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</front><body><![CDATA[ <P    ><B>Editorial</b></P >        <P align="right">Utop&iacute;stica &eacute; uma s&eacute;ria avalia&ccedil;&atilde;o    das alternativas hist&oacute;ricas, o exerc&iacute;cio do nosso julgamento face    a uma racionalidade substantiva de uma alternativa poss&iacute;vel de sistemashist    ricos. &Eacute; a s&oacute;bria, racional e real&iacute;stica evolu&ccedil;&atilde;o    dos sistemas sociais humanos, com os constrangimentos do seu contexto e as zonas    abertas &agrave; criatividade humana. N&atilde;o a face do perfeito (e inevit&aacute;vel)    futuro. &Eacute; antes um exerc&iacute;cio, simultaneamente, nos campos da ci&ecirc;ncia,    da pol&iacute;tica e da moral. </P >     <P align="right">- Immanuel Wallerstein (1998). </P >        <P    >&nbsp; </P >     <P    >1. Esta defini&ccedil;&atilde;o de utop&iacute;stica, apresentada pelo soci&oacute;logo-historiador    norte americano Immanuel Wallerstein em contraponto a utopia, surge-nos como    particularmente estimulante no plano da reflex&atilde;o intelectual neste per&iacute;odo    marcado por profundas decep&ccedil;&otilde;es democr&aacute;ticas em pa&iacute;ses    de l&iacute;ngua portuguesa, seja em Portugal pelo rumo de algumas pol&iacute;ticas    adoptadas ap&oacute;s a vit&oacute;ria eleitoral do Partido Socialista, seja    sobretudo no Brasil depois dos enormes esc&acirc;ndalos que desacreditaram nos    planos &eacute;tico e pol&iacute;tico, talvez irremediavelmente, a Administra&ccedil;&atilde;o    do Presidente Lula da Silva e o seu partido, o Partido dos Trabalhadores. </P >     <P    >As pol&iacute;ticas p&uacute;blicas, nos &uacute;ltimos vinte e cinco anos, t&ecirc;m    sido marcadas por uma ortodoxia que tem no chamado consenso de Washington a    sua express&atilde;o s&iacute;ntese: disciplina fiscal, cortes na despesa p&uacute;blica,    reforma fiscal, liberaliza&ccedil;&atilde;o financeira, taxas de c&acirc;mbio,    liberaliza&ccedil;&atilde;o do com&eacute;rcio, investimento estrangeiro directo,    privatiza&ccedil;&atilde;o, desregula&ccedil;&atilde;o e direitos de propriedade.    Tamb&eacute;m na educa&ccedil;&atilde;o, neste per&iacute;odo, se assistiu &agrave;    lenta mas segura afirma&ccedil;&atilde;o de um novo bloco social hegem&oacute;nico    que tem vindo a impor um novo senso comum nas pol&iacute;ticas de educa&ccedil;&atilde;o,    assente numa redu&ccedil;&atilde;o dos conceitos de democracia (e de democratiza&ccedil;&atilde;o    do ensino) &agrave;s pr&aacute;ticas de consumo (educacional), de cidadania    a um individualismo possessivo, e de igualdade ao medo da diferen&ccedil;a e    ressentimento face ao outro.</P >     <P    >Algumas t&ecirc;m sido as tentativas de fazer de outro modo, de mostrar que um    outro mundo &eacute; poss&iacute;vel, que v&atilde;o desde a Revolu&ccedil;&atilde;o    Portuguesa do 25 de Abril de 1974, num passado n&atilde;o muito distante, &agrave;s    grandes movimenta&ccedil;&otilde;es sociais que t&ecirc;m no F&oacute;rum Social    Mundial a sua mais significativa express&atilde;o, e &agrave;s propostas da    Internacional Socialista e de algumas inst&acirc;ncias das Na&ccedil;&otilde;es    Unidas para a regula&ccedil;&atilde;o da globaliza&ccedil;&atilde;o hegem&oacute;nica    neoliberal, ou para a constru&ccedil;&atilde;o de formas mais democr&aacute;ticas    e justas de governa&ccedil;&atilde;o mundial. </P >     <P    >Neste contexto de afirma&ccedil;&atilde;o de