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<article-title xml:lang="pt"><![CDATA[A Crítica de Alguns Cientistas à Pedagogia Actual e a Minha Contestação, Algo Compreensiva…]]></article-title>
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</front><body><![CDATA[ <P    ><b>A Cr&iacute;tica de Alguns Cientistas &agrave; Pedagogia Actual e a Minha    Contesta&ccedil;&atilde;o, Algo Compreensiva&hellip;</b></P >      <P   >Jos&eacute; B. Duarte <a href="#1">*</a> <a name="top1"></a></P >     <P   >Que os s&aacute;bios de primeira ordem encontrem nas cortes (dos reis) honor&aacute;veis    asilos. Que obtenham a recompensa digna deles, a de contribuir para o bem dos    Povos a quem ter&atilde;o ensinado a sabedoria. &Eacute; ent&atilde;o que se    ver&aacute; o que podem a virtude,aci&ecirc;nciaea autoridade animadas porumanobre    emula&ccedil;&atilde;oetrabalhando em concerto para a felicidade do G&eacute;nero    humano&rdquo;</P >     <P align="right"   >Rousseau (1964, p.30) </P >     <P align="right"   >&nbsp;</P >     <P    ><b>Dois f&iacute;sicos atra&iacute;dos por um soci&oacute;logo&hellip;</b>  </P >     <P    >Come&ccedil;o por manifestar d&uacute;vidas quanto &agrave; interpreta&ccedil;&atilde;o    de Rousseau proposta por Santos numa frase, ali&aacute;s central nas sucessivas    obras deste autor, e que tem sido usada por v&aacute;rios autores como argumento    contra a pedagogia portuguesa actual (que, todavia, precisar&aacute; de reorientar    a sua investiga&ccedil;&atilde;o, como veremos).Vejamos a frase de Santos: </P >     <P    >H&aacute; alguma raz&atilde;o de peso para substituirmos o conhecimento vulgar    que temos da natureza e da vida que partilhamos com os homens e mulheres da    nossa sociedade pelo conhecimento cient&iacute;&#64257;co produzido por poucos    e inacess&iacute;vel &agrave; maioria? Pergunta simples, a que Rousseau responde,    de modo igualmente simples, com um redondo n&atilde;o. (1995, p7) </P >     <P    >Evidentemente, os textos de Rousseau, com uma linguagem repetitiva, enf&aacute;tica    para leitores actuais e frequentemente amb&iacute;gua, devem ser interpretados    tendo em conta o contexto cultural e pol&iacute;tico do s&eacute;culo XVIII    e a g&eacute;nese das obras do autor, de que o <I>Dis</I><I>curso sobre as Ci&ecirc;ncias    e as Artes </I>&eacute; a primeira, publicada em 1750. Assim, se compararmos    a frase de Santos com as palavras de Rousseau em ep&iacute;grafe, &agrave; luz    de outras obras, designadamente de <I>O Contrato Social</I>, publicada em 1762,    e se tivermos em conta que a quest&atilde;o da desigualdade social &eacute;    a ideia-for&ccedil;a do pensamento de Rousseau, seremos inclinados a pensar    que a sua desconfian&ccedil;a em rela&ccedil;&atilde;o &agrave;s ci&ecirc;ncias    e &agrave;s artes, no <I>Discurso sobre as Ci&ecirc;ncias e as Artes</I>, ser&aacute;    consequ&ecirc;ncia da ideia de que s&oacute; essa desigualdade propicia a alguns    a ociosidade que permite praticar as ci&ecirc;ncias e as artes e us&aacute;-las    como motivo de vaidade. </P >     <P    >Ali&aacute;s, &eacute; sobretudo contra as artes e o luxo que