic structure, it seeks to explain and to regulate uncertainty, but its outcome is chaotic due to the complexity of the involved factors, unknowable in their totality and characterized by agency. To understand it as a "domestication of uncertainty" system legitimates new comparison fields worldwide (including with the probabilistic notion of "risk"), and refocus the study of <i>Ngoma</i>&#45;like phenomena, from their reproduction mechanisms as "affliction cults" to their underlying logics and world views.</p>  	    <p>Keywords: divination; <i>tinhlolo</i>; deterministic chaos; risk; uncertainty; Mozambique</p>  	    <p>&nbsp;</p>  	    <p>Quando percorremos a literatura antropol&oacute;gica acerca dos sistemas de adivinha&ccedil;&atilde;o, parece ser ponto assente, embora de forma impl&iacute;cita, que aqueles praticados na &Aacute;frica Subsariana t&ecirc;m um car&aacute;cter determinista.</p>  	    <p>Nalguns casos e locais, poder&aacute; bem ser verdade. Tanto mais que essa quest&atilde;o raramente &eacute; equacionada enquanto tal e de forma expl&iacute;cita, faltando por isso aos leitores os dados necess&aacute;rios para a avaliarem por si pr&oacute;prios. No entanto, nem a forma de adivinha&ccedil;&atilde;o predominante no sul de Mo&ccedil;ambique, o <i>tinhlolo</i>, nem o sistema de interpreta&ccedil;&atilde;o do infort&uacute;nio e de "domestica&ccedil;&atilde;o da incerteza" em que ela se baseia apresentam um car&aacute;cter determinista. Ambos correspondem, antes, a uma l&oacute;gica de "caos determin&iacute;stico"<sup><a href="#1">1</a></sup><a name="top1"></a>.</p>  	    <p>Para que o possamos verificar, apresentar&#45;vos&#45;ei em seguida esse conjunto de adivinha&ccedil;&atilde;o, o contexto em que ele &eacute; usado, os seus utilizadores e o sistema de explica&ccedil;&atilde;o do infort&uacute;nio que lhe est&aacute; subjacente, confrontando esses dados com os princ&iacute;pios da determina&ccedil;&atilde;o, da aleatoriedade e do caos determin&iacute;stico.</p>  	    <p>Constatar que a utiliza&ccedil;&atilde;o do <i>tinhlolo</i> corresponde a uma l&oacute;gica de caos determin&iacute;stico n&atilde;o &eacute;, contudo, uma mera curiosidade anal&iacute;tica. Essa constata&ccedil;&atilde;o tem implica&ccedil;&otilde;es relevantes para a forma como entendemos e abordamos os sistemas de adivinha&ccedil;&atilde;o semelhantes a este. Afinal, eles n&atilde;o adivinham nem pretendem adivinhar o futuro mas sim, por um lado, as raz&otilde;es passadas subjacentes aos problemas presentes e, por outro, as condi&ccedil;&otilde;es presentes para aquilo que o futuro seria &#150; caso essas condi&ccedil;&otilde;es n&atilde;o fossem, conforme os adivinhos bem sabem e afirmam, alteradas a partir de agora pela complexa e permanente interac&ccedil;&atilde;o entre factores materiais e a ac&ccedil;&atilde;o de in&uacute;meros agentes sociais, vivos e mortos. Ou seja, um sistema de interpreta&ccedil;&atilde;o da incerteza que procura ser determinista acaba por n&atilde;o o ser, ao reconhecer a complexidade e mutabilidade da realidade que pretende controlar.</p>  	    <p>Isto desloca, por sua vez, o foco da an&aacute;lise dos chamados fen&oacute;menos <i>Ngoma</i> (Dijk, Reis &amp; Spierenburg, 2000; Janzen, 1992), entre os quais se inserem o <i>tinhlolo</i> e as pr&aacute;ticas curativas e propiciat&oacute;rias dos seus utilizadores. Se, na sequ&ecirc;ncia da brilhante proposta de Victor Turner (1968) acerca dos "cultos de afli&ccedil;&atilde;o", a aten&ccedil;&atilde;o dos investigadores tem sido sobretudo atra&iacute;da pela forma como o grupo de terapeutas assegura a sua continuidade atrav&eacute;s da integra&ccedil;&atilde;o de ex&#45;pacientes, aquilo que passa a ser mais relevante, a partir da perspectiva que proponho, s&atilde;o os princ&iacute;pios e l&oacute;gicas do sistema de interpreta&ccedil;&atilde;o da incerteza que subjaz &agrave; pr&aacute;tica divinat&oacute;ria e curativa, e o estatuto epistemol&oacute;gico que lhe &eacute; atribu&iacute;do pelos praticantes.</p>  	    <p>Quando, na sequ&ecirc;ncia disso, encaramos este tipo de fen&oacute;menos como uma varia&ccedil;&atilde;o particular dos sistemas de domestica&ccedil;&atilde;o da incerteza que existem por todo o mundo (em vez de como um objecto de estudo isolado nas suas pr&oacute;prias caracter&iacute;sticas particulares e ex&oacute;ticas), tornam&#45;se evidentes as suas similitudes gritantes com outros sistemas aparentemente t&atilde;o diferentes deles como, por exemplo, o tecnocient&iacute;fico risco probabil&iacute;stico (Granjo, 2008). E com isso, proponho&#45;o, todo um novo e promissor campo de estudo se abre.</p>  	    ]]></body>
<body><![CDATA[<p><b>O <i>tinhlolo</i></b></p>  	    <p>O conjunto de adivinha&ccedil;&atilde;o mais comummente utilizado no sul e centro de Mo&ccedil;ambique, o <i>tinhlolo</i>, n&atilde;o &eacute; de forma alguma imut&aacute;vel, ou sequer est&aacute;vel na sua composi&ccedil;&atilde;o. Se compararmos aqueles hoje existentes com as descri&ccedil;&otilde;es escritas mais antigas e cuidadosas (Earthy, 1933; Junod, 1897; Junod, 1996 &#91;1912&#93;), &eacute; evidente que as suas pe&ccedil;as se alteraram ao longo do tempo; mas tamb&eacute;m os conjuntos actualmente utilizados por diferentes adivinhos apresentam diferen&ccedil;as entre si (ver fig. 1 e <a href="#a0">Anexo</a><a name="topa0"></a>).</p> 	    <p>&nbsp;</p> 	<a name="topf1"></a> 	    <p><img src="/img/revistas/cea/n22/n22a04f1.jpg"></p> 	    
<p><a href="#f1">Figura 1</a>: Conjunto completo de <i>tinhlolo</i> de Job Massinge, Matola, 2005</p> 	    <p>&nbsp;</p> 	    <p>A variabilidade decorre, em parte, do facto de n&atilde;o serem reconhecidos ao <i>tinhlolo</i> poder ou vida pr&oacute;prios, por muito habituados que estejamos a que o contr&aacute;rio aconte&ccedil;a e seja enfatizado noutros contextos<sup><a href="#2">2</a></sup><a name="top2"></a>.</p>  	    <p>De facto, a natureza do <i>tinhlolo</i> pode ser expressa pelos adivinhos segundo um leque amplo de met&aacute;foras, que n&atilde;o s&atilde;o mutuamente exclusivas, mas antes complementares e enfatizando diferentes caracter&iacute;sticas atribu&iacute;das a esse conjunto de adivinha&ccedil;&atilde;o e ao seu contexto de utiliza&ccedil;&atilde;o<sup><a href="#3">3</a></sup><a name="top3"></a>. Uma dessas explica&ccedil;&otilde;es classifica&#45;o como um amplificador de percep&ccedil;&atilde;o que permite detectar dados que caber&aacute; ao adivinho interpretar, &agrave; imagem do que acontece com um estetosc&oacute;pio ou com o tchova<sup><a href="#4">4</a></sup><a name="top4"></a>, um instrumento feito com cauda de gnu e pelos de cauda de hiena, que ajuda a localizar esp&iacute;ritos que possuam o cliente: "O <i>tinhlolo</i> &eacute; como o <i>tchova</i> no <i>kufemba</i> (...) s&oacute; ajuda a encontrar; n&atilde;o encontra nada e n&atilde;o me diz onde tenho que procurar os esp&iacute;ritos &#91;do cliente&#93;. Os meus esp&iacute;ritos &eacute; que dizem".</p> 	    <p>&Eacute; tamb&eacute;m apresentado como um instrumento para pressionar os esp&iacute;ritos do adivinho a cumprirem os seus deveres profissionais, uma vez passado o seu entusiasmo inicial: "Quando eu pego nos ossos e chamo, eles sabem que &eacute; trabalho, n&atilde;o &eacute; brincadeira. Se n&atilde;o est&atilde;o zangados comigo, t&ecirc;m que vir e fazer o trabalho; foram eles que escolheram para eu ser m&eacute;dica tradicional".</p>  	    <p>Num terceiro sentido, o <i>tinhlolo</i> &eacute; referido como o ponto de partida e catalisador da rela&ccedil;&atilde;o de comunica&ccedil;&atilde;o entre adivinho, cliente e esp&iacute;ritos que constitui a consulta: "A consulta &eacute; uma carta com muitas p&aacute;ginas, que precisa de ler e responder. O <i>tinhlolo</i> &eacute; o come&ccedil;o de cada p&aacute;gina. O cliente tem que responder, para os meus esp&iacute;ritos e os defuntos dele poderem procurar mais".</p>  	    ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Pode ainda ser descrito como um sistema de encripta&ccedil;&atilde;o a descodificar pelos especialistas: "&Eacute; como as letras. Os ossos juntam e dizem coisas. Mas a <i>kuvumbata</i> (profecia) do que dizem &eacute; muito complicada, &eacute; trabalho dos esp&iacute;ritos". Ou, ent&atilde;o, como uma voz que permite aos esp&iacute;ritos expressarem&#45;se junto dos vivos, j&aacute; que "para falar, os esp&iacute;ritos t&ecirc;m que &laquo;sair&raquo; ou que explicar no <i>tinhlolo</i>. Assim, falam mais certo e cansa menos". Por fim, este conjunto de adivinha&ccedil;&atilde;o pode mesmo ser apresentado como um espa&ccedil;o de demonstra&ccedil;&atilde;o de poder e de divers&atilde;o para os esp&iacute;ritos: "Numa consulta &laquo;daquelas&raquo;, eu sei o que as pe&ccedil;as v&atilde;o dizer j&aacute; antes de tocar na esteira. Os esp&iacute;ritos j&aacute; sabem e mostram, quando querem".</p>  	    <p>N&atilde;o obstante essa aparente variabilidade, as pe&ccedil;as do <i>tinhlolo</i> s&atilde;o assumidas, em &uacute;ltima inst&acirc;ncia, como "coisas que representam coisas", funcionando eficazmente "desde que o <i>nyanga</i><sup><a href="#5">5</a></sup><a name="top5"></a> e os esp&iacute;ritos saibam que pe&ccedil;a representa o qu&ecirc;". Consequentemente, &eacute; aceit&aacute;vel utilizar um novo objecto para representar uma entidade habitualmente simbolizada por outra pe&ccedil;a, ou ent&atilde;o introduzir no conjunto de adivinha&ccedil;&atilde;o novas entidades e situa&ccedil;&otilde;es, que se tornem necess&aacute;rias em virtude da especializa&ccedil;&atilde;o do adivinho na resolu&ccedil;&atilde;o de determinados casos ou doen&ccedil;as, ou em resultado de mudan&ccedil;as nas condi&ccedil;&otilde;es sociais, que tornem relevantes novas personagens ou locais.</p>  	    <p>Tal n&atilde;o impede que, de momento, exista um tendencial padr&atilde;o b&aacute;sico de <i>tinhlolo</i> no sul de Mo&ccedil;ambique. Na sua vers&atilde;o completa, ele inclui na verdade tr&ecirc;s conjuntos diferentes (<a name="f1"></a><a href="#topf1">figura 1</a>).</p>  	    <p>Dois desses conjuntos s&atilde;o considerados pelos seus utilizadores como sendo variantes do mesmo m&eacute;todo e conjunto de adivinha&ccedil;&atilde;o, que j&aacute; existiriam antes da invas&atilde;o do sul de Mo&ccedil;ambique pelos <i>vaNguni</i>, no s&eacute;culo XIX<sup><a href="#6">6</a></sup><a name="top6"></a>. Ambos s&atilde;o compostos por seis elementos semelhantes entre si: no caso do chamado <i>tinguenha</i>, as pe&ccedil;as s&atilde;o escamas dorsais de crocodilo; o outro, chamado <i>thiakata</i>, &eacute; composto por cascas de sementes da &aacute;rvore <i>nulu</i>, que desempenha um papel importante no tratamento das pessoas a quem tenha sido diagnosticada uma possess&atilde;o por esp&iacute;ritos. Nessa situa&ccedil;&atilde;o, as folhas da &aacute;rvore s&atilde;o piladas e maceradas em &aacute;gua, sendo a mistura resultante batida at&eacute; se obter uma grande quantidade de espuma. O paciente deve ingerir essa espuma tr&ecirc;s vezes ao dia, de forma a apaziguar a impaci&ecirc;ncia dos esp&iacute;ritos que o possuem, ao longo do seu processo de aprendizagem para se tornar um <i>nyanga</i> (figura 2).</p>  	    <p>&nbsp;</p>  	    <p><img src="/img/revistas/cea/n22/n22a04f2.jpg"></p>  	    