um pensamento hegem&oacute;nico    que considera os actuais modelos econ&oacute;mico-sociais e de governa&ccedil;&atilde;o    o fim da hist&oacute;ria (Fukuyama), o papel dos cientistas sociais implicados    com os processos de transforma&ccedil;&atilde;o social ganha um novo e acrescido    sentido, por muito grandes que sejam as decep&ccedil;&otilde;es com os percursos    seguidos por algumas solu&ccedil;&otilde;es que ajudaram a construir. </P >     <P    >O conhecimento, por ser um constru&iacute;do social e um produto hist&oacute;rico,    &eacute;, inquestionavelmente, uma pr&aacute;tica pol&iacute;tica, que n&atilde;o    &eacute; neutra nem apol&iacute;tica, mas que tamb&eacute;m n&atilde;o obedece    &agrave;s mesmas l&oacute;gicas e &agrave; mesma agenda do campo pol&iacute;tico.    Como dizia o soci&oacute;logo franc&ecirc;s Pierre Bourdieu, referindo-se especificamente    &agrave; Sociologia, mas generaliz&aacute;vel ao conjunto das Ci&ecirc;ncias    Sociais, onde inclu&iacute;mos as Ci&ecirc;ncias da Educa&ccedil;&atilde;o,    &ldquo;quanto mais a sociologia se torna cient&iacute;fica mais se torna politicamente    pertinente e eficiente, nem que seja a t&iacute;tulo de instrumento de cr&iacute;tica,    de sistema de defesa contra as formas de domina&ccedil;&atilde;o simb&oacute;lica    que nos impedem de virmos a ser verdadeiros agentes pol&iacute;ticos&rdquo;    . </P >     <P    >O conhecimento pedag&oacute;gico h&aacute; muito que nos ensina que um dos principais    meios de aprendizagem &eacute; constitu&iacute;do pelo erro. Se acreditamos    que a utop&iacute;stica n&atilde;o &eacute; o perfeito e inevit&aacute;vel futuro,    mas antes um exerc&iacute;cio simult&acirc;neo nos campos da pol&iacute;tica,    da ci&ecirc;ncia e da moral, como sublinha Wallerstein, ent&atilde;o a interven&ccedil;&atilde;o    dos cientistas sociais justifica-se mais do que nunca. O seu sil&ecirc;ncio,    ou o recuo para projectos exclusivamente de natureza pessoal, torna-se insustent&aacute;vel.    A sociedade, e em particular aqueles que menos recursos possuem, exigem uma    interven&ccedil;&atilde;o, designadamente no plano educacional, capaz de dar    suporte a uma pedagogia da esperan&ccedil;a (Paulo Freire) no futuro da humanidade,    (re)valorizando a ac&ccedil;&atilde;o pol&iacute;tica como espa&ccedil;o e tempo    de possibilidade de constru&ccedil;&atilde;o de alternativas hist&oacute;ricas.  </P >     ]]></body>
<body><![CDATA[<P    >&nbsp;</P >     <P    >2. O presente n&uacute;mero da Revista Lus&oacute;fona de Educa&ccedil;&atilde;o    pretende representar um contributo para o entendimento do que pode ser o papel    dos cientistas sociais deste campo espec&iacute;fico da educa&ccedil;&atilde;o,    tanto na cr&iacute;tica da domina&ccedil;&atilde;o dos sistemas simb&oacute;licos    de que nos fala Bourdieu, como na an&aacute;lise da constru&ccedil;&atilde;o    das alternativas hist&oacute;ricas referidas por Wallerstein.</P >     <P    > O primeiro artigo, <i>Pedagogia da Terra e cultura da sustentabilidade</i>,    constitui um dos mais s&oacute;lidos ensaios de Moacir Gadotti sobre os grandes    problemas que se colocam aos seres humanos nas sociedades actuais. As reflex&otilde;es    de Gadotti t&ecirc;m, sobretudo, um car&aacute;cter antropol&oacute;gico e &eacute;tico.    