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<journal-title><![CDATA[Revista Lusófona de Educação]]></journal-title>
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<publisher-name><![CDATA[Centro de Estudos e Intervenção em Educação e Formação (CeiEF)Universidade Lusófona de Humanidades e Tecnologias]]></publisher-name>
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<article-title xml:lang="pt"><![CDATA[Nem tudo o que conta em educação é mensurável ou comparável: Crítica à accountability baseada em testes estandardizados e rankings escolares]]></article-title>
<article-title xml:lang="en"><![CDATA[Not everything that counts in education can be measured or compared.: A critique to accountability based upon standardized tests and school rankings]]></article-title>
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<abstract abstract-type="short" xml:lang="en"><p><![CDATA[Generally, the concept of accountability is polysemic and complex. However, I only intend to mention, in this paper, some aspects of a wider theoretical and conceptual contextualization. Here, at first, the concept of accountability is associated to three interrelated dimensions: evaluation, to give account and ‘responsabilization’. Secondly, some relationships between assessment and accountability are analysed having as pretext standardized tests, national exams, and rankings. Finally, I conclude that accountability, based only in standardized tests and rankings of the schools, is an incomplete and reductive form of accountability, considering the complexity and plurality of the objectives, mandates and functions of school education.]]></p></abstract>
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</front><body><![CDATA[ <P><B>Nem tudo o que conta em educa&ccedil;&atilde;o &eacute; mensur&aacute;vel ou compar&aacute;vel. Cr&iacute;tica &agrave; <I>accountability</I> baseada em testes estandardizados e rankings escolares</B></P>        	      <p>&nbsp;</p>      <P>Almerindo Janela Afonso<a href="#0">*</a><a name="top0"></a> </P>      <p>&nbsp;</p>      <p>O conceito de <I>accountability</I> &eacute;, em geral, polis</B>s&eacute;mico e denso.  Contudo, eu pretendo, neste texto, mencionar apenas alguns dos aspectos da sua contextualiza&ccedil;&atilde;o  ampla em termos te&oacute;rico-conceptuais. Associo o conceito de <I>accountability</I> a tr&ecirc;s  dimens&otilde;es articul&aacute;veis: <I>avalia&ccedil;&atilde;o</I>, <I>presta&ccedil;&atilde;o </I> <I>de contas</I> e <I>responsabiliza&ccedil;&atilde;o</I>. Depois, analiso algumas das rela&ccedil;&otilde;es  entre avalia&ccedil;&atilde;o e <I>accountability</I> tendo como pretexto os testes estandardizados, os exames  nacionais e os <I>rankings</I>. Finalmente, concluo que a <I>accountability</I> baseada apenas nestes procedimentos  &eacute; uma forma parcelar, incompleta e redutora face &agrave; complexidade e pluralidade dos objectivos,  miss&otilde;es e fun&ccedil;&otilde;es da educa&ccedil;&atilde;o escolar.</P>      <p><B>Palavras-chave:</B>Pol&iacute;ticas educativas; <I>accountability</I>; testes estandardizados;  exames nacionais; <I>rankings</I>.</P>      <p>&nbsp;</p>      <p><B>Not everything that counts in education can be measured or compared. A critique  to accountability based upon standardized tests and school rankings</B></P>      <p>Generally, the concept of accountability is polysemic and complex. However, I only intend to mention, in this paper, some aspects of a wider theoretical and conceptual contextualization. Here, at first, the concept of accountability is associated to three interrelated dimensions: evaluation, to give account and ‘responsabilization’. Secondly, some relationships between assessment and accountability are analysed having as pretext standardized tests, national exams, and rankings. Finally, I conclude that accountability, based only  in standardized tests and rankings of the schools, is an incomplete and reductive form of  accountability, considering the complexity and plurality of the objectives, mandates and functions of school education.</p>      <p><B>Keywords:</B> educational policies; accountability; standardized tests, national examinations, rankings.</p>      ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>      <p>O conceito de accountability &eacute;, em geral, poliss&eacute;mico e denso,    como facilmente se pode constatar numa r&aacute;pida revis&atilde;o da literatura    especializada (cf., por exemplo, Schedler, 1999; Mulgan, 2000). Por&eacute;m,    neste artigo, n&atilde;o pretendo fazer sen&atilde;o uma breve contextualiza&ccedil;&atilde;o    te&oacute;rico-conceptual que permita, num primeiro momento, dar sentido &agrave;    perspectiva que aqui adopto: ou seja, associar o conceito a tr&ecirc;s dimens&otilde;es    essenciais aut&oacute;nomas, mas fortemente articuladas (ou articul&aacute;veis):    a <I>avalia&ccedil;&atilde;o</I>, a <I>presta&ccedil;&atilde;o de contas</I>    e a <I>responsabiliza&ccedil;&atilde;o</I>. Num segundo momento, partindo da    experi&ecirc;ncia dos Estados Unidos da Am&eacute;rica e da import&acirc;ncia    que voltou a ser atribu&iacute;da aos testes estandardizados na &uacute;ltima    reforma conservadora de G. W. Bush, analiso sucintamente a centralidade que    t&ecirc;m estes instrumentos de avalia&ccedil;&atilde;o na estrutura&ccedil;&atilde;o    da principal forma de <I>accountability</I> no &acirc;mbito do sistema educativo    neste pa&iacute;s. Finalmente, tendo em mente quatro formas de <I>accountability</I>    em constru&ccedil;&atilde;o no contexto portugu&ecirc;s (decorrentes da avalia&ccedil;&atilde;o    do desempenho docente; da avalia&ccedil;&atilde;o institucional das escolas;    dos exames nacionais e da publicita&ccedil;&atilde;o dos <I>rankings</I>), a    argumenta&ccedil;&atilde;o desenvolvida situa-se apenas nestas duas &uacute;ltimas.    Procurarei, mais precisamente, chamar a aten&ccedil;&atilde;o para a crescente    centralidade dos <I>exames</I> e <I>testes estandardizados</I> (nacionais e    internacionais) na configura&ccedil;&atilde;o das pol&iacute;ticas educativas    contempor&acirc;neas, apelando tamb&eacute;m a uma reflex&atilde;o mais aprofundada    e cr&iacute;tica em torno da descomplexifica&ccedil;&atilde;o, despolitiza&ccedil;&atilde;o    e tecniciza&ccedil;&atilde;o das formas tendencialmente dominantes de <I>accountability</I>,    porque nem tudo o que conta em educa&ccedil;&atilde;o pode ser medido ou comparado<Sup><a href="#1">1</a><a name="top1"></a></Sup>.</P>      <p><B>Avalia&ccedil;&atilde;o, presta&ccedil;&atilde;o de contas e responsabiliza&ccedil;&atilde;o</B></P>      <p>A avalia&ccedil;&atilde;o pode ser utilizada, entre muitos outros objectivos    e fun&ccedil;&otilde;es, como condi&ccedil;&atilde;o <I>sine qua non</I> para    o desenvolvimento de processos de presta&ccedil;&atilde;o de contas e de responsabiliza&ccedil;&atilde;o    (<I>accountability</I>). Ou seja, a presta&ccedil;&atilde;o de contas, como    acto de justifica&ccedil;&atilde;o e explica&ccedil;&atilde;o do que &eacute;    feito, como &eacute; feito e porqu&ecirc; &eacute; feito, implica, em muitos    casos, que se desenvolva alguma forma ou processo de avalia&ccedil;&atilde;o    ou auto-avalia&ccedil;&atilde;o (mesmo que impl&iacute;cita). Neste sentido,    quando a presta&ccedil;&atilde;o de contas exigir a avalia&ccedil;&atilde;o,    esta dever&aacute; desenvolver-se de forma fundamentada e o mais poss&iacute;vel    objectiva, de modo a procurar garantir a <I>transpar&ecirc;ncia</I> e o direito    &agrave; informa&ccedil;&atilde;o em rela&ccedil;&atilde;o &agrave; prossecu&ccedil;&atilde;o    de pol&iacute;ticas, orienta&ccedil;&otilde;es, processos e pr&aacute;ticas.    E se, por alguma raz&atilde;o, n&atilde;o for esperada nem ajustada a assun&ccedil;&atilde;o    volunt&aacute;ria de eventuais responsabilidades pessoais, pol&iacute;ticas    ou institucionais<Sup><a href="#2">2</a><a name="top2"></a></Sup>, ou se, em    decorr&ecirc;ncia da presta&ccedil;&atilde;o de contas, houver lugar a pr&eacute;mios    ou san&ccedil;&otilde;es, ou outras formas de responsabiliza&ccedil;&atilde;o    de institui&ccedil;&otilde;es, organiza&ccedil;&otilde;es ou pessoas, isso deve    ser tamb&eacute;m consequ&ecirc;ncia (pelo menos em determinadas situa&ccedil;&otilde;es)    de uma avalia&ccedil;&atilde;o rigorosa e prudente sob o ponto de vista t&eacute;cnico-metodol&oacute;gico    (tendo por refer&ecirc;ncia, entre outros, crit&eacute;rios, objectivos e padr&otilde;es    previamente definidos), e tendo em conta igualmente o enquadramento cultural,    &eacute;tico e jur&iacute;dico que preveja procedimentos democr&aacute;ticos    e salvaguarde direitos fundamentais. </P>     <p>A avalia&ccedil;&atilde;o precede (ou pode preceder) a presta&ccedil;&atilde;o de contas (cf. Kogan, 1986;  Dimmock & Hattie, 1990), sendo que, na sequ&ecirc;ncia da presta&ccedil;&atilde;o de contas, tamb&eacute;m pode haver lugar a uma avalia&ccedil;&atilde;o que considere as informa&ccedil;&otilde;es disponibilizadas sobre  as pol&iacute;ticas, ac&ccedil;&otilde;es e desempenhos em causa. Por isso, &eacute; necess&aacute;rio atender  n&atilde;o apenas &agrave; quest&atilde;o da avaliabilidade, mas tamb&eacute;m &agrave; congru&ecirc;ncia mais  ampla entre os modelos de avalia&ccedil;&atilde;o e os modelos de <I>accountability</I>. Sem haver garantia  de avaliabilidade (ou seja, sem a presen&ccedil;a de condi&ccedil;&otilde;es que possibilitem desenvolver  processos baseados em metodologias cred&iacute;veis, v&aacute;lidas e fidedignas, e que permitam emitir e  fundamentar ju&iacute;zos valorativos sobre pr&aacute;ticas, institui&ccedil;&otilde;es, contextos e pol&iacute;ticas),  ficam prejudicadas as formas de presta&ccedil;&atilde;o de contas e de responsabiliza&ccedil;&atilde;o, ou seja,  uma parte fundamental dos processos de <I>accountability</I> (cf. Afonso, 2001). Do mesmo modo, sem congru&ecirc;ncia  de pressupostos, valores e metodologias entre <I>avalia&ccedil;&atilde;o</I>, <I>presta&ccedil;&atilde;o de contas</I>  e <I>responsabiliza&ccedil;&atilde;o</I> torna-se mais dif&iacute;cil haver uma procura de objectividade e  transpar&ecirc;ncia relativamente a decis&otilde;es e pr&aacute;ticas pol&iacute;ticas, sociais e educacionais,  podendo estar em causa a concretiza&ccedil;&atilde;o do direito democr&aacute;tico &agrave; informa&ccedil;&atilde;o  e, em decorr&ecirc;ncia disso, a possibilidade de afastamento e alheamento dos cidad&atilde;os face ao que acontece  nas institui&ccedil;&otilde;es e organiza&ccedil;&otilde;es p&uacute;blicas ou de interesse p&uacute;blico.  &Eacute;, no entanto, necess&aacute;rio ter em conta, como lembra Stewart Ranson, que um modelo de <I>accountability</I>  pode ser sentido como um &ldquo;an&aacute;tema para a comunidade de profissionais&rdquo;. Isto ocorrer&aacute;  quando esse mesmo modelo &eacute; associado redutoramente a uma &ldquo;imagem potencialmente punitiva&rdquo;  (Ranson, 2003, p. 460) que adv&eacute;m, por vezes, do facto de a responsabiliza&ccedil;&atilde;o e a eventual  imposi&ccedil;&atilde;o de san&ccedil;&otilde;es (<I>enforcement</I>) serem componentes subjacentes. </P>     <p>Como um sistema de <I>accountabilty</I> implica frequentemente uma teia complexa de rela&ccedil;&otilde;es,  interdepend&ecirc;ncias e reciprocidades, bem como possibilidades diferenciadas de justifica&ccedil;&atilde;o  e fundamenta&ccedil;&atilde;o, no caso dos professores, por exemplo, a dimens&atilde;o da responsabiliza&ccedil;&atilde;o  &eacute; particularmente delicada uma vez que estes profissionais t&ecirc;m que prestar contas a v&aacute;rias  inst&acirc;ncias hier&aacute;rquicas (do minist&eacute;rio aos directores de escola), incluindo tamb&eacute;m outros  elementos da comunidade educativa (entre os quais, os pais e os pr&oacute;prios estudantes). Neste sentido, se  esperarmos que os professores prestem contas aos pais sobre o progresso escolar dos seus filhos, esses mesmos  professores tamb&eacute;m ter&atilde;o expectativas leg&iacute;timas para esperar que os pais reforcem os cuidados  com os processos de aprendizagem. Ou seja, expectativas e responsabilidades s&atilde;o rec&iacute;procas, n&atilde;o  deixando, apesar disso, de poder estar em confronto perspectivas diferentes (e eventualmente conflituais) sobre o  que &eacute; ou n&atilde;o &eacute; importante para as aprendizagens. Neste sentido, a constru&ccedil;&atilde;o de  consensos, a comunica&ccedil;&atilde;o e o di&aacute;logo s&atilde;o dimens&otilde;es fundamentais de &ldquo;uma  pr&aacute;tica discursiva de accountability&rdquo;, mas &rdquo;o potencial positivo desta forma intelig&iacute;vel  e reflexiva de <I>accountability</I> tem sido negligenciado em muitas das teoriza&ccedil;&otilde;es  contempor&acirc;neas&rdquo; (Ranson, 2003, pp. 460-461).</P>     <p><I>Avalia&ccedil;&atilde;o</I>, <I>presta&ccedil;&atilde;o de contas</I> e <I>responsabiliza&ccedil;&atilde;o</I>  nem sempre constituem elementos que se potenciem mutuamente, e nem sempre se integram em orienta&ccedil;&otilde;es  e rela&ccedil;&otilde;es guiadas por uma intencionalidade democr&aacute;tica e de <I>empowerment</I> dos cidad&atilde;os.  Com efeito, todas as eventuais combina&ccedil;&otilde;es destas vari&aacute;veis s&atilde;o teoricamente poss&iacute;veis  e, neste sentido, todas podem ser (ou poder&atilde;o ter sido) praticadas de algum modo e, por vezes, com  consequ&ecirc;ncias ambivalentes (e at&eacute; perversas), sobretudo se considerarmos conjunturas pol&iacute;ticas  e realidades sociais e educacionais n&atilde;o democr&aacute;ticas, ou contextos com predomin&acirc;ncia de uma  democracia ritual&iacute;stica ou de <I>baixa intensidade</I>. De todas as combina&ccedil;&otilde;es poss&iacute;veis,  a situa&ccedil;&atilde;o mais problem&aacute;tica &eacute;, sem d&uacute;vida, a que diz respeito &agrave;  responsabiliza&ccedil;&atilde;o sem avalia&ccedil;&atilde;o e sem presta&ccedil;&atilde;o de contas.</P>     <p>&Eacute;, todavia, frequente (e justific&aacute;vel) o exerc&iacute;cio aut&oacute;nomo da avalia&ccedil;&atilde;o  sem que ele esteja enquadrado num sistema de <I>accountability</I> institucionalizado ou formal, mas j&aacute; parece  ser mais dif&iacute;cil defender o contr&aacute;rio, isto &eacute;, um sistema de <I>accountability</I> que prescinda  da avalia&ccedil;&atilde;o em qualquer situa&ccedil;&atilde;o. Considerando o facto de que h&aacute; diferentes modelos  de <I>accountability</I> e que nem todos os modelos conhecidos se inscrevem em l&oacute;gicas progressistas, parece-me  que, numa concep&ccedil;&atilde;o mais complexa e potencialmente democr&aacute;tica, n&atilde;o ter&aacute; muito  fundamento que a presta&ccedil;&atilde;o de contas n&atilde;o seja, com alguma frequ&ecirc;ncia, antecedida (e sucedida)  por processos claros e rigorosos de auto-avalia&ccedil;&atilde;o e/ou avalia&ccedil;&atilde;o (interna e/ou externa),  incluindo ainda, em fase posterior, processos congruentes de responsabiliza&ccedil;&atilde;o (n&atilde;o necessariamente  com consequ&ecirc;ncias negativas). Neste sentido, um sistema de <I>accountability </I>democraticamente avan&ccedil;ado  inclui a <I>avalia&ccedil;&atilde;o</I>, a <I>presta&ccedil;&atilde;o de contas</I> e a <I>responsabiliza&ccedil;&atilde;o</I>,  mas dentro de articula&ccedil;&otilde;es congruentes que se referenciem ou sustentem em valores essenciais como  a justi&ccedil;a, a transpar&ecirc;ncia, o direito &agrave; informa&ccedil;&atilde;o, a participa&ccedil;&atilde;o,  a cidadania &ndash; lembrando, a este prop&oacute;sito, o facto de muitos destes valores estarem a ser repensados  no &acirc;mbito de novas reflex&otilde;es (cr&iacute;ticas e criativas) sobre outras concep&ccedil;&otilde;es  poss&iacute;veis e desej&aacute;veis de democracia no tempo actual. Defende-se aqui, portanto, uma linha de  reflex&atilde;o e pesquisa que assente numa concep&ccedil;&atilde;o de <I>accountability</I> mais ampla, fundamentada  e complexa do ponto de vista te&oacute;rico-metodol&oacute;gico, pol&iacute;tico, axiol&oacute;gico e epistemol&oacute;gico.  Neste sentido, um sistema de <I>accountability</I> assim alicer&ccedil;ado n&atilde;o pode ser reduzido a uma  presta&ccedil;&atilde;o de contas ritual&iacute;stica ou simb&oacute;lica, nem ser associado a perspectivas  instrumentais, hier&aacute;rquico-burocr&aacute;ticas, gestion&aacute;rias ou de mero controlo, para as quais  parecem remeter, muitas vezes, os discursos e pr&aacute;ticas vulgares.</P>     <p>Ali&aacute;s, a refer&ecirc;ncia sistem&aacute;tica &agrave; presta&ccedil;&atilde;o de contas est&aacute;  na moda, valendo a pena perceber, por exemplo, as raz&otilde;es pelas quais os mecanismos de <I>accountability</I>  t&ecirc;m sido referenciados tanto por orienta&ccedil;&otilde;es neoliberais e neoconservadoras, quanto por  orienta&ccedil;&otilde;es de matizes ideol&oacute;gicas distintas (da social-democracia, do trabalhismo, da  <I>terceira via</I>, entre outras). A este prop&oacute;sito, Gert Biesta refere que &ldquo;a ideia de  <I>accountability</I> pode ser relativamente imune &agrave; ideologia pol&iacute;tica&rdquo;, como mostram,  por exemplo, no caso da Inglaterra, tanto os governos do New Labour como os governos do Partido Conservador,  os quais lhe deram grande &ecirc;nfase (Biesta, 2004, p. 234). N&atilde;o admira, ali&aacute;s, que isto ocorra  dado que, como escrevi anteriormente, esta &ldquo;relativa indiferen&ccedil;a &agrave;s diferen&ccedil;as  pol&iacute;tico-ideol&oacute;gicas&rdquo; tem estado igualmente presente no que diz respeito &agrave;s pol&iacute;ticas  de avalia&ccedil;&atilde;o (cf., por exemplo, Afonso, 2001, 2007, 2008). Neste sentido, face &agrave;s tend&ecirc;ncias  hegem&oacute;nicas decorrentes de uma agenda global mais ampla, onde &eacute; central o papel das  organiza&ccedil;&otilde;es internacionais e supranacionais (OCDE, UE; BM, OMC&hellip;), o facto &eacute; que, nas  &uacute;ltimas d&eacute;cadas, pelo menos nos pa&iacute;ses capitalistas ocidentais, as pol&iacute;ticas de  avalia&ccedil;&atilde;o, de presta&ccedil;&atilde;o de contas e de responsabiliza&ccedil;&atilde;o (<I>accountability</I>) foram ganhando uma certa imunidade &agrave;s concep&ccedil;&otilde;es pol&iacute;tico-ideol&oacute;gicas dos governos,  disseminando e homogeneizando muitos dos seus efeitos, como se essas mesmas pol&iacute;ticas ganhassem o seu verdadeiro  sentido situando-se acima das realidades culturais, pol&iacute;ticas, econ&oacute;micas e educacionais nacionais. Esta  tend&ecirc;ncia, entre outras consequ&ecirc;ncias, tem aumentado a efic&aacute;cia legitimadora destas pol&iacute;ticas,  tornando mais dif&iacute;cil desocultar os interesses, demandas e fun&ccedil;&otilde;es que lhe subjazem.