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</front><body><![CDATA[ <P><B>Boaventura de Sousa Santos e Maria Paula Meneses (Orgs.) (2009). <I>Epistemologias do Sul.</I></B></P>      <P>Coimbra: Almedina, 532 pp.</P>      <p>&nbsp;</p>      <p>O mundo &eacute; um complexo mosaico multi</B>cultural. Todavia, ao longo da modernidade, a produ&ccedil;&atilde;o  do conhecimento cient&iacute;fico foi configurada por um &uacute;nico modelo epistemol&oacute;gico, como se o mundo  fosse monocultural, que descontextualizou o conhecimento e impediu a emerg&ecirc;ncia de outras formas de saber  n&atilde;o redut&iacute;veis a esse paradigma. Assistiu-se, assim, a uma esp&eacute;cie de epistemic&iacute;dio,  ou seja, &agrave; destrui&ccedil;&atilde;o de algumas formas de saber locais, &agrave; inferioriza&ccedil;&atilde;o  de outros, desperdi&ccedil;ando-se, em nome dos des&iacute;gnios do colonialismo, a riqueza de perspectivas presente  na diversidade cultural e nas multifacetadas vis&otilde;es do mundo por elas protagonizadas. Trata-se, pois, de propor,  a partir da diversidade do mundo, um pluralismo epistemol&oacute;gico que reconhe&ccedil;a a exist&ecirc;ncia de  m&uacute;ltiplas vis&otilde;es que contribuam para o alargamento dos horizontes da mundaneidade, de experi&ecirc;ncias  e pr&aacute;ticas sociais e pol&iacute;ticas alternativas. N&atilde;o se questiona a import&acirc;ncia e o valor da  interven&ccedil;&atilde;o cient&iacute;fica ao longo dos dois &uacute;ltimos s&eacute;culos, sobretudo atrav&eacute;s  da produtividade tecnol&oacute;gica, mesmo tendo em considera&ccedil;&atilde;o os problemas criados para os quais a  ci&ecirc;ncia moderna n&atilde;o tem solu&ccedil;&atilde;o. No entanto, este monop&oacute;lio da ci&ecirc;ncia  n&atilde;o pode ocultar e impedir-nos de reconhecer que h&aacute; outras formas de conhecimento e outros modos de  interven&ccedil;&atilde;o no real para os quais a ci&ecirc;ncia em nada contribuiu. &Eacute; o caso, por exemplo,  da &laquo;preserva&ccedil;&atilde;o da biodiversidade, s&oacute; poss&iacute;vel por formas de conhecimento camponesas  e ind&iacute;genas e que, paradoxalmente, se encontram amea&ccedil;adas pela interven&ccedil;&atilde;o crescente  da ci&ecirc;ncia moderna.&raquo; (p. 49)</P>     <p>A express&atilde;o <I>Epistemologias do Sul</I> &eacute; uma met&aacute;fora do sofrimento, da exclus&atilde;o e  do silenciamento de povos e culturas que, ao longo da Hist&oacute;ria, foram dominados pelo capitalismo e colonialismo.  Colonialismo, que imprimiu uma din&acirc;mica hist&oacute;rica de domina&ccedil;&atilde;o pol&iacute;tica e cultural  submetendo &agrave; sua vis&atilde;o etnoc&ecirc;ntrica o conhecimento do mundo, o sentido da vida e das pr&aacute;ticas s ociais. Afirma&ccedil;&atilde;o, afinal, de uma &uacute;nica ontologia, de uma epistemologia, de uma &eacute;tica, de  um modelo antropol&oacute;gico, de um pensamento &uacute;nico e sua imposi&ccedil;&atilde;o universal. </P>     <p>A partir de perspectivas e linhas de investiga&ccedil;&atilde;o distintas, esta obra pretende responder,  essencialmente, a duas quest&otilde;es: a primeira diz respeito &agrave;s raz&otilde;es que conduziram &agrave;  elimina&ccedil;&atilde;o dos contextos pol&iacute;ticos e culturais da produ&ccedil;&atilde;o do conhecimento e suas  consequ&ecirc;ncias; a segunda, partindo da ideia de que o mundo &eacute; epistemologicamente diverso, relaciona-se  com a possibilidade de afirma&ccedil;&atilde;o de epistemologias alternativas, de abertura a outros desafios  epist&eacute;micos, substancializados na express&atilde;o conceptual e metaf&oacute;rica Epistemologias do Sul.  Historicamente, do conhecimento e da sua produ&ccedil;&atilde;o foram eliminadas as rela&ccedil;&otilde;es sociais,  as respectivas pr&aacute;ticas e os contextos s&oacute;cioculturais, elimina&ccedil;&atilde;o que conduziu &agrave;  afirma&ccedil;&atilde;o mistificante e ilus&oacute;ria de uma ideologia de neutralidade cient&iacute;fica.  