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<article-title xml:lang="pt"><![CDATA[Construção e Desconstrução da Relação entre Migrações Forçadas e Desafios de Segurança em África]]></article-title>
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<abstract abstract-type="short" xml:lang="en"><p><![CDATA[The debate on transnational challenges to security is framed within the context of the blurring of the traditional concept of state, centred on a territory delimited by borders and with a monopoly of legitimate physical violence. In the African context the debate is guided by two important dimensions: political will and the capacity of the state to protect its citizens. This article suggests that at least the political will dimension is largely constrained by the interpretation of the state on issues of citizenship, in a context where ethnicity is a structuring element of relations and belongings much more powerful than that of citizenship and encompasses the transnational dimension of such relations. Therefore, it is argued that forced migrations should be framed within a societal context, focusing on the role of local populations and local contexts of violence and peace as well as the regional dynamics of integration or rejection of those who flee. In this process it is important to understand the way in which forced migrations are framed as a cause or consequence of insecurity.]]></p></abstract>
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</front><body><![CDATA[ <p><b>Constru&ccedil;&atilde;o e Desconstru&ccedil;&atilde;o da Rela&ccedil;&atilde;o entre Migra&ccedil;&otilde;es For&ccedil;adas e Desafios de Seguran&ccedil;a em &Aacute;frica</b></p>  	    <p><b>Raquel Freitas*</b></p>  	    <p>*CIES &#45; Centro de Investiga&ccedil;&atilde;o e Estudos de Sociologia Instituto Universit&aacute;rio de Lisboa (ISCTE&#45;IUL)</p>  	    <p><a href="mailto:raquel.freitas@eui.eu">raquel.freitas@eui.eu</a></p> 	    <p>&nbsp;</p> 	    <p><b>Resumo</b></p>  	    <p>A reflex&atilde;o sobre desafios transnacionais de seguran&ccedil;a enquadra&#45;se num contexto de esbatimento do tradicional conceito de Estado, centrado num territ&oacute;rio delimitado por fronteiras e com o monop&oacute;lio da viol&ecirc;ncia f&iacute;sica leg&iacute;tima. No contexto africano o debate assume duas dimens&otilde;es importantes: vontade pol&iacute;tica e capacidade de o Estado proteger os seus cidad&atilde;os. Este artigo sugere que pelo menos a parte da vontade pol&iacute;tica est&aacute; em grande medida condicionada pelo entendimento do Estado sobre a cidadania, num contexto em que a etnicidade constitui um elemento estruturante de rela&ccedil;&otilde;es e perten&ccedil;as muito mais forte e de natureza transnacional. Da&iacute; que os movimentos de migra&ccedil;&otilde;es for&ccedil;adas devam ser entendidos num contexto societal, ou seja, tendo como enfoque o papel das popula&ccedil;&otilde;es e dos contextos locais de viol&ecirc;ncia e paz e din&acirc;micas regionais no acolhimento ou rejei&ccedil;&atilde;o dos que fogem. Em todo este processo importa perceber a forma como as migra&ccedil;&otilde;es for&ccedil;adas s&atilde;o constru&iacute;das enquanto factor ou consequ&ecirc;ncia da inseguran&ccedil;a.</p>  	    <p>Palavras&#45;chave: migra&ccedil;&otilde;es for&ccedil;adas, seguran&ccedil;a, cidadania, &Aacute;frica Central, Grandes Lagos</p>  	    <p>&nbsp;</p> 	    <p><b>Abstract</b></p> 	    ]]></body>
<body><![CDATA[<p>The debate on transnational challenges to security is framed within the context of the blurring of the traditional concept of state, centred on a territory delimited by borders and with a monopoly of legitimate physical violence. In the African context the debate is guided by two important dimensions: political will and the capacity of the state to protect its citizens. This article suggests that at least the political will dimension is largely constrained by the interpretation of the state on issues of citizenship, in a context where ethnicity is a structuring element of relations and belongings much more powerful than that of citizenship and encompasses the transnational dimension of such relations. Therefore, it is argued that forced migrations should be framed within a societal context, focusing on the role of local populations and local contexts of violence and peace as well as the regional dynamics of integration or rejection of those who flee. In this process it is important to understand the way in which forced migrations are framed as a cause or consequence of insecurity.</p>  	    <p>Keywords: forced migration, security, citizenship, Central Africa, Great Lakes</p>  	    <p>&nbsp;</p>  	    <p>O objecto do presente artigo &eacute; desenvolver uma reflex&atilde;o em torno da liga&ccedil;&atilde;o que cada vez mais frequentemente &eacute; feita entre fen&oacute;menos de natureza transnacional que, sendo independentes, t&ecirc;m fortes implica&ccedil;&otilde;es m&uacute;tuas. O principal ponto comum entre o fen&oacute;meno das migra&ccedil;&otilde;es for&ccedil;adas e as quest&otilde;es transnacionais de seguran&ccedil;a prende&#45;se com a capacidade ou vontade do Estado de exercer fun&ccedil;&otilde;es que s&atilde;o da sua compet&ecirc;ncia. Esta vari&aacute;vel do exerc&iacute;cio de fun&ccedil;&otilde;es por parte do Estado tem implica&ccedil;&otilde;es sobre e &eacute; por sua vez influenciada pelas din&acirc;micas transnacionais de seguran&ccedil;a e pelas migra&ccedil;&otilde;es for&ccedil;adas.</p>  	    <p>As din&acirc;micas transnacionais cada vez mais complexas ao n&iacute;vel pol&iacute;tico, econ&oacute;mico, social, tecnol&oacute;gico, bem como movimenta&ccedil;&otilde;es ilegais como tr&aacute;fico de armas, drogas e redes de subvers&atilde;o da ordem, introduzem um conjunto de factores limitadores dessa capacidade do Estado, designadamente devido &agrave; propens&atilde;o para o cont&aacute;gio de alguns tipos de conflitualidade.</p>  	    <p>&Eacute; legitimo questionar at&eacute; que ponto no contexto africano alguns dos desafios transnacionais percepcionados como emergentes s&atilde;o realmente novos ou mesmo derivados da globaliza&ccedil;&atilde;o, uma vez que desde sempre houve grande interac&ccedil;&atilde;o entre os v&aacute;rios territ&oacute;rios, muitos deles com uma homogeneidade &eacute;tnica e lingu&iacute;stica que foi separada artificialmente com o processo colonial. Ou seja, o pr&oacute;prio Estado talvez nunca se tenha consolidado verdadeiramente no seu sentido cl&aacute;ssico em muitos Estados africanos, que n&atilde;o chegaram a deter o monop&oacute;lio da viol&ecirc;ncia leg&iacute;tima dentro das suas fronteiras nem a plena capacidade de protegerem os seus cidad&atilde;os (Jackson, 1990).</p>  	    <p>No entanto, contraditoriamente, estes Estados viram&#45;se ao longo das &uacute;ltimas d&eacute;cadas do s&eacute;culo XX obrigados a um alargamento da sua responsabilidade pela protec&ccedil;&atilde;o n&atilde;o s&oacute; dos seus cidad&atilde;os mas tamb&eacute;m dos milhares de refugiados que passam as suas fronteiras. Isto confere uma ambival&ecirc;ncia sobretudo quando o Estado n&atilde;o consegue assegurar a protec&ccedil;&atilde;o dos seus pr&oacute;prios cidad&atilde;os. Nestes casos, a etnicidade surge como elemento alternativo &agrave; cidadania e como forma de estrutura&ccedil;&atilde;o de perten&ccedil;as e de rela&ccedil;&otilde;es sociais de acolhimento ou de rejei&ccedil;&atilde;o que t&ecirc;m impacto na pr&oacute;pria forma de recep&ccedil;&atilde;o e integra&ccedil;&atilde;o dos refugiados e outras popula&ccedil;&otilde;es deslocadas, quer a n&iacute;vel dos Estados, quer a n&iacute;vel das comunidades locais. A presen&ccedil;a de refugiados ou outras popula&ccedil;&otilde;es deslocadas provoca altera&ccedil;&otilde;es nas din&acirc;micas locais e perturba&ccedil;&atilde;o da ordem/desordem estabelecida. Isto afecta as din&acirc;micas de seguran&ccedil;a locais mas tamb&eacute;m afecta a pr&oacute;pria seguran&ccedil;a dos refugiados. Os movimentos populacionais s&atilde;o um dos elementos mais ilustrativos das din&acirc;micas transnacionais no continente africano e do grau de interpenetra&ccedil;&atilde;o de identidades que permite o acolhimento de popula&ccedil;&otilde;es nos pa&iacute;ses vizinhos, nos m&uacute;ltiplos casos existentes de conflitos internos e inter&#45;fronteiri&ccedil;os (Newman &amp; Van Selm, 2003). No entanto, os fen&oacute;menos de rejei&ccedil;&atilde;o podem levar ao agravamento de tens&otilde;es.</p>  	    <p>Em si as migra&ccedil;&otilde;es for&ccedil;adas n&atilde;o constituem um desafio de seguran&ccedil;a. Na verdade, ao conceptualizar a ideia de desafio de seguran&ccedil;a, importa identificar qual o objecto da seguran&ccedil;a a que nos referimos. O argumento aqui desenvolvido &eacute; o de que os refugiados s&atilde;o sobretudo v&iacute;timas de desafios quer internos quer transnacionais de seguran&ccedil;a, que t&ecirc;m impactos violentos sobre as suas vidas, quer antes da movimenta&ccedil;&atilde;o, quer durante e mesmo depois de uma solu&ccedil;&atilde;o encontrada, mas s&atilde;o tamb&eacute;m eles pr&oacute;prios actores nos processos que conduzem a maior ou menor seguran&ccedil;a. S&atilde;o popula&ccedil;&otilde;es com perspectivas pr&oacute;prias e n&atilde;o apenas v&iacute;timas, mas nessa medida devem ser tamb&eacute;m consideradas elementos importantes da solu&ccedil;&atilde;o, por exemplo no caso de processos de paz. Para al&eacute;m disso, dada a natureza muitas vezes difusa da "cidadania" em v&aacute;rios dos Estados africanos, &eacute; indispens&aacute;vel uma perspectiva regional na estabiliza&ccedil;&atilde;o de zonas de tens&atilde;o, que n&atilde;o devem ser delimitadas apenas pelas fronteiras formais do Estado, mas pela natureza das din&acirc;micas de inseguran&ccedil;a a n&iacute;vel sub&#45;regional e transnacional.