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<article-title xml:lang="pt"><![CDATA[Os Municípios dos “Outros”: Alternância do poder local em Moçambique? O caso de Angoche]]></article-title>
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<abstract abstract-type="short" xml:lang="en"><p><![CDATA[The 2003 local elections are the beginning of the exercise of local power by Renamo in Angoche. Which are the drivers behind this electoral outcome? Adopting a socio-historical perspective, this article seeks to understand how the political and administrative evolution of these territories influenced the exercise of local power. It argues that the relationship between the people and the State and the design and implementation of the ‘municipalization’ process led by Frelimo, since 1994, did not create proper conditions for the development of political pluralism. Since the dominant political party can resort to State resources, it has the ability to strengthen its political and electoral bases.]]></p></abstract>
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</front><body><![CDATA[ 

    <p align="right"><b>ARTIGO ORIGINAL</b></p>

    <p><b>Os Municípios dos “Outros”. Alternância
do poder local em Moçambique? O caso de Angoche</b></p>
    <p><b>The municipalities of &ldquo;others&rdquo;. Alternation of
local power in Mozambique? A case study of Angoche</b></p>
    <p>&nbsp;</p>
    <p><b>Domingos Manuel do Rosário</b>*</p>

    <p>*Departamento de Ciência Política e
Administração Pública, Faculdade de Letras e Ciências Sociais, Universidade Eduardo Mondlane, Campus-Principal da UEM, Avenida Julius Nyerere, n° 257, Maputo, Moçambique, <a href="mailto:sopito78@gmail.com">sopito78@gmail.com</a></p>


    <p>&nbsp;</p>

    <p><b>RESUMO</b>
    <p>As eleições municipais
de 2003 marcaram o início do exercício do poder local pela Renamo no município
de Angoche. Quais são os factores explicativos desta situação eleitoral local?
A partir de uma perspectiva sócio-histórica, este artigo procura compreender
como é que a evolução política e administrativa destes territórios influenciou
a lógica do poder local. São as relações estabelecidas entre as populações e o
Estado e a forma como a municipalização foi desenhada e implementada desde 1994
pela Frelimo que não proporcionam condições favoráveis à criação de um
pluralismo político, na medida em que o partido dominante consegue, através do
controlo que exerce sobre o Estado central, instrumentalizar os recursos e
fortificar suas bases políticas e eleitorais.</p>

    ]]></body>
<body><![CDATA[<p><b>Palavras-chave</b>: Angoche,
eleição, elite, Estado, Frelimo, municipalização, Renamo, Moçambique</p>
    <p>&nbsp;</p>
    <p><b>ABSTRACT</b></p>
    <p>The 2003 local elections are the beginning of
the exercise of local power by Renamo in Angoche. Which are the drivers behind
this electoral outcome? Adopting a socio-historical perspective, this article
seeks to understand how the political and administrative evolution of these
territories influenced the exercise of local power. It argues that the
relationship between the people and the State and the design and implementation
of the ‘municipalization’ process led by Frelimo, since 1994, did not create
proper conditions for the development of political pluralism. Since the
dominant political party can resort to State resources, it has the ability to strengthen&nbsp;its
political and electoral bases.</p>

    <p><b>Keywords</b>: Angoche,
election, elite, State, Frelimo, municipalization, Renamo, Mozambique    <p>&nbsp;</p>

    <p>O nosso estudo insere-se nos trabalhos que procuram
reconstituir com recurso a dados empíricos a análise do processo de
descentralização através de interrogações acerca do exercício da governação
local. A questão que colocamos é a de saber como (e com que estratégias) se
posicionam os múltiplos actores implicados na gestão do poder local. A hipótese
desenvolvida é a de que as reestruturações administrativas operadas e as
relações estabelecidas entre os poderes estatais e as elites e populações de
Angoche, ao longo do tempo, contribuíram para o voto a favor da Renamo, que,
entretanto “institucionalizada”, falhou a gestão local, devido não só aos
bloqueios financeiros e administrativos exercidos pelo poder central, mas
também à reprodução de práticas clientelares na gestão pública local. Para este
trabalho, para além da bibliografia de base sobre descentralização e eleições,
foram consultadas actas do Conselho Municipal de Angoche, jornais de maior
circulação nacional e feita uma observação directa à campanha eleitoral dos
partidos Frelimo e Renamo (2003) neste município. As entrevistas
semiestruturadas individuais e com grupos focais, com os candidatos às eleições
municipais de 2003 em Angoche, vereadores do Conselho Municipal, elites locais
e população foram também privilegiadas. A triangulação destas metodologias permitiu-nos
obter respostas sobre a problemática do exercício do poder ao nível local em
contexto de “fragilidade” institucional. Com base neste estudo concluímos que
os bloqueios operados pelo Estado central e a reprodução das práticas de gestão
neopatrimonialista pela Renamo exacerbaram os conflitos entre este partido, as
elites locais e a população, o que permitiu à Frelimo manipular as elites
locais e recuperar o poder municipal. Para uma melhor estruturação do
argumento, este artigo está dividido em três partes: a primeira parte mostra de
forma breve como é que a evolução política e administrativa foi determinante na
estruturação das relações entre o Estado, elites e populações ao longo dos
diferentes períodos da história de Angoche; a segunda discute as razões que
justificaram o tipo e o modelo de descentralização e a forma como o partido
Frelimo no poder ao nível central desde 1975 estruturou esta descentralização
para consolidar seu poder ao nível local; e, na terceira parte, mostra-se como
é que a ausência de mecanismos alternativos de gestão local contribuiu para a
instrumentalização do Estado e das elites locais pela Frelimo, para esta
recuperar o poder e consolidar sua hegemonia local.</p>

    <p><b>Do sultanato de
Angoche à Comissão Municipal de António Enes</b></p>

    <p>Para falar de Angoche é necessário levar em conta uma
zona económica que vai para além dos limites administrativos do actual distrito
de Angoche. De facto, o sultanato de Angoche, baseado no Catamoio, no interior
da Ilha de Angoche, projectava sua influência desde o antigo sultanato de
Sangage até ao sheikado<sup><a style='mso-footnote-id:ftn1' href="#_ftn1"
name="_ftnref1" title="">[1]</a></sup> vassalo de Moma, ao sul,
estendendo-se ao sultanato de Pebane, sobre o estuário de Moniga, no limite dos
domínios zambezianos (Pélissier, 1984, p. 35). As relações estabelecidas entre
o sultanato de Angoche e os outros sultanatos e sheikados e os chefes das
terras do interior e o comércio de escravos modificaram a situação
sociopolítica da região e jogaram um papel importante na natureza e no carácter
heterogéneo e complexo das suas instituições sociais. O sultanato de Angoche
fortificou sua posição, não somente em relação às redes do Oceano Índico,
dominado pelos suaílis, mas também em relação aos povos do interior próximo e
constituiu um obstáculo sério para a conquista do território, não só devido ao
seu proselitismo, mas também à resistência aos desígnios imperialistas dos
portugueses (Albuquerque, 1899, p. 12).</p>

    <p>Enquanto os portugueses tentavam acabar com a “falta
de respeito em relação á sua autoridade”, o Rei elevou, a 5 de Julho de 1865, o
sultanato de Angoche à categoria de governo subalterno (designado distrito de
Angoche). A sede do governo colonial, instalada na Ilha de Angoche, foi
transferida para o continente, porque a Ilha de Angoche “se situava numa zona
difícil para a navegação devido ao perigo que os indígenas representavam para
as autoridades portuguesas” (Ferrari, 1881, p. 6). Na nova capital, os
portugueses nomearam Intide Muno Suleiman Bin Raja como<i>
</i>sargento-mor, o mais alto posto ocupado por um indígena em Angoche
(Machado, 1970, p. 444), instalaram um juiz e um município (Botelho, 1921, p.
38), que foi abolido por Mouzinho de Albuquerque, através do decreto nº 9, de
10 de Dezembro de 1896, “por falta de pessoas competentes para exercer cargos
municipais, e fundos suficientes para cobrir as despesas administrativas”<sup><a
style='mso-footnote-id:ftn2' href="#_ftn2" name="_ftnref2" title="">[2]</a></sup> (Sousa, 1946, p. 78). Pelo
decreto nº 1 de 1893, a divisão administrativa da província de Moçambique foi
alterada. Todos os governos subalternos da província foram suprimidos e o do
distrito de Angoche foi substituído por um comando militar e, posteriormente,
pela capitania-mor de Angoche, anexa ao distrito de Moçambique em 1897. Esta
organização administrativa subsistiu até à conquista efectiva do território de
Angoche em Junho de 1914. Pelo decreto nº 68, de 30 de Junho de 1921, do Alto
Comissariado, as capitanias-mores foram subdivididas e o distrito de Angoche
tornou-se na sede da 11<sup>a</sup> circunscrição civil de Angoche, englobando
toda a superfície do antigo comando militar de Angoche e uma parte do comando
de Matatane, ocupando assim os territórios dos postos administrativos de
Quilua, Boila, Sangage e Larde (Machado, 1970, pp. 535-536). Em 1924, o artigo
77º da Carta Orgânica da Colónia de Moçambique determinou, no seu nº 2, a
separação dos territórios de Larde, que faziam parte da circunscrição civil de
Angoche e Mogovola, constituindo, pelo decreto provincial nº 68, de 30 de Junho
de 1924, a nova circunscrição civil de Moma (Secretaria Civil do Distrito de
Moçambique, 1924, p. 12). Do mesmo modo, o que constituía a simples circunscrição
civil de Angoche, pelo decreto nº 24621, de 31 de Outubro 1934, foi elevado à
categoria de concelho de António Enes, classificado como concelho de 3<sup>a</sup>
classe e a sua sede elevada, pela portaria 2377 de 19 de Dezembro de 1934, à
categoria de cidade (Sousa, 1946, p. 78). </p>

    ]]></body>
<body><![CDATA[<p>O Governo-geral, para melhor gerir o crescimento da
população branca depois da II Guerra
Mundial, foi obrigado a sistematizar sua política municipal, mormente através
da nova Carta Orgânica do Ultramar (1951). Foi na ocasião aprovado um diploma
legislativo que criou as “Comissões Municipais”, sorte de pré-município em
todos os concelhos onde o número de eleitores era inferior a 300<sup><a
style='mso-footnote-id:ftn3' href="#_ftn3" name="_ftnref3" title="">[3]</a></sup>, com excepção das sedes
dos distritos. Assim, a portaria nº 11579, de Agosto de 1956, transformou a Comissão
Administrativa do Concelho de António Enes em Comissão Municipal<sup><a
style='mso-footnote-id:ftn4' href="#_ftn4" name="_ftnref4" title="">[4]</a></sup>. Uma das primeiras medidas
tomadas pela Comissão Municipal, na sua tentativa de “civilizar os indígenas”,
foi a urbanização dos bairros de Inguri e Puli.</p>

