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<article-title xml:lang="pt"><![CDATA[A Fronteira Moçambique-Zimbabué e os ndau: Práticas e representações transfronteiriças no distrito moçambicano de Mossurize (de 1975 à actualidade)]]></article-title>
<article-title xml:lang="en"><![CDATA[The Mozambique-Zimbabwe border and the ndau: Cross-border practices and representations in Mozambique’s district of Mossurize (1975 to the present)]]></article-title>
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<abstract abstract-type="short" xml:lang="en"><p><![CDATA[Perspectives on African borders, in general, are often based on assertions that the borders are artificial and arbitrary. However, this type of categorization seems to reveal ignorance against the practices and meanings that people attach to the local borders. This article seeks to contribute to this literature through a case study in Mossurize district, on the border between Mozambique and Zimbabwe. Original empirical evidence seeks to demonstrate how ndau border groups perceive and relate to the border and with their kinsmen living “on the other side”, and how major changes in the economic policy of one of those states has repercussions throughout the porous border.]]></p></abstract>
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</front><body><![CDATA[ 



    <p><b>A Fronteira Moçambique-Zimbabué e os <i>ndau</i>:
Práticas e representações transfronteiriças no distrito moçambicano de Mossurize (de 1975 à
actualidade)</b><sup><a
href="#_ftn1" name="_ftnref1" title=""><sup><sup>[1]</sup></sup></a></sup></p>

    <p><b>The
Mozambique-Zimbabwe border and the </b><b><i>ndau</i></b><b>:
Cross-border practices and representations in Mozambique&rsquo;s district of
Mossurize (1975 to the present)</b></p>
    <p>&nbsp;</p>

    <p><b>Marta Patrício</b>*</p>

    <p>*Centro de Estudos
Internacionais (CEI-IUL), Instituto Universitário de Lisboa (ISCTE-IUL), Avenida das Forças Armadas, 1649-026 Lisboa, Portugal, <a href="mailto:amepatricio@gmail.com">amepatricio@gmail.com</a></p>

    <p>&nbsp;</p>
    <p><b>RESUMO</b></p>
    <p>As perspectivas sobre as fronteiras
  africanas, de um modo geral, assentam frequentemente nas afirmações de que as
  fronteiras são artificiais e arbitrárias. Contudo, este tipo de categorizações
  parece revelar um desconhecimento face às práticas e significados que as
  populações locais atribuem às fronteiras. O presente artigo procura contribuir
  para esta literatura, através de um estudo de caso no distrito de Mossurize, na
  fronteira entre Moçambique e o Zimbabué. Os dados empíricos originais procuram
  demonstrar como os grupos fronteiriços <i>ndau</i> percepcionam e se relacionam com a
  fronteira e com os membros do mesmo grupo étnico que vivem “do outro lado”, e
  como alterações de fundo na política económica de um dos Estados se repercute
ao longo da fronteira porosa.</p>

    <p><b>Palavras-chave</b>: fronteira, Mossurize, Moçambique, Zimbabué, ndau</p>

    ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>
    <p><b>ABSTRACT</b></p>

    <p>Perspectives on African borders, in general, are often based on
assertions that the borders are artificial and arbitrary. However, this type of
categorization seems to reveal ignorance against the practices and meanings
that people attach to the local borders. This article seeks to contribute to this
literature through a case study in Mossurize district, on the border between
Mozambique and Zimbabwe. Original empirical evidence seeks to demonstrate how <i>ndau</i> border groups perceive and relate to the border and with their kinsmen
living “on the other side”, and how major changes in the economic policy of one
of those states has repercussions throughout the porous border.</p>

    <p><b>Keywords</b>: border,
Mossurize, Mozambique, Zimbabwe, ndau</p>
    <p>&nbsp;</p>

    <p>As fronteiras de África, o seu traçado por parte das potências
coloniais, as implicações para as populações divididas por estas fronteiras ou
as consequências destas terem sido mantidas após a descolonização, não
constituem temáticas recentes nem tão pouco representam um assunto original nas
Ciências Sociais. </p>

    <p>Com efeito, as discussões sobre as fronteiras africanas, de um
modo geral, assentam frequentemente nas afirmações de que as fronteiras são
artificiais e arbitrárias, foram desenhadas “a régua e esquadro” pelos
europeus, dividiram grupos étnicos entre dois ou mais Estados, e por isso
representam uma constante fonte de conflito. Contudo, o facto de regularmente
se caracterizarem as fronteiras africanas deste modo, sem que se problematizem
essas considerações, parece revelar um desconhecimento face à literatura sobre
as fronteiras africanas pré-coloniais (Kopytoff, 1989), sobre a Conferência de
Berlim e os seus impactos (Katzenellenbogen, 1996), ou sobre as formas como as
fronteiras têm sido representadas e apropriadas pelas populações que nelas
vivem (Flynn, 1997).</p>

    <p>O presente artigo parte destas premissas para, através de um
estudo de caso realizado no Sul da fronteira entre Moçambique e o Zimbabué,
analisar os significados que lhe são atribuídos pelos grupos sociais que
habitam a zona fronteiriça, e que pertencem ao grupo étnico <i>ndau</i>, bem como as suas práticas e dinâmicas
face à mesma, no período compreendido desde 1975 até à actualidade. A selecção
do distrito de Mossurize deve-se a dois factores: por um lado, à novidade
empírica que representa pois, à excepção de Fernando Florêncio (2005),
desconhecem-se outros trabalhos que refiram evidências sobre este distrito. Por
outro lado, Mossurize localiza-se numa fronteira africana predominantemente
porosa mas que não se consubstancia num foco de conflito ou de reivindicações
de cariz étnico por parte da população <i>ndau</i>, que passou a estar “dividida” entre dois
países com o traçado da fronteira. A opção pela delimitação temporal prende-se
com o facto de 1975 ser o ano da independência de Moçambique, isto é, o momento
em que a fronteira colonial se tornou a fronteira de um Estado independente.
Pretende-se aferir se tal constituiu igualmente um momento de ruptura em
relação a práticas e representações transfronteiriças anteriores. Em termos de
análise, entre 1975 e a actualidade destaca-se o ano 2000, quando o Zimbabué
mergulhou numa grave crise económico-financeira que se estendeu por toda a
década. Argumenta-se que esta conjuntura provocou alterações nas práticas sociais
e económicas da população moçambicana de Mossurize, visíveis na actualidade, e
contribuiu para conotar a fronteira, talvez pela primeira vez desde a
demarcação dos finais do século XIX, com uma linha de
separação entre populações. </p>

    <p>Para fundamentar esta posição, o presente artigo começa por
enunciar os debates que enformam os “estudos de fronteira” (<i>border studies</i>) no geral, e os estudos sobre as
fronteiras africanas em particular, tendo em conta os impactos das fronteiras
enquanto linhas de delimitação entre soberanias e jurisdições. As secções
seguintes debruçam-se sobre a fronteira Moçambique-Zimbabué e a trajectória de
formação do Estado de Moçambique, sobre o distrito de Mossurize e a população <i>ndau</i>, e, por último, sobre os resultados do
trabalho empírico efectuado nesse distrito. Os dados apresentados foram
recolhidos no distrito de Mossurize, predominantemente em Espungabera (capital
do distrito), seguindo uma metodologia qualitativa (Burgess, 1997, p. 112),
através das técnicas de observação participante e entrevistas não-estruturadas
conduzidas pela autora entre Abril e Maio de 2011. Os entrevistados são
maioritariamente do sexo masculino, com idades compreendidas entre os 25 e os
60 anos de idade. Foram ainda realizadas entrevistas a funcionários da
administração local, comerciantes, agricultores e autoridades tradicionais<a
style='mso-footnote-id:ftn2' href="#_ftn2" name="_ftnref2" title=""><sup>[2]</sup></a>. </p>

