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<article-title xml:lang="pt"><![CDATA["É Pena Seres Mulato!": Ensaio sobre relações raciais]]></article-title>
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<abstract abstract-type="short" xml:lang="en"><p><![CDATA[This text examines the racialization of Mozambican society around the social boundaries between the overwhelming black majority and the mestizo/"mulatto" minority. This phenomenon varies between mutual acceptance (neutral meaning) and mutually derogatory stereotypes (negative meaning). Certain negative stereotypes associated with the figure of the "mulatto" include, "the mulatto has no national flag" (which dates from the transition to Mozambique's independence, 1974-75) and "the mulatto is a mechanic or a thief" (which dates from the first half of the 1990s, during the transition from a wartime one-party state to a post-conflict multiparty system). In this paper, I will propose that the symbolic instrumentalization of the "mulatto" minority has been useful to tame the anxieties of the black majority.]]></p></abstract>
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</front><body><![CDATA[  	    <p><b>"&Eacute; Pena Seres Mulato!": 	Ensaio sobre rela&ccedil;&otilde;es raciais</b></p>  	    <p><b>Gabriel Mith&aacute; Ribeiro</b>*</p>  	    <p>*Instituto Universit&aacute;rio de Lisboa (ISCTE&#45;IUL) &#45; 	Centro de Estudos Africanos &#45; IUL, Portugal</p>  	    <p><a href="mailto:mitharibeiro@gmail.com">mitharibeiro@gmail.com</a></p> 	    <p>&nbsp;</p> 	    <p><b>Resumo</b></p>  	    <p>O texto analisa a racializa&ccedil;&atilde;o da sociedade mo&ccedil;ambicana em torno das demarca&ccedil;&otilde;es entre a esmagadora maioria negra e a minoria mesti&ccedil;a/"mulata". O fen&oacute;meno social oscila entre a aceita&ccedil;&atilde;o m&uacute;tua (carga neutra) e a elabora&ccedil;&atilde;o de estere&oacute;tipos depreciativos tamb&eacute;m m&uacute;tuos (carga negativa). Dos estere&oacute;tipos dos "mulatos" &#150; objecto da an&aacute;lise &#150; destacam&#45;se o de serem "filhos de uma quinhenta" (per&iacute;odo colonial); "mulato n&atilde;o tem bandeira" (gerado na conjuntura de transi&ccedil;&atilde;o para a independ&ecirc;ncia em 1974&#45;1975); e "mulato ou &eacute; mec&acirc;nico ou &eacute; ladr&atilde;o" (gerado na transi&ccedil;&atilde;o do monopartidarismo e da guerra para a paz e o multipartidarismo na primeira metade da d&eacute;cada de noventa). A instrumentaliza&ccedil;&atilde;o simb&oacute;lica da minoria "mulata" tem servido para domesticar ansiedades colectivas da popula&ccedil;&atilde;o negra.</p>  	    <p>Palavras&#45;chave: mesti&ccedil;agem, Mo&ccedil;ambique, mulatos, negros, racismo, representa&ccedil;&otilde;es sociais</p> 	    <p>&nbsp;</p> 	    ]]></body>
<body><![CDATA[<p><b>"It's a pity you're a mulatto!": An essay on race relations</b></p> 	    <p><b>Abstract</b></p> 	    <p>This text examines the racialization of Mozambican society around the social boundaries between the overwhelming black majority and the mestizo/"mulatto" minority. This phenomenon varies between mutual acceptance (neutral meaning) and mutually derogatory stereotypes (negative meaning). Certain negative stereotypes associated with the figure of the "mulatto" include, "the mulatto has no national flag" (which dates from the transition to Mozambique's independence, 1974&#45;75) and "the mulatto is a mechanic or a thief" (which dates from the first half of the 1990s, during the transition from a wartime one&#45;party state to a post&#45;conflict multiparty system). In this paper, I will propose that the symbolic instrumentalization of the "mulatto" minority has been useful to tame the anxieties of the black majority.</p>  	    <p>Keywords: miscegenation, Mozambique, mulatto, black people, racism, social representations</p>  	    <p>&nbsp;</p>  	    <p><b>"&Eacute; pena seres mulato!&quot;</b><sup><a href="#1">1</a></sup><a name="top1"></a></p>  	    <p>O texto constitui uma pe&ccedil;a de uma investiga&ccedil;&atilde;o emp&iacute;rica mais ampla ainda em curso, essencialmente assente em discursos de senso comum sobre rela&ccedil;&otilde;es raciais em Mo&ccedil;ambique. N&atilde;o &eacute; vi&aacute;vel, neste contexto, desenvolver o enquadramento te&oacute;rico e metodol&oacute;gico da investiga&ccedil;&atilde;o que, na ess&ecirc;ncia, remete para o dom&iacute;nio do pensamento social e, neste &acirc;mbito, centra&#45;se na teoria e conceito de representa&ccedil;&otilde;es sociais na perspectiva de Serge Moscovici (Moscovici, 2000; Ribeiro, 2008). O estudo &eacute; suportado por uma metodologia de recolha e tratamento de dados eminentemente qualitativa: entrevistas semi&#45;directivas (80 realizadas nas cidades de Maputo e Matola)<sup><a href="#2">2</a></sup><a name="top2"></a>, observa&ccedil;&atilde;o participante, registos escritos diversificados<sup><a href="#3">3</a></sup><a name="top3"></a>. O trabalho de campo decorreu entre abril e agosto de 2010 e janeiro e abril de 2011.</p>  	    <p>As mesti&ccedil;agens constituem um dos factores estruturantes do tecido social mo&ccedil;ambicano. O fen&oacute;meno remete tanto para a longa dura&ccedil;&atilde;o, quanto para o envolvimento de parcelas significativas da popula&ccedil;&atilde;o. Destaco as miscigena&ccedil;&otilde;es inter&#45;&eacute;tnicas espoletadas pelos estados e imp&eacute;rios africanos anteriores &agrave; ocupa&ccedil;&atilde;o colonial efectiva; o impacto da presen&ccedil;a multissecular de migra&ccedil;&otilde;es do &Iacute;ndico (&aacute;rabes e indianos, entre outros) que se foram fixando na extensa zona costeira de Mo&ccedil;ambique, legando a marca isl&acirc;mica que foi avan&ccedil;ando do litoral para o interior, em particular na regi&atilde;o norte; a presen&ccedil;a de europeus cuja domina&ccedil;&atilde;o colonial efectiva, iniciada em finais do s&eacute;culo XIX, acelerou continuamente as tend&ecirc;ncias de miscigena&ccedil;&atilde;o anteriores, refor&ccedil;ando a componente crist&atilde;; s&atilde;o ainda de ter em conta os sistemas de reprodu&ccedil;&atilde;o socioecon&oacute;micos tradicionais que subsistem e pautam a diversidade social mo&ccedil;ambicana.</p>  	    <p>Todavia, por op&ccedil;&atilde;o deliberada, esta pesquisa afunila esse conjunto vasto de fen&oacute;menos de miscigena&ccedil;&atilde;o numa &uacute;nica dimens&atilde;o, a da mesti&ccedil;agem racial. Tal escolha sustenta&#45;se no facto de as perten&ccedil;as raciais constitu&iacute;rem referentes importantes (Cabecinhas, 2007), pois nunca foi indiferente, em Mo&ccedil;ambique colonial ou p&oacute;s&#45;colonial, ser&#45;se negro, "mulato", branco, "indiano" ou chin&ecirc;s. Nesse sentido, trata&#45;se de uma sociedade marcadamente racializada, mas sem que essa caracter&iacute;stica dos diferentes segmentos sociais gere tens&otilde;es raciais particularmente salientes.</p>  	    <p>Mo&ccedil;ambique, como outras sociedades da periferia do sistema&#45;mundo, tem a particularidade de a fragmenta&ccedil;&atilde;o racial ser um fen&oacute;meno das elites e das classes m&eacute;dias (onde pontificam a elite negra e sobretudo as diversas minorias raciais, entre brancos<sup><a href="#4">4</a></sup><a name="top4"></a>, mesti&ccedil;os, "indianos" ou chineses), n&atilde;o das classes baixas (homogeneamente negras). Como as situa&ccedil;&otilde;es de potencial tens&atilde;o racial tendem a concentrar&#45;se nas classes m&eacute;dias e nas elites e como estas pesam pouco na estrutura social e demogr&aacute;fica, o mesmo acontece com as tens&otilde;es raciais.</p>  	    ]]></body>
<body><![CDATA[<p>De resto, em particular entre as pessoas desfavorecidas negras, as avalia&ccedil;&otilde;es sobre as minorias raciais s&atilde;o tendencialmente positivas. A raz&atilde;o essencial tem a ver com o problema do desemprego ser muito sens&iacute;vel, sendo que as minorias raciais (brancos, "indianos", chineses) surgem invariavelmente conotadas com a cria&ccedil;&atilde;o de postos de trabalho. Embora essa situa&ccedil;&atilde;o n&atilde;o constitua, em si, obst&aacute;culo &agrave; exist&ecirc;ncia de tens&otilde;es raciais em grande parte circunscritas ao mundo laboral, a verdade &eacute; que, na actualidade ou no passado, globalmente o contexto social mo&ccedil;ambicano tem sido favor&aacute;vel &agrave; afirma&ccedil;&atilde;o de minorias raciais.</p>  	    <p>O contributo de estudos sobre rela&ccedil;&otilde;es raciais &eacute; o de permitir perceber se se trata de uma tend&ecirc;ncia que se sedimentar&aacute; ou se, pelo contr&aacute;rio, a racializa&ccedil;&atilde;o da sociedade mo&ccedil;ambicana ganhar&aacute; contornos diferentes no futuro. Neste momento n&atilde;o parece poss&iacute;vel lan&ccedil;ar hip&oacute;teses consistentes que respondam com seguran&ccedil;a a essa quest&atilde;o.</p>  	    <p><b>Mesti&ccedil;o, misto ou mulato</b></p>  	    <p>No pensamento de senso comum mo&ccedil;ambicano, entre a categoriza&ccedil;&atilde;o dos negros (o extremo end&oacute;geno) e a categoriza&ccedil;&atilde;o dos brancos (o extremo ex&oacute;geno), reconhece&#45;se a exist&ecirc;ncia de um segmento mesti&ccedil;o aut&oacute;nomo em rela&ccedil;&atilde;o aos dois primeiros, uma esp&eacute;cie de fronteira. A predomin&acirc;ncia de tal representa&ccedil;&atilde;o social pode ser interpretada como sintoma de uma sociedade aberta ao mundo, mas que se demarca desse mundo pela delimita&ccedil;&atilde;o simb&oacute;lica das fronteiras da mesti&ccedil;agem. Esta an&aacute;lise visa, precisamente, caracterizar o espa&ccedil;o da mesti&ccedil;agem na sociedade mo&ccedil;ambicana.</p>  	    <p>Estando em causa o elemento mesti&ccedil;o ou misto, a ideia remete para o conjunto de indiv&iacute;duos que possuem uma qualquer ascend&ecirc;ncia alien&iacute;gena que, em algum momento, se cruzou com os aut&oacute;ctones e/ou com outros grupos raciais minorit&aacute;rios. Em tecidos sociais marcados por uma forte, secular e diversificada imigra&ccedil;&atilde;o, como &eacute; o caso, a categoria revela&#45;se demasiado imprecisa. Por isso mesmo, numa pesquisa emp&iacute;rica sobre rela&ccedil;&otilde;es raciais a transforma&ccedil;&atilde;o dos termos "mesti&ccedil;o" ou "misto" em conceitos com os quais se possa operar &eacute; dif&iacute;cil, posto que tais termos n&atilde;o s&atilde;o particularmente eficazes para o senso comum. Em vez deles, emergem categorias raciais mais precisas que se tornam mais apelativas para os indiv&iacute;duos. Atrav&eacute;s delas a no&ccedil;&atilde;o de mesti&ccedil;agem racial assume tipifica&ccedil;&otilde;es concretas, no sentido de se constitu&iacute;rem "objectos de atitude" (segundo Eagly &amp; Chaiken &#91;1993&#93;, aquilo que &eacute; avaliado pelos indiv&iacute;duos entre um extremo positivo e um extremo negativo). Com elas os indiv&iacute;duos operam com muito maior facilidade (cf. McGarty, 1999). &Eacute; assim que o referente "mulato" &eacute; o que melhor permite operacionalizar a no&ccedil;&atilde;o de mesti&ccedil;agem racial. Tratarei, portanto, das representa&ccedil;&otilde;es sociais dos "mulatos" mo&ccedil;ambicanos (cf. Moscovici, 2000 &#91;1984&#93;; Moscovici &amp; Vignaux, 2000 &#91;1994&#93;; Ribeiro, 2008).</p>  	    <p>A melhor forma de se categorizar o objecto de atitude "mulato" &eacute; associ&aacute;&#45;lo a outros segmentos raciais pr&oacute;ximos, concretamente aos "monh&eacute;s", "baneanes" ou "canecos" (os ditos "indianos"). Face a um arco&#45;&iacute;ris de cores de pele que permitiria, em Mo&ccedil;ambique, constituir uma fronteira ampla e de muito dif&iacute;cil defini&ccedil;&atilde;o entre o negro e o branco, torna&#45;se invi&aacute;vel o recurso a categoriza&ccedil;&otilde;es r&iacute;gidas. O caminho mais seguro &eacute; o de se avan&ccedil;ar usando como suporte o conceito de tipo ideal (ou ideal&#45;tipo) proposto por Max Weber (1997 &#91;1909&#45;1913&#93;, pp. 38&#45;41). Isso implica que se parta de abstrac&ccedil;&otilde;es do que se pode entender por "mulato" (ou "monh&eacute;", por contraposi&ccedil;&atilde;o), tipifica&ccedil;&otilde;es que depois t&ecirc;m de ser mitigadas &agrave; medida que nos aproximamos da realidade emp&iacute;rica propriamente dita.</p>  	    <p>De um epis&oacute;dio quotidiano ocorrido na cidade de Maputo (2010) registei uma express&atilde;o sintom&aacute;tica: "Quem lixou esse &laquo;mulato&raquo; foi um &laquo;monh&eacute;&raquo; a&iacute;".