    <p><b>A cooptação das elites e população locais?</b></p>

    <p>Na realidade, foi durante o período do administrador
colonial Cristóvão dos Santos, nos inícios dos anos 1960, que a nova equipa de
vereadores eleitos em António Enes começou um processo de cooptação das elites
e da população. No plano económico, a administração encorajou os capitais
portugueses e estrangeiros a investir na indústria de descasque de castanha de
caju. Assim, foram construídas três fábricas de descasque de castanha de caju
na cidade de António Enes. No plano político, enquanto para o colonialismo
português a acção dos muçulmanos era, em si mesma, prejudicial e justificava a
tomada de acções brutais contra eles, a perspectiva da luta anticolonial
obrigou o Estado português a mudar de atitude perante os muçulmanos. A fim de
evitar que os muçulmanos se associassem ao “inimigo”, a administração
portuguesa começou a apoiar acções religiosas, sociais, políticas e jurídicas
desenvolvidas pelos chefes religiosos muçulmanos, financiando viagens a Meca
(Alpers, 1999), mas também os colocou em posições electivas, dando-lhes postos
importantes na administração municipal de António Enes. Em 1966, a
administração municipal de António Enes urbanizou quase todo o bairro de
Inguri, habitado pela elite Coti. Em 1967, cerca de 200 casas modernas, com a
mesma qualidade das casas situadas na cidade principal e habitadas pela
população branca, tinham sido construídas (Nogueira, 1968, p. 12). Tratava-se,
sob cobertura de promoção social, de uma tentativa de controlo social e
político. </p>

    <p>É nesta condição de “paz social” entre as elites
locais, suas populações e as autoridades municipais que o Governo de Transição,
resultante dos Acordos de Lusaka, publica o decreto-lei nº 6/75, de 18 de
Janeiro. Este decreto-lei alterava as nomenclaturas da divisão administrativa
do território: antigos distritos tornaram-se províncias; os concelhos e
circunscrições passaram a ser distrito e, finalmente, os postos administrativos
a localidades (Pililão, 1989, p. 8). Com a lei nº 7, de 22 de Abril de 1978,
assistimos à abolição das “Câmaras Municipais”, “Juntas Autónomas” e demais
corpos administrativos e serviços de administração civil em todo o território
nacional, que foram substituídos pelas assembleias do povo. Com a formação das
assembleias, estavam criadas, segundo a Frelimo, as condições para a
organização do Estado e abolidas as antigas estruturas do Estado colonial. Ao
longo deste processo, notáveis religiosos, chefes das chefaturas locais, cuja
maioria tinha habitado em Inguri, foram acusados pela Frelimo de ter colaborado
com as autoridades coloniais e destituídos de seus direitos cívicos e
políticos, com o objectivo de impedir, não só sua entrada nos órgãos do
partido, mas também de sabotarem o programa de transformação social da Frelimo
(Frelimo, 1977). Com esta atitude, começou a florescer lentamente nas elites e
nas populações locais uma atitude de expectativa mal administrada pelas novas
autoridades. Os meios sociais urbanos, elitistas e populares de Angoche
entravam em posição desfavorável nas relações com o novo Estado independente,
que se queria modernizador das estruturas administrativas.</p>

    <p>Temos aqui numa situação diferente da estudada por
Geffray no caso de Érati, na Macuana, onde as populações próximas da Frelimo
tinham sido as privilegiadas durante o período colonial, enquanto os marginais
e rebeldes do período colonial continuavam marginais do Estado independente,
antes de se tornarem opositores da Frelimo e de se submeterem à autoridade
militar da Renamo (Geffray, 1990). Em Angoche, os beneficiários das políticas
coloniais encontravam-se numa situação de marginalidade <i>vis-à-vis</i>
o Estado independente. De facto, os Cotis foram apenas favorecidos pelos
portugueses no fim do período colonial. Antes tinham sido marginalizados. No
longo período colonial, foram mais marginalizados do que privilegiados. O que é
sobretudo diferente é que, em Érati, os meios étnico-sociais marginalizados não
tinham uma elite urbana, enquanto os Cotis de Angoche,
mesmo se marginalizados durante muito tempo pelo poder colonial e, depois, pelo
Estado da Frelimo, permanecem, ainda assim, como uma elite urbana, que, embora
parcialmente, conseguiu mudar o curso dos acontecimentos, graças ao
neoliberalismo.</p>

    <p><b>As reformas de descentralização, lógicas do
poder local, institucionalização e “gestão Renamo”</b></p>

    <p>A abolição dos partidos políticos surgidos depois de
1974, a política de “modernização autoritária” implementada pelo governo da
Frelimo depois de 1975 e factores de ordem histórica resultaram na guerra civil
que devastou o tecido social e económico do país (Abrahamsson &amp; Nilson,
1995, p. 66), exacerbando os conflitos sociais e políticos, nascidos durante a
colonização portuguesa e mal administrados durante o período do partido único.
Esta guerra contribuiu também para a configuração da estrutura política e
eleitoral de Moçambique no período do multipartidarismo. As primeiras eleições
gerais, presidenciais e legislativas de 1994 ganhas pela Frelimo, com 44,33%
dos votos contra 37,78% da Renamo, marcaram a bipolarização, demarcaram
regional e etnicamente o espaço político nacional e jogaram um papel importante
na escolha do tipo de descentralização a adoptar<sup><a style='mso-footnote-id:ftn5'
href="#_ftn5" name="_ftnref5" title="">[5]</a></sup>. </p>

    <p><b>As reformas de descentralização em
Moçambique: da lei 3/94 à lei 2/97 das autarquias locais</b></p>

    <p>A primeira fase das reformas de descentralização, que
culminou na lei nº 3/94, começou em 1991 com a elaboração, pelo governo, do
Programa da Reforma dos Órgãos Locais (PROL).
Este programa tinha como objectivo a reforma do sistema administrativo em
vigor, centralizado, pouco eficiente e desequilibrado, e a sua transformação em
23 “distritos municipais urbanos” e 128 “distritos municipais rurais” (sedes
distritais). Os distritos municipais seriam dirigidos por três órgãos
(presidente, assembleia e conselho municipal) eleitos por sufrágio universal,
directo e secreto. Estes órgãos deviam ter personalidade jurídica própria,
diferente da do Estado, e ser dotados de autonomia administrativa, financeira e
patrimonial (Lachartre, 2000, p. 321). A lei nº 3/94 foi aprovada por
unanimidade no fim da última legislatura monopartidária, pelos deputados da
Assembleia Popular, em Setembro de 1994, um mês antes das primeiras eleições
gerais de 1994. Foi uma unanimidade “não consensual”, ainda mais porque tinha
suscitado grandes debates e preocupações entre o governo e o partido do regime,
sobretudo no seio da “linha dura” (O’Donnell &amp; Schmitter, 1986), que não
aceitava fazer concessões e queria conservar intocáveis as estruturas de poder.
A forte oposição da “linha dura” estava ligada não só à crença numa possível fragmentação
do Estado, mas também a uma eventual perda de controlo sobre os rendimentos
económicos, porventura decorrente da autonomia na gestão dos recursos locais,
podendo, assim, intensificar-se a competição entre as estruturas do partido ao
nível central e as elites do poder local.</p>

    <p>Caminhando no sentido de reforço da unidade nacional,
da democracia e da reconciliação, os objectivos desta reforma seriam alcançados
através do diálogo, do consenso, da estabilidade política (Lachartre, 2000, p.
321) e económica. Do ponto de vista das finanças locais, os distritos
municipais beneficiariam de um regime financeiro e patrimonial e, também, de um
orçamento próprio, que seria elaborado e gerido de acordo com os princípios da
gestão por objectivos. As receitas seriam provenientes dos impostos municipais,
taxas e tarifas de serviços, ou de rendas de seu capital, de bens imobiliários,
de participações financeiras da venda de bens patrimoniais (art. 6º, alínea d-
da lei nº 3/94). Este artigo é paradoxal, na medida em que, depois da guerra
civil, muitas sedes distritais estavam completamente destruídas e sem nenhuma
infra-estrutura. Isto mostra o carácter mimético (Darbon, 1998, p. 62) desta
lei, que foi copiada da legislação municipal portuguesa, sem analisar as
condições sociais do lugar onde ia ser implementada.</p>

    ]]></body>
<body><![CDATA[<p>A segunda fase das reformas consistiu na criação das
autarquias locais (lei nº 2/97), em Fevereiro de 1997. Mas, entre as duas leis,
a composição da Assembleia da República tinha sido renovada pelas eleições
gerais de 1994, pondo fim à unanimidade e ao consenso que tinham conduzido à
adopção da primeira lei municipal (3/94). As eleições legislativas de 1994
permitiram ao partido Frelimo ganhar as eleições com 129 deputados (44,33%) e
conservar o poder executivo e legislativo. Contudo, os 112 (37,78%) deputados
eleitos pela Renamo punham em xeque a hegemonia política da Frelimo e
transferiram os debates para uma arena mais institucionalizada.</p>

    <p>Em 1996, foi proposta uma legislação complementar, que
culminou com a emenda constitucional e a adopção da lei nº 6/96, que
introduziu, no capítulo sobre os órgãos locais do Estado, 11 artigos (188-198)
sobre o “poder local”. Segundo a lei nº 6/96, os novos órgãos locais autónomos
(municípios) deviam completar e não substituir os órgãos locais nomeados pelo
governo central. Esta “dupla administração” implicava que as zonas rurais
seriam administradas por um administrador de distrito, nomeado pelo governo
central. Este exerceria o seu poder em paralelo com os órgãos representativos e
descentralizados (Soiri, 1999, p. 9) nas zonas onde fossem instalados
municípios (Simango, 1999, p. 15). A descentralização acentuava a divisão do
país entre centros urbanos, activos e dispondo de uma autonomia real de
administração, e uma zona rural submetida à assistência do Estado.</p>

    <p>Revogando a primeira lei (lei nº 3/94) sobre os
distritos municipais, a lei nº 2/97 das “autarquias locais” designava a
circunscrição territorial municipal, as cidades e vilas e sedes dos postos
administrativos e não mais o distrito, e excluía os territórios rurais, onde a
Renamo era forte politicamente. O princípio do gradualismo foi assim
introduzido<sup><a style='mso-footnote-id:ftn6' href="#_ftn6" name="_ftnref6"
title="">[6]</a></sup>. </p>

    <p><b>Um gradualismo produtor de diferenciações sociais</b></p>

    <p>Por força da lei nº 2/97, as eleições municipais
tiveram somente lugar nas 33 principais cidades e vilas que tinham adquirido o
estatuto de município. Segundo as estatísticas, cerca de 4,2 milhões de
eleitores (69% dos eleitores que tinham votado em 1994) foram, nas primeiras
eleições locais de 1998, impedidos de eleger seus representantes locais<sup><a
style='mso-footnote-id:ftn7' href="#_ftn7" name="_ftnref7" title="">[7]</a></sup>.
Este gradualismo separava cidadãos do mesmo país em duas categorias: a
primeira, constituída pelos residentes das cidades e vilas (mundo da Frelimo),
e a segunda, composta pelos habitantes dos distritos rurais, supostamente mais
próximos da Renamo<sup><a style='mso-footnote-id:ftn8' href="#_ftn8" name="_ftnref8"
title="">[8]</a></sup>,
que permaneciam assim impedidos de escolher seus representantes locais. Se
seguirmos a análise de Brunet (1997), segundo a qual</p>