Efectivamente, a epistemologia dominante fundamenta-se em contextos culturais e pol&iacute;ticos bem definidos:  o mundo moderno crist&atilde;o ocidental, o colonialismo e o capitalismo. Neste sentido, a produ&ccedil;&atilde;o  do conhecimento, o modo como se faz, onde se faz e o que se faz n&atilde;o &eacute; exterior aos contextos sociais  e pol&iacute;ticos que o prefiguram e configuram. Afirmar, pois, a exclusividade de uma epistemologia com  pretens&otilde;es universalizantes tem um duplo sentido: por um lado, a redu&ccedil;&atilde;o de todo o conhecimento  a um &uacute;nico paradigma, com as consequ&ecirc;ncias de oculta&ccedil;&atilde;o, destrui&ccedil;&atilde;o e  menosprezo por outros saberes e, por outro, a descontextualiza&ccedil;&atilde;o social, pol&iacute;tica e institucional  desse mesmo conhecimento, conferindo-lhe uma dimens&atilde;o abstracta mais pass&iacute;vel de  universaliza&ccedil;&atilde;o e absolutiza&ccedil;&atilde;o e que possa servir de quadro te&oacute;rico legitimador  de todas as formas de domina&ccedil;&atilde;o e de exclus&atilde;o.</P>     <p>A revolu&ccedil;&atilde;o das tecnologias de informa&ccedil;&atilde;o e comunica&ccedil;&atilde;o permite tornar  vis&iacute;veis as contradi&ccedil;&otilde;es do capitalismo, as formas cada vez mais subtis e simb&oacute;licas de  domina&ccedil;&atilde;o e, com  maior acuidade, permite tamb&eacute;m a visualiza&ccedil;&atilde;o da diversidade  cultural e epistemol&oacute;gica do mundo. Estas condi&ccedil;&otilde;es possibilitam a cr&iacute;tica de um regime  epistemol&oacute;gico dominante e, simultaneamente, a identifica&ccedil;&atilde;o e urg&ecirc;ncia de alternativas  epistemol&oacute;gicas, ainda que os obst&aacute;culos m&uacute;ltiplos &agrave; sua afirma&ccedil;&atilde;o e  concretiza&ccedil;&atilde;o tamb&eacute;m se tornem vis&iacute;veis. De facto, o capitalismo global &eacute;, mais do  que um modo de produ&ccedil;&atilde;o, um regime cultural e civilizacional que se imp&otilde;e de um modo tentacular a  todas as institui&ccedil;&otilde;es sociais, ao modo de vida dos cidad&atilde;os, aos comportamentos sociais, produzindo  uma consci&ecirc;ncia colectiva impeditiva da afirma&ccedil;&atilde;o de outras pr&aacute;ticas. Os dominados, deserdados  e oprimidos, sem que tenham verdadeira consci&ecirc;ncia, configuram os seus comportamentos a partir das  representa&ccedil;&otilde;es dos dominadores, o que constitui um dos grandes obst&aacute;culos &agrave; cr&iacute;tica  e den&uacute;ncia da domina&ccedil;&atilde;o e &agrave; consequente liberta&ccedil;&atilde;o. </P>     <p>Na primeira parte da obra, dividida em tr&ecirc;s cap&iacute;tulos e sob o t&iacute;tulo  <I>Da Colonialidade &agrave; Descolonialidade, </I>identifica-se o modo como se afirmou historicamente a  diferen&ccedil;a epistemol&oacute;gica, estabelecendo-se a rela&ccedil;&atilde;o entre a domina&ccedil;&atilde;o  econ&oacute;mica, pol&iacute;tica e cultural e a domina&ccedil;&atilde;o epistemol&oacute;gica traduzida, por um lado,  na hierarquiza&ccedil;&atilde;o dos saberes e, por outro, na nega&ccedil;&atilde;o da diversidade.</P>     <p>A partir da met&aacute;fora do pensamento abissal, Boaventura de Sousa Santos defende, no 1&ordm; cap&iacute;tulo,  que o pensamento moderno consiste num sistema de distin&ccedil;&otilde;es vis&iacute;veis e invis&iacute;veis que dividem  a realidade social em dois universos ontologicamente diferentes. O lado de c&aacute; da linha, correspondendo ao Norte  imperial, colonial e neo-colonial e o lado de l&aacute; da linha, ao qual corresponde o Sul colonizado, silenciado e  oprimido. Este lado n&atilde;o tem realidade ou, se a tem, &eacute; em fun&ccedil;&atilde;o dos interesses do Norte  operacionalizados na apropria&ccedil;&atilde;o e na viol&ecirc;ncia. O que caracteriza este pensamento abissal &eacute;  a impossibilidade de co-presen&ccedil;a entre os dois lados da linha referidos (p. 24). No dom&iacute;nio do conhecimento,  a ci&ecirc;ncia e o direito constituem as manifesta&ccedil;&otilde;es mais bem conseguidas deste pensamento abissal na  medida em que definiram, do ponto de vista cient&iacute;fico, a distin&ccedil;&atilde;o entre verdadeiro e falso e, do  ponto de vista jur&iacute;dico, a distin&ccedil;&atilde;o entre legal e ilegal, impondo, internacionalmente, esta  distin&ccedil;&atilde;o atrav&eacute;s do direito internacional. Estas distin&ccedil;&otilde;es eliminam quaisquer  realidades que se situem do outro lado da linha enquadrando-as num universo para al&eacute;m da legalidade e ilegalidade  e para al&eacute;m da verdade e da falsidade. Deste ponto de vista, esta nega&ccedil;&atilde;o radical produz, para  al&eacute;m da