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<article-title xml:lang="pt"><![CDATA[Cooperação Sul-Sul, Investimentos Externos e Desenvolvimento: Existem novas perspectivas a partir do sul global?]]></article-title>
<article-title xml:lang="en"><![CDATA[Cooperation South-South, foreign investments and development: Do new perspectives exist with the global south?]]></article-title>
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<institution><![CDATA[,Universitário de Goiabeiras Departamento de Ciências Sociais ]]></institution>
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<abstract abstract-type="short" xml:lang="en"><p><![CDATA[The text describes the relations and tensions that characterize the theme of development, external cooperation and foreign investments directed towards the so-called emergent economies of the South-South axis. It does so in order to reflect upon some aspects of this process. Among these are: a) the separate strands of thinking that contest the legitimacy of the meaning of the word development in the area of academic, political and societal debate; b) the power shaped by technical and productive networks and institutions when this process is set in motion; c) the international cooperation across the South-South axis, started by the BRICS constitution; and d) the aspects relative to the different rationales whose path cross within the sphere of these relations. The case of Mozambique is cited as an empiric reference so as to problematize the rationales and ideologies modeled on the different forms of development that “travel” from industrialized to non-industrialized countries. We conclude by showing certain trends seen in the direct investments done by the multinational corporation Vale S.A. in the Tete Province, in Mozambique, which aims at showing how different conceptions and visions of processes of development intertwine and conflict, in a context in which global dominance takes over local dominance.]]></p></abstract>
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<kwd lng="pt"><![CDATA[desenvolvimento]]></kwd>
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</front><body><![CDATA[ 



    <p><b>Cooperação Sul-Sul, Investimentos Externos e Desenvolvimento: Existem novas perspectivas a partir do sul global?<a href="#_ftn1" name="_ftnref1" title=""><sup>[1]</sup></a></b></p>
    <p><b>Cooperation
South-South, foreign investments and development: Do new perspectives exist
with the global south?</b></p>
    <p>&nbsp;</p>

    <p><b>Marta Zorzal e Silva*</b></p>

    <p>*Departamento de Ciências Sociais, Universidade Federal do Espírito Santo, Avenida Fernando Ferrari, 514, Campus Universitário de Goiabeiras, Vitória, Espírito Santo, Brasil &#8211; CEP 29.075.710, <a href="mailto:mazorzal@gmail.com">mazorzal@gmail.com</a></p>
    <p>&nbsp;</p>



    <p><b>RESUMO</b></p>

    <p>O texto descreve as relações e tensões que
caracterizam a temática do desenvolvimento, da cooperação externa e dos
investimentos estrangeiros diretos nas economias ditas emergentes do eixo
Sul-Sul, para refletir sobre alguns aspectos deste processo. Entre estes
destaca: a) as distintas vertentes do pensamento que disputam legitimidade no
campo do debate acadêmico, político e societal em torno do que se entende por
desenvolvimento; b) o campo de poder que é configurado por redes
técnico-produtivas e instituições quando este processo é posto em marcha; c) a
cooperação internacional no eixo Sul-Sul, dinamizada a partir da constituição
dos BRICS; e d) os aspectos relativos aos
diferentes saberes e racionalidades que se cruzam no âmbito destas relações. O
caso de Moçambique é tomado como referente empírico ao olhar sobre o processo
de desenvolvimento induzido externamente, a fim de problematizar as
racionalidades e as ideologias impressas nos modelos de desenvolvimento que
“viajam” dos países industrializados para os não industrializados. Concluímos
indicando algumas tendências observadas nos investimentos diretos realizados
pela corporação multinacional Vale S.A. na Província de Tete, em Moçambique,
visando evidenciar a forma como se entrelaçam e se conflitam concepções e
visões sobre processos de desenvolvimento no contexto de dominância do global
sobre o local.</p>

    <p><b>Palavras-chave</b>: desenvolvimento, cooperação Sul-Sul, investimento estrangeiro, poder económico, Vale S.A., Moçambique</p>
    ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>

    <p><b>ABSTRACT</b></p>

    <p>The text describes the relations and tensions
that characterize the theme of development, external cooperation and foreign
investments directed towards the so-called emergent economies of the
South-South axis. It does so in order to reflect upon some aspects of this
process. Among these are: a) the separate strands of thinking that contest the
legitimacy of the meaning of the word development in the area of academic,
political and societal debate; b) the power shaped by technical and productive
networks and institutions when this process is set in motion; c) the
international cooperation across the South-South axis, started by the BRICS constitution; and d) the aspects
relative to the different rationales whose path cross within the sphere of
these relations. The case of Mozambique is cited as an empiric reference so as
to problematize the rationales and ideologies modeled on the different forms of
development that “travel” from industrialized to non-industrialized countries.
We conclude by showing certain trends seen in the direct investments done by
the multinational corporation Vale S.A. in the Tete Province, in Mozambique,
which aims at showing how different conceptions and visions of processes of
development intertwine and conflict, in a context in which global dominance
takes over local dominance. </p>

    <p><b>Keywords</b>: development, cooperation South-South, foreign investment, economic power, Vale S.A., Mozambique</p>
    <p>&nbsp;</p>



    <p>O contexto do desenvolvimento do
capitalismo contemporâneo constitui o pano de fundo sobre o qual se assenta o
presente ensaio. Para tanto, toma como referência as últimas décadas do século XX, momento em que ocorrem
intensas mudanças tanto nas economias centrais como naquelas dos países
considerados periféricos a este sistema, em razão do estágio menos avançado de
industrialização destes últimos. Desse modo, o escopo da reflexão tem como
referência o debate em torno dos múltiplos e complexos processos de mudança em
curso, os quais têm sido apreendidos de forma mais genérica por meio da ideia
de globalização.</p>

    <p>A reconfiguração das relações de poder e das
margens de manobra da maioria dos países, no âmbito destes processos, caracterizam
um cenário de situações concretas muito diversas ao redor do mundo. Grandes
assimetrias em termos das redes técnico-produtivas da riqueza comparecem neste
cenário, agravando as diferentes condições da maioria dos países de
desenvolvimento industrial tardio. Entre estes, encontram-se a maior parte dos
países do eixo Sul-Sul (sobretudo os países da América Latina e África),
classificados como “não desenvolvidos” ou “emergentes” no contexto atual do
capitalismo globalizado.</p>

    <p>Além disso, no âmbito do debate econômico
passou-se a considerar o grau de desenvolvimento dos países de acordo com seu
nível de industrialização e integração ao mercado globalizado. Aqueles que
historicamente ficaram isolados ou ingressaram tardiamente na rota do
desenvolvimento industrial, em geral, são herdeiros de um passado de dominação
colonial, cujo efeito é assinalado pelas exclusões e desigualdades. A escassez
de recursos econômicos, financeiros, organizacionais e
científico-informacionais, por sua vez, reforça as assimetrias e dificuldades
de acesso aos bens e serviços gerados pela sociedade industrial moderna,
localizada principalmente nos países do Norte.</p>

    <p>Este é o cenário mais geral das relações
e tensões que caracterizam a temática do desenvolvimento, da cooperação externa
e dos investimentos estrangeiros diretos (IED) nas economias ditas
emergentes do eixo Sul-Sul. Entre esses países, destacamos o caso de Moçambique
como referente empírico ao olhar que pretendemos lançar sobre o processo de
desenvolvimento induzido externamente, a fim de problematizar as racionalidades
e as ideologias impressas nos modelos de desenvolvimento que “viajam” dos
países industrializados para os não industrializados. Para tanto, abordamos
inicialmente o tema do desenvolvimento enfatizando as distintas vertentes de
pensamento que disputam legitimidade no campo do debate acadêmico, político e
societal; e também a ideia de que “o desenvolvimento é visto como um campo de
poder formado por muitas redes e instituições” (Ribeiro, 2008, p. 109), visando
decifrar a dinâmica que articula este processo.</p>