    <blockquote> nos países que se preparam para uma descentralização e nos
quais a Reforma é ligada à democratização do regime político, a
descentralização deve ser implementada em todo o território nacional, porque
não será percebido pelas populações, que algumas acedam mais cedo do que as
outras, a um estado superior de democracia (p. 37),</blockquote>

    <p>compreende-se a reivindicação
de segmentos das zonas rurais, que se queixavam da sua exclusão nas eleições
autárquicas de 1998 e interpretavam esse procedimento como o regresso do
sistema de partido único, onde certos grupos sociais não podiam eleger nem ser
eleitos.</p>

    <p><b>Que descentralização?</b></p>

    <p>Se nos concentrarmos nas condições sobre as quais
certas experiências de descentralização, como do Senegal (Piveteau, 2005), da
África do Sul (Crouzel, 2004) e da Costa de Marfim (Koffi, Tere, &amp; Mel,
2013) se produziram, podemos concluir que, em Moçambique, as condições para a
implementação do processo não estavam reunidas. Tratava-se de um Estado
enfraquecido pela guerra civil que cedeu às pressões das instituições de
Bretton Woods para se comprometer com a descentralização (Otayek, 2007, p.
136), sem dispor de meios materiais e humanos indispensáveis para sua
concretização. Esta situação é diferente da dos países ocidentais, em que a
descentralização repousa sobre a existência prévia e o funcionamento
consolidado das estruturas locais, independentes e em torno das quais se agrega
uma lógica social particular e entidades locais com identidade própria
(Gontcharoff, 1991, p. 11), sem que isso represente um risco de ruptura de
fidelidade em relação ao centro político (Pérès, 1994). O processo de
descentralização deve incidir sobre uma história, uma cultura, instituições e
práticas próprias de modo a ser apropriado pelas populações locais (Brunet,
1997, p. 17) e não pode ser levado a cabo sem um certo número de forças
internas com aspirações a ultrapassar a democracia representativa e a
experimentar formas renovadas de exercício de poder local (Palard, 1993, p. 2).
Em Moçambique, apesar de o processo de descentralização não se ter realizado
com o impulso das autoridades locais, havia nas zonas rurais um certo número de
autoridades que alimentavam aspirações de mais autonomia, em particular ao
nível da gestão financeira de suas povoações (Lachartre, 2000, p. 334).
Contudo, esse desejo não foi tomado em conta, o que não favoreceu a
institucionalização de uma verdadeira democracia participativa (Braathen, 1998,
p. 8) não tendo sido criadas instituições locais representativas e
responsáveis, capazes de restituir o poder às populações (Ribot, 1999, p. 34).</p>

    <p><b>As eleições autárquicas de 2003: É possível
uma política municipal da Renamo num contexto de hegemonia política da Frelimo?
</b></p>

    ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Entre as eleições autárquicas de 1998, boicotadas pela
Renamo e ganhas pela Frelimo nos 33 municípios, e as eleições municipais de
2003, realizaram-se as segundas eleições gerais, presidenciais e legislativas,
em 1999. Apesar da vitória da Frelimo, com 48,54% dos votos, e do seu candidato
Joaquim Chissano, com 52,29%, a Renamo, com 38,1% dos votos, foi considerada a
grande vencedora, por ter conquistado mais uma província do extremo norte de
Moçambique (Niassa), nas mãos da Frelimo desde 1994. Com esta subida, a Renamo
seria capaz de ganhar as eleições municipais de 2003 em Angoche? Caso vencesse
as eleições municipais, a Renamo seria capaz, conforme Otayek (1989), “de
‘governar’ de uma maneira diferente, de implementar um programa credível e de
escapar à reprodução de interesses clientelares e comunitários” (pp. 10-11)
para preencher sua função de representação social, que lhe competia enquanto
partido político? </p>

    <p><b>A batalha das eleições municipais de 2003 em
Angoche. O regresso do Islão e da mesquita como “lugar” do político</b></p>

    <p>Com a instauração do pluralismo, os actores locais
mostraram nova dinâmica na tentativa de encontrar seu lugar no novo ambiente
político. Nesta dinâmica, o Islão, prática dominante no município de Angoche, e
os notáveis locais jogaram um papel determinante no estabelecimento de relações
entre os eleitores, candidatos e partidos políticos, sobretudo durante a
campanha eleitoral. Como é que se desenrolou a campanha eleitoral? Nesse momento,
assistiu-se a uma grande mobilização de recursos políticos e económicos em
Angoche?</p>

    <p>De facto, as campanhas são ocasiões para medir a
importância dada aos temas e argumentos nacionais/locais, quando a “oferta
política” feita aos eleitores comporta uma boa dose de solicitações localizadas
(Mabileau, 1993, p. 171). São momentos fortes da vida política, onde vemos os
políticos implementar todos seus recursos na batalha (Lacam, 1988, p. 30),
mesmo os que <i>a priori </i>não são os mais prováveis (caso da
realização dos <i>barajanzis</i> pela Frelimo). A campanha
eleitoral não era uma novidade em Angoche, porquanto as populações deste
município tinham conhecido experiências eleitorais durante a colonização
(Nogueira, 1968, p. 5). Contudo, as eleições pluralistas depois de 1994 tinham
acrescentado elementos democráticos muito importantes e alargado, de forma
considerável, a lista das regras do jogo locais<sup><a style='mso-footnote-id:ftn9'
href="#_ftn9" name="_ftnref9" title="">[9]</a></sup>. Vejamos como este
processo se desenrolou no município de Angoche.</p>

    <p><b>Entre o segredo (Renamo) e a abertura (Frelimo) na campanha
eleitoral em Angoche</b></p>

    <p>Em Angoche, o intuito da obtenção da ajuda e de apoio
político dos líderes religiosos muçulmanos levou os dirigentes da Frelimo a
optarem por uma campanha eleitoral aberta. Aquando da abertura da campanha da
Frelimo e de seu candidato, José Constantino, foi realizado pelos sheikhs<sup><a
style='mso-footnote-id:ftn10' href="#_ftn10" name="_ftnref10" title="">[10]</a></sup> locais, a pedido do
governador da província de Nampula, Abdul Razak, um <i>barazanji</i><sup><a
style='mso-footnote-id:ftn11' href="#_ftn11" name="_ftnref11" title="">[11]</a></sup>. Na ocasião, formaram-se
dois grupos, um constituído por homens e outro por mulheres, pertencentes às
associações islâmicas locais. Nesta cerimónia, o sheikh Muhammad Abdallah, um
dos líderes mais respeitados de Angoche (Inguri), foi chamado para presidir o <i>adhuhury
</i>(a reza do meio-dia). Durante a cerimónia, o governador foi
designado de sultão “Abdul Razak”, e, quando lhe foi dado o <i>ejaza</i>
(o papel de prestígio) para ler o extracto final do <i>Kitab</i>,
o governador pediu a um outro sheikh, Omar Aria, para ler em seu lugar. No
apogeu do <i>barazanji </i>e no círculo que tinha sido
constituído pelos dois grupos para a realização do <i>tikhiri</i>,
o sheikh Omar Aria guiou o “Sultão Abdul Razak” para a dança no centro do
círculo, recriando um cenário de longa tradição e em voga no antigo sultanato
de Angoche. Segundo a análise de Abélès, </p>

    <blockquote> as reuniões e as manifestações têm alguma semelhança com
rituais consensuais que exigem da parte dos protagonistas uma presença física,
e se decompõem numa multiplicidade de sequências, de falas, de símbolos
gestuais e onde se manipulam objectos com valor simbólico numa encenação que
integra acção, discurso, repetição, dramatização (1997, p. 225).</blockquote>

    <p>Reencontramo-nos diante de quatro ingredientes:
sacralidade, território, primado de valores e símbolos colectivos (<i>ibid.</i>).
Tal análise é susceptível de aplicação à campanha organizada pela Frelimo e
pelo seu candidato nas eleições de 2003 em Angoche. Para a maior parte dos
líderes muçulmanos e a população presentes nesta cerimónia organizada pela
Frelimo e seu candidato, era a primeira vez, desde a queda do sultanato de
Angoche, que um tal sinal de respeito era prestado ao Islão por um alto
responsável e representante do governo da Frelimo. Como consequência, a maior
parte dos líderes muçulmanos exprimiram a sua profunda gratidão por aquele <i>barazanji</i>.
O sheikh Omar Aria, que tinha durante muito tempo apoiado a Renamo, dizia “que
desta vez a Frelimo ganharia as eleições em Angoche” (entrevista com Omar Aria,
Angoche, 5 de Novembro de 2003). A valorização dos conhecimentos e das
tradições locais contribuía para a reabilitação dos notáveis, devido à posição
de centralidade que ocupavam no sistema de relações sociais locais. De facto,
muitos sheikhs, que tinham sido considerados “inimigos da revolução”, que
tinham sido marginalizados pela Frelimo nos primeiros anos da independência e
que apoiavam a Renamo, estavam visivelmente satisfeitos pela possibilidade que
lhes tinha sido dada de interagir e colaborar directamente com o governador de
Nampula. O recurso ao religioso &#8211; que fornece, ao mesmo tempo,
alternativa de reconstrução identitária &#8211; foi associado, portanto, à
procura de sentido e de reposição da ordem num mundo em transformação. Esta
imbricação de práticas religiosas e políticas fazia passar a mensagem de
reconciliação social. O candidato da Frelimo, José Constantino, declarou:</p>

    <blockquote> Em alguns bairros de Angoche, nomeadamente em Inguri,
considerado berço da Renamo, conseguimos constatar graças à campanha eleitoral
realizada, que a tendência do voto está a mudar e está sendo favorável ao
partido Frelimo […]. Realizámos um trabalho exemplar, o que nos valeu a adesão
das populações (entrevista com José Constantino, Puli, 29 de Novembro de 2003).</blockquote>

