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</front><body><![CDATA[   	    <p>Eug&eacute;nio Pinto Santana. <b>Mo&ccedil;ambicanidades Disputadas. Os Ciclos de Festas da Independ&ecirc;ncia de Mo&ccedil;ambique e da Comunidade Mo&ccedil;ambicana em Lisboa</b>. Lisboa: Fim de S&eacute;culo. 2011. 148 pp.</p> 	    <p>&nbsp;</p>	    <p><b>Alina Esteves</b> (Instituto de Geografia e Ordenamento do Territ&oacute;rio &#45; 	  Universidade de Lisboa, Portugal)    <br> 	  <a href="mailto:alinaesteves@campus.ul.pt"> alinaesteves@campus.ul.pt</a></p> 	    <p>&nbsp;</p> 	    <p>Iniciando o seu trabalho com a descri&ccedil;&atilde;o do calend&aacute;rio de festas da independ&ecirc;ncia de Mo&ccedil;ambique e da comunidade mo&ccedil;ambicana em Portugal, Eug&eacute;nio Santana d&aacute;&#45;nos a conhecer a densidade e complexidade de um tema como o da forma&ccedil;&atilde;o da identidade, contrapondo os eventos festivos que anualmente decorrem em Mo&ccedil;ambique, pa&iacute;s de origem, e em Portugal, local de destino de alguns mo&ccedil;ambicanos. Recorrendo &agrave;s festas da comunidade e da independ&ecirc;ncia, e aos elementos gastron&oacute;micos e musicais a elas associados, o autor conjuga a sua exposi&ccedil;&atilde;o sobre a identidade mo&ccedil;ambicana com reflex&otilde;es de car&aacute;cter te&oacute;rico sobre a relev&acirc;ncia deste tipo de celebra&ccedil;&otilde;es, ligadas &agrave; presen&ccedil;a de comunidades emigradas e &agrave; glorifica&ccedil;&atilde;o de regimes pol&iacute;ticos, na constru&ccedil;&atilde;o das identidades nacionais. Tal como refere, as festas s&atilde;o "um ve&iacute;culo para investigar acerca da etnicidade" (p. 34), pois constituem recursos de instrumentaliza&ccedil;&atilde;o e de exerc&iacute;cio de poder simb&oacute;lico (p. 136).</p>  	    <p>Num contexto em que algumas teorias sobre identidade e Estado&#45;na&ccedil;&atilde;o privilegiam o pa&iacute;s enquanto unidade de an&aacute;lise e outras favorecem a globaliza&ccedil;&atilde;o, Eug&eacute;nio Santana traz uma nova perspectiva sobre a relev&acirc;ncia das comunidades residentes na di&aacute;spora para a constru&ccedil;&atilde;o das identidades nacionais, mesmo que muitos dos expatriados se encontrem claramente em colis&atilde;o ideol&oacute;gica com o governo mo&ccedil;ambicano. Ao longo de quase cento e cinquenta p&aacute;ginas, o autor demonstra o papel activo na modela&ccedil;&atilde;o da mo&ccedil;ambicanidade, antes e ap&oacute;s a independ&ecirc;ncia, da comunidade emigrada e dos que n&atilde;o sendo formalmente mo&ccedil;ambicanos se sentem como tal.</p>  	    <p>Recorrendo &agrave; an&aacute;lise situacional das festas da comunidade e das festas da independ&ecirc;ncia, dois ciclos fundamentais e estruturantes na identifica&ccedil;&atilde;o de identidades dissonantes e onde a afilia&ccedil;&atilde;o pol&iacute;tico&#45;partid&aacute;ria &eacute; uma vari&aacute;vel fundamental, o investigador opta por uma observa&ccedil;&atilde;o intensiva no terreno, com participa&ccedil;&atilde;o tanto activa (como m&uacute;sico ou DJ) como passiva (convidado) em v&aacute;rias festas, complementada por entrevistas informais e semidirectivas a informantes privilegiados naturais de Mo&ccedil;ambique e residentes em Portugal. Os entrevistados foram divididos em tr&ecirc;s grandes grupos et&aacute;rios, tendo sido conferida particular aten&ccedil;&atilde;o aos indiv&iacute;duos mais velhos, pois experienciaram as tr&ecirc;s grandes fases pol&iacute;ticas da hist&oacute;ria recente de Mo&ccedil;ambique &#150; o per&iacute;odo tardo&#45;colonial at&eacute; 1974, a Primeira Rep&uacute;blica (da assinatura dos Acordos de Lusaka em 1974 ao Acordo Geral de Paz de 1992) e a Segunda Rep&uacute;blica (desde 1994, ano das primeiras elei&ccedil;&otilde;es multipartid&aacute;rias, at&eacute; &agrave; actualidade).