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<article-title xml:lang="pt"><![CDATA[Identidades em Trânsito: África 'na Pasajen': Identidades e Nacionalidades Guineenses e Cabo-verdianas]]></article-title>
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</front><body><![CDATA[  	 	    <p>Obra Recenseada: Daniele Ellery Mour&atilde;o. <b>Identidades em Tr&acirc;nsito: &Aacute;frica 'na Pasajen': Identidades e Nacionalidades Guineenses e Cabo&#45;verdianas</b>. Campinas: Arte Escrita. 2009. 208 pp.</p> 	    <p>&nbsp;</p>     <p><b>Sara Santos Morais</b> (Universidade de Bras&iacute;lia, Brasil)    <br> 	<a href="mailto:sarasmorais@gmail.com">sarasmorais@gmail.com</a></p> 	    <p>&nbsp;</p> 	    <p>O t&iacute;tulo do livro chama o leitor a contemplar o percurso argumentativo para que nos leva a autora. Numa &eacute;poca em que surgem diversos estudos sobre estudantes dos PALOP em universidades brasileiras, <i>Identidades em Tr&acirc;nsito</i> vem contribuir com importantes reflex&otilde;es sobre esse fluxo. Mergulhada em quest&otilde;es ligadas &agrave; constru&ccedil;&atilde;o de identidades de cabo&#45;verdianos e guineenses que estudaram nessas universidades, Daniele Mour&atilde;o mostra o tr&acirc;nsito desses estudantes entre seus pa&iacute;ses de origem e o Brasil e como eles repensam seu lugar no mundo atrav&eacute;s de olhares perspectivados&nbsp; no contexto brasileiro. &Eacute; no retorno que aparecem mais evidenciadas as possibilidades de "conferir novos sentidos a suas identidades e nacionalidades" (p. 17).</p>  	    <p>O livro est&aacute; organizado em tr&ecirc;s cap&iacute;tulos, al&eacute;m da introdu&ccedil;&atilde;o e das considera&ccedil;&otilde;es finais. A obra &eacute; acompanhada de um belo filme (em DVD), no qual podemos ver e escutar algumas das pessoas entrevistadas pela autora.&nbsp; Na Introdu&ccedil;&atilde;o, h&aacute; um breve relato hist&oacute;rico sobre a forma&ccedil;&atilde;o do Estado&#45;na&ccedil;&atilde;o em Cabo Verde e na Guin&eacute;&#45;Bissau, pa&iacute;ses que tiveram um passado de encontros e desencontros na sua luta pela independ&ecirc;ncia. Atrav&eacute;s da descri&ccedil;&atilde;o dos conflitos entre esses pa&iacute;ses, a autora tra&ccedil;a muitos dos conflitos identit&aacute;rios vividos pelos estudantes ao repensar sua hist&oacute;ria no contexto de deslocamento estudantil. Ainda na Introdu&ccedil;&atilde;o, retoma a discuss&atilde;o de Anderson (<i>Na&ccedil;&atilde;o e Consci&ecirc;ncia Nacional</i>, 1989) em rela&ccedil;&atilde;o &agrave;s peregrina&ccedil;&otilde;es educacionais e administrativas, que foram respons&aacute;veis pela id&eacute;ia de pertencimento a uma na&ccedil;&atilde;o entre aqueles que sa&iacute;am de seus 	pa&iacute;&#45;ses para tais empreendimentos. Al&eacute;m deste autor, Mour&atilde;o dialoga com Gellner (<i>Na&ccedil;&otilde;es e Nacionalismo</i>, 1993) e Mendon&ccedil;a (<i>Os Impasses no Processo de Constru&ccedil;&atilde;o dos Modernos Estados Africanos</i>, 2004), que pensaram a import&acirc;ncia de analisar o sistema educacional nas col&ocirc;nias africanas, pois ele permitiu a exist&ecirc;ncia de um "instrumento de transmiss&atilde;o e reprodu&ccedil;&atilde;o dos ideais do Ocidente" (p. 22).