    <p>O artigo conclui que o traçado da fronteira <i>per si</i> não provocou alterações nas dinâmicas
sociais dos <i>ndau</i>, mas que a política económica do Zimbabué
na última década tem gerado alterações nos comportamentos económicos da
população do distrito de Mossurize com repercussões na percepção da fronteira.</p>

    ]]></body>
<body><![CDATA[<p><b><i>Border studies</i></b><b>
e </b><b><i>borderland studies</i></b></p>

    <p>Fronteira, território e soberania representam elementos
constitutivos do Estado com uma forte interligação entre si. Em sentido lato,
uma fronteira é uma linha imaginária que delimita o território (terrestre,
fluvial, marítimo e aéreo) de um determinado Estado, separando-o de territórios
adjacentes. Dentro de cada um dos limites criados, passa a vigorar um
ordenamento político e jurídico, específico e autónomo, diferente daquele
possível de encontrar no “outro lado” da fronteira. Isto é, o território de um
Estado representa o espaço de exercício pleno da sua soberania, a qual tem como
limites as suas fronteiras, do que resulta que um Estado soberano não pode ser
dissociado do território sobre o qual exerce o seu poder nem das suas
fronteiras (Zippelius, 1997, pp. 108-118).</p>

    <p>Este postulado tem vigorado até à actualidade, não só na Europa
mas também nos Estados pós-coloniais em África, os quais decidiram adoptar o
modelo do Estado moderno como forma de organização política aquando das suas
independências. Contudo, as dinâmicas políticas, económicas, jurídicas e
sociais que marcam a contemporaneidade têm provocado como que uma “diluição”
destas premissas, e embora estas continuem a ser formalmente relevantes, a um
nível material é possível encontrar algumas <i>nuances</i> na sua aplicabilidade.</p>

    <p>Uma das regras da “Guerra Fria”, perante o aumento do número de
Estados após a descolonização, era o desincentivo à alteração das fronteiras,
de modo a que se pudesse garantir a integridade dos Estados existentes (Herbst,
1996-1997, p. 122). Porém, o fim da “Guerra Fria” e a globalização trouxeram
novas abordagens às questões sobre as fronteiras, nomeadamente o princípio de
que as fronteiras não são linhas fixas ou barreiras. Esta ideia de “quase
desaparecimento” das fronteiras significa que a transferência de poder dos
Estados para empresas (ou instituições supranacionais) resultam num sistema
económico global que crescentemente opera de formas que retiram significado a
uma fronteira territorial, criando novos espaços sociais, políticos e
económicos que não podem ser delimitados de modo comparável à delimitação entre
Estados (Abraham, 2006, p. 285; Mbembe, 2002, p. 77; Williams, 2006, p. 2). </p>

    <p>Com efeito, a teoria do total desaparecimento das fronteiras em
virtude da globalização parece pouco plausível (Newman, 2006, p. 173), pois
muitas fronteiras têm sido gradualmente “abertas”, tendo em conta a crescente
cooperação económica em zonas politicamente estáveis. Mas, por outro lado, o
aumento das ameaças externas despoleta medidas securitárias que tornam algumas
fronteiras cada vez mais impermeáveis.</p>

    <p>Neste artigo veicula-se a posição de David Newman, e também a de
Malcolm Anderson, segundo os quais as fronteiras representam simultaneamente
instituições e processos que são relevantes para a compreensão da vida política
contemporânea que, como tal, as forças da globalização não serão capazes de
eliminar por completo (<i>ibid.</i>;
Anderson, 1996, p. 2).</p>

    <p>De uma forma ampla, e com base nesta trajectória das fronteiras
que se acaba de enunciar, pode afirmar-se que os estudos de fronteira
“convencionais” focam-se mais no Estado e os estudos “recentes” nas populações.
Anthony Asiwaju (2011), partindo da análise de Raimondo Strassoldo (1989, pp.
383-386) sobre os estudos “convencionais” (<i>border studies</i>) na Europa, defende que estes se baseiam
em perspectivas estatocêntricas, frequentemente associadas com a definição das
fronteiras, sua legitimação e disputas associadas, e assentam nos
enquadramentos disciplinares da Geografia, História, Direito, e Ciência
Política (Asiwaju, 2011, p. 3). Por sua vez, os estudos “recentes”, também
denominados <i>borderland studies</i> (por compreenderem as regiões em torno da
fronteira e não apenas a linha de demarcação), assentam em disciplinas como a
Sociologia ou a Antropologia para analisar as questões mais directamente
relacionadas com as populações que habitam zonas fronteiriças, suas dinâmicas e
desafios (Asiwaju, 2011, p. 4).</p>

    <p>Este enquadramento epistemológico, embora fundado nos estudos
sobre as fronteiras europeias, também se aplica ao estudo das fronteiras
africanas. Com efeito, os estudos de fronteiras africanas “convencionais”
conferem primazia ao Estado e à soberania territorial e assentam em questões
legais &#8211; como a definição de fronteiras, disputas associadas e
respectivos mecanismos de resolução &#8211; e políticas &#8211; como os
fenómenos decorrentes da existência de fronteiras: irredentismo, separatismo e
regionalismo (Nugent, 2002, p. 5). As obras de Carl Widstrand (1969) e Ian
Brownlie (1979) são referências paradigmáticas desta literatura.</p>

    <p>A partir da década de 1970 surgem os estudos de fronteiras
africanas mais “recentes”, onde se destaca o pioneirismo de Anthony Asiwaju.
Estes trabalhos analisam os impactos das fronteiras junto das populações
(Asiwaju, 1985) e começam nos anos seguintes a surgir perspectivas comparativas
sobre fronteiras africanas entre si (Asiwaju &amp; Adeniyi, 1989), entre
antigas delimitações coloniais que separavam territórios que agora se encontram
no mesmo Estado (Asiwaju, 1976; Miles,1994), e entre fronteiras africanas e
fronteiras de outros continentes (Asiwaju, 1996). De ressaltar ainda o importante
trabalho de Igor Kopytoff (1989) pela sua análise dos significados e das
representações africanas pré-coloniais de “território” e “fronteira”.</p>

    <p>As perspectivas sobre as fronteiras africanas produzidas na
contemporaneidade são de uma maneira geral constituídas por abordagens que
enfatizam o seu potencial de instabilidade e de conflito (Igue, 1995;
Englebert, Tarango &amp; Carter, 2002; Larémont, 2005), e por trabalhos que, em
oposição, defendem a sua resiliência e pertinência (Flynn, 1997; Donnan &amp;
Wilson, 1999).</p>

    ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Devido ao seu crescimento a partir da década de 1990, em clara
dissonância com a profetização do desaparecimento das fronteiras territoriais
veiculada pela globalização, os <i>border studies</i> adquirem cada vez mais relevância científica e têm até constituído
a base para a tomada de decisões políticas no terreno<a style='mso-footnote-id:
ftn3' href="#_ftn3" name="_ftnref3" title=""><sup>[3]</sup></a>. Talvez os estudos sobre
fronteiras tenham ressurgido exactamente para demonstrar que esses locais não
são estáticos, não são meras linhas em mapas onde uma jurisdição acaba e outra
começa. Pelo contrário, problematizam a forma como as fronteiras são
socialmente construídas, como são geridas e qual o seu impacto na vida
quotidiana de quem as habita (Newman, 2006, p. 173). Tal é válido igualmente
para o continente africano, onde a produção científica sobre as fronteiras tem
verificado um grande aumento, nomeadamente ao nível dos <i>borderland studies</i> &#8211; e que é a corrente na qual este
artigo se insere &#8211;, demonstrando que a perspectiva recorrente sobre a
herança das fronteiras coloniais tem sido largamente preterida em detrimento de
outras abordagens, como demonstra a próxima secção.</p>