    <p>Por
seu turno a Renamo, sem meios financeiros para conduzir uma campanha eleitoral
de uma forma aberta e para organizar festas e banquetes populares, optou por
uma estratégia secreta e apática. Esta “apatia” das populações e
da Renamo levou um dos sheikhs locais a dizer que “a Renamo estava desmoronada
em Angoche, porque num passado muito recente, com a presença de Dhlakama, havia
uma tal multidão que era até impossível circular de carro nas ruas da cidade”
(entrevista com sheikh Rajabo, Angoche, 7 de Novembro de 2003). Na verdade, a
campanha eleitoral da Renamo era feita nas principais mesquitas de Inguri<sup><a
style='mso-footnote-id:ftn12' href="#_ftn12" name="_ftnref12" title="">[12]</a></sup>. Os líderes religiosos da
Renamo tinham consciência de violar o Corão, praticando actividades políticas
nas mesquitas, mas diziam não ter meios para se confrontar com a Frelimo, que
tinha marcado propositadamente a campanha eleitoral para o período do Ramadão
(entrevista com Alberto Omar, 14 de Novembro de 2003). Os temas dominantes durante
os <i>adhuhury</i> eram, por um lado, as críticas às
promessas de reabilitação das principais infra-estruturas socioeconómicas da
cidade de Angoche, que tinha motivado a convocação e a realização, no ano 2000,
de um conselho de ministros em Angoche; e, por outro lado, as humilhações de
que os muçulmanos e seus principais notáveis tinham sido vítimas durante a
vigência do regime de partido único. A Renamo também se comprometia a dar
trabalho aos residentes, sobretudo àqueles que tinham sido sempre excluídos durante
a governação local da Frelimo. Os sheikhs das principais mesquitas de Inguri
foram chamados para se apresentar na esquadra local de forma a explicar esse
procedimento, considerado pela polícia local de ilegal. </p>

    ]]></body>
<body><![CDATA[<p>De facto, a maioria dos líderes religiosos muçulmanos,
que se autoproclamavam partidários da Frelimo, eram também da Renamo. O sinal
mais evidente foi que certos notáveis locais muçulmanos das mesquitas de
Inguri, que tinham participado nos <i>barazanjis</i> organizados
pela Frelimo e seu candidato José Constantino, estavam igualmente presentes nas
reuniões secretas organizadas por Afonso Dhlakama e criticavam duramente a
Frelimo durante as reuniões com seus fiéis nas mesquitas. Tinham talvez
recebido em troca dinheiro ou outras promessas de apoio suplementar para apelar
aos seus fiéis a votarem pela Renamo (<i>Domingo</i>, 30 de
Novembro de 2003, p. 7).</p>

    <p>Na zona costeira, e particularmente em Angoche e em
Inguri, a mobilização política nas principais mesquitas não era um procedimento
novo, antes constituía uma prática comum que datava do período colonial,
sobretudo nos primeiros anos depois do início da luta anticolonial (1964)
(Serviços Centrais de Centralização de Informação de Moçambique, 1963, p. 2).
Isto permitia aos dignitários religiosos muçulmanos locais escapar às pressões
das autoridades coloniais menos tolerantes em relação ao Islão. Na ausência de
meios financeiros, a Renamo recuperou práticas locais antigas para fazer sua
campanha eleitoral. </p>

    <p><b>As eleições municipais de 2003: quem vota por quem?</b></p>

    <p>Do ponto de vista político, as eleições municipais de
19 de Novembro de 2003 confirmaram, também por causa da taxa de abstenção de
75,84%<sup><a style='mso-footnote-id:ftn13' href="#_ftn13" name="_ftnref13" title="">[13]</a></sup>, a hegemonia do partido
Frelimo em todo o território moçambicano. Mas, em Angoche, a Renamo ganhou as
eleições locais. Para a assembleia municipal, dos 31 assentos em jogo a Renamo
obteve 17, contra 13 da Frelimo e 1 do Partido Independente de Moçambique (PIMO). O candidato da Renamo, Alberto Omar,
obteve 52,60%, o da Frelimo, José Constantino, 41,28%, e, finalmente, o candidato
independente da sociedade civil, Isidro Assane, 6,12% (STAE, 2006). Os resultados das eleições municipais mostraram que
o <i>barazanji</i> não conseguiu garantir uma
vitória eleitoral da Frelimo em Angoche, antes, premiaram a estratégia da
Renamo, que, apoiada sobre práticas sociais e culturais locais, conseguiu
transformar o poder simbólico que os notáveis locais de Angoche detinham num
verdadeiro recurso político e, como diz Siddique (1995), “integrar
politicamente camadas sociais desfavorecidas e tradicionalmente excluídas do
jogo político local” (p. 8). Estes tinham-se aproveitado da descentralização
para ajustar “contas antigas” com seus “rivais” em
seus territórios de “pertença”. Um sheikh local dizia a propósito que “o tempo
da Frelimo de ‘comer’ tinha terminado, e que agora era a vez deles de comer
também” (entrevista com sheikh Mahamudo, Muchelele, 1de Agosto de
2007). A formulação deste sheikh levanta a questão de “xitique do poder”, um
modelo útil para compreender as flutuações da fase de transição dos regimes
autoritários de partido único para a democracia, as quais persistem em muitos
países africanos. A ideia, segundo Monnier (1993), é a de que “o poder é um bem
simbólico que permite realizar grandes coisas quando se o detém e que deve ser
equitativamente redistribuído de modo a satisfazer todas as facções envolvidas”
(p. 122), permitindo, assim, a diferentes projectos políticos dar uma
perspectiva singular ao processo de democratização em curso.</p>

    <p>Neste sentido, a democratização implica a redistribuição
do poder político e dos correspondentes recursos económicos,</p>

    <blockquote> uma vez que a imagem do “xitique” traduz o rito de
circulação de chefes de facções nas posições de poder (cada um de sua vez) e
refere-se à noção de equidade no acesso ao poder e, a partir daí, à riqueza que
é permitido juntar, que deve ser igualmente redistribuída de modo a satisfazer
todas as facções em jogo (Monnier, 1993, p. 123).</blockquote>

    <p>O “xitique” na gestão dos municípios de Angoche dizia
respeito aos patrões políticos (presidentes dos conselhos municipais,
condutores das políticas municipais) e seus clientes (as elites locais e as
populações). Mas seria a Renamo capaz de responder à grande esperança social
dos seus clientes, de cumprir com as promessas feitas durante a campanha
eleitoral e de partilhar o “bolo”? Não seria a Renamo vítima do seu próprio
discurso em municípios de “penúria” e, sem base fiscal ou tributária,
dependentes administrativa e financeiramente de um Estado hegemónico da
Frelimo, que prometera usar todos os meios à sua disposição para reconquistar
os municípios sob gestão da Renamo e consolidar o poder nos municípios?
(entrevista com Filipe Paunde, 29 de Outubro de 2003). </p>

    <p><b>A
institucionalização e gestão municipal Renamo em Angoche</b></p>

    <p>A Renamo instalou-se no município de Angoche. O seu
objectivo era mostrar que tinha uma “política municipal original”, cuja
implementação serviria de “espelho para uma futura governação nacional”. E,
para fazer esquecer a “má governação” da Frelimo caracterizada, desde 1975,
pelo nepotismo, corrupção, anarquia e exclusão de certos segmentos da população
do acesso ao poder político e económico, prometeu instalar uma “linha
telefónica aberta” para receber queixas, reclamações e sugestões dos habitantes
(<i>Notícias</i>,
6 de Janeiro de 2004, p. 3) sobre o funcionamento da administração municipal. O
objectivo da Renamo era o de tornar o presidente e a assembleia municipal
“responsáveis” perante os cidadãos. Era, de acordo com Henwood (2004), “uma
tentativa de promover a ‘boa governação’ pela descentralização política, ou
seja, promover um conjunto de boas práticas visando a prevenção da tirania, da
anarquia, da corrupção, da instabilidade e da paralisia institucional” (p. 13).
O porta-voz da Renamo, Fernando Mazanga, afirmava: </p>

    <blockquote>Seremos imperdoáveis, não vamos admitir ‘brincadeiras’. Os
funcionários, mesmo os Presidentes dos Conselhos Municipais que vão roubar o
dinheiro público ou dos contribuintes locais colectado nos nossos municípios
serão presos. Nossos municípios servirão de trampolim para uma futura governação
do país (<i>Savana</i>, 5 de Dezembro de 2003, p. 2).</blockquote>

    ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Esta promoção da descentralização releva, segundo
Bako-Arifari &amp; Laurent (1998),</p>

    <blockquote> de um simples <i>slogan</i>,
ainda mais porque as instâncias descentralizadas não podem, de um dia para
outro, beneficiar de uma legitimidade política e fiscal suficientes que lhes
permita recolher receitas locais necessárias para assegurar a viabilidade das
suas colectividades. Ademais, o funcionamento quotidiano das instituições
descentralizadas é portador e produtor de oportunidades e de diferentes
práticas de desvios e de corrupção (p. 2).</blockquote>

    <p>De facto, num contexto de “municípios de penúria”
(Mbembe, 1996) sem nenhuma base económica nem fiscal e dependendo
exclusivamente das subvenções do Estado central, a vontade e a capacidade da
Renamo de produzir mudanças políticas, de desenvolver as suas próprias
competências e promover a “boa governação” dependiam completamente dos
resultados das eleições gerais, legislativas e presidenciais, de 2004, ganhas
pela Frelimo (75,06%) e seu candidato Armando Emílio Guebuza (75,46%). Com as
eleições de 2004, a Frelimo permaneceu no poder e continuou detentora do poder
político, económico e administrativo central, decisivo para a governação local,
o que fez com que o governo municipal de Angoche, da Renamo, não conseguisse
satisfazer as aspirações do seu eleitorado. Armando Guebuza, vencedor das
eleições presidenciais de 2004, dizia:</p>

    <blockquote>A Renamo fez promessas impossíveis de realizar. […] Os
eleitores que votaram pela Renamo nas eleições municipais de 2003 começam a
arrepender-se, porque nada daquilo que lhes foi prometido durante a campanha
eleitoral, como emprego, abolição de taxas de mercado, abastecimento de água
potável, lhes está sendo concedido (<i>Notícias</i>, 15 de
Janeiro de 2004, p. 3).</blockquote>

    <p>De facto, a partir do momento em que a Renamo não
conseguiu ganhar as eleições presidenciais e legislativas de 2004, os
municípios sob sua direcção foram submetidos a uma forte pressão do
Estado-Frelimo, que, apesar de ter prometido uma oposição responsável (<i>Notícias</i>,
23 de Dezembro de 2003, p. 3), boicotava a governação municipal em Angoche
“porque os interesses supremos do povo não estavam a ser respeitados pela
Renamo, que geria os municípios de forma lamentável” (<i>Notícias</i>,
9 de Março de 2004, p. 4) e que obrigava à intervenção da Frelimo, “que tem
responsabilidade histórica de direcção da nação Moçambicana” (<i>Notícias</i>,
23 de Agosto de 2004, p. 3). Assim, das medidas político-administrativas
implementadas pelo Estado, destaquem-se as mais significativas:</p>

    <p>(i)&nbsp;&nbsp;&nbsp; O encerramento das estações da rádio comunitária
do município de Angoche por ela ser ilegal e por estar a servir os interesses
particulares da Renamo; </p>

    <p>(ii)&nbsp;&nbsp; A transferência do município de Angoche de toda a
documentação administrativa e política da gestão municipal (<i>Savana</i>,
9 de Janeiro de 2004, p. 2) da Frelimo (1998-2003) para a sede local do partido
Frelimo. Era o “fim da administração pública” neste município. O antigo
director de Apoio e Controlo do Governo de Nampula dizia a este respeito:</p>