</p>  	    <p>Este artigo explora algumas quest&otilde;es conceptuais ligadas aos desafios transnacionais de seguran&ccedil;a, procurando identificar aspectos comuns que emergem destas duas din&acirc;micas distintas entre seguran&ccedil;a e migra&ccedil;&otilde;es for&ccedil;adas. Para tal debru&ccedil;a&#45;se sobre dois exemplos de casos de fluxos de refugiados e deslocados internos embrenhados em din&acirc;micas transnacionais de seguran&ccedil;a e conflito: a situa&ccedil;&atilde;o na zona norte da &Aacute;frica Central e a problem&aacute;tica nos Grandes Lagos durante e ap&oacute;s o genoc&iacute;dio no Ruanda. As descri&ccedil;&otilde;es de ambos os casos constituem selec&ccedil;&otilde;es da informa&ccedil;&atilde;o dispon&iacute;vel, destinadas a ilustrar a argumenta&ccedil;&atilde;o a ter em conta ao conceptualizar a liga&ccedil;&atilde;o entre migra&ccedil;&otilde;es for&ccedil;adas e desafios transnacionais de seguran&ccedil;a<sup><a href="#1">1</a></sup><a name="top1"></a>.</p>  	    <p><b>Conceptualiza&ccedil;&atilde;o: migra&ccedil;&otilde;es for&ccedil;adas, transnacionalismo e seguran&ccedil;a</b></p>  	    ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Tem havido variadas formas de articula&ccedil;&atilde;o conceptual (e emp&iacute;rica) entre migra&ccedil;&otilde;es for&ccedil;adas e seguran&ccedil;a, quer expl&iacute;cita quer implicitamente (Teitelbaum &amp; Weiner, 1995; Goodwin&#45;Gill, 1999). Uma das dimens&otilde;es mais importantes na literatura que aborda ambas as quest&otilde;es prende&#45;se com a conceptualiza&ccedil;&atilde;o de soberania e a capacidade de o Estado exercer as suas fun&ccedil;&otilde;es de protec&ccedil;&atilde;o dos direitos dos seus cidad&atilde;os face &agrave; necessidade de envolvimento externo em situa&ccedil;&otilde;es em que essas fun&ccedil;&otilde;es n&atilde;o sejam desempenhadas por falta de vontade pol&iacute;tica ou capacidade do Estado (Ignatieff, 2001). Este debate deriva das tens&otilde;es no seio da Escola Brit&acirc;nica de Rela&ccedil;&otilde;es Internacionais relativamente aos fundamentos da interven&ccedil;&atilde;o externa nas fronteiras de um Estado soberano, designadamente a clivagem entre autores como John Vincent que defendem uma concep&ccedil;&atilde;o solidarista de sociedade internacional com deveres de interven&ccedil;&atilde;o para proteger os indiv&iacute;duos enquanto detentores de direitos universais, e autores como Hedley Bull que defendem que s&atilde;o os Estados os detentores de direitos e deveres e que as normas de soberania e n&atilde;o interven&ccedil;&atilde;o s&atilde;o dos poucos princ&iacute;pios em que a sociedade de Estados concorda, sendo a perspectiva pluralista contr&aacute;ria ao intervencionismo (Wheeler, 1992; Wheeler, 2000)<sup><a href="#2">2</a></sup><a name="top2"></a>. Tamb&eacute;m as implica&ccedil;&otilde;es que a natureza transnacional do fen&oacute;meno das migra&ccedil;&otilde;es for&ccedil;adas tem do ponto de vista da seguran&ccedil;a t&ecirc;m sido abordadas extensivamente (Weiner, 1992).</p>  	    <p>Esta sec&ccedil;&atilde;o procura trazer uma breve an&aacute;lise sobre as v&aacute;rias dimens&otilde;es que essa liga&ccedil;&atilde;o tem assumido, mostrando de que forma &eacute; que as implica&ccedil;&otilde;es transnacionais das migra&ccedil;&otilde;es for&ccedil;adas t&ecirc;m impacto sobre a conceptualiza&ccedil;&atilde;o da seguran&ccedil;a do Estado e das popula&ccedil;&otilde;es em &Aacute;frica.</p>  	    <p><b>O conceito de seguran&ccedil;a: do cl&aacute;ssico &agrave; seguran&ccedil;a humana</b></p>  	    <p>O conceito cl&aacute;ssico de seguran&ccedil;a centra&#45;se na protec&ccedil;&atilde;o das fronteiras de um Estado contra amea&ccedil;as externas, sobretudo origin&aacute;rias de outros Estados. Os desafios que se colocam &agrave; seguran&ccedil;a na era das rela&ccedil;&otilde;es internacionais do p&oacute;s&#45;11 de Setembro assumem um car&aacute;cter transnacional, ultrapassando fronteiras e sendo dinamizados por actores governamentais e por actores n&atilde;o estatais. A dilui&ccedil;&atilde;o do papel do Estado enquanto garante da seguran&ccedil;a dos seus cidad&atilde;os levou &agrave; emerg&ecirc;ncia do conceito de seguran&ccedil;a humana, o qual j&aacute; comporta uma dimens&atilde;o transnacional de seguran&ccedil;a. O conceito de seguran&ccedil;a humana permite equacionar estas liga&ccedil;&otilde;es n&atilde;o s&oacute; em termos da amea&ccedil;a que os fluxos descontrolados de popula&ccedil;&otilde;es constituem para um Estado, mas em termos dos seus impactos junto das popula&ccedil;&otilde;es locais, e tamb&eacute;m muito importante, dos impactos que as din&acirc;micas de seguran&ccedil;a e inseguran&ccedil;a transnacionais t&ecirc;m nos pr&oacute;prios refugiados. Ou seja, o conceito de seguran&ccedil;a humana permite&#45;nos ultrapassar muito do estado&#45;centrismo habitual nas an&aacute;lises, tornando as rela&ccedil;&otilde;es entre Estados apenas uma das parcelas de um todo maior.</p>  	    <p>Com o final da Guerra Fria o tradicional conceito de seguran&ccedil;a sofreu uma adapta&ccedil;&atilde;o ao novo contexto internacional. De uma estrutura&ccedil;&atilde;o das rela&ccedil;&otilde;es internacionais assente na din&acirc;mica bipolar passou&#45;se a um sistema unipolar dominado pelos EUA que foi acompanhado por uma outra din&acirc;mica, de crescente interdepend&ecirc;ncia entre os Estados, culminando no que actualmente se entende por globaliza&ccedil;&atilde;o <i>lato sensu</i>, nas suas dimens&otilde;es econ&oacute;mica, financeira, industrial, comercial, tecnol&oacute;gica, mas tamb&eacute;m cultural, pol&iacute;tica, ambiental.</p>  	    <p>Com as din&acirc;micas transnacionais da globaliza&ccedil;&atilde;o surgiram tamb&eacute;m as novas din&acirc;micas de seguran&ccedil;a, j&aacute; n&atilde;o restrita &agrave; querela bipolar, centrada em Estados ou blocos de Estados, mas agora alargada a um conjunto de bens p&uacute;blicos globalizados que podem ser postos em causa por for&ccedil;as n&atilde;o dependentes de um Estado nem control&aacute;veis na esfera exclusiva do Estado. Por seu turno, a crescente interac&ccedil;&atilde;o entre Estados assegurou o desenvolvimento de um sistema internacional regulador de muitas das &aacute;reas em causa, mas a natureza das din&acirc;micas transnacionais fez com que muito escapasse ao controlo dos Estados. Assim, ao passo que a protec&ccedil;&atilde;o das fronteiras do Estado deixou de ser o alvo principal de preocupa&ccedil;&atilde;o, surgiram novas amea&ccedil;as de natureza mais difusa como s&atilde;o as da seguran&ccedil;a econ&oacute;mica, societal, ambiental, etc.</p>  	    <p>O conceito de seguran&ccedil;a humana surge precisamente no in&iacute;cio dos anos 1990, no ocaso da luta bipolar e rapidamente escala na agenda internacional como um conceito apelativo de uma nova ordem mais preocupada com o indiv&iacute;duo e n&atilde;o t&atilde;o centrada nas din&acirc;micas entre Estados. O conceito foi consagrado em 1992 no relat&oacute;rio do Secret&aacute;rio&#45;Geral das Na&ccedil;&otilde;es Unidas (Boutros&#45;Ghali, 1992) que propunha uma abordagem integrativa para a seguran&ccedil;a humana e consolidado no ano seguinte, no Relat&oacute;rio sobre o Desenvolvimento Humano do Programa das Na&ccedil;&otilde;es Unidas para o Desenvolvimento (UNDP, 1993), que apresenta o mote "<i>freedom from fear, freedom from want</i>", ou seja liberdade em rela&ccedil;&atilde;o ao medo e liberdade em rela&ccedil;&atilde;o a necessidades essenciais. Tratou&#45;se tamb&eacute;m de uma tentativa de responder aos problemas que se come&ccedil;avam a tornar incontorn&aacute;veis na agenda internacional, como guerras civis com fortes impactos para as popula&ccedil;&otilde;es civis, em Estados incapazes de garantir seja a seguran&ccedil;a f&iacute;sica ou protec&ccedil;&atilde;o das popula&ccedil;&otilde;es, seja a assist&ecirc;ncia b&aacute;sica de sobreviv&ecirc;ncia.</p>  	    <p>No entanto este conceito, pela sua natureza mais vol&aacute;til, acaba por ser manipul&aacute;vel e aplic&aacute;vel de forma difusa (Freitas, 2002). Assim, existem objec&ccedil;&otilde;es &agrave; sua utiliza&ccedil;&atilde;o precisamente pela indefini&ccedil;&atilde;o do objecto: num contexto em que h&aacute; uma transnacionaliza&ccedil;&atilde;o das amea&ccedil;as, falamos da seguran&ccedil;a humana de quem? O indiv&iacute;duo n&atilde;o passou a ser o detentor central de direitos, nem o Estado deixou de ser o principal ve&iacute;culo que informa a formula&ccedil;&atilde;o de pol&iacute;ticas. O mundo continua a ser constitu&iacute;do por entidades aut&oacute;nomas reguladoras e definidoras dos interesses daqueles que as integram &#150; os cidad&atilde;os &#150; e em certas circunst&acirc;ncias esses interesses s&atilde;o incompat&iacute;veis com direitos universais. Movimentos massivos de popula&ccedil;&otilde;es constituem uma amea&ccedil;a ao <i>statu quo</i> de outras, e vemos o exemplo das reac&ccedil;&otilde;es que a fuga de refugiados do conflito na L&iacute;bia produziram na Europa. Assim, &eacute; mais do que nunca leg&iacute;timo perguntarmo&#45;nos qual &eacute; o objecto referente da seguran&ccedil;a quando falamos de seguran&ccedil;a humana.</p>  	    <p>Um desenvolvimento ulterior desta tend&ecirc;ncia para transnacionalizar a ideia de seguran&ccedil;a, colocando&#45;a na esfera da responsabilidade internacional, &eacute; a chamada R2P (<i>Responsibility to Protect</i>). Este conceito foi consagrado em 2005 pelos Estados membros das Na&ccedil;&otilde;es Unidas (UN General Assembly, 2005). O conceito implica a responsabilidade de a comunidade internacional intervir em situa&ccedil;&otilde;es de genoc&iacute;dio, crimes de guerra, limpeza &eacute;tnica, e crimes contra a humanidade. Isto acontece essencialmente se o Estado n&atilde;o quiser proteger os seus cidad&atilde;os ou for ele pr&oacute;prio agente destas actividades, caso em que se considera leg&iacute;timo ultrapassar a barreira da soberania nacional. A quest&atilde;o coloca&#45;se sobre qual o grau de envolvimento externo que &eacute; considerado adequado e quais os m&eacute;todos a utilizar para assegurar as quest&otilde;es operacionais e coer&ecirc;ncia de mandatos (Bellamy &amp; Williams, 2011). Por outro lado esta agenda tem sido criticada por facilmente ser pass&iacute;vel de manipula&ccedil;&atilde;o segundo os interesses da comunidade internacional, levando a interven&ccedil;&otilde;es selectivas e por vezes parciais: a interven&ccedil;&atilde;o na Costa do Marfim aconteceu em grande parte porque a interven&ccedil;&atilde;o na L&iacute;bia foi justificada com base no argumento da responsabilidade de proteger, o que originou acusa&ccedil;&otilde;es de selectividade (Weiss, 2011).