    <p><b>Fronteiras africanas</b></p>

    <p>As fronteiras de África resultaram de um
conjunto de decisões tomadas pelas potências coloniais na Conferência de Berlim
de 1884-1885. Contudo, algumas generalizações que se produziram sobre a
Conferência carecem de rigor, no-meadamente o facto de ser vista como o local
onde os europeus arbitrariamente desenharam as fronteiras de África a “régua e
esquadro”. Com efeito, o principal propósito para a Conferência de 1884-1885
ter sido convocada deveu-se ao facto de a Alemanha pretender criar um consenso
sobre a apropriação de terras em África e, assim, controlar futuras expansões
das outras potências. Com efeito, e como sustenta Katzenellenbogen (1996), a Conferência
não só não estabeleceu o princípio da “ocupação efectiva” (que já vinha sendo
desenvolvido desde o século XVI e foi utilizado
diversas vezes para justificar certas exigências), como não foi o local onde
todas as fronteiras africanas ficaram decididas &#8211; a maioria delas
dependia de tratados que foram assinados posteriormente (pp. 21-22). Os
resultados da Conferência foram, na prática, somente o acordo de todos os
participantes na partilha da exploração económica de África, o reconhecimento
do Estado Livre do Congo e o estabelecimento do comércio livre nos rios Níger e
Congo (Katzenellenbogen, 1996, p. 23; Herbst, 1989, p. 683).</p>

    <p>A artificialidade das fronteiras africanas é outra generalização
muito referida mas pouco rigorosa, uma vez que o que é comum a todas as
fronteiras do mundo é exactamente a sua artificialidade. Apesar de, por vezes,
as fronteiras assentarem nos traços que são desenhados pela disposição natural
de rios, montanhas ou mares e, assim, estes elementos da geografia natural
serem utilizados para marcar os limites de um território, tal não significa que
as fronteiras sejam criações naturais; na realidade, elas são estabelecidas
pelo homem em virtude de objectivos específicos, e por isso toda e qualquer
fronteira é artificial, mesmo quando assenta em elementos fisicamente
observáveis. A par da ideia de “artificialidade” surge a ideia da
“arbitrariedade” que se deve à percepção de que as fronteiras africanas não
foram definidas pelos próprios africanos. Contudo, de acordo com Mbembe (2002),
as fronteiras africanas não são arbitrárias no sentido em que não foram
estabelecidas exclusivamente pelos europeus de forma discricionária e à revelia
de outros actores. De facto, e em grande medida, cada fronteira previamente
traçada ficou dependente de ser confirmada através de tratado ou convenção
resultantes de negociações diplomáticas, renúncias, anexações ou trocas entre
potências imperiais; ou procurou também manter as demarcações de unidades
políticas pré-coloniais com cujos representantes africanos se assinaram
tratados (Mbembe, 2002, p. 58). No caso das fronteiras que separam os países ao
longo dos limites do deserto do Sahara (Mali, Níger, Argélia) ou do deserto do
Kalahari, as fronteiras são apenas linhas imaginárias (<i>ibid.</i>). Na verdade, os europeus conheciam muito
pouco da demografia, etnografia ou topografia do continente africano, pelo que
os seus traçados acabaram por ser uma opção racional face à falta de informação
(Herbst, 1989, p. 674; Anderson, 1996, p. 79). Desta forma, as fronteiras tal
como foram traçadas serviram as necessidades de quem as criou e servem
actualmente as de quem decidiu mantê-las (Herbst, 1989, p. 692), pelo que
caracterizá-las como arbitrárias é uma afirmação pouco precisa.</p>

    <p>No período pré-colonial as fronteiras eram definidas de acordo com
a distância até onde uma unidade política conseguisse estender todo o seu
poder. As entidades políticas eram uma amálgama de espaços que se combinavam,
separavam e voltavam a juntar, através da mobilidade de pessoas e bens, de
conquistas e guerras; pelo que os seus limites ora se expandiam, ora se
contraíam, fazendo com que as fronteiras pré-coloniais fossem dinâmicas,
fluídas e flu-tuantes (Kopytoff, 1989, p. 12; Clapham, 1998, p. 88). A principal
mudança que o colonialismo impôs neste <i>status quo</i> foi um novo sistema de fronteiras
territoriais fixas, que os Estados africanos pós-coloniais decidiram manter.</p>

    <p>Com efeito, a Assembleia-Geral da ONU, nas suas 15ª (1960) e 16ª (1961) sessões, decidiu manter as
fronteiras coloniais. A OUA, na sua sessão inaugural de 1963, e numa
resolução mais específica sobre disputas transfronteiriças em 1964, aceitou o
princípio de <i>uti possidetis ita
possidetis</i>, isto é, “aquilo que
possuis continuas a possuir” (Anderson, 1996, p. 82; Abraham, 2006, p. 278). A
intangibilidade das fronteiras africanas ficava assim consagrada, e cada Estado
devia respeitar a soberania e integridade territorial dos restantes, bem como
“o seu direito inalienável a uma existência independente” (Chime, 1969, p. 66).</p>

    <p>Esta decisão de manutenção das fronteiras após 1964 pode ser
entendida à luz da auto-preservação do Estado, pois como afirma Saadia Touval
(1985, p. 225) temia-se que dar a um grupo ou região o direito de secessão
poderia despoletar outras exigências com o mesmo objectivo e, desta forma,
provocar a aceleração da desintegração do Estado.</p>

    <p>A característica mais distintiva das fronteiras africanas será
talvez o seu maior grau de porosidade em comparação com outras fronteiras
internacionais e, simultaneamente, o facto de essa maior porosidade contribuir
para a sua própria estabilidade &#8211; pois os espaços em aberto permitem uma
fácil mobilidade. Com efeito, por porosidade entende-se “uma condição de
permeabilidade permanente e a incapacidade de o Estado efectivamente regular
essa situação” (Strassoldo, 1989, p. 388) e controlar o tráfego de pessoas,
bens e informação ao longo da linha de fronteira (Anderson, 1996, p. 6). De
facto, uma linha de fronteira não é controlada por postos fronteiriços formais
em todos os pontos de passagem e no caso das fronteiras africanas, de um modo
geral, esta porosidade contribui para que sejam conotadas com “canais por onde
circulam pessoas, bens e animais” e como um fonte de oportunidades exploradas
de forma diferente por actores estatais e não-estatais (Nugent &amp; Asiwaju,
1996, p. 11). Assim, estas fronteiras são frequentemente uma realidade aceite e
activamente reproduzida na vida social e económica dos grupos fronteiriços, e
não uma fonte de grande contestação. </p>

    <p>Como resultado, as fronteiras africanas sofreram poucas alterações
desde o fim da descolonização, exceptuando a secessão da Eritreia (1993) e do
Sudão do Sul (2011). É certo que existiram conflitos relacionados com
tentativas de secessão, como o Katanga na República Democrática do Congo em
1960 e o Biafra na Nigéria em 1967. Mas ambos os casos, mais do que exigências
fronteiriças, tiveram por base exigências de acesso a recursos (cobre no
primeiro caso e petróleo no segundo) e ambos acabaram por ser controlados pelos
respectivos Estados. Outros exemplos foram as exigências da Somália sobre
Ogaden em 1963 e 1978 (sob controlo da Etiópia), a disputa entre o Chade e a
Líbia sobre a faixa de Aozou (1973-1994), as tentativas de independência do
Sahara Ocidental (ocupado por Marrocos desde 1975), ou a disputa entre a
Nigéria e os Camarões sobre a Península de Bakassi (1981-2008). Tentativas de
secessão na actualidade podem ser encontradas em Casamança (Senegal), Cabinda
(Angola), faixa de Caprivi (Namíbia), ilha de Anjouan (Comores) e nas
províncias anglófonas dos Camarões (Anderson, 1996, pp. 81-87).</p>

