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</front><body><![CDATA[ <p><b>Em torno de um novo paradigma s&oacute;cio-epistemol&oacute;gico</b></p>     <p><I>Manuel Tavares conversa com Boaventura de Sousa Santos</I></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p>Boaventura de Sousa Santos, Doutorado em Sociologia do Direito pela Uni</B>versidade de Yale (1973), &eacute; Professor Catedr&aacute;tico da Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra, <I>Distinguished Legal Scholar</I> da Universidade de Wisconsin-Madison e <I>Global Legal Scholar</I> da Universidade de Warwick.</p>    <p>&Eacute; Director do Centro de Estudos Sociais da Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra,  Director do Centro de Documenta&ccedil;&atilde;o 25 de Abril da Universidade de Coimbra e Director da <I>Revista Cr&iacute;tica de Ci&ecirc;ncia Sociais</I>.</p>    <p>Pr&eacute;mio de Ensaio Pen Club Portugu&ecirc;s 1994; Pr&eacute;mio Gulbenkian de Ci&ecirc;ncia, 1996; Pr&eacute;mio Bordalo da Imprensa &ndash; Ci&ecirc;ncias, 1997; Pr&eacute;mio Jabuti (Brasil) - &Aacute;rea de Ci&ecirc;ncias Humanas e Educa&ccedil;&atilde;o, 2001; Pr&eacute;mio Euclides da Cunha da Uni&atilde;o Brasileira de Escritores do Rio de Janeiro, 2004; Pr&eacute;mio &ldquo;Reconocimiento al M&eacute;rito&rdquo;, concedido pela Universidade Veracruzana, M&eacute;xico, 2005; Pr&eacute;mio de Ensaio Ezequiel Mart&iacute;nez Estrada 2006, da Casa de las Am&eacute;ricas, Cuba, 2006.</p>    <p>Os seus temas de pesquisa situam-se no &acirc;mbito da epistemologia, sociologia do direito, teoria p&oacute;s-colonial, democracia, interculturalidade, globaliza&ccedil;&atilde;o, movimentos sociais, direitos humanos. </p>     <p>Na entrevista concedida &agrave; <I>Revista Lus&oacute;fona de Educa&ccedil;&atilde;o</I>    aborda, sobretudo, os temas relacionados com a constru&ccedil;&atilde;o de um    novo paradigma s&oacute;cio-epistemol&oacute;gico, 25 anos depois da publica&ccedil;&atilde;o    da obra emblem&aacute;tica <I>Um Discurso sobre as Ci&ecirc;ncias</I>.</p>     <p>&nbsp;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>     <p><B>Manuel Tavares</B>: <I>H&aacute; cerca de vinte anos, em </I>Um Discurso sobre as Ci&ecirc;ncias<I>, fazia uma an&aacute;lise l&uacute;cida e arrojada do paradigma cient&iacute;fico dominante. Para al&eacute;m da cr&iacute;tica a esse modelo redutor e excludente de racionalidade, avan&ccedil;ava para uma concep&ccedil;&atilde;o, ainda que especulativa, de um novo modelo de racionalidade, mais hol&iacute;stico, inter e transdisciplinar.</I></p>    <p><I>Ao paradigma emergente, para o qual apontou sinais, chamou paradigma p&oacute;s-moderno.</I></p>    <p><I>Que altera&ccedil;&otilde;es epistemol&oacute;gicas se produziram no movimento cient&iacute;fico, ao longo destes 20 anos, que permitam afirmar que o novo paradigma j&aacute; n&atilde;o &eacute; uma mera especula&ccedil;&atilde;o, mas que est&aacute; em vias de consolida&ccedil;&atilde;o?</I></p>    <p><B>Boaventura de Sousa Santos</B>: A designa&ccedil;&atilde;o &ldquo;paradigma p&oacute;s-moderno&rdquo; n&atilde;o &eacute; talvez muito feliz pelas confus&otilde;es que gera e por isso decidi abandon&aacute;-la. Estou a preparar o <I>Segundo Discurso Sobre as Ci&ecirc;ncias </I>e a&iacute; proporei uma outra designa&ccedil;&atilde;o. A minha concep&ccedil;&atilde;o de um tal paradigma tem pouco a ver com a concep&ccedil;&atilde;o mais corrente (tanto francesa como norte-americana). Enquanto esta parte da ideia de que os problemas epistemol&oacute;gicos modernos (verdade ou verdades; representa&ccedil;&atilde;o ou constru&ccedil;&atilde;o; objectividade ou subjectividade; autonomia do saber ou determina&ccedil;&atilde;o social; racionalidade ou irracionalidade; etc) deixaram de ter consist&ecirc;ncia, import&acirc;ncia ou mesmo validade, eu parto da ideia de que tais problemas continuam v&aacute;lidos e importantes, s&oacute; que as solu&ccedil;&otilde;es modernas para eles n&atilde;o nos servem. Da&iacute; que, em textos posteriores, tenha