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<article-title xml:lang="pt"><![CDATA[O acolhimento familiar numa perspectiva ecológico-social]]></article-title>
<article-title xml:lang="en"><![CDATA[The foster care in an ecological perspective]]></article-title>
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<abstract abstract-type="short" xml:lang="en"><p><![CDATA[Bronfenbrenner&#8217;s eco-social approach allows us to understand human development as well as to identify factors influencing ecological transitions. This perspective is particularly well suited to study the transitions occurring in the lives of children in foster care: separation from parents and the challenges of an unknown environment. This approach is also valuable in orienting intervention in practice, preventing risks and promoting children&#8217;s integration and development.]]></p></abstract>
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<kwd lng="en"><![CDATA[Ecological Perspective]]></kwd>
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</front><body><![CDATA[ <P><B>O acolhimento familiar numa perspectiva ecol&oacute;gico-social</b></P >     <P   > Paulo Delgado<a href="#1">*</a><a name="top1"></a></P >     <P   align="justify" >O modelo ecol&oacute;gico-social de Bronfenbrenner permite compreender o desenvolvimento    humano, as interac&ccedil;&otilde;es e interdepend&ecirc;ncias que o caracterizam,    e o restruturam, bem como identificar os factores que condicionam ou facilitam    as transi&ccedil;&otilde;es ecol&oacute;gicas. No caso espec&iacute;fico do    Acolhimento Familiar, esta perspectiva possibilita a compreens&atilde;o das    transi&ccedil;&otilde;es que ocorrem na vida da crian&ccedil;a acolhida, a separa&ccedil;&atilde;o    dos pais e o desenraizamento do seu contexto, a que se sucede a coloca&ccedil;&atilde;o    num mundo novo e desconhecido, e orienta a interven&ccedil;&atilde;o na pr&aacute;tica,    de modo a prevenir os riscos e a promover a integra&ccedil;&atilde;o e o desenvolvimento    das crian&ccedil;as.</P >     <P   align="justify" ><B>Palavras-chave:</b> Acolhimento Familiar; protec&ccedil;&atilde;o infantil;    perspectiva ecol&oacute;gica.</P >     <P   align="justify" >&nbsp;</P >     <P   align="justify" ><b>The foster care in an ecological perspective </b></P >     <p>Bronfenbrenner&#8217;s eco-social approach allows us to understand human development    as well as to identify factors influencing ecological transitions. This perspective    is particularly well suited to study the transitions occurring in the lives    of children in foster care: separation from parents and the challenges of an    unknown environment. This approach is also valuable in orienting intervention    in practice, preventing risks and promoting children&#8217;s integration and    development.</p>     <p><b>Keywords:</b> Foster Care; Child Care; Ecological Perspective.