Antropol&oacute;gico, porque se trata de promover uma nova concep&ccedil;&atilde;o    de homem que, inserido no Cosmos, se questione sobre o sentido da vida, que,    por sua vez, n&atilde;o est&aacute; separado do sentido do Planeta; &eacute;tico,    porque os novos princ&iacute;pios reguladores da actividade humana ter&atilde;o    de se basear num novo paradigma que tenha a Terra como fundamento e centro.    A mudan&ccedil;a de paradigma ter&aacute;, por certo, implica&ccedil;&otilde;es    na Educa&ccedil;&atilde;o. O conceito de desenvolvimento sustent&aacute;vel,    visto de forma cr&iacute;tica, tem componentes educativas: a preserva&ccedil;&atilde;o    do meio ambiente depende da constru&ccedil;&atilde;o de uma consci&ecirc;ncia    ecol&oacute;gica que, por sua vez, depende da educa&ccedil;&atilde;o. O princ&iacute;pio    de sustentabilidade &eacute; o novo princ&iacute;pio reorientador da Educa&ccedil;&atilde;o    e fundamento de uma cultura da planetaridade. A Pedagogia da Terra ou Ecopedagogia,    entendida como movimento pedag&oacute;gico, como abordagem curricular e como    movimento social e pol&iacute;tico, representa um projecto alternativo global    que tem por finalidades, por um lado, promover a aprendizagem do sentido das    coisas a partir da vida quotidiana e, por outro, a promo&ccedil;&atilde;o de    um novo modelo de civiliza&ccedil;&atilde;o sustent&aacute;vel do ponto de vista    ecol&oacute;gico. Este novo modelo aponta para uma Educa&ccedil;&atilde;o para    a cidadania planet&aacute;ria, o que implica uma revis&atilde;o dos nossos curr&iacute;culos,    uma reorienta&ccedil;&atilde;o de nossa vis&atilde;o de mundo da educa&ccedil;&atilde;o    como espa&ccedil;o de inser&ccedil;&atilde;o do indiv&iacute;duo n&atilde;o    numa comunidade local, mas numa comunidade que &eacute; local e global ao mesmo    tempo. Uma cidadania planet&aacute;ria &eacute;, por ess&ecirc;ncia, uma cidadania    integral, portanto, uma cidadania activa e plena, o que implica, tamb&eacute;m,    a exist&ecirc;ncia de uma democracia planet&aacute;ria, defende Gadotti. </P >     <P    >O segundo artigo, <i>O que as situa&ccedil;&otilde;es de defici&ecirc;ncia e    a educa&ccedil;&atilde;o inclusiva &ldquo;dizem&rdquo; &agrave;s Ci&ecirc;ncias    da Educa&ccedil;&atilde;o</i>, de Charles Gardou e Michel Develay, constitui    uma estimulante resposta ao contributo poss&iacute;vel da an&aacute;lise da    margem, das situa&ccedil;&otilde;es de diferen&ccedil;a, ao conjunto das Ci&ecirc;ncias    da Educa&ccedil;&atilde;o. Para formularem a sua resposta, Gardou e Develay    partem de uma an&aacute;lise dos contributos da criatividade e pioneirismo social    de alguns &ldquo;educadores radicais&rdquo; que, ao longo da hist&oacute;ria,    estabeleceram a pedra angular da democratiza&ccedil;&atilde;o do saber e, atrav&eacute;s    dela, do reconhecimento da humanidade e da cidadania para todos, e demonstraram,    por actos, que a educa&ccedil;&atilde;o &eacute; a arma mais poderosa contra    o desprezo e a segrega&ccedil;&atilde;o. Recusando sustentar-se em constata&ccedil;&otilde;es    r&iacute;gidas, esses educadores apostam nas virtualidades de evolu&ccedil;&atilde;o    de toda a crian&ccedil;a e contestam as atitudes educativas amorfas ou derrotistas    que levam a dar menos aos que j&aacute; s&atilde;o menos dotados. Em suma, dizem-nos    que &eacute; o acesso ao saber e a entrada na cultura universal que concorrem    de maneira determinante para a igualdade de oportunidades e a cria&ccedil;&atilde;o    do &ldquo;v&iacute;nculo social&rdquo;. Para Gardou e Develay, &eacute; neste    jazigo de iniciativas revolucion&aacute;rias, demasiado desconhecido, que repousa    uma mat&eacute;ria preciosa para pensar e agir, hoje, em educa&ccedil;&atilde;o.  </P >     <P    >No terceiro artigo, <i>Educa&ccedil;&atilde;o cr&iacute;tica e desenvolvimento    de uma cidadania multi&eacute;tnica. Uma perspectiva da Europa do Sul,</i>    Peter Mayo, a partir da sua privilegiada posi&ccedil;&atilde;o na ilha-na&ccedil;&atilde;o    de Malta, situada nesse Mediterr&acirc;neo milenar de conflu&ecirc;ncia de culturas,    analisa as profundas consequ&ecirc;ncias dos processos migrat&oacute;rios do    mercado laboral, centrando-se nos movimentos do norte de &Aacute;frica para    as cidades e campos da Europa do Sul, mas generaliz&aacute;vel a outras regi&otilde;es    igualmente sujeitas a fortes fen&oacute;menos migrat&oacute;rios. Preocupado    com os fen&oacute;menos de xenofobia, ou mais precisamente, islamofobia, Mayo    defende como sendo um dos grandes desafios para os educadores o de encorajar    os participantes a atravessar as suas fronteiras mentais e culturais. Atravessar    fronteiras, segundo Mayo, implica que comecemos a entender algo mais sobre as    outras culturas, incluindo a religi&atilde;o. Talvez a caracter&iacute;stica    mais importante de uma abordagem cr&iacute;tica e anti-racista da educa&ccedil;&atilde;o    de adultos seja o desenvolvimento de um processo de aprendizagem baseado no    di&aacute;logo aut&ecirc;ntico, um conceito-chave na abordagem pedag&oacute;gica    freiriana, que &eacute; vista como um meio para permitir que as diferentes culturas    que comp&otilde;em as nossas sociedades se tornem parte integrante do processo    educativo e que os participantes escutem (no sentido que Paulo Freire lhe d&aacute;    em Pedagogia da Autonomia) os outros. O artigo termina com a identifica&ccedil;&atilde;o    de um conjunto de desafios a que os educadores do sul da Europa est&atilde;o    confrontados, no sentido de ajudar a promover uma cidadania democr&aacute;tica    num contexto multi-&eacute;tnico. </P >     <P    >O quarto artigo, <i>Encobrimentos e emerg&ecirc;ncias pedag&oacute;gicas na    Am&eacute;rica Latina,</i> constitui um profundo e documentado ensaio de Danilo    R. Streck sobre &ldquo;o dilema de saber quem somos, como latino-americanos&rdquo;,    tomando como refer&ecirc;ncias a Pedagogia do Outro, de Paulo Freire, a sociologia    das aus&ecirc;ncias e emerg&ecirc;ncias, de Boaventura de Sousa Santos, e os    processos participativos de car&aacute;cter emancipat&oacute;rio. Streck argumenta    que existe no pensamento popular uma matriz, historicamente formada, que por    sua vez se constitui como base para experi&ecirc;ncias socialmente inovadoras.    Na forma&ccedil;&atilde;o desta matriz encontram-se, entre outras, as pedagogias    da sobreviv&ecirc;ncia, da resist&ecirc;ncia e da rela&ccedil;&atilde;o. Para    o autor, a aten&ccedil;&atilde;o aos encobrimentos e &agrave;s emerg&ecirc;ncias    dar&aacute; conte&uacute;dos &agrave; cren&ccedil;a de que &ldquo;h&aacute;    fogo sob as cinzas e de que a segunda oportunidade nesta parte da terra existe&rdquo;,    ou, como termina, &ldquo; a educa&ccedil;&atilde;o, enriquecida com o que ela    mesma silenciou e aberta ao aprender-ensinar que &eacute; parte da resist&ecirc;ncia    e luta, ocupar&aacute; o seu paradoxal lugar de condutora, tendo alguma certeza    de onde sai e se alimentando das esperan&ccedil;as que restam ou que brotam    nas novas formas de construir o futuro&rdquo;. </P >     <P    >O quinto artigo, <i>A experi&ecirc;ncia coletiva como