chamado &agrave; minha concep&ccedil;&atilde;o &ldquo;paradigma p&oacute;s-moderno de oposi&ccedil;&atilde;o&rdquo;. Acontece que, dada a hegemonia da posi&ccedil;&atilde;o convencional, n&atilde;o consegui que esta designa&ccedil;&atilde;o se impusesse. E, sendo assim, &eacute; melhor abandon&aacute;-la. Acresce que o p&oacute;s-modernismo &eacute; hoje uma designa&ccedil;&atilde;o usada para caracterizar uma enorme diversidade de temas, da epistemologia &agrave; pol&iacute;tica, &agrave; cultura e &agrave; arte e, portanto, confunde mais do que esclarece. A prova disto mesmo &eacute; o facto de a cr&iacute;tica ao p&oacute;s-modernismo vir tanto dos sectores da direita conservadora como dos sectores marxistas mais ortodoxos. </p>    <p>As mudan&ccedil;as no paradigma dominante s&atilde;o mais evidentes que a emerg&ecirc;ncia de um novo paradigma. &Eacute; poss&iacute;vel que isto aconte&ccedil;a em todas as transi&ccedil;&otilde;es. Vemos melhor o que vai mudando no que est&aacute; do que o que de novo vai emergindo nos interst&iacute;cios das mudan&ccedil;as do que est&aacute;. Ou seja, a novidade na mudan&ccedil;a nem sempre &eacute; novidade da mudan&ccedil;a, e os sinais num ou noutro sentido s&atilde;o equ&iacute;vocos. Por outro lado, pode ser que o paradigma emergente seja, de facto, um conjunto de paradigmas, ou seja, a coexist&ecirc;ncia de uma pluralidade de epistemologias irredut&iacute;veis a uma epistemologia geral.</p>     <p> Tendo isto presente, penso que as mudan&ccedil;as principais nos &uacute;ltimos    vinte anos foram as seguintes. Primeiro, o discurso epistemol&oacute;gico deslocou-se    da f&iacute;sica para as ci&ecirc;ncias da vida, sobretudo para a gen&eacute;tica,    e com isso surgiram novos problemas: a rela&ccedil;&atilde;o entre gen&eacute;tica,    biologia da evolu&ccedil;&atilde;o e biologia do desenvolvimento; os fen&oacute;menos    biol&oacute;gicos entre a linguagem f&iacute;sico-qu&iacute;mica da vida e a    linguagem da informa&ccedil;&atilde;o; os problemas &eacute;ticos da investiga&ccedil;&atilde;o    gen&eacute;tica &agrave; regula&ccedil;&atilde;o desta; a rela&ccedil;&atilde;o    entre a ind&uacute;stria da biotecnologia e a investiga&ccedil;&atilde;o cient&iacute;fica;    o patenteamento de formas de vida ou de processos ligados &agrave; vida. Segundo,    estes desenvolvimentos deram origem a novas fracturas entre paradigmas reducionistas    e paradigmas da complexidade, das quais emergiram novas quest&otilde;es no seguimento    das que eu tinha identificado em <I>Um Discurso</I>: o conhecimento como resultado    de processos locais e, portanto, situado e contextualizado; valoriza&ccedil;&atilde;o    epistemol&oacute;gica do pragmatismo. Terceiro, tamb&eacute;m confirmando as    minhas orienta&ccedil;&otilde;es prospectivas, a crescente sali&ecirc;ncia de    &aacute;reas de conhecimento em que a distin&ccedil;&atilde;o entre &ldquo;ci&ecirc;ncias    naturais&rdquo; e &ldquo;ci&ecirc;ncias sociais&rdquo; colapsa: ci&ecirc;ncias    do ambiente, ci&ecirc;ncias cognitivas, biodiversidade, ci&ecirc;ncias da sa&uacute;de.    Finalmente, o reconhecimento crescente, sobretudo nas duas &uacute;ltimas &aacute;reas    que acabei de referir, do car&aacute;cter parcial do conhecimento cient&iacute;fico    e da necessidade de procurar di&aacute;logos entre ele e conhecimentos n&atilde;o    cient&iacute;ficos, por vezes, incorrectamente, designados como &ldquo;etno-saberes&rdquo;.    A esse di&aacute;logo venho chamando a ecologia dos saberes (<I>Gram&aacute;tica    do Tempo</I>).</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><B>MT</B>: <I>Os movimentos positivistas e neopositivistas s&atilde;o, actualmente, anacr&oacute;nicos. Todavia, n&atilde;o ser&atilde;o, ainda, os crit&eacute;rios positivistas que, por um lado, servem de fundamento epistemol&oacute;gico &agrave;s ci&ecirc;ncias naturais e, por outro, n&atilde;o haver&aacute; um certo &laquo;positivismo envergonhado&raquo; na produ&ccedil;&atilde;o do conhecimento na &aacute;rea das ci&ecirc;ncias sociais?