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<abstract abstract-type="short" xml:lang="en"><p><![CDATA[This article has as its starting point the argument that, while a group of styles and cultural forms spread world-wide from the Afro-American ghettos of New York in the 1970’s, hip-hop, in Angola, had a particular reception and appropriation. For the Angolan contemporary youth, the cultural incorporation of those styles and cultural forms to the national reality represented, despite the calculation of the consequences, an effort to update and modernise the national culture on the emergency of a public space provided by the end of the monopartisan regime. In this context, the so-called “social intervention rap”, mainly produced by the young from the lower classes, has been assuming itself as an artistic instrument through which rappers combine the cultural emancipation to the exercise of the democratic political participation.]]></p></abstract>
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</front><body><![CDATA[ 

    <p align="right"><b>ARTIGO ORIGINAL</b></p>
    <p>&nbsp;</p>
    <p><b>Hip-hop em
  Angola: O rap de intervenção social</b></p>
    <p><b>Hip-hop
in Angola: Social intervention rap</b></p>

    <p>&nbsp;</p>
    <p><b>Gilson
  Lázaro</b>*, <b>Osvaldo
    Silva</b>**</p>

    <p>*Universidade
Agostinho Neto, Faculdade de Ciências Sociais, Av. Ho Chi Minh, nº 56, Bairro Alvalade, Quintalão do Kudua, Luanda, Angola, <a href="mailto:lazaro.gilson@gmail.com">lazaro.gilson@gmail.com</a></p>

    <p>**Universidade
Católica de Angola, Centro de Estudos e Investigação Científica, Rua Pedro de Castro Van-Dúnem, nº 24, Bairro Palanca, Luanda, Angola, <a href="mailto:o.sebastiao.silva@gmail.com"><u>o.sebastiao.silva@gmail.com</u></a></p>

    <p>&nbsp;</p>

    ]]></body>
<body><![CDATA[<p><b>RESUMO</b></p>

    <p>O artigo parte do
argumento de que, enquanto um conjunto de estilos e formas culturais difundidos
mundialmente a partir dos guetos afro-americanos de Nova Iorque dos anos 70 do
século XX, o hip-hop obteve, em Angola, uma recepção e apropriação particulares. Para os jovens
angolanos simpatizantes, a adaptação à realidade nacional daqueles estilos e
formas culturais representou, a despeito do cálculo das consequências, um
esforço de actualização e modernização da cultura
nacional diante da emergência de um espaço público proporcionada pelo fim do
regime monopartidário. Nesse contexto, o “rap de intervenção social”, produzido
maioritariamente por jovens pertencentes às camadas sociais subalternas, vem
assumindo-se como um instrumento artístico através do qual os rappers aliam a
emancipação cultural ao exercício da participação política democrática. </p>

    <p><b>Palavras-chave</b>: hip-hop, rap de intervenção social, Angola</p>

    <p>&nbsp;</p>
    <p><b>ABSTRACT</b></p>
    <p>This
article has as its starting point the argument that, while a group of styles
and cultural forms spread world-wide from the Afro-American ghettos of New York
in the 1970’s, hip-hop, in Angola, had a particular reception and
appropriation. For the Angolan contemporary youth, the cultural incorporation
of those styles and cultural forms to the national reality represented, despite
the calculation of the consequences, an effort to update and modernise the national culture on the emergency of a public
space provided by the end of the monopartisan regime.
In this context, the so-called “social intervention rap”, mainly produced by
the young from the lower classes, has been assuming itself as an artistic
instrument through which rappers combine the cultural emancipation to the
exercise of the democratic political participation.</p>

    <p><b>Keywords</b>:
hip-hop, social intervention rap, Angola</p>


    <p>&nbsp;</p>


    <p><b>De Nova
Iorque a Luanda</b></p>

    <p>Dentre os mais variados movimentos culturais e
artísticos juvenis emergentes entre os anos 50 e 70 do século XX, o hip-hop veio a ser, certamente, um
daqueles poucos cuja rápida e espantosa internacionalização atingiu, de maneira
concreta e com implicações inéditas, realidades nacionais tão distantes do
ponto de vista geográfico e idiossincráticas no que concerne à formação
sociocultural, política e económica, como são os casos de Brasil e Japão,
Senegal e Portugal, França e Moçambique, Canadá e Angola. À diferença do
relativo sucesso mundial alcançado pelos movimentos pop e punk, bem como pela
música rock a eles vinculada, a difusão do hip-hop conseguiu transpor todas as
fronteiras &#8211; nacionais, linguísticas, raciais e classistas &#8211; até
então intransponíveis, tornando-o, de facto, num movimento cultural global<a
style='mso-footnote-id:ftn1' href="#_ftn1" name="_ftnref1" title=""><sup>[1]</sup></a>, no qual
milhares de jovens, a despeito da inexistência de uma plataforma de intenções,
encontraram os mais adequados instrumentos para a expressão artística de seus
dramas e anseios colectivos<a style='mso-footnote-id:
ftn2' href="#_ftn2" name="_ftnref2" title=""><sup>[2]</sup></a>.</p>

    ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Encarado na sua complexidade, pode-se dizer, ainda que
em resumo, que esse fenómeno resultou da convergência de três factores distintos mas subsidiários. O primeiro se refere à
inserção das modernas realizações culturais afro-americanas, notadamente o rap<a
style='mso-footnote-id:ftn3' href="#_ftn3" name="_ftnref3" title=""><sup>[3]</sup></a> e o
breakdance<a style='mso-footnote-id:ftn4' href="#_ftn4" name="_ftnref4" title=""><sup>[4]</sup></a> &#8211;
dois dos assim considerados elementos artísticos básicos do hip-hop &#8211; no
circuito da indústria cultural norte-americana e, por consequência, no mercado
mundial de produtos culturais. Nesse sentido, a difusão do hip-hop em escala
mundial ocorreu pela via da intensificação da globalização do comércio, da
expansão do progresso técnico e da massificação cultural, inserindo-se, deste
modo, no processo de afirmação da hegemonia cultural dos Estados Unidos da
América (EUA) na cultura popular e nos
estilos de vida de diferentes regiões do planeta<a style='mso-footnote-id:ftn5'
href="#_ftn5" name="_ftnref5" title=""><sup>[5]</sup></a>.</p>

    <p>O segundo factor está
relacionado com as dinâmicas conjunturais internas de cada país, ou seja, com
os graus de abertura comercial e cultural que permitiram o acesso aos produtos
culturais de fora. De modo que quanto maior foi o grau de integração, imposto
pela força do capital ou de livre aceitação, à modernidade e aos padrões de
consumo reinantes nos países desenvolvidos, maiores terão sido as
possibilidades de florescimento do hip-hop longe das ruas de Nova Iorque<a
style='mso-footnote-id:ftn6' href="#_ftn6" name="_ftnref6" title=""><sup>[6]</sup></a>.</p>

    <p>Já o terceiro e último factor,
mas de importância central, está estritamente ligado ao processo de identificação
que se efectivou entre a experiência artística,
social e política veiculada pelo hip-hop e as realidades e condicionantes
específicas dos jovens em diversas cidades do mundo. Noutras palavras, a
incorporação do hip-hop às respectivas culturas populares
e juvenis nacionais deveu-se, em última instância, à adequação de seu potencial
artístico-emancipatório, que, pela natureza essencialmente múltipla e
sincrética<a style='mso-footnote-id:ftn7' href="#_ftn7" name="_ftnref7" title=""><sup>[7]</sup></a>, jamais
fecharia a porta a novos conteúdos e roupagens locais, aos propósitos,
motivações, atitudes e expectativas dos sujeitos receptores.
Isto explica, portanto, que a expansão e consequente apropriação das formas
culturais do hip-hop, originando um movimento verdadeiramente planetário, se
processaram não apenas ao ritmo do influxo externo, mas, ao mesmo tempo, à luz
de constelações históricas internas, responsáveis pela verificação, na prática,
da validade e funcionalidade dos modismos importados para a vida nacional.</p>

    <p>No caso específico de Angola, tais constelações são
desde logo indissociáveis do conjunto de transformações que culminaram, no
princípio da década de 1990, com a transição social (da guerra para a paz),
política (do monopartidarismo para a democracia) e
económica (da economia centralizada para a economia de mercado). Quanto a esse
último aspecto, importa notar que já a partir de
1983, oito anos antes do cessar-fogo e dos acordos de paz<a style='mso-footnote-id:
ftn8' href="#_ftn8" name="_ftnref8" title=""><sup>[8]</sup></a> que
estiveram na base das primeiras eleições gerais em 1992, o país passaria a
registar mudanças substanciais de estratégia e política económica com vista,
entre outras coisas, a reestruturar o sistema económico, corrigindo
desequilíbrios financeiros internos, sem deixar de haver preocupações ligadas à
defesa nacional num cenário de guerra civil. De acordo com Ennes
Ferreira (1993/1994), os programas de reforma económica levados a cabo pelo
governo angolano à época, como o Programa Global de Emergência, foram as
consequências óbvias do “falhanço da regulação administrativa da economia” (p.
136), que geraria uma situação económica progressivamente degradada, incapaz de
aumentar ou apenas manter os níveis de produção industrial e agrícola<a
style='mso-footnote-id:ftn9' href="#_ftn9" name="_ftnref9" title=""><sup>[9]</sup></a>. Uma das
principais medidas previstas foi, precisamente, uma maior abertura aos mercados
internacionais através de um grande volume de importações de produtos dos países
da Europa Ocidental e dos EUA, como
salvaguarda da economia nacional, em particular do comércio interno<a
style='mso-footnote-id:ftn10' href="#_ftn10" name="_ftnref10" title=""><sup>[10]</sup></a>. </p>

    <p>É com a introdução no mercado interno de novos
produtos, causa da alteração dos padrões de consumo das populações urbanas e
semiurbanas, que apareceriam, à parte os bens electrónicos
e alimentares, os primeiros filmes e vídeo-clipes de
breakdance<a style='mso-footnote-id:ftn11' href="#_ftn11" name="_ftnref11"
title=""><sup>[11]</sup></a>, alguns dos quais, como <i>Breakin’</i> (1984) de Joel Silberg<a
style='mso-footnote-id:ftn12' href="#_ftn12" name="_ftnref12" title=""><sup>[12]</sup></a>,
exibidos nos cinemas de Luanda e em rede nacional pela Televisão Popular de
Angola (TPA)<a style='mso-footnote-id:
ftn13' href="#_ftn13" name="_ftnref13" title=""><sup>[13]</sup></a>, então
único canal de televisão com transmissão para todo o país. O fascínio pelo novo
estilo de dança no seio da juventude foi imediato, pois, além da novidade em
si, ele representava o que havia de mais moderno e avançado na cultura juvenil
mundial, exalando o progresso e vindo ao encontro de uma efervescência já
existente em torno da dança de rua<a style='mso-footnote-id:ftn14'
href="#_ftn14" name="_ftnref14" title=""><sup>[14]</sup></a>. Por
outro lado, ele correspondia com o espírito de irreverência e a necessidade de
afirmação social, ou de se fazer ouvir, do que a juventude se via privada, tanto
pelas contingências da guerra civil quanto pelo autoritarismo do Estado, o qual
ainda detinha certo controlo do campo cultural, fruto de uma herança
centralista<a style='mso-footnote-id:ftn15' href="#_ftn15" name="_ftnref15"
title=""><sup>[15]</sup></a>.</p>

    <p>Assim, por meio da imitação das vestimentas e dos
gestos e movimentos das personagens dos filmes e vídeo-clipes,
surgiriam os primeiros praticantes angolanos de breakdance, entre outros, Paulo
Kumba, Sérgio Rodrigues<a style='mso-footnote-id:
ftn16' href="#_ftn16" name="_ftnref16" title=""><sup>[16]</sup></a> e,
pouco mais tarde, o grupo SSP, que depois
viria a trocar o breakdance pelo rap<a style='mso-footnote-id:ftn17'
href="#_ftn17" name="_ftnref17" title=""><sup>[17]</sup></a>. Com as
aparições públicas desses dançarinos em eventos de rua, em shows e na
televisão, o número de adeptos do breakdance aumentaria significativamente,
chegando a alterar a imagem, a atitude e a rotina dos jovens. Esses passariam a
ser vistos com desconfiança e certo desprezo pela geração mais velha, que
julgava calças e camisetas largas, lenço à cabeça, cabelo <i>à la</i> black power e andar sincopado
como desvios graves aos padrões da cultura tradicional e católicos que se
deviam, a todo o custo, preservar<a style='mso-footnote-id:ftn18' href="#_ftn18"
name="_ftnref18" title=""><sup>[18]</sup></a>. No
fundo, foi confrontando essa mentalidade conservadora e o monolitismo cultural
que o breakdance e, por sua via, toda a cultura hip-hop, se impuseram, num
primeiro momento, nos meios urbanos e periféricos de Luanda, conferindo aos actores sociais juvenis novos meios de sociabilidade.</p>