estas permitem    aos poderosos, que Rousseau se insurge. Quanto ao uso que se faz das ci&ecirc;ncias,    a sua diatribe &eacute; mais discreta, e n&atilde;o surpreende que no final    desse discurso elogie s&aacute;bios como Bacon, Descartes e Newton e pe&ccedil;a    aos reis (frase em ep&iacute;grafe a este texto) que ou&ccedil;am os seus conselhos,    para que &ldquo;a virtude, a ci&ecirc;ncia e a autoridade animadas por uma nobre    emula&ccedil;&atilde;o&rdquo; trabalhem em conjunto para a felicidade do g&eacute;nero    humano. </P >     ]]></body>
<body><![CDATA[<P    >Assim, se Rousseau diz &ldquo;n&atilde;o&rdquo; &agrave; pergunta da Academia    de Dijon sobre &ldquo;se o estabelecimento das ci&ecirc;ncias e as artes contribuiu    para purificar os costumes&rdquo;, esse &ldquo;n&atilde;o&rdquo; advir&aacute;    do uso que as classes dirigentes t&ecirc;m feito desses recursos para seu proveito,    n&atilde;o promovendo a &ldquo;virtude&rdquo;, conceito que em Rousseau &eacute;    essencialmente de fundo laico, pois tem de ser compreendido &agrave; luz de    uma proposta de uma sociedade democr&aacute;tica e igualit&aacute;ria, cerne    de toda a sua obra. Detendo-nos no conceito de ci&ecirc;ncia, aquela desconfian&ccedil;a    de Rousseau acerca do uso das ci&ecirc;ncias parece assim dever ser separada    da sua perspectiva sobre a ci&ecirc;ncia como investiga&ccedil;&atilde;o (ao    mencionar Bacon, Descartes, Newton) e como contribui&ccedil;&atilde;o, aliada    &agrave; virtude democratizadora e a um bom Governo, para bem da Humanidade.    O &ldquo;n&atilde;o&rdquo; de Rousseau n&atilde;o parece assim t&atilde;o &ldquo;redondo&rdquo;,    como Santos acima prop&otilde;e, &eacute; at&eacute; um &ldquo;sim&rdquo; em    termos da mudan&ccedil;a radical proposta para a sociedade que toda a sua obra    almeja. </P >     <P    >Ora, baseando-se naquela frase de Santos, Baptista (2002) conclui que, para Rousseau,    &ldquo;a ci&ecirc;ncia corrompe a moralidade e tudo na vida&rdquo; (p.4). E    depois continua. &ldquo;Teria que comprov&aacute;-lo, o que n&atilde;o fez.    Os seus <I>filhos </I>receberam essa heran&ccedil;a e devem faz&ecirc;-lo&rdquo;    (it&aacute;lico meu, e a esse tema voltarei). Deus (2003), ali&aacute;s numa    obra de interessante reflex&atilde;o sobre os equ&iacute;vocos do p&oacute;s-modernismo,    retoma tamb&eacute;m aquela frase de Santos para concluir que &ldquo;n&atilde;o    tem d&uacute;vidas&rdquo; de que o conhecimento cient&iacute;fico &eacute; superior    ao conhecimento vulgar (por exemplo, as pessoas &ldquo;deixaram de ir ao barbeiro    e passaram a ir ao dentista&rdquo;, etc) e, logo, &ldquo;Rousseau est&aacute;    errado&rdquo;. Mas Rousseau, que vitupera a vaidade e a explora&ccedil;&atilde;o    que os poderosos fazem com o uso da ci&ecirc;ncia, n&atilde;o estar&aacute;    basicamente de acordo com a op&ccedil;&atilde;o por uma ci&ecirc;ncia aut&ecirc;ntica    que promova a sabedoria dos povos? </P >     <P    >&nbsp;</P >     <P    ><b>Musa inspiradora de cientistas e outros&hellip;</b> </P >     <P    >M&oacute;nica (1997) tem sido inspira&ccedil;&atilde;o para um coro afinad&iacute;ssimo    