    <p>O que passa despercebido a quem perpetua os lugares-comuns de
“arbitrariedade” e “artificialidade” é que as grandes mudanças territoriais no
período pós-colonial ocorreram afinal a nível interno. Ao mesmo tempo que se
gerou consenso sobre a inviolabilidade das fronteiras entre Estados após as
independências, verificou-se uma grande tendência para a remodelação das
fronteiras internas através da criação de novas províncias, distritos e
municípios de acordo com objectivos políticos e económicos, conduzindo muitas
vezes à compartimentação e reificação de identidades étnicas, e isso sim,
potenciando conflitos (Mbembe, 2002, p. 60). </p>

    ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Ainda assim, há autores que defendem que um número substancial de
Estados africanos, devido à sua fragmentação política, não controla o conjunto
do seu território nacional, nem sequer nominalmente, pelo que as fronteiras só
fazem sentido nos mapas (Clapham, 1998, p. 82). Em resposta, surgem perspectivas
que sustentam que as fronteiras africanas são fortes e essenciais à
consolidação do Estado, pois funcionam como “mecanismos tampão” face a
influências externas indesejáveis (Herbst, 2000, p. 252).</p>

    <p>Sobre o impacto das fronteiras coloniais sobre os grupos étnicos
pré-existentes, e que também é um lugar-comum quando se analisam as fronteiras
africanas, Anthony Asiwaju (1985) apresenta uma lista dos grupos étnicos que
foram “divididos” pelas fronteiras internacionais (pp. 256-258). A sua distribuição
é transversal a todo o continente pois cada fronteira internacional em África
“corta” pelo menos um grupo. Mas este fenómeno não significa que todas as
fronteiras são fontes de conflito ou barreiras para estes grupos étnicos.
Apesar de serem mencionados nesta lista de Asiwaju, os <i>ndau </i>nunca viram a fronteira como um “muro” nem
exigiram a restauração do seu território tradicional, que se encontra dividido
entre Moçambique e o Zimbabué.</p>

    <p><b>A fronteira Moçambique-Zimbabué e o Estado moçambicano</b></p>

    <p>A fronteira entre Mozambique e o Zimbabué é uma das mais extensas
da África Subsaariana. Com cerca de 1.231 quilómetros de extensão, divide o
leste do Zimbabué do centro de Moçambique. Esta fronteira tem sido o foco de
algumas pesquisas sobre refugiados (Hughes, 1999), trabalho e migração (Neves,
1998; Allina-Pisano, 2003; Tornimbeni, 2005; Newitt &amp; Tornimbeni, 2008),
agricultura, terra e conservação ambiental (Hammar, 2010; Tornimbeni, 2007;
Hughes, 2001; Tornimbeni, 2010), e sobre autoridades tradicionais (Florêncio,
2005).</p>

    <p>O Tratado Anglo-Português de 1891 estabeleceu a fronteira entre
Moçambique e a então Rodésia do Sul após uma série de disputas sobre o controlo
das minas de ouro de Manica nos finais do século XIX. O confronto entre Portugal e a Grã-Bretanha teve o seu clímax no
<i>Ultimatum</i> de 11 de Janeiro de 1890, quando Londres
ameaçou bombardear Lisboa caso as suas exigências não fossem atendidas (Newitt,
1995, pp. 306-316). O processo de demarcações e modificações acabou por ser
longo e prolongou-se até 1940 (Brownlie, 1979, pp. 1219-1221). A longa
fronteira foi estabelecida segundo quatro pontos principais assinalados pelos
rios da região: entre o Zambeze e o Mazoé, do Mazoé ao Honde, do Honde ao Save,
e do Save ao Limpopo (<i>ibid.</i>).</p>

    <p>Com efeito, aquando do estabelecimento da fronteira, e de acordo
com Tornimbeni (2010), a região norte estava sob influência das migrações e
comércio muçulmanos, a região centro desenvolveu-se em torno da complexa rede
do sistema dos “prazos”<a style='mso-footnote-id:ftn4'
href="#_ftn4" name="_ftnref4" title=""><sup>[4]</sup></a>, a região sul era dominada
pelo Império de Gaza, e a Baía de
Delagoa estava ao serviço do Transvaal (p. 38). A posterior administração das
Companhias Monopolistas manteve as diferenças entre as zonas sob a sua alçada e
as restantes. Quando as suas concessões terminaram e Portugal assumiu a
administração colonial da totalidade do território moçambicano, herdou um
terreno fragmentado. As estradas e os caminhos-de-ferro que foram sendo
implementados em Moçambique pretendiam apenas garantir a ligação das colónias
britânicas no interior do continente à costa do Índico e acabaram por dar
origem aos denominados “corredores” (artérias de actividade económica). Desta
forma, nas zonas de fronteira com as colónias britânicas, a comunicação entre
os dois lados era frequente e existiam redes de contactos transfronteiriços
criados pela população em busca de trabalho, escolas, bens de consumo, terras e
manutenção dos laços de parentesco (Newitt &amp; Tornimbeni, 2008, p. 715).</p>

    <p>Assim, esta fronteira é particularmente porosa do ponto de vista
  dos movimentos migratórios e a população que habita a zona da fronteira mantém
  facilmente redes culturais e sociais transnacionais (Tornimbeni, 2010, p. 39).
  Ao longo de mais de 1.000 quilómetros apenas sete <i>checkpoints</i> são abertos ao tráfego automóvel e
  vigiados por guardas, enquanto os pedestres utilizam diversos caminhos
  “corta-mato” e, para eles e na maioria das vezes, a fronteira não é
inspeccionada, protegida ou demarcada (Hughes, 1999, p. 4).</p>

    <p>Devido à proximidade geográfica, o movimento através da fronteira
colonial era tão comum e as fronteiras tão permeáveis que as pessoas chegavam a
atravessar a fronteira diariamente, recorrendo a caminhos pré-existentes e
anteriores à ocupação colonial. O Estado colonial revelou-se incapaz de
controlar os movimentos quotidianos das pessoas, assim como as fugas ao imposto
de palhota (<i>mussoco</i>) e ao trabalho forçado (<i>chibalo</i>), e também às migrações ilegais para as
minas da África do Sul e para as plantações da antiga Rodésia (Branquinho,
1967).</p>

    <p>Esta situação encontra fundamento em Richard Larémont (2005), que
afirma que as fronteiras dos Estados africanos criaram Estados territoriais
legitimados pelo Direito Internacional e que são relevantes primeiramente para
os que se ocupam do poder político interno, mas insignificantes para a maioria
dos habitantes (pp. 24-25).</p>

    <p>Após a independência em 1975, o governo de Moçambique foi
atribuído à FRELIMO (Frente de Libertação de Moçambique)<a
style='mso-footnote-id:ftn5' href="#_ftn5" name="_ftnref5" title=""><sup>[5]</sup></a>.
Porém, logo em 1977, o conflito com a Rodésia do Sul<a style='mso-footnote-id:
ftn6' href="#_ftn6" name="_ftnref6" title=""><sup>[6]</sup></a>, a desestabilização
promovida pela África do Sul, e a guerra civil com a RENAMO (Resistência Nacional de Moçambique)
(1977-1992) causaram a destruição e o colapso económico do país. O Acordo de
Paz foi assinado apenas em Outubro de 1992 e a partir deste momento passou a
imperar a necessidade de reconstruir o país e garantir a unidade nacional. </p>

    ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Desde essa altura, foram encetadas medidas de descentralização e
de desconcentração político-administrativas, igualmente impulsionadas e
financiadas por doadores externos. Até ao momento, as medidas de
descentralização administrativa só produziram cinquenta e três municípios, uma
vez que as cidades e vilas de acordo com a Lei nº 2/97 têm de preencher certos
requisitos demográficos, económicos, sociais, culturais, administrativos e de
capacidade financeira para poderem ser consideradas municípios. Mais eficaz
parece ser o processo de desconcentração, com o estabelecimento de órgãos
locais do Estado<a href="#_ftn7" name="_ftnref7"
title=""><sup>[7]</sup></a> em
todo o país, contribuindo assim para o reforço do Estado-FRELIMO através do alargamento das suas estruturas
administrativas à totalidade do território.</p>