    <p>No entanto, não obstante o seu estatuto pioneiro, o
breakdance deixaria de ter a primazia para os jovens angolanos dentre os
principais elementos artísticos do hip-hop. Provavelmente pelo grande impacto e
influência internacional do rap cantado em língua portuguesa, sobretudo pelo
rapper brasileiro Gabriel O Pensador<a style='mso-footnote-id:ftn19'
href="#_ftn19" name="_ftnref19" title=""><sup>[19]</sup></a>, o
breakdance acabou cedendo espaço ao rap, cuja popularidade viria a crescer a um
ritmo assustador. É como se certa franja da juventude tivesse percebido que,
atendendo às suas características intrínsecas de canto-falado e de protesto, o
rap fosse um veículo adequado, porque eficaz e incisivo, para exteriorizar uma
visão do mundo vinculada às condições sociais adversas que enfrentava e ainda
enfrenta. </p>

    <p>Em face desse cenário, o
chamado “rap de intervenção social” ou “revo-lucionário”<a
style='mso-footnote-id:ftn20' href="#_ftn20" name="_ftnref20" title=""><sup>[20]</sup></a> acabou
por subsistir em termos de adesão dentre as diferentes tendências ou vertentes
do rap feito em Angola. Embora pouco divulgado, já que muitas vezes excluído
dos circuitos convencionais de difusão cultural &#8211; televisão, rádio, etc.
&#8211; por causa do seu teor incómodo, ele vem contribuindo para o pluralismo
de opinião e participando da sociedade civil. Em certa medida, os rappers
acabaram assumindo o papel de porta-vozes da sua geração e das suas
comunidades, visando os problemas sociais de seu tempo. As temáticas das suas
músicas encontram, assim, inspiração nas iniquidades que assolam o país e com
as quais se defrontavam no dia-a-dia.</p>

    <p>O elenco de grupos e rappers solistas praticantes da
referida vertente é vasto, e inclui tanto aqueles pertencentes à chamada <i>old school</i><a
style='mso-footnote-id:ftn21' href="#_ftn21" name="_ftnref21" title=""><sup>[21]</sup></a> quanto
os da <i>new school</i><a
style='mso-footnote-id:ftn22' href="#_ftn22" name="_ftnref22" title=""><sup>[22]</sup></a>: Pobres
100 Culpa, Consciência Activa, Nel
Boy Dasha Burda, Kool Kleva, Phather Mak, Fortaleza Neutra, Filhos da Ala Este, Inferno 9, Mutu Moxi, Afroman,
Nice Zulu, Actitude Violenta, Unidade Civil, África
Preta, Brigadeiro Mata Frakus, Grand
L, Keita Mayanda, Bob da Rage Sense, Quarteirão Norte, Dread Joseph, Família B.K, Incógnitas no Arredor, Soldados
de Rua, G-S Unit, Ação Positiva, Reino Suburbano, Prollema Sul, Afrontamento, Supremo Regimento, Rappers
Ilegais, Toy Cuba, Sábio Louko
O Poeta, Afrodite, Dona Kelly, Mc
K, Brigadeiro 10 Pacote, Kissaca, Phay
Grand O Poeta, Jang Nômada
e Carbono.</p>
    <p>&nbsp;</p>

    ]]></body>
<body><![CDATA[<p><b>Um rap
“politicamente incorrecto”</b></p>

    <p>No panorama da música rap em Angola, o grupo Filhos da
Ala Leste é fundamental quanto à representação das condições sociais, do
dia-a-dia. É o que consta nas músicas dos dois únicos álbuns do grupo, <i>Bootleg</i>e <i>Politika
pura sem mistura</i>, de onde se destacam “Angola profunda”, “Ideal de paz”,
“Processo 105”, “Tempo da morte cruel”, “Apologia”, “Bom cidadão”, “24 de
Janeiro”, “Mãe Rússia”, “Mais miséria, menos voz” e “Homens do Império”. A
linguagem inevitavelmente política da cidadania, justiça social e igualdade foi
uma tónica que contribuiu &#8211; a seu modo e tempo &#8211; para a afirmação e
reconhecimento desse grupo. Com a música intitulada: “Ideal de paz”, uma
crítica severa às condições sociais que se reflectem
na vida dos jovens desempregados sem rumo, o refrão desafia a ordem e põe em
xeque as dúvidas e as incertezas perante um sistema político no qual já não
acreditam. A expressão lírica é-nos apresentada por Nganga wa
Mbote: “Este é o manifesto/ de um ideal de paz/ o
sonho de um povo/ e toda uma nação” (Filhos da Ala Este, 1999b).</p>

    <p>Neste pequeno excerto da música “Ideal de paz”, os
Filhos da Ala Este vão utilizando palavras de ordem do regime monopartidário,
que alguns deles vivenciaram na sua infância, enquanto membros da Organização
do Pioneiro Angolano (OPA), organização
infantil e viveiro dos futuros jovens militantes do MPLA. As estruturas de massas do MPLA
estavam bem organizadas. Depois da OPA
tinham que passar primeiramente pela JMPLA
antes de ingressarem como militantes do partido.</p>

    <p>As observações críticas do rapper Revolucionário agora
questionam as bases sobre as quais assentava o ideal da sociedade angolana
durante o período de partido único que apesar da idade, eles, os jovens
rappers, vão retratando sempre numa relação dialéctica
entre o passado do pós-independência que herdaram e o presente constrangedor:</p>

    <blockquote> Estamos sendo vítimas de um processo de lavagem cerebral/
proporcionado por um severo controlo policial/ a propaganda ideológica subjuga
as massas por igual/ ainda vivemos num Estado de regime totalitário. (Filhos da
Ala Este, 1999)</blockquote>

    <p>Mais uma vez as atenções estão viradas para os
excessos da política, onde a constatação recai sobre a actuação
policial, numa relação difícil com a juventude, que tem como primado a
liberdade. Os jovens assumem o ideal libertário, na medida em que esse ideário
é constantemente posto em causa pela atitude e actuação
das autoridades policiais. Tal como nos sugere o escritor camaronês Mongo Beti (2000), em África, “a polícia é a instituição que
melhor caracteriza qualquer sistema político. Se quisermos conhecer o sistema
político de qualquer país, basta conhecer a polícia” (p. 23). A
consciencialização faz parte do primeiro passo para se sair da condição social
subjugada. Os rappers se mostram reticentes, duvidam dos programas políticos de
governação e da conduta pública manifestada por alguns dos políticos. Ao
questionarem insistentemente os programas de governação erigidos pelo partido
no poder, porque não acreditam no mesmo, questionam o exercício democrático
vigente e a liberdade de expressão tal como está consagrada na Constituição da República.
Observam aquilo a que denominam de manipulação dos cidadãos por meio da
propaganda ideológica do partido no poder. Por exemplo, a música “Angola
profunda”, de 1999, tematiza as preocupações dos jovens perante o rumo que o
país atravessava. Na verdade, manifestam uma preocupação da governação e os
desafios que se impunham quanto ao futuro:</p>

    <blockquote>Essa é Angola profunda numa visão dos bastidores/ meu país é
o da desilusão e dos sonhos amordaçados/ das esperanças subterradas e de ideias
depravadas/ (...) de um povo e de um país sem futuro. (Filhos da Ala Este,
1999a)</blockquote>

    <p>Nas músicas desse grupo, é frequente constatar o uso
de palavras como “sangue”, “choro” e “luto”, que caracterizam o momento da
guerra civil. Às vezes, perante as incertezas da vida, eles se interrogam no
presente sobre o seu futuro, num prolongamento das preocupações de todos os
jovens angolanos, principalmente os mais necessitados. Eles vão incorporar
parte das aspirações, das frustrações de inúmeros indivíduos os quais cedo
viram as suas vidas ameaçadas pela guerra que assolava o país e que não havia
meios de terminar:</p>

    <blockquote>Angola é o segundo maior produtor de petróleo do continente,
mas com uma miséria consagrada constitucionalmente/ é para rir ou para chorar/
temos pobreza em excedente/ os diamantes só chegam para matar mais inocentes.
(Filhos da Ala Este, 1999a)</blockquote>

    <p>Os questionamentos que esses rappers fazem à acção política governativa apresentam-se nas contradições
de um país rico em recursos minerais e uma pobreza galopante. Paralelamente, é
visível nas letras o domínio do campo político angolano. A maior parte dos
autores de rap crescera num clima de guerra civil, o que contrasta com a
narrativa da geração mais-velha sobre o período glorioso do pós-independência.
Este legado, frequentemente posto em causa pela geração mais nova, acaba por
ser determinante para o entendimento do exercício político. No caso, a música
“Angola profunda” é representativa dessa constatação, na medida em que Adhamou se interroga nos seguintes termos: “Quem é que não
tem medo quando o presidente sai à rua?/ Quem não tem medo quando a polícia antiterror actua?/ Entre o
silêncio do povo a opressão armada se acentua” (Filhos da Ala Este, 1999a).</p>

    ]]></body>
<body><![CDATA[<p>“Angola profunda” é, portanto, uma reflexão sobre as
contradições sociais, aqui sinalizadas por uma geração que herdou as aspirações
de um futuro melhor com o fim da guerra civil, tal como os seus pais com o
advento da independência nacional.</p>

    <p>Onze anos passados do lançamento do primeiro álbum, <i>Bootleg</i>, de 1999, em 2010 seguiu-se o álbum <i>Politika pura sem mistura</i>, de circulação
fechada<a style='mso-footnote-id:ftn23' href="#_ftn23" name="_ftnref23" title=""><sup>[23]</sup></a>. Neste,
o grupo não deixou de reflectir sobre os problemas do
quotidiano angolano nas suas músicas.</p>

    <p>No último excerto da música “Ideal de paz”, Adhamou continua na mesma cadência musical crítica:</p>

    <blockquote>Transformaram os angolanos em máquinas
de guerra dividida em duas partes/ esqueceram-se que a guerra não é mais do que
o diálogo, mas também uma arte/ somos indignos da vida que por direito é a
nossa parte/ obrigam-nos a lutar por algo que desconhecemos. (Filhos da Ala
Este, 1999a)</blockquote>

    <p>Já no segundo álbum, <i>Politika</i>
<i>pura sem censura</i>, a música “Mais miséria, menos voz” fez o seguinte
retrato da realidade social:</p>

    <blockquote>Refrão: No meu país impera a ditadura e a monarquia/ só para
inglês ver essa falsa democracia/ eleições viciadas, imprensa privada
diariamente silenciada/ sociedade civil fortemente subjugada/ opinião e
imprensa pública instrumentalizada. (Filhos da Ala Este, 2010)</blockquote>

    <p>Mais adiante os rappers do grupo Filhos da Ala Este
afirmam, numa referência à história recente:</p>

    <blockquote>
      <p>Os filhos do socialismo democrático de
    92 escolheram a 5 de Setembro mais miséria, menos voz/ mais política de
    governação atroz/ mais corrupção, menos diálogo, menos emprego, menos arroz/ e
    as promessas eleitorais não saíram da agenda/ os comícios avermelhados, as
    promessas e lendas/ foram substituídas por mais vergonha, mais destruição de
    moradias, mais gente nas tendas/ e os políticos em quem confiaste o teu voto/
    aos lamentos do povo fazem ouvidos de mouco/ fingem não ver a desigual
    distribuição dos lucros do petróleo e dos diamantes/ a maioria absoluta
    tornou-os mais insensíveis, mais arrogantes. (Filhos da Ala Este, 2010)</p>
      <p>&nbsp;</p>
</blockquote>

    ]]></body>
<body><![CDATA[<p><b>Contradições
do quotidiano e rimas irónicas</b></p>

    <p>A música rap tem sido capaz, de forma muito mais
ostensiva do que os outros estilos musicais em Angola, de sinalizar as
contradições da sociedade angolana através das letras explícitas das músicas.
Nestas letras os problemas sociais são, na maior parte das vezes, apresentados
de forma aberta e clara, diferente de outros estilos musicais, a excepção do kuduro feito por Dog Murras, que iniciou a carreira musical como rapper e só
pouco tempo mais tarde passou para o estilo kuduro.
As vivências são apresentadas de modo que as práticas sociais, os princípios e
as regras estão constantemente em contradição, sobretudo na imagem da sociedade
emanada pelas elites e os seus aspirantes a uma vida similar. A excepção faz-se regra e a regra confirma que há uma excepção enquanto regra, num quotidiano em permanente
transformação. Os rappers Kid Mc, Yannick,
Kool Klever e Filhos da Ala
Este demonstram isto nas suas músicas. </p>