<p>Figura 2: Aprendiz de <i>nyanga</i> comendo espuma de <i>nulu</i>, Maputo, 2010</p> 	    <p>&nbsp;</p> 	    <p>Estes dois conjuntos t&ecirc;m tamb&eacute;m em comum a classifica&ccedil;&atilde;o das suas pe&ccedil;as como tr&ecirc;s machos e tr&ecirc;s f&ecirc;meas, partilhando ainda os mesmos princ&iacute;pios de leitura divinat&oacute;ria. Esta baseia&#45;se no n&uacute;mero e g&eacute;nero das pe&ccedil;as que caem com o lado de "cima" ou de "baixo" vis&iacute;vel, nas direc&ccedil;&otilde;es geogr&aacute;ficas para que apontam e no agrupamento e combina&ccedil;&otilde;es lineares que entre si desenham.</p>  		    <p>S&atilde;o descritos como "os mais tradicionais" e &eacute; comum um adivinho afirmar que os seus antepassados "s&oacute; precisavam de um destes para fazer uma consulta". N&atilde;o &eacute; contudo consensual que tipo de adivinhos usava cada um dos conjuntos, no passado. Alguns dizem que apenas guerreiros usavam o <i>tinguenha</i>, enquanto outros o consideram ligado &agrave; possess&atilde;o por esp&iacute;ritos "de &aacute;gua" e um terceiro grupo afirma que a raz&atilde;o era sobretudo geogr&aacute;fica e pragm&aacute;tica: se um adivinho vivesse junto de um rio, utilizaria o <i>tinguenha</i>; caso contr&aacute;rio, as nozes de <i>nulu</i>.</p>  	    ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Conforme em breve explicarei, estes conjuntos t&ecirc;m hoje duas diferentes utiliza&ccedil;&otilde;es: como forma redundante de confirma&ccedil;&atilde;o, durante os primeiros lan&ccedil;amentos de consultas consideradas importantes, e enquanto conjuntos independentes e isolados, para responder a perguntas directas do cliente. Neste &uacute;ltimo caso, o conjunto a utilizar &#150; <i>nulu</i> ou escamas de crocodilo &#150; depende das prefer&ecirc;ncias do esp&iacute;rito que "est&aacute; a trabalhar" com o adivinho, naquela sess&atilde;o particular.</p>  	    <p>O terceiro conjunto parcial do <i>tinhlolo</i>, o maior e mais diversificado, &eacute; aquele que apresenta mais semelhan&ccedil;as com as descri&ccedil;&otilde;es de Junod e de Earthy. &Eacute; por vezes referido como <i>"tinhlolo Nguni"</i>, pois assume&#45;se que ter&aacute; uma origem zulu e que ter&aacute; sido introduzido na regi&atilde;o pelos invasores <i>vaNguni</i>.</p>  	    <p>Tamb&eacute;m este conjunto &eacute; sobretudo composto por casais de macho e f&ecirc;mea, podendo incluir um n&uacute;mero vari&aacute;vel de conchas (mas obrigatoriamente uma de maior dimens&atilde;o e esp&eacute;cie particular), moedas, pedras, a parte inferior da carapa&ccedil;a de dois c&aacute;gados, duas sementes deformadas de canhu ou a sua representa&ccedil;&atilde;o esculpida na madeira dessa &aacute;rvore<sup><a href="#7">7</a></sup><a name="top7"></a>, e os astr&aacute;galos de v&aacute;rios animais, dom&eacute;sticos e selvagens. Os ossos de animais dom&eacute;sticos prov&ecirc;m de um carneiro &#150; que &eacute; &uacute;nico porque representa o chefe e h&aacute; apenas um chefe &#150; e de nove cabras, cabritos e bodes que correspondem a pessoas de diferente idade, g&eacute;nero e estatuto. Os de animais selvagens ser&atilde;o provenientes de macacos, le&otilde;es, kudus, gnus, impalas e cabritos monteses. Para al&eacute;m destes objectos, &eacute; bastante comum a inclus&atilde;o de dados, para al&eacute;m &#150; conforme referi &#150; de objectos exclusivos de cada <i>nyanga</i>, em fun&ccedil;&atilde;o das suas prefer&ecirc;ncias e especialidade (<a href="#topf8">figuras 8 a 11</a><a name="f8"></a>, em <a href="#a0">anexo</a>).</p>  	    <p>Uma explica&ccedil;&atilde;o do sentido atribu&iacute;do a cada pe&ccedil;a do <i>tinhlolo</i> e dos seus princ&iacute;pios de leitura exigiria, por si s&oacute;, um artigo muito mais longo do que este. N&atilde;o quero, contudo, deixar de sublinhar que a maioria dos adivinhos est&aacute; plenamente consciente da variabilidade destes elementos. Com estas palavras ou outras, foi recorrente ouvir que:</p>  	    <p>Estes ossos n&atilde;o s&atilde;o realmente o que deviam, porque cada coisa destas est&aacute; ligada a um certo animal. Veja: nos tempos antigos, se era o muluve, o antepassado, tinha que se usar o javali &#91;farocero&#93;. Mas hoje usamos <i>s&iacute;mbolos</i> &#91;textual&#93; e juntamos as pe&ccedil;as como as conseguimos encontrar. Depois, damos o nome conforme as necessidades.</p>  	    <p>Portanto, se &eacute; assumido que mudar as pe&ccedil;as n&atilde;o &eacute; grande problema (e que, no limite, n&atilde;o importa realmente que objecto &eacute; utilizado), &eacute; pressuposta e evocada uma era arquet&iacute;pica, em que havia alguma liga&ccedil;&atilde;o natural ou sobrenatural entre o tipo de animal que fornecia o osso e a entidade social que esse osso representava durante o processo de adivinha&ccedil;&atilde;o.</p>  	    <p><b>O(a) adivinho(a) e os seus esp&iacute;ritos</b></p>  	    <p>O leitor ter&aacute; certamente reparado que, em t&atilde;o poucas p&aacute;ginas, j&aacute; mencionei por diversas vezes os esp&iacute;ritos dos adivinhos. Tal aconteceu porque eles s&atilde;o uma refer&ecirc;ncia incontorn&aacute;vel em qualquer conversa acerca deste assunto, visto a possess&atilde;o por esp&iacute;ritos ser localmente uma condi&ccedil;&atilde;o <i>sine qua non</i> para a capacidade e pr&aacute;tica de adivinha&ccedil;&atilde;o.</p>  	    <p>De facto, n&atilde;o &eacute; suposto escolhermos ser <i>nyanga</i>; somos escolhidos para essa tarefa por esp&iacute;ritos que "querem trabalhar" atrav&eacute;s de n&oacute;s, por um acto de possess&atilde;o. Os esp&iacute;ritos escolhem o indiv&iacute;duo entre um conjunto de familiares poss&iacute;veis e podem ser herdados de ambos os lados da fam&iacute;lia &#150; o que &eacute;, afinal, paralelo &agrave; situa&ccedil;&atilde;o social, em que os princ&iacute;pios de descend&ecirc;ncia agn&aacute;tica s&atilde;o predominantes mas n&atilde;o exclusivos (Webster, 2009), coexistindo com sentimentos e deveres que resultam das alian&ccedil;as matrimoniais e perduram por v&aacute;rias gera&ccedil;&otilde;es, a par de outros factores comuns como irregularidades de <i>lobolo</i><sup><a href="#8">8</a></sup><a name="top8"></a> (Granjo, 2005) ou a heran&ccedil;a do nome pr&oacute;prio<sup><a href="#9">9</a></sup><a name="top9"></a>.</p>  	    <p>Em casos excepcionais, que apenas detectei em fam&iacute;lias onde um dos pais herdou uma grande quantidade de esp&iacute;ritos, a escolha destes pode ser anunciada &#150; atrav&eacute;s de adivinha&ccedil;&atilde;o ou de transe &#150; mesmo antes do nascimento da crian&ccedil;a, juntamente com o g&eacute;nero e o nome a atribuir ao beb&eacute;<sup><a href="#10">10</a></sup><a name="top10"></a>.</p>  	    ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Normalmente, contudo, a exig&ecirc;ncia de trabalho por parte dos esp&iacute;ritos assumir&aacute; a forma de uma "doen&ccedil;a de chamamento" que, a par de sintomas individualizados, incluir&aacute; uma fraqueza geral, fragilidade nas articula&ccedil;&otilde;es e fortes dores, para as quais a biomedicina n&atilde;o encontrar&aacute; aparente explica&ccedil;&atilde;o. Se a pessoa n&atilde;o reconhece a presen&ccedil;a dos esp&iacute;ritos, recusa ou tenta adiar a chamada, espera&#45;se que sistem&aacute;ticas doen&ccedil;as, desgra&ccedil;as e mortes a venham a atingir a si e &agrave; sua fam&iacute;lia.</p>  	    <p>Este comportamento violento por parte dos esp&iacute;ritos n&atilde;o &eacute; atribu&iacute;do a maldade, mas antes &agrave;s limita&ccedil;&otilde;es que eles enfrentam na sua actual forma de exist&ecirc;ncia. Embora poderosos, os esp&iacute;ritos s&atilde;o "o que sobra" da pessoa que em tempos foram. N&atilde;o s&atilde;o, por isso, capazes de comunicar aos vivos o que querem, vendo&#45;se limitados a chamar a aten&ccedil;&atilde;o deles de forma indirecta, propiciando acontecimentos anormais e indesejados at&eacute; serem ouvidos atrav&eacute;s da adivinha&ccedil;&atilde;o ou transe de especialistas. Para al&eacute;m disso, &eacute; esperado dos esp&iacute;ritos que de momento n&atilde;o possuam ningu&eacute;m que se comportem "como crian&ccedil;as", de forma caprichosa e impaciente (Honwana, 2002), sobretudo quando se sentem impotentes para transmitir o que desejam.</p>  	    <p>Daqui resulta uma din&acirc;mica que corresponde bastante &agrave; no&ccedil;&atilde;o de "culto de afli&ccedil;&atilde;o" (Turner, 1968), mesmo se "culto" n&atilde;o &eacute; uma palavra que eu escolhesse para a descrever. A pessoa que &eacute; v&iacute;tima de uma "doen&ccedil;a de chamamento" procurar&aacute; solu&ccedil;&atilde;o junto de um(a) <i>nyanga</i> e, uma vez que lhe seja diagnosticada uma possess&atilde;o por parte de esp&iacute;ritos leg&iacute;timos que "querem trabalhar", s&oacute; poder&aacute; superar o problema aceitando tornar&#45;se ela pr&oacute;pria <i>nyanga</i>. O paciente tornar&#45;se&#45;&aacute; ent&atilde;o um terapeuta, e o vago crente, frequentemente semi&#45;c&eacute;ptico acerca de tais assuntos, tornar&#45;se&#45;&aacute; um divulgador e reprodutor da cren&ccedil;a<sup><a href="#11">11</a></sup><a name="top11"></a>.</p>  	    <p>Tenho vindo a referir "esp&iacute;ritos leg&iacute;timos" e factores familiares, temendo induzir o leitor a pensar que a legitimidade das exig&ecirc;ncias de um esp&iacute;rito decorra do seu estatuto de antepassado, ou que cada antepassado seja um esp&iacute;rito. Neste contexto, nenhuma das hip&oacute;teses &eacute; verdadeira.</p>  	    <p>No que diz respeito &agrave; &uacute;ltima delas, podemos dizer que, se todos os esp&iacute;ritos s&atilde;o antepassados de algu&eacute;m (desde que lhes tenham sobrevivido descendentes), poucos antepassados se tornam esp&iacute;ritos. &Eacute; pressuposto que toda a gente tem uma parte espiritual que sobrevive &agrave; sua morte e se mant&eacute;m na Terra, protegendo e corrigindo os seus descendentes &#150; que, por seu lado, t&ecirc;m o dever de os honrar e se submeter a eles, tal como deve acontecer relativamente aos seus parentes vivos mais velhos. N&atilde;o obstante, s&oacute; alguns desses "restos" espirituais adquirem poderes excepcionais, em resultado do estatuto, ac&ccedil;&otilde;es ou excepcional for&ccedil;a espiritual que tiveram em vida, ou devido a circunst&acirc;ncias negativas na sua morte. S&oacute; esses s&atilde;o, em sentido estrito, esp&iacute;ritos.</p>  	    <p>Quanto &agrave; eventual necessidade de um esp&iacute;rito ser antepassado da pessoa que quer possuir para que tal exig&ecirc;ncia seja considerada leg&iacute;tima, deveremos estar cientes de que, pelo contr&aacute;rio, o acesso ao conjunto completo de capacidades a que um(a) <i>nyanga</i> pode aspirar implica a sua possess&atilde;o por esp&iacute;ritos de tr&ecirc;s diferentes origens:</p>  	    <p>&nbsp;</p> 	    <p><img src="/img/revistas/cea/n22/n22a04t1.jpg"></p> 	    