</p>  	    <p>A quest&atilde;o que se coloca em termos da conceptualiza&ccedil;&atilde;o do Estado africano moderno &eacute; at&eacute; que ponto se est&aacute; a transportar a ideia mal consolidada de cidadania da esfera nacional para a esfera internacional sem garantir em nenhuma delas um compromisso permanente e estruturante em rela&ccedil;&atilde;o &agrave;s v&iacute;timas de conflitos. Por outro lado, as estruturas identit&aacute;rias difusas do continente africano contribuem para uma reformula&ccedil;&atilde;o das formas de acolhimento e integra&ccedil;&atilde;o de popula&ccedil;&otilde;es que s&atilde;o for&ccedil;adas a fugir para al&eacute;m das fronteiras do seu pa&iacute;s, que por vezes acabam por assentar mais em identidades &eacute;tnicas transfronteiri&ccedil;as do que no conceito de cidadania tal como o entendemos no seu sentido cl&aacute;ssico. Assim, o pa&iacute;s de origem dos refugiados pode considerar&#45;se menos respons&aacute;vel pela sua protec&ccedil;&atilde;o do que o pa&iacute;s de acolhimento, simplesmente porque a base &eacute;tnica corresponde mais &agrave; configura&ccedil;&atilde;o de um do que do outro. Esta l&oacute;gica aplica&#45;se tamb&eacute;m &agrave;s possibilidades de acolhimento e integra&ccedil;&atilde;o local, por vezes mais abertas a receber popula&ccedil;&otilde;es de pa&iacute;ses vizinhos do que deslocados internos do pr&oacute;prio pa&iacute;s. A quest&atilde;o que predomina &eacute; onde est&aacute; a responsabilidade pela seguran&ccedil;a destas popula&ccedil;&otilde;es, e de que tipo de seguran&ccedil;a estamos a falar?</p>  	    ]]></body>
<body><![CDATA[<p><b>Refugiados como din&acirc;mica transnacional</b></p>  	    <p>A ideia de fronteiras &eacute; central neste debate e torna&#45;se importante revisitar o seu papel no contexto do Estado p&oacute;s&#45;Westef&aacute;lia, ou do Estado nunca verdadeiramente consolidado. Dependendo da vontade pol&iacute;tica ou da capacidade do Estado, em determinadas zonas remotas e estrategicamente pouco importantes, o pr&oacute;prio papel das fronteiras esbate&#45;se e acabam por funcionar tamb&eacute;m elas de forma selectiva.</p>  	    <p>Os movimentos de refugiados s&atilde;o por natureza uma din&acirc;mica transnacional: eles atravessam as fronteiras de um Estado e s&atilde;o acolhidos, ou repelidos, noutros Estados. Por vezes, os refugiados integram&#45;se localmente, outras s&atilde;o reassentados em pa&iacute;ses terceiros e na sua maioria acabam por regressar ao pa&iacute;s de origem. Em princ&iacute;pio o acolhimento de refugiados dever&aacute; ser um facto tempor&aacute;rio at&eacute; ao restabelecimento das condi&ccedil;&otilde;es para o retorno ao seu pa&iacute;s ou zona de origem. No entanto, muitas vezes esse restabelecimento n&atilde;o acontece rapidamente e geram&#45;se contextos em que os refugiados se encontram em situa&ccedil;&otilde;es consideradas tempor&aacute;rias, durante d&eacute;cadas. Durante esse tempo estabelecem&#45;se rela&ccedil;&otilde;es comerciais, sociais, culturais, locais e que tamb&eacute;m atravessam fronteiras, designadamente quando estas s&atilde;o muito porosas, com as comunidades locais e mesmo com as do pa&iacute;s de origem.</p>  	    <p>Para os que permanecem de forma prolongada no ex&iacute;lio o acolhimento pode assumir v&aacute;rias formas: ou s&atilde;o integrados localmente, constituindo esta uma solu&ccedil;&atilde;o permanente, que normalmente &eacute; adoptada apenas em situa&ccedil;&otilde;es especiais; ou s&atilde;o acolhidos em campos de refugiados; ou se integram de forma espont&acirc;nea nas comunidades locais, inclu&iacute;dos noutras categorias de migrantes, sem portanto beneficiarem de qualquer apoio. Cada vez mais a natureza complexa dos fluxos origina movimentos secund&aacute;rios e n&atilde;o enquadrados nos tradicionais padr&otilde;es de solu&ccedil;&otilde;es estabelecidos pelo Alto Comissariado das Na&ccedil;&otilde;es Unidas para os Refugiados (ACNUR) (Crisp, 2011). Por outro lado, existem movimentos for&ccedil;ados que s&atilde;o impelidos n&atilde;o s&oacute; pela situa&ccedil;&atilde;o de viol&ecirc;ncia e persegui&ccedil;&atilde;o mas tamb&eacute;m pela inseguran&ccedil;a econ&oacute;mica, social e ambiental. Alguns desses casos n&atilde;o s&atilde;o contemplados pela comunidade internacional e caem nos fluxos irregulares. A exist&ecirc;ncia de grupos &eacute;tnicos transnacionais est&aacute; fortemente associada a estas din&acirc;micas, ao criarem uma sobreposi&ccedil;&atilde;o entre perten&ccedil;a a um grupo e cidadania e dado que a etnicidade ao transcender fronteiras pol&iacute;ticas e nacionais cria formas de identidade a n&iacute;vel regional por vezes mais fortes do que a n&iacute;vel nacional (Sany &amp; Desai, 2008).</p>  	    <p>Uma especificidade dos movimentos de refugiados &eacute; a sua natureza n&atilde;o estruturada e dificilmente previs&iacute;vel: embora acompanhem as flutua&ccedil;&otilde;es de viol&ecirc;ncia, tais movimentos n&atilde;o s&atilde;o orientados por uma estrat&eacute;gia, embora as respostas da comunidade internacional possam conter elementos de direccionamento ao condicionarem as movimenta&ccedil;&otilde;es e o pr&oacute;prio tipo de solu&ccedil;&atilde;o encontrada. Por exemplo, ao estabelecerem&#45;se as chamadas zonas seguras dentro de um pa&iacute;s fornece&#45;se um ponto de converg&ecirc;ncia da fuga e limita&#45;se a possibilidade de as pessoas fugirem para al&eacute;m das fronteiras do pa&iacute;s nalguns casos por os pa&iacute;ses vizinhos as encerrarem sob o pretexto de existir uma alternativa interna de fuga.</p>  	    <p>Desde cedo que o continente africano possui um enquadramento jur&iacute;dico pr&oacute;prio para lidar com os problemas de refugiados. Trata&#45;se da Conven&ccedil;&atilde;o da Organiza&ccedil;&atilde;o da Unidade Africana (OUA) de 1969 que rege os aspectos espec&iacute;ficos dos problemas dos refugiados em &Aacute;frica. Este instrumento pauta&#45;se por um conceito mais alargado de refugiado que ultrapassa o da Conven&ccedil;&atilde;o de Genebra sobre o Estatuto de Refugiado de 1951, pois contempla para al&eacute;m do elemento de persegui&ccedil;&atilde;o individual, a fuga de conflitos armados e de viola&ccedil;&otilde;es de direitos humanos. O seu pre&acirc;mbulo ilustra bem at&eacute; que ponto os fluxos de refugiados podem constituir uma forma de fric&ccedil;&atilde;o entre os Estados e salienta a preocupa&ccedil;&atilde;o em distinguir entre um refugiado que procura fazer uma vida normal e pac&iacute;fica e uma pessoa que foge do seu pa&iacute;s com o &uacute;nico fim de fomentar a subvers&atilde;o a partir do exterior. No entanto, nas &uacute;ltimas duas d&eacute;cadas aquilo que foi uma tradi&ccedil;&atilde;o africana de acolhimento para com os refugiados dos outros pa&iacute;ses, na sua maioria v&iacute;timas dos processos de descoloniza&ccedil;&atilde;o, come&ccedil;ou&#45;se a esbater, sobretudo com os fluxos massivos a partir dos anos 80 nalguns pa&iacute;ses (Crisp, 2011).</p>  	    <p>No local de acolhimento os refugiados encontram muitas vezes n&atilde;o s&oacute; as popula&ccedil;&otilde;es locais, elas pr&oacute;prias muitas vezes afectadas por outras din&acirc;micas de conflito na zona, mas tamb&eacute;m deslocados internos de outras zonas do pa&iacute;s de acolhimento. Esta realidade gera a conflu&ecirc;ncia de diferentes estatutos de grupos de migrantes for&ccedil;ados e popula&ccedil;&otilde;es locais, tendo a Uni&atilde;o Africana aprovado em 2009 uma Conven&ccedil;&atilde;o para a Protec&ccedil;&atilde;o e Assist&ecirc;ncia dos Deslocados Internos em &Aacute;frica.</p>  	    <p><b>Refugiados como consequ&ecirc;ncia de inseguran&ccedil;a</b></p>  	    <p>A exist&ecirc;ncia de fluxos de refugiados &eacute; um importante indicador da exist&ecirc;ncia de inseguran&ccedil;a num Estado. A inseguran&ccedil;a deriva da incapacidade de protec&ccedil;&atilde;o face a actores n&atilde;o governamentais nacionais ou transfronteiri&ccedil;os infiltrados; ou do pr&oacute;prio Estado de origem, como nos casos de genoc&iacute;dio ou viol&ecirc;ncia &eacute;tnica promovidos pelas for&ccedil;as de seguran&ccedil;a nacionais. No entanto, estes s&atilde;o apenas os aspectos mais aparentes. &Eacute; importante ter em aten&ccedil;&atilde;o quais as causas profundas da inseguran&ccedil;a, que impelem &agrave; fuga, e que muitas vezes t&ecirc;m a sua raiz em din&acirc;micas pol&iacute;ticas complexas que v&ecirc;m do exterior, como por exemplo, grupos rebeldes que contestam o poder no seu pa&iacute;s de origem ou de acolhimento; actividades repressivas das autoridades para conten&ccedil;&atilde;o de movimentos de oposi&ccedil;&atilde;o ao poder; liga&ccedil;&atilde;o ou oposi&ccedil;&atilde;o de tais movimentos com os do pa&iacute;s de origem; influ&ecirc;ncias de pot&ecirc;ncias externas de n&iacute;vel regional ou internacional.</p>  	    <p>No contexto africano a inseguran&ccedil;a tem frequentemente uma liga&ccedil;&atilde;o &agrave; distribui&ccedil;&atilde;o das afinidades &eacute;tnicas, o que implica que popula&ccedil;&otilde;es da mesma etnia em Estados vizinhos tender&atilde;o a acolher os refugiados do mesmo grupo &eacute;tnico. S&atilde;o v&iacute;timas da inseguran&ccedil;a, mas n&atilde;o deixam de ter as suas posi&ccedil;&otilde;es e afilia&ccedil;&atilde;o a determinados grupos. Importa pois introduzir uma distin&ccedil;&atilde;o que pela dificuldade que apresenta raramente &eacute; articulada de forma expl&iacute;cita, quer na literatura, quer nas pr&oacute;prias respostas pol&iacute;ticas que s&atilde;o formuladas. Essa distin&ccedil;&atilde;o situa&#45;se ao n&iacute;vel do relacionamento dos refugiados com o conflito: apenas enquanto v&iacute;timas de persegui&ccedil;&atilde;o, ou com algum tipo de apoio pol&iacute;tico ou com algum tipo de envolvimento directo.