fonte de aprendizagens    no Movimento Sem Terra no Brasil,</i> de C&eacute;lia Regina Vendramini, prop&otilde;e    uma reflex&atilde;o sobre as aprendizagens constru&iacute;das e/ou adquiridas    pelos trabalhadores rurais sem-terra na sua experi&ecirc;ncia junto ao Movimento    dos Sem Terra (MST), no Brasil. Na primeira parte, a autora identifica as origens    sociais dos sem-terra que constituem o MST em Santa Catarina, regi&atilde;o    sul do Brasil. Na segunda, reflecte sobre algumas das aprendizagens constitu&iacute;dos    a partir das principais experi&ecirc;ncias de luta do Movimento, desde a ocupa&ccedil;&atilde;o    de terras, passando pelo acampamento, at&eacute; &agrave; organiza&ccedil;&atilde;o    dos assentamentos. Na terceira e &uacute;ltima parte analisa estas aprendizagens    com base na categoria experi&ecirc;ncia, fundamentada em E. P. Thompson. As    experi&ecirc;ncias vividas pelos sem-terra provocam um conjunto de aprendizagens    com grande significado pessoal, social e pol&iacute;tico, a partir do embate    entre uma hist&oacute;ria de vida ausente de participa&ccedil;&atilde;o social    e pol&iacute;tica e a entrada num movimento que se sustenta pela organiza&ccedil;&atilde;o    de massa e pela capacidade de autogest&atilde;o nos acampamentos e assentamentos.  </P >     <P    >No sexto artigo, <i>As reflex&otilde;es curriculares de Paulo Freire</i>, Afonso    Celso Scocuglia, pretende apreender as rela&ccedil;&otilde;es entre o conhecimento,    a aprendizagem e o curr&iacute;culo no interior do pensamento pol&iacute;tico-pedag&oacute;gico    de Paulo Freire. Para isso, Scocuglia trabalha diversas quest&otilde;es do seu    discurso, especialmente centradas em torno dos processos do conhecimento, da    educa&ccedil;&atilde;o problematizadora, da passagem da ingenuidade &agrave;    criticidade que marca a conscientiza&ccedil;&atilde;o, da forma&ccedil;&atilde;o    do educador, dos direitos das camadas populares ao conhecimento, da gest&atilde;o    e da autonomia escolares. Segundo o autor, essas reflex&otilde;es demonstram    a vivacidade e a actualidade das contribui&ccedil;&otilde;es pedag&oacute;gicas    do legado de Freire, enquanto contraponto de uma educa&ccedil;&atilde;o cada    vez mais estandartizada &ldquo;de-cima-para-baixo&rdquo; e hegem&oacute;nica,    e paradigma &ldquo;de uma educa&ccedil;&atilde;o pol&iacute;tica que aposta    na reinven&ccedil;&atilde;o curricular pelas redes conectadas da aprendizagem,    da conquista sistem&aacute;tica do conhecimento e da consci&ecirc;ncia cr&iacute;tica    (enquanto &lsquo;exerc&iacute;cios de poder') por parte dos educadores, dos    educandos, dos gestores, dos pensadores, dos movimentos sociais, das ONGs, dos    Estados-na&ccedil;&atilde;o... enfim, de todos os protagonistas da educa&ccedil;&atilde;o    das camadas sociais subalternas e empobrecidas&rdquo;.</P >     <P    > No s&eacute;timo artigo, <i>Estudos de caso revelam efeitos socio-pedag&oacute;gicos    de um programa de forma&ccedil;&atilde;o de professores</i>, Marli Andr&eacute;    pretende mostrar o potencial dos estudos de caso para revelar mudan&ccedil;as    em contextos escolares e em concep&ccedil;&otilde;es e pr&aacute;ticas de professores    que participaram do PROFORMA&Ccedil;&Atilde;O - Programa de Forma&ccedil;&atilde;o    de Professores em Exerc&iacute;cio, destinado &agrave; forma&ccedil;&atilde;o    de professores leigos (ou seja, professores sem forma&ccedil;&atilde;o cient&iacute;fica    e pedag&oacute;gica) que