</P>     <p>H&aacute; certamente alguns factos sociais que podem explicar esta aparente    consensualidade e transversalidade dos discursos de <I>accountability</I>. Entre    outros, podem referir-se sucintamente os seguintes: i) Quando a crise da escola    come&ccedil;ou, em alguns pa&iacute;ses, a ser atribu&iacute;da a certos m&eacute;todos    pedag&oacute;gicos e ao suposto mau uso da autonomia profissional dos professores,    e foi agravada pelas repercuss&otilde;es sociais dos estudos internacionais    comparativos relativos aos resultados escolares (<I>rankings</I> internacionais),    a press&atilde;o para refor&ccedil;ar medidas de avalia&ccedil;&atilde;o e de    <I>accountability</I> n&atilde;o tardou a fazer-se sentir<Sup><a href="#3">3</a><a name="top3"></a></Sup>;    ii) quando a emerg&ecirc;ncia neoliberal e neoconservadora se traduziu na cria&ccedil;&atilde;o    de mercados e quase-mercados em educa&ccedil;&atilde;o e na valoriza&ccedil;&atilde;o    da liberdade de escolha educacional das fam&iacute;lias, cresceram as demandas    pela publicita&ccedil;&atilde;o de resultados educacionais mensur&aacute;veis    e, portanto, tamb&eacute;m por processos de avalia&ccedil;&atilde;o e de <I>accountability</I>;    iii) quando o Estado se tornou mais forte, n&atilde;o apenas para (paradoxalmente)    impor a sua pr&oacute;pria redu&ccedil;&atilde;o no campo econ&oacute;mico,    mas tamb&eacute;m para assumir mais explicitamente o exerc&iacute;cio do controlo    social, nomeadamente atrav&eacute;s da defini&ccedil;&atilde;o mais apertada    de objectivos educacionais, os mecanismos de avalia&ccedil;&atilde;o e <I>accountability</I>    foram accionados como instrumento de controlo centralizado dos sistemas educativos;    iv) quando a retrac&ccedil;&atilde;o (real ou ideologicamente constru&iacute;da)    dos Estados-provid&ecirc;ncia levou &agrave; racionaliza&ccedil;&atilde;o de    custos e investimentos p&uacute;blicos e permitiu a indu&ccedil;&atilde;o de    l&oacute;gicas de co-responsabiliza&ccedil;&atilde;o da sociedade civil, a avalia&ccedil;&atilde;o    e a <I>accountability</I> foram exigidas como consequ&ecirc;ncia de processos    de autonomia e de descentraliza&ccedil;&atilde;o; v) quando o direito dos cidad&atilde;os    &agrave; informa&ccedil;&atilde;o sobre o que ocorre na <I>res publica </I>(ali&aacute;s,    muito arreigado em certas tradi&ccedil;&otilde;es e em certos pa&iacute;ses    como os EUA) anda associado &agrave; ideia de democracia e de responsabilidade,    &eacute; esperada a valoriza&ccedil;&atilde;o de processos de avalia&ccedil;&atilde;o    e <I>accountability</I>; vi) e quando as formas de <I>accountability</I> se    sustentam fundamentalmente na aplica&ccedil;&atilde;o de instrumentos validados    cient&iacute;fica e tecnicamente, como &eacute; o caso dos testes estandardizados,    percebe-se melhor a efic&aacute;cia da &ldquo;t&eacute;cnica e ci&ecirc;ncia    como ideologia&rdquo; e, portanto, a domin&acirc;ncia destes instrumentos de    avalia&ccedil;&atilde;o em muitos sistemas educativos, a n&iacute;vel nacional    e internacional<Sup><a href="#4">4</a><a name="top4"></a></Sup>.</P>      ]]></body>
<body><![CDATA[<P><B>Accountability baseada em instrumentos de avalia&ccedil;&atilde;o estandardizados </B></P>      <p>No quotidiano das institui&ccedil;&otilde;es e organiza&ccedil;&otilde;es, como as escolas, h&aacute;  sempre modos informais de <I>accountability</I>, mas s&atilde;o os sistemas formais que t&ecirc;m vindo  a ganhar import&acirc;ncia. Um sistema formal de <I>accountability</I> consiste em mensurar e codificar  padr&otilde;es de resultados e prever determinadas consequ&ecirc;ncia quando se atingem ou n&atilde;o esses  resultados. Por isso, a informa&ccedil;&atilde;o &eacute; crescentemente quantitativa e os m&eacute;todos  de mensura&ccedil;&atilde;o s&atilde;o estandardizados (cf. Hoffer, 2000). Ali&aacute;s, esta maior  formaliza&ccedil;&atilde;o tem rela&ccedil;&otilde;es evidentes com a emerg&ecirc;ncia do chamado  <I>Estado-avaliador</I> e com a dissemina&ccedil;&atilde;o de uma nova gest&atilde;o p&uacute;blica  (<I>new </I><I>public management</I>) onde a defini&ccedil;&atilde;o pr&eacute;via de objectivos e a  sua mensura&ccedil;&atilde;o e quantifica&ccedil;&atilde;o s&atilde;o aspectos centrais. N&atilde;o &eacute;,  portanto, por acaso que algumas formas de <I>accountability</I> em educa&ccedil;&atilde;o t&ecirc;m sido  estruturadas tendo como fundamento, exclusivo ou predominante, os resultados dos testes estandardizados no  &acirc;mbito de avalia&ccedil;&otilde;es externas. </P>     <p>Apesar disto, nenhum sistema de avalia&ccedil;&atilde;o, presta&ccedil;&atilde;o    de contas e responsabiliza&ccedil;&atilde;o (<I>accountability</I>) bem fundamentado    em termos pol&iacute;ticos, culturais, &eacute;ticos, t&eacute;cnico-cient&iacute;ficos    e educacionais, pode esgotar-se na mera recolha e publicita&ccedil;&atilde;o    de informa&ccedil;&otilde;es baseadas em testes, mesmo que estandardizados.    Esta situa&ccedil;&atilde;o &eacute; ainda mais question&aacute;vel quando os    resultados acad&eacute;micos dos alunos acabam por ser tamb&eacute;m um crit&eacute;rio    fundamental para a avalia&ccedil;&atilde;o das escolas e para a avalia&ccedil;&atilde;o    dos pr&oacute;prios professores. Mas &eacute; precisamente esta a tend&ecirc;ncia    que tem vindo a verificar-se h&aacute; anos, e em diferentes sistemas educativos    &ndash; e que tem sido muito discutida, por distintas raz&otilde;es, quer por    defensores, quer por cr&iacute;ticos contundentes dos testes estandardizados.    A organiza&ccedil;&atilde;o <I>FairTest</I>, por exemplo, tem analisado a experi&ecirc;ncia    de utiliza&ccedil;&atilde;o de testes estandardizados em contexto americano,    nomeadamente a que foi desenvolvida no &acirc;mbito da reforma educativa de    George W. Bush, conhecida como <I>No Child Left Behind</I> <I>Act</I>. Neste    &acirc;mbito, a <I>accountability</I> baseia-se nos resultados dos testes estandardizados    e inclui san&ccedil;&otilde;es, recompensas ou interven&ccedil;&otilde;es, dirigidas    tanto a distritos escolares como a estabelecimentos de ensino, professores e    estudantes<Sup><a href="#5">5</a><a name="top5"></a></Sup>. Para aquela organiza&ccedil;&atilde;o,    o modelo de <I>accountability</I> em causa &ldquo;n&atilde;o apenas mostrou    grandes insufici&ecirc;ncias como criou efeitos secund&aacute;rios indesej&aacute;veis    (cf. FairTest, 2007). Um outro aspecto tamb&eacute;m relacionado com a reforma    <I>No Child Left Behind</I>, diz respeito &agrave; avalia&ccedil;&atilde;o conhecida    como <I>high-stakes testing</I>, ou seja, a realiza&ccedil;&atilde;o de<I> </I>testes    que t&ecirc;m importantes implica&ccedil;&otilde;es para os avaliados, nomeadamente    pela possibilidade de acesso a certificados e graus acad&eacute;micos e pela    atribui&ccedil;&atilde;o de recompensas ou san&ccedil;&otilde;es em fun&ccedil;&atilde;o    da prossecu&ccedil;&atilde;o ou n&atilde;o de objectivos precisos em mat&eacute;ria    de sucesso escolar, podendo ir, neste &uacute;ltimo caso, at&eacute; ao encerramento    das escolas que n&atilde;o atinjam determinados n&iacute;veis. O uso de <I>high-stakes    testing</I> significa, em &uacute;ltima inst&acirc;ncia, que os resultados dos    testes estandardizados constituem o &uacute;nico factor para a tomada de decis&otilde;es    cruciais sobre as escolas, os professores e estudantes. Por estas raz&otilde;es,    e tamb&eacute;m pelo facto de a sua aplica&ccedil;&atilde;o poder dar origem    a efeitos n&atilde;o desej&aacute;veis, os testes com estas caracter&iacute;sticas    t&ecirc;m sido fortemente criticados por diversos sectores sociais e da educa&ccedil;&atilde;o,    e por prestigiadas associa&ccedil;&otilde;es cient&iacute;ficas<Sup><a href="#6">6</a><a name="top6"></a></Sup>.  </P>     <p>Se &eacute; verdade que os testes estandardizados n&atilde;o s&atilde;o uma    novidade no sistema educativo norte-americano (Koretz, 2002), tamb&eacute;m    &eacute; verdade que houve algo de novo na &uacute;ltima reforma conservadora    de George W. Bush, nomeadamente um maior &ldquo;intervencionismo federal num    sistema largamente descentralizado e a extens&atilde;o do regime de san&ccedil;&otilde;es    contra as escolas p&uacute;blicas&rdquo; (Normand, 2008, p. 53). Por&eacute;m,    os conceitos de <I>accountability</I> e de <I>high-stakes testing</I> come&ccedil;aram    a ser referenciados e implementados de forma crescente na fase posterior &agrave;    publica&ccedil;&atilde;o do relat&oacute;rio <I>A Nation at Risk</I>. Com efeito,    antes da d&eacute;cada de 1980, o termo <I>accountability</I> n&atilde;o era    muito ouvido nos debates sobre educa&ccedil;&atilde;o, nem considerado como    meio decisivo para melhorar o desempenho das escolas e dos sistemas educativos    (cf., por exemplo, Dubnick, 2006)<Sup><a href="#7">7</a><a name="top7"></a></Sup>.    Por esta raz&atilde;o, os referentes mais pr&oacute;ximos das pol&iacute;ticas    a que acabamos de aludir devem ser localizados nos anos oitenta do s&eacute;culo    XX, nos governos da <I>nova direita</I>, quer nos EUA, quer na Inglaterra (para    este &uacute;ltimo caso, ver, por exemplo, Epstein, 1993).</P>     <p>Estes governos, pela sua natureza h&iacute;brida, articulando conjunturalmente as ideologias neoconservadora  e neoliberal, constituem exemplos paradigm&aacute;ticos de viragem nos modos de governa&ccedil;&atilde;o dos  sistemas educativos, nomeadamente pela utiliza&ccedil;&atilde;o das avalia&ccedil;&otilde;es externas, baseadas  em testes estandardizados, como estrat&eacute;gia de indu&ccedil;&atilde;o de medidas de privatiza&ccedil;&atilde;o  e/ou l&oacute;gicas de <I>quase-mercado</I> em educa&ccedil;&atilde;o, mas tamb&eacute;m de aumento do controlo  central do Estado &ndash; e, em decorr&ecirc;ncia disso, de indu&ccedil;&atilde;o de formas ou modelos de  <I>accountability </I>em educa&ccedil;&atilde;o compat&iacute;veis com esses instrumentos de avalia&ccedil;&atilde;o.  