</p>  	    <p>Organizando a mat&eacute;ria da sua investiga&ccedil;&atilde;o em quatro cap&iacute;tulos principais, o livro de Eug&eacute;nio Santana, resultante da sua disserta&ccedil;&atilde;o de mestrado, inicia&#45;se com a discuss&atilde;o de quem &eacute; e de quem n&atilde;o &eacute; mo&ccedil;ambicano em Portugal no per&iacute;odo p&oacute;s&#45;colonial. O autor divide os fluxos migrat&oacute;rios de Mo&ccedil;ambique para Portugal em quatro per&iacute;odos principais de modo a posteriormente poder analisar e melhor compreender as identidades constru&iacute;das na di&aacute;spora: o primeiro per&iacute;odo antecede a independ&ecirc;ncia e estende&#45;se at&eacute; &agrave; assinatura dos Acordos de Lusaka; o segundo abrange a fase das primeiras nacionaliza&ccedil;&otilde;es a seguir &agrave; proclama&ccedil;&atilde;o da independ&ecirc;ncia em 1975; o terceiro fluxo ocorreu entre 1977 e 1981; o quarto per&iacute;odo migrat&oacute;rio decorreu entre 1982 e 1992/1994.</p>  	    ]]></body>
<body><![CDATA[<p>O segundo cap&iacute;tulo apresenta&#45;nos o conceito de mo&ccedil;ambicanidade como uma constru&ccedil;&atilde;o sociocultural, pol&iacute;tica e ideol&oacute;gica surgida a partir de 1975, na qual a figura do "Homem Novo" pretendia por um lado romper com o colonialismo portugu&ecirc;s e simultaneamente ultrapassar o "tribalismo", isto &eacute;, as divis&otilde;es &eacute;tnicas do povo mo&ccedil;ambicano que, segundo ide&oacute;logos do regime como Samora Machel, impediam a coes&atilde;o nacional. Como o autor menciona, h&aacute; uma repress&atilde;o da etnicidade a favor da Na&ccedil;&atilde;o em que se recusam as discrimina&ccedil;&otilde;es, pois todos s&atilde;o mo&ccedil;ambicanos, mas se nega ao mesmo tempo a diversidade &eacute;tnica e a heterogeneidade cultural (p. 55). Olhando para a divis&atilde;o &eacute;tnico&#45;pol&iacute;tica de Mo&ccedil;ambique, o autor mostra as correla&ccedil;&otilde;es entre grupo &eacute;tnico de perten&ccedil;a (Maconde, Ajaua, Macua, Changana, Chope, Ronga, entre outros), regi&atilde;o de origem (Sul, Centro ou Norte) e filia&ccedil;&atilde;o pol&iacute;tico&#45;partid&aacute;ria (FRELIMO, RENAMO, MDM). Estas associa&ccedil;&otilde;es &eacute;tnicas&#45;territoriais&#45;pol&iacute;ticas revelam&#45;se fundamentais para perceber os conflitos internos da comunidade residente na di&aacute;spora e a sua consequente participa&ccedil;&atilde;o nas festas organizadas pela Embaixada de Mo&ccedil;ambique (filia&ccedil;&atilde;o ao governo de Maputo, ao partido FRELIMO e aos grupos &eacute;tnico&#45;lingu&iacute;sticos do Sul) ou pela Casa de Mo&ccedil;ambique (frequentemente em oposi&ccedil;&atilde;o aos anteriores). Como Eug&eacute;nio Santana argumenta, estas iniciativas projectam "sobre a popula&ccedil;&atilde;o de origem mo&ccedil;ambicana em Portugal uma vis&atilde;o de comunidade e atributos de mo&ccedil;ambicanidade diversos, em fun&ccedil;&atilde;o dos seus pr&oacute;prios interesses, ideologias e leituras do processo hist&oacute;rico" (p. 137).