</p>  	    <p>Com isso pretendo sublinhar que uma das mais simples defini&ccedil;&otilde;es do "mulato" &eacute; a de n&atilde;o ser "monh&eacute;" e vice&#45;versa. Os dois termos s&atilde;o profusamente utilizados nos discursos de senso comum em Mo&ccedil;ambique sem se sobreporem. A n&iacute;vel cognitivo constituem categorias do pensamento social por se apresentarem como mutuamente exclusivas. O que pode ser discut&iacute;vel &eacute; o leque de atributos de cada uma dessas categorias. Se a cor de pele "interm&eacute;dia" (nem negra, nem branca) n&atilde;o deixa de ser tida em conta nas avalia&ccedil;&otilde;es de senso comum, ela &eacute; sempre ponderada pela sali&ecirc;ncia conferida a outros atributos. Neles destacam&#45;se os comportamentos e atitudes considerados dominantes em cada segmento, sobretudo os conotados com cren&ccedil;as e pr&aacute;ticas religiosas. O "monh&eacute;" &eacute; associado &agrave; religi&atilde;o isl&acirc;mica ou hindu e tido como origin&aacute;rio ou descendente de gentes do &Iacute;ndico. O "mulato" &eacute; representado como um (sub)produto crist&atilde;o do Ocidente. Para al&eacute;m da componente ex&oacute;gena/imigrante nos dois casos, &eacute; ao "mulato" que, entre os negros, &eacute; reconhecida uma mais &oacute;bvia miscigena&ccedil;&atilde;o com africanos negros. Portanto, na perspectiva da maioria, n&atilde;o sendo nenhum dos dois como "n&oacute;s negros", os "mulatos" tendem a ser representados mais como "nossos" e os "monh&eacute;s" muito mais como "outros" ou ex&oacute;genos.</p>  	    <p>Quando acontece existir uma componente cat&oacute;lica em segmentos origin&aacute;rios do &Iacute;ndico, no geral s&atilde;o designados por "canecos", embora este segmento quase nunca seja referenciado pelas pessoas desfavorecidas, ou seja, trata&#45;se de uma tipifica&ccedil;&atilde;o que funciona sobretudo no interior dos mesti&ccedil;os. Neste caso, se a ascend&ecirc;ncia &eacute; conotada com a &Iacute;ndia, trata&#45;se da antiga &Iacute;ndia Portuguesa (Goa, Dam&atilde;o e Diu), o que lhes confere uma forte liga&ccedil;&atilde;o &agrave; matriz cultural portuguesa colonial. Da&iacute; a que a mesti&ccedil;agem esteja na g&eacute;nese dos "canecos" por cruzarem um tipo racial "tipicamente" indiano com uma matriz cultural muito identificada com a portuguesa, traduzindo&#45;se, para al&eacute;m do catolicismo, no uso da l&iacute;ngua portuguesa como idioma materno e em h&aacute;bitos de vida pr&oacute;ximos do tipo portugu&ecirc;s. Logo, os "canecos", quando s&atilde;o reconhecidos enquanto tal, s&atilde;o, ainda assim, mais pr&oacute;ximos dos "mulatos" &#150; no sentido de partilharem, de alguma forma, a "mo&ccedil;ambicanidade" &#150; do que os isl&acirc;micos ou hindus "monh&eacute;s", estes com maior facilidade exclu&iacute;dos da "mo&ccedil;ambicanidade".</p>  	    <p>De qualquer modo, a complexidade dos fluxos imigrat&oacute;rios, em especial os de longa dura&ccedil;&atilde;o, tornam relativamente fluidas as categorias raciais referidas. Para citar outro dado, parte do segmento "mulato" tem ascend&ecirc;ncia branca, mas &aacute;rabe ou chinesa (o caso do "misto&#45;china" que, em poucas gera&ccedil;&otilde;es, se torna mais "misto" ou "mulato" do que "china").</p>  	    ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Em s&iacute;ntese, a distin&ccedil;&atilde;o entre "mulatos" e "monh&eacute;s" na sociedade mo&ccedil;ambicana, mais do que da cor da pele, depende da matriz religiosa (crist&atilde;os/cat&oacute;licos <i>versus</i> isl&acirc;micos ou hindus) e da ascend&ecirc;ncia ex&oacute;gena (ocidente europeu <i>versus</i> &Iacute;ndico).</p>  	    <p>Registo ainda que em Mo&ccedil;ambique &eacute; recorrente a hip&oacute;tese, transformada com o tempo em cren&ccedil;a, de a raiz hist&oacute;rica do termo "mulato" derivar da ancestral palavra "mula", resultado do cruzamento entre o nobre cavalo e o desprez&iacute;vel burro. Esse pressuposto conferiu, desde sempre, carga pejorativa ao objecto social visado porque aponta para a animaliza&ccedil;&atilde;o de um determinado segmento social que remete, logo &agrave; partida, para a deprecia&ccedil;&atilde;o simb&oacute;lica do negro em rela&ccedil;&atilde;o ao branco. Elementos suficientes para transformarem o termo "mulato" numa f&oacute;rmula autom&aacute;tica de invoca&ccedil;&atilde;o de uma deprecia&ccedil;&atilde;o racial prim&aacute;ria ou, pelo menos, a palavra ficou conotada de raiz com uma intoler&aacute;vel grosseria no trato social.</p>  	    <p>O problema &eacute; que a op&ccedil;&atilde;o pelos termos "mesti&ccedil;o" ou "misto", ainda que justific&aacute;vel, deixa de o ser enquanto termo categorizado com maior precis&atilde;o no pensamento de senso comum. A esse n&iacute;vel o termo "mulato" &eacute; bem mais eficaz. Da&iacute; a minha op&ccedil;&atilde;o.</p>  	    <p><b>O lugar do "mulato" nos discursos das elites</b></p>  	    <p>Por paradoxal que possa parecer, os visados em geral n&atilde;o manifestam inc&oacute;modos em autoclassificar&#45;se como "mulatos", nem tal afilia&ccedil;&atilde;o identit&aacute;ria alimenta autoconceitos negativos. Na perspectiva dos pr&oacute;prios, tende at&eacute; a ocorrer o contr&aacute;rio. Uma das teses que recolhi em alguns discursos (quer em entrevistas formais, quer em situa&ccedil;&otilde;es de observa&ccedil;&atilde;o participante) indiciadoras do sentido de autodefesa dos membros desse segmento racial &eacute; a de sublinharem que "a tend&ecirc;ncia do mundo &eacute; a de o &laquo;mulato&raquo; predominar, mesmo nos pa&iacute;ses europeus". A frase funciona tamb&eacute;m como auto&#45;refor&ccedil;o positivo precisamente por n&atilde;o se sustentar em evid&ecirc;ncias convincentes.</p>  	    <p>As refer&ecirc;ncias, nos discursos dos mesti&ccedil;os/"mulatos" mo&ccedil;ambicanos, ao "Brasil&#45;mulato" constituem tamb&eacute;m fontes especulativas do seu auto&#45;orgulho. Permitem a projec&ccedil;&atilde;o vitoriosa do seu pr&oacute;prio grupo racial num outro espa&ccedil;o, long&iacute;nquo, mais simb&oacute;lico do que factual, que, por isso mesmo, permite supor que o segmento se afirmou de forma positiva "l&aacute;" e isso &eacute; supostamente reconhecido em todo o mundo. Detecta&#45;se at&eacute;, ao n&iacute;vel das representa&ccedil;&otilde;es do Brasil entre os mesti&ccedil;os/"mulatos" mo&ccedil;ambicanos, uma tend&ecirc;ncia de longa dura&ccedil;&atilde;o. Ela prende&#45;se com as expectativas positivas que esse outro hipot&eacute;tico modelo de sociedade de refer&ecirc;ncia &#150; pela afirma&ccedil;&atilde;o cultural do Brasil no mundo &#150; pode exercer sobre os equil&iacute;brios raciais na sociedade mo&ccedil;ambicana.</p>  	    <p>O desiderato manifestou&#45;se de forma consequente no discurso de um dos membros da elite mesti&ccedil;a (ou "mulata") que aderiu &agrave; causa nacionalista e desempenhou cargos relevantes no regime p&oacute;s&#45;colonial, durante a governa&ccedil;&atilde;o de Samora Machel (1975&#45;1986). Explicou o entrevistado que, ainda antes dos anos sessenta do s&eacute;culo XX, quando se foi aproximando dos movimentos de esquerda antifascista portugueses que tiveram express&atilde;o residual na ent&atilde;o col&oacute;nia de Mo&ccedil;ambique e, mais tarde, quando se identificou com a resist&ecirc;ncia anticolonial liderada pela FRELIMO, a ideia de uma sociedade mo&ccedil;ambicana racialmente miscigenada seguindo o suposto modelo social do Brasil fazia para ele muito sentido num hipot&eacute;tico futuro p&oacute;s&#45;colonial do seu pa&iacute;s africano. Sublinhou o impacto nele, ainda na &eacute;poca colonial, de alguns romances de Jorge Amado<sup><a href="#5">5</a></sup><a name="top5"></a>, lidos ent&atilde;o na clandestinidade. No entanto, essa expectativa acabou desvirtuada, segundo o entrevistado, pelo rumo que o processo de transi&ccedil;&atilde;o de Mo&ccedil;ambique para a independ&ecirc;ncia acabou por assumir em meados dos anos setenta, marcado pela fuga (n&atilde;o considerou que tivesse havido uma expuls&atilde;o) em massa dos colonos brancos. Se a diversidade racial ao n&iacute;vel da ac&ccedil;&atilde;o governativa ainda assim se manteve equilibrada na primeira d&eacute;cada p&oacute;s&#45;colonial, tem vindo a transformar&#45;se ap&oacute;s a morte do primeiro presidente de Mo&ccedil;ambique independente, Samora Machel, em 1986, sendo progressivamente mais ostensiva a tenta&ccedil;&atilde;o de dom&iacute;nio racial da maioria negra sobre as minorias raciais (mesti&ccedil;os, "indianos" ou brancos). Considerou o entrevistado que isso tem implicado um maior fechamento racial no sentido da africaniza&ccedil;&atilde;o do poder<sup><a href="#6">6</a></sup><a name="top6"></a> dentro das diversas institui&ccedil;&otilde;es dependentes do poder pol&iacute;tico do Estado, embora a situa&ccedil;&atilde;o possa resultar tanto de inten&ccedil;&otilde;es deliberadas que visam colocar negros em cargos de destaque, em detrimento de indiv&iacute;duos pertencentes &agrave;s minorias raciais, quanto da evolu&ccedil;&atilde;o da pr&oacute;pria sociedade mo&ccedil;ambicana que conta, cada vez mais, com um n&uacute;mero crescente de quadros negros qualificados, muitos deles formados no estrangeiro.</p>  	    <p>As teses referidas, com a nota de se terem manifestado de forma clara e articulada no discurso do entrevistado acima citado, s&atilde;o, no entanto, do dom&iacute;nio p&uacute;blico entre as minorias raciais, em especial entre mesti&ccedil;os e brancos. Constatei o facto ao longo do trabalho de campo nos mais diversos locais (caf&eacute;s, restaurantes, ambientes familiares, ruas, festas, etc.). As variantes s&atilde;o diversas, umas mais radicais do que outras. Cito um exemplo: "Tu, com essa cor de pele &#91;misto/mulato&#93; foste director &#91;do servi&ccedil;o p&uacute;blico tal&#93; com o Machel, mas agora isso seria imposs&iacute;vel. Tinhas de ser negro!" (frase ouvida em conversa informal num dos caf&eacute;s de Maputo, 2010).</p>  	    <p>Do material emp&iacute;rico resulta tamb&eacute;m evidente que existe em Mo&ccedil;ambique um conhecimento estruturado, ao n&iacute;vel do pensamento social, sobre a evolu&ccedil;&atilde;o dos equil&iacute;brios raciais. Ele pode ser sistematizado em tr&ecirc;s grandes momentos:</p>  	    <p>(i)&nbsp; &eacute;poca colonial, radicalmente dominada pelos brancos (at&eacute; 1974&#45;1975);</p>  	    ]]></body>
<body><![CDATA[<p>(ii)&nbsp; &eacute;poca de Samora Machel (1974/1975&#45;1986), de alguma neutralidade racial, momento da hist&oacute;ria do pa&iacute;s em que as perten&ccedil;as raciais foram mais secundarizadas enquanto atributos de legitima&ccedil;&atilde;o de posi&ccedil;&otilde;es de poder no aparelho de Estado e, por consequ&ecirc;ncia, nas rela&ccedil;&otilde;es sociais;</p>  	    <p>(iii)&nbsp; actualidade p&oacute;s&#45;Machel, marcada pela crescente ambi&ccedil;&atilde;o de dom&iacute;nio racial por parte dos negros.</p>  	    <p>Esta &eacute; a tend&ecirc;ncia dos discursos dos mesti&ccedil;os/"mulatos". Todavia, se existe consenso nas avalia&ccedil;&otilde;es sobre o per&iacute;odo colonial dominado pelos brancos, consoante a cor da pele das elites entrevistadas detectam&#45;se tend&ecirc;ncias divergentes nas avalia&ccedil;&otilde;es das duas fases p&oacute;s&#45;coloniais. Se as avalia&ccedil;&otilde;es dos brancos est&atilde;o pr&oacute;ximas das dos mesti&ccedil;os/"mulatos" (nas sociedades as minorias tendem a aproximar&#45;se em determinados assuntos), a tend&ecirc;ncia das elites negras &eacute; diferente. Manifesta&#45;se predominantemente no sentido de considerarem que os mais saudosistas da &eacute;poca de Samora Machel (1975&#45;1986), no que tem a ver com a gest&atilde;o das rela&ccedil;&otilde;es raciais pelo Estado<sup><a href="#7">7</a></sup><a name="top7"></a>, s&atilde;o os brancos e mesti&ccedil;os mo&ccedil;ambicanos precisamente porque o primeiro presidente de Mo&ccedil;ambique manteve a sua situa&ccedil;&atilde;o de privil&eacute;gio herdada da &eacute;poca colonial, contando que aderissem ao socialismo da FRELIMO.</p>  	    <p>Num ou noutro caso, membros da elite negra um pouco mais radicais sugerem a necessidade de uma segunda independ&ecirc;ncia para o <i>empowerment</i> dos negros mo&ccedil;ambicanos, uma vez que se considera que desde a constitui&ccedil;&atilde;o da FRELIMO e durante a primeira d&eacute;cada p&oacute;s&#45;colonial o partido foi fortemente influenciado pela elite mesti&ccedil;a e branca, com destaque para os descendentes de goeses<sup><a href="#8">8</a></sup><a name="top8"></a>. &Eacute; desses sectores raciais minorit&aacute;rios, segundo esta perspectiva, que v&ecirc;m as cr&iacute;ticas mais radicais &agrave; governa&ccedil;&atilde;o de Joaquim Chissano (1986&#45;2005) e de Armando Guebuza (desde 2005), sendo que estes dois presidentes da rep&uacute;blica chegam mesmo a ser denegridos precisamente por serem mais justos em termos raciais.