Como conclu&iacute; noutros trabalhos a este prop&oacute;sito, a <I>avalia&ccedil;&atilde;o estandardizada criterial</I> <I>com publicita&ccedil;&atilde;o de resultados</I>, isto &eacute;, a avalia&ccedil;&atilde;o que visa o controlo  de objectivos previamente definidos (enquanto produtos ou resultados educacionais), &eacute; que foi sendo  gradualmente apontada como um dos tra&ccedil;os distintivos das mudan&ccedil;as nas pol&iacute;ticas avaliativas.  Isto aconteceu porque a introdu&ccedil;&atilde;o da <I>avalia&ccedil;&atilde;o estandardizada criterial</I>  &eacute; congruente com o exerc&iacute;cio do controlo por parte do Estado e, simultaneamente, porque a  <I>publica&ccedil;&atilde;o dos resultados</I> dessa mesma avalia&ccedil;&atilde;o induz a expans&atilde;o do mercado  (e do quase-mercado) em educa&ccedil;&atilde;o. Assim, a avalia&ccedil;&atilde;o estandardizada criterial  com publicita&ccedil;&atilde;o de resultados tornou-se inicialmente um instrumento importante para a  implementa&ccedil;&atilde;o da agenda educacional da <I>nova direita</I>, e continuou a s&ecirc;-lo para  governos de outras orienta&ccedil;&otilde;es pol&iacute;tico-ideol&oacute;gicas. N&atilde;o surpreende, portanto,  que a avalia&ccedil;&atilde;o tivesse, de forma congruente, sido accionada como suporte de processos de  presta&ccedil;&atilde;o de contas e de responsabiliza&ccedil;&atilde;o relacionados com os <I>resultados</I>  educacionais e acad&eacute;micos. Se &eacute; verdade, como acima referi, que emergiu o <I>Estado-avaliador</I>,  tamb&eacute;m &eacute; verdade que as mudan&ccedil;as nas pol&iacute;ticas avaliativas foram igualmente marcadas  pela introdu&ccedil;&atilde;o de mecanismos de mercado. &Eacute; isto que explica que o controlo sobre os  resultados escolares n&atilde;o tenha sido subordinado, nem se tenha restringido, a uma mera l&oacute;gica  burocr&aacute;tica &mdash; o que tornou a actua&ccedil;&atilde;o do Estado neste campo claramente distinta  das estrat&eacute;gias adoptadas em outras &eacute;pocas e em outros contextos hist&oacute;ricos (cf. Afonso,  1998, 1999, 2005, 2007). Em termos de <I>accountability</I>, estar&iacute;amos, neste &uacute;ltimo caso,  perante um modelo distinto do modelo hier&aacute;rquico-burocr&aacute;tico <I>tout court</I> em que a  presta&ccedil;&atilde;o de contas &eacute; essencialmente interna ao sistema educativo. Em vez disso, o modelo  subjacente &agrave;s pol&iacute;ticas atr&aacute;s sinalizadas tem um car&aacute;cter h&iacute;brido ou misto  porque a <I>accountability</I> envolve, por um lado, a sociedade civil e o mercado e, por outro, o pr&oacute;prio  Estado. N&atilde;o deixa de haver, todavia, nuances importantes, consoante os contextos nacionais uma vez que os  modelos de <I>accountability</I> s&atilde;o constructos sociais (cf. McCormick & James, 1983), apresentando  varia&ccedil;&otilde;es importantes consoante as rela&ccedil;&otilde;es de poder dominantes, e as tradi&ccedil;&otilde;es  culturais, ideol&oacute;gicas e institucionais. Apesar disso, um ponto de converg&ecirc;ncia encontrado em  tradi&ccedil;&otilde;es nacionais muito diferentes (como &eacute; o caso da Fran&ccedil;a e da Inglaterra)  p&ocirc;de ser traduzido pela preocupa&ccedil;&atilde;o de ambas em &ldquo;assegurarem o exerc&iacute;cio do  controlo atrav&eacute;s da linguagem da accountability&rdquo; (Broadfoot, 2000, p. 45). </P>      <P><B>Exames nacionais estandardizados e <I>rankings</I> das escolas em Portugal</B></P>      <p>Voltemo-nos agora um pouco para a realidade portuguesa. Durante o regime pol&iacute;tico    autorit&aacute;rio, que durou sensivelmente entre 1926 e os primeiros meses    de 1974, havia exames nacionais obrigat&oacute;rios e a progress&atilde;o e    certifica&ccedil;&atilde;o dos estudantes estavam muito dependentes desta avalia&ccedil;&atilde;o    externa. Com a revolu&ccedil;&atilde;o democr&aacute;tica de Abril de 1974,    estes exames (tradicionais) foram abolidos, tendo prevalecido, nas duas d&eacute;cadas    seguintes, uma avalia&ccedil;&atilde;o das aprendizagens &ldquo;essencialmente    interna e baseada na escola&rdquo; (Fernandes, 2007, p. 589). Em 1996, os exames    nacionais foram novamente introduzidos no final do ensino secund&aacute;rio    e, em 2005, no final da escolaridade obrigat&oacute;ria. Trata-se agora de provas    sumativas externas estandardizadas, mas que est&atilde;o longe de ter as mesmas    consequ&ecirc;ncias ou visar objectivos id&ecirc;nticos aos que t&ecirc;m os    <I>high-stakes testing</I> nos EUA. Com efeito, em Portugal, apesar da reintrodu&ccedil;&atilde;o    dos exames nacionais estandardizados e da realiza&ccedil;&atilde;o de provas<I>    aferidas</I>, a avalia&ccedil;&atilde;o interna realizada pelos professores    nas suas respectivas escolas e turmas continua a ter, ainda hoje, um peso muito    maior e mais decisivo em termos de progress&atilde;o e certifica&ccedil;&atilde;o    dos estudantes. S&atilde;o, todavia, os resultados destes exames externos estandardizados    que constituem a base para a organiza&ccedil;&atilde;o de <I>rankings</I> das    escolas, os quais, desde 2001, passaram a ser divulgados para a opini&atilde;o    p&uacute;blica, dando azo a muitos debates divergentes na sociedade portuguesa    relativamente aos seus verdadeiros objectivos, &agrave; pertin&ecirc;ncia ou    n&atilde;o pertin&ecirc;ncia das metodologias utilizadas na sua elabora&ccedil;&atilde;o    e aos efeitos sociais e educacionais da sua utiliza&ccedil;&atilde;o. Estes    <I>rankings</I>, por exemplo, depois de divulgados na comunica&ccedil;&atilde;o    social, t&ecirc;m sido interpretados por professores no &acirc;mbito das escolas    e, em muitos casos, s&atilde;o considerados uma boa raz&atilde;o para a adop&ccedil;&atilde;o    de medidas pedag&oacute;gicas e formas organizativas congruentes com estrat&eacute;gias    de manuten&ccedil;&atilde;o ou de melhoria em rela&ccedil;&atilde;o aos lugares    atribu&iacute;dos nessas listas ordenadas. Entre muitos outros efeitos, a preocupa&ccedil;&atilde;o    das escolas pelo seu lugar nos <I>rankings</I> pressiona e reconfigura as fun&ccedil;&otilde;es    quotidianas dos professores, n&atilde;o sendo por acaso que a avalia&ccedil;&atilde;o    de desempenho destes &uacute;ltimos tamb&eacute;m tende a ser associada aos    resultados e <I>performances</I> dos estudantes. Um estudo sociol&oacute;gico    recente confirma que os docentes do ensino secund&aacute;rio inquiridos passaram    a levar em considera&ccedil;&atilde;o os resultados dos <I>rankings </I>publicados    nos <I>mass media</I>, encetando, a partir da&iacute;, processos de reflex&atilde;o    tendo como preocupa&ccedil;&otilde;es centrais &ldquo;a imagem que &eacute;    projectada sobre a institui&ccedil;&atilde;o de ensino e, tamb&eacute;m, a sua    pr&oacute;pria imagem enquanto docentes&rdquo; (Melo, 2007a, p. 87)<Sup><a href="#8">8</a><a name="top8"></a></Sup>.    Por&eacute;m, acrescenta esta mesma autora em outro trabalho, &ldquo;mais do    que os <I>rankings</I> escolares &eacute; a exist&ecirc;ncia dos exames nacionais    que parece justificar o modo como os professores desenvolvem a sua ac&ccedil;&atilde;o    quotidiana&rdquo;. Esta diferen&ccedil;a de opini&otilde;es e atitudes relativamente    aos <I>rankings</I> e aos exames, foi relacionada, no referido estudo, com o    processo de recep&ccedil;&atilde;o das mensagens medi&aacute;ticas, sobretudo    com a &ldquo;<I>falta de credibilidade</I> e <I>confian&ccedil;a</I> que os    docentes atribuem aos crit&eacute;rios que presidem &agrave; elabora&ccedil;&atilde;o    das listas ordenadas das escolas&rdquo; e tamb&eacute;m devido &ldquo;ao facto    de ideologicamente defenderem a realiza&ccedil;&atilde;o de uma avalia&ccedil;&atilde;o    multidimensional [&hellip;]&rdquo; (Melo, 2008, p. 11). Apesar das fortes press&otilde;es    a que est&atilde;o actualmente submetidos, os professores n&atilde;o constituem    um monol&iacute;tico em termos de opini&otilde;es e pr&aacute;ticas. Tamb&eacute;m    por isso, este e outros estudos sobre a problem&aacute;tica dos <I>rankings</I>    em contexto portugu&ecirc;s t&ecirc;m sido fundamentais para perceber alguns    vectores, fragmenta&ccedil;&otilde;es e tens&otilde;es subjacentes &agrave;s    orienta&ccedil;&otilde;es de pol&iacute;tica educativa nos &uacute;ltimos anos.</P>     <p>Sabemos tamb&eacute;m que os <I>rankings</I> induzem efeitos de mercado (quando est&aacute; em causa  a compara&ccedil;&atilde;o e a eventual procura diferenciada entre escolas p&uacute;blicas e privadas), e  efeitos de <I>quase-mercado</I> (quando a compara&ccedil;&atilde;o e a procura diferenciada se efectuam  entre escolas p&uacute;blicas). No entanto, segundo alguns autores, o debate sobre os <I>rankings</I> em Portugal,  ao contr&aacute;rio do que ocorreu noutros pa&iacute;ses, ter&aacute; sido induzido mais por &ldquo;uma  reivindica&ccedil;&atilde;o em nome da necessidade de presta&ccedil;&atilde;o de contas e da transpar&ecirc;ncia&rdquo;  do que por uma &ldquo;op&ccedil;&atilde;o inequ&iacute;voca por uma orienta&ccedil;&atilde;o das  pol&iacute;ticas educativas para o mercado&rdquo; (Neto-Mendes; Costa & Ventura, 2003, p. 1). Com efeito,  h&aacute; alguma evid&ecirc;ncia emp&iacute;rica que sustenta a afirma&ccedil;&atilde;o dos autores, sobretudo  se atendermos &agrave; exist&ecirc;ncia de um &ldquo;neoliberalismo educacional mitigado&rdquo; (Afonso, 1997)  em que, muitas vezes, as l&oacute;gicas de mercado t&ecirc;m sido mais ret&oacute;ricas do que constitutivas  de decis&otilde;es concretas em termos de demanda e de investimento na educa&ccedil;&atilde;o escolar n&atilde;o  estatal. E tudo isso num contexto em que a escola p&uacute;blica continua a ser, apesar da crise que atravessa,  uma institui&ccedil;&atilde;o prestigiada no sistema educativo