<p>&nbsp;</p>  	    <p>Conforme Alcinda Honwana sugere (2002), esta divis&atilde;o<sup><a href="#12">12</a></sup><a name="top12"></a> reproduz em termos "&eacute;tnicos" as representa&ccedil;&otilde;es socialmente partilhadas acerca das guerras e ascens&atilde;o do Imp&eacute;rio de Gaza, instalado em princ&iacute;pios do s&eacute;culo XIX e desmantelado pela ocupa&ccedil;&atilde;o efectiva do territ&oacute;rio por parte dos portugueses, em 1895.</p>  	    ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Olhando este quadro a partir do ponto de vista sul do pa&iacute;s, temos de um lado o invasor Nguni que se tornou governante, de cujas t&eacute;cnicas de guerra e adivinha&ccedil;&atilde;o perdurou uma imagem de superioridade que o faz corresponder, em refer&ecirc;ncias populares e dos <i>tinyanga</i>, ao <i>leitmotiv</i> mitol&oacute;gico do her&oacute;i civilizador; temos depois os "donos da terra", vencidos e assimilados pelo invasor, devendo &agrave; sua submiss&atilde;o o estatuto e nome que vieram a ter; temos por fim o Ndau, lembrado como o rebelde resistente &agrave;s invas&otilde;es e guerras que lhe foram movidas pelos anteriores, sob comando dos <i>vaNguni</i>, e cuja determina&ccedil;&atilde;o e resili&ecirc;ncia s&oacute; poderiam ser explicadas pela posse de um forte poder espiritual<sup><a href="#13">13</a></sup><a name="top13"></a>.</p>  	    <p>N&atilde;o obstante o que acabei de expor, a fam&iacute;lia tamb&eacute;m fornece, num sentido diferente, o princ&iacute;pio legitimador para a integra&ccedil;&atilde;o de esp&iacute;ritos exteriores &#150; e isto de acordo com uma l&oacute;gica de culpa e de dever. De facto, a legitimidade da exig&ecirc;ncia de um esp&iacute;rito "estrangeiro" para possuir algu&eacute;m e "trabalhar" deriva da rela&ccedil;&atilde;o que ter&aacute; mantido com antepassados da fam&iacute;lia, quando todos eles estavam vivos. Normalmente, os esp&iacute;ritos <i>vaNguni</i> seriam senhores ou amigos de um antepassado que auxiliaram a fam&iacute;lia e j&aacute; n&atilde;o t&ecirc;m descend&ecirc;ncia, enquanto no caso dos <i>vaNdau</i> poder&aacute; tratar&#45;se de uma mulher trazida da guerra como escrava e concubina, dos seus parentes chacinados (a cujos esp&iacute;ritos ela mostrou o caminho para a casa da fam&iacute;lia que a manteve cativa), ou de um guerreiro morto antes de casar, que por isso exigiu &agrave; fam&iacute;lia do seu oponente uma esposa viva e acabou por decidir "trabalhar", quando a sua raiva se apaziguou ao longo do tempo<sup><a href="#14">14</a></sup><a name="top14"></a>.</p>  	    <p>Independentemente da origem do esp&iacute;rito, as consequ&ecirc;ncias ontol&oacute;gicas da possess&atilde;o s&atilde;o no essencial as mesmas. Embora um esp&iacute;rito n&atilde;o possua o corpo da pessoa de forma cont&iacute;nua, tanto ele quanto o indiv&iacute;duo possu&iacute;do deixar&atilde;o de ser as entidades separadas e independentes que antes eram, para se tornarem num ser simbi&oacute;tico, com uma identidade nova e comum. Cada um influencia o comportamento e a identidade do outro, adaptando&#45;se a essa coexist&ecirc;ncia durante o seu processo de prepara&ccedil;&atilde;o para se tornarem um <i>nyanga</i> &#150; podendo at&eacute;, por exemplo, o homem vivo ter que mudar de religi&atilde;o, caso o seu esp&iacute;rito principal professasse em vida uma religi&atilde;o diferente da sua. De facto, um dogma local afirma que &eacute; o esp&iacute;rito (e n&atilde;o a pessoa que o hospeda) quem &eacute; treinado para trabalhar, pois o seu conhecimento foi em grande parte esquecido desde a morte do(a) hospedeiro(a) anterior; se a pessoa tamb&eacute;m aprende ao longo desse processo, diz&#45;se, tal resulta da simbiose entre os dois.</p>  	    <p>Uma &uacute;ltima caracter&iacute;stica a reter &eacute; que, conforme Harry West (2006) eloquentemente aponta para o caso do norte de Mo&ccedil;ambique, os adivinhos&#45;curandeiros n&atilde;o est&atilde;o manietados por um quadro de pr&aacute;ticas e de discursos tradicionalistas e repetitivos. Pelo contr&aacute;rio, a sua pr&aacute;tica inclui experi&ecirc;ncias, especula&ccedil;&otilde;es e inova&ccedil;&otilde;es, estando eles, regra geral, bastante interessados tanto no reconhecimento externo do seu trabalho, quanto nas explica&ccedil;&otilde;es e pr&aacute;ticas curativas vigentes noutros contextos &#150; explica&ccedil;&otilde;es e pr&aacute;ticas que apresentam para eles o interesse suplementar de poderem vir a ser reapropriadas em benef&iacute;cio do seu prest&iacute;gio profissional e da atrac&ccedil;&atilde;o e fixa&ccedil;&atilde;o de clientes.</p>  	    <p><b>A "consulta"</b></p>  	    <p>De acordo com este quadro conceptual, a "consulta" &#150; conforme &eacute; designada a sess&atilde;o de adivinha&ccedil;&atilde;o, em deliberada analogia com a terminologia biom&eacute;dica &#150; &eacute; vista como uma rela&ccedil;&atilde;o de comunica&ccedil;&atilde;o entre quatro diferentes agentes: o(a) adivinho(a), os seus esp&iacute;ritos, o(a) cliente e os seus antepassados<sup><a href="#15">15</a></sup><a name="top15"></a>.</p>  	    <p>N&atilde;o obstante, do ponto de vista do adivinho a consulta n&atilde;o &eacute; apenas uma quest&atilde;o de informa&ccedil;&atilde;o, mas tamb&eacute;m de credibilidade junto dos seus clientes. Por essa raz&atilde;o, as suas atitudes e estilos de leitura variam consoante o <i>nyanga</i> e a ocasi&atilde;o, de acordo com o seu grau de confian&ccedil;a e as estrat&eacute;gias que utiliza para se salvaguardar e transmitir confian&ccedil;a. A sequ&ecirc;ncia dos acontecimentos &eacute;, no entanto, basicamente a mesma em qualquer consulta.</p>  	    <p>Quando o cliente chega, limita&#45;se a pedir uma consulta, sem especificar os seus motivos. Algum tempo depois, ser&aacute; convidado para a cabana pertencente ao esp&iacute;rito que liderar&aacute; o trabalho nesse dia, pois o <i>nyanga</i> deve cham&aacute;&#45;los a trabalhar de forma rotativa, ou alguns "v&atilde;o ficar zangados de ci&uacute;me, por pensar que o trabalho deles &eacute; desprezado".</p>  	    <p>O adivinho vestir&aacute; ent&atilde;o a <i>capulana</i><sup><a href="#16">16</a></sup><a name="top16"></a> desse esp&iacute;rito e, virando&#45;se para os pertences dele, cham&aacute;&#45;lo&#45;&aacute; para trabalhar, informando&#45;o que algu&eacute;m pede a ajuda de ambos (figura 3). &Eacute; essencial que o esp&iacute;rito concorde participar, pois caso contr&aacute;rio o adivinho "olha e s&oacute; v&ecirc; ossos; n&atilde;o consegue ler nada".</p> 	    <p>&nbsp;</p> 	    ]]></body>
<body><![CDATA[<p><img src="/img/revistas/cea/n22/n22a04f3.jpg"></p>  	    
<p>Figura 3: Job Massingue, chamando um dos seus esp&iacute;ritos para "trabalhar"<sup><a href="#17">17</a></sup><a name="top17"></a></p> 	    <p>&nbsp;</p> 	    <p>Depois desta invoca&ccedil;&atilde;o do esp&iacute;rito (pois eles gostam de passear e de conversar &agrave; sombra de algumas &aacute;rvores, ou de brincar na praia, podendo n&atilde;o estar por ali), um <i>nyanga</i> alfabetizado tomar&aacute; nota, numa agenda semelhante &agrave;s utilizadas nos hospitais, do nome oficial do cliente, da sua genealogia e do seu "nome tradicional" &#150; ou, na aus&ecirc;ncia deste, da sua alcunha ou diminutivo dentro da fam&iacute;lia. Este acto &#150; cuja similitude com a rotina m&eacute;dica &eacute; evidente &#150; &eacute; normalmente praticado com alguma circunspec&ccedil;&atilde;o e solenidade.</p>   	    <p>O esp&iacute;rito &eacute; ent&atilde;o convidado a fazer <i>kuvumbata</i> (profecia) para o cliente, que &eacute; identificado pelo seu nome e pelos seus ascendentes nas &uacute;ltimas duas ou tr&ecirc;s gera&ccedil;&otilde;es. Em seguida, o adivinho morde um ramo de <i>manono</i>, uma madeira muito amarga que o ajudar&aacute; a induzir aquilo que &eacute; normalmente designado por "transe ligeiro", ou "leve" (figura 4).</p> 	     <p>&nbsp;</p> 	    <p><img src="/img/revistas/cea/n22/n22a04f4.jpg"></p>  	    
<p>Figura 4: Mordendo madeira de <i>manono</i>, para auxiliar a indu&ccedil;&atilde;o de "transe ligeiro"</p> 	    <p>&nbsp;</p> 	    <p>Quando utilizada de forma isolada, a palavra "transe" &eacute; de facto reservada para as ocasi&otilde;es em que um esp&iacute;rito assume o controlo total da pessoa e dos seus movimentos, fala atrav&eacute;s dela e &#150; de acordo com uma cren&ccedil;a popular a que muitos <i>tinyanga</i> negam veracidade &#150; a faz perder a percep&ccedil;&atilde;o daquilo que se passa &agrave; sua volta<sup><a href="#18">18</a></sup><a name="top18"></a>. Este estado &eacute; necess&aacute;rio para a realiza&ccedil;&atilde;o de v&aacute;rias cerim&oacute;nias e do mais espectacular tipo de tratamentos por <i>kufemba</i> (exorcismo de esp&iacute;ritos). No caso das consultas, contudo, a incorpora&ccedil;&atilde;o do esp&iacute;rito no adivinho &eacute; antes descrita como "um arrepio, e depois como um tecido fino sobre os ombros".</p> 	 	    ]]></body>
<body><![CDATA[<p>A partir do momento em que o adivinho sente a sua presen&ccedil;a, poder&aacute; "bater" (lan&ccedil;ar) o <i>tinhlolo</i> (figura 5). Se j&aacute; est&aacute; familiarizado com o cliente, poder&aacute; utilizar apenas o <i>tinhlolo Nguni</i>; mas se se trata de uma primeira consulta ou se espera que ela venha a ser importante (devido ao estatuto elevado do cliente ou &agrave; expectativa de um problema particularmente complicado), ser&aacute; de esperar que o <i>nyanga</i> "jogue seguro", atirando tamb&eacute;m as escamas de crocodilo e as nozes de <i>nulu</i>. A ideia &eacute; poder comparar os padr&otilde;es desenhados pelos dois conjuntos mais pequenos com aquele em que ca&iacute;ram as muitas pe&ccedil;as do <i>tinhlolo</i> mais complexo: numa consulta promissora, os tr&ecirc;s conjuntos dever&atilde;o fornecer basicamente a mesma informa&ccedil;&atilde;o; se tal n&atilde;o acontece, algo est&aacute; mal. Para al&eacute;m disso, os conjuntos de seis pe&ccedil;as, mais simples, podem ajudar o adivinho a focar a sua aten&ccedil;&atilde;o na mais pertinente de entre as v&aacute;rias linhas de leitura proporcionadas pelo conjunto maior.</p> 	    <p>&nbsp;</p> 	    <p><img src="/img/revistas/cea/n22/n22a04f5.jpg"></p> 	    
<p>Figura 5: Lan&ccedil;ando o <i>tinhlolo</i> completo, de uma bolsa <i>sipatsi</i></p> 	    <p>&nbsp;</p> 	    <p>Antes de mais, o <i>nyanga</i> dever&aacute; identificar o motivo da visita do cliente. Se n&atilde;o o conseguir fazer correctamente, o cliente recolher&aacute; o seu dinheiro e ir&#45;se&#45;&aacute; embora. Por essa raz&atilde;o, os adivinhos tendem a ser muito cuidadosos nesta fase, falando por met&aacute;foras ou recitando mesmo a "can&ccedil;&atilde;o do <i>tinhlolo</i>", uma hist&oacute;ria vaga acerca do passado e fam&iacute;lia do cliente que, no essencial, se adequa a quase toda a popula&ccedil;&atilde;o e lhe foi ensinada pelo seu mestre, durante o processo de aprendizagem profissional. Depois, em fun&ccedil;&atilde;o das reac&ccedil;&otilde;es do cliente, aproximar&#45;se&#45;&atilde;o progressivamente daquele que julgam ser o problema.</p>  	    <p>Esta inseguran&ccedil;a &eacute; leg&iacute;tima, mesmo de acordo com os seus pr&oacute;prios crit&eacute;rios. De facto, para al&eacute;m da incorpora&ccedil;&atilde;o do esp&iacute;rito, uma boa consulta requer tamb&eacute;m que este esteja de bom humor e que a sua interac&ccedil;&atilde;o com os antepassados do cliente seja mutuamente aceite. Por isso, mesmo um bom adivinho pode por vezes sentir&#45;se inseguro ou incapaz de fornecer informa&ccedil;&otilde;es correctas; mas, como a sua reputa&ccedil;&atilde;o est&aacute; em jogo, tentar&aacute; utilizar a sua experi&ecirc;ncia e capacidade de observa&ccedil;&atilde;o para descobrir o assunto que preocupa o cliente.</p>  	    <p>Se tudo correr pelo melhor, contudo, a situa&ccedil;&atilde;o &eacute; descrita de uma forma bem diferente. A interac&ccedil;&atilde;o do <i>nyanga</i> com o esp&iacute;rito n&atilde;o &eacute; como "algu&eacute;m soprando nas orelhas o que dizer", mas antes como uma orienta&ccedil;&atilde;o interna, como "coisas que v&ecirc;m &agrave; sua mente", "pensamentos que fluem na sua cabe&ccedil;a". Quando esta simbiose entre o adivinho e o seu esp&iacute;rito &eacute; particularmente bem conseguida, sendo tamb&eacute;m assegurada a harmonia e a comunica&ccedil;&atilde;o entre este e os antepassados do cliente, ent&atilde;o o <i>tinhlolo</i> quase se torna secund&aacute;rio e pode n&atilde;o ser necess&aacute;rio voltar a lan&ccedil;&aacute;&#45;lo.</p>  	    <p>Conforme refere o Eng.&ordm; Job Massingue, que dirigiu a consulta cujas fotos ilustram este artigo:</p>  	    <p>Quando isso acontece, n&atilde;o me vem sequer &agrave; cabe&ccedil;a nenhuma preocupa&ccedil;&atilde;o de estar certo ou errado, de convencer ou n&atilde;o. Passado um bocado, j&aacute; nem sequer olho para os "ossos". O cliente pensa que eu estou a l&ecirc;&#45;los, mas eu estou s&oacute; a falar, a falar, falar, e sem mesmo notar estou de olhos fechados e continuo a falar, a falar, at&eacute; n&atilde;o ter mais nada para dizer. E quando me calo, normalmente n&atilde;o h&aacute; mesmo mais nada para dizer, ou para atirar.</p>  	    ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Situa&ccedil;&otilde;es como esta n&atilde;o s&atilde;o, contudo, frequentes. Habitualmente, o <i>nyanga</i> encontrar&aacute; o problema, explicar&aacute; as raz&otilde;es que lhe est&atilde;o subjazentes de uma forma mais directa ou mais metaf&oacute;rica, de acordo com o seu estilo pessoal e com a confian&ccedil;a que sente (figura 6), e esperar&aacute; pela reac&ccedil;&atilde;o e coment&aacute;rios do cliente. Far&#45;lhe&#45;&aacute; ent&atilde;o v&aacute;rias perguntas que julga pertinentes, levando as respostas e coment&aacute;rios do cliente &agrave; realiza&ccedil;&atilde;o de um novo lan&ccedil;amento &#150; desta vez, no entanto, apenas o <i>tinhlolo Nguni</i> ser&aacute; atirado, das m&atilde;os do adivinho e n&atilde;o da bolsa de palha onde &eacute; guardado e transportado<sup><a href="#19">19</a></sup><a name="top19"></a>, conforme acontecera no primeiro lan&ccedil;amento.</p> 	    <p>&nbsp;</p> 	    <p><img src="/img/revistas/cea/n22/n22a04f6.jpg"></p>  	    