</p>  	    <p>&Eacute; plaus&iacute;vel inferir que o distanciamento progressivo ou mesmo a ruptura com a matriz ideol&oacute;gica marxista&#45;leninista&#45;mao&iacute;sta com que se entrou na era p&oacute;s&#45; 	colonial pode estar a implicar, em Mo&ccedil;ambique, a racializa&ccedil;&atilde;o progressiva da ideologia oficial do Estado e, por essa via, da vida social. Trata&#45;se de um fen&oacute;meno que permanece latente, sem que existam elementos seguros sobre a sua evolu&ccedil;&atilde;o futura.</p>  	    <p>Destaco, neste contexto, a t&iacute;tulo ilustrativo, uma outra entrevista tamb&eacute;m com algu&eacute;m que tipifico como pertencente &agrave; elite p&oacute;s&#45;colonial, neste caso negro, com um percurso intelectual e pol&iacute;tico semelhante ao do entrevistado mesti&ccedil;o/"mulato" anterior, que defendia que um dos problemas que dificulta a percep&ccedil;&atilde;o da realidade mo&ccedil;ambicana deriva de se julgar que a sociedade &eacute; racial ou culturalmente mista ou crioula (utilizou os termos como sin&oacute;nimos). Na sua perspectiva, a realidade mo&ccedil;ambicana que efectivamente conta &eacute; esmagadoramente negra, constituindo as teses das mesti&ccedil;agens hipervaloriza&ccedil;&otilde;es das excep&ccedil;&otilde;es que partem precisamente dos discursos dos mesti&ccedil;os. Classificou&#45;as como uma esp&eacute;cie de fic&ccedil;&atilde;o que impede que se percebam as quest&otilde;es relevantes da vida social por se pretender impor, a partir de cima, um modelo que n&atilde;o tem a ver com as caracter&iacute;sticas marcantes da sociedade mo&ccedil;ambicana. Ficou subjacente, neste discurso, a cr&iacute;tica &agrave; importa&ccedil;&atilde;o para Mo&ccedil;ambique do suposto modelo racial miscigenado brasileiro. Ilustrou o seu racioc&iacute;nio recorrendo aos tipos sociais que dominam na publicidade, em especial os grandes cartazes de rua das cidades mo&ccedil;ambicanas, onde se tem destacado o misto e/ou o elemento racial negro surgir dilu&iacute;do na mesti&ccedil;agem<sup><a href="#9">9</a></sup><a name="top9"></a>. Acrescento eu que, reparando em alguns dos cartazes publicit&aacute;rios das cidades de Maputo, Matola, Beira ou Tete, a avalia&ccedil;&atilde;o referida pode tamb&eacute;m resultar da exclus&atilde;o da componente tradicional africana nesses &iacute;cones publicit&aacute;rios. Isto &eacute;, os indiv&iacute;duos negros que aparecem nas imagens apresentarem frentes pessoais p&oacute;s&#45;tradicionais, mesmo que por vezes recorram a adornos que visem contradizer essa percep&ccedil;&atilde;o, numa tentativa de busca artificial das "profundas" ra&iacute;zes africanas.</p>  	    <p>Sobre o mesmo tema, focalizando&#45;se tamb&eacute;m no uso da imagem como modeladora das rela&ccedil;&otilde;es inter&#45;raciais na sociedade mo&ccedil;ambicana, o entrevistado mesti&ccedil;o/"mulato" referido em primeiro lugar sublinhou o oposto, a crescente hipervaloriza&ccedil;&atilde;o do negro em rela&ccedil;&atilde;o a todas as minorias raciais (brancos, "mulatos" ou "indianos"). Para ele trata&#45;se de ind&iacute;cios negativos dos dias que correm por dilu&iacute;rem as tentativas do passado de promo&ccedil;&atilde;o da multi&#45;etnicidade e inter&#45;racialidade em Mo&ccedil;ambique. Em sua opini&atilde;o, a situa&ccedil;&atilde;o manifesta&#45;se n&atilde;o s&oacute; na publicidade de rua (onde alega que se suprimiu a multi&#45;racialidade, dado o quase desaparecimento do branco e do indiano em prol do negro, embora o "mulato" subsista), mas sobretudo ao n&iacute;vel dos manuais escolares do ensino b&aacute;sico que, na actualidade, segundo o entrevistado, recorrem ao mono&#45;racialismo negro nas imagens e figuras ilustrativas, verificando&#45;se ainda a marginaliza&ccedil;&atilde;o de nomes aut&oacute;ctones conotados com grupos &eacute;tnicos do centro e do norte do pa&iacute;s ou derivados da tradi&ccedil;&atilde;o isl&acirc;mica. Desse modo, o problema das tens&otilde;es raciais, no sentido da discrimina&ccedil;&atilde;o das minorias n&atilde;o negras, pode arrastar&#45;se por gera&ccedil;&otilde;es por ser gerado por um sistema de ensino cujo acesso &eacute; cada vez mais universal. Assinalou ser essa uma tend&ecirc;ncia preocupante da forma como se tem vindo a estruturar a ideia da "mo&ccedil;ambicanidade" nas &uacute;ltimas d&eacute;cadas, confundindo&#45;a com as teses da "negritude".</p>  	    <p>Ainda nessa sequ&ecirc;ncia, um outro mesti&ccedil;o da elite e que tamb&eacute;m foi membro do governo na &eacute;poca de Samora Machel referiu, em conversas informais (2010), que o problema crucial que o pa&iacute;s atravessa &eacute; o de ter de decidir, ao n&iacute;vel da orienta&ccedil;&atilde;o governativa, se "Mo&ccedil;ambique &eacute; um pa&iacute;s de &Aacute;frica ou se Mo&ccedil;ambique &eacute; um pa&iacute;s africano". Defende que a primeira op&ccedil;&atilde;o abre para a modernidade e era, apesar de tudo, a l&oacute;gica do ex&#45;presidente da rep&uacute;blica Joaquim Chissano (1986&#45;2005). A segunda op&ccedil;&atilde;o constitui uma "auto&#45;estrada sem retorno" e &eacute; a op&ccedil;&atilde;o de Armando Guebuza (desde 2005), assente na racializa&ccedil;&atilde;o intencional do poder em prol dos negros, orienta&ccedil;&atilde;o que, em sua opini&atilde;o, est&aacute; na base da estagna&ccedil;&atilde;o ou do fracasso de muitos dos pa&iacute;ses do continente. Este pensamento, assinale&#45;se, &eacute; de um assumido defensor da op&ccedil;&atilde;o socialista para os pa&iacute;ses africanos adaptada aos novos tempos, pois o seu autor considera que tal caminho comporta uma ambi&ccedil;&atilde;o de moderniza&ccedil;&atilde;o do continente e inser&ccedil;&atilde;o no sistema internacional, ao contr&aacute;rio da racializa&ccedil;&atilde;o intencional do poder e das rela&ccedil;&otilde;es sociais, sempre conotada com a retradicionaliza&ccedil;&atilde;o de &Aacute;frica, que associou a riscos de encerrar as popula&ccedil;&otilde;es, em especial as decisivas popula&ccedil;&otilde;es rurais, em pr&aacute;ticas ancestrais que, em parte, constituem a causa do subdesenvolvimento.</p>  	    <p>Assim sendo, pelo que foi referido assemelha&#45;se relevante o significado dos atributos raciais na gest&atilde;o das rela&ccedil;&otilde;es de poder em Mo&ccedil;ambique, concretamente na distribui&ccedil;&atilde;o de cargos de influ&ecirc;ncia pol&iacute;tica e econ&oacute;mica, por muito complexo que seja esse jogo (Elias, 2008 &#91;1970&#93;). Ele indicia a exist&ecirc;ncia de linhas de fraccionamento, ainda que algo difusas, entre os negros e as minorias raciais ao n&iacute;vel das elites. A quest&atilde;o racial pode ser tipificada como um reprimido que paira end&eacute;mico na vida pol&iacute;tica e social do pa&iacute;s, por&eacute;m paradoxalmente demasiado &oacute;bvia por n&atilde;o ser necess&aacute;rio um grande esfor&ccedil;o para torn&aacute;&#45;la evidente.</p>  	    <p>De qualquer modo, quando se sai do c&iacute;rculo das elites (negras e n&atilde;o negras) as tens&otilde;es raciais s&atilde;o bem menos salientes, conforme revelou o trabalho de campo nos bairros suburbanos. As pessoas comuns tendem a revelar maior indiferen&ccedil;a ou distanciamento face a disputas com conte&uacute;do racial. Estas revelam&#45;se incisivas sobretudo quando est&aacute; subjacente o acesso a cargos superiores ou qualificados/t&eacute;cnicos na administra&ccedil;&atilde;o p&uacute;blica, nas empresas formais ou no meio acad&eacute;mico, num pa&iacute;s de bens dessa natureza demasiado escassos.</p>  	    ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Em suma, na actual conjuntura o factor racial n&atilde;o constitui amea&ccedil;a &agrave; estabilidade da vida colectiva em Mo&ccedil;ambique. A porta parece estar a abrir&#45;se. N&atilde;o se sabe at&eacute; onde. N&atilde;o se sabe para onde.</p>  	    <p><b>O "mulato" no senso comum suburbano</b></p>  	    <p>Em Mo&ccedil;ambique, a circula&ccedil;&atilde;o de determinadas produ&ccedil;&otilde;es da ind&uacute;stria cultural importadas do Brasil (desde a &eacute;poca colonial) ou de Angola (crescentes no per&iacute;odo p&oacute;s&#45;colonial), por via da m&uacute;sica ou do futebol enquanto fen&oacute;menos de divulga&ccedil;&atilde;o massificada, dos festejos de carnaval brasileiros de grande divulga&ccedil;&atilde;o medi&aacute;tica ou da literatura (os &uacute;ltimos com um impacto muit&iacute;ssimo limitado), tendo em conta a componente dessas manifesta&ccedil;&otilde;es que sugere a dignifica&ccedil;&atilde;o (ou mesmo a glorifica&ccedil;&atilde;o) da beleza f&iacute;sica e sensualidade da "mulata" ou a destreza f&iacute;sica e alegria do "mulato", praticamente n&atilde;o t&ecirc;m correspond&ecirc;ncia nos discursos de senso comum dos negros que habitam nos bairros suburbanos. Apesar de d&eacute;cadas e d&eacute;cadas de persist&ecirc;ncia de certas modas da ind&uacute;stria cultural, nas cidades de Maputo e Matola ou "os mulatos s&atilde;o como n&oacute;s, negros" (neutralidade), ou, quando se considera que os "mulatos" se destacam, no geral &eacute; pela negativa (estigmatiza&ccedil;&atilde;o) (Goffman, 1963). Admito, como mera hip&oacute;tese resultante de um longo contacto com a realidade emp&iacute;rica, que essas duas tend&ecirc;ncias possam ser distribu&iacute;das de forma equilibrada entre os negros desfavorecidos.</p>  	    <p>&Eacute; de sublinhar que, nas interac&ccedil;&otilde;es com conte&uacute;do racial, "mulatos" e negros tendem a n&atilde;o conferir reciprocamente atributos positivos de grande destaque. Ou representam&#45;se como iguais ou apenas buscam diferenciar&#45;se pela negativa. Este enquadramento &eacute; o que melhor permite compreender as rela&ccedil;&otilde;es entre esses dois segmentos raciais. Para al&eacute;m da heran&ccedil;a colonial em desuso do "mulato filho de uma quinhenta", ep&iacute;teto insultuoso resultante do suposto valor insignificante ("a quinhenta", voc&aacute;bulo comum que servia para designar algo de valor insignificante, cinquenta centavos) pago pelos colonos brancos &agrave;s prostitutas negras que frequentavam nos bairros perif&eacute;ricos das grandes cidades da col&oacute;nia, as express&otilde;es&#45;tipo dos negros suburbanos que melhor simbolizam os extremos referidos (neutralidade ou estigmatiza&ccedil;&atilde;o) s&atilde;o, por um lado, "os mulatos s&atilde;o como n&oacute;s, negros, n&atilde;o temos diferen&ccedil;as, s&atilde;o nossos filhos, nossos sobrinhos, nossos netos, vivemos juntos" e, por outro lado, "mulato n&atilde;o tem bandeira" e "mulato ou &eacute; mec&acirc;nico ou &eacute; ladr&atilde;o".</p>  	    <p>Neste ponto, importa considerar uma tend&ecirc;ncia de longa dura&ccedil;&atilde;o. Aproxi&#45;mando&#45;se tanto quanto poss&iacute;vel das elites, no entanto, os mesti&ccedil;os (designa&ccedil;&atilde;o mais abrangente do que a categoria "mulatos") mo&ccedil;ambicanos passaram largas d&eacute;cadas, talvez o s&eacute;culo da coloniza&ccedil;&atilde;o portuguesa efectiva, a demarcar&#45;se do poder branco, atrav&eacute;s de h&aacute;bitos culturais, de formas pr&oacute;prias de linguagem, da cria&ccedil;&atilde;o e alimenta&ccedil;&atilde;o do estere&oacute;tipo negativo do branco pobre, o "maguerre", termo, na &eacute;poca colonial, de uso muito mais frequente entre brancos nascidos na ent&atilde;o col&oacute;nia e mesti&ccedil;os do que entre negros. Atrav&eacute;s dele estereotipava&#45;se um tipo de indiv&iacute;duo branco vindo da metr&oacute;pole, com modos rudes no trato social, no geral trabalhador agr&iacute;cola ("machambeiro"), que:</p>  	    <p>N&atilde;o sabia comer com garfo e faca; vinha para a tropa e aprendia connosco a tomar banho; trocava os v&ecirc;s pelos b&ecirc;s; escondia a comida para n&atilde;o ter de a partilhar com as visitas; &agrave;s vezes nem sabia ler e escrever e dependia dos negros das miss&otilde;es que lhe liam a correspond&ecirc;ncia e escreviam o que ele precisava (registos de conversas informais ou observa&ccedil;&atilde;o participante, Maputo e Matola, 2010 e 2011, sempre com mesti&ccedil;os).</p>  	    <p>Uma express&atilde;o elucidativa sublinhava que "esses brancos pobres foram t&atilde;o v&iacute;timas do colonialismo como todos os outros c&aacute; de Mo&ccedil;ambique porque nem sabiam o que se estava a passar"<sup><a href="#10">10</a></sup><a name="top10"></a>. Esta representa&ccedil;&atilde;o do branco portugu&ecirc;s pobre &eacute; ainda hoje reproduzida (ao termo "maguerre" acrescentou&#45;se, no per&iacute;odo p&oacute;s&#45;colonial, o "tuga") e entrou no discurso das elites, incluindo as elites negras, que raramente se esquecem de sublinhar essa maneira rude de existir e de se ser portugu&ecirc;s e que, mesmo assim, segundo argumentam, apenas pela cor de pele legitimavam a inferioriza&ccedil;&atilde;o dos negros no tempo colonial.