</p>  	    ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Estas duas condi&ccedil;&otilde;es agravam&#45;se quando a situa&ccedil;&atilde;o no pa&iacute;s de acolhimento &eacute; igualmente vulner&aacute;vel. Embora os n&iacute;veis de viol&ecirc;ncia e inseguran&ccedil;a n&atilde;o sejam f&aacute;ceis de medir, parece haver um consenso crescente de que os campos de refugiados em &Aacute;frica se est&atilde;o a tornar lugares cada vez mais perigosos (Weiss, 2011). S&atilde;o apontadas duas formas essenciais de vulnerabilidade no asilo: zonas de refugiados podem ser alvo de ataques militares directos por via a&eacute;rea ou terrestre (como veremos que foi o caso no Chade); amea&ccedil;as de seguran&ccedil;a de natureza n&atilde;o militar, diferentes formas de viol&ecirc;ncia, coer&ccedil;&atilde;o, intimida&ccedil;&atilde;o e actividade criminal, designadamente viol&ecirc;ncia sexual e dom&eacute;stica, viola&ccedil;&atilde;o, roubo armado, conscri&ccedil;&atilde;o para for&ccedil;as milicianas, raptos para casamentos for&ccedil;ados, pris&atilde;o arbitr&aacute;ria e castigos levados a cabo por l&iacute;deres comunit&aacute;rios dos refugiados e das for&ccedil;as de seguran&ccedil;a locais, lutas entre diferentes subcl&atilde;s e grupos &eacute;tnicos dentro da comunidade de refugiados; confrontos armados entre refugiados de diferentes nacionalidades (Weiss, 2011). A aus&ecirc;ncia do Estado de direito nestas zonas, designadamente porque muitas vezes s&atilde;o zonas remotas, de acesso muito dif&iacute;cil e n&atilde;o priorit&aacute;rias, para governos centrais de Estados eles pr&oacute;prios fr&aacute;geis e emergentes de situa&ccedil;&otilde;es de instabilidade ou mesmo conflito. Quer no caso da fronteira na &Aacute;frica Central do norte, quer nos Grandes Lagos, os refugiados sofreram o impacto desta situa&ccedil;&atilde;o geo&#45;estrat&eacute;gica.</p>  	    <p><b>Refugiados como desafio &agrave; seguran&ccedil;a</b></p>  	    <p>Como vimos, j&aacute; nos anos 60 havia uma forte preocupa&ccedil;&atilde;o dos pa&iacute;ses africanos com as fric&ccedil;&otilde;es entre Estados que podem surgir com os fluxos de refugiados. A gest&atilde;o dos fluxos e sobretudo a problem&aacute;tica do repatriamento geram interesses opostos entre pa&iacute;s de origem e pa&iacute;s de acolhimento, e isso gera dificuldades no pr&oacute;prio relacionamento diplom&aacute;tico.</p>  	    <p>A natureza dos conflitos contempor&acirc;neos implica que as fronteiras passaram a ter pouca import&acirc;ncia e mesmo os conflitos "locais" deixaram de ser puramente internos (Sany &amp; Desai, 2008). Assim os fluxos de refugiados v&ecirc;m por vezes desestabilizar ainda mais zonas com alguma instabilidade. Por outro lado, os refugiados s&atilde;o eles pr&oacute;prios cada vez mais percepcionados como desafios &agrave; seguran&ccedil;a, sobretudo quando tal imagem interessa aos pa&iacute;ses de acolhimento, como forma de acelerar e for&ccedil;ar repatriamentos. Alguns dos argumentos invocados s&atilde;o:</p>  	    <p>A politiza&ccedil;&atilde;o dos refugiados enquanto no ex&iacute;lio e o seu envolvimento nas din&acirc;micas locais e poder dos grupos &eacute;tnicos junto das estruturas pol&iacute;ticas; a presen&ccedil;a de <i>spoilers</i>, ou seja, elementos efectivamente politizados que utilizam campos ou zonas de refugiados para prosseguirem actividades subversivas. Os impactos dos movimentos de refugiados na seguran&ccedil;a e estabilidade das zonas vizinhas que os acolhem dependem do grau de liga&ccedil;&atilde;o e de envolvimento com o conflito no pa&iacute;s vizinho dos que l&aacute; est&atilde;o. Os impactos de natureza econ&oacute;mica e ambiental s&atilde;o tamb&eacute;m factores de preocupa&ccedil;&atilde;o, sendo que muitas vezes as popula&ccedil;&otilde;es locais j&aacute; vivem confrontadas com fortes limita&ccedil;&otilde;es e pobreza, que s&atilde;o agravadas pela presen&ccedil;a de por vezes milhares de refugiados. Nalgumas situa&ccedil;&otilde;es geram&#45;se mesmo animosidades entre as popula&ccedil;&otilde;es locais e os refugiados porque estes muitas vezes beneficiam de apoios da comunidade internacional dos quais os locais, por vezes igualmente destitu&iacute;dos, n&atilde;o beneficiam.</p>  	    <p>Tudo isto gera tend&ecirc;ncias para o governo do pa&iacute;s de acolhimento procurar promover o repatriamento dos refugiados, muitas vezes sem acautelar que as condi&ccedil;&otilde;es de seguran&ccedil;a e estabilidade no pa&iacute;s de origem tenham de facto regressado &agrave; normalidade, e gerando movimentos subsequentes de fuga. A quest&atilde;o da identidade &eacute;tnica pode ser um factor de atenua&ccedil;&atilde;o ou de agravamento destas tend&ecirc;ncias. Neste sentido, &eacute; importante ter em conta a abordagem regional do problema.</p>  	    <p><b>As respostas aos desafios de seguran&ccedil;a com impacto nos refugiados</b></p>  	    <p>Em termos de respostas aos desafios identificados anteriormente, importa distinguir os elementos condicionantes das respostas dos diferentes elementos envolvidos. Em princ&iacute;pio o pa&iacute;s de acolhimento tem o papel principal na protec&ccedil;&atilde;o dos refugiados que acolhe. No entanto, como vimos, esta responsabilidade pode ser limitada ou pela falta de vontade pol&iacute;tica ou pela incapacidade efectiva de a assumir dada a complexidade das din&acirc;micas e tens&otilde;es nas zonas de acolhimento.</p>  	    <p>Verifica&#45;se ent&atilde;o que, frequentemente, as pr&oacute;prias comunidades locais t&ecirc;m um papel importante no tipo de acolhimento que &eacute; dado aos refugiados e aos deslocados internos, e que depende n&atilde;o s&oacute; das condi&ccedil;&otilde;es de vida dessas popula&ccedil;&otilde;es mas tamb&eacute;m das rela&ccedil;&otilde;es societais, liga&ccedil;&otilde;es &eacute;tnicas e afinidades pol&iacute;ticas entre os migrantes for&ccedil;ados e as popula&ccedil;&otilde;es locais.</p>  	    <p>Dadas as liga&ccedil;&otilde;es transnacionais societais e o seu papel fulcral no acolhimento e no exacerbar ou n&atilde;o de tens&otilde;es, &eacute; importante ter uma perspectiva regional dos contextos. Milner (2009) explora a liga&ccedil;&atilde;o entre as situa&ccedil;&otilde;es de refugiados prolongadas no tempo e inseguran&ccedil;a regional. O autor argumenta que as respostas de <i>peacebuilding</i> adoptaram um entendimento restrito de conflito: a forma como s&atilde;o solucionadas as quest&otilde;es de refugiados a n&iacute;vel regional tem impactos fortes sobre a din&acirc;mica regional de seguran&ccedil;a e o potencial de estabilidade ou instabilidade. Como vimos, os pr&oacute;prios refugiados s&atilde;o elementos do processo; apesar de na sua maioria serem v&iacute;timas do conflito, eles s&atilde;o parte interessada na sua solu&ccedil;&atilde;o e, muitas vezes, possuem informa&ccedil;&atilde;o fulcral sobre as din&acirc;micas no terreno, sobretudo em zonas mais remotas em que, por vezes, subsistem bolsas de confronto que n&atilde;o dependem da liga&ccedil;&atilde;o com o governo ou os principais envolvidos no processo.</p>  	    ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Os refugiados t&ecirc;m tamb&eacute;m constitu&iacute;do justifica&ccedil;&atilde;o para a interven&ccedil;&atilde;o internacional em numerosos casos, assim como mais recentemente para os deslocados internos. A abordagem preventiva visa evitar algumas situa&ccedil;&otilde;es de vulnerabilidade que podem escalar e originar graves fluxos de refugiados (Loescher, 2003). Para al&eacute;m da abordagem preventiva, a comunidade internacional tem intervindo sobretudo por via da ac&ccedil;&atilde;o humanit&aacute;ria, embora mais recentemente se comece a utilizar a for&ccedil;a militar para proteger n&atilde;o s&oacute; a entrega da ajuda humanit&aacute;ria mas tamb&eacute;m com mandatos de protec&ccedil;&atilde;o das v&iacute;timas. Este tipo de resposta tem sido criticado em parte pela selectividade com que tem sido utilizado e em parte pelo efeito perverso que tem ao colocar o sector humanit&aacute;rio sob a esfera de entidades militares, mesmo que das Na&ccedil;&otilde;es Unidas, que sempre s&atilde;o percepcionadas, por alguma das partes em confronto, como estando associadas ao conflito e sendo parte dele.</p>  	    <p>As respostas da comunidade internacional tamb&eacute;m t&ecirc;m sido at&eacute; recentemente muito centradas na diferencia&ccedil;&atilde;o do estatuto das v&iacute;timas, o que em zonas de mistura de conflito interno com conflito em Estados vizinhos se torna dif&iacute;cil de implementar uma vez que confluem para uma zona pessoas com as mesmas necessidades, se bem que por motivos diferentes (por vezes nem t&atilde;o diferentes como isso dada a interpenetra&ccedil;&atilde;o das motiva&ccedil;&otilde;es pol&iacute;ticas, econ&oacute;micas, estrat&eacute;gicas e tecnol&oacute;gicas que confluem na instabilidade de n&iacute;vel regional).</p>  	    <p><b>&Aacute;frica Central do Norte: Sud&atilde;o, Chade, Rep&uacute;blica Centro&#45;Africana (RCA)</b></p>  	    <p>Os pa&iacute;ses que comp&otilde;em esta sub&#45;regi&atilde;o encontram&#45;se ligados por uma zona de fronteira comum onde se t&ecirc;m desenvolvido din&acirc;micas regionais extremamente complexas, que j&aacute; t&ecirc;m sido designadas "tri&acirc;ngulo atormentado" (Giroux, Lanz <i>et al.</i>, 2009). Nesta regi&atilde;o existe uma conflu&ecirc;ncia de grupos distintos de migrantes for&ccedil;ados que resultam de circunst&acirc;ncias diferentes mas s&atilde;o levados a coexistir no mesmo territ&oacute;rio e com as mesmas dificuldades.</p>  	    <p><b>Contexto e ra&iacute;zes do conflito na sua din&acirc;mica transnacional</b></p>  	    <p>Os pa&iacute;ses que integram a &Aacute;frica Central do Norte apresentam um contexto de instabilidade ligada a variados factores, alguns deles de natureza interna e espec&iacute;ficos de cada pa&iacute;s, outros relacionados com as din&acirc;micas transnacionais que se estabelecem ao n&iacute;vel regional. O inter&#45;relacionamento dos conflitos nos tr&ecirc;s pa&iacute;ses produz uma din&acirc;mica particular na fronteira que liga o Darfur, o leste do Chade e a zona nordeste da fronteira da RCA, o chamado "tri&acirc;ngulo atormentado". Os conflitos de cada um acabam por se refor&ccedil;ar mutuamente, estando intrinsecamente ligados (Berg, 2008) n&atilde;o s&oacute; pelas rela&ccedil;&otilde;es entre os seus l&iacute;deres e alian&ccedil;as pol&iacute;ticas mas tamb&eacute;m por interesses regionais e internacionais e ainda pelo fluxo de deslocados e refugiados nas zonas fronteiri&ccedil;as.