    <blockquote>(...) e assim, apesar do crescimento económico, aumenta o
contingente de excluídos social e economicamente/ enquanto isso as famílias
Van-Dúnem e dos Santos se lambuzam no poder
eternamente/ e os bajuladores oferecem de presente abusivamente a supremacia da
comunicação social aos filhos do Presidente/ que já dominam a economia e têm
(...) [assentos] no parlamento/ se infiltraram no desporto e até determinam o
preço do cimento. (Filhos da Ala Este, 2010)</blockquote>

    <p>Ou ainda o rapper Kool Klever retratando o quotidiano na música “Nós somos”, do
álbum <i>KoolTivar</i> de 2008:</p>

    <blockquote>Refrão: Somos
estrelas no céu/ com medo de brilhar/ pés fixados no chão/ com medo de voar.</blockquote>

    <blockquote>Underground, players
e revolucionários/ os alunos malcriados/ dos professores sem salários/ somos os
génios sem trabalho/ os netos desorientados/ a geração da utopia sem força nem
vontade/ para acreditar na poesia/ somos cegos por opção/ a realidade dói
demais/ na autodestruição encontramos a nossa paz/ somos os críticos acérrimos
da má governação/ mas andamos à pancada com microfones na mão/ numa guerra
verbal sem nexo nem explicação/ crescemos com a televisão/ passámos para as
parabólicas/ e agora é Internet/ somos os filhos do semba<a
style='mso-footnote-id:ftn24' href="#_ftn24" name="_ftnref24" title=""><sup>[24]</sup></a>/ mas a
nossa música é o rap/ somos patriotas mas não queremos fazer guerra/
nacionalistas mas ninguém quer morrer pela terra/ inúteis moralistas nesta
Sodoma e Gomorra/ (...) nós já fomos socialistas/ agora somos diaristas/
rappers e kuduristas/ pró-capitalistas/ estudamos com
fome/ e ficamos sem nome na lista/ somos da OPA/
esquecemos Ngangula/ fugimos à tropa/ quando temos
gastamos em damas, desbundas<a style='mso-footnote-id:ftn25' href="#_ftn25"
name="_ftnref25" title=""><sup>[25]</sup></a> e
roupas/ juízo coisa pouca/ cabeças bué ocas. (Kool Klever, 2008)</blockquote>

    <p>Já na voz de Mc K, as
contradições assumem tom mais politizado. Como diria Marta Lança (2008) a
propósito do seu primeiro álbum, </p>

    <blockquote><i>Trincheira de Ideias</i> foi suficiente para que as suas
letras se espalhassem nos candongueiros<a style='mso-footnote-id:ftn26'
href="#_ftn26" name="_ftnref26" title=""><sup>[26]</sup></a> de
Luanda e nas províncias. Era coisa nova, assuntos e abordagens que não se ouvia
com sotaque angolano, uma coragem que vinha agitar as águas. (p. 4)</blockquote>

    <p>Na música “A teknica, as
causas e as consequências”, do referido álbum, Mc K
produz como que um diagnóstico da sociedade angolana, sem deixar de incluir as
suas principais chagas. A sua crítica penetra nos vários segmentos sociais, mas
é na exortação dirigida directamente às camadas mais
desfavorecidas que ganha maior relevância:</p>

    <blockquote>Cidadão angolense acorda antes que o
sono te enterra/ se deres ouvido à minha poesia conhecerás as causas do
mosquito que nos ferra/ saberás que as causas do caos do povo não foi apenas a
guerra/ o quotidiano mostra a cor da corrente que nos cerra/ preto em baixo,
vermelho em cima e amarelo no meio. (Mc K, 2002b)</blockquote>

    ]]></body>
<body><![CDATA[<p>A letra, atractiva nas
descrições que faz, rapidamente popularizou-se pelas ruas de Luanda e
arredores. O refrão “Sei lá quê” é uma codificação irónica que o rapper
pretende transmitir ao público-ouvinte. Está muito próximo de uma exclamação
dirigida ao MPLA, partido que governa
Angola desde 1975, que tanto pode significar desespero, angústia, sofrimento
pelo abandono das promessas de liberdade, solidariedade, resumidas no <i>slogan</i>
segundo o qual “o mais importante é resolver os problemas do povo”, muito
propalado após a independência e, sucessivas vezes, recuperado pelo partido no
poder durante a realização das suas actividades
políticas de massas. O rapper deixa a interpretação irónica para os mais
atentos ao desenrolar da situação sociopolítica de Angola. A letra manifesta as
convicções de um jovem que acredita que as condições sociais do seu país fazem
parte de uma estratégia mascarada elaborada pelos políticos para a eliminação selectiva dos pobres. A desconfiança da política passa a
ser o centro da sua abordagem crítica. Às vezes irónico, às vezes decididamente
frontal, a sua música encontra ressonância nos bairros periféricos e mais
carentes de Luanda. O apelo outras vezes é sintomático na conformação do estado
social:</p>

    <blockquote>Envolvida pelos anéis de utopia na parte externa/ a inocente
fabrica e multiplica as vítimas na escravidão moderna/ como a massa desconhece
a técnica na manipulação popular/ do linchamento angolense/ ninguém sente o
peso da algema/ o teu caso é uma prova visível da arte dos lobos/ os teus
argumentos são frágeis e incompatíveis com a filosofia suprema/ não tens
abrigo/ procuras emprego a século, mas continuas fiel ao sistema/ estás preso
sobre uma frequência de controlo automática/ eles traçaram o teu futuro no
ventre da tua mamã/ sofres diariamente e não sabes como reclamar/ as armas
calaram, mas o teu estômago continua em guerra/ a luta começa no dia do teu
parto/ com a primeira gasosa que os teus pais compram à equipa em serviço/ e só
acaba com o último batimento do teu coração/ guerra é luta, e luta é mesmo
isso/ a tua esperança anda mais de 40 anos no Beiral/ afastaram-te dos livros
desde criança/ aos 12 anos uniram-te as cervejas/ encheram o teu fim-de-semana
com maratonas/ deram-te uma educação mutilada/ aniquilaram o teu espírito de
revolta com igreja/ tens uma década de escolaridade/ sobre a vida não sabes
nada/ cultivam em ti o medo que semearam nos teus pais/ as tuas atitudes
dependem da rádio e da televisão. (Mc K, 2002)</blockquote>

    <p>Essa música de Mc K tornou-o
popular pelo país adentro. E como consequência do seu apelo à
consciencialização dos jovens em geral, Arsénio Sebastião, mais conhecido por “Cherokee”, jovem lavador de carro nas ruas de Luanda e
morador do Marçal, bairro periférico da capital, era um ouvinte assíduo das
músicas do rapper que, em circunstância confusa, foi morto pela guarda
presidencial por ter ousado cantar em voz alta:</p>

    <blockquote>On November
22, 2003, “Cherokee” was washing cars and was singing a song to pass the time
between jobs. He sang the lyrics of rap song by the singer MCK, from the The
Chaba<a style='mso-footnote-id:ftn27' href="#_ftn27"
name="_ftnref27" title=""><sup>[27]</sup></a>
neighborhood, called “The technique, the causes and
the consequences”. This song exhorts its listeners to “clean the duty out of
your eyes/ open your eyes brothers/ switch off TPA (Public Television)/ tear up newspapers and analyze daily realities.” It critiques the state of affairs
in which “we have more firearms than dolls, fewer universities than discos, and
more bars than libraries.” A group of presidential guards who happened to be at
the docks overheard “Cherokee” singing and they began to beat him. (Moorman, 2008, p. 195)</blockquote>

    <p>Como excepção à regra, em
“Atrás do prejuízo”, do álbum intitulado <i>Nutrição Espiritual</i>, de 2006,
feita pelo rapper Mc K com participação do músico
consagrado Beto de Almeida, “a música que passa na Televisão Pública de Angola<a
style='mso-footnote-id:ftn28' href="#_ftn28" name="_ftnref28" title=""><sup>[28]</sup></a>, mas é
vedada nas principais antenas de rádio, fala da luta diária pela sobrevivência”
(Lança, 2008, p. 4), talvez devido à presença desse último e do seu tom mais
apelativo e menos severo para com os políticos. Trata-se, contudo, de mais um
retrato do quotidiano luandense endossado pela melódica música “Moussoolou” de Salif Keita.</p>

    <blockquote>Refrão: Eu vou
sorrir para não chorar/ é mais um dia da minha vida/ vou cantar para não
pensar/ as malambas<a style='mso-footnote-id:ftn29'
href="#_ftn29" name="_ftnref29" title=""><sup>[29]</sup></a> da
vida/ (bis)</blockquote>

    <blockquote>Hoje o sol nasceu mais cedo/ começou o
dia/ o galo cantou às 4/ motivos para a poesia/ agradeço a Deus por mais um dia
de vida/ já são 6 horas da manhã/ estou pronto para a batida/ Bidón nas costas/ não tenho água em casa/ vou roubar
debaixo da ponte/ tenho de ir em brasa/ de seguida vou à kixima<a
style='mso-footnote-id:ftn30' href="#_ftn30" name="_ftnref30" title=""><sup>[30]</sup></a>/ caular<a style='mso-footnote-id:ftn31' href="#_ftn31"
name="_ftnref31" title=""><sup>[31]</sup></a> o
pitéu/ uma lata de leite, dois ovos e um kibéu<a
style='mso-footnote-id:ftn32' href="#_ftn32" name="_ftnref32" title=""><sup>[32]</sup></a>/ tá
bala/ tenho que dar para a fau<a style='mso-footnote-id:
ftn33' href="#_ftn33" name="_ftnref33" title=""><sup>[33]</sup></a>/ até
logo Djamila/ avó Domingas tchau/ rasguei o musseque/ já estou no asfalto/
cidadãos reclamam pelos preços estão mais altos/ o lixo nas ruas/ mais o
semblante matinal/ a subida do combustível é manchete de jornal/ a quitandeira
grita o nome do produto que vende/ taque ataque arreiou<a
style='mso-footnote-id:ftn34' href="#_ftn34" name="_ftnref34" title=""><sup>[34]</sup></a>/ para
ver se a cena rende. (Mc K, 2006)</blockquote>

    <p>As várias músicas feitas pelos diferentes grupos de
rap encontram muita dificuldade para a transmissão dos seus conteúdos nas
estações de rádio devido, provavelmente, ao tom crítico à governação do país,
na medida em que essas estações de radiodifusão pautam-se por linhas editoriais
conservadoras do status político vigente. Apesar desses obstáculos quanto à
circulação dos conteúdos das músicas fruto da pressão exercida pelos rappers,
na segunda metade dos anos 90 surgiu na estação de rádio Luanda Antena
Comercial (LAC) o primeiro programa,
designadamente “A era do hip-hop”, que visava, dentre outros, a divulgação
desse estilo musical &#8211; entre internacional e nacional &#8211;, onde os
rappers passaram a ter efectivamente espaço reservado
para a troca de ideias e correspondência com um público mais amplo.</p>

    <p>Entretanto, alguns desses rappers angolanos radicados
em Portugal introduziram no panorama do rap uma nova forma de estar e fazer
música com o projecto musical <i>Conjunto Ngoguennha</i>, numa mistura das vivências e experiências
individuais em Angola e Portugal, cantando momentos da infância, adolescência e
os confrontos da mocidade no país que os viu nascer, ultrapassando as barreiras
impostas pela circulação vetada das suas músicas nas rádios locais quando
iniciou-se a divulgação desses conteúdos por meio de blogues e de sites
específicos abertos na Internet. Fazem parte desse elenco os seguintes
elementos: Leonardo Wawuti (Condutor), Ikonoklasta e Keita Mayanda<a style='mso-footnote-id:ftn35' href="#_ftn35"
name="_ftnref35" title=""><sup>[35]</sup></a>.</p>

    <p>Na música “Guerrilheiro do musseke<a
style='mso-footnote-id:ftn36' href="#_ftn36" name="_ftnref36" title=""><sup>[36]</sup></a>”, do
álbum de Mc K, que contou com a participação de Keita Mayanda e Leonardo Wawuti (Contador), o rapper anula-se a si para dar voz a
uma criança oriunda de uma família carenciada. A voz é de um menino que retrata
o dia-a-dia por que passa para conseguir sustentar a si e a sua família.
Trata-se de uma fotografia que marca bem as dificuldades de muitas famílias em
Angola, mesmo em contexto urbano como Luanda:</p>