<p>Figura 6: Explicando o problema que aflige o cliente</p> 	    <p>&nbsp;</p> 	    <p>Aquilo que surge, aos olhos de um observador exterior, como uma interac&ccedil;&atilde;o terap&ecirc;utica que lhe recorda vagamente a psican&aacute;lise &#150; e simultaneamente fornece ao <i>nyanga</i> dados essenciais para a sua interpreta&ccedil;&atilde;o e interven&ccedil;&atilde;o &#150; &eacute; objecto de duas explica&ccedil;&otilde;es paralelas, dentro da profiss&atilde;o divinat&oacute;ria:</p>  	    <p>Em primeiro lugar, &eacute; dito que, enquanto os assuntos levantados num lan&ccedil;amento n&atilde;o forem completamente respondidos, os lan&ccedil;amentos subsequentes apenas ir&atilde;o repetir a mesma informa&ccedil;&atilde;o, sem nada trazer de novo. Esta redund&acirc;ncia deriva de uma das principais caracter&iacute;sticas do <i>tinhlolo</i>, a de ser um meio de comunica&ccedil;&atilde;o entre os esp&iacute;ritos e os vivos, estando consequentemente sujeito &agrave;s regras comuns de cortesia &#150; da mesma forma que se dever&aacute; responder a uma carta, ou uma mensagem verbal, antes de se receber a seguinte.</p>  	    <p>Em segundo lugar, cr&ecirc;&#45;se que os esp&iacute;ritos (especialmente se forem <i>vaNguni</i>) apenas trabalham de forma eficaz durante algum tempo seguido, ficando depois cansados e abandonando o local. O adivinho ter&aacute;, a partir dessa altura, que mobilizar a sua experi&ecirc;ncia e capacidades, tanto de observa&ccedil;&atilde;o quanto de leitura das pedras, de forma a completar o <i>puzzle</i> e a consulta. No entanto, quando se v&ecirc; na conting&ecirc;ncia de recorrer a tais meios j&aacute; n&atilde;o se trata de <i>kuvumbata</i> mas de um palpite interpretativo, por muito exacto que este possa ser.</p>  	    <p>Ap&oacute;s v&aacute;rios lan&ccedil;amentos do <i>tinhlolo Nguni</i>, contudo, o cliente poder&aacute; ainda necessitar de algumas respostas directas, para clarificar d&uacute;vidas que tivesse desde o in&iacute;cio da consulta ou que se lhe tivessem colocado entretanto. Quando tal acontece, as perguntas do cliente n&atilde;o poder&atilde;o ser d&uacute;bias e ter&atilde;o que ser formuladas de uma forma que permita uma resposta bin&aacute;ria, como sim/n&atilde;o ou morto/vivo. Um dos conjuntos de seis pe&ccedil;as ser&aacute; ent&atilde;o lan&ccedil;ado a partir das m&atilde;os do <i>nyanga</i>. Qual deles (<i>tinguenha</i> ou <i>thiakata</i>), depender&aacute; das prefer&ecirc;ncias do esp&iacute;rito que est&aacute; a "trabalhar" naquela consulta.</p>  	    <p>Acompanhando at&eacute; ao final este processo, podemos reparar que as conclus&otilde;es da parte principal da consulta est&atilde;o em grande medida pressupostas nos dados que foram confirmados ou adiantados pelo cliente e que uma significativa parte do trabalho do adivinho consiste em dar sentido, &agrave; luz dos princ&iacute;pios locais de interpreta&ccedil;&atilde;o do infort&uacute;nio, a coisas que o cliente j&aacute; sabia. Este &uacute;ltimo, no entanto, apenas confirmou o que lhe foi perguntado e, no caso de alguns <i>tinyanga</i>, recebeu quase uma aula acerca da forma como funciona o sistema de interpreta&ccedil;&atilde;o que referi e adiante exporei. Assim, a sua experi&ecirc;ncia de consulta n&atilde;o se limitou a proporcionar&#45;lhe um sentido para os seus infort&uacute;nios e uma solu&ccedil;&atilde;o plaus&iacute;vel (muitas vezes ritual) para os ultrapassar; tamb&eacute;m reafirmou e lhe deu um maior conhecimento acerca de refer&ecirc;ncias culturais que, quase sempre, eram para si no&ccedil;&otilde;es vagas e fragmentares. O cliente poder&aacute; ainda &#150; em particular se o objecto da consulta eram assuntos familiares &#150; ter recebido sugest&otilde;es acerca do seu comportamento futuro, baseadas nas idiossincrasias do <i>nyanga</i> acerca das rela&ccedil;&otilde;es sociais e assumidas por ele como uma parte da sua responsabilidade e papel de conselheiro.</p>  	    ]]></body>
<body><![CDATA[<p><b>Domestica&ccedil;&atilde;o da incerteza, caos determin&iacute;stico e Mo&ccedil;ambique</b></p>  	    <p>Expostos estes aspectos, imp&otilde;e&#45;se clarificar qual o sentido preciso dos conceitos de "domestica&ccedil;&atilde;o da incerteza" e de "caos determin&iacute;stico".</p>  	    <p>Durante a pesquisa que realizei na refinaria de Sines (Granjo, 2004), tornou&#45;se claro para mim o car&aacute;cter socialmente espec&iacute;fico e localizado da no&ccedil;&atilde;o probabil&iacute;stica de "risco" e at&eacute; que ponto ela induz &#150; do discurso t&eacute;cnico&#45;cient&iacute;fico para a sociedade circundante &#150; a ideia de que o risco constitui "a" realidade, e n&atilde;o uma tentativa de atribuir sentido a essa realidade.</p>  	    <p>Necessitei por isso de diferenciar, por um lado, os factores objectivos pass&iacute;veis de causar danos &agrave;s pessoas e coisas (as "amea&ccedil;as") e, por outro, as v&aacute;rias formas poss&iacute;veis de os conceber e representar, segundo diferentes princ&iacute;pios explicativos.</p>  	    <p>Quando nos centramos nestas diferentes formas de as conceber e representar, depressa verificaremos que as alternativas poss&iacute;veis de conceber a "amea&ccedil;a" e a incerteza podem variar entre dois pontos extremos (figura 7):</p> 	    <p>&nbsp;</p> 	    <p><img src="/img/revistas/cea/n22/n22a04f7.jpg"></p>  	    
<p>Figura 7: Cont&iacute;nuo de alternativas para conceber a incerteza e a amea&ccedil;a</p> 	    <p>&nbsp;</p> 	    <p>De um lado, a total assun&ccedil;&atilde;o de que o "aleat&oacute;rio" &eacute; "real" e constitui o princ&iacute;pio subjacente aos acontecimentos incertos (com isso reconhecendo o acaso)<sup><a href="#20">20</a></sup><a name="top20"></a>; do outro, assumir a completa "determina&ccedil;&atilde;o" desses acontecimentos por parte de l&oacute;gicas ou entidades extra&#45;humanas &#150; como, por exemplo, a vontade divina, algumas acep&ccedil;&otilde;es da palavra "destino" (Granjo, 2009) ou as leis mecanicistas de um universo concebido &agrave; imagem de um aparelho de relojoaria. Entre estes dois extremos, existe um cont&iacute;nuo de possibilidades conceptuais, que t&ecirc;m em comum a sua tentativa de atribuir um sentido e causalidade &agrave; incerteza e ao aleat&oacute;rio que os faz serem vistos como cognosc&iacute;veis, regulados ou mesmo dominados pelos seres humanos. S&atilde;o elas que constituem aquilo a que chamo formas de domestica&ccedil;&atilde;o da incerteza.</p>  	  	    ]]></body>
<body><![CDATA[<p>A posi&ccedil;&atilde;o do caos determin&iacute;stico neste cont&iacute;nuo de possibilidades &#150; ou mesmo num dos seus pontos extremos &#150; n&atilde;o &eacute; imediata.</p>  	    <p>No fundamental, esse conceito sustenta que os acontecimentos incertos s&atilde;o ca&oacute;ticos para quem os observa ou sofre as suas consequ&ecirc;ncias mas, n&atilde;o obstante, existe um princ&iacute;pio de determina&ccedil;&atilde;o que lhes est&aacute; subjacente. De forma a compreendermos todas as suas implica&ccedil;&otilde;es, no entanto, deveremos ter em mente que o caos determin&iacute;stico tem como modelo as equa&ccedil;&otilde;es matem&aacute;ticas que geram uma sucess&atilde;o de n&uacute;meros que n&atilde;o corresponde a ciclos finitos<sup><a href="#21">21</a></sup><a name="top21"></a>, e que portanto nunca se repetem enquanto sequ&ecirc;ncias, por muito que um mesmo resultado individual possa voltar a surgir. Portanto, embora exista uma inst&acirc;ncia de determina&ccedil;&atilde;o, aquilo que resulta &eacute; de facto ca&oacute;tico, imprevis&iacute;vel e incontrol&aacute;vel &#150; a menos que tenhamos acesso &agrave; equa&ccedil;&atilde;o que gera os resultados.</p>  	    <p>Quando aplicamos esta no&ccedil;&atilde;o &agrave; interpreta&ccedil;&atilde;o de um mundo ele pr&oacute;prio incerto, o seu estatuto conceptual e o seu lugar no cont&iacute;nuo de possibilidades que apresentei dependem, em &uacute;ltima inst&acirc;ncia, da resposta que demos a tr&ecirc;s vari&aacute;veis pertinentes: i) que estatuto de cognoscibilidade &eacute; atribu&iacute;do &agrave; "equa&ccedil;&atilde;o"? ii) se &eacute; poss&iacute;vel conhec&ecirc;&#45;la, que tipo de entidade &eacute; capaz de o fazer? iii) &eacute; poss&iacute;vel alterar os acontecimentos resultantes da "equa&ccedil;&atilde;o", uma vez que esta seja conhecida?</p>  	    <p>Dependendo da combina&ccedil;&atilde;o de respostas a estas vari&aacute;veis, podemos de facto estar a lidar com uma vis&atilde;o aleat&oacute;ria de caos, com um sistema determinista de natureza religiosa ou pseudocient&iacute;fica, ou com diferentes sistemas de domestica&ccedil;&atilde;o da incerteza.</p>  	    <p>&Eacute; este &uacute;ltimo o caso do sistema dominante em Mo&ccedil;ambique, que largamente extravasa as fronteiras do pa&iacute;s<sup><a href="#22">22</a></sup><a name="top22"></a>? &Agrave; primeira vista, a resposta pareceria ser: "N&atilde;o &eacute; bem isso".</p>  	    <p>A l&oacute;gica de domestica&ccedil;&atilde;o da incerteza que preside ao <i>tinhlolo</i> parte do princ&iacute;pio de que o acaso n&atilde;o existe, e que muito menos poder&atilde;o existir esses acasos recorrentes a que chamamos coincid&ecirc;ncias. Por isso, acontecimentos que prejudiquem ou beneficiem algu&eacute;m pressup&otilde;em a exist&ecirc;ncia de causas que lhe estejam subjacentes, em especial se se repetirem.</p>  	    <p>Essas causas subjacentes, contudo, n&atilde;o substituem a causalidade material nem lhe s&atilde;o antag&oacute;nicas. Considera&#45;se, de facto, que o mundo est&aacute; repleto de amea&ccedil;as materiais e naturais, reguladas por causas materiais. Uma parte dessas causas ser&aacute; conhecida, outra n&atilde;o, mas nem por ser desconhecida deixar&aacute; de existir.</p>  	    <p>No entanto, se os acontecimentos indesejados seguem rela&ccedil;&otilde;es de causalidade material, &eacute; considerado que eles apenas poder&atilde;o atingir uma pessoa em resultado de causas sociais.