</p>  	    <p>O epicentro desta din&acirc;mica situa&#45;se entre o Sud&atilde;o e o Chade, sendo que a RCA tem albergado os mais diversos grupos rebeldes quer do Sud&atilde;o, quer do Chade. No Sud&atilde;o existiu um conflito entre o governo e for&ccedil;as rebeldes que lutavam pela independ&ecirc;ncia do Sul, recentemente reconhecida internacionalmente, e persiste um outro conflito na zona do Darfur. A zona do Sul &eacute; dominada pela etnia Zaghawa, organizada no movimento rebelde denominado Movimento da Justi&ccedil;a e Equidade (Justice and Equality Movement &#45; <i>JEM</i>). Muitos refugiados deste conflito encontram&#45;se na zona norte da Rep&uacute;blica Centro&#45;Africana e sobretudo na zona leste do Chade onde a mesma etnia tamb&eacute;m est&aacute; presente a n&iacute;vel local, apesar de minorit&aacute;ria, e det&eacute;m uma forte influ&ecirc;ncia no poder pol&iacute;tico do pa&iacute;s. O presidente Idriss D&eacute;by do Chade &eacute; oriundo do grupo &eacute;tnico Zaghawa e tinha inicialmente a&iacute; a sua base de apoio, a qual se come&ccedil;ou a desvanecer por D&eacute;by n&atilde;o se opor &agrave; pol&iacute;tica do Sud&atilde;o contra aquele grupo &eacute;tnico (Giroux, Lanz <i>et al.</i>, 2009)<sup><a href="#3">3</a></sup><a name="top3"></a>. Este grupo &eacute;tnico &eacute; pois central ao conflito quer no Sud&atilde;o, quer no Chade, apesar de ser um grupo minorit&aacute;rio.</p>  	    <p>Um outro factor importante nesta interliga&ccedil;&atilde;o de conflitualidade e inseguran&ccedil;a &eacute; a natureza porosa e indefinida das fronteiras nesta regi&atilde;o. Desde h&aacute; s&eacute;culos que a regi&atilde;o do Darfur tem sido um ponto de encontro de povos n&oacute;madas e, presentemente, &eacute; composta por uma mistura de grupos &eacute;tnicos que mant&ecirc;m rela&ccedil;&otilde;es econ&oacute;micas e culturais com os parentes que habitam para al&eacute;m das fronteiras. O conceito local de fronteiras &eacute; pois flu&iacute;do, at&eacute; pela configura&ccedil;&atilde;o do territ&oacute;rio, atravessando zonas de deserto que s&atilde;o dif&iacute;ceis de demarcar e de controlar entre os tr&ecirc;s pa&iacute;ses. O estado generalizado de instabilidade nestes pa&iacute;ses, sobretudo nas zonas fronteiri&ccedil;as, torna perme&aacute;vel o tr&aacute;fico de armas ligeiras, da&iacute; que haja um fluxo intenso de armas que atravessam as fronteiras ilegalmente e que a zona esteja tamb&eacute;m dominada por grupos de bandidos que actuam independentemente das for&ccedil;as em conflito, apenas com o objectivo de exercer actividades criminosas. Acresce que a situa&ccedil;&atilde;o descontrolada na zona fronteiri&ccedil;a dificulta em muito a ac&ccedil;&atilde;o das autoridades na protec&ccedil;&atilde;o das popula&ccedil;&otilde;es locais, permitindo a exist&ecirc;ncia de crime e banditismo, que s&atilde;o factores significativos de desestabiliza&ccedil;&atilde;o.</p>  	    <p>Por outro lado, a fronteira existe e as autoridades de cada pa&iacute;s t&ecirc;m que exercer alguma forma de controlo, o que leva a que a fronteira do pa&iacute;s vizinho constitua uma protec&ccedil;&atilde;o para os dissidentes e rebeldes da persegui&ccedil;&atilde;o de que s&atilde;o alvo no seu pa&iacute;s. A zona transfronteiri&ccedil;a transformou&#45;se pois num ref&uacute;gio para grupos rebeldes que por sua vez t&ecirc;m impactos sobre as popula&ccedil;&otilde;es locais e nos migrantes for&ccedil;ados. &Eacute; tamb&eacute;m uma oportunidade de constitu&iacute;rem liga&ccedil;&otilde;es pol&iacute;ticas de alian&ccedil;a, ou de oposi&ccedil;&atilde;o, com outros grupos do pa&iacute;s de acolhimento. Assim, por exemplo, &agrave; medida que o conflito no Sud&atilde;o escalou, a pol&iacute;tica interna no Chade, que j&aacute; sofria os efeitos de tens&atilde;o entre grupos &eacute;tnicos, agravou&#45;se e originou um jogo de alian&ccedil;as pol&iacute;ticas alternadas entre os governos do Chade e do Sud&atilde;o (Tubiana, 2008). Neste jogo pol&iacute;tico de alian&ccedil;as e trai&ccedil;&otilde;es a liga&ccedil;&atilde;o &eacute;tnica dos l&iacute;deres pol&iacute;ticos funcionou como factor determinante nas mudan&ccedil;as de apoios.</p>  	    <p>Grawert (2008) sublinha as din&acirc;micas sub&#45;regionais de conflito que n&atilde;o s&atilde;o explic&aacute;veis apenas pelos efeitos de <i>spill&#45;over</i> dos fluxos de refugiados, ou pelo tr&aacute;fico de armas ou guerrilheiros que atravessam fronteiras nacionais. Existe um conjunto de interesses regionais e internacionais que dificulta ainda mais o entendimento e a pacifica&ccedil;&atilde;o na regi&atilde;o, designadamente a influ&ecirc;ncia pol&iacute;tica das pot&ecirc;ncias regionais (L&iacute;bia e Egipto) e coloniais (Fran&ccedil;a), a cobi&ccedil;a dos recursos naturais (diamantes, petr&oacute;leo) e ainda a luta contra o terrorismo (usada pelos EUA).</p>  	    ]]></body>
<body><![CDATA[<p><b>As migra&ccedil;&otilde;es for&ccedil;adas e a situa&ccedil;&atilde;o de inseguran&ccedil;a no "tri&acirc;ngulo atormentado"</b></p>  	    <p>Em consequ&ecirc;ncia da conflitualidade na zona da &Aacute;frica Central do Norte existiam em 2008 nas zonas fronteiri&ccedil;as cerca de 200.000 refugiados do Darfur no Chade e 150.000 deslocados internos do Chade, acolhidos em 10 campos a 60 quil&oacute;metros da fronteira leste, mais 200.000 deslocados na RCA que procuram protec&ccedil;&atilde;o em rela&ccedil;&atilde;o a bandidos e insurgentes contra o poder do Presidente Boziz&eacute; da RCA (Arteaga, 2008).</p>  	    <p>Muitos destes civis n&atilde;o procuraram refugio junto de organiza&ccedil;&otilde;es de assist&ecirc;ncia humanit&aacute;ria mas simplesmente encontram&#45;se espalhados por &aacute;reas vizinhas das aldeias que habitavam, muitas das quais s&atilde;o incendiadas, ora pelas for&ccedil;as rebeldes, ora pelas autoridades. Na RCA o ataque a civis por parte das for&ccedil;as militares tornou&#45;se uma forma de evitar o confronto directo com os rebeldes, numa pol&iacute;tica de terra queimada (Arteaga, 2008). Esta pol&iacute;tica consiste em ataques contra aldeias, incendiando&#45;as e matando civis indiscriminadamente.</p>  	    <p>O quadro 1 ilustra os n&uacute;meros de refugiados e deslocados dos v&aacute;rios pa&iacute;ses que integram esta zona de conflitualidade. Curiosamente as estat&iacute;sticas do ACNUR n&atilde;o incluem os tr&ecirc;s pa&iacute;ses no mesmo conjunto sub&#45;regional, integrando a RCA na zona da &Aacute;frica Central e Grandes Lagos, enquanto que o Sud&atilde;o e o Chade s&atilde;o integrados na &Aacute;frica Oriental e Corno de &Aacute;frica. Esta gest&atilde;o espartilhada dos dados sobre os fluxos n&atilde;o facilita uma vis&atilde;o integrada da din&acirc;mica sub&#45;regional espec&iacute;fica desta zona.</p>     <p>&nbsp;</p> 	    <p><i>Quadro 1: Migra&ccedil;&otilde;es for&ccedil;adas na &Aacute;frica Central do Norte em 2011</i></p> 	    <p><img src="/img/revistas/cea/n22/n22a07q1.jpg"></p> 	    
<p>&nbsp;</p> 	    <p>Alguns autores apontam os fluxos de refugiados sudaneses para o Chade e a RCA como mais um factor que contribuiu para o processo de regionaliza&ccedil;&atilde;o do conflito (Giroux, Lanz <i>et al.</i>, 2009), juntamente com as alian&ccedil;as entre grupos &eacute;tnicos e elites governamentais, as quais se encontram permanentemente em fluxo. Os fluxos transfronteiri&ccedil;os de refugiados contribu&iacute;ram para agravar as j&aacute; prementes dificuldades sentidas pelas popula&ccedil;&otilde;es locais, muitas delas tamb&eacute;m em dada altura deslocadas, ou acolhendo deslocados dos seus pa&iacute;ses, ao mesmo tempo que afectadas pelos impactos dos conflitos e da falta de lei e ordem (Giroux, Lanz <i>et al.</i>, 2009).</p> 	 	    <p>A RCA acolhe refugiados zaghawa oriundos do Chade e do Sud&atilde;o, grupo &eacute;tnico esse que apoia as for&ccedil;as rebeldes no Sud&atilde;o. &Eacute; importante distinguir os refugiados dos grupos rebeldes e essa distin&ccedil;&atilde;o nem sempre &eacute; f&aacute;cil em situa&ccedil;&otilde;es complexas uma vez que os membros dos grupos rebeldes por vezes pertencem ao mesmo grupo &eacute;tnico que os refugiados, como foi o caso no Chade e no Sud&atilde;o, em que os respectivos presidentes apoiavam os grupos rebeldes do outro e lhes davam protec&ccedil;&atilde;o com bases de suporte no seu territ&oacute;rio (Tubiana, 2008). Por outro lado, este caso mostra como membros de mil&iacute;cias &eacute;tnicas usufruem, por vezes, do estatuto de refugiado e residem no pa&iacute;s vizinho, quando duas etnias sudanesas (Dajo e Masalit) se mobilizaram para responder aos ataques Janjaweed no Chade (Tubiana, 2008).</p>  	    ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Temos assim um contexto complexo onde confluem popula&ccedil;&otilde;es locais fortemente afectadas pelo conflito, com grupos de deslocados quer do Chade, quer da RCA, que coexistem com refugiados de cada um dos pa&iacute;ses nos respectivos territ&oacute;rios. Embora seja importante distinguir os tr&ecirc;s conflitos e suas motiva&ccedil;&otilde;es bem como o tipo de estatuto das popula&ccedil;&otilde;es que confluem nesta zona, &eacute; importante n&atilde;o perder de vista que todas elas t&ecirc;m necessidades comuns e que em contextos t&atilde;o vol&aacute;teis, privilegiar uma delas &eacute; atear um rastilho perigoso. Sobretudo em conflitos regionais &eacute; importante haver um tratamento equitativo. No entanto, a separa&ccedil;&atilde;o dos civis em rela&ccedil;&atilde;o aos grupos armados e aos criminosos &eacute; fulcral (Arteaga, 2008), embora extremamente dif&iacute;cil dada a penetra&ccedil;&atilde;o de grupos rebeldes que desenvolvem ac&ccedil;&otilde;es de guerrilha no territ&oacute;rio alheio.