    <p>Em seguida, focalizamos brevemente a
discussão relativa aos modelos de cooperação internacional, com ênfase sobre os
desafios políticos, econômicos e culturais a serem enfrentados pelos atores
envolvidos. Na sequência sublinhamos o debate sobre processos de tradução dos
conceitos e pressupostos impressos nos modelos técnico-organizacionais
ocidentais de desenvolvimento que “viajam” para os países do eixo Sul, levados
pelas ações de cooperação externa e investimentos estrangeiros diretos.
Concluímos indicando algumas tendências observadas nos investimentos diretos
realizado pela corporação multinacional Vale S.A. &#8211; de origem brasileira
&#8211; na província de Tete, em Moçambique.</p>

    ]]></body>
<body><![CDATA[<p>A atuação desta empresa na referida localidade
está inserida num plano mais amplo de cooperação entre Brasil e Moçambique,
concebido no contexto da mobilização de um grupo de nações do eixo Sul-Sul
&#8211; entre elas, o Brasil &#8211; para o desenvolvimento de novos padrões de
cooperação internacional. Nosso intuito é explorar as características das
reconfigurações políticas e sociais que são geradas pelo reordenamento das
relações socioeconômicas e políticas produzidas como efeito dos grandes
investimentos estrangeiros diretos realizados em Moçambique.</p>

    <p>Esperamos, entretanto, que os dados
objetivos apresentados, por ora, ainda gerais, possam ser mais bem trabalhados
futuramente como resultado da pesquisa em curso, sobre as relações que se
configuram no âmbito do que tem sido denominado de Redes de Produção Global - RPG (Henderson <i>et
al.</i> como citado em Santos, 2011), na atual quadra da
expansão capitalista.</p>

    <p><b>Perspectivas sobre processos de
desenvolvimento</b></p>

    <p>O tema da expansão e do crescimento econômico
é perpassado por questões que não são novas. Suas raízes estão fincadas de modo
mais sistemático desde a emergência da sociedade industrial moderna, no século XVIII. A ideia relativa ao processo de desenvolvimento
econômico, entretanto, não é consensual. Envolve disputas de sentido em três
aspectos principais: a visão ou medida do que deve ser uma sociedade desejável;
a visão do processo histórico de mudança social; e a visão de quais devem ser
os esforços deliberados de melhoria a serem efetuados por agências ou agentes
de desenvolvimento (Thomas, 2000, p. 48).</p>

    <p>Por outro ângulo, a ideia do
desenvolvimento é vista como um sistema de crenças organicamente relacionado à
expansão mundial de sistemas de mercados integrados e como o “slogan
mobilizador de um movimento social que criou organizações e práticas messiânicas”
(Rist como citado em Ribeiro, 2008, p. 117).</p>

    <p>O conceito de
desenvolvimento situa-se, portanto, em um “campo em disputa” onde diferentes
tradições de pensamento reivindicam legitimidade no plano discursivo quer seja
acadêmico, político ou societário. Desse modo, antes de avançar, é necessário
pontuar, ainda que brevemente, os diversos significados e visões de
desenvolvimento em disputa.</p>

    <p>Há uma série de abordagens concorrentes
sobre o que se entende por “desenvolvido”. Estas se assentam sobre diferentes
pontos de vista da história, de como a mudança social e o crescimento econômico
devem ocorrer em relação ao sistema capitalista em geral. Por isso, trazem
diferentes prescrições sobre quem deve ser o agente condutor do processo de
desenvolvimento econômico e sobre como alcançá-lo. Entre elas, pelo menos três
grandes vertentes têm preponderado no cenário do debate contemporâneo. Cada uma
ancorada em pressupostos teóricos, morais e éticos distintos, os quais têm
implicações sobre nossa visão de mundo (Thomas, 2000, p. 42).</p>

    <p>As principais vertentes dominantes no
cenário da disputa &#8212; neoliberalismo e estruturalismo &#8212;, apesar de
possuírem visões contrárias em muitos aspectos analíticos e normativos, contêm
semelhanças entre si em duas importantes áreas. Primeiro, elas veem o
desenvolvimento, sobretudo, em termos de ampla mudança social e histórica sem,
no entanto, oferecer prescrições detalhadas sobre o que as agências de
desenvolvimento devem fazer para atingi-lo. Segundo, as duas veem a
industrialização como o único caminho realista para alcançar o crescimento
econômico necessário à melhoria nos padrões de vida das pessoas, em especial
dos pobres. Admitem, para tanto, algum grau de intervencionismo para atender às
necessidades humanas ou enfrentar a crise global (Thomas, 2000, p. 44).</p>

    <p>Por outro
lado, a principal área de desacordo e conflito entre elas refere-se às lógicas
e aos agentes do movimento de mudança social. Enquanto a perspectiva neoliberal
insiste nas motivações materialistas dos indivíduos e do mercado auto-regulador,
a perspectiva estruturalista enfatiza a importância da solidariedade entre
classes sociais e da ação coletiva. Considerando que os únicos exemplos de ação
coletiva em larga escala só foram possíveis por meio do Estado, a oposição
entre ambas tende a ser representada na contraposição mercado <i>versus</i> Estado, ou maximização do lucro <i>versus</i> planejamento e redistribuição da riqueza social produzida (<i>ibid.</i>, p. 44).</p>

    <p>Uma terceira vertente de pensamento
estrutura-se a partir da crítica ao pensamento ocidental sobre o
desenvolvimento econômico tomado como modelo universal. Para essa vertente,
pensar sobre o desenvolvimento exige outro olhar em relação ao que se entende
por uma situação desejável, distinta daquela que predominou até hoje. Para
tanto, requer uma perspectiva crítica que coloque no centro do debate os termos
e as condições que estão conduzindo os processos de mudanças sociais e
econômicas contemporâneos. Considera que as múltiplas visões culturais que
permeiam o que é uma sociedade desejável para os diferentes povos do mundo não
se resolvem por meio do paradigma ocidental de desenvolvimento como modelo. Por
isso, a produção do conhecimento sobre o desenvolvimento requer o abandono das
noções epistemológicas de centros e periferias, para afirmar outras
perspectivas a partir de uma rede descentralizada de nós. Nessa rede, teóricos
e teorias, bem como usuários em todos os níveis, se movem, confrontam,
compartilham e contestam o espaço epistemológico da investigação de
alternativas, onde ao fim e ao cabo encontram a diferença cultural (Escobar,
2012, p. 225).</p>

    ]]></body>
<body><![CDATA[<p>As diferenças culturais incorporam
possibilidades para transformar a própria vida social e econômica. Significa
dizer que das situações culturais híbridas ou minoritárias podem surgir outras
formas de construir a economia, de lidar com as necessidades humanas básicas e
de se organizar em grupos sociais. Nesse sentido, elas se caracterizam por ser
uma reação contra o <i>mainstream</i> do desenvolvimento capitalista, especialmente no que tange à industrialização
em grande escala e à suposição de que os países considerados desenvolvidos
precisariam tutelar os demais para atingir o processo de desenvolvimento
(Thomas, 2000, pp. 47-48).</p>