</I></p>     <p><B>BSS</B>: Como acabei de referir, o positivismo (mesmo assumindo que n&atilde;o    h&aacute; uma concep&ccedil;&atilde;o un&iacute;voca de positivismo) &eacute;    uma epistemologia demasiado estreita para abranger a riqueza e a diversidade    das pr&aacute;ticas cient&iacute;ficas. O caso das ci&ecirc;ncias sociais &eacute;    mais complicado porque estas ainda se n&atilde;o redimiram do pecado original    de nascerem ao espelho das ci&ecirc;ncias naturais e de durante muito tempo    terem subordinado a sua reflex&atilde;o epistemol&oacute;gica &agrave; reflex&atilde;o    epistemol&oacute;gicas das ci&ecirc;ncias naturais. Ao interiorizarem o seu    &ldquo;atraso&rdquo;, n&atilde;o se puderam dar conta &mdash; sobretudo nos    pa&iacute;ses cientificamente menos desenvolvidos, como &eacute; o nosso &mdash;    dos contributos &uacute;nicos que podem dar ao avan&ccedil;o da reflex&atilde;o    epistemol&oacute;gica em geral. Selecciono tr&ecirc;s: os seres humanos n&atilde;o    s&atilde;o exteriores em rela&ccedil;&atilde;o ao mundo e, portanto, est&atilde;o    condenados a auto-reflectirem-se no que observam: o problema do observador de    segunda ordem, na formula&ccedil;&atilde;o de Niklas Luhmann; o mundo n&atilde;o    &eacute; um conjunto inerte de coisas materiais, de <I>res extensa</I> cartesiana,    &eacute; antes uma presen&ccedil;a activa que antecede e condiciona a nossa    interpreta&ccedil;&atilde;o; a complexidade do mundo da vida faz com que o que,    de modo relevante, se sabe dele seja sempre uma constela&ccedil;&atilde;o de    saberes. Todo o conhecimento &eacute; inter-conhecimento, ecologia de saberes.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>     <p><B>MT</B>: <I>Estamos longe, ainda, de &laquo;um conhecimento prudente para uma vida decente.&raquo; A democratiza&ccedil;&atilde;o do conhecimento situa-se no &acirc;mbito da utopia. O processo hegem&oacute;nico de globaliza&ccedil;&atilde;o &eacute;, tamb&eacute;m ao n&iacute;vel do conhecimento, muito mais poderoso do que o da globaliza&ccedil;&atilde;o contra-hegem&oacute;nica. Como alterar a concep&ccedil;&atilde;o instrumental e colonizadora do conhecimento numa concep&ccedil;&atilde;o emancipadora e humanista? </I></p>    <p><B>BSS</B>: A refer&ecirc;ncia ao t&iacute;tulo do livro que organizei para responder aos meus cr&iacute;ticos permite-me dizer que a&iacute; encontra uma ampla paisagem epistemol&oacute;gica que reflecte a riqueza cognitiva do mundo. Mas como as epistemologias dominantes reflectem os interesses dominantes &mdash; que, de modo mais ou menos directo, s&atilde;o os do capitalismo global &mdash; &eacute; t&atilde;o dif&iacute;cil a luta por justi&ccedil;a social quanto a luta por justi&ccedil;a cognitiva. O reconhecimento deste facto levou a centrar-me na &uacute;ltima d&eacute;cada nas quest&otilde;es do colonialismo, p&oacute;s-colonialismo e interculturalidade (<I>Cr&iacute;tica da Raz&atilde;o Indolente</I> e <I>Gram&aacute;tica do Tempo</I>).</p>     <p>O avan&ccedil;o de uma epistemologia de conhecimento-emancipa&ccedil;&atilde;o    depende do avan&ccedil;o das lutas sociais contra a opress&atilde;o, a discrimina&ccedil;&atilde;o    e a exclus&atilde;o social, ainda que esteja sujeito a outras determina&ccedil;&otilde;es    relativamente aut&oacute;nomas que t&ecirc;m a ver com o campo intelectual,    a cultura cient&iacute;fica dominante, os sistemas de educa&ccedil;&atilde;o,    etc.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><B>MT</B>: <I>O conhecimento-emancipa&ccedil;&atilde;o, em oposi&ccedil;&atilde;o ao conhecimento-regula&ccedil;&atilde;o, pressup&otilde;e a constru&ccedil;&atilde;o de uma sociologia das aus&ecirc;ncias. Pressup&otilde;e, afinal, &laquo;que se d&ecirc; voz ao sil&ecirc;ncio.&raquo; Como fazer falar o sil&ecirc;ncio com princ&iacute;pios e conceitos epistemol&oacute;gicos colonialistas? Nesta abordagem, h&aacute; uma d&iacute;vida para com Foucault. Considera-se herdeiro de M. Foucault?