</p>  	    <p><b>Respostas nacionais e internacionais</b></p>  	    <p>Face ao vazio de poder e &agrave; incapacidade de as for&ccedil;as dos respectivos pa&iacute;ses controlarem as fronteiras e protegerem as popula&ccedil;&otilde;es, foram tomadas medidas no &acirc;mbito das Na&ccedil;&otilde;es Unidas, atrav&eacute;s da <i>UN Mission for the Central African Republic and Chad</i> (MINURCAT) e da Uni&atilde;o Europeia, atrav&eacute;s da <i>European Union Force</i> (EUFOR), que procuram dar uma resposta com alguma dimens&atilde;o regional e mandatos destinados a proteger refugiados, deslocados internos e civis em perigo no leste do Chade e no norte da RCA. No entanto ambas iniciativas t&ecirc;m sido alvo de cr&iacute;ticas por n&atilde;o haver uma distin&ccedil;&atilde;o clara de pap&eacute;is e responsabilidades no terreno, pela percep&ccedil;&atilde;o de politiza&ccedil;&atilde;o da EUFOR com objectivos franceses, mas sobretudo por n&atilde;o haver esfor&ccedil;os de natureza pol&iacute;tica e diplom&aacute;tica que abarquem quest&otilde;es mais profundas da instabilidade, como a organiza&ccedil;&atilde;o de negocia&ccedil;&otilde;es de paz verdadeiramente inclusivas, a gest&atilde;o dos conflitos entre propriet&aacute;rios de terras e popula&ccedil;&otilde;es rec&eacute;m&#45;chegadas, e em &uacute;ltima an&aacute;lise quest&otilde;es como o desenvolvimento e a democratiza&ccedil;&atilde;o (Tubiana, 2008).</p>  	    <p>As opera&ccedil;&otilde;es de paz que se estabeleceram na regi&atilde;o tiveram uma dimens&atilde;o transnacional. A EUFOR Chad/CAR foi em parte constitu&iacute;da para assegurar a protec&ccedil;&atilde;o das opera&ccedil;&otilde;es internacionais de pol&iacute;cia e humanit&aacute;rias. A MINURCAT tinha como mandato contribuir para a protec&ccedil;&atilde;o de refugiados, deslocados internos e civis em perigo, facilitando a provis&atilde;o de ajuda humanit&aacute;ria no leste do Chade e RCA central e do norte, e criando as condi&ccedil;&otilde;es para a transi&ccedil;&atilde;o e reconstru&ccedil;&atilde;o nessa zona. No entanto, pode dizer&#45;se que este tipo de miss&otilde;es exerce mais fun&ccedil;&otilde;es de protec&ccedil;&atilde;o do pessoal humanit&aacute;rio e da sua log&iacute;stica do que de protec&ccedil;&atilde;o f&iacute;sica das popula&ccedil;&otilde;es quando atacadas. Tamb&eacute;m exercem uma protec&ccedil;&atilde;o mais direccionada para os refugiados do Darfur, apesar de no mandato a protec&ccedil;&atilde;o se destinar a todos os civis sem distin&ccedil;&atilde;o (Tubiana, 2008).</p>  	    <p>Para al&eacute;m disso o envolvimento pol&iacute;tico das pot&ecirc;ncias europeias, designadamente a <i>Op&eacute;ration Epervier</i>, constitu&iacute;da por for&ccedil;as francesas e os Estados Unidos da Am&eacute;rica, cria a ideia de que estas for&ccedil;as est&atilde;o na verdade a proteger um dos lados com a justifica&ccedil;&atilde;o de que est&atilde;o a proteger os refugiados. Tal interpreta&ccedil;&atilde;o resulta de um comunicado dos grupos rebeldes do Chade em reac&ccedil;&atilde;o &agrave; EUFOR alegando que se destinava a proteger o presidente D&eacute;by, colocando quer o <i>staff</i> humanit&aacute;rio, quer os pr&oacute;prios refugiados em grande risco (Tubiana, 2008). O objectivo da interven&ccedil;&atilde;o internacional nestas circunst&acirc;ncias seria obter o controle dessas zonas habitadas por refugiados e deslocados, o que era dif&iacute;cil sobretudo se os respectivos governos julgassem que a zona constitu&iacute;a um santu&aacute;rio para os rebeldes insurgentes. Assim tornou&#45;se dif&iacute;cil o acesso e sobretudo a protec&ccedil;&atilde;o das popula&ccedil;&otilde;es afectadas.</p>  	    <p>Os acordos de paz que n&atilde;o incluem refugiados ou os grupos que na sua grande parte est&atilde;o na di&aacute;spora criam uma instabilidade de partida na percep&ccedil;&atilde;o dos equil&iacute;brios pol&iacute;ticos. No caso do Sud&atilde;o o acordo de paz com a zona sul do pa&iacute;s gerou a percep&ccedil;&atilde;o junto da elite local do Darfur e da di&aacute;spora do Darfur de que haveria uma concentra&ccedil;&atilde;o de benef&iacute;cios nessa zona, e continua&ccedil;&atilde;o da marginaliza&ccedil;&atilde;o econ&oacute;mica e pol&iacute;tica das outras regi&otilde;es (Grawert, 2008).</p>  	    <p><b>Grandes Lagos: Ruanda, Burundi, RDC, Uganda</b></p>  	    <p>A zona dos Grandes Lagos tem sido bastante estudada por ser uma fonte de instabilidade ligada a din&acirc;micas complexas na regi&atilde;o. Entre elas tem sido invocada a liga&ccedil;&atilde;o do fluxo de refugiados &agrave; raiz do genoc&iacute;dio do Ruanda e tamb&eacute;m ao que aconteceu a seguir ao genoc&iacute;dio, ou seja, a queda do poder do Presidente Mobutu do Zaire e aquilo que &eacute; designado como a primeira guerra continental de &Aacute;frica (Prunier, 2011).</p>  	    <p><b>Contexto e ra&iacute;zes do conflito na sua din&acirc;mica transnacional</b></p>  	    <p>Embora haja algumas quest&otilde;es sobre exactamente que zonas geogr&aacute;ficas ou territ&oacute;rios devem ser considerados no &acirc;mbito do conflito nos Grandes Lagos, &eacute; consensual incluir&#45;se pelo menos os seguintes Estados/zonas como sendo o epicentro do conflito dos Grandes Lagos: Ruanda, Burundi, zona leste do Congo, sudoeste do Uganda (Lemarchand, 2009).</p>  	    ]]></body>
<body><![CDATA[<p>O Ruanda &eacute; composto por dois grupos &eacute;tnicos importantes: os Hutu e os Tutsi. Os equil&iacute;brios de poder entre estes grupos foram afectados pelas pot&ecirc;ncias coloniais, que colocaram o poder pol&iacute;tico na minoria tutsi. A maioria hutu revoltou&#45;se ainda antes da independ&ecirc;ncia em 1962, expulsando milhares de tutsi para o Uganda. A&iacute; os Tutsi formaram a Frente Patri&oacute;tica do Ruanda (FPR) com o objectivo de derrubar o governo do Ruanda de etnia hutu e recrutando militantes de entre os refugiados tutsi no Uganda. Para al&eacute;m disso aliaram&#45;se a for&ccedil;as rebeldes neste pa&iacute;s, que mais tarde chegaram ao poder.</p>  	    <p>A guerra civil no Ruanda estalou de novo em 1990 e um acordo de cessar&#45;fogo foi assinado em 1993, mas a elite ruandesa n&atilde;o estava de acordo e o avi&atilde;o em que seguiam os presidentes do Ruanda e do Burundi foi abatido, abrindo&#45;se de novo as hostilidades. Nesta altura os militares do Ruanda implementaram um plano deliberado de genoc&iacute;dio &agrave; minoria tutsi e aos Hutu moderados, o qual j&aacute; se vinha a desenhar h&aacute; algum tempo com sinais vis&iacute;veis at&eacute; para a comunidade internacional. Isto resultou em entre 500.000 e 1 milh&atilde;o de mortos e 2 milh&otilde;es de refugiados nos pa&iacute;ses vizinhos. A par deste genoc&iacute;dio, a FPR conseguiu impor&#45;se militarmente e reverteu a situa&ccedil;&atilde;o, for&ccedil;ando a fuga da popula&ccedil;&atilde;o hutu, que receava as consequ&ecirc;ncias da ocupa&ccedil;&atilde;o por parte dos Tutsi. Esta fuga incluiu cerca de 50.000 militares do ex&eacute;rcito ruand&ecirc;s para campos de refugiados que permaneceram no ent&atilde;o Zaire.</p>  	    <p>Em 1996 no Zaire, um grupo tutsi de oposi&ccedil;&atilde;o ao governo de Mobutu, <i>Alliance of Democratic Forces for the Liberation of Congo&#45;Zaire</i> (ADFL), apoiado pelo governo do Ruanda e liderado por Laurent Kabila, que inicialmente apenas tinha o objectivo de expulsar os refugiados hutu do leste do Zaire, tomou o poder em Kinshasa, depondo o presidente Mobutu (Mills &amp; Norton, 2002). No entanto logo ap&oacute;s a tomada de poder, Kabila abandonou o seu anterior apoio &agrave; popula&ccedil;&atilde;o tutsi no Zaire e fez pouco para controlar os militantes que ali permaneciam. Em Agosto de 1998, mais de quatro anos ap&oacute;s o genoc&iacute;dio no Ruanda e dos primeiros fluxos de refugiados para o leste do Zaire, desencadeou&#45;se uma nova guerra civil no leste do Zaire, com diferentes grupos rebeldes apoiados pelo Ruanda e Uganda, que continuaram a ser sujeitos a ataques da ent&atilde;o j&aacute; designada Rep&uacute;blica Democr&aacute;tica do Congo (RDC). Eventualmente a maioria dos outros pa&iacute;ses da regi&atilde;o, incluindo o Burundi, Tanz&acirc;nia, Sud&atilde;o, Angola, Nam&iacute;bia, Zimbabwe e Z&acirc;mbia, foram empurrados para o conflito de uma forma ou de outra. Os motivos para a interven&ccedil;&atilde;o incluem o apoio a rebeldes e esfor&ccedil;os para expulsar os militantes que apoiavam Kabila, e conseguir acesso aos vastos dep&oacute;sitos de diamantes na RDC.</p>  	    <p><b>Migra&ccedil;&otilde;es for&ccedil;adas e as din&acirc;micas de inseguran&ccedil;a nos Grandes Lagos</b></p>  	    <p>O conflito no Ruanda e na sub&#45;regi&atilde;o est&atilde;o intimamente ligados &agrave; exist&ecirc;ncia de fluxos de refugiados nos pa&iacute;ses vizinhos na sequ&ecirc;ncia do genoc&iacute;dio, alternadamente das etnias tutsi e hutu, designadamente no que na altura se designava Zaire, actual RDC. Ap&oacute;s o genoc&iacute;dio em 1994, e com a consagra&ccedil;&atilde;o do poder da FPR, havia mais de 2 milh&otilde;es de refugiados hutu na regi&atilde;o; mais de metade ficaram na zona leste do Zaire e os outros espalhados pela Tanz&acirc;nia e o Burundi, que tamb&eacute;m tinha o seu conflito pr&oacute;prio entre Tutsi e Hutu, gerando por sua vez refugiados na regi&atilde;o.</p>  	    <p>Os militares imiscu&iacute;dos nos campos de refugiados hutu no Zaire conseguiram impedir o regresso dos refugiados ao Ruanda atrav&eacute;s da intimida&ccedil;&atilde;o f&iacute;sica, da propaganda sobre a situa&ccedil;&atilde;o no Ruanda, e da influ&ecirc;ncia pol&iacute;tica sobre as popula&ccedil;&otilde;es. Esta perman&ecirc;ncia originou uma crise de seguran&ccedil;a, consolidando os campos como bases para raides de ataques ao Ruanda. Por outro lado o repatriamento era dif&iacute;cil porque n&atilde;o havia certezas sobre a situa&ccedil;&atilde;o de direitos humanos no Ruanda. No entanto os refugiados tamb&eacute;m se encontravam cada vez mais inseguros nos pr&oacute;prios campos, tendo os antigos combatentes tomado conta da distribui&ccedil;&atilde;o de recursos dentro do campo. Dadas as dificuldades e o custo material de levar a cabo a separa&ccedil;&atilde;o destes antigos combatentes do resto da popula&ccedil;&atilde;o, o Zaire, que era o pa&iacute;s de acolhimento dos refugiados, e o Conselho de Seguran&ccedil;a das Na&ccedil;&otilde;es Unidas (CSNU) n&atilde;o investiram na solu&ccedil;&atilde;o e deixaram a seguran&ccedil;a dos refugiados a cargo do ACNUR, que acabou por contratar tropas do Zaire para exercer a protec&ccedil;&atilde;o nos campos. A solu&ccedil;&atilde;o acabou por ser um repatriamento for&ccedil;ado implementado pelas tropas do Zaire. Os refugiados no Burundi encontravam&#45;se na mesma situa&ccedil;&atilde;o.