</p>  	    <p>Desde a independ&ecirc;ncia (1975), e provavelmente no pr&oacute;ximo s&eacute;culo, a ess&ecirc;ncia da necessidade de demarca&ccedil;&atilde;o identit&aacute;ria dos mesti&ccedil;os mant&eacute;m&#45;se. O alvo tamb&eacute;m se mant&eacute;m na subst&acirc;ncia: o grupo racial que controla o poder pol&iacute;tico, sendo que no per&iacute;odo p&oacute;s&#45;colonial ele mudou de cor de pele. Agora o alvo &eacute; o negro pobre. Sobre ele, os estere&oacute;tipos produzidos pelos mesti&ccedil;os s&atilde;o diversos:</p>  	    <p>O preto que provoca acidentes por conduzir de qualquer maneira; o preto que n&atilde;o sabe viver nos pr&eacute;dios; o preto que bebe sem controlo bebidas tradicionais adulteradas e depois morre ou fica cego; o preto que carrega e alivia os erres a desprop&oacute;sito porque n&atilde;o sabe falar portugu&ecirc;s; o preto que &eacute; gatuno; o preto que tem filhos de qualquer maneira e n&atilde;o se preocupa com o sida; o preto em quem n&atilde;o se pode confiar porque n&atilde;o tem sentido de responsabilidade; o preto que basta ver um tipo com uma camisa um pouco mais limpa e engomada pensa logo que &eacute; uma mina (registos de conversas informais e observa&ccedil;&atilde;o participante, Maputo e Matola, 2010 e 2011).</p>  	    <p>Este tipo de estere&oacute;tipos manifesta&#45;se nos mesmos mesti&ccedil;os que, quase invariavelmente, noutros contextos t&ecirc;m rela&ccedil;&otilde;es cordiais, familiares, de neg&oacute;cios, de trabalho, companheirismo, vizinhan&ccedil;a com negros. S&atilde;o tamb&eacute;m os mesmos mesti&ccedil;os que na actualidade persistem na deprecia&ccedil;&atilde;o do "branco", em especial do branco portugu&ecirc;s, "que tem de vir para Mo&ccedil;ambique porque l&aacute; em Portugal passa mal, mas quando chega c&aacute; &eacute; rei".</p>  	    ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Do lado dos negros mo&ccedil;ambicanos, beneficiando do conforto de serem a maioria com consci&ecirc;ncia do pa&iacute;s ser mais seu do que dos outros, e cuja gest&atilde;o dos destinos pol&iacute;ticos est&aacute; nas m&atilde;os dos seus, as tipifica&ccedil;&otilde;es pejorativas dos "mulatos", quando ocorrem, tendem a ser bem mais expl&iacute;citas, bem menos dissimuladas, expressas com muito maior frontalidade, sendo que tais manifesta&ccedil;&otilde;es s&atilde;o verific&aacute;veis para al&eacute;m do c&iacute;rculo familiar ou &iacute;ntimo, como acontece com os mesti&ccedil;os. No caso destes, as avalia&ccedil;&otilde;es depreciativas dos negros s&atilde;o no geral capt&aacute;veis na informalidade da observa&ccedil;&atilde;o participante o que, na pr&aacute;tica, significa <i>off the record</i>. &Eacute;, portanto, diferente o modo como se manifestam os estere&oacute;tipos negativos dos negros sobre os "mulatos", posto que, neste caso, a presen&ccedil;a de um estranho ou de um gravador n&atilde;o constituem obst&aacute;culos (cf. Bonilla&#45;Silva, 2010). Com este enquadramento, &eacute; veros&iacute;mil considerar que o poder negro p&oacute;s&#45;colonial, de algum modo, foi conferindo legitimidade ao seu grupo de perten&ccedil;a racial para evidenciar determinado tipo de atitudes que, adaptadas aos novos tempos, reconstituem uma postura equivalente &agrave; do poder branco na &eacute;poca colonial que depreciava as "minorias" raciais abertamente no espa&ccedil;o p&uacute;blico, em particular os negros, sendo que o conceito de "minoria" &eacute; aqui entendido n&atilde;o no sentido num&eacute;rico (cf. Tajfel, 1982&#45;1983 &#91;1981&#93;, pp. 351&#45;352; Cabecinhas, 2007, p. 71; Rex, 1987, pp. 25&#45;26), mas no da l&oacute;gica de distribui&ccedil;&atilde;o do poder pol&iacute;tico e econ&oacute;mico. Na sociedade mo&ccedil;ambicana, o &uacute;ltimo, o poder econ&oacute;mico, &eacute; categorizado como um atributo das minorias raciais, ainda que n&atilde;o de forma exclusiva, dado o reconhecimento da exist&ecirc;ncia de uma elite econ&oacute;mica (neste caso tamb&eacute;m pol&iacute;tica) negra.</p>  	    <p><b>"Mulato n&atilde;o tem bandeira"</b></p>  	    <p>"Mulato n&atilde;o tem bandeira" &eacute; uma express&atilde;o proferida de forma despreocupada por mo&ccedil;ambicanos negros. Esta constata&ccedil;&atilde;o n&atilde;o permite concluir, por si s&oacute;, tratar&#45;se de uma representa&ccedil;&atilde;o de teor racista, posto que os estere&oacute;tipos n&atilde;o traduzem necessariamente as pr&aacute;ticas sociais, sendo que &eacute; nas &uacute;ltimas que se situam os bloqueios ao n&iacute;vel do relacionamento inter&#45;racial em determinado contexto social. Prefiro, por isso, adoptar o ponto de vista de Albert Memmi (1993 &#91;1982&#93;, pp. 34&#45;35 e 72) segundo o qual as demarca&ccedil;&otilde;es identit&aacute;rias, mesmo que fundadas no atributo da cor da pele, s&oacute; se transformam em racismo se situadas muito mais ao n&iacute;vel do uso do preconceito ou da estigmatiza&ccedil;&atilde;o do outro, o diferente, para justificar determinadas agress&otilde;es ou retirar da&iacute; uma qualquer vantagem ileg&iacute;tima. N&atilde;o &eacute; isso que se verifica em Mo&ccedil;ambique nas representa&ccedil;&otilde;es sociais das rela&ccedil;&otilde;es entre negros e "mulatos".</p>  	    <p>A g&eacute;nese do estere&oacute;tipo "mulato n&atilde;o tem bandeira" remete para a transi&ccedil;&atilde;o para a independ&ecirc;ncia e tempos que se seguiram (1974&#45;1975). Estava em causa a (re)constitui&ccedil;&atilde;o de uma identidade que rompia, de modo repentino, com a heran&ccedil;a colonial para se afirmar como comunidade nacional de pleno direito. Dominava, por isso, a necessidade de demarca&ccedil;&atilde;o dos diferentes, dos que n&atilde;o se encaixavam ou poderiam amea&ccedil;ar esse sentido de perten&ccedil;a. Destacavam&#45;se os ex&#45;colonos portugueses brancos &#150; por&eacute;m, esses abandonaram ou foram expulsos do pa&iacute;s &#150; e tamb&eacute;m aqueles que, permanecendo no pa&iacute;s inseridos numa sociedade esmagadoramente negra que revolucionava o controlo do poder pol&iacute;tico em seu favor, eram portadores de caracter&iacute;sticas fenot&iacute;picas &#150; a cor da pele n&atilde;o negra &#150; que inevitavelmente os conotava com alguma ambiguidade tendo em conta o reinventado sentido de perten&ccedil;a nacional, destacando&#45;se, naquela conjuntura, os "mulatos". Por muito que os novos poderes da FRELIMO tentassem evitar a sali&ecirc;ncia de atributos raciais na regula&ccedil;&atilde;o da vida social p&oacute;s&#45;colonial, e por muito que o sentido instintivo de autodefesa identit&aacute;ria da minoria mesti&ccedil;a os fizesse (e fa&ccedil;a) explicitar com frequ&ecirc;ncia a sua inequ&iacute;voca perten&ccedil;a &agrave; identidade nacional mo&ccedil;ambicana, os significados pol&iacute;ticos e sociais dos atributos raciais n&atilde;o poderiam (no passado e no presente) ser suprimidos, posto que a cor de pele nunca deixou de ser relevante enquanto referente de orienta&ccedil;&atilde;o e regula&ccedil;&atilde;o das rela&ccedil;&otilde;es sociais e das rela&ccedil;&otilde;es de poder em Mo&ccedil;ambique, como noutras sociedades.</p>  	    <p>Para uma parte dos negros (presumo maiorit&aacute;ria ou esmagadoramente maiorit&aacute;ria) os "mulatos" representariam, na fase de transi&ccedil;&atilde;o de meados dos anos setenta, um dos mais evidentes objectos de atitude indefinidos entre a velha "portugalidade" e a nova "mo&ccedil;ambicanidade". A esse segmento racial facilmente se imputava a paternidade lusitana que sobrava da coloniza&ccedil;&atilde;o e que, de alguma forma, a perpetuava na na&ccedil;&atilde;o independente. Para mais, em &eacute;poca de radicalismos revolucion&aacute;rios, torna&#45;se inaceit&aacute;vel a veleidade, ainda que apenas hipot&eacute;tica, de alguns &#150; na express&atilde;o de um entrevistado do bairro Lu&iacute;s Cabral em Maputo<sup><a href="#11">11</a></sup><a name="top11"></a> &#150; poderem "segurar duas bandeiras" (a velha e a nova) como supostamente os "mulatos" fariam, at&eacute; por lhes ser imposs&iacute;vel libertarem&#45;se do pai branco, por muito que proclamassem a sua ades&atilde;o &agrave; sociedade independente renovada. A ambiguidade racial referida, nesse contexto, acabou descodificada entre os negros (ou parte deles) como o mesmo que "n&atilde;o ter bandeira".</p>  	    <p>Ap&oacute;s a conquista da independ&ecirc;ncia (1975), o segundo grande momento de redefini&ccedil;&atilde;o da identidade mo&ccedil;ambicana &eacute; balizado entre o (re)estabelecimento da paz (1992) e as primeiras elei&ccedil;&otilde;es livres que significaram a institui&ccedil;&atilde;o efectiva do multipartidarismo (1994), acontecimentos iniciais de um per&iacute;odo de estabilidade pol&iacute;tica que se mant&eacute;m na actualidade. A sociedade mo&ccedil;ambicana entrou nessa nova etapa da sua exist&ecirc;ncia fortemente marcada por sinais de anomia social resultantes de um prologado conflito armado (1976/7&#45;1992). Para al&eacute;m da significativa destrui&ccedil;&atilde;o material e desregula&ccedil;&atilde;o das l&oacute;gicas habituais de reprodu&ccedil;&atilde;o social e econ&oacute;mica, cifras imprecisas apontam pelo menos para um milh&atilde;o de v&iacute;timas e desloca&ccedil;&otilde;es massivas de popula&ccedil;&otilde;es, deixando alguns distritos do pa&iacute;s praticamente despovoados com o avan&ccedil;ar da viol&ecirc;ncia (Ribeiro, 2008, pp. 134 e segs.).</p>  	    <p>No p&oacute;s&#45;guerra, nos anos noventa, os problemas associados &agrave; criminalidade urbana assumiram propor&ccedil;&otilde;es sem precedentes. &Eacute; pr&oacute;prio da din&acirc;mica das sociedades encontrar bodes expiat&oacute;rios que permitam domesticar as ansiedades depressivas. Por a&iacute; se explica a progressiva associa&ccedil;&atilde;o representativa do "mulato" a esse novo inc&oacute;modo da vida social: a criminalidade. Agora talvez perdesse algum sentido referenciar o "mulato", nos discursos do senso comum dos negros, por "n&atilde;o ter bandeira", mas sobretudo por ser "mec&acirc;nico ou ladr&atilde;o", no geral "ladr&atilde;o de autom&oacute;veis", numa altura em que a economia e a urbanidade se reanimavam. &Eacute; usual os grupos maiorit&aacute;rios estigmatizarem um ou outro grupo minorit&aacute;rio (sendo a cor da pele e/ou a religi&atilde;o praticada atributos "facilitadores") com o prop&oacute;sito de exorcizarem males sociais particularmente sens&iacute;veis.</p>  	    <p>De qualquer modo, como um dos entrevistados chamou a aten&ccedil;&atilde;o, deve ficar&#45;se sempre na d&uacute;vida se, em Mo&ccedil;ambique, o problema estar&aacute; na discrimina&ccedil;&atilde;o dos "mulatos" pelos negros, se muito mais nos inc&oacute;modos da desregula&ccedil;&atilde;o social associada aos roubos, se no autom&oacute;vel em si enquanto s&iacute;mbolo de afirma&ccedil;&atilde;o social extremamente valorizado<sup><a href="#12">12</a></sup><a name="top12"></a>.</p>  	    <p>A figura do "mulato" funciona, portanto, como bar&oacute;metro das preocupa&ccedil;&otilde;es sociais mais sens&iacute;veis em cada conjuntura do per&iacute;odo p&oacute;s&#45;colonial em Mo&ccedil;ambique: na transi&ccedil;&atilde;o para a independ&ecirc;ncia (1974&#45;1975) estavam em causa problemas de afirma&ccedil;&atilde;o da identidade nacional, exorcizados atrav&eacute;s do "mulato n&atilde;o tem bandeira"; com o surgimento do multipartidarismo (meados dos anos noventa) era necess&aacute;rio encontrar respostas simb&oacute;licas para a criminalidade urbana, numa conjuntura em que as mais variadas institui&ccedil;&otilde;es, do Estado (o "deixa&#45;andar" com que se caracteriza, ainda hoje, a &uacute;ltima d&eacute;cada da presid&ecirc;ncia liderada por Joaquim Chissano) &agrave;s fam&iacute;lias (muitas delas desestruturadas durante a guerra civil e no seu rescaldo), eram percepcionadas como fortemente desreguladas, sendo a resposta simb&oacute;lica encontrada no "mulato &#91;que&#93; &eacute; mec&acirc;nico ou &eacute; ladr&atilde;o &#91;de autom&oacute;veis&#93;". Nessa l&oacute;gica, seria plaus&iacute;vel que o estere&oacute;tipo do "mulato sem bandeira" com o tempo fosse sendo substitu&iacute;do pelo estere&oacute;tipo do "mulato mec&acirc;nico ou ladr&atilde;o &#91;de autom&oacute;veis&#93;". A verdade &eacute; que o material emp&iacute;rico n&atilde;o legitima tal hip&oacute;tese sequencial. O que acontece &eacute; que, na actualidade, como fui verificando no terreno (2010 e 2011), o aparecimento e frequ&ecirc;ncia da segunda express&atilde;o n&atilde;o substitui necessariamente a primeira. S&atilde;o antes estigmas do "mulato" muito mais simult&acirc;neos do que sequenciais neste tempo p&oacute;s&#45;colonial.