nega&ccedil;&atilde;o de estatuto epistemol&oacute;gico aos saberes diversos uma dualidade  antropol&oacute;gica e &eacute;tica: os seres humanos do Norte e a aus&ecirc;ncia de humanidade no Sul. A  supera&ccedil;&atilde;o do pensamento abissal exige, de acordo com o autor, o reconhecimento da persist&ecirc;ncia  desse pensamento para que se possa pensar e agir para al&eacute;m dele (p. 44) em direc&ccedil;&atilde;o a &laquo;um  pensamento p&oacute;s-abissal&raquo; (p. 32), que pense a partir do outro lado da linha, a partir de uma epistemologia  do sul e confrontando o monoculturalismo do Norte com uma ecologia de saberes, uma esp&eacute;cie de contra-epistemologia,  que nega a exist&ecirc;ncia de uma epistemologia geral e se baseia no reconhecimento de uma pluralidade de conhecimentos  heterog&eacute;neos que se cruzam entre si. Lutar por uma justi&ccedil;a social global implica, afinal, uma luta pela  justi&ccedil;a cognitiva global transformando a impossibilidade de co-presen&ccedil;a em co-presen&ccedil;a radical em  que &laquo;as pr&aacute;ticas e agentes de ambos os lados da linha s&atilde;o contempor&acirc;neos em termos  igualit&aacute;rios.&raquo; (p. 45). Num tempo em que se formulam perguntas fortes, n&atilde;o havendo para elas  respostas fortes, a ecologia dos saberes constitui-se atrav&eacute;s de um questionamento forte para respostas incompletas.  &Eacute; por isso que &eacute; um conhecimento prudente permitindo a abertura de novos horizontes epistemol&oacute;gicos  e o exerc&iacute;cio da auto-reflexividade.</P>     <p>An&iacute;bal Quijano, no cap&iacute;tulo 2, <I>Colonialidade </I><I>do poder e classifica&ccedil;&atilde;o social,</I>  desenvolve o conceito de colonialidade. Dialogando com a tradi&ccedil;&atilde;o marxista, procura uma  interpreta&ccedil;&atilde;o epistemol&oacute;gica da domina&ccedil;&atilde;o do Norte global sobre o Sul, aqui  considerado como Am&eacute;rica latina. A colonialidade &eacute; constitutiva do poder capitalista operando quer nos  dom&iacute;nios da vida social quer nos &acirc;mbitos da subjectividade e intersubjectividade atrav&eacute;s de  instrumentos de coer&ccedil;&atilde;o tendo em vista a reprodu&ccedil;&atilde;o e perpetua&ccedil;&atilde;o das  rela&ccedil;&otilde;es sociais de domina&ccedil;&atilde;o. Partindo de uma perspectiva e an&aacute;lise hist&oacute;ricas,  desconstr&oacute;i a tese de que os indiv&iacute;duos est&atilde;o historicamente submetidos a padr&otilde;es de conduta  invari&aacute;veis no tempo e no espa&ccedil;o e sujeitos a um destino previamente tra&ccedil;ado, tese que, afinal,  justificaria e legitimaria todas as formas de explora&ccedil;&atilde;o e domina&ccedil;&atilde;o, fundadas, em  &uacute;ltima inst&acirc;ncia, numa ordem metaf&iacute;sica, predeterminada por uma entidade transcendente e providencial.  Contra-argumenta, tamb&eacute;m, em rela&ccedil;&atilde;o &agrave;s teses de car&aacute;cter biol&oacute;gico que defendem  um estado e estatuto social em fun&ccedil;&atilde;o de determina&ccedil;&otilde;es gen&eacute;ticas. Ningu&eacute;m  est&aacute; geneticamente destinado a ser trabalhador manual ou intelectual; do mesmo modo, ningu&eacute;m est&aacute;  geneticamente destinado a ser dominador ou dominado. As categorias sociais s&atilde;o produtos hist&oacute;rico-sociais  e, simultaneamente, mecanismos do poder tendo em vista a sua reprodu&ccedil;&atilde;o e perpetua&ccedil;&atilde;o.  Exemplos disso s&atilde;o as categorias de g&eacute;nero a partir do sexo e de ra&ccedil;a a partir do fen&oacute;tipo  para elabora&ccedil;&atilde;o das rela&ccedil;&otilde;es de domina&ccedil;&atilde;o e, a partir delas, da  constru&ccedil;&atilde;o de outras identidades n&atilde;o masculinas nem euroc&ecirc;ntricas (pp.106-107) e, por isso,  exclu&iacute;das do paradigma &uacute;nico de racionalidade que &eacute;, na sua ess&ecirc;ncia origin&aacute;ria, branco,   masculino e ocidental. &laquo;A racializa&ccedil;&atilde;o das rela&ccedil;&otilde;es de poder entre as novas identidades  sociais e geoculturais foi o sustento e a refer&ecirc;ncia legitimadora fundamental do car&aacute;cter eurocentrado do  padr&atilde;o de poder, material e intersubjectivo. Ou seja, da sua colonialidade.