    <p>Desse
ângulo, Lander (2005, introdução) argumenta que o esforço contra a exclusão e
desigualdade resultantes do mundo moderno exige a desconstrução do caráter
universal e natural da sociedade capitalista-liberal, a partir do
questionamento das pretensões de objetividade e neutralidade, com as quais os
saberes eurocêntricos buscam legitimar essa ordem social. O debate travado por
pensadores como Lander (2005), Escobar (2012), Mignolo (1999, 2000, 2005),
Quijano (2005), Dussel (1995, 2005) entre outros, tem contribuído para a
desconstrução das dimensões constitutivas
dos saberes eurocêntricos e sua eficácia neutralizadora em relação a
outros saberes. Nesse sentido, argumentam que “<i>the
present moment can be seen as one of intense struggle between two visions of
globality: globality defined as modernity writ large, or globality as a
pluriverse</i>” (Blaser como citado em Escobar, 2012, p.
xxxii); ou, de acordo com Escobar, “<i>between
the world as universe and the world as a pluriverse</i>”
(2012, p. xxxii); ou ainda, “<i>building worlds in which humans
and the Earth can coexist in mutually enhancing manners</i>” (Berry como citado em Escobar, 2012, p. xxxiii).</p>

    <p>Em síntese, a
perspectiva sobre o desenvolvimento implica embates hegemônicos e
contra-hegemônicos pela afirmação e legitimação de sentidos e, portanto, de
direção do processo de mudança social em larga escala. As distintas
possibilidades dependem da correlação de forças e de poder, configuradas nas
redes de instituições consorciadas no âmbito dos diferentes países que são
inseridos na ordem capitalista moderna na atual quadra da história.</p>

    <p>Do ponto de vista
empírico, o processo de desenvolvimento capitalista tardio implica expansão e
crescimento econômico em larga escala. Este, por sua vez, resulta em
transformação que, em geral, segundo Ribeiro (2008),</p>

    <blockquote>ocorre por meio de encontros entre <i>insiders</i> e <i>outsiders</i> localizados em posições de poder diferentes, [por isso] as iniciativas
de desenvolvimento estão ancoradas e atravessadas por situações em que as
desigualdades de poder abundam. A dificuldade de realizar mudanças internamente
à chamada “comunidade de desenvolvimento” está intimamente relacionada ao fato
de a mesma ser um campo de poder (p. 110).</blockquote>

    <p>Tratar as questões do desenvolvimento
econômico como um campo de poder permite lançar luz sobre as correlações de
poder que resultam em várias redes de instituições &#8211; nacionais e
internacionais &#8211; dentro do campo do desenvolvimento. Estas redes
constituem elos e fluxos que expressam coalizões e pactuação de tipos complexos
de encontros que juntam atores e instituições locais a <i>outsiders</i>. As instituições configuram parte importante desse campo, na medida em
que materializam as assimetrias de poder que se constituem neste processo. Elas
“incluem vários tipos de organizações governamentais, organizações
não-governamentais, igrejas, sindicatos, agências multilaterais, entidades
industriais e corporações financeiras” (<i>ibid</i>.).</p>

    <p>Por sua vez, essas instituições fazem
parte de diversas redes resultantes de complexos processos históricos e
políticos, ao mesmo tempo que criam novas redes que reordenam as relações de poder
no curso da expansão do desenvolvimento. A dinâmica das mudanças econômicas e
sociais se realiza por meio de processos de consorciação, em que as novas
instituições emergentes podem virar unidades de novos e mais complexos
consórcios destinados a cumprir papéis delimitados conforme definido por um
dado projeto de desenvolvimento. De acordo com Ribeiro (2008):</p>

    <blockquote>A consorciação é um processo político comandado
por grupos de poder que operam em níveis mais elevados de integração. É um
encadeamento que &#8211; mediante a organização de novas entidades orientadas a
tarefas econômicas e administrativas &#8211; une, de fato, dentro de um
projeto, instituições e capitais internacionais, nacionais e regionais. É uma
forma de reforçar relacionamentos capitalistas de modo piramidal, em que níveis
mais elevados hegemonizam níveis mais baixos. (...) A consorciação significa
que os projetos reforçam a competição e a concentração de capital e de poder
entre firmas capitalistas; ela facilita o processo de concentração de capital e
poder eliminando competidores mais fracos e cooptando alguns poucos
selecionados (pp. 115-16).</blockquote>

    <p>A dinâmica dos processos de
desenvolvimento induzidos por meio de cooperação e investimentos externos traz
implícitas estratégias e lógicas técnico-organizacionais e estruturas de poder
desenvolvidas e consolidadas no universo cultural de origem, as quais passam a
comandar transformações e mudanças em grande escala nos países receptores.
Desse modo, junto com os programas de cooperação e investimentos diretos “viaja”
todo um universo de relações, sentidos e racionalidades que se sobrepõem
assimetricamente nas sociedades receptoras, impondo-lhes condicionalidades e
reordenamentos estruturais, que impactam o meio ambiente e a sociedade como um
todo. Tais processos acabam ampliando as desigualdades sociais e econômicas em
virtude da concentração de capital e de poder que eles induzem.</p>

    <p>Emerge desde então um contexto
internacional em que a preservação e conservação da natureza, bem como o uso
justo e equitativo dos seus recursos, fazem do desenvolvimento um desafio
ético-político e de gestão econômica e social. Por via disso, colocam em pauta
temas e problemas relativos à questão ambiental; às formas de “governance e
gobernabilidade”; assim como as notórias “dificuldades para formular
alternativas teóricas e políticas à primazia total do mercado, cuja defesa mais
coerente foi formulada pelo neoliberalismo” (Lander, 2005, p. 1).</p>

    ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Enfim, estes delineamentos teóricos
constituem o pano de fundo da presente reflexão. Indaga-se, nesse sentido,
sobre a natureza dos pressupostos que “viajam” embalados na política de
investimentos estrangeiros diretos (IED), com vistas a alavancar o desenvolvimento de países considerados
pobres no cenário mundial contemporâneo. Para tanto, voltamos nosso olhar para
Moçambique, no contexto das relações internacionais que se inauguram entre
Brasil e África, a partir do governo Lula (2003-2010).</p>

    <p><b>Cooperação e desenvolvimento no âmbito das relações
Sul-Sul</b></p>

    <p>As mudanças e realinhamentos na
geopolítica mundial, notadamente a partir do final do século XX, criaram espaço para
que potências emergentes como China, Índia e Brasil expandissem suas áreas de
influência e de cooperação para outros países não industrializados, entre eles
os da África. Este movimento, ao lado do próprio ressurgimento da África<a href="#_ftn2" name="_ftnref2" title=""><sup>[2]</sup></a>, passou a chamar a atenção
da mídia internacional, assim como das tradicionais potências do Ocidente.</p>

    <p>Neste cenário, Brasil, Rússia, China e
Índia emergem na cena internacional como protagonistas aliados na busca por
mudanças na ordem internacional pós-guerra fria, baseadas na Cooperação Sul-Sul<a href="#_ftn3" name="_ftnref3" title=""><sup>[3]</sup></a>. Da articulação destes
países, em junho de 2003, surgiram os chamados BRICS, que tenderam a avançar no
sentido da maior concertação e unificação do Sul. Tal articulação tem como
objetivo “... criar novas relações de forças num mundo multipolar mediante
coalizões esporádicas para conseguir objetivos comuns entre latino-americanos,
asiáticos e africanos” (Kabunda, 2011, p. 27).</p>

    <p>Com a entrada dos BRICS no palco internacional, a
cooperação para o desenvolvimento<a href="#_ftn4"
name="_ftnref4" title=""><sup>[4]</sup></a> ganhou novos ímpetos, na
medida em que esses países afirmam-se cada vez mais como vetores das
tecnologias, ideias e produtos. Comparecem, assim, como novos protagonistas no
cenário internacional, criando e fortalecendo redes de intercâmbio Sul-Sul<a href="#_ftn5" name="_ftnref5" title=""><sup>[5]</sup></a>, sobretudo aquelas
voltadas para a realização de investimentos diretos nas economias do referido
eixo, notadamente nos países africanos.</p>