actuam nas quatro primeiras s&eacute;ries do ensino    fundamental (o antigo ensino prim&aacute;rio), na educa&ccedil;&atilde;o pr&eacute;-escolar    e nas classes de alfabetiza&ccedil;&atilde;o, das regi&otilde;es Norte, Nordeste    e Centro-Oeste do Brasil, envolvendo um total de 27.000 professores. A primeira    parte do artigo descreve brevemente o Programa de Forma&ccedil;&atilde;o. Na    segunda parte s&atilde;o apresentados os procedimentos metodol&oacute;gicos    utilizados na realiza&ccedil;&atilde;o de seis estudos de caso, que inclu&iacute;ram    visitas &agrave;s salas de aula dos participantes no curso, entrevistas, an&aacute;lises    de memoriais e aplica&ccedil;&atilde;o de testes de desempenho. A terceira parte    do texto discute os principais resultados do estudo avaliativo: mudan&ccedil;as    em concep&ccedil;&otilde;es e pr&aacute;ticas pedag&oacute;gicas dos professores,    melhoria em suas habilidades de escrita e em sua auto estima, valoriza&ccedil;&atilde;o    da cultura local e das experi&ecirc;ncias dos alunos e efeitos positivos nas    pol&iacute;ticas locais e nos contextos escolares. </P >     <P    >O oitavo artigo, <i>O modo de ensino m&uacute;tuo na forma&ccedil;&atilde;o    dos mestres das primeiras letras. Uma experi&ecirc;ncia pedag&oacute;gica no    Portugal oitocentista,</i> de Maria Teresa B. Conde, constitui mais um contributo    da linha de pesquisa &ldquo;Mem&oacute;rias da scola no espa&ccedil;o lus&oacute;fono&rdquo;    do Observat&oacute;rio de Pol&iacute;ticas de Educa&ccedil;&atilde;o e de Contextos    Educativos da Universidade Lus&oacute;fona. Tendo como base uma disserta&ccedil;&atilde;o    de mestrado orientada por &Aacute;urea Ad&atilde;o, o artigo procede a uma an&aacute;lise    sum&aacute;ria da problem&aacute;tica relativa &agrave; habilita&ccedil;&atilde;o    dos professores de ler, escrever e contar, em Portugal, na primeira metade do    s&eacute;culo XIX. Esta forma&ccedil;&atilde;o destinava-se a adestrar os mestres    do ensino oficial na aplica&ccedil;&atilde;o do modo de ensino m&uacute;tuo.    O artigo de Teresa Conde torna-se particularmente interessante pela detalhada    apresenta&ccedil;&atilde;o do m&eacute;todo de ensino m&uacute;tuo e da sua    introdu&ccedil;&atilde;o na Europa e em Portugal. Como diz a autora, no que    se refere &agrave;s &ldquo;bases de instru&ccedil;&atilde;o&rdquo;, elas compreendem:    a aprendizagem pela imita&ccedil;&atilde;o e pela repeti&ccedil;&atilde;o constantes;    o encadeamento progressivo e natural das mat&eacute;rias, partindo do mais f&aacute;cil    e simples para o mais dif&iacute;cil e complexo; o posicionamento 10 relativo    de cada aluno em cada classe, de acordo com os seus conhecimentos e sem interferir    no percurso dos companheiros; a preocupa&ccedil;&atilde;o de captar e manter    a aten&ccedil;&atilde;o dos disc&iacute;pulos, durante todo o tempo lectivo.    Num momento de marcada crise do modelo escolar assente no princ&iacute;pio de    <i>ensinar a muitos como se fosse a um s&oacute;</i>, que vai buscar ao ensino    m&uacute;tuo as suas formas b&aacute;sicas de organiza&ccedil;&atilde;o, a leitura    deste artigo torna-se particularmente estimulante e necess&aacute;ria para todos    aqueles que acreditam que a escola pode funcionar segundo outros paradigmas    e princ&iacute;pios organizativos. </P >     ]]></body>