    ]]></body>
<body><![CDATA[<blockquote>São 6 horas da manhã, me levanto cedo sem resmungar/ o meu pai
está a tomar banho e a minha mãe está arrumar/ sou um puto<a style='mso-footnote-id:
ftn37' href="#_ftn37" name="_ftnref37" title=""><sup>[37]</sup></a> de 8
anos nos musseques de Luanda/ já ciente da realidade e de como a vida anda/ meu
pai é polícia há 15 anos com patente pequena/ dizer a ele para deixar de ser
polícia/ não vale a pena/ minha mãe é quitandeira/ Roque Santeiro seu
escritório/ lugar pestilento igual a um purgatório/ tenho dois irmãos canucos<a style='mso-footnote-id:ftn38' href="#_ftn38"
name="_ftnref38" title=""><sup>[38]</sup></a>/ eu é
que cuido deles/ se não fizer as tarefas levo um castigo daqueles. (Mc K, 2002a)</blockquote>

    <p>Nesta música referida mais acima, o refrão é inspirado
numa outra com o título “Guerrilheiro”, de autoria de David Zé, integrante do
grupo FAPLA-Povo dos anos 1970, composto
de jovens militares que animavam as tropas nos quartéis; pouco tempo mais
tarde, ele e mais outros dois músicos acabaram sendo vítimas da onda repressiva
do 27 de Maio de 1977 (Weza, 2007, pp. 144-145). Esta
retrata as dificuldades ingentes por que muitos cidadãos passam diariamente. A
representação continua sendo do jovem adolescente cantada nas vozes de Condutor
e Mc K:</p>

    <blockquote>Vou para a escola sem mata-bicho<a style='mso-footnote-id:ftn39'
href="#_ftn39" name="_ftnref39" title=""><sup>[39]</sup></a> e só piteu<a style='mso-footnote-id:ftn40' href="#_ftn40"
name="_ftnref40" title=""><sup>[40]</sup></a> quando
regresso/ Nasci no berço da miséria/ minha vida é vivida no avesso/ mesmo sem
ténis novo nunca baixo a cabeça/ estou sempre na sala quando a primeira aula
começa/ de regresso a casa preparo os sacos de água fresca/ não há peixe se o
pescador não vai à pesca/ venci mais um dia, sou puto, um guerrilheiro do
musseque. (Mc K, 2002a)</blockquote>

    <p>Como se pode verificar nos excertos expostos, “a
crítica destes rappers destina-se, antes de mais, a alertar as consciências,
sobretudo dos jovens (...)” (Lança, 2008, p. 2), pois é este segmento social
que é o principal consumidor desse estilo de música. Por exemplo, Kid Mc no seu primeiro álbum, intitulado <i>Caminhos</i>,
desenvolve essas contradições que se refere mais acima, nas músicas “Educação
barata” e “Levanta e anda”, em rimas e críticas não muito diferentes dos outros
rappers. O elemento diferenciador é a agressividade com que compõe e expressa
as suas músicas. A radicalização de Kid Mc é notória
no álbum de 2010, <i>O Incorrigível</i>. As músicas “Incorrigível”, “
Metamorfose”, “Lição” e “Até à morte” caracterizam bem essa faceta do rapper:</p>

    <blockquote>(...) o calar não é a solução/ eu notei insuficiência na bala/
peguei no microfone e confiei na força das palavras/ enquanto a miséria me
consumia/ eu interiorizava o trauma que me deu a grande máquina de rima/
tornei-me naquilo que não estava nos planos/ interromper a saga dará origem a
muitos danos/ talvez eu seja teimoso/ aos olhos de um sistema que me vê como altamente
perigoso/ por não querer ver, ouvir e calar/ por ser aquele homem que tende a
ver, ouvir e cantar/ mas o que é que esperavam de uma criança/ pertencente a
uma nação/ onde balas iam de irmão para irmão/ essa filosofia de vida foram
vocês que me incutiram/ os vossos conflitos me atingiram/ durante os anos de
independência/ marcaram-se acontecimentos/ que germinaram homens prudentes/
morreu muita gente/ dos sobreviventes havia um puto que era tratado como um
demente/ um excluído social/ por isso tratem-me como sequela ou dano colateral.
(Kid Mc, 2010a)</blockquote>

    <p>As contradições do dia-a-dia dos angolanos continuam a
ser tematizadas por Dread
Joseph e Jang Nômada com a música “Fragmentos de
liberdade”, num constante esforço de actualização das
letras:</p>

    <blockquote>Quero, quero minha voz brutal/ não a quero bela, pura ou
melódica/ (...) não quero que esse poema vos divirta/ enfim, falo do homem que
se recusa a se submeter ao apodrecimento lento da mente/ e luta pelo pavor que
a miséria provoca/ a fome, o desemprego, a prostituição/ quero com isso dizer
que há uma crise de escolarização em Angola. (Dread
Joseph &amp; Jang Nômada, 2003)</blockquote>

    <p>Na música “Balumukeno”, de Dread Joseph, o conteúdo exprime preocupações sócio-proféticas muito diferentes dos demais fazedores de
rap nacional: </p>

    <blockquote>Mais uma vez cá vou eu desfazendo os nô
da merda dessa vida/ daqui do planeta Terra/ procurando encontrar oportunidades
e alternativas/ tentando compreender o quê: o princípio e o fim/ e a essência
de Deus/ mas todos me dizem que tenho de ter paciência e acreditar nos planos
da igreja e estudar um pouco mais de ciência (...) / e compreender o
significado do trabalho debaixo do sol (...) / lutar para sobreviver no meio
dessa densa escuridão/ Deus sabe que é dessa forma que penso quando ando nas
ruas entre homens e mulheres que pelo sistema babilónico são escravizados. (Dread Joseph, 2001)</blockquote>

    <p>Ou ainda o rapper Brigadeiro Mata Frakus,
que põe em comparação a vida folgada de uns e a desfavorável de outros na sua
música “Mundo de loucos”:</p>

    ]]></body>
<body><![CDATA[<blockquote>(...) Se cada um de nós testemunhasse
o horror/ a angústia de uma guerra e seus efeitos devastadores/ na primeira
pessoa e não relatado por uma caixa a cor/ estou certo que insignificâncias
passariam a ter mais valor/ e muitas situações são de simulação simples/ (...)
/ sobreviver com menos de um euro por dia e manter um sorriso/ como podes
visualizar uma seca se nunca te roncou a torneira?/ ou imaginar a desnutrição
quando pôs comida à beira do prato? (Mata Frakus,
2003)</blockquote>

    <p>Numa outra vertente se coloca Yannick,
líder do grupo Afroman, com o álbum intitulado <i>Mentalidade</i>,
de 2008, cuja temática central é a precariedade da sociedade angolana nas suas
mais diversas formas: desde a falta de bens de primeira necessidade, do racismo
às avessas, da homofobia e a sexualidade até às contradições sociais
decorrentes do uso das tecnologias de informação, particularmente a
mistificação da utilidade do telemóvel. As músicas “Mentalidade”, que dá título
ao álbum, “Traz azar”, “Possas” e “Algo em comum” caracterizam as preocupações
centrais do rapper, às vezes num niilismo consequente e desconcertante. Aliás,
aqui a dimensão niilista de Yannick nas músicas
“Mentalidade”, “Estou a desconfiar”, “Possas” e “1, 2, 3”; do Conjunto Ngonguenha com as músicas “É dreda
ser angolano”, “Sorriso angolano”, “O boda” e “Kem
manda mais fuma?”; de Kid Mc com as músicas “Feche a
boca”, “Reeducação”, “Aguenta o flow” e “Olhar de
pai”; de Mc K com as músicas “Eu sou Angola”, “O país
do pai Banana”, Quarentona atraente” e “Por de traz do pano”; e de Phay Grand O Poeta com as músicas
“Pão burro” e “Olha bem” dão corpo e sustentabilidade à desresponsabilização
social e política dos indivíduos que compõem a sociedade angolana. </p>

    <blockquote>É dreda ser
angolano/ ter sofrido no tutano/ mas mesmo assim ter chegado aonde chegámos/ é dreda ser angolano/ viver num país cobiçado/ só temos a
infelicidade de não termos dirigentes ajuizados/ é dreda
ser angolano/ quando vês paisagens fixes/ palancas negras gigantes/ é dreda avacalhar o continente inteiro com triplos e
lançamentos certeiros. (Conjunto Ngonguenha, 2004)</blockquote>

    <blockquote>O país está a mudar mas a mentalidade não/ é só pra ver que
as pessoas já não fogem carro/ carro é que lhes foge/ estás a ser assaltado ou
agredido/ só ficam a te olhar/ ninguém vem te acudir/ depois de te fatigarem/
estão a vir: é o quê?/ te roubaram o quê? / Mangolê é
solidário/ o carro do outro avariou na estrada/ ao invés de ajudar/ está a
buzinar/ tira essa lata daí pá. (Afroman, 2008)</blockquote>

    <blockquote>Refrão: Povo burro/ povo burro/ (bis) </blockquote>

    <blockquote>Kotas burros, ndengues
burros/ jovens burros/ todos burros/ damas burras/ velhas burras/ donas burras/
povo burro/ se o passado é merda/ porcaria no futuro/ se o presente é lixo/ não
sei o que eu procuro/ frequentam escola/ mas continuam no escuro/ ignoram o
negro quando falo um mambo puro. (Phay Grande, 2010)</blockquote>

    <p>Neste sentido, tais formas de fazer música estão em
busca de algumas particularidades localistas que se traduzem num retrato da
precariedade, nas condições de um país atrasado social e economicamente, em
plena relação com uma cultura de massas proveniente de uma sociedade
capitalista adiantada, que funciona ou era percebida como novidade para superar
o movimento culturalista em torno da música que
vingou nos anos de 1970 e 1980. O hip-hop vai ser então o influxo externo que
permite uma movimentação em confronto com a provincialização do espaço
cultural, particularmente dos palcos da música e da literatura voltados para a
glorificação da independência, da exaltação da mulher e da beleza do país, numa
simbiose entre o triunfalismo militante e o folclore popular promovida pela
elite nacionalista. A função da sátira social ou “paródia dos costumes”
enquanto influxos internos em contacto com o hip-hop (cultura de massas de uma
sociedade capitalista, isto é, influxo externo) serviriam de motor para o
processo de desprovincialização das artes e,
sobretudo, uma sinalização das transformações do quotidiano angolano. Como
exemplo, a década de 90 de guerra civil, de fome e de sofrimento, é questionada
no virar do século pelos rappers Revolucionário (Keita
Mayanda) e Condutor, na música “Radiografia da
miséria”:</p>

    <blockquote>Olha para essa
gente que aos poucos se desespera/ olha para esse quotidiano homicida que não
se altera/ isso chama-se holocausto a conta-gotas/ as tuas necessidades são
esquecidas depois que votas/ quem se preocupa, quem se importa com as nossas
vidas/ as panelas estão no fogo, mas não vemos comida/ as fardas, as armas, as
prisões/ o crime ou a tropa são as únicas opções/ mães choram seus filhos que
se tornam carne para canhão/ salário mínimo: a criança chora por falta de pão/
campo e cidade: desenvolvimento desigual/ a corrupção governativa aumenta a
exclusão social (...) / temos o índice mais baixo de desenvolvimento humano
(...) / temos uma esperança de vida mais curta do que a tinta da caneta/ com
que se assinaram os acordos de paz em 91/ pois, desde então morrer da forma
mais cruel é comum/ as promessas políticas não foram cumpridas dos dois lados/
as calças novas de Setembro hoje cobrem os corpos mutilados. (Revolucionário
&amp; Condutor, 2001)</blockquote>

    <p>&nbsp;</p>
    <p><b>A
  revisitação da história</b></p>

    ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Os rappers reivindicam e reavivam as memórias das
músicas nacionalistas de contestação social da geração mais-velha<a
style='mso-footnote-id:ftn41' href="#_ftn41" name="_ftnref41" title=""><sup>[41]</sup></a> em que
se destacam David Zé, Urbano de Castro e outros nomes cujo conteúdo das letras
ultrapassa a sua época. Estas músicas são frequentemente objecto
de <i>sampling</i><a style='mso-footnote-id:ftn42'
href="#_ftn42" name="_ftnref42" title=""><sup>[42]</sup></a> e
passaram a constar dos coros dos rappers num processo de mixagem. A memória do
27 de Maio e de outras lutas sociais travadas pela geração mais-velha são
usadas na música rap como fontes de inspiração.</p>

    <p>Nestas circunstâncias, o rap torna possível o contar e
recontar da história, a voz é ela própria um testemunho vivo no ritmo e nas
letras. O lirismo em metáforas abundantes, em vozes heterogéneas que se erguem
buscando elo entre a história do passado e representações do presente, dão corpo
a uma consciência de grupo transgeracional marcada por contradições
permanentes. Estas são esgrimidas no rap nacional num jogo de vocalização entre
posições identitárias, assumindo e reforçando, contudo, os signos exteriores
dos movimentos de luta e resistência. A voz no rap é a voz dos excluídos, dos
descontentes, de grupos de jovens com intensidade variável e posturas diversas.
Essas vozes adquirem dimensões políticas, económicas, morais e estéticas,
colocando e reactualizando a discussão e o lugar das
margens no debate público do país.</p>