&raquo; (p. 107)  A popula&ccedil;&atilde;o mundial foi classificada de acordo com categorias forjadas socialmente pelo poder dominante:  identidades raciais dominantes (superiores europeus, ra&ccedil;a branca) e dominadas (inferiores n&atilde;o europeus,  ra&ccedil;as de cor). A partir desta classifica&ccedil;&atilde;o facilmente se afirmou o poder do Norte sobre o Sul e  se legitimou o controlo territorial e dos respectivos recursos produtivos e naturais. A partir do conceito de  colonialidade, o autor mostra a sua rela&ccedil;&atilde;o indissoci&aacute;vel com a classifica&ccedil;&atilde;o  social, a articula&ccedil;&atilde;o entre pol&iacute;tica e quest&otilde;es geoculturais, a distribui&ccedil;&atilde;o  mundial do trabalho, as rela&ccedil;&otilde;es culturais e intersubjectivas, a domina&ccedil;&atilde;o e a  explora&ccedil;&atilde;o. A liberta&ccedil;&atilde;o, defende o autor, passa por um comprometimento com a luta pela  destrui&ccedil;&atilde;o de todas as formas de colonialidade, incluindo aquela que &eacute; exercida sobre o corpo como  &laquo;n&iacute;vel decisivo das rela&ccedil;&otilde;es de poder.&raquo; (p. 113)</P>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>No cap&iacute;tulo 3, <I>Conhecimento de &Aacute;frica, co</I><I></I><I>nhecimento de africanos: duas perspectivas  sobre os estudos africanos, </I>Paulin J. Hountondji defende, a partir de uma perspectiva filos&oacute;fica, que os  denominados estudos africanos est&atilde;o marcados por &laquo;uma esp&eacute;cie de pecado original&raquo; (p.125)  por estarem impregnados de eurocentrismo e, consequentemente, por uma vis&atilde;o etnoc&ecirc;ntrica. Os europeus  partiram do princ&iacute;pio de que os africanos n&atilde;o tinham consci&ecirc;ncia de si e, por isso, s&oacute;  os ocidentais, poderiam, a partir do exterior, &laquo;tra&ccedil;ar um quadro da sua sabedoria.&raquo; (p. 121) S&oacute;  o di&aacute;logo intercultural entre os investigadores poder&aacute; contribuir para a supera&ccedil;&atilde;o das  rela&ccedil;&otilde;es de domina&ccedil;&atilde;o presentes nos estudos africanos. Por outro lado, h&aacute; que dar  relev&acirc;ncia aos estudos etno-filos&oacute;ficos feitos por africanos que revelam uma enorme riqueza de conhecimentos  end&oacute;genos e possibilitar &agrave; &Aacute;frica uma apropria&ccedil;&atilde;o l&uacute;cida e cr&iacute;tica do  seu conhecimento.</P>     <p><I>As Modernidades das Tradi&ccedil;&otilde;es</I> constitui a segunda parte da obra. Aqui se discute a antiga  dicotomia entre tradi&ccedil;&atilde;o e modernidade. Com origem na modernidade ocidental, esta dicotomia, com  repercuss&otilde;es epist&eacute;micas, desqualificou os saberes tradicionais, prisioneiros do passado, sem  hist&oacute;ria e destinados a um estatuto residual. No entanto, estes saberes, foram-se revelando como contraponto  &agrave; modernidade, nas m&uacute;ltiplas resist&ecirc;ncias &agrave; hegemonia da modernidade. Revelaram-se, assim,  como modernidades alternativas relegando para a tradi&ccedil;&atilde;o o saber moderno. Trata-se, tamb&eacute;m, no  dom&iacute;nio epistemol&oacute;gico, da luta entre emancipa&ccedil;&atilde;o e regula&ccedil;&atilde;o. Neste sentido,  torna-se poss&iacute;vel o resgate epistemol&oacute;gico da modernidade ocidental. O conceito de <I>ubuntu</I>, categoria  epist&eacute;mica e ontol&oacute;gica do pensamento dos grupos africanos que falam l&iacute;nguas Bantu, que significa  ser em geral, rela&ccedil;&otilde;es interpessoais e procura de uma harmonia c&oacute;smica, &eacute; o fundamento para  a an&aacute;lise do processo de globaliza&ccedil;&atilde;o, abordado no cap&iacute;tulo 4. Mogobe Ramose interpela, de  um ponto de vista filos&oacute;fico, a globaliza&ccedil;&atilde;o neo-liberal a partir de um dos seus principais  pressupostos e efeitos: a dissolu&ccedil;&atilde;o metaf&oacute;rica das fronteiras. Considera que antes da  globaliza&ccedil;&atilde;o neoliberal j&aacute; o colonialismo tinha destru&iacute;do as fronteiras fora da Europa  atrav&eacute;s do question&aacute;vel &lsquo;direito de conquista&rsquo;, extinguindo, de facto, a soberania das  popula&ccedil;&otilde;es ind&iacute;genas (p. 153). O seu racioc&iacute;nio vai no sentido de considerar absolutamente  paradoxal e inconceb&iacute;vel a exist&ecirc;ncia de diferen&ccedil;as profundas entre seres humanos num quadro de  dissolu&ccedil;&atilde;o de fronteiras. Defende que o processo de globaliza&ccedil;&atilde;o hegem&oacute;nica,  atrav&eacute;s da sua l&oacute;gica de mercado e dos valores que promove, tem produzido efeitos profundamente negativos  nos povos africanos. O <I>ubuntu, </I>ao valorizar a pessoa, as rela&ccedil;&otilde;es harmoniosas entre elas e com o  cosmos, na procura de uma harmonia entre o homem e o universo, representa uma alternativa epistemol&oacute;gica que  pode contribuir para dar um outro sentido &agrave; vida humana e repensar a quest&atilde;o dos direitos humanos a  partir de uma perspectiva hol&iacute;stica.