</p>  	    <p>A primeira hip&oacute;tese a verificar ser&aacute; a poss&iacute;vel inabilidade ou neglig&ecirc;ncia por parte da v&iacute;tima. Se esta desconhecia a forma correcta de efectuar alguma ac&ccedil;&atilde;o, n&atilde;o tinha suficiente experi&ecirc;ncia para a fazer ou n&atilde;o tomou as precau&ccedil;&otilde;es necess&aacute;rias (ou seja, se era inadequada para fazer o que fez), ser&aacute; essa a raz&atilde;o do seu infort&uacute;nio. S&oacute; ser&atilde;o procuradas outras causas sociais se a v&iacute;tima foi competente e cuidadosa mas, apesar disso, foi atingida ou prejudicada pelo acontecimento indesej&aacute;vel.</p>  	    <p>Uma dessas poss&iacute;veis causas &eacute; a feiti&ccedil;aria (normalmente motivada por inveja ou outros sentimentos e objectivos considerados negativos), que atrair&aacute; a pessoa para o perigo, ou a distrair&aacute; da sua exist&ecirc;ncia e imin&ecirc;ncia. Acredita&#45;se ainda que a feiti&ccedil;aria possa agir directamente sobre factores materiais, mas tais diagn&oacute;sticos s&atilde;o relativamente raros e, em geral, limitados a situa&ccedil;&otilde;es de tens&atilde;o social de excepcional intensidade.</p>  	    ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Outra raz&atilde;o poder&aacute; ser uma falta de protec&ccedil;&atilde;o por parte dos antepassados da v&iacute;tima, que a deveriam proteger do perigo e alert&aacute;&#45;la em rela&ccedil;&atilde;o a ele, n&atilde;o o tendo feito naquele caso. Conforme referi, esta &eacute; a &uacute;nica forma que os antepassados t&ecirc;m para comunicar com os seus descendentes, pelo que o pr&oacute;ximo passo ser&aacute; descobrir por que raz&atilde;o est&atilde;o eles insatisfeitos e o que poder&aacute; ser feito para corrigir essas causas ou, pelo menos, apazigu&aacute;&#45;los<sup><a href="#23">23</a></sup><a name="top23"></a>.</p>  	    <p>Dever&#45;se&#45;&aacute; notar que a falta de protec&ccedil;&atilde;o por parte dos antepassados &eacute; uma quest&atilde;o estritamente social, visto que a sua motiva&ccedil;&atilde;o prov&eacute;m de algum comportamento social &#150; por parte dos seus descendentes ou h&aacute; mais tempo, quando o antepassado em causa ainda era vivo &#150; e que os antepassados n&atilde;o s&atilde;o entidades extra&#45;sociais, vivendo num qualquer lugar extra&#45;humano. Pelo contr&aacute;rio, s&atilde;o "o que sobra" dos seres humanos que antes foram e vivem na Terra junto dos seus descendentes, de quem dependem para serem recordados, cuidados e honrados, e com quem mant&ecirc;m uma rela&ccedil;&atilde;o que segue as regras gerais de protec&ccedil;&atilde;o e controlo familiares.</p>  	    <p>Chegados a este ponto, ser&aacute; claro para o leitor que a <i>d&eacute;marche</i> de adivinha&ccedil;&atilde;o e cura em que se insere o <i>tinhlolo</i> segue uma l&oacute;gica de "domestica&ccedil;&atilde;o do aleat&oacute;rio" que n&atilde;o &eacute; original em &Aacute;frica. De facto, apesar do papel central que os esp&iacute;ritos e os antepassados assumem neste sistema explicativo mo&ccedil;ambicano, os seus princ&iacute;pios gerais s&atilde;o similares, por exemplo, aos da cl&aacute;ssica interpreta&ccedil;&atilde;o de Evans&#45;Pritchard acerca da bruxaria azande (1978 &#91;1937&#93;). Devo contudo sublinhar que a atribui&ccedil;&atilde;o de ag&ecirc;ncia aos esp&iacute;ritos torna bastante mais complexo o sistema que temos vindo a acompanhar e que este n&atilde;o procura explicar apenas os infort&uacute;nios, mas tamb&eacute;m os acontecimentos vantajosos, ou mesmo aspectos socialmente reprovados &#150; como comportamentos abusivos na redistribui&ccedil;&atilde;o da riqueza por parte de quem tem acesso a ela (West, 2008).</p>  	    <p>Tender&iacute;amos tamb&eacute;m a concluir, se limit&aacute;ssemos a an&aacute;lise aos dados que apresentei, que a no&ccedil;&atilde;o de "caos probabil&iacute;stico" s&oacute; em parte &eacute; pertinente neste contexto conceptual. O mundo exterior parece, de facto, seguir uma l&oacute;gica de caos determin&iacute;stico, mas a rela&ccedil;&atilde;o entre o mundo e os indiv&iacute;duos n&atilde;o; antes parece ser regida por "determina&ccedil;&atilde;o", embora esta tenha uma base humana ou para&#45;humana que faz dela uma forma de domestica&ccedil;&atilde;o do aleat&oacute;rio.</p>  	    <p><b>Adivinha&ccedil;&atilde;o e "risco"</b></p>  	    <p>A aplica&ccedil;&atilde;o dos princ&iacute;pios deste sistema &agrave; vida real &eacute;, contudo, menos directa do que a sua mera apresenta&ccedil;&atilde;o geral nos levaria a pressupor, devendo&#45;se isso &agrave; complexidade que &eacute; reconhecida aos factores envolvidos nas rela&ccedil;&otilde;es sociais.</p>  	    <p>Na verdade, se estiv&eacute;ssemos na presen&ccedil;a de um sistema determinista, seria de esperar que algu&eacute;m sempre cuidadoso, que sempre se comportasse de forma socialmente correcta para com os vivos e sempre respeitasse as regras dos antepassados, estaria salvaguardado de surpresas indesej&aacute;veis. No entanto, n&atilde;o &eacute; esse o caso.</p>  	    <p>Entre os vivos, o pr&oacute;prio comportamento excepcionalmente correcto desse indiv&iacute;duo poderia tornar&#45;se objecto de inveja &#150; e, portanto, objecto do motivo mais frequente para fazer dele uma v&iacute;tima de feiti&ccedil;aria, seja como forma de retalia&ccedil;&atilde;o, seja como meio para se apropriar das suas qualidades e for&ccedil;a.</p>  	    <p>Na sua rela&ccedil;&atilde;o com os mortos, existiriam tamb&eacute;m v&aacute;rias raz&otilde;es pass&iacute;veis de o vitimizar, independentemente da sua conduta exemplar. Por exemplo, se uma gota de saliva saltasse da boca de um parente s&eacute;nior enquanto este comentasse as ac&ccedil;&otilde;es do indiv&iacute;duo modelo que temos vindo a imaginar, os antepassados de ambos poderiam considerar esse acontecimento como sendo uma invoca&ccedil;&atilde;o, e as palavras do parente s&eacute;nior como sendo um pedido de correc&ccedil;&atilde;o do seu comportamento, por muito pouco que essa fosse a inten&ccedil;&atilde;o do orador. &Eacute; tamb&eacute;m assumido &#150; e com frequ&ecirc;ncia diagnosticado &#150; que um esp&iacute;rito pode exigir aos vivos uma compensa&ccedil;&atilde;o pelas ac&ccedil;&otilde;es passadas de um seu parente, entretanto falecido. Por fim, um indiv&iacute;duo pode ainda ser atingido, n&atilde;o devido &agrave;s suas ac&ccedil;&otilde;es e omiss&otilde;es ou por herdar a culpa de um antepassado, mas como uma forma de chamar a aten&ccedil;&atilde;o para as faltas de uma outra pessoa, que ser&aacute; neste caso um seu parente pr&oacute;ximo.</p>  	    <p>Dessa forma, este sistema de domestica&ccedil;&atilde;o do aleat&oacute;rio &eacute; baseado numa estrutura determinista, procura explicar e regular a incerteza, mas o seu resultado &eacute; ca&oacute;tico, devido &agrave; complexidade dos factores envolvidos, incognosc&iacute;veis na sua totalidade e caracterizados por ag&ecirc;ncia humana ou para&#45;humana. Voltando &agrave; nossa met&aacute;fora matem&aacute;tica, &eacute; postulada a exist&ecirc;ncia de uma "equa&ccedil;&atilde;o" e a compreens&atilde;o dos elementos que a comp&otilde;em; pode nalguns casos ser mesmo assumido que a f&oacute;rmula da equa&ccedil;&atilde;o seja conhecida (pelo menos pelos esp&iacute;ritos), mas &eacute; imposs&iacute;vel identificar simultaneamente o valor de todas as inc&oacute;gnitas e, consequentemente, o resultado da equa&ccedil;&atilde;o.</p>  	    ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Em suma, o sistema adopta, na aplica&ccedil;&atilde;o pr&aacute;tica dos seus princ&iacute;pios, uma l&oacute;gica de caos determin&iacute;stico, tanto mais que n&atilde;o enfrentamos neste caso muitos factores relacionados entre si de forma linear<sup><a href="#24">24</a></sup><a name="top24"></a>, mas antes v&aacute;rios factores relacionados de forma n&atilde;o linear, interagindo de uma maneira que transforma a sua rela&ccedil;&atilde;o e evolu&ccedil;&atilde;o individual em resultado da sua hist&oacute;ria relacional, como no exemplo cl&aacute;ssico de &aacute;gua pingando sobre uma faceta de Lorenz (1963).</p>  	    <p>Quando atentamos nas raz&otilde;es que obrigam o sistema a adoptar uma tal l&oacute;gica, podemos detectar similitudes gritantes com a aplica&ccedil;&atilde;o da teoria das probabilidades &agrave; gest&atilde;o das "amea&ccedil;as", sob a no&ccedil;&atilde;o de "risco". De facto, este sistema mo&ccedil;ambicano e a gest&atilde;o probabil&iacute;stica do risco enfrentam os mesmos dilemas, e pelos mesmos motivos: embora ambos aspirem a atribuir ordem &agrave; incerteza e a assegurar o dom&iacute;nio humano sobre ela, ambos s&atilde;o incapazes de a controlar de forma prospectiva devido &agrave; complexidade dos factores envolvidos &#150; e, em resultado disso, cada um deles transforma a preven&ccedil;&atilde;o num paliativo parcial. Esta incapacidade &eacute; particularmente pertinente porque, quando olhamos para um sistema de domestica&ccedil;&atilde;o da incerteza, seria um erro fundamental separar o seu objectivo de atribuir sentido aos acontecimentos do seu objectivo de guiar a ag&ecirc;ncia humana. Se a exist&ecirc;ncia de um qualquer tipo de l&oacute;gica de domestica&ccedil;&atilde;o da incerteza &eacute; provavelmente universal &agrave;s sociedades humanas, &eacute; plaus&iacute;vel que tal se deva &agrave; necessidade de superar a humilha&ccedil;&atilde;o que resulta da aus&ecirc;ncia de sentido dos acontecimentos perniciosos e imprevistos; n&atilde;o obstante, o objectivo de um sistema de domestica&ccedil;&atilde;o da incerteza nunca &eacute; apenas proporcionar sentido ao aleat&oacute;rio, inesperado e imprevisto, mas usar esse sentido para direccionar a ac&ccedil;&atilde;o humana de uma forma eficaz.</p>  	    <p>Quer isto dizer que n&atilde;o basta compreender a l&oacute;gica e os princ&iacute;pios atrav&eacute;s dos quais o sentido &eacute; atribu&iacute;do; &eacute; tamb&eacute;m necess&aacute;rio clarificar o potencial, limita&ccedil;&otilde;es e fronteiras da sua projec&ccedil;&atilde;o no futuro, enquanto guia para a ag&ecirc;ncia &#150; n&atilde;o importa se a palavra que utilizamos &eacute; "adivinha&ccedil;&atilde;o" ou "an&aacute;lise de risco".</p>  	    <p>Esta similitude deveria chamar a nossa aten&ccedil;&atilde;o para a import&acirc;ncia de alguma reflex&atilde;o colectiva acerca das consequ&ecirc;ncias pr&aacute;ticas dos sistemas de domestica&ccedil;&atilde;o da incerteza que se tornaram hegem&oacute;nicos<sup><a href="#25">25</a></sup><a name="top25"></a> na &aacute;rea da gest&atilde;o de risco e na forma como este &eacute; encarado nas sociedades de matriz cultural europeia, alastrando progressivamente &agrave;s restantes. Contudo, como esse assunto &eacute; demasiado extenso para ser aqui desenvolvido e j&aacute; tive oportunidade de o abordar noutro local (Granjo 2008), regressemos &agrave; adivinha&ccedil;&atilde;o no sul de Mo&ccedil;ambique, &agrave;s suas l&oacute;gicas subjacentes e &agrave;s consequ&ecirc;ncias daquilo que acaba de ser dito.