portugu&ecirc;s, a par da exist&ecirc;ncia de uma  escassa tradi&ccedil;&atilde;o e oferta do ensino privado, a que se soma, no momento actual, a retrac&ccedil;&atilde;o  do mercado e o abrandamento de iniciativas da sociedade civil (sobretudo da classe m&eacute;dia) devido &agrave;  crise econ&oacute;mica e financeira que, por sua vez, tem levado o Estado a reassumir de forma mais efectiva o  seu papel de provedor e regulador dos bens colectivos, como a educa&ccedil;&atilde;o. Mas se &eacute; verdade o  que acabei de afirmar, tamb&eacute;m, por outro lado, n&atilde;o deixa de ser facilmente demonstr&aacute;vel,  em diferentes esferas da vida social, a presen&ccedil;a da ideologia de mercado (e a sua materializa&ccedil;&atilde;o)  num conjunto heterog&eacute;neo de medidas e decis&otilde;es que se inscrevem numa orienta&ccedil;&atilde;o neoliberal  voltada para a privatiza&ccedil;&atilde;o de alguns organismos do Estado ou de alguns servi&ccedil;os  imprescind&iacute;veis ao funcionamento de institui&ccedil;&otilde;es e organiza&ccedil;&otilde;es p&uacute;blicas  (servi&ccedil;os de seguran&ccedil;a, limpeza, alimenta&ccedil;&atilde;o, manuten&ccedil;&atilde;o&hellip;),  verificando-se igualmente, atrav&eacute;s de l&oacute;gicas de quase-mercado, a privatiza&ccedil;&atilde;o da  gest&atilde;o de alguns hospitais e de outras organiza&ccedil;&otilde;es p&uacute;blicas, a concorr&ecirc;ncia  e competi&ccedil;&atilde;o entre institui&ccedil;&otilde;es p&uacute;blicas, como as escolas, e, dentro destas,  por exemplo, a adop&ccedil;&atilde;o de certos procedimentos de feitura de turmas e de distribui&ccedil;&atilde;o  do servi&ccedil;o docente, ou a valoriza&ccedil;&atilde;o de modelos e instrumentos de gest&atilde;o que, directa  ou indirectamente, induzem o individualismo competitivo e a sobreviv&ecirc;ncia neodarwinista dos supostamente  mais aptos (estudantes, professores ou funcion&aacute;rios).</P>     <p>Em s&iacute;ntese, para al&eacute;m de outras formas parcelares de <I>accountability</I>, actualmente  em desenvolvimento em Portugal, nomeadamente a que poder&aacute; decorrer da avalia&ccedil;&atilde;o de  desempenho dos professores e a que poder&aacute; advir da avalia&ccedil;&atilde;o institucional das  escolas p&uacute;blicas, estamos a assistir, simultaneamente, &agrave; emerg&ecirc;ncia de outras duas  que t&ecirc;m como &uacute;nico fundamento os resultados acad&eacute;micos dos estudantes. Mais concretamente,  temos, neste &uacute;ltimo caso, uma forma de <I>accountability</I> sustentada em exames nacionais  estandardizados e provas <I>aferidas</I>, que se constitui, de forma id&ecirc;ntica a outros pa&iacute;ses,  essencialmente como exerc&iacute;cio de controlo centralizado por parte do Estado; e temos ainda uma outra,  centrada nos <I>rankings</I> das escolas, que se pode considerar como sendo uma forma de <I>accountability</I>  por iniciativa da sociedade civil e do mercado, impulsionada, de forma decisiva no caso portugu&ecirc;s,  por alguns importantes <I>media</I> (privados) de comunica&ccedil;&atilde;o social. Embora fazendo parte do  mesmo sistema educativo, todas estas formas (mais ou menos elementares, lineares e relacion&aacute;veis) de  <I>accountability</I> est&atilde;o muito desarticuladas entre si, n&atilde;o constituindo, tamb&eacute;m por isso,  um modelo ou sistema integrado e congruente. Assim, podemos dizer que n&atilde;o existe ainda um sistema de  <I>accountability</I> na educa&ccedil;&atilde;o em Portugal, havendo, no entanto, orienta&ccedil;&otilde;es  pol&iacute;ticas, normativos legais, expectativas sociais e pr&aacute;ticas em curso que poder&atilde;o vir  a evoluir, a curto ou m&eacute;dio prazos, para algo mais pr&oacute;ximo disso. Apesar das d&uacute;vidas  decorrentes das ambiguidades e instabilidades que se observam em algumas medidas e processos, seria  desej&aacute;vel que da&iacute; resultasse uma estrutura mais duradoura de <I>avalia&ccedil;&atilde;o</I>,  <I>presta&ccedil;&atilde;o de contas</I> e <I>responsabiliza&ccedil;&atilde;o</I> &ndash; que fosse leve,  criativa, din&acirc;mica e aberta, mas tamb&eacute;m avan&ccedil;ada em termos culturais, democr&aacute;ticos  e epistemol&oacute;gicos. Essa estrutura, eventualmente com conex&otilde;es e interfaces mais complexas, mas bem  sustentadas e legitimadas, ter-se-ia de confrontar com especificidades de diferentes &acirc;mbitos (micro-profissional;  meso-organizacional ou institucional; macro-estatal; e mega-internacional ou supranacional), uma vez que,  relativamente &agrave; avalia&ccedil;&atilde;o, presta&ccedil;&atilde;o de contas e responsabiliza&ccedil;&atilde;o,  h&aacute; tradi&ccedil;&otilde;es, representa&ccedil;&otilde;es, desconfian&ccedil;as, expectativas, disponibilidades  e etapas diferenciadas de desenvolvimento (social, cultural, pol&iacute;tico, moral) que n&atilde;o podem deixar  de ser tidas em conta.</P>     <p>No contexto portugu&ecirc;s, a explica&ccedil;&atilde;o da relativa aus&ecirc;ncia    ou de um certo atraso no debate em torno das quest&otilde;es agora levantadas,    n&atilde;o pode deixar de ter em conta que a press&atilde;o social que se tem    exercido nos &uacute;ltimos anos sobre as escolas e os professores tem essencialmente    motiva&ccedil;&otilde;es de ordem ideol&oacute;gica, ainda que a ret&oacute;rica    comum remeta para quest&otilde;es de transpar&ecirc;ncia, direito &agrave; informa&ccedil;&atilde;o    e responsabiliza&ccedil;&atilde;o, deixando, no entanto, na penumbra, ou perturbando,    uma discuss&atilde;o aberta e amplamente participada que, com tempo de matura&ccedil;&atilde;o    e aperfei&ccedil;oamento, pudesse dar legitimidade social a uma configura&ccedil;&atilde;o    adequada de <I>accountability </I>na educa&ccedil;&atilde;o<Sup><a href="#9">9</a><a name="top9"></a></Sup>.    Naturalmente que, se queremos uma sociedade democr&aacute;tica que concretize    e pratique certos princ&iacute;pios e valores fundamentais, n&atilde;o podemos    deixar de defender a necessidade de essa mesma sociedade estar bem informada    e conhecer com o m&aacute;ximo de objectividade poss&iacute;vel o que ocorre    nas suas institui&ccedil;&otilde;es, nomeadamente nas escolas. Mas n&atilde;o    &eacute; com a utiliza&ccedil;&atilde;o de exames nacionais ou outras formas    similares de avalia&ccedil;&atilde;o externa estandardizada, transformadas em    instrumentos de controlo social, redutores e fortemente centralizados no Estado,    que se promove a avalia&ccedil;&atilde;o, presta&ccedil;&atilde;o de contas    e responsabiliza&ccedil;&atilde;o adequadas &agrave; pluralidade de objectivos,    miss&otilde;es, estruturas e actores que constituem o sistema educativo. Certamente    que os exames nacionais poder&atilde;o cumprir alguns objectivos importantes,    mas n&atilde;o estes. Tamb&eacute;m n&atilde;o se promove <I>accountability</I>    p&uacute;blica em educa&ccedil;&atilde;o com a indu&ccedil;&atilde;o de l&oacute;gicas    de mercado, muitas vezes conseguidas atrav&eacute;s de formas de compara&ccedil;&atilde;o    e competi&ccedil;&atilde;o esp&uacute;rias (alheias, por exemplo, &agrave;s    consequ&ecirc;ncias mais nefastas dos <I>rankings</I>), ou pela introdu&ccedil;&atilde;o    de mecanismos de privatiza&ccedil;&atilde;o e de mercantiliza&ccedil;&atilde;o    da educa&ccedil;&atilde;o que desvalorizam a escola p&uacute;blica enquanto    escola publicamente comprometida com os princ&iacute;pios da igualdade real    de oportunidades para todos, da <I>pluralidade de </I><I>excel&ecirc;ncias</I>,    da justi&ccedil;a educacional e da cidadania democr&aacute;tica. Certamente    que, como refere K. Ryan (2004), h&aacute; aspectos positivos nestas compara&ccedil;&otilde;es    sobretudo quando elas, desagregando determinados dados relativos a classe, g&eacute;nero,    ra&ccedil;a, entre outros, servem para revelar e denunciar importantes desigualdades    educacionais entre escolas. Todavia, na minha perspectiva, os usos que normalmente    s&atilde;o feitos das compara&ccedil;&otilde;es baseadas em resultados de exames    e testes estandardizados (nacionais e internacionais) n&atilde;o parecem ter    como central a preocupa&ccedil;&atilde;o com pol&iacute;ticas que promovam o    combate &agrave;s desigualdades subjacentes a essas mesmas estat&iacute;sticas,    tendendo assim, perante a diversidade e a heterogeneidade dos estudantes e dos    seus percursos, biografias, origens sociais, aprendizagens reais e condi&ccedil;&otilde;es    escolares, a &ldquo;silenciar a polissemia e a invisibilizar os sujeitos&rdquo;    (Esteban, 2008). Sabemos entretanto que algumas dessas preocupa&ccedil;&otilde;es    t&ecirc;m sido por vezes sinalizadas, mas nem sempre s&atilde;o consideradas    nas suas consequ&ecirc;ncias, quer nos estudos que s&atilde;o efectuados, quer    no patamar da tomada de decis&atilde;o pol&iacute;tica. Por esta raz&atilde;o,    o desafio maior &eacute; &ldquo;como desenvolver uma accountability em educa&ccedil;&atilde;o    com um car&aacute;cter mais democr&aacute;tico&rdquo; (Ryan, 2004, p. 456).    