</P>     <p>Maria Paula Meneses discute, no cap&iacute;tulo 5, intitulado <I>Corpos de viol&ecirc;ncia, linguagens de  resist&ecirc;ncia: as complexas teias de conhecimentos no Mo&ccedil;ambique contempor&acirc;neo</I>,  os conflitos entre conhecimentos diferentes e as suas consequ&ecirc;ncias pr&aacute;ticas. Defende que a  dimens&atilde;o m&aacute;gica da pol&iacute;tica em &Aacute;frica faz parte da natureza da autoridade p&uacute;blica,  da lideran&ccedil;a e das identidades populares. A feiti&ccedil;aria, o pensamento m&aacute;gico persistem como  conceitos e realidades, tanto em ambientes rurais como urbanos fazendo parte do discurso e da modernidade presente,  havendo uma linha de continuidade entre o passado e o presente. A partir da problematiza&ccedil;&atilde;o das  m&uacute;ltiplas interpreta&ccedil;&otilde;es de um caso de tr&aacute;fico humano, a autora sugere uma  reavalia&ccedil;&atilde;o do per&iacute;odo colonial para se entender o modo como o poder colonial conviveu e pactuou  com determinadas pr&aacute;ticas de feiti&ccedil;aria e as rela&ccedil;&otilde;es existentes entre o tribalismo, diversas  formas de religi&atilde;o e o exerc&iacute;cio de poderes locais. No centro da pol&eacute;mica e dos conflitos parece  ter estado uma quest&atilde;o central: o direito &agrave; terra cedida a um casal estrangeiro para a&iacute; implantar  um avi&aacute;rio. As acusa&ccedil;&otilde;es de feiti&ccedil;aria e de tr&aacute;fico de &oacute;rg&atilde;os,  equivalentes &agrave; acusa&ccedil;&atilde;o de canibalismo, teriam  tido por  objectivo a expuls&atilde;o dos acusados  da comunidade por uma quest&atilde;o de manuten&ccedil;&atilde;o dos seus terrenos. &laquo;Este movimento de base popular,  com v&aacute;rias conota&ccedil;&otilde;es e cambiantes pol&iacute;ticos, utilizou as acusa&ccedil;&otilde;es de  feiti&ccedil;aria como uma forma de viol&ecirc;ncia contra os seus inimigos pol&iacute;ticos.&raquo; (p. 197). Ter&aacute;  sido, portanto, um desafio de uma comunidade &agrave; possibilidade de afirma&ccedil;&atilde;o de um outro poder,  manifestando e expondo as verdadeiras rela&ccedil;&otilde;es de poder. O conhecimento profundo da cultura tradicional  de Mo&ccedil;ambique, entrela&ccedil;ado com as interac&ccedil;&otilde;es entre as quest&otilde;es de natureza  pol&iacute;tica, religiosa e econ&oacute;mica, constituem um desafio &agrave; ortodoxia interpretativa do ocidente e  permitem, seguramente, outras leituras dos problemas africanos.</P>     <p>No cap&iacute;tulo 6, <I>O resgate da epistemologia</I>, Jo&atilde;o Arriscado Nunes analisa, com base  em conceitos de Boaventura de Sousa Santos (pensamentos abissal e p&oacute;s abissal), j&aacute; aqui referidos,  o debate que se trava na epistemologia contempor&acirc;nea. O autor discute, num primeiro momento, os rumos da  cr&iacute;tica da epistemologia enquanto projecto indissoci&aacute;vel do projecto da ci&ecirc;ncia moderna.  Esta cr&iacute;tica reconfigura a reflex&atilde;o epistemol&oacute;gica a partir de um debate centrado nas  ci&ecirc;ncias e nas respectivas pr&aacute;ticas. Seguidamente, o autor, revisitando o pragmatismo, prop&otilde;e  algumas pontes entre essa cr&iacute;tica e a proposta de uma epistemologia do Sul global.  </P>     <p><I>O debate sobre o &lsquo;encerramento do Ijtihad&rsquo; e </I><I>a sua cr&iacute;tica</I>, de Liazzat J. K.  