    <p>Em certa medida o rap nacional é não só um mecanismo
de consciencialização dos jovens perante os problemas sociais, das suas
expectativas e aspirações, é também o meio de identificação e actualização das memórias sociais como, por exemplo, no
refrão da música “27 de Maio<a style='mso-footnote-id:ftn43' href="#_ftn43"
name="_ftnref43" title=""><sup>[43]</sup></a>”, de Baxaxa, uma das músicas mais radicais:</p>

    <blockquote>Os heróis serão vingados (bis)/ Há uma palavra de mensagem/ em
cada bala que dispara um camarada/ (bis). (Baxaxa,
2001)</blockquote>

    <p>O excerto da música “27 de Maio”, derivado de uma
apropriação histórica da repressão político-militar em resposta à tentativa
fracassada de golpe de Estado, apela à reflexão e sinaliza o percurso do país
nas mais diversas dimensões: política, económica e sociocultural. A música é
uma convocatória generalizada que o artista faz num jogo de interrogações umas
seguidas das outras: </p>

    <blockquote>Não sou eu/ não fui eu/ (bis) / quem embebeda a juventude em 28
de Agosto? / não sou eu/ quem traficou armas com Pierre Falconne?/
não fui eu/ quem escraviza os Nyaneka e Humbi<a style='mso-footnote-id:ftn44' href="#_ftn44"
name="_ftnref44" title=""><sup>[44]</sup></a> na UGP?<a style='mso-footnote-id:ftn45'
href="#_ftn45" name="_ftnref45" title=""><sup>[45]</sup></a>/ não
sou eu/ quem representa a maçonaria em Angola?/ não sou eu/ (...) de que cor é
aquele homem de cabelo encaracolado debaixo do sol/ que pede esmola no largo da
Maianga<a style='mso-footnote-id:ftn46' href="#_ftn46"
name="_ftnref46" title=""><sup>[46]</sup></a> com uma
perna mutilada?/ não é mulato!/ de que cor são os jovens iletrados/ que invés
da formação tiveram direito a farda verde e castanha?/ quem são os detentores
das altas patentes nas forças armadas?/ quantos mulatos estão nos campos de
aquartelamento desempregados?/ quantos mulatos são desmobilizados?/ quantas paróquias
da igreja católica existem em Angola e quantos párocos são negros e nacionais?/
Apartheid religioso/ velho contínuo da igreja não se confunde com o Papa/ e a
faxineira da tua casa não tem a cor da virgem santa/ não adianta/ quem combateu
em Nhareia, Kumacupa,
Bailundo<a style='mso-footnote-id:ftn47' href="#_ftn47" name="_ftnref47"
title=""><sup>[47]</sup></a> não foram angolanos com
dupla nacionalidade assim como você/ enquanto escorriam lágrimas nos olhos do
povo/ Jorge Morgado<a style='mso-footnote-id:ftn48' href="#_ftn48"
name="_ftnref48" title=""><sup>[48]</sup></a> falava
em nome da pátria na RTP<a
style='mso-footnote-id:ftn49' href="#_ftn49" name="_ftnref49" title=""><sup>[49]</sup></a>/
Janeiro de 1961<a style='mso-footnote-id:ftn50' href="#_ftn50" name="_ftnref50"
title=""><sup>[50]</sup></a>/ mais de 27 mil aldeias/
22 mil mortos/ genocídio na Baixa de Kasanje/ 14 anos
depois o MPLA-PT<a style='mso-footnote-id:
ftn51' href="#_ftn51" name="_ftnref51" title=""><sup>[51]</sup></a> pinta a
imagem de Iko Carreira como herói nacional/ (...) /
quem fala do problema é chamado de racista, matumbo<a style='mso-footnote-id:
ftn52' href="#_ftn52" name="_ftnref52" title=""><sup>[52]</sup></a>,
atrasado, revoltado e frustrado/ os gabinetes estão todos ocupados/ só existe
vaga na pedreira e nas empresas de segurança/ o branco analfabeto é chefe de
obra: Odebrecht<a style='mso-footnote-id:ftn53' href="#_ftn53" name="_ftnref53"
title=""><sup>[53]</sup></a>, Soares da Costa<a
style='mso-footnote-id:ftn54' href="#_ftn54" name="_ftnref54" title=""><sup>[54]</sup></a>/ e o
que é feito do negro licenciado? / (...) te esforças para cumprir um horário/
(...) são cinco anos de trabalho por apenas um televisor/ são mais de sete
centenas de chefes de família explorados por latifundiários que não têm a minha
cor (...) / dão soja no povo enquanto negoceiam com José Eduardo dos Santos do
nosso petróleo e cobalto. (Baxaxa, 2001)</blockquote>

    <p>É possível verificar um diálogo entre as músicas “27
de Maio” de Baxaxa, “Metamorfose” de Kid Mc e “Na fila do banco” de Mc K,
aproximadas pela mesma temática, pois as três retratam o racismo e a
discriminação em Angola. A grande diferença entre elas está na forma e no
conteúdo, pois enquanto a música “27 de Maio” é explicitamente frontal, levando
ao público-ouvinte uma conotação racial da atitude do artista, nas outras duas
a crítica é mais implícita. Na “sátira dos costumes” de Mc
K: </p>

    <blockquote>Bom dia! / Vim confirmar uma transferência da Inglaterra!/
solicitei uma caderneta a semana passada, até agora não me dizem nada!/ quero
os extractos de Agosto, Setembro e Outubro!/ bilhete
de identidade, número da conta, por favor/ tá bué calor aqui/ meu Deus já não
aguento/ a fila está enorme e o sistema está lento/ enquanto aguardo, viagem no
pensamento/ quero caular<a style='mso-footnote-id:
ftn55' href="#_ftn55" name="_ftnref55" title=""><sup>[55]</sup></a> bloco,
mosaico e cimento/ estou com a cabeça quente/ o kumbú<a
style='mso-footnote-id:ftn56' href="#_ftn56" name="_ftnref56" title=""><sup>[56]</sup></a> não vai
chegar/ xé!<a style='mso-footnote-id:ftn57'
href="#_ftn57" name="_ftnref57" title=""><sup>[57]</sup></a> só tem
dois pretos a bumbar?/ a tiota<a style='mso-footnote-id:
ftn58' href="#_ftn58" name="_ftnref58" title=""><sup>[58]</sup></a> da
vassoura e o papoiti<a style='mso-footnote-id:ftn59'
href="#_ftn59" name="_ftnref59" title=""><sup>[59]</sup></a> com aka<a style='mso-footnote-id:ftn60' href="#_ftn60"
name="_ftnref60" title=""><sup>[60]</sup></a>/ tá
tipo Dom Quio<a style='mso-footnote-id:ftn61' href="#_ftn61" name="_ftnref61"
title=""><sup>[61]</sup></a>/ o mambo<a
style='mso-footnote-id:ftn62' href="#_ftn62" name="_ftnref62" title=""><sup>[62]</sup></a> parece
praga. (Mc K, 2011)</blockquote>

    <p>Ou ainda Kid Mc, com a
música “Metamorfose”, cujo refrão conta com o <i>sampling</i>
dos músicos seniores Irmãos Kafala:</p>

    <blockquote>Não diria que sou inocente/ mas também não sou culpado/ saberás
o que trago aqui dentro encaixado/ a minha vida é feita de buracos e facadas/
danificada por dificuldades e pancadas/ criado por um antigo combatente/ deixa
dizê-lo/ hoje é miserável nem vale um cinzeiro/ pensou que seria recompensado/
não sabia que depois da guerra passaria a ser um frustrado/ estraçalhado/ como
um cão sem dono/ serviu à nação e a recompensa foi o abandono/ eu me virava aí/
em qualquer lado/ lavava carro/ foi assim que terminei o Makarenco/
mas para a faculdade/ até dá medo/ tentei na pública/ não tive sucesso/ tentei
outros meios/ mas não tinha dinheiro/ pensei na privada/ mas quantos carros
tenho de lavar para estudar numa faculdade privada?/ aí a cabeça já não estava
bem/ se o destino é ser lavador de carro/ tásse bem/
comecei a facar todos os senhores/ (...) o meu irmão
vive aí à procura de emprego/ os boss<a style='mso-footnote-id:ftn63'
href="#_ftn63" name="_ftnref63" title=""><sup>[63]</sup></a> parece
que já não gostam de negros/ eu até fico gripado/ quando ouço boa aparência/ já
sei que tem que ser mulato/ e fico lixado quando a doença aperta/ logo pego no
trabuco<a style='mso-footnote-id:ftn64' href="#_ftn64" name="_ftnref64" title=""><sup>[64]</sup></a> e fico
em alerta. (Kid Mc, 2010)</blockquote>

    ]]></body>
<body><![CDATA[<p>O rap de cariz político entre os rappers angolanos
assumiu uma característica central após a apropriação da cultura hip-hop.
Verifica-se, contudo, uma vontade de identificação com a história, num processo
de diálogo permanente com o passado. Por exemplo, as músicas “Tempo da morte
cruel” e “ Processo 105” estão carregadas de referências da história de África
&#8211; no caso da primeira &#8211;, e de Angola &#8211; no caso da segunda
&#8211; que reanimam o imaginário dos jovens artistas. O “Tempo da morte cruel”
é, na verdade, o título da obra literária do escritor sul-africano Alex La Guma, do qual os rappers Filhos da Ala Este se apropriaram
para nele descreverem o processo de cristianização do continente africano e o
perfilar de guerras fratricidas pelo mundo fora. É um despertar para a
realidade secular, como anuncia o seu refrão:</p>

    <blockquote>Os setes selos se encerram/ as
setes igrejas se enterram/ sete flagelos anunciam a ruptura
do céu/ do génese ao apocalipse/ tempo da morte cruel. (Filhos da Ala Este,
1999c)</blockquote>

    <p>As referências cristãs não escapam ao olhar crítico
dos rappers, pois eles estudam a história e dela extraem as suas contradições
seculares. Mais adiante Revolucionário apresenta o primeiro verso da música que
diz o seguinte:</p>

    <blockquote>Cristo está de volta ao calvário no final do século/ o
cenário é deprimente/ a todos os níveis ridículo/ a coroa de espinhos orna a
cabeça do rei da glória/ o cordeiro será imolado/ assim reza a história.
(Filhos da Ala Este, 1999)</blockquote>

    <p>No último verso, Adhamou
acrescenta o seguinte conteúdo:</p>

    <blockquote>(...) gerou-se o conflito entre o Deus morto e o homem vivo/
deu-se origem ao caos/ a extrema desesperança/ a terra passou a ser lugar de
chacinas e matanças/ destruições e carnificina em duas guerras mundiais/
genocídio ruandês/ genocídio dos judeus/ extermínios brutais/ mortes para todos
os gostos em um milénio. (Filhos da Ala Este, 1999)</blockquote>

    <p>Inversamente, na música “Processo 105” os rappers
narram um dos processos mais polémicos do pós-independência, assente na
acumulação capitalista de diamantes em território angolano, que culminou com o
julgamento de muitos cidadãos envolvidos na exploração, roubo e outras práticas
menos abonatórias. Na verdade, o que mais salta à vista na música é o carácter
vexatório usado para chamar a atenção da sociedade em geral. Ainda nesse grupo,
constata-se outra referência histórica no refrão da música “Mãe Rússia”, na voz
de Nganga wa Mbote:</p>

    <blockquote>(...) geração de 60 experiência e astúcia/ filho de
português/ irmão de cubano/ casou com a mãe Rússia/ (bis) / órfãos de Manguxi a geração de 80/ geração de 90/ filha de Man Zé e
da guerra civil a geração/ mais miséria e sofrimento para a geração de 2000.
(Filhos da Ala Este, 2010)</blockquote>

    <p>Aqui o processo de apropriação da história por parte
dos rappers serve de meio de esclarecimento da própria história do país, que
não é ensinada nas escolas nem discutida em espaços públicos. A música passa,
em virtude da ausência da história no sistema de ensino, a ser veículo de
aprendizagem e veio de transmissão para o público-ouvinte, sobretudo do período
colonial, da participação soviética e cubana na luta pela independência de
Angola: </p>

    <blockquote>de esperança/ largo da
independência fomentou a ganância/ (bis). (Filhos da Ala Este, 2010)</blockquote>