</p>  	    <p>A constata&ccedil;&atilde;o deixa evidente uma das caracter&iacute;sticas das identidades sociais. Estas, quando assumem um sentido greg&aacute;rio tendencialmente "fechado" ("n&oacute;s <i>versus</i> eles"), podem gerar processos colectivos de transforma&ccedil;&atilde;o social (quando as fronteiras entre grupos s&atilde;o concebidas como imperme&aacute;veis, ao contr&aacute;rio dos processos individuais de mobilidade social que ocorrem quando essas fronteiras s&atilde;o perme&aacute;veis) assentes na necessidade de demarca&ccedil;&atilde;o daqueles que se tomam por amb&iacute;guos por se afastarem de modo mais evidente do n&uacute;cleo central de atributos que condicionam o sentido da perten&ccedil;a identit&aacute;ria (Tajfel, 1982&#45;1983 &#91;1981&#93;). No caso das identidades nacionais, o atributo da cor de pele constitui, por regra, um referente central. Da&iacute; que, na ambiguidade persistente com que se representa o "mulato", reside um dos sintomas tamb&eacute;m persistentes da racializa&ccedil;&atilde;o da sociedade mo&ccedil;ambicana.</p>  	    ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Todavia, a mesti&ccedil;agem n&atilde;o pode ser tipificada como um mero objecto negativo que serve para a coes&atilde;o e refor&ccedil;o do grupo racial maiorit&aacute;rio. Os negros mo&ccedil;ambicanos (mesmo os que em certos contextos alimentam os estigmas referidos) tamb&eacute;m se auto&#45;representam como pr&oacute;ximos dos "mulatos" e, de alguma forma, dos brancos. Bem mais est&aacute;vel e sustentada &eacute; a demarca&ccedil;&atilde;o da maioria negra em rela&ccedil;&atilde;o aos "asi&aacute;ticos" ("indianos", &aacute;rabes ou chineses).</p>  	    <p>Os indiv&iacute;duos negros desfavorecidos, inclusivamente, tendem a valorizar as rela&ccedil;&otilde;es maritais entre brancos e negras (mais raramente entre negros e brancas), fen&oacute;meno que dizem marcar a sociedade mo&ccedil;ambicana da actualidade, distinguindo&#45;a profundamente, a n&iacute;vel racial, da &eacute;poca colonial. S&atilde;o precisamente essas rela&ccedil;&otilde;es que continuam a gerar "mulatos". Os &uacute;ltimos, de uma ou de outra forma, acabam associados &agrave; liga&ccedil;&atilde;o entre os extremos raciais (e socioecon&oacute;micos) daquela sociedade (negros <i>versus</i> brancos). Como as sociedades vivem na expectativa da coes&atilde;o, e tendo como pano de fundo uma sociedade historicamente constitu&iacute;da em torno de negros e brancos, o objecto "mulato" funcionar&aacute;, para as pessoas negras comuns, de algum modo como um dos s&iacute;mbolos da possibilidade de transforma&ccedil;&atilde;o da condi&ccedil;&atilde;o de desvantagem socioecon&oacute;mica em que vivem.</p>  	    <p>Tratando&#45;se de um modelo dominantemente tri&#45;racial (negro&#45;mulato&#45;branco) ou multi&#45;racial (se se inclu&iacute;rem "indianos", chineses e &aacute;rabes), ainda assim em Mo&ccedil;ambique, &agrave; medida que descemos na hierarquia social, crescem as possibilidades de indiv&iacute;duos que se autoclassificam como negros designarem o conjunto de minorias raciais como "brancos", incluindo numa &uacute;nica categoria europeus, indianos, chineses, &aacute;rabes, mesti&ccedil;os/"mulatos". Ainda que o fa&ccedil;am com a consci&ecirc;ncia de que "eles" s&atilde;o todos "brancos", mas "brancos diferentes entre eles". Portanto, este estudo emp&iacute;rico demonstra a possibilidade de, numa mesma sociedade, coexistirem a tri/multi&#45;racialidade e a bi&#45;racialidade (cf. Bonilla&#45;Silva, 2010).</p>  	    <p>Importa acrescentar que n&atilde;o se deve tomar como refer&ecirc;ncia apenas a "objectividade" das diferentes cores de pele, mas tamb&eacute;m as representa&ccedil;&otilde;es sociais que se elaboram de determinadas perten&ccedil;as sociais sustentadas em particularidades como a maneira de vestir, de falar, pr&aacute;ticas religiosas, educa&ccedil;&atilde;o e forma&ccedil;&atilde;o escolar, profiss&atilde;o, tipo de habita&ccedil;&atilde;o e relacionamento familiar (marital e de educa&ccedil;&atilde;o dos filhos), entre outros h&aacute;bitos de vida. No dom&iacute;nio da categoriza&ccedil;&atilde;o do conhecimento social, esse conjunto de h&aacute;bitos &eacute; simplificado atrav&eacute;s de um r&oacute;tulo racial &#150; "isso &eacute; coisa de negro/branco/mulato/monh&eacute;" &#150;, mesmo que n&atilde;o exista uma correspond&ecirc;ncia objectiva entre esse tipo de express&atilde;o e a cor da pele do visado. Trata&#45;se de uma gin&aacute;stica sem&acirc;ntica que, em Mo&ccedil;ambique, por vezes autonomiza a ideia de ra&ccedil;a da ideia da cor da pele.</p>  	    <p>Ouvi durante o trabalho de campo em Mo&ccedil;ambique express&otilde;es sintom&aacute;ticas. Para citar um exemplo, no final de uma entrevista colectiva com tr&ecirc;s estudantes universit&aacute;rias negras em Maputo (07.05.2010), num momento de maior descontrac&ccedil;&atilde;o uma delas disse a outra do grupo: "Ah... tu &eacute;s branca!" Todos percebemos o que a express&atilde;o significava: a visada era precisamente uma das que mais se assumiu como pr&oacute;xima da cultura ocidental e que eu destacaria como a mais possuidora, em rela&ccedil;&atilde;o &agrave;s outras duas, de uma frente pessoal e demais atitudes condizentes. E Mo&ccedil;ambique n&atilde;o &eacute; excep&ccedil;&atilde;o, posto que em sociedades maioritariamente brancas ou negras &eacute; comum considerarem&#45;se os negros de sucesso como n&atilde;o sendo "propriamente" negros ou como sendo "brancos" (Rex, 1986, pp. 94&#45;95).</p>  	    <p><b>"Mulato ou &eacute; mec&acirc;nico ou &eacute; ladr&atilde;o &#91;de autom&oacute;veis&#93;"</b></p>  	    <p>"Mulato ou &eacute; mec&acirc;nico ou &eacute; ladr&atilde;o", acrescentando&#45;se muitas vezes "de autom&oacute;veis", como referi, &eacute; outra express&atilde;o saliente nos discursos de senso comum dos negros mo&ccedil;ambicanos. Importa enquadrar o assunto no tempo longo. Durante a domina&ccedil;&atilde;o portuguesa em Mo&ccedil;ambique reconhecia&#45;se aos "mulatos", praticamente desde os in&iacute;cios do s&eacute;culo XX, habilidades e capacidades para a aprendizagem, em particular de artes e of&iacute;cios, que os colonos brancos negavam aos negros, estes tidos como intelectual e culturalmente incapazes. As atitudes em rela&ccedil;&atilde;o aos negros apenas iriam mudar, ainda assim de forma gradual, a partir de meados do s&eacute;culo. Tendo em conta o aumento crescente da circula&ccedil;&atilde;o autom&oacute;vel com os avan&ccedil;os da coloniza&ccedil;&atilde;o, uma parte do segmento "mulato" foi aprendendo a arte da mec&acirc;nica junto de antigos colonos.</p>  	    <p>Sublinhe&#45;se que o segmento profissional em apre&ccedil;o n&atilde;o se circunscrevia ao ramo autom&oacute;vel, mas contemplava ainda dom&iacute;nios relacionados com a maquinaria dos caminhos&#45;de&#45;ferro, da navega&ccedil;&atilde;o ou de outras actividades t&eacute;cnicas em expans&atilde;o, como a rede el&eacute;ctrica ou a &aacute;gua canalizada. Tratava&#45;se da componente urbana das artes e of&iacute;cios que, para al&eacute;m dos brancos, as fam&iacute;lias mesti&ccedil;as poderiam gerir com alguma autonomia, enquanto a outra componente, a rural, na qual se destacava o ensino das miss&otilde;es, ia preparando alguns nativos negros para outro tipo de profiss&otilde;es, tamb&eacute;m associadas &agrave;s artes e of&iacute;cios, mas com caracter&iacute;sticas menos mec&acirc;nicas e mais de trabalho manual (carpinteiro, pedreiro, alfaiate, cozinheiro, etc.). Portanto, no dom&iacute;nio da prepara&ccedil;&atilde;o profissional para o mercado de trabalho p&oacute;s&#45;tradicional ter&aacute; existido em Mo&ccedil;ambique, praticamente desde o in&iacute;cio da domina&ccedil;&atilde;o colonial efectiva, uma fragmenta&ccedil;&atilde;o entre as actividades urbanas do mundo moderno (mec&acirc;nica e afins) e as actividades do habi&#45;tual mundo artesanal (carpinteiro, pedreiro, etc.) que, de alguma forma, constituiu uma marca origin&aacute;ria que distinguiu o tipo de afirma&ccedil;&atilde;o dos "mulatos" do tipo de afirma&ccedil;&atilde;o dos negros no contexto da sociedade colonial. As consequ&ecirc;ncias dessa g&eacute;nese perduram na actualidade.</p>  	    <p>Um segundo momento justificativo das tend&ecirc;ncias nas representa&ccedil;&otilde;es sociais do relacionamento entre negros e "mulatos" em Mo&ccedil;ambique teve a ver com a sa&iacute;da abrupta dos colonos brancos em meados da d&eacute;cada de setenta. Essa si&#45;tua&ccedil;&atilde;o levou a que, nas primeiras d&eacute;cadas p&oacute;s&#45;coloniais, os "mulatos" se fossem destacando enquanto imagem de marca do sector t&eacute;cnico&#45;profissional urbano. Nesse processo n&atilde;o se ter&aacute; verificado tanto uma ruptura em rela&ccedil;&atilde;o ao passado colonial, antes a afirma&ccedil;&atilde;o e maior sali&ecirc;ncia de uma identidade profissional "mulata" j&aacute; constitu&iacute;da. O "mulato", tamb&eacute;m por essa via, apresentava&#45;se como herdeiro (profissional) do colono branco, "o pai dele", como alguns dizem.</p>  	    <p>Acontece que, como sublinhei, esse momento de transi&ccedil;&atilde;o pol&iacute;tica foi repentino, muito sens&iacute;vel, redefinindo a identidade mo&ccedil;ambicana numa conjuntura em que o segmento "mulato" alimentava ambiguidades dif&iacute;ceis de domesticar pela esmagadora maioria negra (cf. Moscovici, 2000 &#91;1984&#93;, pp. 41 e segs.). Mesmo que a independ&ecirc;ncia estivesse a proporcionar aos negros uma fort&iacute;ssima ascens&atilde;o profissional e social, ainda assim a heran&ccedil;a colonial proporcionava aos "mulatos" (ou mesti&ccedil;os) um <i>know&#45;how</i> que lhes conferia vantagens qualitativas para o exerc&iacute;cio de alguns cargos tecnicamente mais exigentes, incluindo fun&ccedil;&otilde;es de chefia. &Eacute; por isso que as primeiras d&eacute;cadas p&oacute;s&#45;coloniais, se romperam em parte com o tipo de rela&ccedil;&otilde;es raciais herdadas da &eacute;poca colonial, numa outra dimens&atilde;o, em especial no dom&iacute;nio profissional, ter&atilde;o aprofundado o sentimento de desvantagem profissional que os negros j&aacute; anteriormente sentiam em rela&ccedil;&atilde;o aos mesti&ccedil;os/"mulatos". Foi nesse contexto que a estereotipifica&ccedil;&atilde;o negativa da minoria "mulata" pela esmagadora maioria negra passou a dispor de um terreno social mais apelativo do que acontecia na &eacute;poca colonial. Se a independ&ecirc;ncia foi em geral vantajosa, na perspectiva dos mais desfavorecidos sobrou a intui&ccedil;&atilde;o de os mesti&ccedil;os terem sido os maiores benefici&aacute;rios. Por esse prisma, as representa&ccedil;&otilde;es focadas no sector da mec&acirc;nica autom&oacute;vel devem ser interpretadas como sintomas de um fen&oacute;meno social mais amplo.</p>  	    ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Os "mulatos" s&atilde;o ainda marcados por outra caracter&iacute;stica que contribui para a sua desqualifica&ccedil;&atilde;o simb&oacute;lica. Constituem um grupo racial minorit&aacute;rio no qual predomina um estilo de vida de tipo urbano, num pa&iacute;s onde a esmagadora maioria da popula&ccedil;&atilde;o se situa entre o mundo rural e/ou a pobreza (isto &eacute;, trata&#45;se de gente "sem carro"), o que facilita a constru&ccedil;&atilde;o de estere&oacute;tipos que associam o "mulato" ao autom&oacute;vel.</p>  	    <p>Quando nas sociedades os grupos minorit&aacute;rios s&atilde;o estigmatizados significa, na ess&ecirc;ncia, que s&atilde;o avaliados como mais disruptivos do que os indiv&iacute;duos pertencentes &agrave; maioria, as "pessoas normais" (por exemplo, os ciganos nas sociedades ocidentais), e/ou porque &eacute; comum considerar&#45;se que os membros de determinados grupos minorit&aacute;rios alegadamente n&atilde;o respeitam os padr&otilde;es habituais no relacionamento com os outros (por exemplo, a tida como "excessiva" propens&atilde;o dos judeus para acumularem riqueza, tamb&eacute;m nas sociedades ocidentais).