</p>  	    <p>Uma das consequ&ecirc;ncias &eacute; evidente na observa&ccedil;&atilde;o presencial, no discurso das pessoas envolvidas e na contabiliza&ccedil;&atilde;o dos motivos que levam as pessoas a procurar uma consulta<sup><a href="#26">26</a></sup><a name="top26"></a>: a adivinha&ccedil;&atilde;o mo&ccedil;ambicana n&atilde;o constitui um objectivo em si pr&oacute;pria, mas antes pretende atribuir ordem aos acontecimentos e guiar para a ac&ccedil;&atilde;o. Isto &eacute; relevante para o cliente, mas &eacute; ainda mais relevante para o adivinho, que &eacute; ao mesmo tempo um proporcionador de cura para doen&ccedil;as e problemas sociais, tendo na adivinha&ccedil;&atilde;o o seu meio de diagn&oacute;stico:</p>  	    <p>O <i>tinhlolo</i> &eacute; como o estetosc&oacute;pio do m&eacute;dico. S&oacute; torna as coisas mais claras, n&atilde;o &eacute;? (...) &Eacute; o m&eacute;dico que tem que saber o que significa o que ele est&aacute; a ouvir e o que ele est&aacute; a ouvir existe sem o estetosc&oacute;pio, ele s&oacute; ajuda. O <i>tinhlolo</i> ainda &eacute; mais &uacute;til para n&oacute;s, porque &eacute; o nosso estetosc&oacute;pio, o nosso Raio X e as nossas an&aacute;lises, ao mesmo tempo.</p>  	    <p>No entanto, quando a adivinha&ccedil;&atilde;o &eacute; examinada do ponto de vista do caos determin&iacute;stico (um ponto de vista empiricamente adequado, conforme pudemos constatar), h&aacute; outros aspectos que se tornam mais f&aacute;ceis de compreender.</p>  	    <p>O tipo de utilidade que acaba de ser apontada &agrave; adivinha&ccedil;&atilde;o por <i>tinhlolo</i> levanta de imediato uma nova quest&atilde;o: exactamente que tipo de respostas se espera que uma "consulta" forne&ccedil;a? Por outras palavras, qual &eacute; o estatuto atribu&iacute;do &agrave;s rela&ccedil;&otilde;es causais que s&atilde;o reveladas e &agrave; previs&atilde;o que &eacute; feita?</p>  	    <p>Uma coisa &eacute; certa: n&atilde;o se espera que a adivinha&ccedil;&atilde;o revele apenas o futuro, e o futuro que ela revela n&atilde;o &eacute; considerado certo ou imut&aacute;vel. Por um lado, as consultas com adivinhos dever&atilde;o detectar <i>a posteriori</i> as raz&otilde;es subjacentes aos acontecimentos passados e, ao faz&ecirc;&#45;lo, tornar esses acontecimentos compreens&iacute;veis e permitir uma reac&ccedil;&atilde;o eficaz, atrav&eacute;s da correc&ccedil;&atilde;o das suas causas mais profundas ou da protec&ccedil;&atilde;o contra elas. Por outro lado, espera&#45;se que a adivinha&ccedil;&atilde;o vaticine quais os apoios e obst&aacute;culos a projectos futuros, de forma a permitir a adop&ccedil;&atilde;o das estrat&eacute;gias, decis&otilde;es e precau&ccedil;&otilde;es mas adequadas.</p>  	    <p>Em caso algum &#150; mesmo quando se considera que uma "consulta" espec&iacute;fica foi particularmente exacta &#150; as causas diagnosticadas ser&atilde;o imut&aacute;veis ou se poder&atilde;o considerar assegurados os resultados pretendidos, por muito escrupuloso que seja o cumprimento dos procedimentos receitados pelo <i>nyanga</i>. As condi&ccedil;&otilde;es que estiveram na base dos problemas actuais podem ser alteradas e o futuro n&atilde;o est&aacute; predeterminado; mas cada ac&ccedil;&atilde;o individual &eacute; apenas um factor entre muitos outros, todos eles interagindo e influenciando&#45;se mutuamente. A adivinha&ccedil;&atilde;o por <i>tinhlolo</i> produz, assim, uma conjuntura de quadros de causas e rela&ccedil;&otilde;es que deixa significativo espa&ccedil;o para a ac&ccedil;&atilde;o do cliente, mas que ser&aacute; tamb&eacute;m influenciada pela ag&ecirc;ncia de muitos outros indiv&iacute;duos, vivos e mortos.</p>  	    ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Por outras palavras, a adivinha&ccedil;&atilde;o n&atilde;o adivinha o futuro, mas como o futuro seria se se mantivesse a presente conjuntura de causas, condi&ccedil;&otilde;es e rela&ccedil;&otilde;es entre elas &#150; conjuntura que &agrave; partida se sabe ser mut&aacute;vel e complexa, e se pretende influenciar de forma vantajosa para o cliente.</p>  	    <p>Estamos ent&atilde;o perante a no&ccedil;&atilde;o de uma realidade regulada, mas de tal forma complexa que se transforma numa incerteza vivida, em que a capacidade de um indiv&iacute;duo para manipular os princ&iacute;pios de determina&ccedil;&atilde;o que est&atilde;o subjacentes aos acontecimentos n&atilde;o &eacute; suficiente para o salvaguardar de danos, mas em que a sua ignor&acirc;ncia acerca desses princ&iacute;pios o poderia conduzir ao desastre.</p>  	    <p>Tal pode ser dito da rela&ccedil;&atilde;o das pessoas com a adivinha&ccedil;&atilde;o e, como creio ter ficado demonstrado, pode tamb&eacute;m ser dito acerca do seu funcionamento e do sistema conceptual que lhe serve de base.</p>  	    <p>A mais poderosa consequ&ecirc;ncia que a perspectiva do caos determin&iacute;stico traz ao estudo da adivinha&ccedil;&atilde;o e dos sistemas de domestica&ccedil;&atilde;o do aleat&oacute;rio existentes em &Aacute;frica ser&aacute;, ent&atilde;o, evitar que se assuma de forma ligeira que se trata de no&ccedil;&otilde;es e pr&aacute;ticas deterministas (conforme &eacute; geralmente pressuposto), antes de os analisar em profundidade.</p>  	    <p>Por outro lado, esta abordagem evita que se desperdice a complexidade e o potencial comparativo dos nossos dados, por duas diferentes raz&otilde;es:</p>  	    <p>Em termos gerais, quando encaramos os objectos etnogr&aacute;ficos afins daquele que tenho vindo a apresentar como sendo, antes de mais, formas espec&iacute;ficas e culturalmente situadas de interpreta&ccedil;&atilde;o da incerteza, os campos comparativos onde se torna pertinente inseri&#45;los extravasam o espa&ccedil;o relativamente homog&eacute;neo dos chamados fen&oacute;menos "Ngona" (Dijk <i>et al</i>., 2000; Janzen, 1992). Passamos a poder tamb&eacute;m equacionar outras formas de domestica&ccedil;&atilde;o da incerteza a n&iacute;vel mundial, sejam elas baseadas ou n&atilde;o no caos determin&iacute;stico, sem qualquer raz&atilde;o para que venhamos a cair, ao longo do processo, na l&oacute;gica de "coleccionadores de borboletas" criticada por Leach (1961).</p>  	    <p>Dentro da &aacute;rea tem&aacute;tica do <i>Ngoma</i>, entretanto, esta perspectiva estimula&#45;nos a focar a nossa aten&ccedil;&atilde;o nas vis&otilde;es do mundo subjacentes aos fen&oacute;menos que observamos &#150; em vez de, conforme &eacute; h&aacute;bito, enfatizarmos as suas caracter&iacute;sticas de "cultos de afli&ccedil;&atilde;o", acabando por reduzir a totalidade do sistema aos seus mecanismos de reprodu&ccedil;&atilde;o e legitima&ccedil;&atilde;o. Esta n&atilde;o &eacute; apenas uma quest&atilde;o de deixarmos de etiquetar um fen&oacute;meno com o nome de uma das suas caracter&iacute;sticas &#150; por sinal resultante de um diagn&oacute;stico que &eacute; raro, no conjunto de todos aqueles que s&atilde;o quotidianamente produzidos pelos <i>tinyanga</i>. A partir do momento em que a an&aacute;lise deixa de estar focada quase exclusivamente na forma como o diagn&oacute;stico de possess&atilde;o do paciente cria novos terapeutas, a pr&oacute;pria possess&atilde;o por esp&iacute;ritos retoma o seu lugar como uma das v&aacute;rias explica&ccedil;&otilde;es poss&iacute;veis para os infort&uacute;nios, dentro de uma l&oacute;gica de interpreta&ccedil;&atilde;o bem mais vasta, sist&eacute;mica e integrada. Uma l&oacute;gica de interpreta&ccedil;&atilde;o que, assim, se torna muito mais compreens&iacute;vel na sua totalidade e nas suas implica&ccedil;&otilde;es sociais.</p> 	    <p>&nbsp;</p> 	    <p><b>Refer&ecirc;ncias</b></p>  	    <!-- ref --><p>Binsbergen, W. van (2003). <i>Intercultural encounters &#150; African and anthropological lessons towards a philosophy of interculturality</i>. M&uuml;nster: Lit.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000152&pid=S1645-3794201100020000400001&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>  	    <!-- ref --><p>Clarence&#45;Smith, G. (1990 &#91;1985&#93;). <i>O terceiro imp&eacute;rio portugu&ecirc;s (1825&#45;1975)</i>. Lisboa: Teorema.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000154&pid=S1645-3794201100020000400002&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>  	    <!-- ref --><p>Dijk, R. van, Reis, R., &amp; Spierenburg, M. (Eds.) (2000). <i>The quest for fruition through Ngoma</i>. Oxford: James Currey.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000156&pid=S1645-3794201100020000400003&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>  	    <!-- ref --><p>Earthy, E. D. (1933). <i>Valenge women</i>. Londres: Oxford University Press.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000158&pid=S1645-3794201100020000400004&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>  	    <!-- ref --><p>Eglash, R. (2005). <i>An ethnomathematics comparison of African and Native American divination systems</i>. Acedido em 26 Julho, 2011, de <a href="http://www.ccd.rpi.edu/Eglash/papers/eglash_div_paper.doc" target="_blank">http://www.ccd.rpi.edu/Eglash/papers/eglash_div_paper.doc</a>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000160&pid=S1645-3794201100020000400005&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><!-- ref --><p>Evans&#45;Pritchard, E. E. (1978 &#91;1937&#93;). <i>Bruxaria, or&aacute;culos e magia entre os Azande</i>. Rio de Janeiro: Zahar.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000161&pid=S1645-3794201100020000400006&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>  	    ]]></body>
<body><![CDATA[<!-- ref --><p>Flor&ecirc;ncio, F. (2005). <i>Ao encontro dos Mambos &#150; Autoridades tradicionais vaNdau e Estado em Mo&ccedil;ambique</i>. Lisboa: ICS.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000163&pid=S1645-3794201100020000400007&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>  	    <!-- ref --><p>Geffray, C. (1991). <i>A causa das armas em Mo&ccedil;ambique: Antropologia da guerra contempor&acirc;nea em Mo&ccedil;ambique</i>. Porto: Afrontamento.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000165&pid=S1645-3794201100020000400008&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>  	    <!-- ref --><p>Gramsci, A. (1971). <i>Selections from the prison notebooks</i>. Londres: Lawrence &amp; Wishart.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000167&pid=S1645-3794201100020000400009&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>  	    <!-- ref --><p>Granjo, P. (2004). <i>"Trabalhamos sobre um barril de p&oacute;lvora" &#150; Homens e perigo na refinaria de Sines</i>. Lisboa: ICS.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000169&pid=S1645-3794201100020000400010&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>  	    <!-- ref --><p>Granjo, P. (2005). <i>Lobolo em Maputo &#150; Um velho idioma para novas viv&ecirc;ncias conjugais</i>. Porto: Campo das Letras.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000171&pid=S1645-3794201100020000400011&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>  	    ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Granjo, P. (2005a). It&rsquo;s just the starting engine: The status of spirits and objects in south Mozambican divination. Acedido em 26 Julho, 2011, de <a href="http://www.anthroglobe.ca" target="_blank">http://www.anthroglobe.ca</a></p>  	    <!-- ref --><p>Granjo, P. (2007). Limpeza ritual e reintegra&ccedil;&atilde;o p&oacute;s&#45;guerra em Mo&ccedil;ambique. <i>An&aacute;lise Social</i>, <i>182</i>, pp. 123&#45;144.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000174&pid=S1645-3794201100020000400013&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>  	    <!-- ref --><p>Granjo, P. (2008). Tecnologia industrial e curandeiros: Partilhando pseudo&#45;determinismos. In VVAA, <i>Itiner&aacute;rios. A investiga&ccedil;&atilde;o nos 25 anos do ICS</i> (pp. 353&#45;371). Lisboa, ICS.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000176&pid=S1645-3794201100020000400014&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>  	    <!