</p>     <P   align="right" >&nbsp;</P >     <P   align="justify" >A obra de Bronfenbrenner descreve a rela&ccedil;&atilde;o entre o ambiente e o desenvolvimento humano, sublinhando o modo como o espa&ccedil;o ecol&oacute;gico-social em que o indiv&iacute;duo est&aacute; inserido influencia o seu percurso, condicionando-o ou potenciando-o, por interm&eacute;dio das interac&ccedil;&otilde;es que se estabelecem e restabelecem entre pessoas (como por exemplo alimentar e acarinhar um beb&eacute;, brincar com uma crian&ccedil;a, as actividades ou brincadeiras entre crian&ccedil;as), entre estas e os s&iacute;mbolos e objectos que caracterizam o seu ambiente externo (como por exemplo ler, brincar sozinha, resolver problemas, praticar desporto, ou adquirir novos conhecimentos) e entre sistemas (nomeadamente entre a escola e a fam&iacute;lia, ou entre o ensino superior e o mercado empresarial). Ao longo da vida, os indiv&iacute;duos adaptam-se ao meio envolvente mas tamb&eacute;m podem, de modo rec&iacute;proco, adapt&aacute;-lo ou modific&aacute;-lo, influenciando-se mutuamente (Thomas &amp; Pierson, 1995; Caballo, Candia, Caride &amp; Meira, 1996). Na perspectiva ecol&oacute;gica, ecosocial ou ecosist&eacute;mica &ldquo;os sujeitos, longe de serem um produto passivo do ambiente, s&atilde;o agentes din&acirc;micos do mesmo, edificando realidades&rdquo; (Caride &amp; Meira, 1995, p.146), atrav&eacute;s da interac&ccedil;&atilde;o com os elementos demogr&aacute;ficos, f&iacute;sico-naturais, sociais e culturais de uma comunidade (Meira, 1999).</P >    ]]></body>
<body><![CDATA[<P   align="justify" >O espa&ccedil;o ecol&oacute;gico &ldquo;&eacute; concebido como uma s&eacute;rie de estruturas encaixadas, uma dentro da outra, como um conjunto de bonecas russas&rdquo; (Bronfenbrenner, 1996, p.5), mas que n&atilde;o est&atilde;o hermeticamente fechadas, umas em rela&ccedil;&atilde;o &agrave;s outras, das mais pequenas &agrave; maior. Ancorada na teoria sist&eacute;mica, a perspectiva ecol&oacute;gica reconhece a interdepend&ecirc;ncia e a interrela&ccedil;&atilde;o entre os diferentes n&iacute;veis ambientais e os componentes que os comp&otilde;em, produzindo, no seu conjunto, um meio que &eacute; globalmente distinto (pode ser mais ou pode ser menos) da mera soma de cada uma das suas parcelas (Relvas, 1996; Alarc&atilde;o, 2000). Um sistema ecol&oacute;gico caracteriza-se ainda pela reciprocidade entre as suas partes, pelo facto da mudan&ccedil;a numa delas afectar o todo, por ser uma estrutura flex&iacute;vel e adaptativa que tende para o equil&iacute;brio e se prolonga no tempo, gerindo a abertura (ou fecho) das suas fronteiras face aos restantes sistemas ou sub-sistemas (Thomas &amp; Pierson, 1995; Ander-Egg, 1997). Em s&iacute;ntese, as suas propriedades s&atilde;o, segundo a enumera&ccedil;&atilde;o de Payne (2005), o estado formado (<I>steady state</I>), a hom&eacute;ostase ou equil&iacute;brio, a diferencia&ccedil;&atilde;o, n&atilde;o ser sumativo e a reciprocidade. Estabelece pap&eacute;is e fun&ccedil;&otilde;es, segundo determinadas regras, e a &ldquo;clara delimita&ccedil;&atilde;o destes limites interaccionais permite a cada um, em cada momento e em cada espa&ccedil;o, saber o que pode esperar de si pr&oacute;prio, o que podem os outros esperar dele e o que pode ele esperar dos restantes&rdquo; (Alarc&atilde;o, 2000, p.43). Todavia, apesar de partirem do mesmo tronco comum, s&atilde;o distintas as acep&ccedil;&otilde;es conceptuais e metodol&oacute;gicas da perspectiva sist&eacute;mica e ecol&oacute;gica, &ldquo;sendo este &uacute;ltimo o que recolhe as aporta&ccedil;&otilde;es do primeiro&rdquo; (Garc&iacute;a &amp; Mel&iacute;an, 1993, p.80).