Bonate, constitui  o cap&iacute;tulo 7 desta obra. A autora faz uma an&aacute;lise cr&iacute;tica atrav&eacute;s do  recurso a algumas refer&ecirc;ncias te&oacute;ricas que conflituam entre si, acerca da suposta estagna&ccedil;&atilde;o  e falta de criatividade no pensamento jur&iacute;dico-legal mu&ccedil;ulmano atrav&eacute;s da discuss&atilde;o de uma  das teorias da jurisprud&ecirc;ncia isl&acirc;mica cl&aacute;ssica, conhecida como o &lsquo;encerramento dos  port&otilde;es do ijtihad&rsquo; ou teoria da abdica&ccedil;&atilde;o do uso da raz&atilde;o humana para fins de  extrapola&ccedil;&atilde;o da lei a partir das fontes isl&acirc;micas (p. 243) e a implementa&ccedil;&atilde;o do  <I>taqlid</I> que ter&aacute; reflectido a interven&ccedil;&atilde;o crescente do Estado nos assuntos jur&iacute;dicos. </P>     <p>As m&uacute;ltiplas interpreta&ccedil;&otilde;es na constitui&ccedil;&atilde;o de conceitos centrais da modernidade  s&atilde;o debatidas e problematizadas por Ebrahim Moosa, no contexto da &Aacute;frica do Sul e do apartheid. O artigo,  <I>Transi&ccedil;&otilde;es no </I><I>&lsquo;progresso&rsquo; da civiliza&ccedil;&atilde;o: teoriza&ccedil;&atilde;o  sobre a </I><I>Hist&oacute;ria, a pr&aacute;tica e a tradi&ccedil;&atilde;o</I> incide sobre a realidade do Isl&atilde;o  t&atilde;o desconhecida do ocidente. O conceito de progresso, ideia-chave da modernidade, &eacute; aqui questionado.  Para que seja poss&iacute;vel superar a antiga dicotomia (tamb&eacute;m muito moderna) entre progresso e  tradi&ccedil;&atilde;o exige uma an&aacute;lise cuidada do conceito de progresso interiorizar e questionar as  pr&aacute;ticas e interpreta&ccedil;&otilde;es do Isl&atilde;o. O conceito de progresso &eacute; ambivalente.  Tendo em considera&ccedil;&atilde;o o significado que lhe foi atribu&iacute;do na modernidade, e o seu sentido  teleol&oacute;gico, ele cont&eacute;m em si pr&oacute;prio uma vis&atilde;o unidimensional e finita. O fim da  hist&oacute;ria, t&atilde;o propagandeado na d&eacute;cada de 90 do s&eacute;culo XX, teria sido o culminar de uma  evolu&ccedil;&atilde;o. Este conceito, na sua etiologia hist&oacute;rica, n&atilde;o previu, afinal, qualquer alternativa  ao mundo capitalista e neo-liberal. Por outro lado, a este conceito pode atribuir-se-lhe uma outra sem&acirc;ntica:  &laquo;o progresso como algo de fortuito, ao inv&eacute;s de inevit&aacute;vel, cont&eacute;m a promessa de que a  mudan&ccedil;a pode ocorrer sob diversas e m&uacute;ltiplas formas, e n&atilde;o sob a forma de narrativa  totalit&aacute;ria de progresso, induzida pelo cientismo e pelo capitalismo liberal.&raquo; (p.266) Quer afirmar o autor  que o conceito de progresso deve ser contextualizado e que, por isso, &laquo;um programa progressista na &Aacute;frica  do Sul seria radicalmente diferente dos tipos de desenvolvimento&raquo; (p. 269) ocorridos noutros pa&iacute;ses.  Considerar que progresso significa a perfectibilidade infinita de toda a humanidade &laquo;em competi&ccedil;&atilde;o  com a natureza &eacute; inconsistente com as no&ccedil;&otilde;es de humildade e equil&iacute;brio defendidas pelo  discurso &eacute;tico mu&ccedil;ulmano&raquo; (p. 271). Por outro lado, n&atilde;o &eacute; correcto afirmar a dicotomia  entre tradi&ccedil;&atilde;o e progresso, defende o autor: &laquo;os intelectuais e os activistas t&ecirc;m a  responsabilidade de reformular o conhecimento da tradi&ccedil;&atilde;o e, portanto, a tradi&ccedil;&atilde;o &agrave;  luz das suas experi&ecirc;ncias contempor&acirc;neas&raquo; (p. 263).</P>     <p><I>Geopol&iacute;ticas e a sua subvers&atilde;o </I>constitui a terceira parte da obra. O saber moderno,  historicamente hegemonizado, foi constru&iacute;do em determinados lugares e contextos. Esta realidade teve, ao  longo do tempo, consequ&ecirc;ncias e significados para quem o produziu e nas suas pr&aacute;ticas. Por outro lado,  significou a subalterniza&ccedil;&atilde;o de outros saberes que hoje, identificando a pluralidade de lugares e os  respectivos contextos, podem afirmar-se como epistemologias alternativas. <I>Medita&ccedil;&otilde;es anti-cartesianas  sobre a origem do </I><I>anti-discurso filos&oacute;fico da modernidade</I>, de Enrique Dussel, &eacute; um interessante  e pol&eacute;mico artigo, apoiado num amplo quadro te&oacute;rico, que prop&otilde;e o deslocamento geopol&iacute;tico  do lugar e do tempo que a filosofia ocidental estabelece como origem e marca da modernidade &ndash; Norte da Europa e  S&eacute;culo XVII. Refutar a tese, historicamente aceite, de que Descartes foi o primeiro fil&oacute;sofo moderno,  atrav&eacute;s de argumentos bem sustentados em obras de fil&oacute;sofos jesu&iacute;tas do Sul da Europa e da  Am&eacute;rica do Sul que influenciaram o pensamento