    <p>Do ângulo das expectativas criadas nas
sociedades receptoras da cooperação externa e dos investimentos estrangeiros
diretos, levados como perspectiva de bem estar futuro, como tais processos são
recebidos? Considerando que eles se efetuam por meio de redes
técnico-produtivas e financeiras via consórcios constituídos por
instituições e atores transnacionais e nacionais, estes atores, em geral,
veiculam a ideia de que a cooperação e o investimento externo são necessários
para realizar mudanças na situação social, econômica, política e cultural do
país, considerada desvantajosa, para alcançar uma situação muito melhor no
futuro.</p>

    <p>Do ponto de vista da sociedade civil
receptora, na maioria das vezes, prevalece na arena pública apenas o discurso
dominante que acena com futuros muito melhores do que a situação do presente.
Não há espaço para debate, pois os processos decisórios se efetuam nas
complexas redes burocráticas dos consórcios constituídos que, em geral, passam
ao largo do debate esclarecido na arena pública.</p>

    <p>Desde o início instauram-se
desigualdades de poder que se refletem no aumento dos custos sociais e
ambientais, sobretudo para os grupos sociais mais desfavorecidos, ao invés de
produzir mudanças que conduziriam à superação da pobreza. Desse ponto de vista,
tais processos deveriam colocar no centro do debate os problemas e os temas da
transparência da “governança corporativa”, da “governabilidade política” e
“governança pública” em tempos de mudanças estruturais. </p>

    <p>Problematiza-se, neste sentido, sob que
condições os padrões técnico-organizacionais transportados pelos investimentos
estrangeiros diretos reordenam os processos de produção social local,
exacerbando a demanda por espaço urbano e introduzindo novas lógicas na
dinâmica das relações sociais e econômicas instituídas. Em outras palavras, de
que modo as práticas e procedimentos transportados materializam-se no espaço
dos países receptores da cooperação externa e dos investimentos estrangeiros
diretos?</p>

    <p>Grande parte dos desafios da cooperação
Sul-Sul, tanto para os países emergentes quanto para os receptores, além
daqueles relativos à transparência, está no processo de tradução, adaptação e
significação das práticas e procedimentos transportados via cooperação e
investimentos diretos.</p>

    ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Entre estes desafios encontra-se o
conteúdo cultural e ideológico que interage nas formas de consorciação que
resultam deste processo, cujas assimetrias desestabilizam possibilidades de
autonomias e articulações locais nas sociedades receptoras, inviabilizando em
grande parte as expectativas criadas em torno de processos de desenvolvimento
induzidos externamente.</p>

    <p><b>Saberes e racionalidades em viagem para outros contextos</b></p>

    <p>O entendimento sobre o modo como ideias,
procedimentos, formas de organização social e institucional e tecnologias se
transformam em modelos de ações e como esses modelos viajam de um contexto sociocultural
para outro tem sido apreendido, sobretudo no campo da antropologia, pela noção
de <i>traveling models</i><a href="#_ftn6" name="_ftnref6" title=""><sup>[6]</sup></a>.</p>

    <p>Czarniawska e Joerges (1996) argumentam
que para “viajar” de um lugar para outro as ideias primeiro precisam ser
traduzidas, ou objetivadas em elementos móveis, quais sejam: pessoas, textos,
contos, imagens, filmes, modos de fazer as coisas, tecnologias, artefatos,
formas organizacionais etc. Ideias objetivadas, artefatos tecnológicos etc., ao
serem transportados são retirados de seu contexto original, o que significa que
são desenraizados. Enviados ou trazidos para novos lugares, são incorporados em
outra ordem cultural-institucional, sendo, portanto, recriados e
reconfigurados. O processo de “tradução” torna-se completo se, no novo
contexto, eles são colocados em ação.</p>

    <p>Quando são repetidas muitas vezes, as
ideias transportadas podem se estabilizar numa prática ou numa instituição como
um conjunto de regras inquestionáveis. Esta, por sua vez, acabará descrita e
resumida por meio de ideias abstratas, que poderão ser objetivadas e iniciar
uma nova jornada e cadeia de tradução, cujo processo não tem um final definido
(Behrends, 2008, p. 3).</p>

    <p>A “tradução”, porém, não se efetua sem
tensões e negociações e, sobretudo, não se processa de maneira uniforme nas
sociedades receptoras. Considerando o encontro de racionalidades distintas, é
preciso verificar como os critérios de objetividade são negociados nas arenas
trans-locais no contexto da cooperação para o desenvolvimento. Dessa
perspectiva é preciso distinguir a relação entre a metalinguagem (impressa nos
modelos transportados) e a linguagem que se desenvolve a partir dos modelos (a
forma como são percebidos e traduzidos no local de chegada), como meio de
comunicação intercultural (Rottenburg como citado em Kienzler, 2005, p. 306).</p>

    <p>Os participantes de ambos os lados veem
a metalinguagem como língua objetivada de observação e de negócios. Através
desta linguagem especial é que a reciprocidade e a cooperação entre as culturas
tornam-se possíveis. Por sua vez, os atores (instituições, especialistas,
trabalhadores etc.) que atuam nestes processos procedem a partir da suposição
ideal de que todos os participantes envolvidos são capazes de se comunicar por
meio da metalinguagem original, embora saibam que não é exatamente assim (<i>ibid.</i>).</p>

    <p>Na verdade, existe um fosso nessa
relação, cujo efeito é a produção de dissintonias, defasagens, inconsistências,
subalternidades. A imagem resultante muitas vezes reflete distorções
caricaturadas do original. Com isso, os objetivos do desenvolvimento,
oficialmente veiculados pelos negociadores de ambos os lados &#8211; redução
dos índices de pobreza, crescimento econômico, melhoria das condições de vida,
acesso aos bens e serviços etc. &#8211; nem sempre se realizam. Em suma, para
as sociedades receptoras, sobretudo para a parcela da sociedade mais
penalizada, o processo se expressa em forma de descontentamento, frustrações e
conflitos.</p>

    <p>Por outro lado, como as metas
estabelecidas quase nunca são alcançadas, ou apenas parcialmente, instaura-se um
círculo vicioso, que tende a conduzir à dependência pela recorrente necessidade
de novas ajudas e investimentos. Na verdade, os modelos e práticas
transportadas muitas vezes se baseiam em lógicas que, ao invés de concorrerem
para a autonomia dos sujeitos, reforçam as condições de subalternidade
presentes, inviabilizando assim a possibilidade de criar circuitos virtuosos.</p>

    <p>As metalinguagens culturais (doadores e
receptores) não podem ser entendidas como alternativas excludentes. Ao
contrário, ambas são parte do processo de negociação transcultural.
Considerando que os atores participantes constantemente alternam entre os dois
códigos, Rottenburg (como citado em Kienzler, 2005, p. 306) destaca que
periodicamente é preciso traduzir a metalinguagem original para a linguagem da
cultura receptora, para que seja possível descobrir erros e inconsistências no
nível de fatos e estatísticas, bem como dentro da moldura pessoal de referência
dos atores envolvidos.</p>

    ]]></body>
<body><![CDATA[<p><b>Cooperação brasileira e
investimentos estrangeiros diretos em Moçambique</b></p>