de coment&aacute;rios nos <I>me</I><I>dia</I>, num desenvolvimento e exacerbamento    tem&aacute;tico que lembram as academias barrocas do s&eacute;culo XVII, pois    at&eacute; surpreende que alguns desses comentadores, com forma&ccedil;&atilde;o    cient&iacute;fica, n&atilde;o evoquem as obras originais de Rousseau, mas as    frases daquela autora, como se de inspiradora musa se tratasse. Ali&aacute;s,    como vimos, outros autores, sobre Rousseau, citam frases de Santos, e, embora    este se situe numa vis&atilde;o intencionalmente diferente da de M&oacute;nica,    verific&aacute;mos como &eacute; causador de semelhantes efeitos de enviesamento    quanto ao pensamento do autor oitocentista. Por outro lado, parece desmesurado    o apego a Rousseau, tanto por parte dos cr&iacute;ticos das ci&ecirc;ncias da    educa&ccedil;&atilde;o como dos seus especialistas, se pensarmos que a obra    de Rousseau tem duzentos e cinquenta anos e depois dele apareceram pedagogos    como Dewey ou Freinet, muito mais pr&oacute;ximos da cultura actual. </P >     <P    >Mas vejamos como M&oacute;nica influencia al</B>guns comentadores da nossa pra&ccedil;a.    A autora declara: </P >     <P    >J&aacute; que os homens n&atilde;o se podiam manter selvaticamente bons, entre    as &#64258;orestas primitivas,competia &agrave; Escola conduzi-los at&eacute;    si mesmos.Ora quem melhor do que os professores para os encaminhar at&eacute;    &aacute; Luz? Rousseau introduziu a ideia de que a crian&ccedil;a &eacute; um    bot&atilde;o de rosa. Ao professor competia estrumar a alma juvenil. Foi assim    que a Pedagogia substituiu o Saber (1997, p. 68). </P >     <P    >Na divulga&ccedil;&atilde;o hist&oacute;rico-cultural tornou-se conhecida a ideia    do &ldquo;bom selvagem&rdquo; como categoria tem&aacute;tica importante em Rousseau.    Ora, essa categoria dever&aacute; ser cotejada com outras linhas de for&ccedil;a    das obras do autor, mesmo na obra <I>Em&iacute;lio ou da Educa&ccedil;&atilde;o    </I>que cito a partir da vers&atilde;o francesa: &ldquo;O homem natural &eacute;    todo para ele-pr&oacute;prio; &eacute; a unidade num&eacute;rica, o inteiro    absoluto&rdquo; (1966, p. 39). Linhas depois: &ldquo;O homem civil n&atilde;o    &eacute; sen&atilde;o uma unidade fraccion&aacute;ria (&hellip;) cujo valor    est&aacute; na rela&ccedil;&atilde;o com o inteiro, que &eacute; o corpo social&rdquo;.    Por isso, em <I>O Contrato Social</I>,o autor afirma que &ldquo;aquele que ousa    lan&ccedil;ar-se na empresa de instruir um povo deve sentir-se em condi&ccedil;&otilde;es    de poder mudar, por assim dizer, a natureza humana&rdquo; (1981, p. 44). </P >     <P    >Mas, como pretende M&oacute;nica acima, Rousseau teria substitu&iacute;do o saber    pela pedagogia e esse exemplo &eacute; seguido pelos seus &ldquo;filhos&rdquo;?    