    <p>O distrito de Mossurize é predominantemente rural e por isso não
possui qualquer município. Mas o Estado local criou as suas representações nos
três postos administrativos do distrito (Chiurairue, Dacata e Espungabera).
Ainda assim, este é um distrito isolado e com acessibilidades muito
incipientes, onde este incremento da autoridade estatal parece ter um resultado
mais formal do que material, uma vez que a organização político-social
tradicional continua a ser preponderante.</p>

    <p>Os impactos desta trajectória de consolidação do Estado
moçambicano no distrito de Mossurize, juntamente com o seu carácter fronteiriço
e a capacidade de adaptação dos seus habitantes às mudanças, em função da maior
ou menor presença de agentes do Estado, exponenciam o potencial heurístico
deste local e serão analisados na próxima secção.</p>
    <p><b>O distrito de Mossurize e a população </b><b><i>ndau</i></b><b>: caracterização e evolução</b></p>

    <p>Na fronteira entre Moçambique e o Zimbabué encontra-se Mossurize,
um distrito moçambicano pertencente à província de Manica e que se situa na
parte Sul desta linha de fronteira. A sua capital é Espungabera e os
territórios limítrofes são o distrito de Sussundega (a Norte), o distrito de
Machaze (a Sul), o distrito de Chibabava (a Leste) e o Zimbabué (a Ocidente). A
sua população pertence ao grupo étnico <i>ndau</i>.</p>

    <p>&nbsp;</p>
    <p><img src="/img/revistas/cea/n27/n27a06f1.jpg" width="534" height="576"></p>
    
<p>&nbsp;</p>



    <p><img src="/img/revistas/cea/n27/n27a06f2.jpg" width="763" height="580"></p>
    
<p>&nbsp;</p>
    ]]></body>
<body><![CDATA[<p>As origens e a história do povo <i>ndau</i> encontram-se ligadas ao planalto do
  Zimbabué, à fragmentação do Império de Monomotapa e do Reino de Mbire e aos
  ciclos expansionistas dos rozvi. Os rozvi eram um grupo linhageiro
  shona-caranga que se deslocou das terras altas do <i>hinterland</i> do Zimbabué, em torno do século XV, e que ocuparam sucessivamente a faixa central entre os rios Búzi
  e Save, dominando as populações tonga que aí viviam e estabelecendo pequenas
  unidades políticas (chefaturas) relativamente autónomas umas das outras, mas
relacionadas pelo parentesco (Florêncio, 2005, p. 79).</p>

    <p>De acordo com vários autores, o termo <i>ndau</i> teria sido aplicado a estas populações
pelos invasores <i>nguni</i>,
vindos do leste da actual África do Sul e que ocuparam a região central e Sul
de Moçambique durante a segunda metade do século XIX, aí estabelecendo o Império de Gaza. O termo relacionar-se-ia com
a forma tradicional como estas populações saúdam um chefe ou um estrangeiro
importante: ajoelham-se, batem as palmas e repetida e ritmicamente gritam “<i>ndau ui ui, ndau ui ui</i>” (Florêncio,
2002, p. 52).</p>

    <p>A dominação <i>nguni</i>
foi inicialmente liderada por Sochangane. O seu filho, Umzila, estabeleceu a
capital em Mossurize, e o Império terminou em 1895, já sob a liderança do seu
neto, Gungunhane, quando este foi capturado pelas forças portuguesas lideradas
por Mouzinho de Albuquerque (Newitt, 1995, p. 337).</p>

    <p>Da mesma forma que resistiram aos <i>nguni</i>, os <i>ndau</i> também resistiram às tentativas de
submissão dos portugueses (Allina-Pisano, 2003), fundamentalmente utilizando a
fronteira como canal de fuga e juntando-se ao seu grupo de parenteso “do outro
lado”. Pelo que o estabelecimento da fronteira internacional em 1891 não rompeu
as ligações entre os <i>ndau</i>
que estavam agora sob duas administrações coloniais diferentes.</p>

    <p>De facto, essa “separação” nunca foi efectiva, como o demonstram o
conjunto de relações de subordinação política, com uma enorme componente
mágico-religiosa, entre as chefaturas <i>ndau</i>
moçambicanas e rodesianas (Florêncio, 2005, p. 129). De acordo com a
organização política tradicional <i>ndau</i>,
que se desenvolveu através da expansão desde o planalto do Zimbabué até ao
Oceano Índico, qualquer nova chefatura que fosse fundada neste processo, apesar
de conquistar um certo grau de autonomia, dependia sempre da chefatura da qual
tinha emergido (<i>ibid</i>.,
p. 87). Esta é a razão pela qual, ainda hoje, existem fortes relações entre as
chefaturas <i>ndau</i> na fronteira entre Moçambique e o
Zimbabué: os de Mossurize são tradicionalmente subordinados aos de Chipinge e
ambos se visitam regularmente.</p>

    <p>Mossurize ocupa uma área de 5.096 km<sup>2</sup> e, de acordo com
os censos de 2007<a href="#_ftn8" name="_ftnref8"
title=""><sup>[8]</sup></a>, o
distrito tem uma população total de cerca de 131.400 habitantes, que vivem em
pequenos grupos de povoações/aldeias dirigidas por um chefe, subordinado da
autoridade tradicional. De facto, em Moçambique as autoridades tradicionais
desempenham tarefas no âmbito do Estado local e são oficialmente reconhecidas
(Decreto 15/2000 de 20 de Junho).</p>

    <p>O distrito está dividido em três postos administrativos:
Espungabera, Chiurairue e Dacata. É um distrito rural, não existe acesso a água
canalizada e a rede eléctrica provém do Zimbabué. A população só fala português
nos postos administrativos &#8211; à medida que nos afastamos do centro destas
vilas, a língua predominante é a língua local (<i>cindau</i>)<a
href="#_ftn9" name="_ftnref9" title=""><sup>[9]</sup></a>. </p>

    <p>Como a observação no terreno demonstrou, as acessibilidades de
Mossurize são parcas e deficientes, o que tem contribuído para que este
distrito se mantenha bastante isolado do conjunto do território moçambicano. O
serviço de transportes públicos colectivos (“chapas”) é ocasional e muito
moroso. A principal estrada (estrada regional 216) é de “picada” e bastante
acidentada, o que torna difícil a viagem de duzentos e trinta quilómetros até à
cidade de Chimoio (capital da província de Manica).</p>

    <p>Desta forma, Mossurize tem sido caracterizado pelo isolamento.
Como este distrito foi sempre considerado apenas como fonte de mão-de-obra,
quer para a Companhia de Moçambique, quer para o Estado colonial, ficou
sistematicamente excluído dos diversos planos de desenvolvimento e de
investimento de infraestruturas (Neves, 1998, p. 176; Newitt &amp; Tornimbeni,
2008, p. 720). O Estado colonial só estabeleceu uma presença “regular” em
Mossurize após a criação de um posto administrativo em Espungabera em 1900, na
sequência da derrota do Império de Gaza. Documentos do início da presença
portuguesa na região já evidenciavam que a sua distância face à costa, o
terreno montanhoso e acidentado, as dificuldades em abrir estradas, e a
existência endémica de mosca tsé-tsé retiravam-lhe qualquer atractividade (AHM, Relatório do Governador do Território, Companhia de Moçambique,
1902-1903).</p>

    <p>Com efeito, perante as dificuldades de viver neste lugar,
praticamente toda a população emigrava para os territórios sob administração
britânica para trabalhar nas minas (África do Sul) ou nas plantações (Rodésia
do Sul) (Newitt &amp; Tornimbeni, 2008, p. 726). Além disso, devido à falta de
meios eficazes para controlar a totalidade da fronteira, os que permaneciam em
Mossurize fugiam para território inglês sempre que chegava a altura do
recrutamento para trabalho forçado ou do pagamento de imposto de palhota. Pelo
que, mesmo com um posto administrativo, e até ao final da ocupação colonial, a
linha de demarcação nunca entrou verdadeiramente nas práticas nem nas representações
deste grupo fronteiriço. Muito pelo contrário, a consciência de que as
condições económicas eram mais favoráveis “do outro lado”, faziam da fronteira
um canal de oportunidades. Se a independência de Moçambique e as décadas
seguintes transformaram estas percepções, é o que será analisado na próxima
secção.</p>