</I></p>    <p><B>BSS</B>: As propostas epistemol&oacute;gicas, que tenho vindo a fazer nos &uacute;ltimos vinte anos n&atilde;o apontam, apenas, para novos tipos de conhecimento; apontam, tamb&eacute;m, para novos modos de produ&ccedil;&atilde;o de conhecimento. Defino-os, em geral, como epistemologias do Sul, entendendo por Sul a met&aacute;fora do sofrimento humano, sistematicamente causado pelo capitalismo. Trata-se, pois, de um Sul n&atilde;o imperial (porque h&aacute; um Sul imperial, que reproduz no Sul os interesses do Norte) que resiste contra a opress&atilde;o, a explora&ccedil;&atilde;o e a exclus&atilde;o. Esse conhecimento pode ser produzido no Norte mas sempre aprendendo com o Sul n&atilde;o imperial. E a vigil&acirc;ncia epistemol&oacute;gica tem de ser constante pois, doutro modo, a fala alternativa pode transformar-se, rapidamente, em silenciamento alternativo.</p>     <p>Foucault deu um enorme contributo para desarmar epistemologicamente o Norte,    mas n&atilde;o p&ocirc;de reconhecer os esfor&ccedil;os do Sul n&atilde;o imperial    para se armar epistemologicamente. &Eacute; que estavam em causa outros saberes    e outras experi&ecirc;ncias de saber de cuja exist&ecirc;ncia ele n&atilde;o    se apercebeu.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><B>MT</B>: <I>Do meu ponto de vista, o seu pensamento, apesar das pol&eacute;micas que tem suscitado, tem contribu&iacute;do, decisivamente, para um amplo debate e profundas reflex&otilde;es sobre o conhecimento cient&iacute;fico: sobre o que &eacute;, como se produz e como deve ser. O modelo de racionalidade que defende conflitua com uma l&oacute;gica sustentada em princ&iacute;pios que conduziram a uma concep&ccedil;&atilde;o de verdade algo dogm&aacute;tica, autorit&aacute;ria. No nosso mundo, assente na complexidade, o que se deve entender por verdade?</I></p>    ]]></body>
<body><![CDATA[<p><B>BSS</B>: O &ldquo;se&rdquo; da sua pergunta &eacute; decisivo. Quem &eacute; que pergunta pela verdade? Quem &eacute; que, ao perguntar, assume que h&aacute; uma e s&oacute; uma verdade? H&aacute; muitos tipos de verdade e devemo-nos perguntar por que raz&atilde;o, em rela&ccedil;&atilde;o a alguns deles, n&atilde;o temos qualquer d&uacute;vida. Estou a responder-lhe num computador verdadeiro e se ele n&atilde;o o fosse esta resposta nunca chegaria a si. A verdade que tem em mente &eacute; algo menos trivial que isto. O que quer saber &eacute; se a verdade &eacute; uma representa&ccedil;&atilde;o do real e se tal representa&ccedil;&atilde;o &eacute; un&iacute;voca. Porqu&ecirc; conceber a verdade em termos de representa&ccedil;&atilde;o? Como os seres humanos n&atilde;o s&atilde;o exc&ecirc;ntricos em rela&ccedil;&atilde;o ao mundo, a representa&ccedil;&atilde;o tem de reflectir quem representa no que representa. Assim sendo, a representa&ccedil;&atilde;o n&atilde;o pode ser un&iacute;voca, por mais &uacute;nica que seja. Essa unicidade s&oacute; pode ser o resultado de um consenso mais ou menos provis&oacute;rio. Donde vem esse consenso? Dos modos de interven&ccedil;&atilde;o no mundo que se t&ecirc;m como particularmente v&aacute;lidos. Por exemplo, construir uma ponte que n&atilde;o caia. A verdade &eacute; sempre o resultado de uma coincid&ecirc;ncia pragm&aacute;tica entre o que se pensa sobre o mundo e a interven&ccedil;&atilde;o concreta que se pretende realizar nele. A verdade &eacute;, assim, um acontecimento, como bem a definiu Martin Heidegger. E, como acontecimento, ela tanto revela como oculta. Se a ponte cair alguns anos mais tarde foi verdadeira enquanto esteve de p&eacute; ou era falsa desde o in&iacute;cio? A verdade &eacute; a sucess&atilde;o de verdades com que vamos intervindo eficazmente no mundo. Os limites dessa efic&aacute;cia s&atilde;o os limites da verdade. Se a verdade das causas implica a verdade das consequ&ecirc;ncias, porque &eacute; que, por vezes, &eacute; t&atilde;o dram&aacute;tica a discrep&acirc;ncia entre o que se quis como causa e o que se obteve como consequ&ecirc;ncia? O desastre ecol&oacute;gico &eacute; um bom exemplo disso. Tudo se passa como se apenas houvesse  graus de verdade, apesar de n&atilde;o sermos capazes de pensar sen&atilde;o em termos bin&aacute;rios: verdadeiro ou falso. Ou como se a verdade fosse sempre retrospectiva, mesmo se s&oacute; sabemos pensar nela como antecipativa.