</p>  	    <p>O cap&iacute;tulo 1, "Por uma quest&atilde;o nacional", discute termos e conceitos cons&#45;tru&iacute;dos num contexto hist&oacute;rico de constitui&ccedil;&atilde;o de Estados&#45;na&ccedil;&atilde;o, tais como democracia e nacionalismo, e aponta os enfoques de estudiosos cujo interesse &eacute; compreender a forma&ccedil;&atilde;o desses Estados. A autora argumenta que quase todos os estudos sugerem que esse foi um fen&ocirc;meno possibilitado pela "modernidade", que trouxe com ela a "id&eacute;ia de pessoa, de indiv&iacute;duo, cidad&atilde;o, ser social e aut&ocirc;nomo, dono de seus atos, do seu presente e futuro" (p. 33). Um ponto forte deste cap&iacute;tulo &eacute; a forma como s&atilde;o expostas e discutidas as viv&ecirc;ncias entre os estudantes guineenses e cabo&#45;verdianos com quem a autora conversou das tens&otilde;es e dos conflitos advindos dos ideais nacionalistas de unidade pol&iacute;tica em seus pa&iacute;ses. Esta via d&aacute; o tom etnogr&aacute;fico da obra, possibilitando ao leitor entender melhor, a partir das falas dos sujeitos da pesquisa, como estes articulam suas experi&ecirc;ncias de transforma&ccedil;&atilde;o identit&aacute;ria no contexto hist&oacute;rico de constru&ccedil;&atilde;o da na&ccedil;&atilde;o. Assim, &eacute; ressaltada a import&acirc;ncia do deslocamento dos primeiros estudantes para as metr&oacute;poles na forma&ccedil;&atilde;o de grupos que se envolveram mais tarde com os movimentos de independ&ecirc;ncia de seus pa&iacute;ses. L&iacute;ngua e educa&ccedil;&atilde;o configuraram, nesse cen&aacute;rio, papel essencial na constru&ccedil;&atilde;o dos nacionalismos, cuja roupagem era a homogeneiza&ccedil;&atilde;o dos modos de ser para se construir uma identidade nacional. Foram justamente os estudantes, l&iacute;deres dos movimentos revolucion&aacute;rios, quem esteve &agrave; frente dos processos de constru&ccedil;&atilde;o de Estados n&atilde;o mais ligados ao regime colonial.</p>  	    <p>O cap&iacute;tulo 2, intitulado "Identidades: o ponto de vista dos cabo&#45;verdianos", consiste numa discuss&atilde;o sobre como os estudantes cabo&#45;verdianos que se formaram no Brasil concebem suas identidades, que id&eacute;ia t&ecirc;m sobre o processo de independ&ecirc;ncia do seu pa&iacute;s e como articulam esses elementos ao falar do tipo de coloniza&ccedil;&atilde;o a&iacute; ocorrido. A autora aponta que muitos dos discursos daqueles que voltaram do Brasil ap&oacute;s terminarem seus cursos privilegiam s&iacute;mbolos identit&aacute;rios, como "'ra&ccedil;a', l&iacute;ngua, religi&atilde;o e nacionalidade" (p. 71), para mostrar seu pertencimento nacional, sua cabo&#45;verdianidade. Muitos cabo&#45;verdianos comentaram uma tens&atilde;o entre serem mais europeus ou mais africanos, e referiram a miscigena&ccedil;&atilde;o como uma das explica&ccedil;&otilde;es para a dilui&ccedil;&atilde;o da identidade africana no arquip&eacute;lago crioulo. O cap&iacute;tulo debate, ent&atilde;o, teorias sobre mesti&ccedil;agem e assimila&ccedil;&atilde;o. A viv&ecirc;ncia no Brasil como forma de se aproximar de uma "africanidade" foi um elemento recorrente nas falas dos cabo&#45;verdianos: "Foi o deslocamento, a possibilidade do tr&acirc;nsito identit&aacute;rio, que permitiu a constru&ccedil;&atilde;o desta categoria nativa, com um olhar voltado para suas 'origens africanas' a partir do Brasil" (pp. 104&#45;105).</p>  	    ]]></body>