    ]]></body>
<body><![CDATA[<p><b>O período 1975-2000: evidências empíricas</b></p>

    <p>Com a independência de Moçambique, a proximidade da fronteira
continuou a representar uma oportunidade de fuga para a população sempre que a
efectiva presença do Estado condicionava o seu <i>modus vivendi</i>. Além disso, a guerra civil, que eclodiu
pouco tempo depois, e de acordo com as entrevistas recolhidas, acabou por
também aumentar o número de fugas para o Zimbabué. Este período foi
particularmente conturbado em Mossurize, pois a RENAMO ocupou vastas zonas do distrito a partir
de 1978 para o estabelecimento das suas primeiras bases militares em Moçambique
(Hall &amp; Young, 1997, pp. 126-127).</p>

    <p>A violência da guerra civil causou um enorme fluxo de moçambicanos
para o “outro lado”, quer para campos de refugiados, quer para procurar abrigo
junto de familiares e de membros do mesmo grupo étnico. Não foi possível aceder
a dados estatísticos deste período que permitam ter uma noção quantitativa
clara dos fluxos populacionais<a href="#_ftn10"
name="_ftnref10" title=""><sup>[10]</sup></a>. No
entanto, Jessica Schafer afirma que 50% dos habitantes de Mossurize deixaram o
distrito durante a guerra e a maioria fugiu para o Zimbabué (Schafer, 2007, p.
40). Mediante as entrevistas realizadas, pôde concluir-se que os actuais
habitantes de Mossurize referem sempre pelo menos um membro da sua família que
fugiu durante a guerra de independência ou aquando da guerra civil. Em qualquer
dos casos, as estadias no “outro lado” foram prolongadas e estas pessoas
acabaram por ficar a estudar ou a trabalhar na Rodésia do Sul/Zimbabué,
voltando a Moçambique apenas após a assinatura do Acordo de Paz em 1992. Alguns
sentiram-se de tal modo integrados que nunca se voltaram a fixar em Mossurize:
“Muita gente fugiu para o Zimbabué no tempo da guerra e depois ficaram como
permanentes” (Entrevista a autoridade tradicional, Espungabera, 09-05-2011). “A
minha família nasceu em Moçambique mas fugiram para o Zimbabué no tempo da
guerra e depois não foram repatriados. Escolheram ficar lá e gostam de lá
viver” (Entrevista a comerciante, Espungabera, 11-05-2011).</p>

    <p>O fim da guerra civil trouxe a necessidade de estabilizar e
consolidar o Estado, principalmente nas regiões devastadas pelo conflito ou
onde a presença da RENAMO havia sido mais preponderante e conseguido
o apoio das populações. Mossurize viu então serem construídas a Administração
Distrital e as Direcções Distritais do Estado, bem como a chegada dos
respectivos funcionários. Acostumada ao seu isolamento, a maioria da população
local retirou-se para zonas mais interiores:</p>

    <blockquote> A
maior parte da população que fala português são os funcionários governamentais,
que são de fora de Mossurize. Os que viviam cá antes são fechados a novas
influências, quem vem de fora é que tem de se adaptar. Não são maus, só não
gostam que as pessoas se tentem impor (Entrevista a funcionário do Estado
local, Espungabera, 09-05-2011).</blockquote>

    <p>O único posto fronteiriço oficial no distrito é o de Espungabera,
construído em 2007 e a uma distância de cerca de quatro quilómetros do centro
da vila. Trata-se de uma fronteira com um fluxo reduzido de pessoas e bens:</p>

    <blockquote> Esta
fronteira não tem muito movimento. A única altura em que passam mais pessoas é
no final do ano e talvez na Páscoa, quando os moçambicanos que trabalham na
África do Sul passam aqui para voltar a casa para as férias. É um trabalho
muito calmo aqui (Entrevista a funcionário do posto fronteiriço, Espungabera,
10-05-2011).</blockquote>

    <p>A generalidade dos informantes revelou que, na maioria dos casos,
a população de Mossurize prefere entrar “ilegalmente” no Zimbabué através de
caminhos “corta-mato”, seja a pé ou de carro, existentes um pouco por toda a
extensão da fronteira. Fazem-no por esta via informal porque ou não possuem
passaporte, ou para não pagar taxas alfandegárias pelas mercadorias que
transportam, ou porque fica mais perto chegar às povoações do Zimbabué através
destes caminhos<a href="#_ftn11" name="_ftnref11"
title=""><sup>[11]</sup></a>.
Crianças e jovens de Mossurize também frequentam a escola no Zimbabué:</p>

    <blockquote>Os
meninos vão à escola ao Zimbabué porque lá o ensino é mais avançado e porque
aqui as escolas só começaram a surgir mais em 2007, quando qualquer pessoa com
a 10ª classe podia ser professor (Entrevista a funcionário do Estado local,
Espungabera, 09-05-2011).</blockquote>

    <p>Os encontros entre autoridades tradicionais, que mantêm a sua
relevância pelas interdependências já referidas, são talvez os únicos que se
processam pela via formal:</p>

    ]]></body>
<body><![CDATA[<blockquote>Costumo
usar o corta-mato, menos quando é para acompanhar o tributo ao Mapunguana do
Zimbabué. Aí vou pela fronteira formal e é preciso fazer um documento para
aquisição de credencial para poder passar na migração (Entrevista a autoridade
tradicional, Espungabera, 09-05-2011).</blockquote>

    <blockquote>Quando participo nas
cerimónias no Zimbabué vou no carro da Administração e passo sempre na
fronteira formal. Ter de passar lá é que me faz lembrar que estamos em países
diferentes (Entrevista a autoridade tradicional, Espungabera, 12-05-2011).</blockquote>

    <p>Assim, a pesquisa indicia que as populações nesta região continuam
a atravessar a fronteira como o faziam no passado e vão ao Zimbabué visitar
parentes, à escola e participar em cerimónias. Os seus discursos parecem negar
a existência de grandes impactos decorrentes da delimitação da fronteira
internacional:</p>

    <p>Quem
vive aqui conhece melhor o Zimbabué do que Moçambique, toda a gente já foi ao
Zimbabué pelo menos uma vez e toda a gente tem lá família. Quem vive na
fronteira é assim, sempre tem família dos dois lados (Entrevista a comerciante,
Espungabera, 13-05-2011).</p>

    <blockquote> Antes as pessoas
viviam como pássaro: faziam o ninho onde as condições para ter alimentos
pareciam melhores, não se preocupavam com países. Agora já percebem que estão
em países diferentes, mas sabem que o Governo não controla a autonomia da
fronteira (Entrevista a funcionário do Estado local, Espungabera, 09-05-2011).</blockquote>

    <p>A única alteração parece ter sido nos seus hábitos comerciais. Com
efeito, a investigação aferiu que nos anos da guerra de libertação e da guerra
civil em Moçambique, eram sobretudo as populações afectadas por estes conflitos
que se deslocavam ao Zimbabué para se refugiar ou procurar bens que depois eram
introduzidos nos mercados de Moçambique:</p>

    <p>Antes
da crise no Zimbabué o fluxo era mais forte, no Zimbabué havia tudo com maior
variedade e toda a gente se abastecia lá. Até havia chapas de Espungabera para
o Zimbabué (Entrevista a comerciante, Espungabera, 08-05-2011).</p>