</p>     <p> Quanto mais divergirmos sobre as interven&ccedil;&otilde;es no mundo, menos    consenso haver&aacute; sobre o que &eacute; a verdade, o que n&atilde;o significa    que haja v&aacute;rias verdades. Alternativamente, podemos pensar que h&aacute;    v&aacute;rios caminhos e v&aacute;rias aproxima&ccedil;&otilde;es, que a verdade    &eacute; sempre heterog&eacute;nea (internamente inst&aacute;vel e diversa)    e que quando acontece come&ccedil;a logo a desacontecer. A obsess&atilde;o com    a verdade un&iacute;voca e absoluta &eacute; uma heran&ccedil;a da religi&atilde;o.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><B>MT</B>: <I>Na obra </I>Introdu&ccedil;&atilde;o a uma Ci&ecirc;ncia p&oacute;s-moderna <I>defende que &laquo;todas as ci&ecirc;ncias s&atilde;o ci&ecirc;ncias sociais&raquo; enveredando por uma hermen&ecirc;utica cr&iacute;tica para dissolver aquilo a que chama &laquo;etnocentrismo epistemol&oacute;gico.&raquo; Defende a supremacia das ci&ecirc;ncias sociais, invertendo a dicotomia tradicional, ou, pelo contr&aacute;rio, pretende sugerir um di&aacute;logo e comunica&ccedil;&atilde;o entre os diversos discursos cient&iacute;ficos?</I> </p>     <p><B>BSS:</B> Hoje estou muito mais consciente da pluralidade interna e externa    das ci&ecirc;ncias, gra&ccedil;as &agrave;s epistemologias feministas e p&oacute;s-coloniais    (sobre aquela distin&ccedil;&atilde;o, veja o livro organizado por mim <I>Semear    outras solu&ccedil;&otilde;es: os caminhos da biodiversidade e dos conhecimentos    rivais,</I> Afrontamento. 2004). N&atilde;o faria sentido descentrar a epistemologia    do universo das ci&ecirc;ncias naturais para a recentrar no universo das ci&ecirc;ncias    sociais concebido como o oposto do primeiro. O importante, &eacute; repensar    o conhecimento cient&iacute;fico em toda a sua diversidade &agrave; luz das    suas poss&iacute;veis rela&ccedil;&otilde;es com outros saberes n&atilde;o cient&iacute;ficos    que orientam a vida quotidiana das pessoas. As hierarquias entre conhecimentos    n&atilde;o podem ser estabelecidas em abstracto, mas sim em concreto, isto &eacute;,    em fun&ccedil;&atilde;o das interven&ccedil;&otilde;es concretas no mundo. Se    eu quero ir &agrave; lua, necessito de conhecimento cient&iacute;fico; mas se    eu quero preservar a biodiversidade, preciso do conhecimento ind&iacute;gena    e campon&ecirc;s. As epistemologias dominantes tendem a salientar a incomensurabilidade    ou incompatibilidade entre conhecimentos. O importante &eacute; salientar a    incompletude de todos os conhecimentos e o potencial que existe nos di&aacute;logos    entre eles. O conhecimento prudente decorre sempre desses di&aacute;logos e    das constela&ccedil;&otilde;es de saberes que permitem construir. Alguns dos    conceitos por mim desenvolvidos depois de <I>Um Discurso</I>,pretendem dar conta    desse objectivo: hermen&ecirc;utica diat&oacute;pica, ecologia de saberes, tradu&ccedil;&atilde;o    intercultural.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><B>MT</B>: <I>H&aacute; alguns sectores da &ldquo;intelectualidade&rdquo; portuguesa que o acusam de excesso de relativismo, isto &eacute;, afirmam que coloca ao mesmo n&iacute;vel os v&aacute;rios saberes, sejam eles cient&iacute;ficos ou n&atilde;o. Aceita esta cr&iacute;tica? Subscreve a afirma&ccedil;&atilde;o aristot&eacute;lica de que &laquo;a verdade se diz de v&aacute;rias maneiras e nenhuma delas tem supremacia em rela&ccedil;&atilde;o &agrave;s outras&raquo;?