    ]]></body>
<body><![CDATA[<p>De modo diferente, outro exemplo de peso é ilustrado
nas músicas “Nossa História”, “Politrixx” e “Nuvem
negra”, do rapper angolano Mutu Moxi
(Intelektu) &#8211; radicado na África do Sul há mais
de 10 anos &#8211; que usa referências históricas de discursos políticos
nacionais. Na música “Politrixx”, do seu mais recente
álbum promocional intitulado <i>Senso Clássico</i>, de 2010, o rapper Mutu Moxi usa excertos do
discurso de Jonas Savimbi, o líder da rebelião armada em Angola enquanto
introdução e refrão ao mesmo tempo:</p>

    <blockquote>(...) e é importante nesse momento/ para sermos sinceros/ para
com a história da nossa própria terra/ agradecer o papel que Portugal
desempenhou/ ao mesmo tempo dizermos/ por que eu estou aqui/ eu sou antes de
mais nada e, sobretudo; / eu sou nacionalista; eu sou patriota/ para mim, acima
de Angola não existe mais nada/ (...) nós queremos que o angolano seja mais
valorizado do que dantes/ o angolano é o centro das nossas preocupações/ eu
ponho em primeiro lugar: o angolano/ em segundo lugar: o angolano/ em terceiro
lugar: o angolano/ em quarto lugar: o angolano/ depois não sei onde ficam os
outros/ deveriam ficar nas suas terras<a style='mso-footnote-id:ftn65'
href="#_ftn65" name="_ftnref65" title=""><sup>[65]</sup></a>. (Intelektu, 2010)</blockquote>

    <p>Em seguida, o rapper critica a política e os
políticos, dizendo que não acredita na propaganda dos partidos políticos
nacionais. Uma ênfase é colocada na decadência política e social, constatando o
paradoxo entre o enriquecimento da elite política que detêm o poder económico e
os cidadãos maioritariamente em situação de profundas carências sociais. Já na
música “Nuvem negra”, uma das mais recentes do rapper, a atenção recai no
excerto do polémico discurso do Presidente da República como refrão:</p>

    <blockquote>(...) conhecemos a origem da pobreza em Angola/ não foi o MPLA nem o seu governo que a criou/ essa é uma
pesada herança do colonialismo<a style='mso-footnote-id:ftn66' href="#_ftn66"
name="_ftnref66" title=""><sup>[66]</sup></a>. (Intelektu, 2010)</blockquote>

    <p>Intelektu questiona a
veracidade de tal afirmação proferida pelo Presidente da República, que é
contrariada &#8211; a olho nu &#8211; pelo paradoxo gritante entre a luxúria
das elites governantes e as desigualdades sociais. A música enfatiza a
discordância do artista perante o discurso de justificação da origem da pobreza
em Angola.</p>

    <p>&nbsp;</p>

    <p><b>Estética
das transgressões</b></p>

    <p>O rap de intervenção social feito em Angola, na forma
e no conteúdo, é movido por uma estética das transgressões, ou seja, por uma
estética da agressividade. A estética da agressividade está na forma do rap, no
instrumental que contraria a ordem da execução de uma música de matriz dos anos
60 e 70 até à chegada da cultura hip-hop; está na indumentária com que se
apresentam os fazedores de hip-hop, numa sociedade algo conservadora, que
questiona a “aparência estranha” com a qual se não identifica e que não se
conforma à ordem aceite; a estética da agressividade está na afirmação de uma
identidade juvenil no corte de cabelo e na linguagem. Os rappers denominados de
“revú” expressam nas suas músicas conteúdos diversos:
crítica política, criminalidade, crítica à guerra civil, apropriação histórica
do passado, lirismo de confrontação; eles materializam uma forma de fazer rap
que pode ser induzida pelo contexto de violência física, psíquica e estrutural
que marcou o percurso do Estado independente. Essas várias gerações de rappers
&#8211; em grande parte nascidos entre os finais dos anos 70 e início dos 80
&#8211; não conhecem um país diferente do contexto de conflito armado e
militarizado. A militarização das consciências, por hipótese, dá origem a uma
atmosfera traumatizante derivada da longa guerra civil que continua embutida e
em constantes mudanças, aquilo que Franz Fanon (2010)
denomina de “atmosfera da violência” (pp. 94-95), e os rappers como parte activa da sociedade não estão excluídos dessa “climatização
violenta”. É frequente encontrar músicas de intervenção onde os letristas se
exprimem com uma violência verbal extasiante.</p>

    <p>Um primeiro exemplo dessa agressividade é-nos
demonstrado por Ngadyama Wakamba
Sonhy, líder do grupo Pobres 100 Culpa, na forma de
cantar e mesmo no conteúdo das músicas “Sociedade aberta” e “Um país do faça
você mesmo”:</p>

    <blockquote>Pobres 100 culpa/ rebeldes naturais/ (...) 15 anos depois/ a
fúria pobre ressuscita outra vez/ dizem que o pobre é malandro/ pobres 100
culpa fodidamente voltando. (Pobres 100 Culpa, 2010)</blockquote>

    ]]></body>
<body><![CDATA[<p>A mensagem contida nas músicas e a forma como são
cantadas confirmam a existência dessa lógica de transgredir a ordem estética
vigente, rompendo com o modelo de governação, sobretudo nas críticas de
responsabilização que fazem directamente ao chefe do
governo. De seguida se constata mais dois exemplos dessa estética das
transgressões, por um lado, encontrada em Flagelo Urbano com a música
“Manifestação”, do seu primeiro álbum, <i>Entre o tempo e a memória</i>,
lançado em 2009:</p>

    <blockquote>Fechem as rádios, fechem os jornais e a televisão/ privatizem a
democracia e a liberdade de opinião/ cortem os nossos direitos, pisem nos
decretos/ promulguem leis pronto-a-vestir se acharem certo/ excluam-nos/
construam morros e muralhas/ protejam os vossos bens com homens e
metralhadoras/ partam as nossas casas e em seu lugar construam condomínios.
(Flagelo Urbano, 2009)</blockquote>

    <p>E, por outro, seguido de Kid Mc
com a música “Lição”, igualmente do seu primeiro álbum, <i>Caminhos</i>, de
2008:</p>

    <blockquote>
      <p>(...) vidas
    abaixo/ juventude ameaçada/ parece que estamos bem no avesso/ vivemos nesse
    mundo e distante do universo/ o país está a crescer eu admito/ mas às vezes o
    nosso governo é esquisito/ andamos distraídos na reconstrução/ esquecendo que o
    futuro consta na educação/ a rigorosidade já passou/ por isso é que a falta de
    respeito nesse lugar aumentou/ dinheiro trouxe modernismo e favas/ estamos a
    nos esquecer que vivemos em África/ educação deixou de ser conservadora/ assim
    vamos a caminho de uma realidade perigosa/ até crianças fazem o que querem/
    desrespeitam qualquer pessoa/ porque ninguém repreende/ e crescem assim/ até
    cair nas drogas/ para eles a educação significa escola/ os jovens querem
    mandarem-se a si próprios. (Kid Mc, 2010b)</p>
      <p>&nbsp;</p>
</blockquote>

    <p><b>À guisa de
conclusão</b></p>

    <p>Sem o devido cálculo, o hip-hop acabou sendo a
novidade que viria a contribuir para a desprovincialização
das actividades culturais do país. O rap, seu
expoente máximo, nem por isso o elemento que acompanhou o pioneirismo do
movimento vindo das Américas, jogou um importante papel na definição de uma
nova agenda cultural da camada mais jovem.</p>

    <p>A maneira como o hip-hop, sendo uma cultura de demanda
liberal, foi apropriado pela juventude angolana ocasionou reacções
de confronto com a música semba de viés
revolucionário apologético vigente na época. Resumidamente, as músicas aqui
analisadas visualizam as transformações sociais ocorridas em Angola captadas
pelos rappers atentos, assumindo assim posições irreverentes quer em momentos
de crise social, quer conjugando para afirmação dialógica uma cultura vinda de
fora e as particularidades locais. </p>

    <p>As propostas oferecidas pela música rap, em
particular, e pelo hip-hop, em geral, têm vencido obstáculos e promovido a
modernização do campo músico-cultural.</p>

    ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>

    <p><b>Referências</b></p>

    <!-- ref --><p>Baxaxa. (2001). 27 de Maio. <i>Projecto
Afrontamento</i>. Gravação independente.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1129988&pid=S1645-3794201600010000300001&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>

    <!-- ref --><p>Beti, M. (2000). <i>A França contra a África: O
regresso aos Camarões</i>. Lisboa: Caminho.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1129990&pid=S1645-3794201600010000300002&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>

    <!-- ref --><p>Dread Joseph. (2001). <i>Balumukeno</i>
[Single]. Gravação independente.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1129992&pid=S1645-3794201600010000300003&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>

    <!-- ref --><p>Dread Joseph &amp; Jang Nômada. (2003).
Fragmentos de liberdade. <i>Mixtape Auto-liberdade</i> [CD]. Masta K Produsons.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1129994&pid=S1645-3794201600010000300004&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>

    ]]></body>
<body><![CDATA[<!-- ref --><p>Fanon, F. (2010). <i>Os condenados da terra.</i>
Minas Gerais: UFJF.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1129996&pid=S1645-3794201600010000300005&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>

    <!-- ref --><p>Ferreira, M. E. (1993/1994). Performance
económica em situação de guerra: O caso de Angola (1975-1922). <i>África</i>, <i>16-17</i>(1),
135-156.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1129998&pid=S1645-3794201600010000300006&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>

    <!-- ref --><p>Filhos da Ala Este. (1999a). Angola profunda. <i>Bootleg</i>
[EP]. Gravadora independente.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1130000&pid=S1645-3794201600010000300007&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>

    <!-- ref --><p>Filhos da Ala Este. (1999b). Ideal de paz. <i>Bootleg</i> [EP]. Gravadora independente.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1130002&pid=S1645-3794201600010000300008&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>

    <!-- ref --><p>Filhos da Ala Este. (2010). Mãe Rússia. <i>Politika
pura sem mistura</i>. Gravadora independente.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1130004&pid=S1645-3794201600010000300009&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>

    ]]></body>
<body><![CDATA[<!-- ref --><p>Filhos da Ala Este. (2010). Mais miséria, menos
voz. <i>Politika pura sem mistura</i>. Gravadora independente.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1130006&pid=S1645-3794201600010000300010&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>

    <!-- ref --><p>Filhos da Ala Este. (1999c). Tempo da morte
cruel. <i>Bootleg </i>[EP]. Gravadora independente.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1130008&pid=S1645-3794201600010000300011&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>

    <!-- ref --><p>Flagelo Urbano. (2009). Manifestação. <i>Entre
o tempo e a memória</i> [CD]. Mad Tapes.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1130010&pid=S1645-3794201600010000300012&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>

    <!-- ref --><p>Gilroy, P. (2001). <i>O atlântico negro.
Modernidade e dupla consciência</i>. São Paulo: Ed. 34.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1130012&pid=S1645-3794201600010000300013&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>

    <!-- ref --><p>Gilroy, P. (2007). <i>Entre campos. Nações,
cultura e o fascínio da raça</i>. São Paulo: Annablume.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1130014&pid=S1645-3794201600010000300014&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>

    ]]></body>
<body><![CDATA[<!-- ref --><p>Guarato, R. (2008). <i>Dança de rua: Corpos
para além do movimento. Uberlândia, 1970-2007.</i> Uberlândia: UDUFU.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1130016&pid=S1645-3794201600010000300015&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --> </p>

    <!-- ref --><p>Hobsbawm, E. (2001). <i>A era dos extremos: O
breve século XX</i>. São Paulo: Companhia das Letras.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1130018&pid=S1645-3794201600010000300016&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>

    <!-- ref --><p>Intelektu. (2010). Politrixx. <i>Senso Clássico</i>
[CD]. Davocab.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1130020&pid=S1645-3794201600010000300017&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>

    <!-- ref --><p>Intelektu. (2010). Nuvem negra. <i>Senso
Clássico </i>[CD]. Davocab.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1130022&pid=S1645-3794201600010000300018&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>

    <!-- ref --><p>Kid MC. (2010a). O Incorrigível. <i>O
Incorrigível </i>[CD]. Mad Tapes.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1130024&pid=S1645-3794201600010000300019&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>

    ]]></body>
<body><![CDATA[<!-- ref --><p>Kid MC. (2010b). Lição. <i>O Incorrigível </i>[CD].
Mad Tapes.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1130026&pid=S1645-3794201600010000300020&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>

    <!-- ref --><p>Kool Klever. (2008). Nós somos. <i>KoolTivar </i>[CD].
Gravadora independente.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1130028&pid=S1645-3794201600010000300021&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --> </p>