</P >    <P   align="justify" >Anderson, Carter e Lowe, citados por Payne (2005, p.142), atribuem &agrave; perspectiva sist&eacute;mica um &ldquo;continuum atom&iacute;stico-hol&iacute;stico&rdquo;, uma vez que se centram na situa&ccedil;&atilde;o pessoal e social de uma pessoa ao mesmo tempo que estudam a interac&ccedil;&atilde;o da sua actua&ccedil;&atilde;o com o todo. Parte da organiza&ccedil;&atilde;o pol&iacute;tico-social n&atilde;o para a rejeitar, mas para, aceitando-a e analisando-a, propor o seu aperfei&ccedil;oamento e ajustamento a cada contexto espec&iacute;fico. Numa aprecia&ccedil;&atilde;o cr&iacute;tica &agrave; perspectiva sist&eacute;mica e ecol&oacute;gica, Payne (<I>idem</I>, p.157) reconhece-lhe as seguintes vantagens: enfatiza as mudan&ccedil;as ambientais em detrimento das abordagens psicol&oacute;gicas; concentra-se nos efeitos de uma pessoa sobre a outra mais do que nos pensamentos ou sentimentos internos; alerta para a possibilidade de alcan&ccedil;ar a mesma finalidade seguindo caminhos alternativos; &eacute; unit&aacute;ria, integrada e hol&iacute;stica; e evita explica&ccedil;&otilde;es lineares ou determin&iacute;sticas (tipo causa-efeito) do comportamento ou dos fen&oacute;menos sociais. </P >    <P   align="justify" >S&atilde;o quatro os c&iacute;rculos que, segundo Bonfrenbrenner (1996), rodeiam ou integram a pessoa no seu n&uacute;cleo. O <I>microsistema</I> &eacute; o primeiro, o mais &iacute;ntimo e imediato, ou mais conhecido, que envolve o indiv&iacute;duo desde os primeiros anos de vida, e as interac&ccedil;&otilde;es que desenvolve em territ&oacute;rios como a casa / fam&iacute;lia, com os pais e os irm&atilde;os, a sala de aula ou o parque infantil. Bronfenbrenner denominou <I>mesosistema</I> &agrave;s rela&ccedil;&otilde;es ou interconex&otilde;es que cada um destes micro espa&ccedil;os estabelece entre si (rela&ccedil;&atilde;o escola/fam&iacute;lia, ou fam&iacute;lia/ amigos da vizinhan&ccedil;a), sublinhando a import&acirc;ncia que t&ecirc;m no desenvolvimento, a par dos acontecimentos que ocorrem num desses espa&ccedil;os, uma vez que a capacidade de aprendizagem de uma crian&ccedil;a &ldquo;pode depender tanto do como ela &eacute; ensinada quanto da exist&ecirc;ncia e natureza de la&ccedil;os entre a escola e a fam&iacute;lia&rdquo; (<I>idem</I>, p.5). Em suma, o mesosistema &eacute; um sistema composto por microsistemas e ser&aacute; tanto mais poderoso e rico para o desenvolvimento da crian&ccedil;a quanto mais diversos e fortes s&atilde;o os v&iacute;nculos entre os meios, com particular destaque para o que liga a fam&iacute;lia &agrave; escola (Garbarino &amp; Eckenrode, 1999).</P >    <P   align="justify" >O <I>exosistema</I> constitui o terceiro n&iacute;vel ecol&oacute;gico e refere-se &agrave; comunidade envolvente em que as fam&iacute;lias se inserem e ao mundo do trabalho (Alberto, 2004). S&atilde;o ambientes mais afastados, nos quais o indiv&iacute;duo pode nem estar presente, mas cujos acontecimentos influenciam o seu desenvolvimento, como por exemplo o desemprego ou as condi&ccedil;&otilde;es de trabalho dos pais, a sua rede de amigos, a sala de aula de um irm&atilde;o mais velho, os Servi&ccedil;os Sociais locais ou servi&ccedil;os aut&aacute;rquicos de planifica&ccedil;&atilde;o urban&iacute;stica. Pormenorizando, s&atilde;o as conex&otilde;es ou processos entre dois ou mais sistemas, &ldquo;um dos quais, pelo menos, n&atilde;o integra normalmente a pessoa em desenvolvimento, mas no qual ocorrem eventos que influenciam os processos dentro do sistema que cont&eacute;m