</p>  	    <p>Em 1996 a situa&ccedil;&atilde;o no Zaire acabou por se alastrar &agrave; popula&ccedil;&atilde;o local devido &agrave; infiltra&ccedil;&atilde;o dos militantes hutu e aos crescentes confrontos entre a popula&ccedil;&atilde;o local e os refugiados, gerando mais press&atilde;o para o seu retorno. Isto culminou numa guerra civil na zona leste do Zaire devido a tentativas do governo de expulsar 400.000 tutsi locais, hostis &agrave;s for&ccedil;as de Mobutu, apoiadas pelo Ruanda e Uganda, que queriam acabar com as infiltra&ccedil;&otilde;es nos campos. Estas for&ccedil;as atacaram os campos de refugiados, que viam como sendo as bases do inimigo na zona de Goma, for&ccedil;ando o retorno ao Ruanda de 600.00 refugiados e a fuga de 200.000 para outras zonas no leste do Zaire. Estes repatriamentos for&ccedil;ados parecem ter dado origem a repatriamentos for&ccedil;ados da Tanz&acirc;nia tamb&eacute;m, em parte devido ao efeito que os refugiados ruandeses tiveram nos recursos nas zonas para onde fugiram (apropriando&#45;se de madeira, colheitas, etc.), gerando alguma instabilidade junto das popula&ccedil;&otilde;es locais. Parte desta instabilidade derivava do facto de os refugiados estarem a receber ajuda, ao contr&aacute;rio das popula&ccedil;&otilde;es locais que estavam igualmente carenciadas e sofriam os impactos do acolhimento. O receio de criar mais obriga&ccedil;&otilde;es para o governo da Tanz&acirc;nia e gastos com categoriza&ccedil;&atilde;o de refugiados e separa&ccedil;&atilde;o dos militares e civis levou sistematicamente a que nada fosse feito para essa distin&ccedil;&atilde;o, mantendo e agravando a situa&ccedil;&atilde;o de inseguran&ccedil;a.</p>  	    <p>Como notam Rubin, Armstrong e outros (2001), os refugiados e migrantes do Ruanda no Uganda apoiavam e treinavam com o Movimento de Resist&ecirc;ncia Nacional (MRN) de Museveni, sendo o activismo pol&iacute;tico e militar de esperar quando os refugiados n&atilde;o s&atilde;o bem&#45;vindos no pa&iacute;s de acolhimento nem no de origem.</p>  	    <p>Alguns autores consideram que fluxos massivos de refugiados, como foi o caso do Ruanda, podem constituir uma amea&ccedil;a de seguran&ccedil;a, n&atilde;o s&oacute; &agrave; seguran&ccedil;a individual dos refugiados mas tamb&eacute;m &agrave; dos residentes das zonas para onde fogem, &agrave; seguran&ccedil;a comunit&aacute;ria e at&eacute; &agrave; seguran&ccedil;a nacional e internacional. Mills e Norton (2002) defendem que este tipo de fluxos massivos implica uma reconceptualiza&ccedil;&atilde;o da ideia de seguran&ccedil;a. No entanto, trata&#45;se de uma abordagem algo simplista e pouco rigorosa no sentido de que os autores confundem fluxos massivos de refugiados com a presen&ccedil;a de elementos armados imiscu&iacute;dos nas popula&ccedil;&otilde;es refugiadas. Neste caso h&aacute; uma responsabilidade da comunidade internacional em impedir tal presen&ccedil;a, facto que n&atilde;o aconteceu nos campos de refugiados ruandeses no ent&atilde;o Zaire, onde os militares assumiram formas de controlo pol&iacute;tico e militar.</p>  	    <p><b>Respostas nacionais e internacionais</b></p>  	    ]]></body>
<body><![CDATA[<p>O interesse comum dos pa&iacute;ses da regi&atilde;o no repatriamento dos refugiados do Ruanda antes do genoc&iacute;dio implicou um envolvimento muito directo dos presidentes dos pa&iacute;ses vizinhos, designadamente Zaire, Uganda e Burundi nos Acordos de Arusha (1991&#45;1993), o que segundo Rubin, Armstrong <i>et al.</i> (2001) muito contribuiu para influenciar o destino da guerra civil do Ruanda, do genoc&iacute;dio e da transforma&ccedil;&atilde;o do Ruanda sob a &eacute;gide da FPR.</p>  	    <p>Mills e Norton (2002) criticam a resposta da comunidade internacional naquilo que caracteriza como uma crise de seguran&ccedil;a e uma crise humanit&aacute;ria, respondendo apenas &agrave; crise humanit&aacute;ria para criar a impress&atilde;o de uma resposta &agrave; crise de seguran&ccedil;a. A <i>United Nations Assistance Mission to Rwanda</i> (UNAMIR) apresentava limita&ccedil;&otilde;es no mandato e na capacidade de implementar a sua miss&atilde;o embora tivesse a capacidade para estabelecer <i>safe&#45;haven</i> de pequena dimens&atilde;o (14.000 ruandeses). Apesar do sucesso em assegurar o controlo do espa&ccedil;o a&eacute;reo no in&iacute;cio das hostilidades, precisava de mais material e de um refor&ccedil;o das regras de empenhamento, que lhe foram recusadas pelo CSNU apesar dos apelos dos pa&iacute;ses da regi&atilde;o e do Secret&aacute;rio&#45;Geral das Na&ccedil;&otilde;es Unidas (SGNU), sobretudo pelos EUA, cuja posi&ccedil;&atilde;o estava influenciada pela experi&ecirc;ncia da derrota da Som&aacute;lia. Durante este processo recusou&#45;se classificar o que se estava a passar como genoc&iacute;dio e isso levou a alguma passividade da comunidade internacional perante as atrocidades. Acabou por ser a Fran&ccedil;a a intervir, naquilo que se designou <i>Op&eacute;ration Turquoise</i>, mas que foi contestada pela pr&oacute;pria FPR por ser percepcionada como a Fran&ccedil;a tomando o partido do ex&eacute;rcito ruand&ecirc;s, uma vez que havia muitos pol&iacute;ticos pr&oacute;&#45;Hutu em Fran&ccedil;a. Esta quest&atilde;o ilustra como &eacute; complicada a interven&ccedil;&atilde;o para a protec&ccedil;&atilde;o de civis mesmo em situa&ccedil;&otilde;es extremas, devido &agrave; politiza&ccedil;&atilde;o de qualquer esfor&ccedil;o, independentemente das reais raz&otilde;es subjacentes. No <i>safe&#45;haven</i> constitu&iacute;do pela Fran&ccedil;a foram acolhidos cerca de um milh&atilde;o de ruandeses, na sua maioria hutu.</p>  	    <p><b>Conclus&otilde;es</b></p>  	    <p>Da an&aacute;lise dos dois exemplos emergem quatro ideias significativas a ter em conta na concep&ccedil;&atilde;o da liga&ccedil;&atilde;o entre migra&ccedil;&otilde;es for&ccedil;adas e seguran&ccedil;a em contextos transnacionais: por um lado a import&acirc;ncia da exist&ecirc;ncia de estruturas locais institucionais do Estado, que condiciona as din&acirc;micas de seguran&ccedil;a e protec&ccedil;&atilde;o das popula&ccedil;&otilde;es locais; a estrutura&ccedil;&atilde;o de identidades e da no&ccedil;&atilde;o de cidadania entre o Estado e as popula&ccedil;&otilde;es que se encontram no seu territ&oacute;rio; a exist&ecirc;ncia de interesses pol&iacute;ticos e alian&ccedil;as entre elites que atravessam as fronteiras de um Estado; o papel da comunidade internacional nas respostas dadas aos desafios e as implica&ccedil;&otilde;es da interven&ccedil;&atilde;o externa.</p>  	    <p>As migra&ccedil;&otilde;es for&ccedil;adas representam uma din&acirc;mica transnacional que pode implicar um desafio ou uma consequ&ecirc;ncia da inseguran&ccedil;a. Abordar esta quest&atilde;o deve passar por uma aten&ccedil;&atilde;o cuidada &agrave; ideia de cidadania em &Aacute;frica e &agrave; territorialidade do Estado. Ambas est&atilde;o ligadas &agrave; vontade e capacidade do Estado de assegurar a protec&ccedil;&atilde;o dos seus cidad&atilde;os, mas tamb&eacute;m &agrave; forma como as identidades sub&#45;estatais se substituem ao papel do Estado nessa fun&ccedil;&atilde;o, ultrapassando fronteiras.</p>  	    <p>Quer no caso da &Aacute;frica Central do Norte, quer nos Grandes Lagos assistimos a um problema de falta de vontade pol&iacute;tica do Estado de assumir a protec&ccedil;&atilde;o dos seus cidad&atilde;os e de controlar a inseguran&ccedil;a generalizada de que sofrem estes e os restantes migrantes for&ccedil;ados. No primeiro caso, as diversas alian&ccedil;as em luta pelo poder e a conflu&ecirc;ncia de popula&ccedil;&otilde;es diversas levou a um abandono da zona em termos de controlo. No Ruanda, o pr&oacute;prio Estado atrav&eacute;s das for&ccedil;as militares perpetrou o genoc&iacute;dio, e as din&acirc;micas de conflito existentes nos pa&iacute;ses de acolhimento, em particular no ent&atilde;o Zaire, promoveram ainda mais a inseguran&ccedil;a dos refugiados.</p>  	    <p>A par da falta de vontade pol&iacute;tica, quer nacional, quer internacional, para promover a separa&ccedil;&atilde;o dos combatentes e dos civis ruandeses refugiados no Zaire, h&aacute; tamb&eacute;m o problema da falta de capacidade do Estado para efectivamente controlar as zonas fronteiri&ccedil;as, quer pela dificuldade em impor lei e ordem em zonas tomadas por din&acirc;micas de conflitualidade, quer pela dificuldade de acesso a zonas fronteiri&ccedil;as remotas, como &eacute; claramente o caso no "tri&acirc;ngulo atormentado" da &Aacute;frica Central do Norte.</p>  	    <p>Em termos gerais, para assegurar uma efectiva protec&ccedil;&atilde;o dos refugiados &eacute; importante evitar que sejam vistos como fonte de fric&ccedil;&otilde;es e de inseguran&ccedil;a. Para isso &eacute; fundamental que sejam observados os princ&iacute;pios do direito internacional de asilo de forma consistente e previs&iacute;vel. O papel da comunidade internacional &eacute; aqui fundamental. Dada a complexidade dos estatutos das v&aacute;rias popula&ccedil;&otilde;es que podem confluir sobre um mesmo territ&oacute;rio numa mesma altura, &eacute; imperioso assegurar a sua distin&ccedil;&atilde;o em termos do tipo de situa&ccedil;&atilde;o em que se encontram, sem no entanto introduzir formas de discrimina&ccedil;&atilde;o positiva entre grupos civis que desequilibrem ainda mais as j&aacute; prec&aacute;rias situa&ccedil;&otilde;es relativas. &Eacute; fundamental distinguir claramente combatentes dos n&atilde;o combatentes. No entanto nem sempre &eacute; f&aacute;cil diferenciar as popula&ccedil;&otilde;es, em parte por erros da resposta internacional, em parte pela natureza subtil das din&acirc;micas pol&iacute;ticas em contextos de fortes identidades &eacute;tnicas transnacionais ou em contextos de fluxos massivos de refugiados.</p>  	    <p>Tamb&eacute;m a distin&ccedil;&atilde;o entre a dimens&atilde;o de seguran&ccedil;a e a dimens&atilde;o da resposta humanit&aacute;ria deve ser acautelada, sobretudo no que diz respeito &agrave;s respostas internacionais, que se centra nos esfor&ccedil;os de protec&ccedil;&atilde;o da ajuda humanit&aacute;ria mais do que em resolver os problemas de seguran&ccedil;a que afectam as popula&ccedil;&otilde;es locais e as deslocadas.