    <p>A reconfiguração da ordem internacional,
no limiar do século XXI, conforme sublinhamos e, neste contexto, a chegada de Luiz Inácio Lula
da Silva ao governo do Brasil (2003-2010), confluíram para que o continente
africano ganhasse relevância sem precedentes na política externa brasileira.
Essa virada para a África, segundo Sombra Saraiva (2012), refletiu a combinação
de mudanças ideológicas e estratégicas introduzidas a partir de então, com
vistas a ultrapassar o discurso culturalista tradicional e legitimar na própria
sociedade brasileira um novo discurso calcado num consenso político e social.
Tal consenso, presente em instituições, universidades, parlamento, grupos
afro-brasileiros, empresas e agentes públicos interessados, passou a reconhecer
a dívida histórica e moral do Brasil em relação à África (Sombra Saraiva, 2012,
p. 179). </p>

    <p>Vale sublinhar, no entanto, que foi na
conjuntura propiciada pelos realinhamentos ocorridos no cenário interno e
externo que o Brasil, durante o governo Lula, saiu da posição de receptor para
ser um doador de ajuda internacional. Com isso, o país saiu de um aporte de
ajuda externa de aproximadamente “...US$ 1,5 milhão, em 2003, para mais de US$ 33 milhões em 2010.
Nos dois últimos anos, a África recebeu cerca de 50% do volume total da ajuda
brasileira, onde destacou-se Moçambique<a href="#_ftn7" name="_ftnref7" title=""><sup>[7]</sup></a> como principal receptor”
(Garcia, Kato &amp; Fontes, 2013, p. 13).</p>

    <p>Da perspectiva do Brasil, a cooperação
em iniciativas de desenvolvimento no âmbito Sul-Sul é conceituada de forma
distinta da ajuda oficial para o desenvolvimento (AOD), normalmente oferecida por
meio de mecanismos oriundos da relação Norte-Sul<a href="#_ftn8" name="_ftnref8" title=""><sup>[8]</sup></a>. Nesse sentido, os
discursos veiculados nos documentos em prol da cooperação Sul-Sul pautam-se na
ideia de que a cooperação visa “a criação de uma nova ordem mundial, sustentada
por um conjunto de princípios e diretrizes (como o estado de direito e a
democracia), que não deveriam ser condições para o diálogo e a negociação com
os países envolvidos” (IPEA &amp; Banco Mundial, 2011, p. 37). Além disso, é destacado que a
política de cooperação brasileira se efetua em consonância com a política
externa do país, enfatizando entre outros princípios “a não intervenção e
respeito pela soberania, solidariedade e a transferência de conhecimento e tecnologia
sem condições” (<i>ibid</i>.,
p. 39).</p>

    <p>Nesse diapasão, a política de cooperação
Sul-Sul brasileira passou a ser difundida e caracterizada por inserir o Brasil
como um “novo doador” que se diferencia dos doadores tradicionais &#8211; EUA e países da OCDE &#8211; na medida em
que disponibiliza recursos não reembolsáveis, não vincula a ajuda externa a
condicionalidades econômicas e/ou políticas e por utilizar instrumentos que não
implicam transferência de recursos, evitando, desse modo, corrupção, desvios
etc. (<i>ibid.</i>).
Enfatiza-se, portanto, o caráter da “horizontalidade” entre doador e receptor e
a “autonomia” do país receptor. Todavia, concordo com o argumento de que “esse
discurso esconde relações de poder e de dependência peculiares e indiretas, que
ainda precisam ser averiguadas” (Garcia <i>et
al.</i>, 2013, p. 14).</p>

    <p>No âmbito dos países africanos
receptores, por outro lado, Moçambique tem se sobressaído por seu protagonismo
na cena internacional contemporânea. Fatores diversos vieram contribuindo para
que este país se colocasse na dianteira do processo de atração de investimentos
estrangeiros diretos, ocupando lugar de destaque entre os demais. Em grandes
linhas, vale sublinhar entre os principais fatores: a) as reformas realizadas,
a partir de 1983, visando à reconversão da ordem socialista vigente desde a
independência do país, em 1975, à economia de mercado e à democracia liberal;
b) a realização de reformas econômicas, a partir de 1987, segundo os padrões
sugeridos pelo Banco Mundial; c) abertura da economia nacional e criação de
incentivos fiscais para realização de investimentos estrangeiros diretos no
país; d) a presença de grandes reservas de recursos minerais ainda não
explorados.</p>

    <p>Neste contexto, a política de cooperação
brasileira em Moçambique, assim como nos demais países africanos, vem se
realizando por meio da cooperação técnica (transferência de conhecimento e
tecnologia) e via investimentos diretos. Nesta última modalidade, as empresas
brasileiras da construção civil e do setor extrativo tem posicionamento privilegiado<a href="#_ftn9" name="_ftnref9" title=""><sup>[9]</sup></a>, na medida em que
comparecem como grandes investidoras no país.</p>

    <p>A atratividade dessas empresas
relaciona-se com a recente descoberta de reservas de recursos minerais na Bacia
de Moatize-MZ,
que contém uma das maiores reservas de carvão siderúrgico de alta qualidade no
mundo. Além do carvão de Moatize, foram descobertas milhões de toneladas de
reservas de ferro--vanádio e titânio na província de Tete, em 2012. Na
província de Nacala, no norte de Moçambique, foram encontradas reservas de
fosfato que colocam o país na posição de terceiro maior produtor mundial,
abrindo perspectivas para o mercado de fertilizantes. Ainda nesta província,
novas prospecções têm acusado a descoberta de pedras preciosas, dentre elas a
turmalina e o ouro. Em Cabo Delgado, também ao norte do país na fronteira com a
Tanzania, as empresas ENI (italiana) e Anadarko (americana) descobriram, em 2012, reservas de
petróleo e gás <i>off shore</i> em grande quantidade que podem colocar Moçambique na posição de um dos
maiores produtores africanos (Garcia <i>et al.</i>, 2013, p. 26).</p>

    <p>É neste cenário de oportunidades
econômicas e incentivos governamentais que os investimentos estrangeiros
diretos se destacam em Moçambique. A mineradora internacional Vale S.A., de origem
brasileira, foi a primeira empresa a ganhar concessão do governo moçambicano
para exploração da mina de Moatize, em 2004. Para instalação e governança dos
investimentos a Vale S.A. criou a subsidiária Vale Moçambique, cuja estrutura acionária está
assim constituída: 85% pertencem a Vale holding, 5% ao Estado moçambicano e 10%
a investidores nacionais. Para instalação da mina e execução dos projetos e
obras de infra-estrutura a empresa levou construtoras brasileiras como a
Odebrecht, Camargo Correa e Andrade Gutierrez, que vêm atuando em projetos
dessa natureza em países africanos desde a década de 1980 (Selemane, 2010;
Garcia <i>et al.</i>,
2013).</p>

    <p>Do ponto de vista dos processos de
negociação e decisão entre instituições e grupos empresariais brasileiros com o
governo (nacional e local) e segmentos empresariais de Moçambique, Garcia <i>et
al.</i> (2013) destacam que estes passaram ao largo da
maioria da população moçambicana, nos seguintes termos:</p>

    ]]></body>
<body><![CDATA[<blockquote>Redes político-empresariais (...) são o principal
meio de definição de negócios e de contratos em Angola e o principal fator
levado em conta em processos oficiais de tomada de decisão. (...) Esse aspecto
também foi muito destacado no contexto moçambicano, com muitas entrevistas
apontando para a coincidência entre políticos em cargos decisórios e
empresários donos de negócios que executam projetos públicos. Seriam, assim,
esses relacionamentos políticos, econômicos e, em alguns casos, pessoais, os
principais definidores dos negócios entre governo e empresas também em
Moçambique (p. 25).</blockquote>