Para come&ccedil;ar a responder a essa objurgat&oacute;ria, evoquemos a li&ccedil;&atilde;o    sobre o curso do Sol e a orienta&ccedil;&atilde;o que isso permite, no livro    terceiro de <I>Em&iacute;lio</I>, com que Rousseau ilustra o tipo de pedagogia    que prop&otilde;e. Quando o estudante lhe pergunta para que serve (1966, p.    232), a tenta&ccedil;&atilde;o do mestre &eacute; falar-lhe da utilidade das    viagens e do com&eacute;rcio, das produ&ccedil;&otilde;es de cada clima. Todavia,    prefere, no dia seguinte, levar o disc&iacute;pulo a passear e a fazer com que    a aldeia fique escondida pelo arvoredo e, nessa situa&ccedil;&atilde;o, face    &agrave; ideia de que est&atilde;o perdidos e apertado pela fome, pois &eacute;    hora de almo&ccedil;o, Em&iacute;lio aplica a teoria dos pontos cardeais e descobre    o caminho de regresso. </P >     <P    >&Eacute; uma situa&ccedil;&atilde;o simplista, dir-se-&aacute;, mas n&atilde;o    esque&ccedil;amos que Rousseau escreve em 1762 e pretende atacar o ensino baseado    na autoridade e no verbalismo que sobrecarregue a mem&oacute;ria do aluno de    modo a que &ldquo;nada da&iacute; tire que seja seu&rdquo;, impedindo-o de &ldquo;usar    a sua raz&atilde;o e n&atilde;o a de outro&quot;. Por isso conclui o terceiro    livro de <I>Emile</I>, (parte que aqui sigo mais de perto) com palavras que    mostram a fun&ccedil;&atilde;o formativa, n&atilde;o-enciclop&eacute;dica, dos    saberes, na educa&ccedil;&atilde;o: &ldquo;eu mostro-lhe (ao educando) o caminho    da ci&ecirc;ncia (&hellip;) mas sem o deixar ir demasiado longe nesse caminho&rdquo;    (p. 270). </P >     ]]></body>
<body><![CDATA[<P    >Para &ldquo;mostrar o caminho da ci&ecirc;ncia&rdquo;, isto &eacute;, criar apet&ecirc;ncia    pela pesquisa e autonomia na procura do saber, Rousseau prop&otilde;e uma metodologia    de base experimental que leve o educando a reflectir sobre ideias de instrumentos:  </P >     <P    >Captam-se no&ccedil;&otilde;es bem mais claras e bem mais seguras com as coisas    que se aprendem por si-mesmo, que com aquelas que se apanham dos ensinamentos    de outrem; e, al&eacute;m de que n&atilde;o se acostuma a raz&atilde;o a submeter-se    servilmente &agrave; autoridade, ganha-se mais destreza em encontrar rela&ccedil;&otilde;es,    em ligar ideias, em inventar instrumentos, que quando, adoptando tudo aquilo    que se nos d&aacute;, deixamos enfraquecer o nosso esp&iacute;rito pela indol&ecirc;ncia    (1966, p. 227). </P >     <P    >Com essa perspectiva experimental, Rousseau articula at&eacute; uma inven&ccedil;&atilde;o    de instrumentos, como vimos e como sugere para a primeira li&ccedil;&atilde;o    de Est&aacute;tica, em que, em vez de mostrar uma balan&ccedil;a, far&aacute;    colocar um pau sobre o encosto de uma cadeira, procurando o equil&iacute;brio    (p. 226). O experimentalismo assenta, assim, em propostas muito claras e pr&oacute;ximas    da sensibilidade do educando:&ldquo;Todas as no&ccedil;&otilde;es de est&aacute;tica    e hidrost&aacute;tica se podem adquirir por experi&ecirc;ncias simples&rdquo;    e exemplifica com um copo virado dentro de &aacute;gua e que a&iacute; se n&atilde;o    enche rapidamente, mostrando a resist&ecirc;ncia do ar, ou um bal&atilde;o,    que, cheio de ar, salta mais. Na banheira, um bra&ccedil;o sa&iacute;do da &aacute;gua    sente o peso do ar. Em conclus&atilde;o, &ldquo;pondo o ar em equil&iacute;brio    com outros fluidos, pode medir-se o seu peso: da&iacute; o