aquela pessoa&rdquo; (<I>idem</I>, p.80). Isto &eacute;, s&atilde;o eventos que, segundo Garbarino e Eckenrode (1999) acarretam um duplo risco quando afectam os pais e adultos, o que por sua vez, empobrece o microsistema (por exemplo um hor&aacute;rio de trabalho muito longo ou a necessidade de viajar muitas horas para chegar ao local de trabalho) ou se s&atilde;o decis&otilde;es que afectam de forma adversa a crian&ccedil;a (por exemplo, a escola decide suspender as actividades de enriquecimento curricular).</P >    <P   align="justify" >O &uacute;ltimo n&iacute;vel socioambiental remete para a cultura social, para os valores, as cren&ccedil;as e os modos de agir de uma determinada sociedade, para a forma como ela se organiza, desde o espa&ccedil;o mais privado (microsistema) &agrave; esfera nacional. Que existam ou que poder&atilde;o existir, abrangendo &ldquo;poss&iacute;veis planifica&ccedil;&otilde;es para o futuro de acordo com a vis&atilde;o dos l&iacute;deres pol&iacute;ticos, dos planificadores sociais, dos fil&oacute;sofos e cientistas sociais de uma sociedade empenhados na an&aacute;lise critica e altera&ccedil;&atilde;o experimental dos sistemas sociais prevalecentes&rdquo; (Brofenbrenner, 1996, p.22). Por outras palavras, s&atilde;o os padr&otilde;es organizacionais e ideol&oacute;gicos das institui&ccedil;&otilde;es sociais numa cultura (ou subcultura) particular. As casas, as escolas, os bairros, os ambientes de trabalho, os caf&eacute;s e as rela&ccedil;&otilde;es entre eles, para referir alguns exemplos citados por Bronfenbrenner (<I>idem</I>), s&atilde;o diferentes entre dois pa&iacute;ses, e tamb&eacute;m n&atilde;o s&atilde;o as mesmas para as fam&iacute;lias abastadas e para as fam&iacute;lias pobres que vivam num desses pa&iacute;ses, ou que perten&ccedil;am a grupos &eacute;tnicos ou religiosos distintos. A viol&ecirc;ncia intrafamiliar enra&iacute;za-se na cultura e nos costumes que toleram os castigos corporais (Azevedo &amp; Maia, 2006), e o autoritarismo no poder do adulto sobre a crian&ccedil;a incompetente (Alberto, 2004).</P >    <P   align="justify" > Apesar de ser composto por padr&otilde;es consistentes de organiza&ccedil;&atilde;o e de comportamento, o <I>macrosistema</I>, a maior e &uacute;ltima &laquo;das bonecas&raquo;, pode sofrer modifica&ccedil;&otilde;es, o que significa que &ldquo;a estrutura dos ambientes numa sociedade pode ser nitidamente alterada e produzir mudan&ccedil;as correspondentes no comportamento e desenvolvimento&rdquo; (Brofenbrenner, 1996, p.6), como sucede em situa&ccedil;&otilde;es de crise econ&oacute;mica ou pol&iacute;tica. O espa&ccedil;o nacional est&aacute; igualmente inserido noutros sistemas, comunit&aacute;rios ou internacionais, e o conjunto dos acontecimentos econ&oacute;micos, culturais, pol&iacute;ticos e sociais influenciam o seu desenvolvimento. Como se afirma a prop&oacute;sito do seu estudo, em Economia &laquo;n&atilde;o h&aacute; ilhas&raquo;, mas um feixe multiplicador de vari&aacute;veis e de interdepend&ecirc;ncias, com diferentes n&iacute;veis e dimens&otilde;es, que geram o crescimento ou a recess&atilde;o. No campo do trabalho social, seguindo o mesmo racioc&iacute;nio, Garc&iacute;a e Meli&aacute;n (1993) declaram que n&atilde;o h&aacute; indiv&iacute;duos isolados, porque fazem parte de sistemas, ou &laquo;tudo depende&raquo;, na express&atilde;o de Garbarino e Eckenrode (1999), dos n&iacute;veis mais pr&oacute;ximos e afastados, dos &ldquo;mundos maiores e menores&rdquo; (p.37).