Um sistema de <I>accountability</I> democr&aacute;tico deve ser constru&iacute;do    democraticamente e visar objectivos democr&aacute;ticos, o que significa que    n&atilde;o se pode criar nenhum sistema tecnicamente ass&eacute;ptico ou politicamente    neutro. </P>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>A quest&atilde;o que se coloca no &acirc;mbito nacional sobre a predomin&acirc;ncia    de formas de <I>accountability</I> baseadas em exames nacionais ou em testes    estandardizados, tamb&eacute;m se coloca, com as devidas especificidades, no    contexto internacional. Com efeito, estamos a viver uma &eacute;poca de &ldquo;comparativismo    globalizador&rdquo; (cf. Cuss&oacute; & D&rsquo;Amico, 2005)<Sup><a href="#10">10</a><a name="top10"></a></Sup>    caracterizada pela centralidade do papel dos peritos e pela produ&ccedil;&atilde;o    de indicadores voltados para mensurar resultados dos sistemas educativos de    diferentes pa&iacute;ses (com particular incid&ecirc;ncia nos resultados acad&eacute;micos    dos estudantes), indicadores esses que se constituem em si mesmos como um pretexto    para justificar decis&otilde;es pol&iacute;ticas e influenciar as agendas para    a educa&ccedil;&atilde;o. Neste sentido, alguns autores t&ecirc;m vindo a chamar    a aten&ccedil;&atilde;o para as consequ&ecirc;ncias da constru&ccedil;&atilde;o    de projectos estat&iacute;sticos e respectivos indicadores como uma estrat&eacute;gia    de viabiliza&ccedil;&atilde;o e amplia&ccedil;&atilde;o de uma &ldquo;agenda    globalmente estruturada para a educa&ccedil;&atilde;o&rdquo;<Sup><a href="#11">11</a><a name="top11"></a></Sup>,    sendo disso exemplo o trabalho desenvolvido de forma sistem&aacute;tica, sobretudo    desde finais dos anos 1980, in&iacute;cio dos anos 1990, por ag&ecirc;ncias    internacionais como a OCDE, com os conhecidos relat&oacute;rios <I>Education    at </I><I>a Glance</I> (cf. Teodoro, 2003, 2005, 2008)<Sup> <a href="#12">12</a><a name="top12"></a></Sup>,    bem como com programas como o PISA (<I>Programme for International Student Assessment</I>),    mais especificamente voltados para a avalia&ccedil;&atilde;o e compara&ccedil;&atilde;o    de conhecimentos e compet&ecirc;ncia dos estudantes de v&aacute;rios pa&iacute;ses.    Neste &uacute;ltimo caso, apesar de essencialmente centrados nos estudantes,    estes estudos pretendem, todavia, dar informa&ccedil;&otilde;es cred&iacute;veis    sobre os n&iacute;veis de desempenho dos pr&oacute;prios sistemas educativos,    sendo por isso utilizados tamb&eacute;m pelos governos nacionais para tomar    (e legitimar) decis&otilde;es relativamente &agrave; pol&iacute;tica educacional<Sup><a href="#13">13</a><a name="top13"></a></Sup>.    Mais ainda: s&atilde;o assumidos muitas vezes de forma acr&iacute;tica, como    se fossem t&eacute;cnica, cultural e politicamente neutros e, em qualquer circunst&acirc;ncia,    compar&aacute;veis com outras realidades organizativas, culturais e educacionais    independentemente das condi&ccedil;&otilde;es e especificidades de cada pa&iacute;s<Sup><a href="#14">14</a><a name="top14"></a></Sup>.  </P>      <p><B>Reflex&otilde;es finais</B></P>      <p>Na esteira de alguma literatura especializada, reconhecemos a polissemia e    multidimensionalidade do conceito de <I>accountability</I>, e opt&aacute;mos    por n&atilde;o traduzir o termo para podermos refor&ccedil;ar a ideia de que    ele deve significar algo mais do que a simples presta&ccedil;&atilde;o de contas.    Com efeito, defendemos o ponto de vista de que a <I>accountability</I> pode    ser conceptualizada como um sistema denso do ponto de vista pol&iacute;tico,    axiol&oacute;gico e epistemol&oacute;gico, bem como um sistema complexo em termos    de procedimentos, dimens&otilde;es e pr&aacute;ticas, em que a avalia&ccedil;&atilde;o,    a presta&ccedil;&atilde;o de contas e a responsabiliza&ccedil;&atilde;o devem,    sempre que poss&iacute;vel, estar integradas ou ser integr&aacute;veis. Talvez    se possa mesmo argumentar, como fez Darling-Hammond (2004), que os testes s&atilde;o    uma fonte de informa&ccedil;&atilde;o para um sistema de <I>accountability</I>,    mas n&atilde;o s&atilde;o em si mesmos esse sistema. Foram, no entanto, certas    formas de <I>accountability</I>, com escassa complexidade e densidade, que surgiram    associadas &agrave; implementa&ccedil;&atilde;o de exames nacionais e testes    estandardizados, apesar de estes serem instrumentos cada vez mais centrais na    recolha de dados, nacionais e internacionais, para apoiar a decis&atilde;o pol&iacute;tica    em educa&ccedil;&atilde;o. Do meu ponto de vista, estas formas parcelares de    <I>accountability</I> sustentam-se ainda numa vis&atilde;o despolitizada e tecnicizada    da educa&ccedil;&atilde;o. N&atilde;o se trata, no entanto, de defender uma    leitura intransigente ou adversa relativamente a qualquer forma de avalia&ccedil;&atilde;o    comparada, a n&iacute;vel nacional ou internacional. Uma posi&ccedil;&atilde;o    ponderada, sem deixar de ser cr&iacute;tica, &eacute; aquela que quer levar    a s&eacute;rio as agendas que est&atilde;o a tomar-se hegem&oacute;nicas atrav&eacute;s    do &ldquo;governo por n&uacute;meros&rdquo; <Sup><a href="#15">15</a><a name="top15"></a></Sup>.    Com efeito, tal como lembra Gert Biesta, o problema que resulta da abund&acirc;ncia    de informa&ccedil;&atilde;o sobre os resultados educacionais d&aacute; a impress&atilde;o    de que as decis&otilde;es e orienta&ccedil;&otilde;es sobre as pol&iacute;tica    e pr&aacute;ticas educativas podem basear-se somente em informa&ccedil;&atilde;o    factual. Por essa raz&atilde;o, perante a tend&ecirc;ncia actual de focalizar    as quest&otilde;es educacionais quase exclusivamente na mensura&ccedil;&atilde;o    e compara&ccedil;&atilde;o dos resultados educacionais, h&aacute; necessidade    de retomar a discuss&atilde;o sobre os fins e prop&oacute;sitos da Educa&ccedil;&atilde;o.    Neste sentido, segundo este autor, um dos problemas &eacute; a aus&ecirc;ncia    de um pensamento comprometido com valores com o qual seja decisivo discutir    o que &eacute; educativamente desej&aacute;vel (cf. Biesta, 2009). </P>     <p>Em s&iacute;ntese, t&atilde;o ou mais importante do que as quest&otilde;es te&oacute;ricas e  metodol&oacute;gicas referidas, torna-se necess&aacute;rio assumir, desde logo, que a constru&ccedil;&atilde;o  de modelos democr&aacute;ticos e transparentes de avalia&ccedil;&atilde;o, presta&ccedil;&atilde;o de contas e  de responsabiliza&ccedil;&atilde;o (<I>accountability</I>) implica igualmente a valoriza&ccedil;&atilde;o social,  cultural e pol&iacute;tica dos processos de participa&ccedil;&atilde;o, negocia&ccedil;&atilde;o e  justifica&ccedil;&atilde;o, e a adop&ccedil;&atilde;o de modelos expl&iacute;citos de justi&ccedil;a e  equidade (social, educacional e avaliativa). <I>Accountability</I> n&atilde;o &eacute;, portanto, uma mera  quest&atilde;o simb&oacute;lica ou ret&oacute;rica &ndash; que alguns discursos tendem a naturalizar porque,  impl&iacute;cita ou explicitamente, a associam a uma concep&ccedil;&atilde;o restrita e ritual&iacute;stica  de democracia formal, enquanto regime baseado apenas na consagra&ccedil;&atilde;o legal ou jur&iacute;dica  de direitos e deveres &ndash;, mas, antes, uma quest&atilde;o ampla de cultura pol&iacute;tica e de  ac&ccedil;&atilde;o moral e &eacute;tica que tem a ver com a qualidade e profundidade das pr&aacute;ticas  democr&aacute;ticas, ou seja, com uma democracia substantiva, participativa e cr&iacute;tica. Ao  contr&aacute;rio do que afirma Melvin Dubnick (2006), n&atilde;o nos parece que soframos de uma obsess&atilde;o  com o conceito de <I>accountability</I>. Pelo contr&aacute;rio, pelo menos nas nossas sociedades  ibero-americanas temos muito caminho para andar no sentido de implementar modelos verdadeiramente democr&aacute;ticos  de <I>accountability</I> em educa&ccedil;&atilde;o. Convergindo com Daniel Koretz (2002), o que &eacute;  necess&aacute;rio &eacute; um activo programa de pesquisa que se direccione para o desenvolvimento de modelos  de <I>accountability</I> alternativos &agrave;queles que s&atilde;o actualmente dominantes.</P>      <p>&nbsp;</p>      <p><B>Notas</B></P>      <p><Sup><a href="#top1">1</a><a name="1"></a></Sup> Trata-se, em certos aspectos,    de uma an&aacute;lise que se inscreve na cr&iacute;tica ao que Lic&iacute;nio    Lima tem designado <I>educa&ccedil;&atilde;o cont&aacute;bil</I>. Para este    autor, a &ldquo;<I>educa&ccedil;&atilde;o que conta</I>&rdquo; &eacute; &ldquo;aquela    que &eacute; orientada segundo objectivos precisos e que dessa forma se torna    <I>cont&aacute;vel</I> atrav&eacute;s da a&ccedil;&atilde;o de inst&acirc;ncias    de <I>contadoria</I> e dos respectivos agentes e processos <I>contadores</I>&rdquo;.    Esta &ldquo;<I>educa&ccedil;&atilde;o cont&aacute;bil</I> tende a centrar-se    no c&aacute;lculo e na mensura&ccedil;&atilde;o de resultados (desvalorizando    os processos e resultados mais dif&iacute;ceis de contabilizar)[&hellip;].Enquanto    orienta&ccedil;&atilde;o pol&iacute;tica, a <I>educa&ccedil;&atilde;o cont&aacute;bil</I>    evidencia uma alta capacidade de discrimina&ccedil;&atilde;o da educa&ccedil;&atilde;o    que <I>conta</I> e da educa&ccedil;&atilde;o que <I>n&atilde;o conta</I>, ou    <I>conta menos</I>&rdquo; (Lima, 1997, p. 55).</P>      <p><Sup><a href="#top2">2</a><a name="2"></a></Sup> Para uma interessante discuss&atilde;o    sobre a possibilidade actual do exerc&iacute;cio da responsabilidade no contexto    da p&oacute;s-modernidade, ver Zygmund Bauman (1997). Ver tamb&eacute;m a reflex&atilde;o    de Gert Biesta (2004) a prop&oacute;sito da <I>accountability</I>, convocando    precisamente o pensamento de Bauman sobre a quest&atilde;o da responsabilidade.</P>      <p><Sup><a href="#top3">3</a><a name="3"></a></Sup> Como se explica neste texto,    h&aacute; uma coincid&ecirc;ncia entre a reforma <I>A Nation at Risk</I> do    in&iacute;cio dos anos 1980 nos EUA e a nova vaga de<I> accountability</I> baseada    em testes estandardizados. Mas tamb&eacute;m na Inglaterra, o famoso caso da    escola William Tyndale, que Roger Dale analisa num dos seus trabalhos, ficou    para a hist&oacute;ria como um caso paradigm&aacute;tico de ataque &agrave;    autonomia dos professores e aos m&eacute;todos pedag&oacute;gicos mais inovadores.    Foi esse, ali&aacute;s, um dos temas do n&atilde;o menos famoso discurso do    ministro Trabalhista James Callaghan pronunciado no Ruskin College em 1976 no    &ldquo;grande debate&rdquo; da educa&ccedil;&atilde;o (Dale, 1986). Como refere    a este mesmo prop&oacute;sito S. Ranson, &ldquo;[&hellip;]it inaugurated an    era of accountability and restructuring of the government of education. The    curriculum would no longer be the &lsquo;secret garden&rsquo; of an autonomous    professional accountability&rdquo; (Ranson, 2003, p. 459).</P>      <p><Sup><a href="#top4">4</a><a name="4"></a></Sup> Do meu ponto de vista, o predom&iacute;nio    dos testes estandardizados tamb&eacute;m pode, por exemplo, ser pensado no quadro    de uma perspectiva Habermasiana. Para uma reflex&atilde;o sobre os fundamentos    te&oacute;ricos necess&aacute;rios a um eventual exerc&iacute;cio de transposi&ccedil;&atilde;o,    ver, por exemplo, Habermas (1987).</P>      ]]></body>