</p>  	    <p>Muitos processos de conflitualidade assumem din&acirc;micas transnacionais e os refugiados s&atilde;o afectados e s&atilde;o tamb&eacute;m parte nessas din&acirc;micas. Raramente as din&acirc;micas transnacionais de seguran&ccedil;a s&atilde;o abordadas numa perspectiva regional e raramente os refugiados s&atilde;o tidos em conta nas solu&ccedil;&otilde;es. Este artigo sugere a pertin&ecirc;ncia de se assumir claramente essa perspectiva transnacional e regional.</p> 	    ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p> 	    <p><b>Refer&ecirc;ncias</b></p>  	    <!-- ref --><p>Arteaga, F. (2008). The Chad conflict, United Nations (MINURCAT) and the European Union (EUFOR). <i>ARI Paper</i> 20.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000105&pid=S1645-3794201100020000700001&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>  	    <p>Bellamy, A. J., &amp; Williams, P. D. (2011). The new politics of protection? C&ocirc;te d&rsquo;Ivoire, Libya and the responsibility to protect. <i>International Affairs</i>, <i>87</i> (4), 825&#45;850.</p>  	    <!-- ref --><p>Berg, P. (2008). <i>The dynamics of conflict in the tri&#45;border region of the Sudan, Chad and the Central African Republic</i>. Berlim: Friedrich Ebert Foundation, Division for International Cooperation, Department of Development Policy.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000108&pid=S1645-3794201100020000700003&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>  	    <!-- ref --><p>Boutros&#45;Ghali, B. (1992). <i>An agenda for peace: Preventive diplomacy, peacemaking and peace&#45;keeping: Report of the Secretary&#45;General pursuant to the statement adopted by the summit meeting of the Security Council on 31 January 1992</i>. United Nations Department of Public Information.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000110&pid=S1645-3794201100020000700004&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>  	    <!-- ref --><p>Crisp, J. (2011). Forced displacement in Africa: Dimensions, difficulties, and policy directions. <i>Refugee Survey Quarterly, 29</i> (3), 1&#45;27.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000112&pid=S1645-3794201100020000700005&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>  	    <p>Freitas, R. (2002). Human security and refugee protection after September 11: A reassessment. <i>Refuge: Canada&rsquo;s Periodical on Refugees, 20</i> (4), 34&#45;44.</p>  	    <!-- ref --><p>Giroux, J., Lanz, D., <i>et al</i>. (2009). The tormented triangle: The regionalisation of conflict in Sudan, Chad, and the Central African Republic. <i>Crisis States Working Papers Series 2</i>.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000115&pid=S1645-3794201100020000700007&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>  	    <!-- ref --><p>Goodwin&#45;Gill, G. S. (1999). Refugees and security. <i>International Journal of Refugee Law</i>, <i>11</i> (1), 1&#45;5.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000117&pid=S1645-3794201100020000700008&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>  	    <!-- ref --><p>Grawert, E. (2008). Cross&#45;border dynamics of violent conflict. <i>Journal of Asian and African Studies</i>, <i>43</i> (6), 595&#45;614.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000119&pid=S1645-3794201100020000700009&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>  	    <!-- ref --><p>Ignatieff, M. (2002). Human rights, sovereignty and intervention. In N. Owen (Ed.), <i>Human rights, human wrongs: The Oxford amnesty lectures</i> (pp. 52&#45;87). Oxford University Press.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000121&pid=S1645-3794201100020000700010&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>  	    ]]></body>
<body><![CDATA[<!-- ref --><p>Jackson, R. H. (Org.) (1990). <i>Quasi&#45;states: Sovereignty, international relations and the Third World</i>. Cambridge University Press.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000123&pid=S1645-3794201100020000700011&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>  	    <!-- ref --><p>Lemarchand, R. (2009). <i>The dynamics of violence in Central Africa</i>. Philadelphia: University of Pennsylvania Press.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000125&pid=S1645-3794201100020000700012&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>  	    <!-- ref --><p>Loescher, G. (2003). Refugees as grounds for international action. In E. Newman, &amp; J. Van Selm (Orgs.), <i>Refugees and forced displacement: International security, human vulnerability, and the state</i> (pp. 31&#45;49). T&oacute;quio/Nova Iorque: The United Nations University.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000127&pid=S1645-3794201100020000700013&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>  	    <!-- ref --><p>Mills, K., &amp; Norton, R. J. (2002). Refugees and security in the Great Lakes Region of Africa. <i>Civil Wars, 5</i> (1), 1&#45;26.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000129&pid=S1645-3794201100020000700014&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>  	    <!-- ref --><p>Milner, J. (2009). Refugees and the regional dynamics of peacebuilding. <i>Refugee Survey Quarterly</i>, <i>28</i> (1), 13&#45;30.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000131&pid=S1645-3794201100020000700015&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>  	    ]]></body>
<body><![CDATA[<!-- ref --><p>Newman, E., &amp; Van Selm, J. (Orgs.) (2003). <i>Refugees and forced displacement: International security, human vulnerability, and the state</i>. T&oacute;quio/Nova Iorque: United Nations University.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000133&pid=S1645-3794201100020000700016&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>  	    <p>Prunier, G. (2011). <i>Africa&rsquo;s World War: Congo, the Rwandan genocide, and the making of a continental catastrophe</i>. Oxford University Press.</p>  	    <!-- ref --><p>Rubin, B. R., Armstrong, A., <i>et al.</i> (2001). <i>Regional conflict formation in the Great Lakes Region of Africa: Structure, dynamics and challenges for policy</i>. 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Nova Iorque: The American Assembly, Columbia University.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000140&pid=S1645-3794201100020000700020&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>  	    <!-- ref --><p>Tubiana, J. (2008). The Chad&#45;Sudan proxy war and the "darfurization" of Chad: Myths and reality. <i>Working Paper n&ordm; 12.</i> Genebra: Small Arms Survey, Graduate Institute of International Studies.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000142&pid=S1645-3794201100020000700021&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>  	    <!-- ref --><p>UN General Assembly (2005). <i>2005 World summit outcome</i>. A/60/L.1.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000144&pid=S1645-3794201100020000700022&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>  	    <p>UNDP (1993). <i>Human development report 1993: People&rsquo;s participation</i>. United Nations.</p>  	    <!-- ref --><p>Weiner, M. (1992). Security, stability and international migration. <i>International Security</i>, 17, pp. 91&#45;126.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000147&pid=S1645-3794201100020000700024&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>  	    <!-- ref --><p>Weiss, T. G. (2011). The UN has proved its worth in Libya and Ivory Coast. <i>The Independent</i>. Acedido em 6 Julho, 2011, de <a href="http://www.independent.co.uk/opinion/commentators/thomas-g-weiss-the-un-has-proved-its-worth-in-libya-and-ivory-coast-2263655.html?service=Print" target="_blank">http://www.independent.co.uk/opinion/commentators/thomas&#45;g&#45;weiss&#45;the&#45;un&#45;has&#45;proved&#45;its&#45;worth&#45;in&#45;libya&#45;and&#45;ivory&#45;coast&#45;2263655.html?service=Print</a>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000149&pid=S1645-3794201100020000700025&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><!-- ref --><p>Wheeler, N. J. (1992). Pluralist or solidarist conceptions of international society: Bull and Vincent on humanitarian intervention. <i>Millennium Journal of International Studies, 21</i> (2), 463&#45;487.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000150&pid=S1645-3794201100020000700026&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>  	    <!-- ref --><p>Wheeler, N. J. (Org.) (2000). <i>Saving strangers: Humanitarian intervention in international society</i>. Oxford University Press.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000152&pid=S1645-3794201100020000700027&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p> 	    <p>&nbsp;</p> 	    <p><i>Recebido 8 de Julho de 2011; Aceite para publica&ccedil;&atilde;o 20 de Setembro de 2011</i></p> 	    <p>&nbsp;</p> 	    <p><b>Notas</b></p> 	    <p><sup><a name="1"></a><a href="#top1">1</a></sup> O enfoque deste artigo situa&#45;se nas quest&otilde;es de refugiados, pela dimens&atilde;o transfronteiri&ccedil;a que define o seu pr&oacute;prio estatuto. No entanto a express&atilde;o "migra&ccedil;&otilde;es for&ccedil;adas" &eacute; aqui utilizada para incluir de forma mais abrangente as popula&ccedil;&otilde;es afectadas por conflitos no seu pa&iacute;s, que por vezes se misturam com os refugiados em fuga de conflitos em pa&iacute;ses vizinhos. Este conceito abrangente inclui nalgumas circunst&acirc;ncias as popula&ccedil;&otilde;es que n&atilde;o tendo abandonado a sua zona de origem, se encontram tamb&eacute;m afectadas pela conflitualidade.</p> 	    <p><sup><a name="2"></a><a href="#top2">2</a></sup> Ao longo deste texto ser&aacute; usada a express&atilde;o "comunidade internacional" para designar o conjunto de Estados que de alguma forma interv&ecirc;m ou tomam uma posi&ccedil;&atilde;o relativamente aos casos analisados, seja pela via multilateral ou bilateral e pela via diplom&aacute;tica, pol&iacute;tica ou econ&oacute;mica.</p> 	    <p><sup><a name="3"></a><a href="#top3">3</a></sup> Os Zaghawa s&atilde;o um grupo &eacute;tnico transnacional que inclui subgrupos na zona norte e leste do Chade e na sua fronteira com o Sud&atilde;o (Sany &amp; Desai, 2008). </p>      ]]></body><back>
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