bar&oacute;metro,    o sif&atilde;o, a m&aacute;quina pneum&aacute;tica&rdquo; ( p. 227). </P >     <P    >Embora numa formula&ccedil;&atilde;o pr&oacute;pria da &eacute;poca, como se    v&ecirc;, mas ao contr&aacute;rio da afirma&ccedil;&atilde;o de M&oacute;nica,    Rousseau considera que ensinar se faz com conte&uacute;dos que desenvolvem <I>saber    </I>no aluno, mas que esse saber se adquire melhor com um <I>m&eacute;todo pedag&oacute;gico    </I>que motive e envolva o aluno em actividades de descoberta e n&atilde;o pela    mera verbalidade e memoriza&ccedil;&atilde;o. </P >     <P    >&Eacute; evidente que, em termos actuais, se o m&eacute;todo de descoberta ou    de pesquisa, no rasto de Rousseau, mas tamb&eacute;m de Dewey e Freinet, &eacute;    hoje apresentado como m&eacute;todo interessante para desenvolver a autonomia    do estudante, a pedagogia n&atilde;o o julga exclusivo. Assim, para Astolfi    (1995), o que torna ineficaz o modelo verbal-transmissivo n&atilde;o &eacute;    a sua natureza mas a sua <I>exclu</I><I>sividade </I>(p.130). Se em certos momentos    do ano escolar, os alunos podem, gra&ccedil;as ao modelo construtivista, &ldquo;viver    a experi&ecirc;ncia da maneira como se elabora, se transforma e se enriquece    o seu saber&rdquo;, isso dar&aacute; mais sentido a outros momentos, inclusive    transmissivos, em que este saber &eacute; apresentado de &ldquo;forma acabada&rdquo;.    E o autor prop&otilde;e uma hierarquiza&ccedil;&atilde;o dos pontos-chave da    aprendizagem anual de uma disciplina, em que &eacute; preciso investir mais    tempo, mas tal permite ganhar tempo, apresentando depois outros pontos menos    importantes mais rapidamente do que vulgarmente se faz. </P >     <P    >&nbsp;</P >     <P    ><b>Alguma compreens&atilde;o para com as diatribes&hellip;</b> </P >     <P    >Resta-me acrescentar que, apesar das considera&ccedil;&otilde;es anteriores,    compreendo de certo modo as diatribes com que alguns cientistas (e <I>tutti    quanti</I>&hellip;) t&ecirc;m incensado a animosidade e omnisci&ecirc;ncia de    M&oacute;nica. As ci&ecirc;ncias da educa&ccedil;&atilde;o constitu&iacute;ram-se    h&aacute; umas tr&ecirc;s d&eacute;cadas, mais precisamente em Fran&ccedil;a,    em 1967 (Mialaret, 1979, p. 3), numa procura de fundamentos cient&iacute;ficos    para a educa&ccedil;&atilde;o e na conjuga&ccedil;&atilde;o de tr&ecirc;s agrupamentos    de disciplinas: ci&ecirc;ncias que estudam as condi&ccedil;&otilde;es gerais    e locais da educa&ccedil;&atilde;o (hist&oacute;ria, sociologia, demografia,    educa&ccedil;&atilde;o comparada); ci&ecirc;ncias que estudam a rela&ccedil;&atilde;o    pedag&oacute;gica (psicologia, did&aacute;ctica, m&eacute;todos e t&eacute;cnicas,    avalia&ccedil;&atilde;o); ci&ecirc;ncias de reflex&atilde;o e evolu&ccedil;&atilde;o    (filosofia, planifica&ccedil;&atilde;o e teoria dos modelos). Destes tr&ecirc;s    agrupamentos, parece-me que, entre n&oacute;s, &eacute; sobretudo o primeiro    que tem tido mais investiga&ccedil;&atilde;o, devido &agrave; divulga&ccedil;&atilde;o    de metodologias e &agrave; melhor acessibilidade de dados e at&eacute; ao prest&iacute;gio    dos investigadores envolvidos, pois o segundo e o terceiro agrupamento de disciplinas    implicam metodologias menos divulgadas e relacionadas com a necessidade de observa&ccedil;&atilde;o.  </P >     <P    >O que &eacute; que tem faltado para que essas disciplinas cumpram o objectivo    de proporcionar a docentes e dirigentes os fundamentos cient&iacute;ficos da    educa&ccedil;&atilde;o? Na minha perspectiva, algum caminho tem sido feito,    embora no meio de um verbalismo e idealismo que faz pensar estarem as ci&ecirc;ncias    da educa&ccedil;&atilde;o ainda no segundo est&aacute;dio de Comte, pois que,    se muitos conceitos divulgados pelas ci&ecirc;ncias da educa&ccedil;&atilde;o    podem constituir apoios te&oacute;ricos de que os docentes podem lan&ccedil;ar    m&atilde;o na procura de solu&ccedil;&otilde;es para os problemas da aprendizagem,    tem sobretudo faltado investiga&ccedil;&atilde;o que confirme ou corrija esses    conceitos. </P >     <P    >Essa credibilidade pode ser fatal para o futuro de uma pedagogia que aspira a    ter bases cient&iacute;ficas. N&atilde;o surpreende, por isso, que Magalh&atilde;es    e St&ouml;er (1997, p. 22) sublinhem que as propostas das ci&ecirc;ncias da    educa&ccedil;&atilde;o n&atilde;o penetraram ainda suficientemente no sistema,    e o que delas mais se conhece s&atilde;o os seus &ldquo;recursos ret&oacute;ricos    ao dispor de pol&iacute;ticos, decisores e at&eacute; bem intencionados reformadores    pedag&oacute;gicos&rdquo;. Sobre uma outra falha do estado actual das ci&ecirc;ncias    da educa&ccedil;&atilde;o, evoco de novo Mialaret ao enunciar a necessidade    de uma &ldquo;colabora&ccedil;&atilde;o de especialistas das diferentes disciplinas    naquilo que chamamos pluridisciplinaridade externa&rdquo; (1979, p.    89). E exemplifica: &ldquo;a pedagogia da geografia n&atilde;o pode ser ensinada    sem a colabora&ccedil;&atilde;o do ge&oacute;grafo que, s&oacute; ele, sabe    qual &eacute; o estado actual da ci&ecirc;ncia de que &eacute; especialista&rdquo;.  </P >     ]]></body>
<body><![CDATA[<P    >A tend&ecirc;ncia de alguma da investiga&ccedil;&atilde;o portuguesa sobre educa&ccedil;&atilde;o    em descurar a colabora&ccedil;&atilde;o com os saberes disciplinares provoca    um efeito de fechamento teoricista sobre conceitos espec&iacute;ficos das ci&ecirc;ncias    da educa&ccedil;&atilde;o, com consequ&ecirc;ncias nefastas em termos de credibilidade    e aplicabilidade. Falta assim, entre n&oacute;s, como j&aacute; disse, uma investiga&ccedil;&atilde;o    que procure, pela observa&ccedil;&atilde;o directa ou indirecta, confirmar ou    refutar muitos conceitos te&oacute;ricos divulgados entre n&oacute;s. Entre    eles incluem-se alguns com que t&ecirc;m ironizado, nos <I>media</I>, alguns    comentadores, entre eles Fiolhais (cujo trabalho como divulgador de f&iacute;sica    admiro). Por exemplo, conceitos como os relacionados com uma pedagogia diferenciada    que, com fins igualit&aacute;rios, procure promover um m&iacute;nimo de aptid&otilde;es    para todos, mas sem prejudicar os melhores e, por isso, servindo-se de uma din&acirc;mica    de grupos