<body><![CDATA[<P    >O oitavo artigo, <i>Carta Educativa: ambiguidades e conflitualidades,</i> de    &Eacute;dio Martins, aborda uma problem&aacute;tica central nos debates educacionais    dos &uacute;ltimos anos: a territorializa&ccedil;&atilde;o pas pol&iacute;ticas    educativas. O conceito de territorializa&ccedil;&atilde;o &eacute; utilizado    pelo autor para significar uma grande diversidade de princ&iacute;pios, dispositivos    e processos inovadores, no dom&iacute;nio da planifica&ccedil;&atilde;o, formula&ccedil;&atilde;o    e administra&ccedil;&atilde;o das pol&iacute;ticas educativas que, de um modo    geral, v&atilde;o no sentido de valorizar a afirma&ccedil;&atilde;o dos poderes    perif&eacute;ricos, a mobiliza&ccedil;&atilde;o local dos actores e a contextualiza&ccedil;&atilde;o    da ac&ccedil;&atilde;o pol&iacute;tica. Mas, como sublinha, o cerne da territorializa&ccedil;&atilde;o    tamb&eacute;m &eacute; diversidade de tend&ecirc;ncias e de din&acirc;micas,    ambiguidades e conflitualidade. Tomando como refer&ecirc;ncia n&atilde;o apenas    o seu conhecimento acad&eacute;mico mas igualmente pr&aacute;tico, Martins defende    que a supera&ccedil;&atilde;o destas ambiguidades e conflitualidades na elabora&ccedil;&atilde;o    de uma Carta Educativa Municipal, cuja elabora&ccedil;&atilde;o deve resultar    da iniciativa da C&acirc;mara Municipal, pode ser realizada atrav&eacute;s da    leitura l&uacute;cida, politicamente consistente e tecnicamente rigorosa, das    realidades sociais, din&acirc;micas e capacidade de interven&ccedil;&atilde;o    dos actores sociais. </P >     <P    >Em <i>In Memoriam</i>, sec&ccedil;&atilde;o que se inaugura neste n&uacute;mero,    Manuel Tavares recorda Paul Ricoeur (1913-2005) com um texto significativamente    intitulado <i>Um projecto de esperan&ccedil;a intempestiva e uma pedagogia    da n&atilde;o viol&ecirc;ncia.</i> O artigo pretende ser uma homenagem a Paul    Ricoeur, um dos fil&oacute;sofos mais ecl&eacute;ticos da segunda metade do    s&eacute;culo XX e uma das maiores refer&ecirc;ncias dos debates intelectuais    contempor&acirc;neos. Neste artigo, a preocupa&ccedil;&atilde;o &eacute; a de,    tendo por fundamento alguns dos textos mais significativos de Ricoeur, compreender    os motivos mais profundos da possibilidade e concre&ccedil;&atilde;o do mal,    da viol&ecirc;ncia, do sofrimento e da dor humanos, atrav&eacute;s de algumas    das dimens&otilde;es humanas mais expostas &agrave; facticidade do mesmo mal.    A quest&atilde;o do mal &eacute; a base fundamental da concep&ccedil;&atilde;o    antropol&oacute;gica de Ricoeur. Por isso, os aspectos desenvolvidos por Tavares    incidem sobre a interpreta&ccedil;&atilde;o dos s&iacute;mbolos da cultura humana    e sobre a an&aacute;lise do problema pol&iacute;tico, procurando encontrar neles    as ra&iacute;zes mais profundas e as manifesta&ccedil;&otilde;es objectivas    do mal. Os acontecimentos tr&aacute;gicos, relativamente recentes, da hist&oacute;ria    da humanidade, a incerteza cada vez mais certa em rela&ccedil;&atilde;o ao futuro,    assim como as preocupa&ccedil;&otilde;es humanas relativas aos graves problemas    da contemporaneidade que afectam a humanidade, p&otilde;em em relevo a necessidade    urgente de repensar os regimes democr&aacute;ticos, no sentido de um aprofundamento    reflexivo, tendo em vista a mais ampla participa&ccedil;&atilde;o dos cidad&atilde;os    na vida pol&iacute;tica e o controlo democr&aacute;tico do poder pol&iacute;tico.    