    <!-- ref --><p>Lança, M. (2008). Luanda está a mexer! Hip hop underground em Angola. <i>Ntama &#8211; Journal of African
Music and Popular Culture </i>[Online]. Acedido
em 22 de Setembro, 2011, de <u><a href="http://www.uni-hildesheim.de/ntama/index.php?option=com_content&view=article&id=201:luanda-esta-mexer-hip-hop-underground-em-angola&catid=79:african-hip-hop&Itemid=39" target="_blank">http://www.uni-hildesheim.de/ntama/index.php?option=com_content&amp;view=article&amp;id=201:luanda-esta-mexer-hip-hop-underground-em-angola&amp;catid=79:african-hip-hop&amp;Itemid=39</a></u> &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1130030&pid=S1645-3794201600010000300022&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><!-- ref --><p>Mc K. (2002a). Guerrilheiro do musseke. <i>Trincheira
de Ideias </i>[CD]. Masta K Produsons.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1130031&pid=S1645-3794201600010000300023&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>

    <!-- ref --><p>Mc K. (2002b). A teknica, as causas e as
consequências. <i>Trincheira de Ideias </i>[CD]. Masta K Produsons.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1130033&pid=S1645-3794201600010000300024&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>

    <!-- ref --><p>Mc K. (2011). Na fila do banco. <i>Proibido
ouvir isso </i>[CD]. Masta K Produsons.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1130035&pid=S1645-3794201600010000300025&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>

    <!-- ref --><p>Messiant, C. (2004). As causas do fracasso de
Bicesse e Lusaka. Uma análise crítica. <i>Conciliation Resources</i>, 15, pp.
16-23.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1130037&pid=S1645-3794201600010000300026&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>

    <!-- ref --><p>Moorman,
M. (2008).<i> Intonations &#8211; A social history of music and nation in
Luanda, Angola, from 1945 to recent times</i>. Ohio University Press.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1130039&pid=S1645-3794201600010000300027&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>

    <!-- ref --><p>Pestana, N. (2008). <i>As dinâmicas da
sociedade civil em Angola</i>. Lisboa: Centro de Estudos Africanos. Acedido em 15 de Setembro,
2011, de <a href="http://hdl.handle.net/10071/7890" target="_blank">http://hdl.handle.net/10071/7890</a>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1130041&pid=S1645-3794201600010000300028&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><!-- ref --><p>Pobres
100 Culpa. (2010). Um país do faça você mesmo [Single]. Gravação independente.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1130042&pid=S1645-3794201600010000300029&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>

    <!-- ref --><p>Revolucionário
&amp; Condutor. (2001). Radiografia da Miséria [Single]. Wawuti Música.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1130044&pid=S1645-3794201600010000300030&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><a href="http://madtapes.blogspot.com.br/2009/07/kiangola-entrevista-samurai.html" target="_blank">http://madtapes.blogspot.com.br/2009/07/kiangola-entrevista-samurai.html</a></p>

    ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Samurai,
K. (2010, 14 de Julho). Kiangola entrevista Samurai. <i>Mad Tapes Online. </i>Acedido
em 17 de Agosto, 2010, de</p>

    <!-- ref --><p>Silver, J.
(Director) (1984). <i>Breakin’</i> [Video: VHS]. EUA: MGM Home
Entertainment.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1130047&pid=S1645-3794201600010000300032&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>

    <!-- ref --><p>Tchilar. (2009, 3
de Julho). Programa, Televisão Pública de Angola (TPA), Angola.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1130049&pid=S1645-3794201600010000300033&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>

    <!-- ref --><p>Weza,
J. (2007). <i>O percurso histórico da música urbana luandense: Subsídios para a
história da música angolana</i>. Luanda: Edição do autor.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1130051&pid=S1645-3794201600010000300034&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>
    <p>&nbsp;</p>



    <p><i>Recebido: 27 de agosto de 2015; Aceite: 11 de dezembro de 2015</i></p>
    <p>&nbsp;</p>
    ]]></body>
<body><![CDATA[<p><b>Notas</b></p>
    <p><a style='mso-footnote-id:ftn1' href="#_ftnref1" name="_ftn1"
title=""><sup>[1]</sup></a>&nbsp;&nbsp; A esse propósito, parece bastante questionável, porque
  excessiva, a relevância mundial que Eric Hobsbawm
  (2001) atribui ao rock, chegando a considerá-lo como elemento principal de uma
  “cultural jovem global” entre as décadas de 1960 e 1970 (pp. 320-321). Na
  verdade, como o próprio Hobsbawm tende a reconhecer,
  apesar da sua expansão através da difusão mundial de sons e imagens, da moda na
  sociedade de consumo, da rede mundial de universidades e dos contactos internacionais
  promovidos pelo turismo juvenil, dificilmente o rock conquistou adesão efectiva para além dos núcleos urbanos da cultura jovem
  ocidental de classe alta e média, e, quando o fez, jamais por assim dizer
  rejeitou a sua matriz classista e racial, o que implicou, em grande medida, o
seu insucesso popular (<i>ibid.</i>, p. 324). </p>



    <p><a style='mso-footnote-id:ftn2' href="#_ftnref2" name="_ftn2"
title=""><sup>[2]</sup></a>&nbsp;&nbsp; Não obstante os seus apelos contestatários e
emancipatórios, por meio dos quais os jovens rejeitavam uma ordem social
simbolizada por convenções de gostos, modos e costumes considerados repressivos
e arcaicos, é notório que no âmbito do movimento pop, ao contrário do que
ocorreu &#8211; e, de certo modo, ainda vem ocorrendo &#8211; no hip-hop, a
mera rebeldia pessoal sempre predominou em face da necessidade e do desejo de
emancipação social, sendo sexo, drogas, tatuagens e gestos obscenos as maneiras
mais óbvias de confrontar a autoridade dos pais, o poder dos vizinhos e a
repressão da lei (cf. Hobsbawm, 2001, pp. 325-327). </p>



    <p><a style='mso-footnote-id:ftn3' href="#_ftnref3" name="_ftn3"
title=""><sup>[3]</sup></a>&nbsp;&nbsp; Abreviação da expressão <i>rhyme
and poetry</i>, que designa
a vertente musical da cultura hip-hop, executada por um Mc
(<i>Master of ceremony</i>)
ou rapper. </p>



    <p><a style='mso-footnote-id:ftn4' href="#_ftnref4" name="_ftn4"
title=""><sup>[4]</sup></a>&nbsp;&nbsp; Forma que caracteriza a dança da cultura hip-hop, divida
em três subgéneros, a saber: poppin’, lockin’ e b.boy. </p>



    <p><a style='mso-footnote-id:ftn5' href="#_ftnref5" name="_ftn5"
title=""><sup>[5]</sup></a>&nbsp;&nbsp; Esse dado revela um paradoxo típico da cultura sob a
ordem da produção capitalista, o qual o hip-hop não conseguiu contornar. Pois,
tendo nascido como uma cultura urbana de resistência, ou seja, uma
contracultura afro-americana nos EUA, ele não resistiu aos ditames da mercadorização e só pôde difundir-se mundialmente como
parte da afirmação da mesma hegemonia cultural à qual se opunha no plano
interno. Daí que seja hoje temerário descrever o hip-hop como uma forma
cultural exclusivamente marginal ou revolucionária: “Qualquer um que afirme a
contínua marginalidade do hip-hop deveria ser pressionado a dizer onde imagina
que o centro pode estar agora” (Gilroy, 2007, p.
214). </p>



    <p><a style='mso-footnote-id:ftn6'
href="#_ftnref6" name="_ftn6" title=""><sup>[6]</sup></a>&nbsp;&nbsp; Sem prejuízo da necessidade de
análises detalhadas de cada contexto, talvez este factor
evidencie, em grande parte, a razão de o hip-hop não ter tido o mesmo nível de
aceitação em todas as sociedades. É pressuposto que em países como o Irão e a
Índia, por um lado, a Rússia e a China, por outro, a difusão do hip-hop tenha
registado acções de resistência maiores do que em
outras partes do mundo. No primeiro caso, pelo alto grau de conservadorismo
cultural aliado ao fundamentalismo religioso, ao passo que no segundo, pelas
restrições políticas e comerciais em relação aos produtos norte-americanos e
ocidentais de forma geral. </p>



    <p><a style='mso-footnote-id:ftn7' href="#_ftnref7" name="_ftn7"
title=""><sup>[7]</sup></a>&nbsp;&nbsp; Sobre o carácter essencialmente sincrético do hip-hop,
cf. Paul Gilroy (2001, pp. 89-100). Nota-se ainda
que, em outro lugar, o foco da crítica desse autor é justamente o reducionismo
etnicista e/ou racial que predomina em certas abordagens sobre o hip-hop, pois,
para ele, o sincretismo, que é sempre um processo imprevisível e surpreendente,
sublinha “a complexidade de suas dinâmicas por cima das linhas de cor. O
cruzamento, assim como a dispersão da diáspora em outros países, não é mais
algo que pode ser conceituado como um processo unidimensional ou reversível” (Gilroy, 2007, p. 215). </p>



    <p><a style='mso-footnote-id:ftn8' href="#_ftnref8" name="_ftn8"
title=""><sup>[8]</sup></a>&nbsp;&nbsp; Refere-se, aqui, aos Acordos de Bicesse,
assinados, em Maio de 1991, pelo governo representado pelo Movimento Popular de
Libertação de Angola (MPLA) e a guerrilha representada pela União Nacional para
a Independência Total de Angola (UNITA) sob os auspícios de uma troika composta
por Portugal, União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS) e EUA (cf. Messiant, 2004). </p>



    <p><a style='mso-footnote-id:ftn9'
href="#_ftnref9" name="_ftn9" title=""><sup>[9]</sup></a>&nbsp;&nbsp; O autor aponta três factores que, no seu entender, estiveram na base da referida
crise, nomeadamente “as consequências directas e indirectas da situação militar no país [ou seja, da guerra
civil], o aumento da dependência face ao sector petrolífero e, finalmente,
(...) uma má definição e gestão da política económica” (Ferreira, 1993/1994, p.
136). </p>



    ]]></body>
<body><![CDATA[<p><a style='mso-footnote-id:ftn10' href="#_ftnref10" name="_ftn10"
title=""><sup>[10]</sup></a><sup>&nbsp;&nbsp; </sup>É de
referir que, desde a Independência, Angola importava já diversos produtos
destinados ao abastecimento do mercado interno, de proveniência sobretudo dos
países do leste europeu, como a República Democrática Alemã (RDA) e a URSS. </p>



    <p><a style='mso-footnote-id:ftn11'
href="#_ftnref11" name="_ftn11" title=""><sup>[11]</sup></a>&nbsp; Segundo Rafael Guarato
(2008), foi precisamente no início dos anos 80 do século XX que “ocorreu uma
explosão da <i>breakdance</i> nos Estados Unidos da América, culminando numa
série de filmes e aparições de dançarinos vinculados ao <i>break</i> nos meios
de comunicação de massas daquele país, mais precisamente a partir de 1982” (p.
62, itálico do autor). </p>



    <p><a style='mso-footnote-id:ftn12' href="#_ftnref12" name="_ftn12"
title=""><sup>[12]</sup></a>&nbsp; De acordo com o testemunho da maior parte dos mais antigos
protagonistas do hip-hop em Angola, este filme pode ser considerado como um
marco para o surgimento do breakdance e, consequentemente, do hip-hop em
Angola. Aliás, dois dos seus personagens, Turbo e Onze, tornar-se-iam ídolos
para os jovens que, na altura, se iniciavam naquele novo estilo de dança (cf.
Samurai, 2010). Em todo o caso, outras influências foram importantes, como as
dos passos de dança de Mc Hammer
e do grupo Kriss-Kross (cf. Tchilar,
2009). </p>



    <p><a style='mso-footnote-id:ftn13' href="#_ftnref13" name="_ftn13"
title=""><sup>[13]</sup></a>&nbsp; Os filmes e outros materiais videográficos chegavam a Angola
já depois de legendados em Portugal. </p>



    <p><a style='mso-footnote-id:ftn14'
href="#_ftnref14" name="_ftn14" title=""><sup>[14]</sup></a>&nbsp; No final da década de 1980 e início da de
90, a dança de rua tornou-se uma actividade artística
bastante divulgada e praticada em certas regiões de Angola, principalmente na
capital, em virtude do surgimento de vários estilos de dança, ligados ou não ao
carnaval, tais como a <i>kabetula</i>, a <i>bungula</i>,
a <i>vaiola</i> e o <i>kwassa
kwassa</i>, este último proveniente do então Zaire, actual República Democrática do Congo. </p>



    <p><a style='mso-footnote-id:ftn15' href="#_ftnref15" name="_ftn15"
title=""><sup>[15]</sup></a>&nbsp; Como assinala Nelson Pestana (2008), o Estado angolano
monopartidário desde logo procurou “estruturar o campo cultural propondo-se
‘desenvolver a cultura de massas’ segundo os princípios do marxismo-leninismo,
considerado ‘valor primordial da educação do povo’” (p. 9). </p>