</P >    <P   align="justify" >Assim sucede tamb&eacute;m com o desenvolvimento humano, como Bronfenbrenner evidenciou, com as suas causas e relativamente &agrave;s suas consequ&ecirc;ncias, que para as crian&ccedil;as podem ser particularmente lesivas. Trata-se, no fundo, de perceber que os comportamentos de um indiv&iacute;duo se devem compreender n&atilde;o apenas pelo que ele &eacute; ou pelo seu desenvolvimento ontog&eacute;nico, na express&atilde;o de Belsky (1980), que representa a hist&oacute;ria e a heran&ccedil;a pessoal, mas ponderando as in&uacute;meras rela&ccedil;&otilde;es que ele estabelece, numa troca cont&iacute;nua, com os diferentes ambientes ou n&iacute;veis ecol&oacute;gicos em que est&aacute; inserido, que condicionam (reduzindo ou aumentando) o grau de concretiza&ccedil;&atilde;o do seu potencial gen&eacute;tico (Bronfenbrenner, n.d.; Howe, <I>et al.</I>, 1999). Ou, de uma forma sint&eacute;tica, da complementaridade entre o sistema biopsicol&oacute;gico que caracteriza o ser humano e o sistema socioecon&oacute;mico-pol&iacute;tico (Brofenbrenner, 2005). </P >    <P   align="justify" >O desenvolvimento humano resulta da correla&ccedil;&atilde;o que se estabele&ccedil;a entre a hereditariedade e o ambiente ecol&oacute;gico e define-se como &ldquo;o fen&oacute;meno de continuidade e mudan&ccedil;a nas caracter&iacute;sticas biopsicol&oacute;gicas dos seres humanos como indiv&iacute;duos e como grupos&rdquo; (<I>idem</I>, p.3). Correla&ccedil;&atilde;o porque entre o individuo e o ambiente desenvolve-se uma interac&ccedil;&atilde;o rec&iacute;proca, isto &eacute;, por um lado o meio ambiente exerce a sua influ&ecirc;ncia, por outro o indiv&iacute;duo penetra no meio em que reside e restrutura-o, originando um processo de acomoda&ccedil;&atilde;o m&uacute;tua (Brofenbrenner, 1996), que n&atilde;o pode ser compreendido &agrave; margem das circunst&acirc;ncias quotidianas e dos contextos em que tem lugar (Caride &amp; Meira, 1995), porque a crian&ccedil;a n&atilde;o cresce no &laquo;v&aacute;cuo&raquo; (Daniel, Wassell &amp; Gilligan, 1999). A integra&ccedil;&atilde;o ou a inadapta&ccedil;&atilde;o n&atilde;o existem fora dos contextos sociais e remetem, necessariamente, para ambientes concretos (Garbarino &amp; Barry, 1999), que a perspectiva ecol&oacute;gica ajuda a compreender. </P >    <P   align="justify" >O modelo ecol&oacute;gico-social de Bronfrenbrenner pode ser utilizado na an&aacute;lise da situa&ccedil;&atilde;o de maus tratos que vitima uma crian&ccedil;a (Belsky, 1980; Garbarino, 1982; Pa&uacute;l &amp; Arruabarrena, 1996; Rodrigo &amp; Palacios, 1998), com causas multifactoriais, ao descrever o ambiente ecol&oacute;gico concreto em que a sua fam&iacute;lia se integra, as suas disfun&ccedil;&otilde;es, e o modo como a fam&iacute;lia se relaciona com os meios exteriores, ao n&iacute;vel do meso e do exosistema. Problemas graves t&ecirc;m m&uacute;ltiplas fontes e causas, que requerem, para plano de interven&ccedil;&atilde;o, um modelo capaz de abarcar a complexidade e que refute as respostas simples e imediatas (Daniel <I>et al.</I>, 1999).