    <p>Com a crise económica do Zimbabué, que se iniciou no ano 2000, o
cenário mudou e aumentou a procura de diversos produtos no lado moçambicano<a
style='mso-footnote-id:ftn12' href="#_ftn12" name="_ftnref12" title=""><sup>[12]</sup></a>. Ao
mesmo tempo, as informações recolhidas durante as entrevistas demonstram que as
populações <i>ndau</i> de Moçambique começavam a preferir
abastecer-se noutro lugar que não o Zimbabué devido à enorme desvalorização do
dólar zimbabueano:</p>

    <blockquote>Quando a moeda do
Zimbabué desvalorizou muito, quase que era preciso carregar uma pasta cheia de
notas só para comprar um rebuçado. Chegaram a criar a nota de um trilião,
aquilo tinha doze zeros (Entrevista a comerciante, Espungabera, 07-05-2011).</blockquote>

    <p>Até 2000, e como diversos informantes confirmaram, a moeda mais
forte da região era o dólar zimbabueano e a preferência pelos produtos
zimbabueanos estendia-se até ao Chimoio (capital da província de Manica), em
cujos mercados também eram vendidos. Mas a decisão de Harare em 2009 de adoptar
o dólar norte-americano e permitir a circulação de outras moedas na fronteira
(como o rand da África do Sul ou o pula do Botswana) também contribuiu para
diminuir o fluxo das populações moçambicanas que antes se deslocavam sempre ao
Zimbabué para fazer compras. A investigação demonstra que actualmente os
habitantes de Mossurize deslocam-se mais frequentemente à cidade de Chimoio
para se abastecerem, percorrendo uma distância de duzentos e quarenta
quilómetros para cada lado, mas que afirmam ser mais benéfico do que os custos
cambiais: “Os chapas para o Zimbabué acabaram. Os chapas para Chimoio chegam a
demorar oito ou nove horas de caminho porque vão sempre a parar e a estrada é
má” (Entrevista a comerciante, Espungabera, 09-05-2011). “O dinheiro do
Zimbabué agora é mais caro e por isso compensa mais ir fazer compras a Chimoio”
(Entrevista a autoridade tradicional, Espungabera, 09-05-2011).</p>

    ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Se não fossem estes acontecimentos a condicionar os hábitos de
consumo e, de certo modo, a introduzir uma barreira ao comércio
transfronteiriço como nunca havia acontecido, poderia afirmar-se que esta
fronteira não era uma demarcação efectiva entre dois países distintos. De
facto, no passado a linha de fronteira não tinha qualquer materialidade: como
acima se refere, as unidades familiares e políticas <i>ndau </i>localizavam-se em ambos os lados da
fronteira e continuaram a relacionar-se mesmo durante o período colonial e
depois da independência dos dois países, o que demonstra continuidades na
representação de uma identidade comum, ancorada no Império do Monomotapa e na
submissão ao Império de Gaza, ambos anteriores ao traçado da fronteira. Esta
ideia de unidade com os “do outro lado” é perceptível na existência de locais
simbólicos comuns, como o “Lugar de Gungunhane”. Este é um local em
Espungabera, situado na margem da estrada para o distrito de Machaze (a Sul),
onde se encontra uma grande árvore ladeada por uma pedra:</p>

    <blockquote>Foi
nesta pedra que Gungunhane se sentou para descansar quando vinha com as suas
tropas lá dos lados do Zimbabué a fugir dos portugueses. Em Chipinge, do outro
lado da fronteira, existe um lugar exactamente igual a este, onde Gungunhane
também parou para descansar (Entrevista a funcionário do Estado local,
Espungabera, 09-05-2011).</blockquote>

    <p>A noção de unidade entre as populações <i>ndau</i> dos dois países parece ser evidente nas
entrevistas realizadas em Mossurize: </p>

    <blockquote>Não
há essa coisa de separação entre dois países, Chipinge e Mossurize é tudo <i>ndau</i>. Falamos a mesma língua, todos se
entendem, não é como entrar num país diferente (Entrevista a comerciante,
Espungabera, 07-05-2011).</blockquote>

    <blockquote>Uma pessoa que não
esteja familiarizada com a região não consegue distinguir um moçambicano de um
zimbabueano &#8211; são todos <i>ndau</i>
e todos falam na mesma língua uns com os outros (Entrevista a funcionário do
posto fronteiriço, Espungabera, 10-05-2011).</blockquote>

    <p>O conjunto das entrevistas evidencia que os habitantes de etnia <i>ndau</i> de Mossurize parecem partilhar a ideia de
pertença a um lugar chamado Moçambique, embora as características culturais
tradicionais comuns mantenham a sua força e contribuam para a consolidação da
identidade <i>ndau</i> na região para além de quaisquer
constrangimentos relacionados com a fronteira:</p>

    <blockquote>Moçambique
é o lugar onde a gente sai e há ligação com os outros que também saíram em
Moçambique. Mas como há a família do outro lado e nós podemos visitar sempre,
há essa liberdade. Eu sinto-me livre porque sou <i>ndau</i> (Entrevista a comerciante, Espungabera,
11-05-2011).</blockquote>

    <p>A palavra utilizada para designar “fronteira” na língua local (<i>ciNdau</i>) é <i>mugano</i>. Mas <i>mugano</i> significa “limite” e é utilizada para
designar qualquer limite de território (<i>nyika</i>), não apenas o caso específico do limite
entre Estados, pelo que se pode concluir, à semelhança do que afirma MacGonagle
(2007, p. 109), que no vocabulário <i>ndau</i>
nem sequer existe a noção clara da separação rígida entre duas unidades
políticas distintas.</p>

    <p>O alcatroamento da estrada regional 216, iniciado em 2012, vai
começar a permitir ligações mais céleres entre a vila de Espungabera e os
principais centros da província de Manica (Chimoio, Sussundenga e Dombe) e pode
trazer novas alterações ao distrito de Mossurize. O facto de tornar estas
ligações mais sistemáticas e confortáveis, bem como a comunicação com outros
distritos, pode ser um sinal de que o Estado pretende reforçar a sua presença
na região. A alteração da moeda na fronteira, juntamente com os progressos nas
acessibilidades, pode indicar que Mossurize está prestes a fechar a página do
seu isolamento dentro do território moçambicano e que a fronteira, que
simultaneamente o une e separa do Zimbabué, vai ganhando contornos cada vez
mais materiais. Se a porosidade desta fronteira vai perdurar será tema para
pesquisas futuras.</p>

    <p><b>Conclusão</b></p>

    ]]></body>
<body><![CDATA[<p>As dinâmicas fronteiriças do distrito de Mossurize aqui
apresentadas contribuem para demonstrar que esta fronteira africana, longe de
ser uma mera linha “arbitrária” ou “artificial”, é um importante atributo do
Estado e, simultaneamente, representa um conjunto de significados para as
populações que nela vivem e que a incorporam nas suas práticas.</p>

    <p>Apesar de ser uma fronteira porosa não é uma fronteira
conflituosa, isto é, o grupo étnico <i>ndau</i>,
que com o traçado da fronteira ficou dividido entre Moçambique e o Zimbabué,
nunca exigiu a revisão da mesma nem reivindicou que os seus membros habitassem
num mesmo território autónomo e unificado, coincidente com a delimitação
pré-colonial. Pelo contrário, a porosidade da fronteira tem contribuído para a
sua própria estabilidade, uma vez que não apresenta obstáculos inultrapassáveis
às práticas ancestrais de mobilidade e interdependência política, social e
cultural da população. De igual forma, nunca foi uma fronteira disputada entre
os dois Estados independentes. Pelo contrário, ao longo do tempo foi
representando uma via de escape para a população de cada um dos países sempre
que se verificaram conjunturas político-económicas conturbadas que dificultavam
o <i>modus vivendi</i> dos habitantes.</p>