    <blockquote>Houve actos originados por emoção em certos municípios,
como, por exemplo, discórdias. Mas agora estamos a tentar organizar os arquivos
e outros documentos em todos os municípios de Nampula, de forma a garantir que
os futuros gestores destes municípios encontrem toda a informação necessária
para prosseguir seu trabalho (<i>ibid.</i>).</blockquote>

    <p>(iii)&nbsp; Em Angoche, a delegação distrital do INAS (Instituto Nacional da Acção Social), órgão do Ministério da
Acção Social, cortou as pensões alimentares a 120 idosos que tinham participado
em trabalhos voluntários de reparação de ruas, no quadro da vitória eleitoral
da Renamo nas eleições de 2003 (Conselho Municipal da Cidade de Angoche, 2004a,
p. 2). As pensões foram cortadas porque, segundo o INAS,
estes idosos tinham demonstrado possuir ainda capacidade física para trabalhar.
E porque a Renamo, tendo ganho o município, lhes iria dar emprego (Conselho
Municipal da Cidade de Angoche, 2005a, p. 12).</p>

    <p>(iv)&nbsp;&nbsp; Em violação da lei nº 11/99 sobre as finanças e
património dos órgãos locais, o Conselho Municipal de Angoche (Frelimo)
continuou a fazer despesas (a última foi em 12 de Janeiro) até alguns dias
antes da investidura da Renamo (Fevereiro 2004), colocando o município de
Angoche numa situação de dívida excessiva em relação aos seus fornecedores. Por
exemplo, a quantia de 700 milhões de meticais, que constituía <i>superavit</i>,
segundo o relatório balanço do primeiro mandato autárquico da Frelimo, em
Fevereiro de 2004 quando a Renamo toma o poder tinha-se transformado em défice
(Conselho Municipal da Cidade de Angoche, 2004b, p. 9). </p>

    ]]></body>
<body><![CDATA[<p><b>Angoche: quando
a tutela administrativa pesa na gestão local</b></p>

    <p>Em Angoche, a Renamo tentou criar postos de trabalho
para satisfazer o seu eleitorado. Substituiu os directores das unidades
administrativas autárquicas que tinham trabalhado com a Frelimo (Conselho
Municipal da Cidade de Angoche, 2004c, p. 12); rescindiu os contratos de alguns
funcionários que continuavam a trabalhar no município com contratos expirados e
expulsou alguns, nomeadamente os cobradores de impostos, acusados de desvio de
dinheiro das receitas cobradas nos mercados, e outros que, segundo a Renamo,
confundiam a “política com a administração”. Estes últimos jogavam, segundo a
Renamo, um duplo jogo, porque continuavam a servir de “espiões” para a Frelimo
na administração municipal da Renamo (Conselho Municipal de Angoche, 2005b, p.
9). </p>

    <p>As medidas aplicadas pelo Conselho Municipal de
Angoche não surtiram os efeitos desejados devido à intervenção imediata do
Estado-Frelimo que, através do Ministério da Administração Estatal, usou o
poder de tutela administrativa e obrigou a administração municipal da Renamo a
readmitir todos os funcionários que tinham sido expulsos. É verdade que o
Estado-Frelimo não inventava nada, porque segundo Mabileau (1993) “mesmo em
países ocidentais, os actos de autonomia dos conselhos municipais são
rigorosamente limitados pelo exercício da tutela administrativa, que coloca os
conselhos municipais sob vigilância, rejeitando ou substituindo as decisões do
presidente ou dos conselhos municipais” (p. 24). Assim, a rede clientelar no
município de Angoche era incapaz de integrar toda a gente. Ela tinha apenas
conseguido “capturar” certos membros com a sua integração na estrutura do
município, para ocupar postos subalternos, por exemplo de limpeza, e outros para
lugares-chave, vereadores, nomeados pelo presidente, e alguns secretários de
bairro, nomeados em substituição dos antigos secretários indicados pela
Frelimo. </p>

    <p>O presidente do conselho municipal de Angoche
regozijava-se por estas nomeações da seguinte maneira: </p>

    <blockquote>Agora podemos falar de um verdadeiro poder local. […] As
pessoas nomeadas para ocupar os postos importantes na estrutura municipal são
os “filhos da terra”, os Cotis. Há uma ruptura com as antigas práticas da
Frelimo. […] O poder está finalmente com os seus “donos”, pessoas com
legitimidade local (Alberto Omar, Puli, 16 de Setembro de 2006).</blockquote>

    <p>É verdade que os Cotis tinham recuperado o poder ao
nível local, mas para os outros notáveis e chefes locais, que não tinham sido
integrados no município, esta situação era intolerável, ainda mais porque eles
também tinham votado pela Renamo, tinham participado na jornada de limpeza de
apoio à Renamo e mereciam entrar na rede em detrimento dos familiares e amigos
do presidente do conselho municipal (entrevista com Hassane Hibrahimo, Inguri,
23 de Outubro de 2006).</p>

    <p>O mesmo se passava com os membros da Renamo na
assembleia municipal, nomeadamente o chefe da bancada e o presidente da
assembleia<sup><a style='mso-footnote-id:ftn14' href="#_ftn14" name="_ftnref14"
title="">[14]</a></sup>,
que reclamavam benefícios idênticos aos concedidos ao presidente do conselho
municipal. A situação vivida no município de Angoche é bem descrita por L.
Monnier: </p>

    <blockquote>Há menos riqueza a adquirir e, por isso, a distribuir, porque a
riqueza é principalmente consumida ou redistribuída. Ela não é criadora de nova
riqueza. […] Face à penúria da redistribuição, assistimos a uma multiplicação
de grupos e de facções que vêm exigir a sua parte do bolo. […] Logo que o
“xitique” é bloqueado e as suas regras sagradas violadas pelo presidente, […] é
a expressão da crise […] É por isso que a massa cada vez mais numerosa de
excluídos vem ampliar o movimento que toma a forma duma autêntica revolta de
cadetes sociais (1993, p. 130).</blockquote>

    <p>Estes revoltados sabotavam o desempenho do município,
bloqueando a gestão do seu próprio partido e provocando uma espécie de
paralisia institucional.</p>

    <p><b>Angoche: paralisia institucional e o conflito entre a
assembleia e o conselho municipal</b></p>

    ]]></body>
<body><![CDATA[<p>No sentido amplo do termo, a paralisia institucional é
a incapacidade de o governo tomar decisões. Os três poderes com capacidade de tomar
decisões eram, portanto, o lugar por excelência de confrontação entre os
partidos políticos e diferentes posições políticas pela produção de “normas
locais”. A paralisia institucional é, de acordo com Santos (1986), “o resultado
da confrontação política quando existe uma dispersão de recursos de poder entre
actores radicalizados nas suas posições” (p. 10). Em Angoche existiam três
actores políticos em oposição radicalizada no tocante à gestão municipal da
Renamo: (i) O governo da Frelimo, que era detentor do poder político ao nível
das unidades desconcentradas (administração do distrito de Angoche) e que
exercia deliberadamente uma espécie de administração paralela, por usurpação
das competências atribuídas às unidades descentralizadas (municípios), tais
como a colecta de impostos e a gestão das fontes de água existentes no
território municipal (Conselho Municipal da Cidade de Angoche, 2004d); (ii) a
“Renamo 1”, constituída pelo conselho municipal, representado pelo presidente e
seus vereadores; (iii) a “Renamo 2”<sup><a style='mso-footnote-id:ftn15'
href="#_ftn15" name="_ftnref15" title="">[15]</a></sup>,
representada pelo presidente da assembleia municipal, o chefe da bancada e o
secretário da assembleia, em aliança com os membros da assembleia da bancada da
Frelimo. Apesar de a Renamo ter maioria na assembleia municipal (17 membros), o
que era suficiente para fazer passar todos os projectos de gestão municipal, a
ruptura de equilíbrio entre as instâncias do partido e a bancada da Renamo (com
4 membros dissidentes) constituiu um problema. Todos os projectos submetidos
pelo conselho municipal à assembleia, durante os primeiros quatro meses, foram
rejeitados pela oposição (Frelimo), que se aproveitou do conflito no interior
da Renamo para provocar a paralisia institucional. A carta escrita pelo
presidente do conselho municipal ao presidente do partido, A. Dhlakama, e ao
delegado provincial da Renamo em Nampula é demonstrativa: </p>

    <blockquote>Desde a tomada de posse em Fevereiro de 2004, a mesa da
Assembleia Municipal impede o cumprimento do programa do governo municipal da
Renamo […]. Eles são os responsáveis pelas más relações existentes entre a
Assembleia Municipal, o Conselho Municipal e o partido […] Estão sempre em
desacordo com outros membros da Assembleia Municipal do lado da Renamo e não
cooperam com o Conselho Municipal […] Este conflito é utilizado pela oposição
(Frelimo) para nos humilhar e rejeitar todos os nossos projectos de governação
(Conselho Municipal da Cidade de Angoche, 2004e, p. 2).</blockquote>

    <p>O conflito entre a assembleia e o conselho municipal
da Renamo em Angoche foi, sem dúvida, um dos grandes obstáculos à gestão
municipal durante a primeira fase do processo. Mas não podemos esquecer a acção
dos membros da assembleia pela Frelimo, que, no decurso das dezasseis sessões
ordinárias da assembleia municipal que tiveram lugar até Fevereiro de 2007,
votaram sempre contra todas as propostas da Renamo, com a excepção de uma
resolução sobre os benefícios acordados aos membros da assembleia municipal<sup><a
style='mso-footnote-id:ftn16' href="#_ftn16" name="_ftnref16" title="">[16]</a></sup>
(Ames, Connerley, Rosário, Nguenha, &amp; Francisco, 2010, p. 17).</p>

    <p>A Renamo queixou-se também da transferência tardia das
subvenções do governo central para o município, o que dificultava a
implementação de seus programas e projectos, nomeadamente a construção de
escolas e hospitais, a criação de emprego e a reabilitação de estradas. Também
se queixava das sucessivas e repetidas inspecções administrativas e financeiras
sem pré-aviso a que o município era sujeito (<i>Savana</i>, 6 de Maio de
2005, p. 12). A contestação da Renamo não era dirigida às inspecções em si, mas
ao procedimento dos ministérios das Finanças e da Administração Estatal. O
regulamento das inspecções previa entre quatro a cinco inspecções por mandato
de cinco anos, mas o município de Angoche recebia inspectores trimestralmente,
contrariamente aos municípios sob gestão da Frelimo na mesma província (Monapo
e Nampula), onde as inspecções eram realizadas de acordo com o regulamento
(entrevista com Estevão Abudo, Muchelele, 14 de Julho de 2006). </p>