</P >    <P   align="justify" >Mas tamb&eacute;m pode ser utilizado, uma vez decidida a retirada, para caracterizar e compreender a situa&ccedil;&atilde;o de Acolhimento Familiar em que a crian&ccedil;a passa a viver, as interac&ccedil;&otilde;es e conex&otilde;es entre os diferentes n&iacute;veis ecol&oacute;gicos que o novo contexto de vida determina, o que as pessoas nele envolvidos &ldquo;sentem, o que sabem, como conhecem, quais s&atilde;o as suas cren&ccedil;as, percep&ccedil;&otilde;es, modos de ver e entender&rdquo; (Caride &amp; Meira, 1995, p.140). As reflex&otilde;es que se seguem representam uma tentativa de aplica&ccedil;&atilde;o do modelo ecol&oacute;gico-social ao Acolhimento Familiar, distinto do descrito por Panch&oacute;n (1998), porque distante da temporalidade e da voluntariedade nele assumidas, mas partilhando os crit&eacute;rios de economia e de proximidade que prop&otilde;em. O Acolhimento Familiar &eacute;, para este efeito, a unidade familiar dependente de outras pessoas e organiza&ccedil;&otilde;es sociais, que proporciona estadias de curta ou longa dura&ccedil;&atilde;o (o que exclui as situa&ccedil;&otilde;es de emerg&ecirc;ncia em que o beb&eacute; ou a crian&ccedil;a n&atilde;o passam mais do que uns dias na companhia dos acolhedores). Parte-se igualmente do pressuposto anteriormente referido que a crian&ccedil;a &ldquo;n&atilde;o &eacute; um recept&aacute;culo passivo da experi&ecirc;ncia do acolhimento&rdquo; (Gilligan, 1998, p.83) mas que influencia o ambiente que a rodeia, particularmente as respostas que os seus acolhedores lhe d&atilde;o.</P >    ]]></body>
<body><![CDATA[<P   align="justify" >Ser acolhido representa desde logo, ao n&iacute;vel do microsistema, e do ponto de vista da crian&ccedil;a, a entrada numa nova casa e a integra&ccedil;&atilde;o num novo espa&ccedil;o familiar, que deve ser, simultaneamente, um ambiente terap&ecirc;utico para a crian&ccedil;a, que promove a mudan&ccedil;a para padr&otilde;es seguros de <I>attachment</I> (Cairns, 2002). O n&iacute;vel ecol&oacute;gico de maior proximidade e perman&ecirc;ncia passa a ser composto pela fam&iacute;lia dos acolhedores, pela interac&ccedil;&atilde;o que a crian&ccedil;a acolhida estabelece e desenvolve com cada um dos membros da fam&iacute;lia de acolhimento. Nas situa&ccedil;&otilde;es em que a crian&ccedil;a &eacute; obrigada a mudar de localidade para ser acolhida, pode ser necess&aacute;ria a transfer&ecirc;ncia da creche, do jardim infantil ou da escola. O acolhimento implica a explora&ccedil;&atilde;o de novos espa&ccedil;os, como a rua, o bairro, as instala&ccedil;&otilde;es desportivas ou o parque, outros s&iacute;mbolos e novos objectos, implica estabelecer novos amigos, no espa&ccedil;o escolar, na vizinhan&ccedil;a e na rede de contactos de que os acolhedores disp&otilde;em, diminuindo significativamente ou cessando os contactos com amigos e vizinhos que possu&iacute;a no contexto de vida anterior.</P >    <P   align="justify" >Neste n&iacute;vel prim&aacute;rio poder&atilde;o permanecer, ou n&atilde;o, os pais, os irm&atilde;os e outros familiares, de acordo com o contacto que for poss&iacute;vel estabelecer no decurso do acolhimento (David, 2000; Hill, 1998). Surgem (ou mant&ecirc;m-se) os t&eacute;cnicos ou assistentes sociais da Equipa de Acolhimento que acompanha o desenrolar da estadia e que contactam, de forma mais ou menos frequente, com a crian&ccedil;a acolhida.