<body><![CDATA[<p>No cap&iacute;tulo 3 ("Diversidade &eacute;tnica e m&uacute;ltiplas identidades na Guin&eacute;&#45;Bissau"), h&aacute; uma discuss&atilde;o similar &agrave; do caso apresentado no cap&iacute;tulo anterior. Os estudantes guineenses que voltaram chamam a aten&ccedil;&atilde;o para um s&eacute;rio problema em seu pa&iacute;s: a exist&ecirc;ncia de conflitos &eacute;tnicos envoltos na pol&iacute;tica. Para aqueles que se formaram no Brasil, a quest&atilde;o mais urgente na Guin&eacute;&#45;Bissau &eacute; como gerir esses conflitos. A autora se posiciona em rela&ccedil;&atilde;o a esse ponto, argumentando que o projeto de constru&ccedil;&atilde;o de uma na&ccedil;&atilde;o guineense deu&#45;se atrav&eacute;s da aproxima&ccedil;&atilde;o de todas as etnias contra o poder colonizador, j&aacute; que estas n&atilde;o encontravam respaldo em seus sistemas de parentesco, um dos elementos basilares para a conforma&ccedil;&atilde;o de princ&iacute;pios identit&aacute;rios. Em determinado momento do cap&iacute;tulo, esta an&aacute;lise &eacute; ampliada para o continente africano. A autora retoma do cap&iacute;tulo 1 a discuss&atilde;o do processo de "balantiza&ccedil;&atilde;o", fen&ocirc;meno que ganhou for&ccedil;a quando um balanta construiu seu discurso para as elei&ccedil;&otilde;es presidenciais sobre os valores da sua etnia. Assim, "sua estrat&eacute;gia foi apoiada pelos balantas, que s&atilde;o majorit&aacute;rios em n&uacute;mero na Guin&eacute;&#45;Bissau e nas For&ccedil;as Armadas" (p. 141). Especificamente em rela&ccedil;&atilde;o &agrave; forma&ccedil;&atilde;o acad&ecirc;mica, os ex&#45;estudantes relatam que algumas vezes tiveram dificuldade de acesso ao mercado de trabalho, pois houve uma&nbsp;&nbsp; "incompatibilidade dos referenciais culturais e intelectuais &#150; ressignificados com a viv&ecirc;ncia no Brasil" (p. 159).Entretanto, atribuem ao ensino superior grande import&acirc;ncia, no sentido de terem se tornado parte da elite intelectual do pa&iacute;s, com capacidade de gerar mudan&ccedil;as no quadro pol&iacute;tico. Al&eacute;m disso, a autora pontua que obter um t&iacute;tulo de ensino superior mexeu de forma significativa com o status das fam&iacute;lias guineenses, j&aacute; que na &eacute;poca colonial somente os cabo&#45;verdianos e descendentes tinham possibilidade de trilhar esse caminho.</p>  	    <p>A Conclus&atilde;o &eacute; uma retomada de v&aacute;rios pontos desenvolvidos nos cap&iacute;tulos precedentes, al&eacute;m de uma r&aacute;pida e interessante discuss&atilde;o sobre os pressupostos limites demarcados entre tradi&ccedil;&atilde;o e modernidade. H&aacute; uma reflex&atilde;o sobre a inser&ccedil;&atilde;o de Cabo Verde e da Guin&eacute;&#45;Bissau num cen&aacute;rio internacional onde imperam as desigualdades de acesso a recursos de v&aacute;rias ordens. O tema do livro, nesse sentido, disponibiliza instrumentos relevantes para pensar alian&ccedil;as recentes entre o Brasil e pa&iacute;ses africanos. S&atilde;o esses acordos de pol&iacute;tica externa que permitem, em grande medida, o repensar de si pr&oacute;prio que faz com que muitos estudantes participantes dos conv&ecirc;nios de forma&ccedil;&atilde;o universit&aacute;ria reconfigurem suas identidades. O livro &eacute; de leitura obrigat&oacute;ria para aqueles cujas pesquisas tangenciam temas relacionados com os PALOP, o deslocamento estudantil, transforma&ccedil;&otilde;es identit&aacute;rias e o cen&aacute;rio contempor&acirc;neo de Cabo Verde e Guin&eacute;&#45;Bissau.</p>       ]]></body>
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