</I></p>     <p><B>BSS</B>: Sempre afirmei que o pensamento cr&iacute;tico, orientado para    a transforma&ccedil;&atilde;o social emancipat&oacute;ria, n&atilde;o pode ser    relativista. O importante &eacute;, pois, n&atilde;o confundir pluralismo epistemol&oacute;gico    com relativismo epistemol&oacute;gico. A ecologia dos saberes n&atilde;o &eacute;    poss&iacute;vel sem pluralismo epistemol&oacute;gico, e seria um exerc&iacute;cio    in&uacute;til no marco do relativismo epistemol&oacute;gico. Como afirmei na    resposta &agrave; pergunta anterior, as hierarquias entre saberes s&atilde;o    necess&aacute;rias mas devem ser contextuais e pragm&aacute;ticas. </p>     <p>&nbsp;</p>     <p><B>MT</B>: <I>Nas Escolas portuguesas e em algumas Universidades continua a ensinar-se a ci&ecirc;ncia do S&eacute;culo XIX. &Eacute; dif&iacute;cil contrariar uma mentalidade positivista muito enraizada. Como perspectiva o ensino das ci&ecirc;ncias?</I></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><B>BSS</B>: Est&aacute; muito em voga a tentativa de tornar a ci&ecirc;ncia    atractiva pedagogicamente, transformando-a numa m&aacute;gica secular, dif&iacute;cil    para quem est&aacute; fora e simples para quem est&aacute; dentro. Ao contr&aacute;rio,    penso que o ensino da ci&ecirc;ncia devia assentar na complexidade: os limites    do rigor, o car&aacute;cter retrospectivo da coer&ecirc;ncia, a verdade que    acontece e que desacontece, as situa&ccedil;&otilde;es de bifurca&ccedil;&atilde;o,    o que se desaprende no processo de aprendizagem de um dado conhecimento, o real    concebido como uma entidade activa que se oferece ou que resiste a ser conhecido    por um certo tipo de conhecimento, etc. </p>     <p>&nbsp; </p>     <p><B>MT</B>: <I>Na sua obra </I>O F&oacute;rum Social Mundial: manual de uso<I> apresenta 15 teses para o aprofundamento da democracia. A 6&ordf; tese refere que &laquo;est&atilde;o a emergir formas contra-hegem&oacute;nicas de democracia de alta intensidade&raquo;. Todavia, parece que essas formas se verificam mais nos pa&iacute;ses em vias de desenvolvimento do que nos pa&iacute;ses Ocidentais, ditos desenvolvidos. Aqui, parece haver um certo anestesiamento e adormecimento das popula&ccedil;&otilde;es que se v&atilde;o alimentando passivamente da globaliza&ccedil;&atilde;o neo-liberal. Ser&aacute; correcto este ponto de vista?</I></p>     <p><B>BSS</B>: Nos nossos dias o grande problema do pensamento cr&iacute;tico    e das pol&iacute;ticas de esquerda que decorrem dele &eacute; a rela&ccedil;&atilde;o    fantasmag&oacute;rica entre teoria e pr&aacute;tica. Esta rela&ccedil;&atilde;o    assenta no facto de que, enquanto o pensamento cr&iacute;tico foi desenvolvido    em cinco ou seis pa&iacute;ses do Norte global, as pr&aacute;ticas de esquerda    mais inovadoras t&ecirc;m vindo a surgir no Sul global. Este desencontro est&aacute;    a produzir teorias cegas e pr&aacute;ticas invis&iacute;veis. O impacto do neoliberalismo    foi devastador e os seus efeitos negativos come&ccedil;am hoje a ser mais vis&iacute;veis    &agrave; medida que se aprofunda a sua crise. O problema &eacute; que, por mais    repugnantes que sejam os seus efeitos (desigualdade social, belicismo, cat&aacute;strofe    ecol&oacute;gica, etc), a leitura politizada e de resist&ecirc;ncia que se deve    fazer deles s&oacute; &eacute; poss&iacute;vel na medida em que existir a alternativa    realista de uma sociedade mais justa, de um futuro p&oacute;s-capitalista. Ora,    o pensamento cr&iacute;tico e a esquerda no Norte global deixaram de acreditar    em tal alternativa e, por isso, acabaram por render-se &agrave;s evid&ecirc;ncias    neoliberais, como, por exemplo, a necessidade de destruir o servi&ccedil;o nacional    de sa&uacute;de, o sistema p&uacute;blico de seguran&ccedil;a social, ou os    direitos dos trabalhadores. As popula&ccedil;&otilde;es n&atilde;o est&atilde;o    adormecidas. Est&atilde;o, pelo contr&aacute;rio, a sofrer em sil&ecirc;ncio.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><B>MT</B>: <I>Finalmente, gostava que me falasse das potencialidades do FSM. N&atilde;o ser&aacute;, apenas, &laquo;uma f&aacute;brica de ideias&raquo;, ou ser&aacute; mesmo uma &laquo;m&aacute;quina de propostas&raquo;?