</P >    <P   align="justify" >No mesosistema, destaque para a rela&ccedil;&atilde;o que a fam&iacute;lia de acolhimento passa a desenvolver com a Equipa de Acolhimento e com a fam&iacute;lia biol&oacute;gica (ou com os anteriores detentores da guarda da crian&ccedil;a), bem como destas entre si, compondo este tri&acirc;ngulo relacional (mais ou menos cooperativo) a ess&ecirc;ncia interaccional da coloca&ccedil;&atilde;o, com a crian&ccedil;a no centro. A perspectiva ecol&oacute;gica prop&otilde;e um relacionamento inclusivo, em que os protagonistas trabalham em rede para maximizar o apoio social dispon&iacute;vel para a crian&ccedil;a protegida (Wade, 1999). Neste n&iacute;vel cabem ainda as rela&ccedil;&otilde;es que acolhedores estabele&ccedil;am com a escola, de enorme import&acirc;ncia face &agrave;s dificuldades de integra&ccedil;&atilde;o e de aprendizagem que frequentemente caracterizam as crian&ccedil;as acolhidas, bem com as rela&ccedil;&otilde;es fam&iacute;lia / vizinhan&ccedil;a ou fam&iacute;lia/ grupos de actividades desportivas, culturais ou de outro tipo no dom&iacute;nio do lazer e da ocupa&ccedil;&atilde;o do tempo livre, que podem desempenhar um papel de relevo na constru&ccedil;&atilde;o da resili&ecirc;ncia (Gilligan, 2000)</P >    <P   align="justify" >O desenvolvimento da crian&ccedil;a acolhida depende do padr&atilde;o de vida e das transforma&ccedil;&otilde;es que v&atilde;o alterando a configura&ccedil;&atilde;o da fam&iacute;lia de acolhimento. Acontecimentos no &acirc;mbito laboral, na fam&iacute;lia alargada ou no grupo de amigos dos acolhedores podem influenciar o percurso da crian&ccedil;a acolhida, tal como os acontecimentos que ocorrem no contexto escolar dos filhos dos acolhedores. No exosistema da crian&ccedil;a acolhida integram-se ainda todos os acontecimentos relevantes que afectam a fam&iacute;lia biol&oacute;gica e a sua condi&ccedil;&atilde;o social, econ&oacute;mica e cultural, pois apesar da crian&ccedil;a n&atilde;o participar directa ou activamente nestas esferas, a possibilidade de regresso a casa pode ser condicionada ou facilitada pelo decurso desses acontecimentos, deles dependendo eventualmente tamb&eacute;m, ainda que de um modo indirecto, as suas possibilidades de desenvolvimento. A pr&oacute;pria interven&ccedil;&atilde;o da Equipa de Acolhimento, a qualidade do acompanhamento e da tomada de decis&atilde;o est&aacute; relacionada com as op&ccedil;&otilde;es que, a n&iacute;vel local, forem tomadas pela entidade de enquadramento. O mesmo se pode afirmar relativamente &agrave; fam&iacute;lia biol&oacute;gica e &agrave; exist&ecirc;ncia de programas espec&iacute;ficos de apoio e reintegra&ccedil;&atilde;o familiar.</P >    <P   align="justify" >Por fim, ao n&iacute;vel do macrosistema, sublinhem-se os padr&otilde;es culturais e ideol&oacute;gicos predominantes que representam os valores e as cren&ccedil;as sobre a fam&iacute;lia e sobre o Acolhimento Familiar. A representa&ccedil;&atilde;o social da responsabilidade pelas crian&ccedil;as referida por Gonz&aacute;lez e Triana (1998) &eacute; disso exemplo, podendo essa responsabilidade ser atribu&iacute;da predominantemente &agrave; fam&iacute;lia biol&oacute;gica, que se pensa insubstitu&iacute;vel, ou ser partilhada pelos membros da comunidade. Garbarino e Eckenrode (1999) sublinham o risco dos fen&oacute;menos sociais que reduzam &ldquo;a capacidade e disposi&ccedil;&atilde;o dos adultos para cuidar dos filhos, e dos filhos para aprender com os adultos&rdquo; (p.42). O