    <p>Em termos de investimentos estrangeiros
diretos em Moçambique, a Vale S.A. ocupa posição principal entre as empresas brasileiras, cuja atuação
compreende investimentos em mineração e em logística de transportes. A empresa
já investiu cerca de 1,9 bilhão de dólares no complexo mina-ferrovia-porto,
cujo modelo de atuação assemelha-se muito com estratégias adotadas no Brasil,
quando da construção do sistema sul (anos de 1960 e 70) e sistema norte (anos
de 1980)<a href="#_ftn10" name="_ftnref10"
title=""><sup>[10]</sup></a>.
A viabilização do escoamento da produção para os mercados compradores demandou
da empresa alto investimento em logística de transportes ferroviários para
conectar Moatize ao porto mais próximo, localizado na cidade de Beira, na
província de Sofala ao sul de Moçambique<a href="#_ftn11" name="_ftnref11" title=""><sup>[11]</sup></a>. </p>

    <p>Além dessa ferrovia ao sul, a Vale prevê
a construção de outra visando conectar Moatize ao porto de Nacala, no norte,
que terá capacidade para movimentar 18 milhões de toneladas de carvão por ano.
A linha inclui um trecho de 237 quilômetros passando por Malaui, país vizinho a
Moçambique, e terá no total 912 quilômetros (Vale S.A., 2014b, 2014c). Nestes
investimentos, as estratégias da Vale S.A. se articulam com o projeto do governo
moçambicano intitulado Corredor de Nacala e com a política de cooperação
brasileira na área de agricultura, especificamente com o projeto ProSavana.
Fica evidente, neste caso, uma estreita correlação entre os investimentos
privados da Vale e as políticas de cooperação para o desenvolvimento do governo
brasileiro (Garcia <i>et al.</i>,
2013, p. 27).</p>

    <p>Em termos de expectativas por parte do
governo e da população de Moçambique, sobretudo a população da região de
influência direta na província de Tete, o anúncio em 2004 da chegada da Vale
foi acompanhado da esperança de que havia chegado o momento para o país
alavancar sua economia e, desse modo, superar suas condições de pobreza. Tal
expectativa ancorava-se na promessa propagada pela multinacional de geração de
empregos e transferência de tecnologia. Com isso, seus investimentos iriam
dinamizar a economia e gerar receitas públicas, ao mesmo tempo que desenvolveria
um setor estratégico da economia moçambicana que impulsionaria mudanças em
outros setores, ativando o desenvolvimento do país.</p>

    <p>Entretanto, estudos e pesquisas<a href="#_ftn12" name="_ftnref12" title=""><sup>[12]</sup></a> sobre a dinâmica de
atuação da Vale e sobre os efeitos dos investimentos no desenvolvimento
econômico do país argumentam que a perspectiva anunciada tem ficado muito aquém
das promessas propaladas. Tal distância é atribuída a diversos fatores. Em
primeiro lugar, destacam “a pouca estrutura do governo moçambicano para
negociar com uma empresa com o poder econômico e o porte da Vale S.A., e a pouca
capacitação do seu corpo burocrático para articular esses projetos setoriais
num plano de desenvolvimento econômico”. Em segundo, ressaltam a pouca absorção
da mão de obra local, que é “em grande parte pouco qualificada e com pouca
experiência em trabalho formal na indústria”, por isso salientam que os
empreendimentos da Vale, em Tete, têm sido acompanhados “de muitas denúncias de
contratação de mão de obra externa (de outras partes do país ou mesmo
internacional)” (Garcia <i>et al.</i>,
2013, pp. 27-28). Em terceiro, ressaltam o “tratamento diferenciado que é dado
para os trabalhadores nacionais e estrangeiros. Não há um sistema de piso
salarial por categoria em Moçambique e as negociações salariais dentro da
empresa são individuais e não coletivas” (<i>ibid</i>., p. 43). O depoimento a seguir, do representante do Ministério do
Trabalho Provincial de Tete, sublinha nos seguintes termos este aspecto.</p>

    <blockquote>Há uma grande diferença entre o trabalhador
nacional e o trabalhador estrangeiro. Cada um tem um salário. O pagamento e a
fixação dos salários não é transparente. O Ministério [do Trabalho] orienta as
empresas para a prática da igualdade salarial. [Mas] Não podemos determinar o
quanto pagar. O contrato de trabalho nacional e aquele para os estrangeiros são
diferentes. Tem havido muitas greves por conta da desigualdade dos salários.
Odebrecht e Vale tiveram intervenção da polícia nos últimos anos. O Ministério
manda a Polícia Nacional para baixar os ânimos (como citado em Garcia <i>et
al.</i>, 2013, p. 43).</blockquote>

    <p>No que concerne à promessa de
diversificação da economia, transferência de tecnologias e de qualificação de
trabalhadores, também não vem se verificando de acordo com as expectativas
geradas. As entrevistas realizadas em Tete por Garcia <i>et
al.</i> (2013) evidenciam a opção por um modelo produtivo
de baixo custo e valor agregado para exportação sob a forma de <i>commodities</i>. Com isso, a empresa não impulsiona a diversificação da economia
local, nem induz o investimento em setores considerados prioritários, tais
como: “empresas de construção civil ou de siderúrgicas locais, constantes nos
planos de investimento oficiais” (<i>ibid</i>., p. 40).</p>

    <p>Desse modo, tem preponderado a opção por
investimentos que possuem um retorno rápido, e que não são estruturantes. Face
ao processo de consorciação altamente assimétrico entre os gestores da Vale S.A. e os gestores das
instituições governamentais, os autores acima citados argumentam que os
processos decisórios para definição dos investimentos prioritários acabam sendo
regidos por fatores que não levam em conta possibilidades mais inclusivas para
a sociedade como um todo. Desse modo, do lado da empresa prioriza-se a
lucratividade, do lado do governo os ganhos pessoais derivados de propinas,
corrupção e comissões indevidas (<i>ibid</i>., pp. 40-41).</p>

    <p>Do ponto de vista da dimensão dos
impactos territoriais, sociais, culturais e ambientais, os grandes
investimentos efetuados pela Vale S.A., de forma concentrada no tempo e no espaço, têm afetado de modo muito
desigual os distintos grupos sociais localizados na região de influência direta
dos mesmos. Além disso, numa economia de reduzida magnitude como a moçambicana,
produziu como efeito o reordenamento desses espaços alterando completamente a
vida dos habitantes, sobretudo aqueles localizados na província de Tete. O
aumento dos fluxos econômicos e migratórios para a região produziu como efeito
o encarecimento dos produtos alimentícios, aluguéis, bens e serviços em geral,
assim como pressões sobre o espaço urbano construído.</p>

    <p>Ademais, as mudanças econômicas e
sociais em grande escala, além dos impactos e dos conflitos trabalhistas
mencionados, desencadearam também conflitos sociais. Estes últimos derivados da
forma como foi realizada a remoção de 1.313 famílias de agricultores, compondo
um total de quase 5 mil pessoas que ocupavam a área da mina de Moatize
(Selemane, 2010, pp. 21-24; Mozambique Bulletin, 2012, pp. 1-2; Garcia <i>et
al.</i>, 2013, pp. 45-47).</p>

    ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Conflitos e tensões ocorridos entre as
comunidades transferidas e a empresa têm sido numerosos. Na maioria das vezes
resultam da ausência de informações claras, da não compreensão da cultura local
na elaboração dos projetos de assentamento, da transferência das famílias para
locais onde não podem exercer suas atividades agrícolas, da qualidade precária
das habitações construídas e ausência de infraestrutura de saneamento, locais
muito distantes dos centros urbanos e distritos, entre outros fatores
(Selemane, 2010; Mozambique Bulletin, 2012; Garcia <i>et
al.</i>, 2013).</p>