    <p>A acção do governo distrital, que sabotava, pelo menos
nos primeiros quatro anos, todas as tentativas de implementação de políticas
locais de desenvolvimento, foi outro factor adverso à gestão da Renamo. Em
primeiro lugar, cobrava impostos e taxas no território municipal (<i>Noticias</i>,
31 de Março de 2004, p. 6), o que colocava os residentes na área municipal numa
situação de dupla imposição. Eram taxados ao nível nacional e local (Conselho
Municipal de Angoche, 2004e, p. 3). Em segundo lugar, o bloqueio era feito
através dos secretários de bairro que geriam os fontenários, cobravam e usavam
de forma descontrolada o dinheiro da venda de água potável (Conselho Municipal
da Cidade de Angoche, 2005b, p. 8). </p>

    <p>Em Angoche, a problemática da gestão das fontes de
água não pode ser dissociada de outro conflito, que opunha a Renamo e o governo
do distrito quanto ao controlo das autoridades comunitárias. De facto, durante
o primeiro mandato municipal (1998-2003), o Estado-Frelimo, que detinha o poder
nas unidades descentralizadas e desconcentradas, tinha, por intermédio do
decreto nº 15/2000, legitimado todas as autoridades comunitárias existentes no
distrito, incluindo as do município. Ao usar um decreto para legislar sobre uma
matéria tão importante como o papel do poder tradicional na governação, o
governo queria contornar a Renamo, que não só estava em peso na Assembleia da
República como também tinha grande interesse nesse assunto (Buur &amp; Kyed,
2005; Forquilha, 2006). Ora, a vitória eleitoral da Renamo em 2003 tinha criado
condições para o exercício do poder executivo numa situação de legitimidade
eleitoral, e a aprovação do diploma ministerial nº 80/2004, sobre a articulação
dos órgãos dos governos locais com as autoridades comunitárias, deu à Renamo a
possibilidade de reconhecer e legitimar as autoridades comunitárias que lhe
eram favoráveis dentro do território municipal. A administração municipal da
Renamo, com o objectivo de fortificar o seu controlo social e político sobre as
populações e de forma a “devolver” o poder à estrutura local tradicional
muçulmana, marginalizada durante a era do partido único, indicou e legitimou,
ela também, as suas autoridades tradicionais. É por isso que existiam, não
somente em Angoche, mas também na Ilha de Moçambique e Nacala Porto, municípios
sob gestão da Renamo, até antes das eleições autárquicas de 2008, autoridades
comunitárias da Renamo com símbolos (bandeira) do município e autoridades
comunitárias da Frelimo com uniforme e a bandeira da República de Moçambique em
suas casas particulares (Rosário, 2009, p. 515)<sup><a style='mso-footnote-id:ftn17'
href="#_ftn17" name="_ftnref17" title="">[17]</a></sup>.
Isto instituía a dupla administração no território municipal de Angoche, um
problema que tornava a gestão da Renamo impraticável e impossível. Os
secretários da Frelimo, para além de desinformar a população, continuavam a
cobrar impostos e a gerir os bens dos municípios, nomeadamente as fontes de
água (entrevista com Alberto Omar,
Puli, 19 de Outubro de 2006).</p>

    <p>Numa situação em que a água potável é um recurso
escasso, a posse e a gestão dos fontenários públicos constituíam um recurso
político capital. De facto, durante a primeira gestão municipal, as autoridades
comunitárias da Frelimo e a empresa de Águas de Angoche tinham assinado um
contrato de gestão dos fontenários de água. Segundo os termos desse contrato,
os secretários deviam depositar cerca de 80&nbsp;mil meticais na empresa,
resultantes da venda de água aos residentes. Essa cláusula tinha levantado
muita polémica, uma vez que os secretários de bairro não dispunham dessa
competência e existiam muitos interessados privados para fazer essa gestão
(Conselho Municipal da Cidade de Angoche, 2001, p. 2), porquanto a gestão dos
fontenários era muito rentável. De facto, os secretários de bairro da Frelimo,
que faziam trabalho voluntário e gratuito de mobilização e de angariação de
simpatizantes, tinham encontrado uma forma de sobreviver e de ganhar dinheiro
facilmente. Durante quase toda a vigência do contrato, nenhuma soma foi
depositada na Empresa de Águas. Cada vez que a empresa ameaçava tomar medidas
administrativas, ou seja, rescindir os contratos, encontrava barreiras no seio
das instâncias administrativas locais. Daí resultou que os fontenários nunca
eram reparados, o que provocava avarias grossas, nem eram renovados, o que
colocava o município num dilema, ainda maior porque a independência dos
secretários de bairro (gestores) em relação ao conselho municipal não permitia
nenhum acompanhamento e agravava a incapacidade do município de satisfazer uma
das suas obrigações básicas &#8211; o abastecimento de água potável (Conselho
Municipal da Cidade de Angoche, 2006, p. 4).</p>

    <p>O fornecimento de água constitui uma das atribuições
dos governos municipais (art. 25º da lei nº 11/97, de 31 de Maio). Mas, apesar
disso e da gestão municipal da Renamo, a vontade do Estado-Frelimo em manter o
“<i>status
quo</i>” e as suas autoridades comunitárias prevalecia, conforme o
expressou o chefe da bancada da Frelimo na assembleia municipal, Saide U.
Passo:</p>

    <blockquote>As fontenárias foram construídas
pelo governo do distrito (Frelimo) antes da municipalização, portanto, elas não
pertencem ao município. Se o município quiser gerir fontenárias, deve construir
as suas e lhes atribuir a seus secretários de bairro […]. As fontenárias que
existem foram atribuídas aos secretários do partido Frelimo, por isso eles
continuarão a fazer sua gestão (<i>ibid.</i>, p. 3).</blockquote>

    <p>A reacção deste membro sénior da Frelimo ao nível
local é surpreendente, ainda mais porque os secretários de bairro com quem
tinham sido assinados os contratos “não eram” da Frelimo. Em Moçambique,
oficialmente os secretários de bairro constituem o escalão mais baixo da
administração pública. Isto mostra bem a ausência de separação entre o Estado e
o partido e a vontade da Frelimo de querer controlar o poder a todos os níveis
e continuar hegemónica. A forma de agir do partido Frelimo em Moçambique
assemelha-se à estratégia adoptada pelo Congresso para a Democracia e Progresso
(CDP) do Burquina Faso. Segundo Otayek
(2007), o “CDP, que goza de uma posição
privilegiada (todos os recursos políticos, administrativos, financeiros e
mediáticos do aparelho estatal) usa estes recursos para controlar o jogo
eleitoral e assegurar o seu domínio sobre a arena local, aniquilando totalmente
seus adversários” (p. 141).</p>

    ]]></body>
<body><![CDATA[<p><b>Angoche: O regresso do “partido único”</b></p>

    <p>Os resultados das terceiras eleições municipais de
Novembro de 2008 testemunham a vontade do Estado-Frelimo de acabar com a
oposição em todos os escalões do Estado. Com uma taxa de participação de 46%,
mais alta que a das eleições locais de 2003 (28%) e das eleições legislativas e
presidenciais de 2004 (43%), a Frelimo ganhou as eleições em quarenta e dois
dos quarenta e três municípios em disputa. Obteve maioria em quase todas as
assembleias municipais e elegeu na primeira volta quarenta e um presidentes dos
conselhos municipais. </p>

    <p>No que diz respeito ao município de Angoche, a Frelimo
e seu candidato Américo Assane Adamuji ganharam o escrutínio com 66,12% e 65,64
% dos votos, respectivamente, contra 32,35% da Renamo e 34,36% do antigo
presidente do conselho municipal, indicado pela Renamo, Alberto Omar. O pimo obteve 1,53% dos votos, perdendo o
direito de estar representado na assembleia municipal (Conselho Constitucional,
2009). Mas o que explica a derrota eleitoral da Renamo neste município? Para
explicar as causas deste cataclismo eleitoral seria necessário um estudo
aprofundado, que não constitui o objectivo deste texto. Contudo, a partir do
material recolhido durante a pesquisa de campo e do material disponível em
jornais, algumas respostas podem ser esboçadas.</p>

    <p>Em Angoche, três eventos podem explicar a recuperação
do poder pela Frelimo: </p>

    <p>(i)&nbsp;&nbsp;&nbsp; a ruptura com as antigas práticas de imposição de
candidatos exteriores ao meio social local pelas instâncias provinciais e
centrais do partido. De facto, se nas eleições municipais de 1998 e 2003 a
Frelimo tinha indicado José Constantino contra a vontade das estruturas locais
do partido (<i>Domingo</i>, 23 de Novembro de 2003, p. 5),
para as eleições de 2008 a Frelimo organizou “bem” o processo de designação
interna que resultou na escolha de Américo Assane Adamuji, coti, “filho da
terra”, proveniente das Ilhas Catamoio. Adamuji era uma figura consensual, não
somente no seio do partido a nível provincial e central, mas também a nível
local e entre os notáveis da terra. O discurso do porta-voz do comité distrital
da Frelimo é revelador da mudança de estratégia:</p>

    <p>Escolhemos um candidato que reúne o
consenso, não somente dos membros e simpatizantes do partido, mas também dos
diferentes segmentos da sociedade civil. […] Não queremos correr os mesmos
riscos do passado, onde tivemos resultados desastrosos nas eleições municipais
aqui em Angoche (<i>Notícias</i>, 4 de Junho
de 2008, p. 4).</p>

    <p>Como diz Otayek (2007), </p>

    <blockquote>em contexto
“autoritário”, como em contexto “democratizado”, a descentralização surge assim
como uma ferramenta particularmente funcional em matéria de circulação,
cooptação e reciclagem das elites no poder, cuja instrumentalização permite ao
centro assegurar a sua hegemonia, actuando como árbitro entre os múltiplos
pretendentes aos troféus electivos locais e neutralizando as tensões internas
que o fragilizam pela imposição, em nome da democracia, da renovação de grupos
e de facções que se organizam no seu seio (p. 142).</blockquote>

    <p>(ii)&nbsp;&nbsp; O conflito, opondo, de um lado, o presidente do
executivo, e do outro, o presidente da assembleia municipal e os notáveis
locais, em relação ao cumprimento das promessas eleitorais e à má distribuição
das prendas, tinha-se exacerbado durante a gestão política da Renamo do
município em 2003 (<i>Notícias</i>, 1 de
Setembro de 2008, p. 3). Um dos representantes da “Renamo 2” dizia: </p>

    <blockquote>A Renamo nos devolveu a liberdade de rezar, mas a religião não
enche a barriga vazia […]. A Renamo escolheu um candidato que era chefe na
Angocaju que recebeu muito dinheiro de indemnização pelo despedimento. Quando
chegou ao poder, deu emprego a seus antigos colegas e família e se esqueceu das
pessoas que trabalharam para a Renamo para esta vitória. Demos nossos votos a
essa gente. Agora eles têm salários altos e se tornaram mais ricos e nós mais
pobres. […] O plano que temos agora é de lhes fazer perder o poder nas próximas
eleições municipais […]. Temos em nossa posse 600 cartões de membros da Renamo descontentes
com esta situação. Se a Frelimo negociar connosco, se nos dar dinheiro,
iremos-lhe dar a vitória nas próximas eleições municipais […] A Renamo nos
mostrou que os partidos não servem para ajudar a população, mas para ajudar
suas famílias. Então neste contexto, o partido que vai melhor pagar, terá a
vitória (entrevista com Hassane Hibrahimo, Inguri, 2007).</blockquote>