-- ref --><p>Granjo, P. (2009). <i>Um amor colonial: &Aacute;lvaro e Rosita, Lisboa/Angola/Mo&ccedil;ambique</i>. Chamusca: Cosmos.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000178&pid=S1645-3794201100020000400015&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>  	    <!-- ref --><p>Granjo, P. (2010). Ser curandeiro em Mo&ccedil;ambique: Uma voca&ccedil;&atilde;o imposta? In A. Delicado, V. Borges, &amp; S. Dix (Orgs.), <i>Profiss&atilde;o e voca&ccedil;&atilde;o: Ensaios sobre grupos profissionais</i> (pp. 115&#45; 143). Lisboa, ICS.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000180&pid=S1645-3794201100020000400016&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>  	    <!-- ref --><p>Green, E. C. (1999). <i>Indigenous theories of contagious disease</i>. Walnut Creek: Altamira.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000182&pid=S1645-3794201100020000400017&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>  	    <!-- ref --><p>Honwana, A. (2002). <i>Esp&iacute;ritos vivos, tradi&ccedil;&otilde;es modernas: Possess&atilde;o de esp&iacute;ritos e reintegra&ccedil;&atilde;o social p&oacute;s&#45;guerra no sul de Mo&ccedil;ambique</i>. Maputo: Prom&eacute;dia.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000184&pid=S1645-3794201100020000400018&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>  	    <!-- ref --><p>Janzen, J. M. (1992). <i>Ngoma: Discourses of healing in Central and Southern Africa</i>. Berkeley: University of California Press.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000186&pid=S1645-3794201100020000400019&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>  	    <p>Junod, H. (1897). <i>L&rsquo;art divinatoire</i>. Neuchatel: SGN.</p>  	    <!-- ref --><p>Junod, H. (1996 &#91;1912&#93;). <i>Usos e costumes dos Bantu</i>. Tomo 2. Maputo: Arquivo Hist&oacute;rico de Mo&ccedil;ambique.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000189&pid=S1645-3794201100020000400021&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>  	    <!-- ref --><p>Leach, E. (1961). <i>Rethinking anthropology</i>. Londres: Athlone.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000191&pid=S1645-3794201100020000400022&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>  	    ]]></body>
<body><![CDATA[<!-- ref --><p>Liesegang, G. (1986). <i>Vassalagem ou tratado de amizade? Hist&oacute;ria do acto de vassalagem de Ngungunyane nas rela&ccedil;&otilde;es externas de Gaza</i>. Maputo: Arquivo Hist&oacute;rico de Mo&ccedil;ambique.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000193&pid=S1645-3794201100020000400023&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>  	    <!-- ref --><p>Lorenz, E. (1963). Deterministic nonperiodic flow. <i>Journal of the Atmospheric Sciences</i>, <i>20</i> (2), 130&#45;141.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000195&pid=S1645-3794201100020000400024&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>  	    <!-- ref --><p>Neves, D. F. (1987 &#91;1878&#93;). <i>Das terras do imp&eacute;rio v&aacute;tua &agrave;s pra&ccedil;as da rep&uacute;blica boer</i>. Lisboa: Dom Quixote.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000197&pid=S1645-3794201100020000400025&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>  	    <!-- ref --><p>Peek, P. (Ed.) (1991). <i>African divination systems &#150; Ways of knowing</i>. Indianapolis: Indiana University Press.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000199&pid=S1645-3794201100020000400026&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>  	    <!-- ref --><p>P&eacute;lissier, R. (1994). <i>Hist&oacute;ria de Mo&ccedil;ambique: Forma&ccedil;&atilde;o e oposi&ccedil;&atilde;o 1854&#45;1918</i>. Lisboa: Estampa.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000201&pid=S1645-3794201100020000400027&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>  	    ]]></body>
<body><![CDATA[<!-- ref --><p>Polanah, L. (1987). <i>O Nhamussoro e outras fun&ccedil;&otilde;es m&aacute;gico&#45;religiosas</i>. Coimbra: Instituto de Antropologia da Universidade de Coimbra.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000203&pid=S1645-3794201100020000400028&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>  	    <!-- ref --><p>Silva, S. (2004). <i>Vidas em jogo &#150; Cestas de adivinha&ccedil;&atilde;o e refugiados angolanos na Z&acirc;mbia</i>. Lisboa: ICS.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000205&pid=S1645-3794201100020000400029&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>  	    <!-- ref --><p>Turner, V. (1968). <i>The drums of affliction: A study of religious process among the Ndembu of Zambia</i>. Londres: Oxford University Press.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000207&pid=S1645-3794201100020000400030&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>  	    <!-- ref --><p>Vilhena, M. C. (1996). <i>Gungunhana no seu reino</i>. Lisboa: Colibri.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000209&pid=S1645-3794201100020000400031&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>  	    <!-- ref --><p>Webster, D. (2009). <i>A sociedade chope: Indiv&iacute;duo e alian&ccedil;a no sul de Mo&ccedil;ambique 1969&#45;1976</i>. Lisboa: ICS.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000211&pid=S1645-3794201100020000400032&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>  	    ]]></body>
<body><![CDATA[<!-- ref --><p>West, H. (2006). Working the borders to beneficial effect: The not&#45;so&#45;indigenous knowledge of the not&#45;so&#45;traditional healers in Northern Mozambique. In T. J. Luedke, &amp; H.G. West (Eds.), <i>Borders and healers &#150; Brokering therapeutic resources in Southeast Africa</i>. Indianapolis: Indiana University Press.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000213&pid=S1645-3794201100020000400033&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>  	    <!-- ref --><p>West, H. (2008). "Governem&#45;se voc&ecirc;s mesmos!" Democracia e carnificina no norte de Mo&ccedil;ambique. <i>An&aacute;lise Social</i>, <i>187</i>, pp. 347&#45;367.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000215&pid=S1645-3794201100020000400034&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>  	    <!-- ref --><p>Westerlund, D. (2000). Spiritual agents of illness. In J. K. Olupona (Ed.), <i>African spirituality: Forms, meanings and expressions</i> (pp. 152&#45;175). Nova Iorque: Crossroad.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000217&pid=S1645-3794201100020000400035&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>  	    <!-- ref --><p>Whyte, S. R. (1997). <i>Questioning misfortune: The pragmatics of uncertainty in Eastern Uganda</i>. Cambridge University Press.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000219&pid=S1645-3794201100020000400036&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p> 	    <p>&nbsp;</p> 	    <p><i>Recebido 21 de Outubro de 2011; Aceite para publica&ccedil;&atilde;o 11 de Novembro de 2011</i></p> 	    ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p> 	    <p><b>Notas</b></p> 	    <p><sup><a name="1"></a><a href="#top1">1</a></sup> O presente artigo resulta do projecto de pesquisa "Nyangas e Hospitais: Conceitos e pr&aacute;ticas terap&ecirc;uticas em Mo&ccedil;ambique", financiado pela Funda&ccedil;&atilde;o para a Ci&ecirc;ncia e a Tecnologia. Estou imensamente grato a Ron Eglash, que suscitou o meu interesse pelo tema do "caos determin&iacute;stico" &#150; cujo significado preciso, tal como o de "domestica&ccedil;&atilde;o da incerteza", adiante exporei &#150; atrav&eacute;s da sua comunica&ccedil;&atilde;o &agrave; confer&ecirc;ncia <i>Realities Re&#45;viewed/Revealed: Divination on South&#45;Saharan Africa</i> (Eglash, 2005) e teve a amabilidade de comentar o manuscrito original. Igualmente agrade&ccedil;o essa leitura cr&iacute;tica aos colegas Maria Jos&eacute; Arthur, Cristiana Bastos, Rafael da Concei&ccedil;&atilde;o, Ana Loforte e Philip Peek.</p> 	    <p><sup><a name="2"></a><a href="#top2">2</a></sup> Para um exemplo dessa situa&ccedil;&atilde;o, veja&#45;se Silva (2004).</p> 	    <p><sup><a name="3"></a><a href="#top3">3</a></sup> Para uma apresenta&ccedil;&atilde;o mais aprofundada deste assunto e das met&aacute;foras referidas, veja&#45;se Granjo (2005a). A base emp&iacute;rica para o presente artigo prov&eacute;m de conversas com cerca de 30 m&eacute;dicos tradicionais das prov&iacute;ncias de Maputo e Gaza e na capital do pa&iacute;s &#150; de onde foram transcritas as cita&ccedil;&otilde;es que apresento ao longo do artigo, na grande maioria dos casos obtidas em portugu&ecirc;s &#150; e da observa&ccedil;&atilde;o de sess&otilde;es de adivinha&ccedil;&atilde;o realizadas entre 2004 e 2010. Desejo agradecer a todas essas pessoas a sua disponibilidade e confian&ccedil;a, com destaque particular para Job Massingue, Maria Macuacua e Pedro Cossa.</p> 	    <p><sup><a name="4"></a><a href="#top4">4</a></sup> O <i>tchova</i> &eacute; o objecto que surge no lado esquerdo da <a href="#f9">fig. 9</a><a name="topf9"></a>. Quanto &agrave; equipara&ccedil;&atilde;o do <i>tinhlolo</i> a um estetosc&oacute;pio, veja&#45;se a sec&ccedil;&atilde;o final do presente artigo.</p> 	    <p><sup><a name="5"></a><a href="#top5">5</a></sup> Na linguagem corrente em Maputo e Gaza, <i>nyanga</i> (plural <i>tinyanga</i>) &eacute; a designa&ccedil;&atilde;o geral para os adivinhos&#45;curandeiros, independentemente das suas especialidades espec&iacute;ficas &#150; tamb&eacute;m elas objecto de designa&ccedil;&otilde;es particulares.</p> 	    <p><sup><a name="6"></a><a href="#top6">6</a></sup> Acerca do ascenso, pol&iacute;tica de assimila&ccedil;&atilde;o e queda do imp&eacute;rio de Gaza, resultante dessa invas&atilde;o, veja&#45;se por exemplo Neves &#91;1987 (1878)&#93;, Clarence&#45;Smith &#91;1990 (1985)&#93;, Liesegang (1986), P&eacute;lissier (1994) e Vilhena (1996). Para <i>Nguni</i> e <i>Ndau</i>, o plural &eacute; obtido atrav&eacute;s do prefixo <i>va&#45;</i>.</p> 	    <p><sup><a name="7"></a><a href="#top7">7</a></sup> Conforme Junod (1996) sublinhou e a maior parte dos mo&ccedil;ambicanos bem sabe, o canhoeiro &eacute; uma das &aacute;rvores que pode servir de abrigo aos antepassados, sendo produzida com os seus frutos uma cerveja para consumo comunit&aacute;rio que &eacute; muito apreciada; preferiu contudo omitir que tanto o apre&ccedil;o quanto o consumo colectivo est&atilde;o ligados ao poder afrodis&iacute;aco atribu&iacute;do &agrave; bebida.</p> 	    <p><sup><a name="8"></a><a href="#top8">8</a></sup> <i>Lobolo</i> (ou <i>lovolo</i>) designa uma forma de casamento "tradicional" em que a fam&iacute;lia do noivo compensa a da noiva pela perda dos filhos e posteriores descendentes que resultem da uni&atilde;o (em virtude dos princ&iacute;pios de descend&ecirc;ncia patrilinear), designando tamb&eacute;m a pr&oacute;pria cerim&oacute;nia e os bens que s&atilde;o nela transmitidos.</p> 	    ]]></body>