</I></p>    <p><I>Como transformar, do interior do paradigma neo-liberal, essas ideias e propostas em ac&ccedil;&otilde;es concretas de modo a que, efectivamente, o FSM se afirme, n&atilde;o como um movimento folcl&oacute;rico, mas como um movimento de globaliza&ccedil;&atilde;o contra-hegem&oacute;nica de grande amplitude, nos v&aacute;rios planos de ac&ccedil;&atilde;o: econ&oacute;mico, social, pol&iacute;tico, cultural, ambiental...</I></p>    <p><B>BSS</B>: A resposta cabal a esta pergunta exigiria uma reflex&atilde;o mais detalhada. No esp&iacute;rito desta entrevista, saliento os aspectos epistemol&oacute;gicos do FSM, pois penso que sem uma nova epistemologia n&atilde;o ser&atilde;o poss&iacute;veis novas pol&iacute;ticas transformadoras. O FSM &eacute; o primeiro movimento internacionalista do s&eacute;culo XXI, origin&aacute;rio do Sul global e segundo premissas culturais e pol&iacute;ticas que desafiam as tradi&ccedil;&otilde;es hegem&oacute;nicas da esquerda. A sua novidade, fortalecida com a mudan&ccedil;a de Porto Alegre para Mumbai e mais tarde para Nairobi, reside no facto de as tradi&ccedil;&otilde;es hegem&oacute;nicas de esquerda, em lugar de serem descartadas, terem sido convidadas a estar presentes, ainda que n&atilde;o nos seus termos, ou seja, como &uacute;nicas tradi&ccedil;&otilde;es leg&iacute;timas. Junto com elas foram convidadas muitas outras tradi&ccedil;&otilde;es de conhecimentos cr&iacute;ticos, de pr&aacute;ticas transformadoras e concep&ccedil;&otilde;es de uma sociedade melhor. O facto de movimentos e organiza&ccedil;&otilde;es provenientes de tradi&ccedil;&otilde;es cr&iacute;ticas d&iacute;spares &mdash; unidos pelo prop&oacute;sito, muito genericamente definido, de lutar contra a globaliza&ccedil;&atilde;o neoliberal e pela aspira&ccedil;&atilde;o, ainda mais gen&eacute;rica, por &ldquo;um outro mundo poss&iacute;vel&rdquo; &mdash; poderem interagir durante diversos dias e planear ac&ccedil;&otilde;es conjuntas teve um impacto profundo e multifacetado na rela&ccedil;&atilde;o entre a teoria e a pr&aacute;tica. </p>    <p>Primeiro, tornou claro que o mundo, no seu todo, est&aacute; repleto de experi&ecirc;ncias e de actores transformadores que n&atilde;o correspondem aos par&acirc;metros estabelecidos pela esquerda ocidental. Tornou igualmente claro que a discrep&acirc;ncia entre a teoria (esquerda nos livros) e a pr&aacute;tica (esquerda em ac&ccedil;&atilde;o) &eacute; acima de tudo um problema ocidental. Noutras partes do mundo e mesmo no ocidente entre as popula&ccedil;&otilde;es n&atilde;o-ocidentais (como os povos ind&iacute;genas) existem outros entendimentos de ac&ccedil;&atilde;o colectiva para os quais esta discrep&acirc;ncia n&atilde;o faz muito sentido. </p>    <p>Em segundo lugar, o FSM mostrou que o conhecimento cient&iacute;fico, a que sempre foi concedida prioridade absoluta no c&acirc;none da esquerda ocidental &eacute;, no espa&ccedil;o aberto do FSM, uma forma de conhecimento entre muitas outras. Para certos movimentos e causas, &eacute; mais importante do que para outros e, em muitas inst&acirc;ncias, &eacute; utilizado em articula&ccedil;&atilde;o com outros conhecimentos: leigos, populares, urbanos, camponeses, femininos, religiosos, art&iacute;sticos etc. Deste modo, o FSM coloca uma nova quest&atilde;o epistemol&oacute;gica: se as pr&aacute;ticas sociais e os actores colectivos recorrem a diferentes tipos de conhecimento, uma avalia&ccedil;&atilde;o adequada da sua utilidade para a emancipa&ccedil;&atilde;o social s&oacute; pode ser fundada numa epistemologia, que, ao contr&aacute;rio das epistemologias hegem&oacute;nicas do Ocidente, n&atilde;o conceda supremacia <I>a priori</I> ao conhecimento cient&iacute;fico (produzido sobretudo no Norte) e permita assim um relacionamento mais justo entre as diferentes formas de conhecimento. Por outras palavras, n&atilde;o existe justi&ccedil;a global sem justi&ccedil;a cognitiva global. Assim, para captar a variedade imensa de discursos e pr&aacute;ticas cr&iacute;ticas e valorizar e maximizar o seu potencial transformador, &eacute; necess&aacute;ria uma reconstru&ccedil;&atilde;o