</p>  	    <p>Estando em causa a minoria "mulata" mo&ccedil;ambicana num contexto de tendencial anomia p&oacute;s&#45;guerra civil, no caso das cidades de Maputo e Matola a sua estigmatiza&ccedil;&atilde;o pela maioria negra (tend&ecirc;ncia que n&atilde;o se revela nem generalizada nem radical) deve ser articulada com a percep&ccedil;&atilde;o que os indiv&iacute;duos t&ecirc;m da estrutura social da qual s&atilde;o membros. Ou seja, n&atilde;o est&atilde;o em causa pr&aacute;ticas de hostiliza&ccedil;&atilde;o racial propriamente ditas tamb&eacute;m por causa do "efeito classe m&eacute;dia". Explico: a estigmatiza&ccedil;&atilde;o de grupos raciais minorit&aacute;rios apenas se torna potencialmente problem&aacute;tica quando eles s&atilde;o percepcionados como estando nos extremos da estrutura social (ou mais ricos/poderosos ou mais pobres/fracos do que a "m&eacute;dia"). A tese dominante que circula entre os negros em Mo&ccedil;ambique sobre os "mulatos" n&atilde;o encaixa neste padr&atilde;o, podendo ser caracterizada por esta ideia&#45;tipo: "Os mulatos n&atilde;o s&atilde;o t&atilde;o ricos como a elite negra que governa, nem t&atilde;o ricos como alguns brancos estrangeiros ou indianos, mas tamb&eacute;m n&atilde;o s&atilde;o t&atilde;o pobres como a maioria dos negros, e comportam&#45;se de forma amb&iacute;gua entre uns e outros e, quando se destacam naquilo que lhes &eacute; peculiar, &eacute; pela negativa". &Eacute; isso que designo por "efeito classe m&eacute;dia".</p>  	    <p>&Eacute; plaus&iacute;vel, nestas circunst&acirc;ncias, aglutinar nas representa&ccedil;&otilde;es sociais dos "mulatos" a ideia de classe m&eacute;dia. Nas sociedades as classes m&eacute;dias n&atilde;o s&atilde;o em geral problem&aacute;ticas para a estabilidade da vida social precisamente porque, de uma ou de outra forma, a maioria identifica&#45;se com ela ou, pelo menos, n&atilde;o julga imposs&iacute;vel aproximar&#45;se ou aceder a ela. Dito noutros termos, na estrutura social mo&ccedil;ambicana o potencial de conflito racial, mesmo que envolva os mesti&ccedil;os/ "mulatos", est&aacute; muit&iacute;ssimo mais dependente das rela&ccedil;&otilde;es entre negros (maioria) e brancos (minoria). Em situa&ccedil;&otilde;es em que a rela&ccedil;&atilde;o entre esses extremos est&aacute; estabilizada e n&atilde;o alimenta animosidades &#150; como acontece na actualidade em Mo&ccedil;ambique &#150; a estigmatiza&ccedil;&atilde;o do "mulato" funciona mais como v&aacute;lvula de escape simb&oacute;lica para as ansiedades colectivas ("da boca para fora") do que como sintoma de tens&otilde;es inter&#45;raciais.</p>  	    <p>A forte associa&ccedil;&atilde;o dos "mulatos" &agrave; mec&acirc;nica nos discursos do senso comum tem tamb&eacute;m a ver com o modo como, no pensamento social, os grupos raciais s&atilde;o categorizados. Para al&eacute;m de alguns h&aacute;bitos culturais espec&iacute;ficos atribu&iacute;dos a cada um dos segmentos, o crit&eacute;rio da actividade profissional considerado predominante em cada segmento &eacute; bastante saliente. &Eacute; com base nesse crit&eacute;rio, mais do que qualquer outro, que as pessoas comuns avaliam o contributo de cada segmento racial para a vida colectiva. Utilizando o material emp&iacute;rico de Mo&ccedil;ambique, a tese pode ser tipificada nos seguintes termos:</p>  	    <p>O governo do pa&iacute;s &eacute; nosso, dos negros &#91;governar&#93;; n&oacute;s &#91;pobres&#93; trabalhamos para os patr&otilde;es ou fazemos pequenos biscatos quando apanhamos; o indiano est&aacute; s&oacute; a&iacute; nas lojas &#91;com&eacute;rcio formal&#93;; o branco est&aacute; a dirigir as empresas e as f&aacute;bricas &#91;actividade industrial e empresarial formal&#93;; o chin&ecirc;s anda a&iacute; nas obras e no com&eacute;rcio &#91;oper&aacute;rio qualificado ou comerciante formal&#93;; o burund&ecirc;s e esses outros africanos andam a&iacute; no pequeno neg&oacute;cio dos contentores &#91;com&eacute;rcio mais ou menos informal&#93;.</p>  	    <p>&Eacute; com base nesta l&oacute;gica que o "mulato" se destaca como "mec&acirc;nico de autom&oacute;veis". Da&iacute; que seja exagerado radicalizar as particularidades conferidas aos "mulatos" e &agrave; "sua" profiss&atilde;o, uma vez que esses crit&eacute;rios s&atilde;o generaliz&aacute;veis aos diferentes segmentos raciais.</p>  	    <p>De resto, as avalia&ccedil;&otilde;es de senso comum sobre o significado social da mec&acirc;nica autom&oacute;vel s&atilde;o amb&iacute;guas. A actividade em si &eacute; tida como importante para a vida em comum, mas pouco considerada ou mesmo desprez&iacute;vel porque, como alguns entrevistados muitas vezes referem, "n&atilde;o exige estudo, apenas habilidade nas m&atilde;os e tempo para ver, aprender e praticar com os outros mec&acirc;nicos que j&aacute; sabem". Por outras palavras, o "mulato" destaca&#45;se pela habilidade manual supostamente inata o que, sendo um atributo positivo, est&aacute; longe de ser um atributo de excel&ecirc;ncia. Portanto, o "mec&acirc;nico nato" n&atilde;o prima nem pelo intelecto, nem pela educa&ccedil;&atilde;o esmerada ou polidez no trato com os outros, nem ainda por promover actividades que valorizem as outras pessoas al&eacute;m dos pr&oacute;prios. Como alguns negros suburbanos asseguram, "a mec&acirc;nica &eacute; pr&oacute;pria deles, dos mulatos".</p>  	    <p><b>O "mulato" e a "mulata"</b></p>  	    <p>Na generalidade dos ambientes sociais a partilha da vida &iacute;ntima entre indiv&iacute;duos de perten&ccedil;as raciais (e &eacute;tnicas) diferentes funciona como reduto particularmente sens&iacute;vel para as pessoas comuns atestarem o "racismo" ou o "n&atilde;o racismo" do grupo de perten&ccedil;a "xis" ou "&iacute;psilon" (cf. Bonilla&#45;Silva, 2010). No caso de Mo&ccedil;ambique o casamento ou rela&ccedil;&atilde;o marital inter&#45;racial revela&#45;se precisamente um dos crit&eacute;rios a que os indiv&iacute;duos recorrem para tender a categorizar os brancos e os "indianos" em extremos opostos, respectivamente, o extremo positivo e o extremo negativo no tipo de rela&ccedil;&atilde;o que se sup&otilde;e que estabelecem com a maioria negra. Uma frase&#45;tipo que circula nos bairros suburbanos de Maputo e Matola &eacute; esta:</p>  	    ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Os brancos de agora &#91;p&oacute;s&#45;coloniais&#93; casam com negras sem problemas, mesmo algumas brancas casam com negros. Indiano com uma negra?! Nunca vi. Se existe &eacute; muito raro. Pior se for indiana com um negro. Casam entre eles.</p>  	    <p>Portanto, as pessoas comuns, negras, tendem a considerar que as rela&ccedil;&otilde;es amorosas negro&#45;branco constituem uma caracter&iacute;stica cada vez mais frequente e n&atilde;o problem&aacute;tica da sociedade mo&ccedil;ambicana.</p>  	    <p>Na longa dura&ccedil;&atilde;o, o aparecimento em Mo&ccedil;ambique de fam&iacute;lias com descend&ecirc;ncia racial miscigenada remonta &agrave; &eacute;poca da ocupa&ccedil;&atilde;o colonial efectiva. Com o avan&ccedil;ar do s&eacute;culo XX, essa descend&ecirc;ncia "mulata" foi&#45;se consolidando como segmento aut&oacute;nomo em rela&ccedil;&atilde;o aos grupos dominantes (negros, a popula&ccedil;&atilde;o aut&oacute;ctone, e brancos, os detentores do poder), ao mesmo tempo que, no seu interior, consolidaram&#45;se tamb&eacute;m diferen&ccedil;as, com destaque para a que demarcava o "mulato" de origem rural do "mulato" de origem urbana.</p>  	    <p>Quanto ao primeiro tipo, o "mulato" de origem rural (cf. romance de J. P. Borges Coelho, <i>O Olho de Hertzog</i>, 2010), normalmente perfilhado pelo pai branco, era socializado e educado na fam&iacute;lia negra materna, mas debaixo da tutela paterna, mesmo que distante. Em alguns casos, esses filhos eram trazidos pelos pais brancos para serem educados na cidade passada a primeira inf&acirc;ncia. Uma vez junto do pai, estabelecia&#45;se um distanciamento formal da matriz africana, mas n&atilde;o necessariamente uma ruptura com essa matriz, caracter&iacute;stica que sobressa&iacute;a de forma mais ou menos expl&iacute;cita, mesmo que numa tend&ecirc;ncia de dor reprimida, como a que se manifesta na express&atilde;o po&eacute;tica dos mesti&ccedil;os onde o objecto m&atilde;e&#45;negra acabou por ser uma constante. &Eacute; a esse n&uacute;cleo que pertence a elite "mulata", considerada em Mo&ccedil;ambique na &eacute;poca colonial os "mulatos de primeira".</p>  	    <p>O segundo tipo, o "mulato" de gesta&ccedil;&atilde;o urbana, tipifica o enjeitado, o "mulato de uma quinhenta", a express&atilde;o insultuosa de senso comum com que durante d&eacute;cadas esse tipo de "mulato" foi rotulado por brancos e negros. Esta variante urbana do "mulato" acaba por ser, por isso, a socialmente desconsiderada.</p>  	    <p>De qualquer modo, os "mulatos" tendem a ser percepcionados pela esmagadora maioria negra "apenas" como "mulatos", ou seja, a percep&ccedil;&atilde;o da fragmenta&ccedil;&atilde;o da minoria racial em "mulatos de primeira", "mulatos de segunda" ou "mulatos de terceira" (ou "mulatos da Mahafil" como se diz em Maputo<sup><a href="#13">13</a></sup><a name="top13"></a>) era muito mais um fen&oacute;meno das elites e, sobretudo, dos pr&oacute;prios mesti&ccedil;os.</p>  	    <p>Os "mulatos de primeira" eram os mais pr&oacute;ximos do poder colonial e da elite branca, sendo que tal estatuto n&atilde;o era necessariamente definido em fun&ccedil;&atilde;o de uma cor de pele mais clara (por exemplo, resultante da uni&atilde;o entre branco e mulata), antes pela import&acirc;ncia da paternidade branca e educa&ccedil;&atilde;o pr&oacute;prias de classes m&eacute;dias ou mesmo de elites portuguesas. Segundo foi referido numa entrevista<sup><a href="#14">14</a></sup><a name="top14"></a>, a extens&atilde;o da ma&ccedil;onaria a um grupo restrito de brancos privilegiados que vivia em Mo&ccedil;ambique ainda na primeira metade do s&eacute;culo XX contribuiu para que os "mulatos de primeira" se afirmassem, uma vez que a organiza&ccedil;&atilde;o for&ccedil;ava os seus membros a n&atilde;o abandonarem nenhum dos filhos e a educarem&#45;nos, mesmo os ileg&iacute;timos tidos com negras ou mesti&ccedil;as. Esses "mulatos" foram&#45;se destacando na sociedade colonial. De qualquer modo, como tamb&eacute;m foi referido numa outra entrevista<sup><a href="#15">15</a></sup><a name="top15"></a> e em conversas informais, este grupo demarcava&#45;se intencionalmente do poder branco, procurando a sua autonomia, no geral atrav&eacute;s de casamento no interior do pr&oacute;prio grupo e estereotipando de forma negativa o branco, generalizando a partir do suposto modelo do branco pobre, o "maguerre", conforme caracterizei.</p>  	    <p>Os "mulatos de segunda" teriam um estatuto interm&eacute;dio. N&atilde;o eram enjeitados pela paternidade, mas tamb&eacute;m n&atilde;o possu&iacute;am a educa&ccedil;&atilde;o esmerada da elite mulata. Ainda assim, alguns conseguiram destacar&#45;se em cargos administrativos ou ao n&iacute;vel da intelectualidade da col&oacute;nia.</p>  	    <p>Os restantes eram os "mulatos" pobres, os mais estigmatizados, os "mulatos de uma quinhenta", descend&ecirc;ncia urbana n&atilde;o perfilhada ou cujos pais eram brancos, mas de baixa condi&ccedil;&atilde;o social. Tratando&#45;se de cidades com tr&acirc;nsito portu&aacute;rio crescente &#150; como Louren&ccedil;o Marques e Beira, mas tamb&eacute;m em menor escala Quelimane ou Nacala/Nampula &#150; alguns desses "mulatos" eram descendentes de pais brancos, mas de outras nacionalidades que n&atilde;o a portuguesa: gregos, &aacute;rabes (sobretudo s&iacute;rios e libaneses), brit&acirc;nicos, entre outros.</p>  	    <p>Em meados da d&eacute;cada de setenta, com a transi&ccedil;&atilde;o de Mo&ccedil;ambique para a independ&ecirc;ncia, as l&oacute;gicas da hierarquia interna do segmento "mulato" sofreriam altera&ccedil;&otilde;es significativas. Com a sa&iacute;da do pa&iacute;s da esmagadora maioria dos colonos brancos e de uma parte da elite mesti&ccedil;a, e a consequente reconfigura&ccedil;&atilde;o profunda da estrutura racial da sociedade mo&ccedil;ambicana, um dos efeitos acabou por ser o da homogeneiza&ccedil;&atilde;o do segmento racial "mulato", isto &eacute;, as diferen&ccedil;as existentes no interior do grupo entre "mulatos de primeira", "mulatos de segunda" ou "mulatos de Mahafil" perderam sentido. Dadas as circunst&acirc;ncias, o segmento "mulato" assumiu a fun&ccedil;&atilde;o racial de relevante "outro" para a renovada esmagadora maioria negra. Sublinhe&#45;se que, ao n&iacute;vel do pensamento social, as sociedades tendem invariavelmente a ser interpretadas como funcionando com base em antagonismos, no caso raciais (negros <i>versus</i> n&atilde;o negros) (cf. Moscovici, 2000).</p>  	    ]]></body>