    <p><a style='mso-footnote-id:ftn16' href="#_ftnref16" name="_ftn16"
title=""><sup>[16]</sup></a>&nbsp; Cf. os testemunhos de Miguel Neto, Kool
Kleva, Nelson Mandela (Dj Nkaapa) e Wima Naioby (Tchilar, 2009). </p>



    <p><a style='mso-footnote-id:ftn17' href="#_ftnref17" name="_ftn17"
title=""><sup>[17]</sup></a>&nbsp; No entanto, a exemplo do que constata Rafael Guarato (2008) em relação ao aparecimento do breakdance em
Uberlândia, é bem provável que estes dançarinos não executem as manobras de
break tal e qual as personagens dos filmes a que assistiam. Atendendo ao facto
de que a maior parte já estava acostumada a outras danças e tendo em conta que
toda a cópia é ela mesma uma criação, a hipótese é que eles produziam uma
mescla de estilos de dança, na qual o breakdance predominava (pp. 63-64). </p>


    <p><a style='mso-footnote-id:ftn18'
href="#_ftnref18" name="_ftn18" title=""><sup>[18]</sup></a>&nbsp; Um dos principais alvos foi, sem dúvida,
a noção patriarcal da ordem social angolana, para a qual era inconcebível
rapazes amarrarem lenços à cabeça, usarem calças abaixo da cintura e andarem em
ritmo sincopado. </p>



    <p><a style='mso-footnote-id:ftn19' href="#_ftnref19" name="_ftn19"
title=""><sup>[19]</sup></a>&nbsp; Cf., entre outros, o testemunho de Nelson Mandela (Dj Nkaapa) (Tchilar,
2009). De facto, Gabriel O Pensador representou a possibilidade do rap em
português, algo inédito para os ouvidos daqueles jovens angolanos, que, no
momento, apenas conheciam o rap americano. </p>



    ]]></body>
<body><![CDATA[<p><a style='mso-footnote-id:ftn20' href="#_ftnref20" name="_ftn20"
title=""><sup>[20]</sup></a>&nbsp; Trata-se de designações usadas por certos rappers angolanos
para caracterizar a vertente de rap que praticam, diferenciando-se e, em certa
medida, opondo-se, assim, aos praticantes do chamado “rap comercial”. </p>


    <p><a style='mso-footnote-id:ftn21' href="#_ftnref21" name="_ftn21"
title=""><sup>[21]</sup></a>&nbsp; São assim
designados os rappers que participam do movimento hip-hop em Angola desde o
final da década de 1980 e/ou o princípio da de 90. </p>



    <p><a style='mso-footnote-id:ftn22' href="#_ftnref22" name="_ftn22"
title=""><sup>[22]</sup></a>&nbsp; Rappers que iniciaram a sua carreira não antes da segunda
metade da década de 1990. </p>



    <p><a style='mso-footnote-id:ftn23' href="#_ftnref23" name="_ftn23"
title=""><sup>[23]</sup></a>&nbsp; Distribuição e comercialização restrita aos grupos de rappers
e pessoas interessadas. </p>



    <p><a style='mso-footnote-id:ftn24' href="#_ftnref24" name="_ftn24"
title=""><sup>[24]</sup></a>&nbsp; Música urbana de Luanda
surgida na década de 40 da mistura de vários estilos. </p>



    <p><a style='mso-footnote-id:ftn25' href="#_ftnref25" name="_ftn25"
title=""><sup>[25]</sup></a>&nbsp; Gastos exorbitantes. </p>



    <p><a style='mso-footnote-id:ftn26' href="#_ftnref26" name="_ftn26"
title=""><sup>[26]</sup></a>&nbsp; Rede de transportes particulares de passageiros semi-colectivos. </p>



    <p><a style='mso-footnote-id:ftn27' href="#_ftnref27" name="_ftn27"
title=""><sup>[27]</sup></a>&nbsp; Bairro periférico de Luanda. </p>



    <p><a style='mso-footnote-id:ftn28' href="#_ftnref28" name="_ftn28"
title=""><sup>[28]</sup></a>&nbsp; A designação da televisão alterou-se após a mudança de sistema
político de popular para pública. </p>



    <p><a style='mso-footnote-id:ftn29' href="#_ftnref29" name="_ftn29"
title=""><sup>[29]</sup></a>&nbsp; Designação que refere-se aos problemas. </p>


    ]]></body>
<body><![CDATA[<p><a style='mso-footnote-id:ftn30' href="#_ftnref30" name="_ftn30"
title=""><sup>[30]</sup></a>&nbsp; Mercado. </p>



    <p><a style='mso-footnote-id:ftn31' href="#_ftnref31" name="_ftn31"
title=""><sup>[31]</sup></a>&nbsp; Comprar. </p>


    <p><a style='mso-footnote-id:ftn32' href="#_ftnref32" name="_ftn32"
title=""><sup>[32]</sup></a>&nbsp; Pão. </p>


    <p><a style='mso-footnote-id:ftn33' href="#_ftnref33" name="_ftn33"
title=""><sup>[33]</sup></a>&nbsp; Faculdade. </p>



    <p><a style='mso-footnote-id:ftn34' href="#_ftnref34" name="_ftn34"
title=""><sup>[34]</sup></a>&nbsp; Baixou. </p>



    <p><a style='mso-footnote-id:ftn35' href="#_ftnref35" name="_ftn35"
title=""><sup>[35]</sup></a>&nbsp; Autor do álbum <i>O homem e o artista</i> (2005). </p>



    <p><a style='mso-footnote-id:ftn36' href="#_ftnref36" name="_ftn36"
title=""><sup>[36]</sup></a>&nbsp; O termo musseque actualmente designa
as zonas periféricas e também semiurbanas das cidades de Angola. Este termo é
originário do período colonial e servia para designar as zonas habitacionais de
terra avermelhada fora do casco urbano da cidade. </p>


    <p><a style='mso-footnote-id:ftn37' href="#_ftnref37" name="_ftn37"
title=""><sup>[37]</sup></a>&nbsp; O termo faz parte da gíria luandense e refere-se a uma
criança. </p>


    <p><a style='mso-footnote-id:ftn38' href="#_ftnref38" name="_ftn38"
title=""><sup>[38]</sup></a>&nbsp; Menores. </p>



    <p><a style='mso-footnote-id:ftn39' href="#_ftnref39" name="_ftn39"
title=""><sup>[39]</sup></a>&nbsp; Comida. </p>



    ]]></body>
<body><![CDATA[<p><a style='mso-footnote-id:ftn40' href="#_ftnref40" name="_ftn40"
title=""><sup>[40]</sup></a>&nbsp; Termo da gíria luandense que se refere ao acto
de comer. </p>



    <p><a style='mso-footnote-id:ftn41' href="#_ftnref41" name="_ftn41"
title=""><sup>[41]</sup></a>&nbsp; Refere-se àquelas pessoas nascidas nas décadas de 1950 e de
1960. </p>



    <p><a style='mso-footnote-id:ftn42' href="#_ftnref42" name="_ftn42"
title=""><sup>[42]</sup></a>&nbsp; Introdução de excertos ou sobreposição de músicas. </p>



    <p><a style='mso-footnote-id:ftn43' href="#_ftnref43" name="_ftn43"
title=""><sup>[43]</sup></a>&nbsp; Episódio de golpe de Estado que ocorreu no interior do partido
MPLA e do Estado, opondo dois grupos em torno do Presidente Agostinho Neto e do
então ministro da Administração Interna e Comandante das FAPLA, Alves Bernardo
Baptista, vulgarmente conhecido por Nito Alves. </p>



    <p><a style='mso-footnote-id:ftn44' href="#_ftnref44" name="_ftn44"
title=""><sup>[44]</sup></a>&nbsp; Dois grupos etno-linguísticos que
compõem a população sudoeste de Angola. </p>



    <p><a style='mso-footnote-id:ftn45' href="#_ftnref45" name="_ftn45"
title=""><sup>[45]</sup></a>&nbsp; Unidade de Guarda Presidencial. </p>


    <p><a style='mso-footnote-id:ftn46' href="#_ftnref46" name="_ftn46"
title=""><sup>[46]</sup></a>&nbsp; Distrito residencial da cidade de Luanda. </p>



    <p><a style='mso-footnote-id:ftn47' href="#_ftnref47" name="_ftn47"
title=""><sup>[47]</sup></a>&nbsp; Três municípios da província do Huambo, região centro de
Angola. </p>



    <p><a style='mso-footnote-id:ftn48' href="#_ftnref48" name="_ftn48"
title=""><sup>[48]</sup></a>&nbsp; Político luso-angolano da UNITA. </p>



    <p><a style='mso-footnote-id:ftn49' href="#_ftnref49" name="_ftn49"
title=""><sup>[49]</sup></a>&nbsp; Rádio e Televisão Portuguesa
(RTP). </p>



    ]]></body>
<body><![CDATA[<p><a style='mso-footnote-id:ftn50' href="#_ftnref50" name="_ftn50"
title=""><sup>[50]</sup></a>&nbsp; Data da repressão colonial na região norte de Angola. </p>



    <p><a style='mso-footnote-id:ftn51' href="#_ftnref51" name="_ftn51"
title=""><sup>[51]</sup></a>&nbsp; Movimento Popular de Libertação de Angola - Partido do
Trabalho (MPLA-PT). </p>



    <p><a style='mso-footnote-id:ftn52' href="#_ftnref52" name="_ftn52"
title=""><sup>[52]</sup></a>&nbsp; Iletrado (refere-se a uma pessoa sem estudos e proveniência
rural com um sentido jocoso). </p>



    <p><a style='mso-footnote-id:ftn53' href="#_ftnref53" name="_ftn53"
title=""><sup>[53]</sup></a>&nbsp; Empresa de construção civil de origem brasileira. </p>



    <p><a style='mso-footnote-id:ftn54' href="#_ftnref54" name="_ftn54"
title=""><sup>[54]</sup></a>&nbsp; Empresa de construção civil de origem portuguesa. </p>


    <p><a style='mso-footnote-id:ftn55' href="#_ftnref55" name="_ftn55"
title=""><sup>[55]</sup></a>&nbsp; Comprar (expressão da gíria luandense). </p>


    <p><a style='mso-footnote-id:ftn56' href="#_ftnref56" name="_ftn56"
title=""><sup>[56]</sup></a>&nbsp; Dinheiro (expressão da gíria luandense). </p>


    <p><a style='mso-footnote-id:ftn57' href="#_ftnref57" name="_ftn57"
title=""><sup>[57]</sup></a>&nbsp; Exclamação que dependendo do sentido pode denotar admiração,
surpresa ou ainda chamada de atenção. </p>



    <p><a style='mso-footnote-id:ftn58' href="#_ftnref58" name="_ftn58"
title=""><sup>[58]</sup></a>&nbsp; Senhora (expressão da gíria luandense que se refere a uma
senhora). </p>



    <p><a style='mso-footnote-id:ftn59' href="#_ftnref59" name="_ftn59"
title=""><sup>[59]</sup></a>&nbsp; Senhor (expressão da gíria luandense que se refere a um
senhor). </p>


    ]]></body>
<body><![CDATA[<p><a style='mso-footnote-id:ftn60' href="#_ftnref60" name="_ftn60"
title=""><sup>[60]</sup></a>&nbsp; Kalashnikov &#8211; arma de fabrico russo. </p>



    <p><a style='mso-footnote-id:ftn61' href="#_ftnref61" name="_ftn61"
title=""><sup>[61]</sup></a>&nbsp; Abreviatura do nome da discoteca Dom Quixote, em Luanda. </p>



    <p><a style='mso-footnote-id:ftn62' href="#_ftnref62" name="_ftn62"
title=""><sup>[62]</sup></a>&nbsp; Coisa. </p>



    <p><a style='mso-footnote-id:ftn63' href="#_ftnref63" name="_ftn63"
title=""><sup>[63]</sup></a>&nbsp; Chefe ou rico. </p>



    <p><a style='mso-footnote-id:ftn64' href="#_ftnref64" name="_ftn64"
title=""><sup>[64]</sup></a>&nbsp; Arma. </p>


    <p><a style='mso-footnote-id:ftn65' href="#_ftnref65" name="_ftn65"
title=""><sup>[65]</sup></a>&nbsp; Discurso proferido durante a campanha para as eleições gerais
realizadas pela primeira vez em Angola, em 1992. </p>



    <p><a style='mso-footnote-id:ftn66' href="#_ftnref66" name="_ftn66"
title=""><sup>[66]</sup></a>&nbsp; Discurso proferido na reunião do Comité Central do partido
MPLA, em Luanda, em 2011. </p>



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