    ]]></body>
<body><![CDATA[<p>A mudança de orientação destes notáveis enfraqueceu
politicamente a Renamo, que, ao mostrar total desprezo por este grupo,
considerava “tratar-se de um pequeno grupo, sem nenhuma expressão política e
que era instrumentalizado pela Frelimo para desestabilizá-la politicamente” (<i>Zambeze</i>,
25 de Maio de 2006, p. 32). Ao se sentir “roubado e
desprezado”, este grupo de notáveis não hesitou em reafirmar seu apoio ao
partido Frelimo em troca de vantagens materiais. A mudança de “orientação
política” das elites de Angoche e de suas populações a favor da Frelimo não
pode ser interpretada como uma mudança de natureza “ideológica”, mas como uma
“táctica política” com o objectivo de conservar o poder local. Abandonaram uma
Renamo inapta para servir de instrumento de manutenção do poder para se aliar à
Frelimo em posição de dominação. Fruto desta estratégia, em 2009 a votação da
Frelimo em Angoche subiu cerca de 10&nbsp;
mil votos em relação a 2004 (Nuvunga, 2013, p. 46). Isto mostra que os
esforços de descentralização operados não contribuíram para o desenvolvimento
em Moçambique, antes permitiram a grupos influentes apropriar-se das vantagens
provenientes das iniciativas de descentralização (Hyden, 1983, p. 68), criando
novas elites políticas locais sem nenhuma noção de responsabilidade pública,
menos competentes, mais corrompidas, que reforçaram igualmente o
desenvolvimento de relações clientelares ao nível local (Mullard, 1987, p.
123). </p>

    <p>(iii)&nbsp; A Renamo, mal organizada e abalada por conflitos entre os seus
membros motivados pela partilha dos recursos do município onde exerciam o poder
desde 2003, ao que acrescia a sua estrutura sempre militarizada, ainda “não
civilizada”, com um claro corte entre a direcção central e as bases, encontrava
dificuldades para apresentar uma alternativa credível, capaz de fazer frente ao
Estado-Frelimo, mormente no respeitante à gestão municipal. O período da
campanha para as eleições municipais de Novembro de 2008 confirmou esta
fraqueza. Enquanto a Frelimo conduzia sua campanha eleitoral, com inúmeras
iniciativas locais, os candidatos da Renamo em Angoche esperavam simplesmente a
chegada de material proveniente da sua direcção central, instalada na capital,
Maputo.</p>

    <p><b>Conclusão</b></p>

    <p>A hipótese desenvolvida neste artigo é a de que, tendo
a Renamo chegado ao poder no município de Angoche, a Frelimo mobilizou e
implementou todos os recursos à sua disposição, incluindo a fraude (Awepa,
2008, p. 2), para: (a) recuperar o poder neste município; (b) consolidar o
poder que detinha noutros municípios; (c) alargar seu poder a outras
localidades, que, em função da aplicação do gradualismo, tinham atingido a
categoria de municípios. A Renamo, na sua gestão municipal, entrou em
contradição com ela mesma. A ideia de “bem governar”, evocada pelo partido na
tomada de posse no município de Angoche, não foi implementada. A Renamo
reproduziu as práticas institucionais do Estado com esquemas de clientelismo,
práticas de funcionamento da administração pública directamente ligadas à
influência e à trajectória do Estado neopatrimonial (Médard, 1991) na gestão
local. Este modelo neopatrimonial na gestão local vem do Estado-Frelimo. A
“resistência” da Renamo a este modelo consistiu em desenvolver seu próprio
sistema, mas, nesse contexto, perdedor, ainda mais porque era um
neopatrimonialismo pobre. Ele não apresentava nenhuma alternativa, como por
exemplo a mobilização democrática dos habitantes para a eleição de secretários de
bairros e para a formação de cooperativas urbanas locais para a produção de sal
ou para retomar a produção de castanha de caju, duas potencialidades locais. O
bloqueio administrativo e financeiro com o envio tardio das subvenções, a dupla
administração manifesta na nomeação de autoridades comunitárias para exercerem
sua influência no território municipal, a cobrança de impostos no território
municipal mostravam que a Frelimo (urbana, assimilada e sulista) não queria ver
consolidadas outras legitimidades, ligadas à Renamo (conotadas com as zonas
rurais e oriundas do centro e norte). Graças ao controlo sobre o aparelho
estatal, a Frelimo colocou todos os recursos à sua disposição para bloquear a
institucionalização e a gestão local da Renamo, de forma a recuperar e
conservar o poder em todos os escalões do Estado, de tal forma que qualquer
ideia de alternância, possível em teoria, se torna inviável na prática. As
sucessivas eleições, que se realizam em Moçambique desde 1994, confirmam a
rotinização dos procedimentos eleitorais. Contudo, as eleições legitimaram
sempre a dominação política da elite sulista da Frelimo e confirmaram o
carácter problemático da alternância política. </p>
    <p>&nbsp;</p>

    <p><b>Referências</b></p>

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    <!-- ref --><p><i>Notícias</i>. (2004, 9 de Março). Nos 3 municípios de Nampula: Renamo
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    <!-- ref --><p><i>Notícias</i>. (2004, 23 de Agosto). Municípios de Angoche insatisfeitos com a
edilidade.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000220&pid=S1645-3794201500020000600057&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>

    <!-- ref --><p><i>Notícias</i>. (2008, 4 de Junho). Eleições autárquicas: Em Angoche Frelimo já
pensa no candidato.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000222&pid=S1645-3794201500020000600058&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>

    <!-- ref --><p><i>Notícias</i>. (2008, 1 de Setembro). Angoche. Munícipes divergem quanto à gestão
da autarquia.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000224&pid=S1645-3794201500020000600059&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>

    <!-- ref --><p>Nuvunga,
A. (2013). Política de eleições em Moçambique: As experiências de Angoche e
Nicoadala. In Brito, L. de, <i>et al</i>.
(Org.). <i>Desafios para Moçambique 2013 </i>(pp. 39-53). Maputo: Instituto de Estudos Sociais e Económicos
(IESE).    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000226&pid=S1645-3794201500020000600060&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --> </p>

    <!-- ref --><p>O’Donnell,
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    <!-- ref --><p>Otayek, R. (1989). Les élections en Afrique
sont-elles un objet scientifique pertinent? <i>Politique
Africaine</i>, 69, pp. 3-11.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000230&pid=S1645-3794201500020000600062&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --> </p>

    <!-- ref --><p>Otayek,
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Algumas reflexões a partir de realidades africanas. <i>Revista
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    <!-- ref --><p>Palard, J. (1993). Décentralisation et
démocratie locale. <i>Problèmes politiques et sociaux</i>, 708.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000234&pid=S1645-3794201500020000600064&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --> </p>

    <!-- ref --><p>Pélissier, R. (1984). <i>Naissance du Mozambique: Résistances et révoltes
anticoloniales (1854-1928). </i>Paris: Orgeval.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000236&pid=S1645-3794201500020000600065&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --> 

    <!-- ref --><p>Pérès, H. (1994). Le village dans la
nation française sous la III<sup>e</sup> République: Une configuration
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    <!-- ref --><p>Pililão,
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e da divisão territorial (1974-1987).</i> Maputo: Imprensa Universitária UEM.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000240&pid=S1645-3794201500020000600067&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --> 

    <!-- ref --><p>Piveteau, A. (2005). Décentralisation et
développement local au Sénégal. Chronique d’un couple hypothétique. <i>Revue Tiers Monde</i>, <i>46</i> (181), 71-93. doi: 10.3406/tiers.2005.5553


    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000242&pid=S1645-3794201500020000600068&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><!-- ref --><p>Ribot, J. C. (1999). Decentralization, participation and
accountability in Sahelian forestry: Legal instruments of
political-administrative control. <i>Africa</i>, <i>69</i> (1), 23-65.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000243&pid=S1645-3794201500020000600069&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --> 

    <!-- ref --><p>Rosário, D. M. (2009). <i>Les mairies des “autres”: Une analyse politique, socio-historique
et culturelle des trajectoires locales. Les cas d’Angoche, de l’Île de
Moçambique et de Nacala Porto.</i> Université Montesquieu - Bordeaux IV: IEP - CEAN.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000245&pid=S1645-3794201500020000600070&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --> 

    <!-- ref --><p>Santos,
W. (1986). <i>Sessenta e quatro: Anatomia da
crise</i>. São Paulo: Vértice.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000247&pid=S1645-3794201500020000600071&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --> </p>

    <!-- ref --><p><i>Savana.</i> (2003, 5 de Dezembro). Resultados das eleições ainda mexem.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000249&pid=S1645-3794201500020000600072&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>

    <!-- ref --><p><i>Savana.</i> (2004, 9 de Janeiro). A hora de despedida em Nampula, segundo a
“perdiz”: Municípios conquistados pela Renamo a saque.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000251&pid=S1645-3794201500020000600073&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>

    ]]></body>
<body><![CDATA[<!-- ref --><p><i>Savana.</i> (2005, 6 de Maio). Somos cobaia neste processo.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000253&pid=S1645-3794201500020000600074&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>

    <!-- ref --><p>Secretaria
Civil do Distrito de Moçambique. (1924). Registo de correspondência com os
distritos: Correspondência recebida do distrito de Moçambique em 15 de
Fevereiro. AHM/ Fundo do Governo Geral, Caixa 1026.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000255&pid=S1645-3794201500020000600075&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --> </p>

    <!-- ref --><p>Serviços
Centrais de Centralização de Informação de Moçambique (SCCIM). (1963, 31 de
Janeiro). <i>Informação confidencial nº 32, ao
Exmo. Senhor Governador do distrito de Nampula. </i>Nampula.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000257&pid=S1645-3794201500020000600076&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref -->

    <!-- ref --><p>Siddique,
N. A. (1995). Theories of decentralization within the state: A review. <i>Journal of Social Studies,</i>
69, pp. 1-15.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000259&pid=S1645-3794201500020000600077&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --> </p>

    <!-- ref --><p>Simango, A. (1999). Por um estado
moçambicano descentralizado. <i>Textos de
discussão</i>, 11. Texto publicado no âmbito do
Programa de Reforma dos Órgãos Locais (prol).
Maputo: Ministério da
Administração Estatal.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000261&pid=S1645-3794201500020000600078&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref -->

    ]]></body>
<body><![CDATA[<!-- ref --><p>Soiri, L. (1999). <i>Moçambique: Aprender a caminhar com uma bengala
emprestada? Ligações entre descentralização e alívio à pobreza</i>. Maastricht: European Centre for Development Policy Management
(ECDPM).    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000263&pid=S1645-3794201500020000600079&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --> </p>

    <!-- ref --><p>Sousa, E. H. (1946). <i>Relatório da inspecção ordinária à junta local do
concelho de António Enes</i>, 1946. AHM/ INSANI, Caixa
79.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000265&pid=S1645-3794201500020000600080&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>