    <p>Até à década passada, esta fronteira não era percepcionada pelos
grupos fronteiriços como uma barreira económica. A situação alterou-se com a
crise do Zimbabué que, desde 2000, tem provocado mudanças nos hábitos de
consumo dos <i>ndau</i> de Moçambique. O artigo procurou
demonstrar que esta conjuntura começou a provocar alterações nas práticas e
representações sociais dessa população e a fronteira já vai sendo conotada com
um obstáculo ao comércio transfronteiriço. Com efeito, a população de Mossurize
que, pela proximidade geográfica, se abastecia frequentemente de bens de
consumo no Zimbabué, tem vindo a deslocar-se mais assiduamente aos mercados
moçambicanos, nomeadamente ao Chimoio. Esta mudança deve-se a reajustamentos na
política económica e financeira do Zimbabué, que influenciou os movimentos
cambiais na zona de fronteira de Mossurize. Fazer compras no Zimbabué deixou de
ser atractivo e favorável para os moçambicanos.</p>

    <p>Pode inferir-se que o Estado moçambicano se encontra a capitalizar
este momento para reforçar a sua efectividade na região. Com efeito, a criação
das infraestruturas estatais locais nos últimos cinco anos, inserida no
processo de desconcentração administrativa, tem garantido a representação do
Estado em Mossurize. Contudo, esta representação é meramente formal, pois a
maioria da população continua a viver de acordo com a organização social e
política tradicional. Assim, perante a impossibilidade de incrementar a ligação
da população ao Estado, e de reverter a porosidade da fronteira, a construção
do Estado em Mossurize parece assentar na capitalização do facto de as
deslocações económicas ao Zimbabué terem diminuído, em detrimento do seu
aumento dentro do território moçambicano. Simultaneamente investe-se nas
infraestruturas de transporte no distrito, de modo a agilizar as deslocações
entre Mossurize, até agora sempre votado ao isolamento, e o resto do território
moçambicano.</p>
    <p>&nbsp;</p>

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    <!-- ref --><p>Newitt, M. (1995). <i>História de Moçambique</i>. Mem Martins: Europa-América.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000180&pid=S1645-3794201400010000600036&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --> </p>

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    <!-- ref --><p>Zippelius, R. (1997). <i>Teoria geral do Estado</i>. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000206&pid=S1645-3794201400010000600049&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --> </p>
    <p>&nbsp;</p>
    <p><i>Recebido 3 de maio de 2013; Aceite 9 de abril de 2014</i></p>
    <p>&nbsp;</p>

    <p><b>Notas</b></p>
    <p><a
href="#_ftnref1" name="_ftn1" title=""><sup>[1]</sup></a>&nbsp;&nbsp; Este artigo resulta
  de uma investigação iniciada no âmbito do projecto “Identidades e Fronteiras em
  África” (PTDC/AFR/098339/2008), financiado pela Fundação para a Ciência e a
  Tecnologia (FCT). A autora gostaria de agradecer o apoio da Coordenadora do
  Projecto, Cristina Udelsmann Rodrigues, e dos restantes membros da equipa
  durante toda a investigação, bem como da instituição de acolhimento, o CEA-IUL.
  Os dados utilizados neste artigo foram recolhidos com o incomensurável apoio de
  um assistente de pesquisa, residente em Mossurize e fluente na língua local (<i>cindau</i>), a quem a autora gostaria de expressar a sua mais profunda gratidão.
  Um agradecimento é ainda devido às pessoas que generosamente compartilharam os
  seus conhecimentos e as suas vidas durante as entrevistas, e sem as quais o
presente artigo não teria sido possível.</p>



    ]]></body>
<body><![CDATA[<p><a href="#_ftnref2" name="_ftn2"
title=""><sup>[2]</sup></a>&nbsp;&nbsp; As informações
recolhidas durante as entrevistas foram, a pedido dos entrevistados, concedidas
mediante a garantia de confidencialidade, pelo que as suas identidades não
serão reveladas no artigo.</p>



    <p><a  href="#_ftnref3" name="_ftn3"
title=""><sup>[3]</sup></a>&nbsp;&nbsp; Veja-se, a título de
exemplo, os <i>workshops</i> que a ABORNE (<i>African Borderlands Research
Network</i>) tem efectuado com representantes da AEBR (<i>Association
of European Border Regions</i>) ou da CEDEAO (Comunidade
Económica dos Estados da África Ocidental). A ABORNE é uma rede multidisciplinar
de investigação sobre as fronteiras africanas, fundada em 2007 em Edimburgo (<a href="http://www.aborne.org" target="_blank">http://www.aborne.org</a>).</p>



    <p><a style='mso-footnote-id:ftn4'
href="#_ftnref4" name="_ftn4" title=""><sup>[4]</sup></a>&nbsp;&nbsp; Também denominados
“prazos da Coroa”, esta designação refere-se a terras que Portugal entregava a
proprietários particulares, que as administravam e exerciam autoridade sobre as
respectivas populações de forma independente.</p>


    <p><a href="#_ftnref5" name="_ftn5"
title=""><sup>[5]</sup></a>&nbsp;&nbsp; A guerra pela
independência de Moçambique (1964-1975) foi travada fundamentalmente pela
FRELIMO. Desta forma, foi a FRELIMO que os portugueses reconheceram como
legítima representante da população e a quem entregaram o poder, sem que tenham
sido convocadas eleições.</p>



    <p><a style='mso-footnote-id:ftn6'
href="#_ftnref6" name="_ftn6" title=""><sup>[6]</sup></a>&nbsp;&nbsp; A Rodésia do Sul,
ex-colónia britânica, foi governada por uma minoria branca e Ian Smith era o
seu líder. Smith havia declarado unilateralmente a independência do país em
1965 e seguiu-se uma guerra civil entre o exército branco e os guerrilheiros da
ZANU (<i>Zimbabwe African Nacional Unit</i>) e da ZAPU (<i>Zimbabwe African Popular Unit</i>). Quando Moçambique se tornou independente (1975), decidiu fechar a
fronteira com a Rodésia e apoiar a ZANU, que atacou as forças de Smith a partir
de território moçambicano. Como consequência, Smith retaliou e iniciou os seus
próprios ataques em Moçambique.</p>



    <p><a
href="#_ftnref7" name="_ftn7" title=""><sup>[7]</sup></a>&nbsp;&nbsp; De acordo com o nº 1
do artigo 1º da Lei nº 8/2003 de 19 de Maio, são órgãos locais do Estado a
província, o distrito, o posto administrativo e a localidade.</p>



    <p><a href="#_ftnref8" name="_ftn8"
title=""><sup>[8]</sup></a>&nbsp;&nbsp; Sendo já
relativamente desactualizados, são contudo os dados oficiais mais recentes.</p>


    <p><a href="#_ftnref9" name="_ftn9"
title=""><sup>[9]</sup></a>&nbsp;&nbsp; Por este motivo a
autora necessitou de recorrer a um intérprete durante a realização de algumas
entrevistas.</p>




    <p><a href="#_ftnref10" name="_ftn10"
title=""><sup>[10]</sup></a>&nbsp; Sobre a dificuldade de
obtenção de dados estatísticos sobre as dinâmicas transfronteiriças
contemporâneas no distrito de Mossurize, ver Kaarhus (2013).</p>




    <p><a href="#_ftnref11" name="_ftn11"
title=""><sup>[11]</sup></a>&nbsp; Atravessando o posto
fronteiriço de Espungabera, a povoação zimbabueana mais próxima (Chaco) fica
ainda a mais de dez quilómetros de distância. </p>




    ]]></body>
<body><![CDATA[<p><a href="#_ftnref12" name="_ftn12"
title=""><sup>[12]</sup></a>&nbsp; Esta crise teve o seu ponto
alto em 2008 e provocou também a migração forçada de população zimbabueana para
Moçambique, afectada principalmente pela reforma agrária de Mugabe, a qual foi
encetada neste mesmo período. O número de zimbabueanos que fugiram para
Moçambique durante a década passada não está ainda extensivamente documentado e
analisado, embora as estimativas apontem para mais de quatro mil pessoas
(Kaarhus, 2013, p. 69).</p>


     ]]></body><back>
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