<body><![CDATA[<p>A dilui&ccedil;&atilde;o das diferen&ccedil;as entre os mesti&ccedil;os era tamb&eacute;m, de alguma forma, uma heran&ccedil;a das transforma&ccedil;&otilde;es na sociedade colonial que, na fase final (a partir dos anos sessenta), foi marcada pelos avan&ccedil;os da escolariza&ccedil;&atilde;o e pela integra&ccedil;&atilde;o crescente de mesti&ccedil;os no aparelho administrativo e profissional do Estado nessa &eacute;poca, minimizando o peso das heran&ccedil;as elitistas paternas. Para o per&iacute;odo revolucion&aacute;rio p&oacute;s&#45;colonial, &eacute; necess&aacute;rio ter ainda em conta a press&atilde;o do projecto igualitarista inspirado pela ortodoxia marxista&#45;leninista&#45;mao&iacute;sta da &eacute;poca do presidente Samora Machel (1975&#45;1986), explicitamente intolerante, no plano dos princ&iacute;pios, face &agrave;s diferen&ccedil;as sociais por raz&otilde;es raciais ou &eacute;tnicas.</p>  	    <p>Desse longo processo de diferencia&ccedil;&atilde;o interna, nos discursos de senso comum dominantes na actualidade nos bairros suburbanos de Maputo e Matola sobraram na actualidade as diferen&ccedil;as de g&eacute;nero entre o "mulato" e a "mulata". Se partirmos do pressuposto de que a ideia&#45;base &eacute; a de eles resultarem de pai branco e m&atilde;e negra, infere&#45;se uma projec&ccedil;&atilde;o nos "mulatos" do complexo de &Eacute;dipo, incluindo a variante de complexo de &Eacute;dipo no feminino ou complexo de Electra.</p>  	    <p>A ideia de senso comum dos negros &eacute; a de o "mulato" ser pr&oacute;ximo da m&atilde;e&#45;negra e, por isso, aproxima&#45;se e relaciona&#45;se sem problemas com os negros, mesmo os pobres. Precisamente por essa proximidade, na vers&atilde;o negativa o "mulato" &eacute; tido como o instigador e l&iacute;der dos maus comportamentos dos negros. Numa entrevista foi dito que:</p>  	    <p>Se n&oacute;s os tr&ecirc;s &#91;eu, entrevistador mulato, o meu guia e entrevistado negros&#93; f&ocirc;ssemos juntos a Maputo &#91;est&aacute;vamos na Matola, num bairro pobre&#93; era natural que a pol&iacute;cia nos pedisse a identifica&ccedil;&atilde;o porque sabe que ali h&aacute; malandragem<sup><a href="#16">16</a></sup><a name="top16"></a>.</p>  	    <p>Noutra entrevista:</p>  	    <p>As pessoas &#91;negras&#93; sabem que quando algu&eacute;m da fam&iacute;lia arranjou um amigo mulato lamentam a sorte. As pessoas t&ecirc;m na cabe&ccedil;a que o mulato tem tudo o que &eacute; mau na cabe&ccedil;a dele. &Eacute; como se fosse a jun&ccedil;&atilde;o dos males das duas ra&ccedil;as &#91;negra e branca&#93;<sup><a href="#17">17</a></sup><a name="top17"></a>.</p>  	    <p>Portanto, projecta&#45;se a responsabilidade daquilo que h&aacute; de negativo no <i>in&#45;group</i> (negro) no <i>out&#45;group</i> ("mulato"). A atitude assemelha&#45;se, como sempre, bem mais a um ritual de exorcismo simb&oacute;lico da identidade negra &#150; que tem consci&ecirc;ncia dos problemas de criminalidade provocados pelos negros &#150; do que a uma pr&aacute;tica racial discriminat&oacute;ria contra os "mulatos".</p>  	    <p>No caso das avalia&ccedil;&otilde;es entre os negros sobre a "mulata", quando elas se manifestam, &eacute; o oposto. Tende a considerar&#45;se que ela afasta&#45;se dos negros (o lado materno) para se "encostar" ao lado do branco (do pai). Por isso, quanto mais as "mulatas" s&atilde;o catalogadas como mulheres bonitas, mais s&atilde;o rotuladas de "muito orgulhosas" ou "distantes". A frase&#45;tipo &eacute;: "N&atilde;o s&atilde;o todas assim, mas muitas passam por uma pessoa, como n&oacute;s estamos aqui assim agora a conversar &agrave; porta de casa, e nem cumprimentam, mesmo quando moram perto e sabem quem somos".</p>  	    <p>Numa variante um pouco mais elitista e agressiva, num conv&iacute;vio numa fam&iacute;lia negra de classe m&eacute;dia/alta em Maputo (2010) ouvi a express&atilde;o: "mulata &eacute; puta ou secret&aacute;ria".</p>  	    <p>Todavia, mesmo entre as jovens universit&aacute;rias negras &eacute; recorrente detectar a ideia de, em algum momento da sua vida (na inf&acirc;ncia, na adolesc&ecirc;ncia ou na idade adulta), terem ambicionado casar&#45;se ou terem uma rela&ccedil;&atilde;o marital preferencial com um branco. Se a isso acrescentarmos o facto de serem muito mais os homens brancos do que as mulheres brancas a manterem relacionamentos dessa natureza com indiv&iacute;duos negros, logo a tend&ecirc;ncia do g&eacute;nero feminino para a procura de parceiros ou c&ocirc;njuges de pele mais clara n&atilde;o &eacute; uma exclusividade das "mulatas", nem das negras, nem das brancas.</p>  	    ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Quer entre os negros suburbanos, quer entre os jovens universit&aacute;rios negros, detectei ainda alguma propens&atilde;o nos seus discursos para associarem os "mulatos" (eles e elas) ao consumo de estupefacientes, &agrave; vida f&aacute;cil, &agrave; falta de apet&ecirc;ncia para o estudo, trabalho ou vida honesta, a comportamentos verbais de quem sabe e pode tudo mas, depois, na pr&aacute;tica &eacute; um logro. Sobre o &uacute;ltimo atributo nos bairros suburbanos captei por diversas vezes a express&atilde;o: "Mulato &eacute; <i>shofista</i>!", neologismo de inspira&ccedil;&atilde;o angl&oacute;fona que significa que o "mulato" e a "mulata" vivem do <i>show&#45;off</i>, s&atilde;o exibicionistas.</p>  	    <p>Quando informalmente confrontei um ou outro "mulato" com este tipo de avalia&ccedil;&otilde;es, as reac&ccedil;&otilde;es passaram pela desvaloriza&ccedil;&atilde;o ("n&atilde;o s&atilde;o todos os negros que pensam isso, mas uma minoria") ou pela reac&ccedil;&atilde;o agressiva de responder na mesma moeda ("pensamos o mesmo deles").</p>  	    <p>Outra variante revelou&#45;se numa sess&atilde;o que dirigi na Universidade Polit&eacute;cnica de Maputo sobre o tema das rela&ccedil;&otilde;es raciais (29.04.2010). A turma era composta por uma esmagadora maioria negra e uma percentagem reduzid&iacute;ssima de mesti&ccedil;os. Saliento a interven&ccedil;&atilde;o de uma aluna "mulata" (assim se autodefinia) que contestava o facto de alguns alunos terem antes referido a tend&ecirc;ncia das pessoas, na sua universidade, para se fecharem no seu grupo racial, insinuando&#45;se uma atitude discriminat&oacute;ria que atingia os negros. A aluna defendeu que essas situa&ccedil;&otilde;es aconteciam devido ao complexo de inferioridade dos negros, considerando que estes t&ecirc;m dificuldades de auto&#45;afirma&ccedil;&atilde;o, ao contr&aacute;rio dos "mulatos", que se relacionam mais facilmente fora do seu grupo. Quando um grupo conversava informalmente, independentemente das perten&ccedil;as raciais das pessoas, o "mulato" "Vai l&aacute; e fala!", argumentou a aluna, defendendo que deveriam ser os negros a afirmar&#45;se para verem que n&atilde;o seriam rejeitados: "O mulato imp&otilde;e&#45;se e o negro tem de se impor". Nessa sequ&ecirc;ncia, um outro aluno, negro, disse que se aproximava sem problemas de qualquer grupo racial na universidade, mas reconheceu que ele pr&oacute;prio alimentava certos estere&oacute;tipos. Contou que em certa ocasi&atilde;o estava ao p&eacute; de um grupo de colegas seus brancos e depois afastou&#45;se. Um outro aluno negro foi juntar&#45;se a esse grupo de brancos e ele, &agrave; dist&acirc;ncia, ter&aacute; comentado, sem que existissem raz&otilde;es para isso, "L&aacute; est&atilde;o os senhores e o escravo!".</p>  	    <p>O epis&oacute;dio relatado circunscreve&#45;se a uma situa&ccedil;&atilde;o institucional espec&iacute;fica: a sala de aulas de uma universidade da cidade de Maputo. Todavia, permite ratificar algumas das teses defendidas ao longo desta an&aacute;lise: as demarca&ccedil;&otilde;es raciais s&atilde;o ineg&aacute;veis na sociedade mo&ccedil;ambicana; elas traduzem&#45;se na elabora&ccedil;&atilde;o de estere&oacute;tipos de parte a parte; os estere&oacute;tipos negativos n&atilde;o s&atilde;o excessivamente generaliz&aacute;veis, nem suportam atitudes sistem&aacute;ticas ou potenciais de agressividade face ao outro; os estere&oacute;tipos tamb&eacute;m n&atilde;o bloqueiam de forma ostensiva os contactos inter&#45;raciais; por &uacute;ltimo, &eacute; um erro de an&aacute;lise tipificar de modo simplista o conjunto complexo de elementos emp&iacute;ricos dispon&iacute;veis, no sentido de se catalogarem uns de "racistas" e outros de "v&iacute;timas".</p>  	    <p><b>Conclus&atilde;o</b></p>  	    <p>Em jeito de conclus&atilde;o, destaco: (i) o facto de o sentido de perten&ccedil;a racial ser relevante na sociedade mo&ccedil;ambicana, embora o potencial de tens&atilde;o inter&#45;racial tenda a circunscrever&#45;se &agrave;s elites e classes m&eacute;dias que pesam pouco na estrutura da sociedade, esmagadoramente dominada por segmentos sociais desfavorecidos e mais propensos &agrave; desvaloriza&ccedil;&atilde;o dos antagonismos raciais; (ii) as representa&ccedil;&otilde;es sociais das mesti&ccedil;agens raciais s&atilde;o tipificadas com maior efic&aacute;cia se centradas no objecto "mulato"; (iii) nas avalia&ccedil;&otilde;es da maioria negra os "mulatos" ou s&atilde;o neutros ("s&atilde;o como n&oacute;s, negros") ou, quando se destacam, &eacute; pela negativa: "mulato &eacute; filho de uma quinhenta" (tempo colonial); "mulato n&atilde;o tem bandeira" (gerada na transi&ccedil;&atilde;o para a independ&ecirc;ncia); e "mulato ou &eacute; mec&acirc;nico ou &eacute; ladr&atilde;o" (gerada no rescaldo da guerra civil); (iv) no per&iacute;odo p&oacute;s&#45;colonial a figura do "mulato" tem sido instrumentalizada pela maioria negra para domesticar ansiedades suscitadas por fen&oacute;menos sociais perturbadores; (v) ainda assim, a demarca&ccedil;&atilde;o entre negros e "mulatos" mo&ccedil;ambicanos enquadra&#45;se muito mais no dom&iacute;nio da diferencia&ccedil;&atilde;o entre grupos de perten&ccedil;a do que numa situa&ccedil;&atilde;o de potencial conflito inter&#45;racial; (vi) a terminar, a persistente ambiguidade do objecto de atitude analisado tem tamb&eacute;m a ver com o facto de a "mulata" tender a ser avaliada como distante dos negros porque pr&oacute;xima da identidade do pai branco e o "mulato" como pr&oacute;ximo da identidade da m&atilde;e negra, mas essa proximidade n&atilde;o &eacute; necessariamente construtiva.</p> 	    <p>&nbsp;</p> 	    <p><b>Refer&ecirc;ncias</b></p>  	    <!-- ref --><p>Bonilla&#45;Silva, E. (2010). <i>Racism without racists. Color&#45;blind racism &amp; racial inequality in contemporary America</i> (3<sup>th</sup> ed.). Nova Iorque: Rowman &amp; Littlefield.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000121&pid=S1645-3794201200010000200001&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>  	    ]]></body>
<body><![CDATA[<!-- ref --><p>Cabecinhas, R. (2007). <i>Preto e branco. A naturaliza&ccedil;&atilde;o da discrimina&ccedil;&atilde;o racial</i>. Porto: Campo das Letras.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000123&pid=S1645-3794201200010000200002&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>  	    <!-- ref --><p>Eagly, A. H., &amp; Chaiken, S. (1993). <i>The psychology of attitudes</i>. Fort Worth, TX: Harcourt Brace Jovanovich College.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000125&pid=S1645-3794201200010000200003&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>  	    <!-- ref --><p>Elias, N. (2008). <i>Introdu&ccedil;&atilde;o &agrave; Sociologia</i> (M. L. Ribeiro Ferreira, Trad.). Lisboa: Edi&ccedil;&otilde;es 70. (Obra original publicada em 1970).    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000127&pid=S1645-3794201200010000200004&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>  	    <!-- ref --><p>Goffman, E. (1963). <i>Stigma. Notes on the management of spoiled identity</i>. Nova J&eacute;rsia: Pinguin.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000129&pid=S1645-3794201200010000200005&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>  	    <!-- ref --><p>Memmi, A. (1993). <i>O racismo</i> (N. Pacheco &amp; M. Terraseca, Trads.). Lisboa: Caminho. (Obra original publicada em 1982).    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000131&pid=S1645-3794201200010000200006&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>  	    ]]></body>