</p>  	    <p>No terceiro cap&iacute;tulo podemos encontrar uma caracteriza&ccedil;&atilde;o detalhada das celebra&ccedil;&otilde;es do ciclo da independ&ecirc;ncia nos contextos mo&ccedil;ambicano e migrat&oacute;rio portugu&ecirc;s, nas quais o mito de constru&ccedil;&atilde;o do pa&iacute;s &eacute; alimentado pelo poder pol&iacute;tico. S&atilde;o&#45;nos explicados os significados e os objectivos de cada festa, assim como a apropria&ccedil;&atilde;o por parte do poder pol&iacute;tico vigente destas manifesta&ccedil;&otilde;es e as suas mudan&ccedil;as de discurso de acordo com a posi&ccedil;&atilde;o de Mo&ccedil;ambique no contexto internacional.</p>  	    <p>Em contraponto a este ciclo de festas, Eug&eacute;nio Santana apresenta no quarto e &uacute;ltimo cap&iacute;tulo as festas da comunidade mo&ccedil;ambicana em Portugal, organizadas na maior parte dos anos pela Casa de Mo&ccedil;ambique, mas em algumas ocasi&otilde;es tamb&eacute;m pela RENAMO ou pela ANERM (Associa&ccedil;&atilde;o dos Naturais e Ex&#45;Residentes de Mo&ccedil;ambique), e cujas origens radicam no per&iacute;odo pr&eacute;&#45;independ&ecirc;ncia. A apropria&ccedil;&atilde;o das festas pelos retornados e depois pela RENAMO, partido da oposi&ccedil;&atilde;o em Mo&ccedil;ambique, constituiu uma forma de construir uma mo&ccedil;ambicanidade alternativa lutando contra o regime atrav&eacute;s de ac&ccedil;&otilde;es identit&aacute;rias (p. 120). A festa que se tornou "alternativa", segundo as palavras do autor, pretende, na opini&atilde;o de um dos entrevistados, ser um espa&ccedil;o de conv&iacute;vio sem valorizar uma regi&atilde;o, cultura ou partido pol&iacute;tico. Contudo, e como o autor faz notar, apesar desta inten&ccedil;&atilde;o, as regi&otilde;es de origem dos organizadores (Norte e Centro de Mo&ccedil;ambique) mostram uma posi&ccedil;&atilde;o de resist&ecirc;ncia &agrave; hegemonia sulista. A aus&ecirc;ncia de identifica&ccedil;&atilde;o com os principais partidos pol&iacute;ticos mo&ccedil;ambicanos, e com os seus protagonistas e ideais, tem levado alguns cidad&atilde;os, tanto em Mo&ccedil;ambique como em Portugal, a optarem por uma terceira via em que os her&oacute;is s&atilde;o os milh&otilde;es de mo&ccedil;ambicanos que sobreviveram ao colonialismo, ao regime marxista e &agrave; guerra civil e que enfrentam a corrup&ccedil;&atilde;o, simbolizados pelo carapau e pelo repolho, dois alimentos b&aacute;sicos da dieta do povo mo&ccedil;ambicano.</p>  	    <p>No ponto conclusivo, o autor resume as principais ideias sustentadas pela sua investiga&ccedil;&atilde;o ao longo do trabalho, real&ccedil;ando que as festas s&atilde;o cerim&oacute;nias de m&uacute;ltiplas dimens&otilde;es e podem funcionar como momentos de exalta&ccedil;&atilde;o, reivindica&ccedil;&atilde;o ou instrumentaliza&ccedil;&atilde;o identit&aacute;ria (p. 140). As redes sociais revelam&#45;se essenciais para a integra&ccedil;&atilde;o dos imigrantes, mas a an&aacute;lise das sociabilidades no seu interior revela tamb&eacute;m qu&atilde;o heterog&eacute;nea e conflituosa pode ser uma comunidade.</p>  	    <p><i>Mo&ccedil;ambicanidades Disputadas</i> &eacute; um trabalho antropol&oacute;gico rico e detalhado, no qual as viv&ecirc;ncias de inf&acirc;ncia e juventude do antrop&oacute;logo, no seu pa&iacute;s natal &#150; Mo&ccedil;ambique &#150; e como m&uacute;sico e DJ em Portugal, enriquecem os argumentos acerca da forma&ccedil;&atilde;o da identidade social dos mo&ccedil;ambicanos nas suas m&uacute;ltiplas facetas e em territ&oacute;rios diferentes.</p>       ]]></body>
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