Ao n&iacute;vel da Educa&ccedil;&atilde;o e do ensino, o pensamento de Ricoeur    aponta, inegavelmente, para uma pedagogia da n&atilde;o-viol&ecirc;ncia e para    um projecto de esperan&ccedil;a intempestiva. Finalmente, tamb&eacute;m com    a fundamenta&ccedil;&atilde;o que a obra de Ricouer permite, discute-se a quest&atilde;o    da mem&oacute;ria, da hist&oacute;ria e do esquecimento. </P >     <P    >Na sec&ccedil;&atilde;o <i>Testemunhos</i>, tamb&eacute;m inaugurada neste    n&uacute;mero, recolhe-se a vers&atilde;o escrita de uma confer&ecirc;ncia realizada    por Mariette Bolina, uma professora portuguesa que coordenou o curso de forma&ccedil;&atilde;o    de professores de Portugu&ecirc;s na Universidade Nacional de Timor Leste, entre    2001 e 2004. A autora come&ccedil;a por realizar um abrangente retrato de Timor,    focando, sobretudo, aspectos da sua Geografia e Povo, Hist&oacute;ria e Cultura,    Religi&atilde;o e L&iacute;ngua. Num segundo momento, apresenta algumas das    linhas do Projecto Educativo de Timor Leste, nomeadamente as que se relacionam    mais directamente com a institui&ccedil;&atilde;o da L&iacute;ngua Portuguesa    como l&iacute;ngua de uso &agrave; escala nacional e, portanto a l&iacute;ngua    de instru&ccedil;&atilde;o no sistema educativo. Por &uacute;ltimo, apresenta    a complexa situa&ccedil;&atilde;o do actual contexto lingu&iacute;stico e educativo    e dos seus antecedentes, destacando algumas das iniciativas que n&atilde;o s&oacute;    contribuem para o global desenvolvimento de Timor, mas que, sobretudo, promovem    uma maior qualidade do ensino em geral e, muito especialmente, do ensino/aprendizagem    da l&iacute;ngua portuguesa. Como afirma a autora, o &ldquo;des&iacute;gnio    nacional de substituir a l&iacute;ngua indon&eacute;sia pela l&iacute;ngua portuguesa    em todo o sistema educativo at&eacute; 2010/2011, e, portanto, estender o uso    desta l&iacute;ngua a todo o Territ&oacute;rio, representa um gigantesco desafio    para o povo de Timor&rdquo;. Um desafio em que o povo de Timor tem o principal    papel, mas onde os pa&iacute;ses lus&oacute;fonos tamb&eacute;m t&ecirc;m uma    particular responsabilidade na reconstru&ccedil;&atilde;o desse pa&iacute;s    que deseja ter o Portugu&ecirc;s como a sua l&iacute;ngua identit&aacute;ria.  </P >     <P    >A sec&ccedil;&atilde;o <i>Recens&atilde;o cr&iacute;tica</i> apresenta o olhar    de Jos&eacute; B. Duarte sobre dois livros publicados em l&iacute;ngua francesa,    ambos em 2004. O primeiro, analisa o livro do fil&oacute;sofo Bruno Latour,    <i>Politiques de la nature. Comment faire entrer les sciences en d&eacute;mocratie;</i>    o segundo, a obra do educador Phillippe Meirieu, <i>Faire l'&eacute;cole, faire    la classe</i>. </P >     <P    >Por &uacute;ltimo, duas das j&aacute; habituais sec&ccedil;&otilde;es da Revista.    Em <i>Not&iacute;cias</i>, apresentam-se breves refer&ecirc;ncias &agrave;    participa&ccedil;&atilde;o de investigadores do Observat&oacute;rio de Pol&iacute;ticas    de Educa&ccedil;&atilde;o e de Contextos Educativos em congressos e semin&aacute;rios    cient&iacute;ficos. Em <i>Disserta&ccedil;&otilde;es</i>, apresentam-se os    resumos das disserta&ccedil;&otilde;es defendidas entre Janeiro e Julho de 2005    no &acirc;mbito do mestrado em Ci&ecirc;ncias da Educa&ccedil;&atilde;o da Universidade    Lus&oacute;fona de Humanidades e Tecnologias. </P >     <P    >&nbsp; </P >     <P    > <i>Recife, Setembro de 2005 </i> </P >     <P    > <b>Ant&oacute;nio Teodoro </b></P >     <P    > </P >     ]]></body>
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