<body><![CDATA[<p><Sup><a href="#top5">5</a><a name="5"></a></Sup> Como referia Daniel Koretz    em 2002, &ldquo;Currently, 20 states have implemented or plan to implement systems    in which schools or educators receive rewards, sanctions, or both on the basis    of students&rsquo; test scores&rdquo; (Koretz, 2002, p. 752). A administra&ccedil;&atilde;o    do novo presidente norte-americano, Barack Obama, introduzir&aacute; certamente    algumas altera&ccedil;&otilde;es e rupturas importantes nas orienta&ccedil;&otilde;es    de pol&iacute;tica educativa. Mantendo a &ecirc;nfase na accountability, uma    dessas mudan&ccedil;as parece ir no sentido de retirar import&acirc;ncia &agrave;s    san&ccedil;&otilde;es negativas que pesam sobre as escolas que apresentem piores    resultados e, ao contr&aacute;rio, aumentar o apoio para que elas possam melhorar.    No <I>site</I> da Casa Branca podem ler-se, a este prop&oacute;sito, algumas    das inten&ccedil;&otilde;es do Presidente Obama e do Vice-Presidente Biden:    &ldquo;Their vision for a 21st century education begins with demanding more    reform and accountability, coupled with the resources needed to carry out that    reform; asking parents to take responsibility for their children&rsquo;s success;    and recruiting, retaining, and rewarding an army of new teachers to fill new    successful schools that prepare our children for success in college and the    workforce. [&hellip;] Obama and Biden will reform NCLB, which starts by funding    the law. Obama and Biden believe teachers should not be forced to spend the    academic year preparing students to fill in bubbles on standardized tests. They    will improve the assessments used to track student progress to measure readiness    for college and the workplace and improve student learning in a timely, individualized    manner. Obama and Biden will also improve NCLB&rsquo;s accountability system    so that we are supporting schools that need improvement, rather than punishing    them&rdquo;. (cf. <a href="http://www.whitehouse.gov/issues/education/" target="_blank">http://www.whitehouse.gov/agenda/education/</a>,    consultado em 20 de Fevereiro de 2009).</P>      <p><Sup><a href="#top6">6</a><a name="6"></a></Sup> A este prop&oacute;sito, a    Associa&ccedil;&atilde;o Americana de Avalia&ccedil;&atilde;o escreve: &ldquo;Although    used for more than two decades, state mandated high stakes testing has not improved    the quality of schools; nor diminished disparities in academic achievement along    gender, race or class lines; nor moved the country forward in moral, social,    or economic terms. The American Evaluation Association (AEA) is a staunch supporter    of accountability, but not test driven accountability. AEA joins many other    professional associations in opposing the inappropriate use of tests to make    high stakes decisions&rdquo; (cf. <a href="http://www.eval.org/hst3.htm" target="_blank">http://www.eval.org/hst3.htm</a>,    consultado em 20 de Fevereiro de 2009).</P>      <p><Sup><a href="#top7">7</a><a name="7"></a></Sup> Agrade&ccedil;o ao professor    Melvin J. Dubnick a autoriza&ccedil;&atilde;o que me deu para citar o seu texto.    Sobre o meu assunto, &eacute; tamb&eacute;m bastante pertinente a s&iacute;ntese    de Koretz. &ldquo;Monitoring the performance of educational systems and holding    educators accountable were among the motivations for early use of standardized    tests. Nonetheless, for the first several decades after World War II, tests    were used primarily to assess individual students and, to a lesser degree, to    evaluate curricula, and their use for monitoring and accountability was limited.    [&hellip;] The use of achievement tests have changed dramatically over the past    three decades, however. Tests have become increasingly important as a tool &ndash;    arguably, now the central tool &ndash; for holding educators and system accountable&rdquo;    (Koretz. 2002, p. 753).</P>      <p><Sup><a href="#top8">8</a><a name="8"></a></Sup> Mas, como chama a aten&ccedil;&atilde;o    Maria Benedita Melo, os &ldquo;efeitos reflexivos dos rankings s&atilde;o mais    comp&oacute;sitos e pontuais do que lineares e gerais&rdquo;. Com efeito, &ldquo;O    tema da avalia&ccedil;&atilde;o do ensino p&uacute;blico, sob a forma de <I>rankings</I>    das escolas, suscita a produ&ccedil;&atilde;o e difus&atilde;o de representa&ccedil;&otilde;es    sociais e profissionais diametralmente opostas. A profus&atilde;o de objectivos    e fun&ccedil;&otilde;es com os quais a escola e os professores s&atilde;o actualmente    confrontados revela-se nos discursos. &Agrave; ret&oacute;rica da igualdade    de oportunidades, da democratiza&ccedil;&atilde;o da escola e da educa&ccedil;&atilde;o    para a cidadania contrap&otilde;e-se a que valoriza a qualidade da escola e    do ensino, a meritocracia, o individualismo e o direito &agrave; escolha da    escola pelos encarregados de educa&ccedil;&atilde;o&rdquo; (Melo, 2007b, p.    2 e p. 165). Para uma outra an&aacute;lise sobre os rankings em Portugal, ver,    por exemplo, S&aacute; & Antunes (2007). </P>      <p><Sup><a href="#top9">9</a><a name="9"></a></Sup> Quando essa legitimidade n&atilde;o    existe ou entra em eros&atilde;o &eacute; mais dif&iacute;cil chegar a uma forma    adequada de <I>accountability</I>, como acontecimentos recentes demonstram.    Alguma precipita&ccedil;&atilde;o na decis&atilde;o pol&iacute;tica, o di&aacute;logo    e concerta&ccedil;&atilde;o insuficientes e a falta de ampla participa&ccedil;&atilde;o    dos sujeitos interessados foram, entre outras, algumas das raz&otilde;es apontadas,    por exemplo, para a exist&ecirc;ncia de d&eacute;fices na defini&ccedil;&atilde;o    do modelo de avalia&ccedil;&atilde;o do desempenho docente aprovado pelo governo    sustentado pelo Partido Socialista portugu&ecirc;s &ndash; o que deu origem    a grandes manifesta&ccedil;&otilde;es p&uacute;blicas de professores, durante    o ano de 2008, com a participa&ccedil;&atilde;o das principais federa&ccedil;&otilde;es    sindicais (FENPROF e FNE).</P>      <p><Sup><a href="#top10">10</a><a name="10"></a></Sup> &ldquo;By globalization    comparativism we mean that organizations define and use statistical comparison    not only to implement tighter monitoring of education reform but also to support    the modification of the way international political decisions are taken, i.e.    more power is currently given to experts and technicians when defining the mission    of international statistical programmes than to an intergovernmental assembly.    This is partly explained by the fact that production of international figures    is deemed a technical activity essentially concerned with definition of quality    standards&rdquo; (Cuss&oacute; & D&rsquo;Amico, 2005, p. 201).</P>      <p><Sup><a href="#top11">11</a><a name="11"></a></Sup> Para uma interpreta&ccedil;&atilde;o    mais desenvolvida do que se entende por &ldquo;agenda globalmente estruturada    para a educa&ccedil;&atilde;o&rdquo;, ver Roger Dale (2004). </P>      <p><Sup><a href="#top12">12</a><a name="12"></a></Sup> Como refere Ant&oacute;nio    Teodoro, &ldquo;Hoje, os programas j&aacute; n&atilde;o s&atilde;o tanto de    assist&ecirc;ncia bilateral, mas s&atilde;o programas que se pautam fundamentalmente    mais por construir uma agenda. O que tenho defendido como hip&oacute;tese &eacute;    que essa agenda &eacute; feita fundamentalmente pelos grandes inqu&eacute;ritos    conduzidos pelas organiza&ccedil;&otilde;es internacionais, particularmente    pelo Center for Educational Research and Innovation (CERI) da Organiza&ccedil;&atilde;o    para a Coopera&ccedil;&atilde;o e Desenvolvimento Econ&oacute;mico (OCDE), onde    est&aacute; o centro pensante (<I>think thank</I>) actual das pol&iacute;ticas    educativas, pelo menos para os pa&iacute;ses mais desenvolvidos e para aqueles    que andam na sua &oacute;rbita mais direta. E &eacute; o CERI-OCDE, com grandes    inqu&eacute;ritos de sua iniciativa, ou pela sistematiza&ccedil;&atilde;o dos    estudos que outros realizam, por exemplo da EURYDICE para a Europa, ou da pr&oacute;pria    UNESCO, que pauta a agenda mundial da educa&ccedil;&atilde;o, isto pelo menos    desde 1991-1992. Se formos precisar mais, &eacute; o relat&oacute;rio <I>Education    at a Glance</I> &ndash; que significa olhares sobre a educa&ccedil;&atilde;o    &ndash; que, anualmente, tem vindo a marcar os temas que s&atilde;o considerados    leg&iacute;timos no debate educacional&rdquo; (Teodoro, 2005, p. 224).