    <p>Em suma, os efeitos das grandes mudanças
em curso vêm impactando de forma muito desigual os diversos grupos sociais
moçambicanos. A política de desenvolvimento adotada pelo Estado moçambicano
incentivou o crescimento econômico continuado por meio dos investimentos estrangeiros
diretos, fomento a exportações de <i>commodities</i> e manutenção nos montantes de ajuda internacional<a href="#_ftn13" name="_ftnref13" title=""><sup>[13]</sup></a>, desencadeando um
processo de crescimento voltado para fora, baseado na exportação de produtos
primários, notadamente recursos minerais, e importação de produtos e serviços
de alto valor agregado, ao lado da baixa diversificação da indústria nacional
(Garcia <i>et al.</i>,
2013, p. 20). Como resultante, ao invés de reduzir os fatores geradores de
pobreza, vem ampliando as desigualdades sociais e gerando concentração da
riqueza nas mãos de poucos.</p>

    <p><b>Considerações finais</b></p>

    <p>A reflexão sobre os temas do
desenvolvimento, da cooperação externa para o desenvolvimento e dos
investimentos estrangeiros diretos nos países que passaram a ser integrados aos
processos de globalização contemporâneos buscou pontuar os principais aspectos
políticos, econômicos e sociais que comparecem imbricados nas relações
assimétricas estabelecidas com os países que ficaram fora dos circuitos
pretéritos do desenvolvimento industrial moderno, como é o caso de Moçambique.</p>

    <p>A tentativa de ilustração dos
descompassos e conflitos que emergem a partir das estratégias de investimentos
estrangeiros diretos, realizados pela Corporação Multinacional Vale S.A., entre outras, buscou
mostrar os desafios e os desencontros que se colocam nessa relação.</p>

    <p>No caso da Vale S.A., em Moçambique, apesar da
origem da empresa localizar-se no Brasil, país que também foi colonizado e de
industrialização tardia, que em seu discurso de aproximação com a África propõe
uma forma distinta de cooperação e ajuda externa, em razão de laços históricos
e de dívidas morais acumuladas, poderia levar a supor e a esperar que o modelo
de atuação e de gestão da empresa pudesse estar em consonância com estes
princípios.</p>

    <p>Todavia, o que se tem observado em
diversos estudos realizados sobre Moçambique é que o resultado do que a Vale
transporta em sua metalinguagem, expressa no discurso: “Transformar recursos
naturais em prosperidade e desenvolvimento sustentável” (Vale S.A., 2014a), tem ficado
muito aquém das promessas veiculadas pela empresa. Os artefatos
tecnológicos, as práticas, procedimentos e racionalidades que vão junto com os
investimentos acabam por se sobrepor à lógica da vida e das relações presentes
nos espaços de influência direta dos mesmos, impondo outros ritmos e lógicas
que impactam de modo desigual os distintos grupos sociais.</p>

    <p>Na sociedade moçambicana e demais
sociedades do mundo colonizado, as assimetrias de poder e de recursos
(técnicos, administrativos, gerenciais, financeiros etc.) nas relações de
governança entre as corporações multinacionais, o Estado e a sociedade civil
caracterizam os descompassos e as dualidades entre os beneficiários e a grande
maioria dos excluídos. Estes se reproduzem na forma como o governo e as corporações
multinacionais, tanto no âmbito nacional como no local, veiculam e dimensionam
expectativas em torno da ideia de desenvolvimento que, no médio e longo prazos,
resultaria em benefícios para a sociedade como um todo.</p>

    <p>Neste sentido, o discurso que a multinacional
Vale veicula em suas páginas institucionais acerca do que ela leva e deixa para
as comunidades evidencia o modo como ela cria e difunde promessas para as
populações atingidas. Na página dedicada ao relatório de sustentabilidade, na
abertura do item comunidades, apresenta suas intenções em relação a elas nos
seguintes termos:</p>

    <blockquote>A Vale busca ser referência em atuação social
para deixar um legado positivo para as comunidades das quais faz parte. Temos o
comprometimento de respeitar e compreender as comunidades, levando em conta sua
diversidade cultural (Vale S.A., 2014d).</blockquote>

    ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Após ressaltar, em destaque, que 745 mil
pessoas foram beneficiadas direta ou indiretamente pela Fundação Vale, sublinha
que:</p>

    <blockquote>Os benefícios da nossa atuação vão além da
geração de emprego e do aumento da arrecadação de impostos. Nossos
investimentos geram também qualificação profissional, infraestrutura,
desenvolvimento da economia local, criação de polos científico-tecnológicos e
estímulo à cultura e ao esporte (<i>ibid.</i>).</blockquote>

    <p>Especificamente no que concerne aos
investimentos realizados em Moçam-bique, na página inicial, no <i>link</i> notícias, apresenta o discurso do Diretor-Presidente
em visita ao país, realizada em janeiro de 2014, cujo destaque são os esforços
da Vale para levar prosperidade, conforme segue:</p>

    <blockquote> A Vale veio para
ficar. A nossa visão continua a ser de longo prazo. Temos sido bem acolhidos em
Moçambique e queremos ver em cada quilômetro da ferrovia uma nova oportunidade
para que as pessoas e as empresas possam usufruir dos benefícios dos nossos
projetos. Não podemos criar uma ação em que nós saímos vitoriosos e a população
de Moçambique não se beneficie. Eles devem contribuir para o desenvolvimento do
país (Vale S.A., 2014e).</blockquote>

    <p>Os excertos acima ilustram o caráter da
metalinguagem da empresa na sua interação com as comunidades e países
receptores dos seus macro investimentos, voltados à extração de riquezas
minerais e criação de logística de transportes para viabilizar a exportação das
<i>commodities</i>, objeto de sua
atuação. Fica claro o tom de positividade que é exaltado em relação aos
benefícios que tais investimentos proporcionarão às comunidades diretamente
impactadas, e por conseguinte ao desenvolvimento do país, tal como é visto pela
lógica da empresa e demais atores que compõem a rede de produção ligada à
mineração.</p>

    <p>Todavia, o que o discurso não revela é
que com os investimentos chegam também, na mesma proporção, grandes impactos
sociais e ambientais cujos custos afetarão de forma muito diferenciada os
diferentes grupos sociais nos territórios em que se realizam. Ou, dito de outra
forma, considerando as assimetrias de poder que caracterizam a rede de produção
global de <i>commodities</i> liderada pela Vale S.A., sobretudo em economias não industrializadas, como é o caso de
Moçambique, a perspectiva assinalada no discurso beneficia apenas uma parcela
da população, enquanto grande parte é penalizada pelas lógicas competitivas que
conduzem o que se denomina de “desenvolvimento”. Com isso, como se ilustrou
anteriormente, se acirram as desigualdades da sociedade local, sob os efeitos
das estratégias de desenvolvimento implementadas autoritariamente sob o
predomínio da lógica dos principais agentes econômicos consorciados com os
agentes políticos da sociedade receptora.</p>

    <p>Enfim, o que as análises e reflexões
sobre o caso de Moçambique nos suscitam, em termos alternativos, é o desafio de
pensar sobre mudanças na matriz que informa o que se denomina de
desenvolvimento. Ou seja, para que outros futuros, fundados em matrizes
alternativas de desenvolvimento, sejam possíveis, é preciso desconstruir a
lógica colonialista subjacente ao conceito, de modo a questionar os termos em
que são estabelecidas as conexões e formas de consorciação entre governos e
corporações multinacionais que se fazem em nome do “desenvolvimento”.</p>