    <!-- ref --><p>STAE (Secretariado Técnico de Administração Estatal).
(2006). <i>Eleições autárquicas 2003</i>. Maputo:
Pandora Box.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000267&pid=S1645-3794201500020000600081&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref -->

    <!-- ref --><p>Vines,
A. (1996). <i>Renamo: A
study in terrorism</i>.
Oxford: James Curry.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000269&pid=S1645-3794201500020000600082&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --> 

    <!-- ref --><p><i>Zambeze</i>. (2006, 25 de Maio). Depois da visita do seu líder em Angoche:
Renamo em crise de direcção desmembra-se.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000271&pid=S1645-3794201500020000600083&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --> </p>



    ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>
    <p><i>Recebido a 25 de maio de 2015; Aceite a 5 de novembro
de 2015</i></p>
    <p>&nbsp;</p>
    <p><b>Notas</b></p>



    <p><a style='mso-footnote-id:ftn1' href="#_ftnref1" name="_ftn1"
title=""><sup><sup>[1]</sup></sup></a>&nbsp;&nbsp; Sheikado é uma área geográfica ou
uma sociedade em que o poder é exercido por um sheikh. Os sheikados existem
exclusivamente em países árabes, particularmente na península arábica. A região
costeira de Moçambique, desde Sofala até Moçimboa da Praia (Cabo Delgado) foi
desde o século XI, antes da chegada dos portugueses, habitado por árabes ou
indivíduos de origem arábica que exerceram um grande influência sobre a
população local. Vide Constantin, Bone, &amp; Mandivenga (1983). </p>







    <p><a style='mso-footnote-id:ftn2' href="#_ftnref2" name="_ftn2"
title=""><sup><sup>[2]</sup></sup></a>&nbsp;&nbsp; A população europeia do distrito de
Angoche em 1881 era de 9 pessoas. Em 1901, a população era de 208 pessoas: 38
portugueses; 9 portugueses asiáticos; 14 portugueses africanos (assimilados),
146 ingleses asiáticos e 1 alemão. A população indígena na cidade era de cerca
de 4000 pessoas, residindo nas duas principais povoações suburbanas da cidade
de Angoche, Puli e Inguri (Neves, 1901, p. 21).</p>


    <p><a style='mso-footnote-id:ftn3' href="#_ftnref3" name="_ftn3"
title=""><sup><sup>[3]</sup></sup></a>&nbsp;&nbsp; A cidade de Angoche, com 80
eleitores recenseados entre os 338 habitantes europeus (270 portugueses, 47
ingleses asiáticos, 17 suíços e 4 alemães) era elegível. Viviam também na
cidade 10.000 indígenas concentrados em Inguri e Puli, bairros considerados
lugares de “sociabilidade indígena urbana muçulmana”.</p>





    <p><a style='mso-footnote-id:ftn4' href="#_ftnref4" name="_ftn4"
title=""><sup><sup>[4]</sup></sup></a>&nbsp;&nbsp; As comissões municipais eram estruturas
administrativas instaladas nos concelhos onde não havia condições para a
criação de municípios.</p>






    <p><a style='mso-footnote-id:ftn5' href="#_ftnref5" name="_ftn5"
title=""><sup><sup>[5]</sup></sup></a>&nbsp;&nbsp; Em 1994, a Frelimo ganhou as
eleições em todas as províncias do sul (Maputo-cidade, Maputo-Província, Gaza e
Inhambane) e no extremo norte (Niassa e Cabo Delgado), enquanto a Renamo se
impôs nas regiões do centro (Sofala, Manica, Tete, Zambézia) e norte (Nampula).
As populações das zonas urbanas votaram maioritariamente pela Frelimo, enquanto
as das zonas rurais votaram pela Renamo (Brito, 1995). Esta distribuição
espacial do voto continua imutável até aos dias de hoje.</p>






    <p><a style='mso-footnote-id:ftn6'
href="#_ftnref6" name="_ftn6" title=""><sup><sup>[6]</sup></sup></a>&nbsp;&nbsp; A Renamo tinha durante as
conversações recusado o princípio do gradualismo, uma vez que considerava
existirem outras vilas com condições económicas e sociais para serem elevadas à
categoria de município. Ela tinha considerado o gradualismo como uma manobra da
Frelimo para se manter no poder, incluindo nas zonas onde ela era fortemente
contestada.</p>






    ]]></body>
<body><![CDATA[<p><a style='mso-footnote-id:ftn7'
href="#_ftnref7" name="_ftn7" title=""><sup><sup>[7]</sup></sup></a>&nbsp;&nbsp; Para as eleições municipais de 1988
estavam inscritos 1.965.530 eleitores. Segundo a CNE, para as eleições gerais,
legislativas e presidenciais, de 1994, estavam inscritos 6.148.842 eleitores.
Somente 31% da população elegeria seus representantes locais.</p>






    <p><a style='mso-footnote-id:ftn8' href="#_ftnref8" name="_ftn8"
title=""><sup><sup>[8]</sup></sup></a>&nbsp;&nbsp; Cumpre lembrar que, durante a
guerra civil, a Renamo exercia uma forte presença em cerca de 80% do território
(Vines, 1996), sobretudo nas zonas rurais das regiões central e norte do país,
onde se encontrava a maior parte dos distritos municipais rurais. </p>






    <p><a style='mso-footnote-id:ftn9' href="#_ftnref9" name="_ftn9"
title=""><sup><sup>[9]</sup></sup></a>&nbsp;&nbsp; A lei 6/1997 de 28 de Maio (lei
eleitoral) vedava o financiamento dos partidos políticos, proibia o uso de
lugares de culto para realização de propaganda eleitoral e definia um período
de 15 dias para a realização da campanha para as eleições locais. </p>






    <p><a style='mso-footnote-id:ftn10' href="#_ftnref10" name="_ftn10"
title=""><sup><sup>[10]</sup></sup></a><sup>&nbsp;&nbsp; </sup>Sheikh
é uma palavra de origem árabe (<i>x&#257;y<u>h</u></i>) que quer dizer “chefe”, “soberano” ou “ancião”. Na
cultura árabe, o título de sheikh diz respeito a um chefe de uma família árabe,
é um título atribuído a um magistrado ou chefe de uma aldeia árabe. A palavra
sheikh é também aplicada para designar um eclesiástico maometano (seguidor de
Maomé). Normalmente, numa tribo patriarcal, o título de sheikh transmite-se de
pai para filho. No entanto, uma pessoa também é considerada sheik quando
conclui os estudos islâmicos, especializando-se nos ensinamentos da religião
Islã, o Islamismo. O sheikh é responsável pela manutenção da mesquita, pela
realização de casamentos e por liderar sessões de orações.</p>






    <p><a style='mso-footnote-id:ftn11' href="#_ftnref11" name="_ftn11"
title=""><sup><sup>[11]</sup></sup></a>&nbsp; O <i>barazanji</i> é uma festa
na qual os dignitários muçulmanos das mesquitas de uma zona ou de uma confraria
se reúnem para discutir ou ler extractos do Corão, <i>hadiths</i>
religiosos ou outros livros sagrados. O objectivo é o de glorificar a vida e o
trabalho do profeta Muhammad. Os que promovem o <i>barazanji</i>
devem fornecer alimentos e dinheiro aos participantes. Durante o período do
partido único, estas práticas foram abolidas pela Frelimo, mas, com a
liberalização política, a Frelimo incorporou estas práticas na campanha
eleitoral de forma a estar nas boas graças dos líderes muçulmanos e a obter seu
apoio. Para mais detalhes, vide Rosário (2009).</p>





    <p><a style='mso-footnote-id:ftn12' href="#_ftnref12" name="_ftn12"
title=""><sup><sup>[12]</sup></sup></a>&nbsp; Existem neste bairro cerca de 30
mesquitas em funcionamento e um número indeterminado em reabilitação e/ou
construção. É impressionante que um bairro como Inguri, com apenas 10 km<sup>2</sup>,
possa albergar tantas mesquitas, cerca de três em cada quilómetro quadrado.</p>






    <p><a style='mso-footnote-id:ftn13' href="#_ftnref13" name="_ftn13"
title=""><sup><sup>[13]</sup></sup></a>&nbsp; A taxa de abstenção fixou-se em 75,84%,
quase a mesma das eleições locais de 1998. </p>





    <p><a style='mso-footnote-id:ftn14' href="#_ftnref14" name="_ftn14"
title=""><sup><sup>[14]</sup></sup></a>&nbsp; O chefe da Renamo na assembleia municipal
era Mário Salimo, o candidato posicionado em primeiro lugar nas eleições
internas da Renamo antes das municipais de 2003. O presidente da assembleia era
António da Graça Semedo, que tinha ficado em segundo lugar. Ambos tinham
trabalhado para a Renamo na clandestinidade durante o período da guerra civil e
tinham visto o recém-chegado Alberto Omar Assane tomar o que supostamente era o
seu lugar. </p>





    <p><a style='mso-footnote-id:ftn15'
href="#_ftnref15" name="_ftn15" title=""><sup><sup>[15]</sup></sup></a>&nbsp; “Renamo 1” e “Renamo 2” são designações
que surgiram em Angoche na época das eleições autárquicas de 2003. Estas
designações traduzem a percepção social sobre um desentendimento da Renamo
local, que resultou de clivagens entre os três candidatos, nas eleições
internas do partido. Na realidade, os resultados das eleições internas, que
tinham dado vitória ao candidato Mário Salimo, não foram respeitados pelas
estruturas provinciais e centrais do partido. Alberto Omar, candidato oficial
da Renamo, foi indicado por Afonso Dhlakama, sob proposta de Ussufo Momade
(delegado provincial) depois de ter ficado em terceiro e último lugar nas
eleições internas. Para mais detalhes, vide Rosário (2009). </p>




    <p><a style='mso-footnote-id:ftn16' href="#_ftnref16" name="_ftn16"
title=""><sup><sup>[16]</sup></sup></a>&nbsp; Em Angoche tive a ocasião de ver todas as
actas da assembleia municipal até ao mês de Fevereiro de 2007. Constatei que o
único documento que os membros da bancada da Frelimo tinham aprovado fora a
resolução nº 27/005-S/ subsídios de transporte para membros da assembleia
municipal. Segundo esta resolução, o presidente ganharia 4.080 meticais, o
vice-presidente 2.940; o secretário 2.531; o chefe da bancada 1.666 e cada
membro da assembleia 1.200.</p>






    ]]></body>
<body><![CDATA[<p><a style='mso-footnote-id:ftn17' href="#_ftnref17" name="_ftn17"
title=""><sup><sup>[17]</sup></sup></a>&nbsp; Sem querer fazer extrapolações abusivas,
segundo aquilo que vi, era nos territórios dos municípios geridos pela Renamo que
podíamos encontrar o maior número de bandeiras da República hasteadas em cada
km<sup>2</sup> em Moçambique. </p>

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