</P>      <p><Sup><a href="#top13">13</a><a name="13"></a></Sup> Como refere Teresa Esteban,    &ldquo;apesar das diferen&ccedil;as e desigualdades existentes, os resultados    dos v&aacute;rios exames internacionais s&atilde;o aceitos como informa&ccedil;&otilde;es    fidedignas sobre a qualidade da educa&ccedil;&atilde;o em cada um dos pa&iacute;ses    que deles participam e como leg&iacute;timos para orientar as estrat&eacute;gias    educacionais a se colocar em pr&aacute;tica&rdquo; (Esteban, 2008, p.9).</P>      <p><Sup><a href="#top14">14</a><a name="14"></a></Sup> Como a este prop&oacute;sito    afirma Lic&iacute;nio Lima, &ldquo;subordinada a escrut&iacute;nios constantes    e a opera&ccedil;&otilde;es contabil&iacute;sticas sistem&aacute;ticas (incluindo    as mais grosseiras e simplistas, de que resultaram por exemplo os <I>rankings</I>    de escolas), a <I>educa&ccedil;&atilde;o cont&aacute;bil</I> instalou uma verdadeira    obsess&atilde;o avaliativa [&hellip;]. Mas n&atilde;o ser&aacute; muita pretens&atilde;o    querer avaliar a &lsquo;educa&ccedil;&atilde;o dos portugueses&rsquo;, drasticamente    reduzida &agrave;s mat&eacute;rias constantes dos exames escolares e a uma concep&ccedil;&atilde;o    &lsquo;banc&aacute;ria&rsquo; (como diria Paulo Freire), atrav&eacute;s de testes    estandardizados de &acirc;mbito internacional? E, mais ainda, admitir que os    caminhos percorridos at&eacute; hoje j&aacute; justificariam a <I>d&eacute;marche</I>    e legitimariam melhores expectativas?&rdquo; (Lima, 2002, p.33).</P>      ]]></body>
<body><![CDATA[<p><Sup><a href="#top15">15</a><a name="15"></a></Sup> A express&atilde;o &eacute;    de Sotiria Grek e Jenny Ozga (2008) num interessante texto intitulado &ldquo;Governing    by numbers? Shaping education through data&rdquo;. CES Briefing, Centre for    Educational Sociology, University of Edinburgh [Dispon&iacute;vel em <a href="http://www.ces.ed.ac.uk/PDF%20Files/Brief044.pdf" target="_blank">http://www.ces.ed.ac.uk/PDF%20Files/Brief044.pdf</a>].</P>      <p>&nbsp;</p>      <p><B>Refer&ecirc;ncias bibliogr&aacute;ficas</B></P>      <!-- ref --><p>Afonso, A. J. (1997). O neoliberalismo educacional mitigado numa d&eacute;cada de governa&ccedil;&atilde;o  social-democrata. Um contributo sociol&oacute;gico para pensar a reforma educativa em Portugal (1985-1995).  <I>Revista Portuguesa </I><I>de Educa&ccedil;&atilde;o</I>, 10 (2), pp. 103-137.&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000056&pid=S1645-7250200900010000200001&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><p>Afonso, A. J. (1998). <I>Pol&iacute;ticas Educativas e Avalia&ccedil;&atilde;o Educacional</I>. Braga:  Universidade do Minho.</P>      <p>Afonso, A. J. (1999). Estado, mercado, comunidade e avalia&ccedil;&atilde;o: esbo&ccedil;o para uma  rearticula&ccedil;&atilde;o cr&iacute;tica&rdquo;. <I>Edu</I><I></I><I>ca&ccedil;&atilde;o & Sociedade</I>, 69,  139-164.</P>      <!-- ref --><p>Afonso, A. J. (2001). As escolas em avalia&ccedil;&atilde;o: avaliabilidade e responsabiliza&ccedil;&atilde;o.  <I>Administra&ccedil;&atilde;o Educacional</I>, 1, 22-25. &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000059&pid=S1645-7250200900010000200003&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><p>Afonso, A. J. (2005). <I>Avalia&ccedil;&atilde;o Educacional: Regula&ccedil;&atilde;o e  Emancipa&ccedil;&atilde;o</I>. S. Paulo: Cortez (3&ordf; ed.).</P>      <p>Afonso, A. J. (2007). Estado, pol&iacute;ticas educacionais e obsess&atilde;o avaliativa&rdquo;.  <I>Contrapontos</I>, 7, 1, 11-22.</P>      <!-- ref --><p>Afonso, A. J. (2008). Para uma cr&iacute;tica da avaliocracia. <I>OPS! Revista de Opini&atilde;o  Socialista</I>, 2, 14-16.&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000062&pid=S1645-7250200900010000200005&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><p>Bauman, Z. (1997). <I>&Eacute;tica P&oacute;s-Moderna</I>. S&atilde;o Paulo: Paulus.</P>      <p>Biesta, G. (2004). Education, accountability, and the ethical demand: can the democratic potential  of accountability be regained? <I>Educational Theory</I>, 54, 3, 233-250.</P>      <p>Biesta, G. (2009). Good education in an age of measurement: on the need to reconnect with question  of purpose in education. <I>Educational Assessment, Evaluation and Accountability</I>, 21, 33-46.</P>      <p>Broadfoot, P. (2000). Un nouveau mode de r&eacute;gulation dans un syst&egrave;me d&eacute;centralis&eacute; :  l&rsquo;&Eacute;tat &eacute;valuateur. <I>Revue </I><I>Fran&ccedil;aise de P&eacute;dagogie</I>, 130, 43-55.</P>      <p>Cuss&oacute;, R. e D&rsquo;Amico, S. (2005). From development comparatism to globalization comparativism:  towards more normative international education statistics. <I>Comparative Education</I>, 41, 2, 119-216.</P>      <p>Dale, R. (1986). La politica educativa en Inglaterra entre 1970 y 1983: estado, capital y sociedad civil.  In Fernandez Enguita (Org.)<I> Marxismo y Sociolog&iacute;a de la Educaci&oacute;n </I>(pp. 41-63). Madrid: Akal.</P>      <p>Dale,  R. (2004). 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<body><![CDATA[<p>Lima, L. C. (2002). Uma Rep&uacute;blica mal educada? <I>Jornal a P&aacute;gina    da Educa&ccedil;&atilde;o</I>, 111, 33. [<a href="http://www.apagina.pt/arquivo/ImprimirArtigo.asp?ID=1794" target="_blank">http://www.apagina.pt/arquivo/ImprimirArtigo.asp?ID=1794</a>,    consultado em 15 de Fevereiro de 2009]</P>      <p>McCormick, R. e James, M. (1983). <I>Curriculum Evaluation in Schools</I>. London & Sydney: Croom Helm.</P>      <p>Melo, M. B. P. (2008). Representa&ccedil;&otilde;es dos professores do ensino    secund&aacute;rio a prop&oacute;sito dos rankings escolares &ndash; notas de    uma pesquisa emp&iacute;rica&rdquo;. Vir&uacute;s, 3, 8-15.[Dispon&iacute;vel    em <a href="http://www.esquerda.net/virus/media/virus3.pdf" target="_blank">http://www.esquerda.net/virus/media/virus3.pdf</a>,    consultado em 10 de Fevereiro de 2009].</P>      <p>Melo, M. B. P.  (2007a). Educa&ccedil;&atilde;o e mass media na modernidade: efeitos do ranking escolar  em an&aacute;lise. In Maria M. Vieira (Org.). <I>Escola, Jovens e Media</I> (pp. 67-94). Lisboa: ICS.</P>      <p>Melo, M. B. P.  (2007b). <I>Reflex&otilde;es e Reflexividade Mediatizada: Os Professores do Ensino  Secund&aacute;rio e os Rankings </I><I>Escolares</I>. Tese de Doutoramento em Sociologia. Instituto Superior  de Ci&ecirc;ncias do Trabalho e da Empresa, Lisboa.</P>      <p>Mulgan, R. (2000). &rsquo;Accountability&rsquo;: an ever-expanding concept? <I>Public Administration</I>, 78,  3,  555-573.</P>      <p>Neto-Mendes, A.; Costa, J. A. & Ventura, A. (2003). Ranking de escolas em Portugal: un estudo explorat&oacute;rio.  <I>Revista Iberoamericana de Calidad, Efic&aacute;cia y Cambio en Educaci&oacute;n</I>, 1, 1, 1-13.</P>      <!-- ref --><p>Normand, R. (2008). Mercado, performance, accountability. Duas d&eacute;cadas de ret&oacute;rica  reaccion&aacute;ria na educa&ccedil;&atilde;o. <I>Revista Lus&oacute;fona de Educa&ccedil;&atilde;o</I>, 11,  49-76.&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000090&pid=S1645-7250200900010000200009&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><p>Ranson, S. (2003). Public accountability in the age of neo-liberal governance. <I>Journal of Education Policy</I>,  18, 5, 459-480.</P>      <p>Ryan, K. (2004). Serving public interests in educational accountability: alternative approaches  to democratic evaluation. <I>American Journal of Evaluation</I>, 25, 4, 443-460.</P>      ]]></body>
<body><![CDATA[<p>S&aacute;, V. e Antunes, F. (2007). <I>Rankings</I>, competi&ccedil;&atilde;o e escolhas na  administra&ccedil;&atilde;o da educa&ccedil;&atilde;o: um olhar desde as escolas. Comunica&ccedil;&atilde;o  ao IV Congresso Luso-Brasileiro de Pol&iacute;tica e Administra&ccedil;&atilde;o da Educa&ccedil;&atilde;o/III  Congresso Nacional do F&oacute;rum Portugu&ecirc;s de Administra&ccedil;&atilde;o Educacional. Lisboa: FPCE, 12-14  de Abril.</P>      <p>Schedler, A. (1999). Conceptualizing accountability. In A. Schedler et al. (eds). <I>The Self-Restraining State.  Power </I><I>and Accountability in New Democracies</I>. London: Lynne Reinner Pub.</P>      <p>Teodoro, A. (2003). <I>Globaliza&ccedil;&atilde;o e Educa&ccedil;&atilde;o. Pol&iacute;ticas educacionais  e novos modos de governa&ccedil;&atilde;o</I>. S&atilde;o Paulo: Cortez.</P>      <!-- ref --><p>Teodoro, A.  (2005). Mandato e legitima&ccedil;&atilde;o nas pol&iacute;ticas para a educa&ccedil;&atilde;o.  Entrevista a Olinda Evangelista. <I>Perspectiva</I>, 23, 1, 223-234.&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000096&pid=S1645-7250200900010000200010&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><p>Teodoro, A.  (2008). Novos modos de regula&ccedil;&atilde;o transnacional de pol&iacute;ticas educativas.  Evid&ecirc;ncias e possibilidades. In A. Teodoro (Org.). <I>Tempos e Andamentos nas Pol&iacute;ticas de  Educa&ccedil;&atilde;o</I>. <I>Estudos Iberoamericanos</I> (pp. 19-38). Bras&iacute;lia: Liber Livro Editora,</P>      <p>Willis, D. (1992). Educational assessment and accountability: a New Zealand case study. <I>Journal of Education  </I><I>Policy</I>, 7, 2, 205-221.</P>      <p>&nbsp;</p>      <p><Sup><a href="#top0">*</a><a name="0"></a></Sup>Soci&oacute;logo, Doutor em    Sociologia da Educa&ccedil;&atilde;o, Docente Universit&aacute;rio e Pesquisador    do Centro de Investiga&ccedil;&atilde;o em Educa&ccedil;&atilde;o (CIEd) da    Universidade do Minho (Portugal), <a href="mailto:ajafonso@iep.uminho.pt">ajafonso@iep.uminho.pt</a></P>      ]]></body><back>
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