    <p>Há que se colocar em pauta o debate
sobre os pressupostos que presidem as concepções de desenvolvimento
transportadas pelos empreendedores externos, muitas vezes não explicitados.
Para tanto, se requer uma perspectiva crítica que coloque no centro do debate
os termos e as condições que estão conduzindo os grandes processos de mudanças
sociais, econômicas, culturais e ambientais, em curso, nos países não
industrializados e emergentes localizados no Sul global. </p>
    <p>&nbsp;</p>

    <p><b>Referências</b></p>

    ]]></body>
<body><![CDATA[<!-- ref --><p> Behrends,
A. (2008, April 11). Traveling models in conflict management: A new approach to
conflict research and intervention. <i>Africa
Peace and Conflict Network. Briefing Nº 2</i> . In <a href="http://www.africaworkinggroup.org/" target="_blank">http://www.africaworkinggroup.org/</a> (acedido em 10 de junho de 2012).    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000103&pid=S1645-3794201400010000400001&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>

    <!-- ref --><p>Czarniawska, B., &amp; Joerges, B. (1996).
Travels of ideas. In Czarniawska, B., &amp; Sevón, G. (Eds.), <i>Translating organizational change </i>(pp. 14-48). Berlim &amp; Nova Iorque: W. de Gruyter.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000105&pid=S1645-3794201400010000400002&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>

    <!-- ref --><p>Diallo, A. O. (2011). Renascimento africano e
desenvolvimento. <i>Revista
Conjuntura Austral</i>,
<i>2</i> (6), 92-120.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000107&pid=S1645-3794201400010000400003&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>

    <!-- ref --><p>Dussel, E. (1995). <i>The invention of the Americas.
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    <!-- ref --><p> Zorzal e Silva, M. (2004). <i>A Vale do Rio Doce na estratégia do desenvolvimentismo
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    <p>&nbsp;</p>

    <p><i>Recebido 28 de dezembro de 2012; Aceite 24 de março de 2014</i></p>

    <p>&nbsp;</p>

    <p><b>Notas</b></p>

    <p><a href="#_ftnref1" name="_ftn1"
title=""><sup>[1]</sup></a>&nbsp;&nbsp; Agradeço aos referees
dos <i>Cadernos de Estudos Africanos</i> os seus comentários, os quais muito contribuíram para o aprimoramento
das reflexões inicialmente elaboradas.</p>



    <p><a href="#_ftnref2" name="_ftn2"
title=""><sup>[2]</sup></a>&nbsp;&nbsp; Tal ressurgimento
caracteriza-se por diversas atividades acadêmicas, políticas e culturais
ocorridas em vários países do continente africano nas últimas décadas do século
XX. Com isso,
se generalizou uma percepção crescente sobre a responsabilidade das elites
domésticas com o encaminhar do seu próprio futuro (Diallo, 2011; Sombra
Saraiva, 2008).</p>



    <p><a href="#_ftnref3" name="_ftn3"
title=""><sup>[3]</sup></a>&nbsp;&nbsp; Os BRICS &#8211;
Brasil, Rússia, China e Índia &#8211; surgem na cena mundial, no limiar do
século XXI,
como um grupo de países emergentes, segundo caracterização do banco norte-americano
Goldman Sachs por suas capacidades de produção de riquezas mundiais. Tal ideia
foi assimilada e ressignificada por eles em benefício e com agenda próprias,
como ferramenta de uso político, visando à conformação do grupo (Teixeira,
2011, p. 133; Kabunda, 2011, p. 62).</p>



    <p><a href="#_ftnref4" name="_ftn4"
title=""><sup>[4]</sup></a>&nbsp;&nbsp; A cooperação para o
desenvolvimento surgiu após a 2ª Guerra, vinculada à criação do Plano Marshall
e aos processos de descolonização. As modalidades mais comuns, de acordo com a
literatura sobre o tema, são: a Cooperação Financeira (CF), a Cooperação
Técnica (CT) e a Assistência Humanitária (AH). Além dessas, também existem a
Ajuda Alimentar e a Cooperação Científica e Tecnológica, consideradas
modalidades menos frequentes (Iglesias Puente, 2010, p. 40; Escobar, 2012, pp.
5-20).</p>


    <p><a href="#_ftnref5" name="_ftn5"
title=""><sup>[5]</sup></a>&nbsp;&nbsp; Vale destacar que a
Cooperação Sul-Sul não é nova. Emergiu entre os anos de 1950 e 1970, em razão
da crescente percepção, pelos países do Sul, em relação às suas necessidades de
afirmação no cenário internacional. Sobre este aspecto ver, entre outros: Sombra
Saraiva (2012), Iglesias Puente (2010), Kabunda (2011).</p>



    ]]></body>
<body><![CDATA[<p><a style='mso-footnote-id:ftn6' href="#_ftnref6" name="_ftn6"
title=""><sup>[6]</sup></a>&nbsp;&nbsp; Sobre o conceito de <i>traveling
models</i>, ver: Czarniawska &amp; Joerges (1996),
Behrends (2008).</p>



    <p><a href="#_ftnref7" name="_ftn7"
title=""><sup>[7]</sup></a>&nbsp;&nbsp; Os principais países
receptores da cooperação são: Moçambique (15,78%), Timor Leste (15,16%), Guiné-Bissau
(14,43%), Haiti (13,11%), Cabo Verde (9,79%), Paraguai (7,45%), São Tomé e
Príncipe (6,99%), Guatemala (6,37%), Angola (4,76%), Uruguai (3,26%) e Cuba
(2,9%). Cf. Garcia, Kato &amp; Fontes, 2013, p. 13.</p>


    <p><a
href="#_ftnref8" name="_ftn8" title=""><sup>[8]</sup></a>&nbsp;&nbsp; A ajuda oficial para
o desenvolvimento (AOD) é definida pela OCDE como: “Fluxos de financiamento
oficial administrados, com a promoção de desenvolvimento e bem estar dos países
em desenvolvimento como o objetivo principal (...). Por convenção, os fluxos de
AOD consistem em contribuições de agências governamentais doadoras, de todos os
níveis, a países em desenvolvimento (‘AOD bilateral’) e para instituições
multilaterais” (Cf. IPEA &amp; Banco Mundial, 2011, p. 38).</p>



    <p><a href="#_ftnref9" name="_ftn9"
title=""><sup>[9]</sup></a>&nbsp;&nbsp; Sobre os
investimentos das empresas brasileiras em Moçambique e Angola, ver: Garcia <i>et
al.</i>, 2013, pp. 22-32.</p>



    <p><a href="#_ftnref10" name="_ftn10"
title=""><sup>[10]</sup></a>&nbsp;&nbsp; Sobre as estratégias da Vale no Brasil, ver Zorzal e Silva (2004).</p>



    <p><a href="#_ftnref11" name="_ftn11"
title=""><sup>[11]</sup></a>&nbsp; O transporte é feito por
meio da ferrovia Sena com extensão de 575 km e capacidade de escoamento de seis
milhões de toneladas de carvão por ano. A ferrovia pertence à Sociedade
Corredor Logístico Integrado de Nacala, que é uma sociedade entre a Vale (51%)
e Caminhos de Ferro de Moçambique (20%). Cf. Garcia <i>et
al.</i>, 2013, p. 26.</p>



    <p><a href="#_ftnref12" name="_ftn12"
title=""><sup>[12]</sup></a>&nbsp; Ver, entre outros, Garcia <i>et
al</i>. (2013), Selemane (2010), Mozambique Bulletin
(2012) e Nipassa (2009).</p>



    <p><a href="#_ftnref13" name="_ftn13"
title=""><sup>[13]</sup></a>&nbsp; Moçambique depende em torno
de 45% a 47% de ajuda externa para fechamento de seu orçamento (Garcia <i>et
al</i>., 2013, p. 20).</p>


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