cartesiano (Ant&oacute;nio Rubio, Francisco Su&aacute;rez, Pedro  de Fonseca, Francisco Sanches), e nos quais se podem encontrar os grandes temas em torno dos quais gira o pensamento  de Descartes, significa transferir para o S&eacute;culo XVI e para o Sul da Europa, Norte de &Aacute;frica e  Am&eacute;rica Latina a origem da modernidade. &laquo;Antes de Descartes tinha acontecido todo o s&eacute;culo XVI,  que a hist&oacute;ria da filosofia moderna centro-europeia e norte-americana pretendeu desconhecer at&eacute; ao  presente&raquo; (p. 295). &laquo;A irrup&ccedil;&atilde;o nas universidades de uma Ordem religiosa completamente  <I>moderna</I> &ndash; n&atilde;o simplesmente por estar influenciada pela modernidade mas, sim, por ser <I>uma das  suas causas intr&iacute;nsecas</I> &ndash; os jesu&iacute;tas, impulsiona os primeiros passos de uma filosofia moderna  na Europa&raquo; (p. 299). Segundo o autor, Descartes e Espinosa (judeu hisp&acirc;nico ou sefardita) enquadram-se  na segunda modernidade. Interessante, tamb&eacute;m, a refer&ecirc;ncia a Bartolom&eacute; de las Casas e ao seu  pensamento (1484-1566) como o primeiro cr&iacute;tico frontal da modernidade e como defensor intransigente de outras  formas de pensar e de ver o mundo, diferentes do pensamento filos&oacute;fico hegem&oacute;nico. O autor,  prop&otilde;e-nos, ainda, uma leitura atenta do pensamento de Felipe Guam&aacute;n de Ayala (1615), exemplo de um  pensamento cr&iacute;tico da situa&ccedil;&atilde;o colonial, de um ind&iacute;gena que sofreu os efeitos da  domina&ccedil;&atilde;o. Prop&otilde;e, finalmente, que se inicie, tamb&eacute;m, um processo de  descoloniza&ccedil;&atilde;o filos&oacute;fica (p. 331).</P>     <p>Nelson Maldonado-Torres, em <I>A topologia do ser e a geopol&iacute;tica do conhecimento. Modernidade,  imp&eacute;rio e colonialidade</I>, mostra, atrav&eacute;s de um percurso cr&iacute;tico pelo pensamento de alguns  fil&oacute;sofos ocidentais contempor&acirc;neos (Heidegger, L&eacute;vinas&hellip;) a aus&ecirc;ncia de reflex&atilde;o  cr&iacute;tica relativamente ao eurocentrismo epistemol&oacute;gico. O eurocentrismo e etnocentrismo surgem  perfeitamente legitimados atrav&eacute;s de conceitos coloniais e racistas. Neste artigo de cariz ontol&oacute;gico  e &eacute;tico, o autor procura demonstrar que &laquo;a ontologia heideggeriana e a &eacute;tica de L&eacute;vinas  (&hellip;) se, por um lado, forneceram meios engenhosos de ultrapassar os limites da ideia ocidental de Homem, por  outro, as suas filosofias permaneceram c&uacute;mplices de forma&ccedil;&otilde;es espaciais de cariz imperial&raquo;.  Ambas as filosofias se encontram &laquo;marcadas pelo esquecimento da colonialidade&raquo; (p. 339). Recorrendo ao  pensamento de Fanon que abre um caminho de reflex&atilde;o encarando a diferen&ccedil;a colonial como ponto de partida,  propondo uma outra geopol&iacute;tica, o autor configura a sua an&aacute;lise atrav&eacute;s dos conceitos de  modernidade/colonialidade, colonialidade do poder e do conhecimento e colonialidade do Ser.</P>     <p>Ram&oacute;n Grosfoguel, em P<I>ara descolonizar os estudos de economia pol&iacute;tica e os  estudos p&oacute;s-coloniais: transmodernidade, pensamento de fronteira e colonialidade global</I>, questiona a  possibilidade de uma pol&iacute;tica anticapitalista que supere a pol&iacute;tica identit&aacute;ria e um  cosmopolitismo cr&iacute;tico que ultrapasse o colonialismo e nacionalismo. A possibilidade de afirma&ccedil;&atilde;o  de outros conhecimentos em conformidade com o que de melhor tem a modernidade possibilitar&aacute; ultrapassar todas  as dicotomias em que o modernismo colonial se fundamentou para afirmar a sua domina&ccedil;&atilde;o. As perspectivas  epist&eacute;micas provenientes dos pensamentos de fronteira e das margens, dos lados subalternos da diferen&ccedil;a  colonial poder&atilde;o contribuir para um debate prof&iacute;cuo tendo em vista a defini&ccedil;&atilde;o de outras  cartografias das rela&ccedil;&otilde;es de poder no sistema-mundo.</P>     <p>Nilma Gomes, no artigo <I>Intelectuais negros e produ&ccedil;&atilde;o do conhecimento: algumas  reflex&otilde;es sobre a realidade brasileira, </I>discute o papel da nova gera&ccedil;&atilde;o de investigadores  na produ&ccedil;&atilde;o do conhecimento cient&iacute;fico, sobretudo, no dom&iacute;nio das Ci&ecirc;ncias Sociais.  