<body><![CDATA[<p><sup><a name="9"></a><a href="#top9">9</a></sup> Para uma discuss&atilde;o do processo de chamamento, veja&#45;se Granjo (2010).</p> 	    <p><sup><a name="10"></a><a href="#top10">10</a></sup> S&atilde;o atribu&iacute;das aos esp&iacute;ritos caracter&iacute;sticas semelhantes &agrave;s de pessoas vivas "tradicionalistas". Considerar&atilde;o por isso que os locais/pessoas demasiado cheios de semelhantes seus potenciam conflitos, tendendo nesse caso a "dividir a aldeia" entre duas gera&ccedil;&otilde;es subsequentes, em vez de esperar pela morte do(a) <i>nyanga</i> para possuir algu&eacute;m da gera&ccedil;&atilde;o dos seus netos.</p> 	    <p><sup><a name="11"></a><a href="#top11">11</a></sup> Nalguns casos &#150; pontualmente registados em livros (Polanah, 1987) &#150; &eacute; poss&iacute;vel negociar com os esp&iacute;ritos que outra pessoa concorde em ser possu&iacute;da e, consequentemente, se torne <i>nyanga</i>. Tal s&oacute; &eacute;, no entanto, considerado vi&aacute;vel quando os esp&iacute;ritos se manifestam pela primeira vez numa fam&iacute;lia.</p> 	    <p><sup><a name="12"></a><a href="#top12">12</a></sup> Embora consensual, a classifica&ccedil;&atilde;o referida n&atilde;o exclui outras integra&ccedil;&otilde;es excepcionais. Por exemplo, conhe&ccedil;o dois <i>tinyanga</i> que afirmam ser possu&iacute;dos, para al&eacute;m de todos os restantes, pelos esp&iacute;ritos de homens de origem luso&#45;indiana sem quaisquer rela&ccedil;&otilde;es de parentesco com a sua fam&iacute;lia. Eu pr&oacute;prio fui diagnosticado como um futuro esp&iacute;rito, ap&oacute;s a minha morte, embora seja classificado como um europeu sem liga&ccedil;&otilde;es familiares a &Aacute;frica.</p> 	    <p><sup><a name="13"></a><a href="#top13">13</a></sup> Este tipo de classifica&ccedil;&atilde;o foi recuperado e enfatizado durante a longa guerra civil que terminou em 1992 e, desde ent&atilde;o, volta a ser manipulada em reclama&ccedil;&otilde;es regionalistas, que chegam a utilizar a express&atilde;o "colonialismo zulu" (Flor&ecirc;ncio, 2005). Note&#45;se tamb&eacute;m que a guerra civil &eacute; por vezes referida como "a guerra dos esp&iacute;ritos", em paralelo com as an&aacute;lises de Geffray (1991). Tamb&eacute;m os portugueses tendem a ser considerados esp&iacute;ritos fortes, numa explica&ccedil;&atilde;o impl&iacute;cita mas directa da derrota de Gungunhana e do subsequente dom&iacute;nio colonial.</p> 	    <p><sup><a name="14"></a><a href="#top14">14</a></sup> Devido &agrave; realiza&ccedil;&atilde;o de rituais de limpeza (Granjo, 2007), o &uacute;ltimo tipo de exig&ecirc;ncia n&atilde;o deveria ocorrer durante a vida de quem matou em situa&ccedil;&atilde;o de guerra. Por essa raz&atilde;o, &eacute; muito frequente que os <i>tinyanga</i> estejam genuinamente preocupados com uma "epidemia" de possess&otilde;es durante a pr&oacute;xima gera&ccedil;&atilde;o, quando os soldados sobreviventes da guerra civil come&ccedil;arem a morrer.</p> 	    <p><sup><a name="15"></a><a href="#top15">15</a></sup> <i>Tinyanga</i> e clientes podem ser homens ou mulheres. Passarei contudo a utilizar apenas a forma masculina (correspondente &agrave;s fotos da consulta que ilustram este artigo, realizada por Job Massingue em 2005), de forma a evitar sistem&aacute;ticas duplica&ccedil;&otilde;es de g&eacute;nero, como as presentes neste par&aacute;grafo.</p> 	    <p><sup><a name="16"></a><a href="#top16">16</a></sup> <i>Capulanas</i> s&atilde;o panos coloridos que se enrolam &agrave; cintura, ou se amarram para transportar beb&eacute;s &agrave;s costas. Quando est&aacute; a trabalhar, o <i>nyanga</i> usa <i>capulanas</i> com cores e desenhos espec&iacute;ficos de acordo com as origens "&eacute;tnicas" dos esp&iacute;ritos que o possuem, por regra uma diferente para cada um deles.</p> 	    <p><sup><a name="17"></a><a href="#top17">17</a></sup> O cliente foi pouco depois repreendido por manter os p&eacute;s nesta posi&ccedil;&atilde;o, que se cr&ecirc; "amarra" &#91;bloqueia&#93; a consulta.</p> 	    <p><sup><a name="18"></a><a href="#top18">18</a></sup> Como nessas ocasi&otilde;es &eacute; socialmente esperado que o <i>nyanga</i> em seguida pergunte "O que disse? O que aconteceu?", alguns deles reconhecem simular essa aus&ecirc;ncia de consci&ecirc;ncia, embora digam que, se a sua percep&ccedil;&atilde;o sensorial se altera, tal n&atilde;o evita que mantenham uma no&ccedil;&atilde;o b&aacute;sica daquilo que se est&aacute; a passar &agrave; sua volta.</p> 	    ]]></body>
<body><![CDATA[<p><sup><a name="19"></a><a href="#top19">19</a></sup> Em si mesma, a bolsa n&atilde;o &eacute; objecto de qualquer regra ou preocupa&ccedil;&atilde;o particular. &Eacute; apenas uma vulgar bolsa <i>sipatsi</i> trazida do mercado, como qualquer outra pessoa poder&aacute; comprar para outros fins &#150; e, se as bolsas apresentam por vezes complexos padr&otilde;es coloridos, a escolha &eacute; meramente est&eacute;tica. Nem sequer &eacute; obrigat&oacute;rio, ou portador de algum sentido especial, o material com que a bolsa &eacute; feita. Conforme me referia um <i>nyanga</i>,"Compramos o que existe &agrave; venda. Hoje em dia &eacute; feita de palha, mas o meu av&ocirc; fez a bolsa dele em pele de vaca".</p> 	    <p><sup><a name="20"></a><a href="#top20">20</a></sup> O que leva a uma concep&ccedil;&atilde;o da amea&ccedil;a de acidentes como sendo "perigo", ou seja, como algo totalmente imprevis&iacute;vel e inesperado no espa&ccedil;o e no tempo, devido &agrave; sua aleatoriedade e &agrave; complexidade dos factores envolvidos.</p> 	    <p><sup><a name="21"></a><a href="#top21">21</a></sup> Um exemplo cl&aacute;ssico &eacute; a equa&ccedil;&atilde;o Pn+1 = R*Pn (1&#45; Pn), em que P representa uma popula&ccedil;&atilde;o de coelhos e R a sua taxa geral de reprodu&ccedil;&atilde;o, quando R &gt; 3,56 (cf. Eglash, 2005).</p> 	    <p><sup><a name="22"></a><a href="#top22">22</a></sup> Veja&#45;se, a esse respeito, Peek (1991), Janzen (1992), Dijk <i>et al</i>. (2000), Westerlund (2000) e Binsbergen (2003). Quanto &agrave; gest&atilde;o pragm&aacute;tica dos infort&uacute;nios e suas poss&iacute;veis causas, veja&#45;se Whyte (1997).</p> 	    <p><sup><a name="23"></a><a href="#top23">23</a></sup> Tamb&eacute;m a sa&uacute;de &eacute; considerada o estado normal dos indiv&iacute;duos, mas um estado que exige harmonia entre os vivos, o seu ambiente social e ecol&oacute;gico, e os antepassados (Honwana, 2002). Tamb&eacute;m ela &eacute; amea&ccedil;ada pela falta de cuidado, pela feiti&ccedil;aria dos vivos e pelo desagrado dos antepassados, neste caso a par dos perigos ecol&oacute;gicos e das exig&ecirc;ncias de esp&iacute;ritos para "trabalhar". Mesmo se &eacute; reconhecida a exist&ecirc;ncia de "doen&ccedil;as de hospital" e se as teorias locais acerca da etiologia das doen&ccedil;as s&atilde;o muitas vezes paralelas &agrave;s acad&eacute;micas (Green, 1999), uma manifesta&ccedil;&atilde;o f&iacute;sica de doen&ccedil;a pressup&otilde;e causas sociais. Consequentemente, n&atilde;o basta tratar a doen&ccedil;a; &eacute; tamb&eacute;m necess&aacute;rio restaurar o equil&iacute;brio social e a harmonia com os antepassados, ou o problema voltar&aacute; a aparecer porque a sua causa &uacute;ltima n&atilde;o foi resolvida.</p> 	    <p><sup><a name="24"></a><a href="#top24">24</a></sup> Isso faria com que estiv&eacute;ssemos perante um processo "complicado" em vez de "complexo", seguindo uma din&acirc;mica "aleat&oacute;ria", e n&atilde;o de caos determin&iacute;stico.</p> 	    <p><sup><a name="25"></a><a href="#top25">25</a></sup> Uso "hegemonia" em ambos os sentidos, utilizados por Gramsci (1971), de dom&iacute;nio de um grupo atrav&eacute;s do convencimento dos subalternos por meios ideol&oacute;gicos, e de aceita&ccedil;&atilde;o e parcial integra&ccedil;&atilde;o da ideologia dominante por parte dos subalternos.</p> 	    <p><sup><a name="26"></a><a href="#top26">26</a></sup> Embora v&aacute;rios dos <i>tinyanga</i> que conhe&ccedil;o sejam sobretudo procurados para a resolu&ccedil;&atilde;o de problemas espec&iacute;ficos nos quais s&atilde;o considerados especialistas, um levantamento informal indica que os homens pretendem maioritariamente arranjar emprego, resolver problemas profissionais, ultrapassar impot&ecirc;ncia sexual ou atrair namoradas, enquanto as mulheres consultam curandeiros sobretudo por problemas familiares, para superar infertilidade ou para "amarrar" os maridos. Os problemas de sa&uacute;de n&atilde;o reprodutiva s&atilde;o, em contexto urbano e periurbano, uma raz&atilde;o menos frequente para consultar <i>tinyanga</i> &#150; com excep&ccedil;&atilde;o das doen&ccedil;as consideradas da sua particular especialidade, como por exemplo a asma, a epilepsia ou as aftas.</p> 	    <p>&nbsp;</p> 	    <p><b><a name="a0"></a><a href="#topa0">ANEXO</a></b></p> 	    ]]></body>
<body><![CDATA[<p><i>Algumas varia&ccedil;&otilde;es na composi&ccedil;&atilde;o do tinhlolo</i></p> 	    <p>&nbsp;</p> 	<a name="topf8"></a> 	    <p><img src="/img/revistas/cea/n22/n22a04f8.jpg"></p> 	    
<p><a href="#f8">Figura 8</a>: <i>Tinhlolo</i> de Pedro Cossa, Marracuene, 2008</p> 	    <p>&nbsp;</p> 	    <p>Uma pedra bicolor substitui v&aacute;rias pe&ccedil;as existentes nos conjuntos de colegas e pe&ccedil;as de liga&ccedil;&atilde;o el&eacute;ctrica constituem uma inclus&atilde;o &uacute;nica</p> 	    <p>&nbsp;</p> 	<a name="f9"></a> 	    <p><img src="/img/revistas/cea/n22/n22a04f9.jpg"></p> 	    
<p><a href="#topf9">Figura 9</a>: <i>Tinhlolo</i> de Dona Isaura, Matola, 2009</p> 	    <p>&nbsp;</p> 	    ]]></body>
<body><![CDATA[<p>As conchas pontiagudas e as pe&ccedil;as representativas da casa e da sa&uacute;de, embora n&atilde;o exclusivas, s&atilde;o diferentes das dos <i>tinhlolo</i> mais habituais. A grande semente em primeiro plano tem uma utiliza&ccedil;&atilde;o diferente da corrente, estando ligada a uma das especialidades desta <i>nyanga</i></p> 	    <p>&nbsp;</p> 		    <p><img src="/img/revistas/cea/n22/n22a04f10.jpg"></p> 	    
<p><a href="#f8">Figura 10</a>: <i>Tinhlolo</i> de Francisco Manguleque, Maputo, 2009</p> 	    <p>&nbsp;</p> 	    <p>Apresenta decora&ccedil;&atilde;o &uacute;nica e um n&uacute;mero reduzido de pe&ccedil;as, desempenhando v&aacute;rias delas diferentes fun&ccedil;&otilde;es. As pe&ccedil;as representativas da casa e o isolador de cabos de m&eacute;dia tens&atilde;o s&atilde;o, ao que sei, &uacute;nicas</p> 	    <p>&nbsp;</p> 		    <p><img src="/img/revistas/cea/n22/n22a04f11.jpg"></p> 	    
<p><a href="#f8">Figura 11</a>: <i>Tinhlolo</i> de Maria Macu&aacute;cua, Maputo, 2006</p> 	    <p>&nbsp;</p> 	    ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Embora pr&oacute;ximo do modelo estandardizado, inclui dados numa fun&ccedil;&atilde;o imprescind&iacute;vel. Em 2008, a "concha&#45;m&atilde;e" foi substitu&iacute;da por outra da mesma esp&eacute;cie, decorada na forma de galinha&#45;do&#45;mato, que o autor lhe havia oferecido como <i>bibelot</i> (Fotografia de Cristiana Bastos)</p>      ]]></body><back>
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<surname><![CDATA[Binsbergen]]></surname>
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<source><![CDATA[Intercultural encounters: African and anthropological lessons towards a philosophy of interculturality]]></source>
<year>2003</year>
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<surname><![CDATA[Clarence-Smith]]></surname>
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<source><![CDATA[O terceiro império português (1825-1975)]]></source>
<year>1990</year>
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<surname><![CDATA[Dijk]]></surname>
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<source><![CDATA[The quest for fruition through Ngoma]]></source>
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<surname><![CDATA[Earthy]]></surname>
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<source><![CDATA[An ethnomathematics comparison of African and Native American divination systems]]></source>
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<surname><![CDATA[Florêncio]]></surname>
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