epistemol&oacute;gica. Isto significa que n&atilde;o precisamos tanto de alternativas como de um pensamento alternativo de alternativas. </p>    ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Esta reconstru&ccedil;&atilde;o epistemol&oacute;gica deve partir da ideia de que o pensamento hegem&oacute;nico de esquerda e a tradi&ccedil;&atilde;o cr&iacute;tica hegem&oacute;nica, al&eacute;m de norte-c&ecirc;ntricos, s&atilde;o colonialistas, imperialistas, racistas e tamb&eacute;m sexistas. Para ultrapassar esta condi&ccedil;&atilde;o epistemol&oacute;gica, e assim descolonizar o pensamento e a pr&aacute;tica de esquerda, &eacute; imperativo ir para o Sul e aprender com Sul, o que designei acima por epistemologia do Sul. Esta epistemologia de modo algum sugere que o conhecimento cient&iacute;fico, o pensamento cr&iacute;tico e as pol&iacute;ticas de esquerda nortec&ecirc;ntricas sejam descartados como parte do lixo da hist&oacute;ria. O seu passado &eacute;, sob muitos aspectos, um passado honroso com um contributo significativo na liberta&ccedil;&atilde;o do mundo e, portanto, tamb&eacute;m do Sul global. Em vez disso, &eacute; imperativo iniciar um di&aacute;logo e uma tradu&ccedil;&atilde;o intercultural entre os diferentes conhecimentos e pr&aacute;ticas: sulc&ecirc;ntricos e nortec&ecirc;ntricos, populares e cient&iacute;ficos, religiosos e seculares, femininos e masculinos, urbanos e rurais, etc., etc. Designo acima este vasto processo de tradu&ccedil;&atilde;o intercultural como ecologia dos saberes. </p>    <p>O terceiro impacto do FSM no relacionamento entre a teoria e a pr&aacute;tica, e provavelmente o mais decisivo para o seu sucesso, &eacute; a forma como valoriza a diversidade de filosofias, discursos, estilos de ac&ccedil;&atilde;o e objectivos pol&iacute;ticos presentes nas suas reuni&otilde;es. Neste dom&iacute;nio, dois aspectos merecem ser salientados. Por um lado, o FSM tem at&eacute; agora resistido &agrave; redu&ccedil;&atilde;o da sua abertura em nome da efic&aacute;cia ou da coer&ecirc;ncia pol&iacute;tica. Como menciono mais abaixo, existe um intenso debate dentro do FSM sobre este assunto, mas, do meu ponto de vista, a ideia de que n&atilde;o existe uma teoria geral da transforma&ccedil;&atilde;o social capaz de captar e classificar a imensa diversidade das ideias e pr&aacute;ticas oposicionistas presentes no FSM tem sido uma das ideias mais inovadoras e produtivas. Por outro lado, esta inclusividade potencialmente incondicional tem vindo a contribuir para criar uma nova cultura pol&iacute;tica que privilegia as semelhan&ccedil;as em detrimento das diferen&ccedil;as, e promove a ac&ccedil;&atilde;o comum mesmo na presen&ccedil;a de diferen&ccedil;as ideol&oacute;gicas, desde que os objectivos, n&atilde;o importa qu&atilde;o limitado o seu alcance, sejam claros e adoptados por consenso. </p>     <p>Nos ant&iacute;podas da ideia de uma teoria geral abrangente ou de uma linha    correcta vinda de cima, as coliga&ccedil;&otilde;es e articula&ccedil;&otilde;es    possibilitadas entre os movimentos sociais s&atilde;o geradas de baixo para    cima, tendem a ser pragm&aacute;ticas e a durar enquanto for necess&aacute;rio    para os objectivos de cada movimento. Por outras palavras, enquanto na tradi&ccedil;&atilde;o    da esquerda convencional, especialmente no Norte global, politizar uma quest&atilde;o    era equivalente a polariz&aacute;-la, o que conduziu frequentemente ao fraccionismo    e ao facciosismo, no FSM parece estar a emergir uma outra cultura pol&iacute;tica,    onde a politiza&ccedil;&atilde;o vai de m&atilde;os dadas com a despolariza&ccedil;&atilde;o,    com a busca de terrenos comuns e de limites consensualmente assumidos para a    pureza ou impureza ideol&oacute;gicas. Do meu ponto de vista, a possibilidade    de uma ac&ccedil;&atilde;o colectiva global assenta no desenvolvimento de uma    cultura pol&iacute;tica deste tipo. </p>     <p>&nbsp;</p>     <p>Madison,  8 de Dezembro de 2007</p>                   ]]></body>
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