e envolvendo obviamente os docentes numa prepara&ccedil;&atilde;o    e interven&ccedil;&atilde;o na progress&atilde;o das aprendizagens. </P >     <P    >Da&iacute; a minha simpatia para com certos conceitos (embora desejando o incremento    da pesquisa sobre eles), entre os quais est&atilde;o alguns que Fiolhais vitupera,    tais como &ldquo;diferen&ccedil;as individuais dos alunos&rdquo;, &ldquo;estilos    individuais de aprendizagem&rdquo;, &ldquo;aprendizagem cooperativa&rdquo;,    &ldquo;aprendizagem por descoberta&rdquo;. Totalmente de acordo Fiolhais, algum    verbalismo actual leva a disparates como &ldquo;antipatia ao ensino de conte&uacute;dos    ou compreens&atilde;o&rdquo; (mesmo que Fiolhais os cite de um autor estrangeiro...).    Mas, como vimos acima, Rousseau enunciou a validade dos conte&uacute;dos do    saber, na perspectiva dos conhecimentos da sua &eacute;poca. E n&atilde;o me    parece muito diferente da de Rousseau a proposta de Ribeiro Sanches, mencionada    por Fiolhais com base na qual procura fundamentar a oposi&ccedil;&atilde;o de    Sanches a Rousseau: </P >     <P    >&Eacute; necess&aacute;rio exercitarem-se as m&atilde;os e os olhos na investiga&ccedil;&atilde;o    das partes do corpo humano, tanto como na leitura que trata das mesmas partes:    este estudo obriga o m&eacute;dico a observar, a trabalhar, e a indagar; e &eacute;    o mais poderoso para adquirir aquele g&eacute;nio filos&oacute;fico t&atilde;o    necess&aacute;rio nesta ci&ecirc;ncia. </P >     <P    >&nbsp;</P >     <P    >Pergunta a Fiolhais, M&oacute;nica e outros: </P >     <P    >&ndash; Esta proposta &eacute; muito diferente da acima retirada da p. 232 do    <I>Emile</I>? </P >     <P    >&nbsp;</P >     <P    >&nbsp;</P >     <P    ><b>Refer&ecirc;ncias Bibliogr&aacute;&#64257;cas </b></P >     <P    >Astol&#64257;, J.P. (1995). <I>Une &eacute;cole pour apprendre</I>. Paris: ESF.  </P >     ]]></body>
<body><![CDATA[<P    >Baptista,A.M. (2002). <I>O Discurso P&oacute;s-Moderno Contra a Ci&ecirc;ncia.    Obscurantismo e Irresponsabilidade. </I>Lisboa: Gradiva </P >     <P    >Magalh&atilde;es, A. e St&ouml;er, St. (1997). <I>Orgulhosamente Fi</I><I>lhos    de Rousseau</I>. Porto: Profedi&ccedil;&otilde;es. </P >     <P    >Mialaret,G.(1979). <I>Les sciences de l&rsquo;&eacute;ducation</I>. Paris : PUF </P >     <P    >M&oacute;nica,M.F.(1997). <I>Os Filhos de Rousseau</I>. <I>Ensaios sobre</I><I>    os Exames</I>. Lisboa: Rel&oacute;gio d&rsquo;&Aacute;gua </P >     <P    >Santos, B.S. (1995). <I>Um Discurso sobre as Ci&ecirc;ncias</I>. Porto:Afrontamento. </P >    <P    >Rousseau, J.J. (1964) Discours sur les sciences et les arts, <I>&OElig;uvres Compl&egrave;tes</I>, vol.III. Paris : Gallimard </P >     <P    >Rousseau, J.J. (1981). <I>O contrato social</I>. Lisboa: Europa-Am&eacute;rica.  </P >     <P    >&nbsp;</P >     <P    ><b>Nota<a href="#top1">*</a></b> <a name="1"></a>*Professor Associado    da Universidade Lus&oacute;fona de Humanidades e Tecnologias. Correspond&ecirc;ncia:    <a href="mailto:j.b.duarte@netcabo.pt">j.b.duarte@netcabo.pt</a> </P >      ]]></body>
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