<body><![CDATA[<!-- ref --><p>McGarty, C. (1999). <i>Categorization in social psychology.</i> London: Sage.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000133&pid=S1645-3794201200010000200007&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>  	    <!-- ref --><p>Moscovici, S. (2000 &#91;1984&#93;). The phenomenon of social representations. In Duveen, G., &amp; Moscovici, S. (Eds.), <i>Social representations. Explorations in social psychology</i> (pp. 18&#45;77). Cambridge: Polity. (Obra original publicada em 1984).    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000135&pid=S1645-3794201200010000200008&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>  	    <!-- ref --><p>Moscovici, S., &amp; Vignaux, G. (2000). The concept of themata. In Duveen, G., &amp; Moscovici, S. (Eds.), <i>Social representations. Explorations in social psychology</i> (pp. 156&#45;183). Cambridge: Polity. (Obra original publicada em 1994).    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000137&pid=S1645-3794201200010000200009&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>  	    <!-- ref --><p>Moscovici, S., &amp; Markov&aacute;, I. (2000). Ideas and their development: A dialogue between Serge Moscovici and Ivana Markov&aacute;. In Duveen, G., &amp; Moscovici, S. (Eds.), <i>Social representations. Explorations in social psychology</i> (pp. 224&#45;286). Cambridge: Polity. (Obra original publicada em 1998).    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000139&pid=S1645-3794201200010000200010&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>  	    <!-- ref --><p>Rex, J. (1987). <i>Race relations in sociological theory</i> (2<sup>nd</sup> ed.). Londres: Routledge &amp; Kegan Paul. (Obra original publicada em 1970).    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000141&pid=S1645-3794201200010000200011&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>  	    ]]></body>
<body><![CDATA[<!-- ref --><p>Rex, J. (1986). <i>Race and ethnicity</i>. UK: Open University Press.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000143&pid=S1645-3794201200010000200012&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>  	    <!-- ref --><p>Ribeiro, G. M. (2008). <i>O pensamento social sobre o pol&iacute;tico em Mo&ccedil;ambique. Estudo de caso da cidade de Tete</i>. Tese de doutoramento n&atilde;o publicada, ISCTE &#45; Instituto Universit&aacute;rio de Lisboa, Lisboa, Portugal.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000145&pid=S1645-3794201200010000200013&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>  	    <!-- ref --><p>Tajfel, H. (1982&#45;1983 &#91;1981&#93;). <i>Grupos humanos e categorias sociais. Estudos em psicologia social (vols. I e II)</i>. Lisboa: Livros Horizonte.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000147&pid=S1645-3794201200010000200014&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>  	    <!-- ref --><p>Weber, M. (1997). <i>Conceitos sociol&oacute;gicos fundamentais</i> (A. Mor&atilde;o, Trad.). Lisboa: Edi&ccedil;&otilde;es 70. (Obra original publicada em 1909&#45;1913).    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000149&pid=S1645-3794201200010000200015&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>  	    <p>&nbsp;</p> 	    <p><i>Recebido 12 de fevereiro de 2012; Aceite para publica&ccedil;&atilde;o 15 de abril de 2012</i></p> 	    ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p> 	    <p><b>Notas</b></p>  	    <p><sup><a name="1"></a><a href="#top1">1</a></sup>&nbsp;&nbsp; Frase dita a um escritor e acad&eacute;mico mo&ccedil;ambicano por um admirador negro numa recep&ccedil;&atilde;o oficial. Numa outra conversa privada, algu&eacute;m com fun&ccedil;&otilde;es pol&iacute;ticas de elevada responsabilidade considerava&#45;o a pessoa mais indicada para o exerc&iacute;cio de determinado cargo p&uacute;blico, por&eacute;m lamentou&#45;se: "Eh p&aacute;!, n&atilde;o tens a cor necess&aacute;ria...".</p>  	    <p><sup><a name="2"></a><a href="#top2">2</a></sup>&nbsp;&nbsp; Dada a sensibilidade do tema e as caracter&iacute;sticas da sociedade em causa na qual o poder do Estado ou das entidades patronais pode, em situa&ccedil;&otilde;es pontuais, traduzir&#45;se em consequ&ecirc;ncias negativas para quem manifeste certas opini&otilde;es, adopto o crit&eacute;rio de proteger as identidades dos entrevistados, informando&#45;os dessa op&ccedil;&atilde;o. Sou ainda parcimonioso na divulga&ccedil;&atilde;o de elementos identificativos das entrevistas, posto que o que est&aacute; em causa &eacute; a an&aacute;lise de tend&ecirc;ncias gerais do pensamento social. Pelas mesmas raz&otilde;es, deixo aos entrevistados a decis&atilde;o da grava&ccedil;&atilde;o da conversa. Alguns preferem n&atilde;o gravar. Nesses casos, procedo a breves anota&ccedil;&otilde;es para n&atilde;o perturbar a din&acirc;mica do di&aacute;logo e, logo a seguir &agrave; entrevista, registo de mem&oacute;ria os dados relevantes da mesma do modo mais exaustivo poss&iacute;vel e, por vezes, frases textuais. Nunca realizo uma nova entrevista sem proceder ao registo completo da anterior.</p>  	    <p><sup><a name="3"></a><a href="#top3">3</a></sup>&nbsp;&nbsp; O tratamento do conjunto das recolhas (entrevistas, registos de conversais informais, de situa&ccedil;&otilde;es de observa&ccedil;&atilde;o participante ou tradu&ccedil;&otilde;es de uma l&iacute;ngua nacional para o portugu&ecirc;s) implica alguma flexibilidade metodol&oacute;gica. Valorizo de igual modo tanto os registos gravados e total ou parcialmente transcritos, contendo o que de facto foi dito, quanto os registos escritos diferidos. Em certos casos elaboro express&otilde;es&#45;tipo ou ideias&#45;tipo no sentido weberiano, formula&ccedil;&otilde;es abstractas, por&eacute;m fortemente sustentadas no conjunto do material emp&iacute;rico de que disponho. Ter como mat&eacute;ria&#45;prima discursos de senso comum implica estrat&eacute;gias como as que adopto para captar e analisar o que &eacute; subjectivo, mas decisivo, na vida das sociedades: o pensamento de senso comum. Fa&ccedil;o minhas as palavras do psic&oacute;logo social Serge Moscovici: "<i>Methods are only means toward an end. If they become an end or a criterion of the selection of topics and ideas, then they are just another form of professional censorship. So you can call me a methodological opportunist and I will not feel insulted</i>" (Moscovici &amp; Markov&aacute;, 2000, p. 268).</p>  	    <p><sup><a name="4"></a><a href="#top4">4</a></sup>&nbsp;&nbsp; No caso dos "brancos" refiro&#45;me aos origin&aacute;rios ou descendentes de europeus. Tratarei do assunto especificamente num pr&oacute;ximo texto.</p>  	    <p><sup><a name="5"></a><a href="#top5">5</a></sup>&nbsp;&nbsp; Entre os romances de Jorge Amado, destacou <i>Capit&atilde;es da areia</i> (1937) e a trilogia <i>Os subterr&acirc;neos da liberdade</i> (1954) &#150; entrevista na cidade de Maputo a 06.05.2010.</p>  	    <p><sup><a name="6"></a><a href="#top6">6</a></sup>&nbsp;&nbsp; A express&atilde;o "africaniza&ccedil;&atilde;o do poder" assume aqui um conte&uacute;do muito mais racial do que de (re)tradicionaliza&ccedil;&atilde;o ou etniza&ccedil;&atilde;o das rela&ccedil;&otilde;es de poder.</p>  	    <p><sup><a name="7"></a><a href="#top7">7</a></sup>&nbsp;&nbsp; No sentido da promo&ccedil;&atilde;o da diversidade racial na distribui&ccedil;&atilde;o dos cargos no aparelho de Estado ou no sentido de uma maior propens&atilde;o para reservar esses cargos &agrave; maioria racial negra.</p>  	    <p><sup><a name="8"></a><a href="#top8">8</a></sup>&nbsp;&nbsp; Por exemplo, entrevistas na cidade de Maputo a 29.04.2010 e a 18.06.2010.</p>  	    ]]></body>
<body><![CDATA[<p><sup><a name="9"></a><a href="#top9">9</a></sup>&nbsp;&nbsp; Entrevista na cidade de Maputo a 08.06.2010.</p>  	    <p><sup><a name="10"></a><a href="#top10">10</a></sup>&nbsp; Entrevista na cidade da Matola a 09.06.2010.</p>  	    <p><sup><a name="11"></a><a href="#top11">11</a></sup>&nbsp; Entrevista a 02.02.2011.</p>  	    <p><sup><a name="12"></a><a href="#top12">12</a></sup>&nbsp; Entrevista na cidade de Maputo a 01.06.2010.</p>  	    <p><sup><a name="13"></a><a href="#top13">13</a></sup>&nbsp; A designa&ccedil;&atilde;o tem a ver com a &aacute;rea suburbana com uma forte identidade mulata na era colonial onde se fundou um clube &#150; Grupo Desportivo da Mahafil &#150; que aglutinava os "mulatos" de origem pobre.</p>  	    <p><sup><a name="14"></a><a href="#top14">14</a></sup>&nbsp; Entrevista na cidade de Maputo a 06.05.2010.</p>  	    <p><sup><a name="15"></a><a href="#top15">15</a></sup>&nbsp; Entrevista na cidade de Maputo a 08.06.2010.</p>  	    <p><sup><a name="16"></a><a href="#top16">16</a></sup>&nbsp; Entrevista na cidade da Matola a 19.02.2011.</p>  	    <p><sup><a name="17"></a><a href="#top17">17</a></sup>&nbsp; Entrevista na cidade da Matola (Matola&#45;Gare) a 16.02.2011.</p> 	    <p>&nbsp;</p>         ]]></body>
<body><![CDATA[<p><b>ANEXO</b></p>         <p>Trabalho de campo em Mo&ccedil;ambique</p>         <p>Maputo/Matola</p>         <p>&nbsp;</p>         <p><i>Entrevistas/Entrevistados</i></p>         <p><img src="/img/revistas/cea/n23/n23a02t1.jpg" width="650" height="236"></p>         
<p>&nbsp;</p>         <p><i>Distribui&ccedil;&atilde;o por sexo</i></p>         <p><img src="/img/revistas/cea/n23/n23a02t2.jpg" width="600" height="194"></p>         
<p>&nbsp;</p>         ]]></body>
<body><![CDATA[<p><i>Distribui&ccedil;&atilde;o por idades</i></p>         <p><img src="/img/revistas/cea/n23/n23a02t3.jpg" width="600" height="379"></p>         
<p>&nbsp;</p>         <p><i>Distribui&ccedil;&atilde;o por perten&ccedil;as raciais</i></p>         <p><img src="/img/revistas/cea/n23/n23a02t4.jpg" width="600" height="289"></p>         
<p>&nbsp;</p>         <p><i>Locais de realiza&ccedil;&atilde;o de entrevistas</i></p>         <p><b>2010</b></p>         <p>Bairros de Maputo (13)</p>         <p><img src="/img/revistas/cea/n23/n23a02t5.jpg" width="600" height="72"></p>         
]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>         <p>Outros locais em Maputo (15)</p>         <p><img src="/img/revistas/cea/n23/n23a02t6.jpg" width="600" height="73"></p>         
<p>&nbsp;</p>         <p>Bairros da Matola (08)</p>         <p><img src="/img/revistas/cea/n23/n23a02t7.jpg" width="600" height="57"></p>         
<p>&nbsp;</p>         <p>Outros locais na Matola (02)</p>         <p><img src="/img/revistas/cea/n23/n23a02t8.jpg" width="250" height="134"></p>         
<p>&nbsp;</p>         ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Entrevista de controlo 2010 (01)</p>         <p><img src="/img/revistas/cea/n23/n23a02t9.jpg" width="385" height="131"></p>         
<p>&nbsp;</p>         <p><b>2011</b></p>         <p>Bairros de Maputo (12)</p>         <p><img src="/img/revistas/cea/n23/n23a02t10.jpg" width="600" height="57"></p>         
<p>&nbsp;</p>         <p>Outros locais em Maputo (08)</p>         <p><img src="/img/revistas/cea/n23/n23a02t11.jpg" width="600" height="110"></p>         
<p>&nbsp;</p>         ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Bairros da Matola (14)</p>         <p><img src="/img/revistas/cea/n23/n23a02t12.jpg" width="600" height="73"></p>         
<p>&nbsp;</p>         <p>Bairros da Matola (continua&ccedil;&atilde;o) (06)</p>         <p><img src="/img/revistas/cea/n23/n23a02t13.jpg" width="600" height="98"></p>         
<p>&nbsp;</p>         <p>Entrevista de controlo 2011 (01)</p>         <p><img src="/img/revistas/cea/n23/n23a02t14.jpg" width="389" height="135"></p>         
<p>&nbsp;</p>         <p><b>Nota 1:</b> O objectivo do trabalho de campo era o de captar a maior diversidade social poss&iacute;vel com a preocupa&ccedil;&atilde;o de n&atilde;o enviesar em excesso a realidade representada. A investiga&ccedil;&atilde;o sobre as representa&ccedil;&otilde;es sociais das rela&ccedil;&otilde;es raciais em Mo&ccedil;ambique &eacute; essencialmente qualitativa e explorat&oacute;ria.</p>         ]]></body>
<body><![CDATA[<p><b>Nota 2:</b> A t&eacute;cnica de entrevista utilizada foi pr&oacute;xima do <i>brainstorming</i>. Para al&eacute;m das entrevistas na cidade de cimento (empresas, universidades, hot&eacute;is/restaurantes), nas restantes o entrevistador/investigador circulava pelas zonas habitacionais suburbanas e periurbanas e conversava com quem se revelasse dispon&iacute;vel. A casa dos entrevistados foi o local habitual. Procurava&#45;se captar os discursos de senso comum tanto quanto poss&iacute;vel no contexto habitual em que se manifestam.</p>         <p><b>Nota 3:</b> Por decis&atilde;o dos entrevistados, algumas entrevistas n&atilde;o foram gravadas. Nesses casos, logo a seguir &agrave; conversa procedeu&#45;se a um registo de mem&oacute;ria imediata t&atilde;o completo quanto poss&iacute;vel, apoiado em notas escritas breves tomadas durante a conversa.</p>         <p><b>Nota 4:</b> Na estrat&eacute;gia de trabalho de campo as entrevistas constitu&iacute;am uma forma de capta&ccedil;&atilde;o do real ponderada por outro tipo de recolhas: observa&ccedil;&atilde;o participante e registos diversos.</p>         <p><b>Nota 5:</b> Por raz&otilde;es pessoais e familiares, a observa&ccedil;&atilde;o participante foi muito mais intensa entre mesti&ccedil;os/"mulatos", embora a t&eacute;cnica tenha sido tamb&eacute;m usada entre negros e brancos.</p>      ]]></body><back>
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