Os novos olhares dos intelectuais negros na produ&ccedil;&atilde;o do conhecimento trazem uma an&aacute;lise e uma  leitura cr&iacute;ticas de algu&eacute;m que vivencia o racismo no seu percurso de vida e acad&eacute;mico. </P>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Finalmente, a quarta parte de <I>Epistemologias do Sul</I>, intitulada <I>A reinven&ccedil;&atilde;o dos lugares</I>,  &eacute; uma proposta de regresso aos lugares na busca dos sentidos e da riqueza neles existentes. A modernidade, na  sua vers&atilde;o colonialista, capitalista e neo-liberal esvaziou a riqueza de sentidos do mundo, tanto do Norte global  como do Sul global. Os furtos do colonialismo, afirma Boaventura, n&atilde;o se realizaram, apenas, extra-muros, mas t amb&eacute;m intra-muros. H&aacute;, pois, que devolver alguns dos objectos furtados para criar um novo padr&atilde;o  de interculturalidade. Regressar a esses lugares com um outro olhar, mais cr&iacute;tico e mais cir&uacute;rgico,  permitir&aacute; a reinven&ccedil;&atilde;o do que foi marginalizado, silenciado e esquecido. Boaventura de Sousa Santos,  em <I>Um Ocidente n&atilde;o-ocidentalista: a filosofia &agrave; </I><I>venda, a douta ignor&acirc;ncia e a aposta de  Pascal,</I> prop&otilde;e-nos, atrav&eacute;s de uma revisita&ccedil;&atilde;o, pensar um novo tipo de  rela&ccedil;&otilde;es interculturais e inter-epistemol&oacute;gicas que contribuam para a descoloniza&ccedil;&atilde;o  do saber. </P>     <p><I>Encontros culturais e Oriente: um estudo das </I><I>pol&iacute;ticas de conhecimento,</I> de Shiv Visvanathan,  relembra o dever de mem&oacute;ria relativamente a alguns dos custos do encontro entre Oriente e Ocidente: &laquo;o  genoc&iacute;dio, a erradica&ccedil;&atilde;o f&iacute;sica de grandes massas populacionais, incluindo a virtual  extin&ccedil;&atilde;o das suas cren&ccedil;as, da sua m&uacute;sica e dos seus modos de vida. Este aspecto necr&oacute;filo  dos encontros Leste-Oeste &eacute; capturado pelo paradoxo que comummente chamamos museu&raquo; (p. 488), uma  esp&eacute;cie de &laquo;racionaliza&ccedil;&atilde;o da pirataria.&raquo; Contestando a tend&ecirc;ncia para a  produ&ccedil;&atilde;o de identidades singulares e monoculturais, a sua reflex&atilde;o sobre um conjunto de pensadores  orientais &eacute; um apelo &agrave; toler&acirc;ncia e aceita&ccedil;&atilde;o de experi&ecirc;ncias plurais  enriquecedoras, bases inquestion&aacute;veis para uma verdadeira interculturalidade.</P>     <p>Como ser&aacute; poss&iacute;vel que algum dia os africanos possam falar as mil e setecentas l&iacute;nguas e dialectos,  express&atilde;o de uma riqu&iacute;ssima diversidade e identidade cultural? Esta &eacute; a quest&atilde;o deixada por  Dismas Masolo, em <I>Filosofia e conhecimento ind&iacute;gena: uma perspectiva africana,</I> depois de uma discuss&atilde;o  em torno da etno-filosofia africana. Questionando a neutralidade das teorias, elabora uma reflex&atilde;o sobre o modo como  elas s&atilde;o o resultado de din&acirc;micas contextuais e, sobretudo, pelas circunst&acirc;ncias sociais em que  s&atilde;o produzidas. Opondo-se &agrave; categoriza&ccedil;&atilde;o dualizante entre tradi&ccedil;&atilde;o e moderno,  o autor valoriza o conhecimento ind&iacute;gena e o modo como ele se expressa nas l&iacute;nguas nativas. </P>     <p><I>Epistemologias do Sul</I> &eacute;, a todos os t&iacute;tulos, uma obra impressionante. Pelo seu volume, pela  diversidade de perspectivas, pelo debate entre posi&ccedil;&otilde;es rivais, pela riqueza conceptual e pela amplitude  de horizontes que abre ao leitor. Para quem foi formatado pelo pensamento ocidental, pelo colonialismo do saber e por  uma unilateralidade epistemol&oacute;gica, &eacute; um dever intelectual fazer o percurso pelas alternativas  epistemol&oacute;gicas sugeridas nesta obra. &laquo;A energia deve centrar-se na valoriza&ccedil;&atilde;o da  diversidade dos saberes para que a intencionalidade e a inteligibilidade das pr&aacute;ticas sociais seja a mais ampla  e democr&aacute;tica&raquo; (p. 18).</P>      <p align="right"><B>Manuel Tavares</B></P>     <p align="right"><a href="mailto:manuel.tavares@ulusofona.pt">manuel.tavares@ulusofona.pt</a></P>       ]]></body>
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