esquema de organiza&ccedil;&atilde;o do Acolhimento familiar, ou a sua &laquo;planta&raquo;, est&atilde;o fortemente condicionados por esse modo de pensar, que se traduz num quadro institucional e legal que determina, por sua vez, um modo de agir. A atribui&ccedil;&atilde;o de prioridade ao Acolhimento familiar no &acirc;mbito das pol&iacute;ticas sociais de protec&ccedil;&atilde;o das crian&ccedil;as em perigo, face &agrave;s outras medidas de coloca&ccedil;&atilde;o, &eacute; um sintoma dos princ&iacute;pios jur&iacute;dicos e filos&oacute;ficos vigentes.  </P >    <P   align="justify" >Obviamente esta representa&ccedil;&atilde;o n&atilde;o &eacute; est&aacute;tica. A qualquer momento podem ocorrer mudan&ccedil;as no ambiente ecol&oacute;gico, em resultado da din&acirc;mica familiar (e aqui inclui-se a fam&iacute;lia de acolhimento e a fam&iacute;lia biol&oacute;gica), ou da pr&oacute;pria natureza da medida, que pode ser sujeita a modifica&ccedil;&otilde;es (nomeadamente no esquema de contacto com a fam&iacute;lia biol&oacute;gica, ou na passagem de um acolhimento de curta dura&ccedil;&atilde;o para um acolhimento prolongado) ou at&eacute; cessar (pelo regresso da crian&ccedil;a a casa ou pela passagem para outra medida, como o Acolhimento Residencial). Por outro lado, e &agrave; medida que o tempo passa, permanecendo a crian&ccedil;a acolhida, experimentar&aacute; um conjunto de transi&ccedil;&otilde;es no meio ambiente, como a entrada na escola, o desempenho de uma nova actividade desportiva ou cultural ou a mudan&ccedil;a dos t&eacute;cnicos da Equipa de Acolhimento que se ocupam do seu processo. </P >    <P   align="justify" >O pr&oacute;prio macrosistema est&aacute; sujeito a uma cont&iacute;nua restrutura&ccedil;&atilde;o, podendo suceder, por exemplo, que a pol&iacute;tica de interven&ccedil;&atilde;o socioeducativa passe a privilegiar a coloca&ccedil;&atilde;o familiar das crian&ccedil;as e jovens, em detrimento da sua institucionaliza&ccedil;&atilde;o, como sucedeu nas &uacute;ltimas d&eacute;cadas em diversos pa&iacute;ses europeus. As atitudes e comportamentos que envolvem o indiv&iacute;duo, a fam&iacute;lia e a comunidade v&atilde;o evoluindo e adaptam-se a novas ideias e processos, como o modo de educar os filhos, as novas formas de fam&iacute;lia, o estatuto da crian&ccedil;a enquanto sujeito de direitos e deveres, a percep&ccedil;&atilde;o social da viol&ecirc;ncia, o acesso aos meios de assist&ecirc;ncia e de protec&ccedil;&atilde;o, entre outros factores.</P >     <P   align="justify" >O modelo ecol&oacute;gico possibilita n&atilde;o apenas a compreens&atilde;o    do ecosistema que rodeia a crian&ccedil;a acolhida, das interac&ccedil;&otilde;es    e das interdepend&ecirc;ncias que o caracterizam, mas tamb&eacute;m orienta    a interven&ccedil;&atilde;o no sentido de proporcionar &agrave; crian&ccedil;a    as condi&ccedil;&otilde;es adequadas ao seu desenvolvimento, e a question&aacute;-las    cuidadosamente. Como observa Garbarino (2000), &ldquo;a primeira lei da ecologia    &eacute; que &laquo;nunca se pode fazer apenas uma coisa&raquo;&rdquo; (p.35),    e deve-se ter particular aten&ccedil;&atilde;o com as solu&ccedil;&otilde;es    &oacute;bvias, porque a interac&ccedil;&atilde;o entre sistemas pode produzir    consequ&ecirc;ncias inesperadas. Por exemplo, se for detectada no mesosistema    uma dificuldade na rela&ccedil;&atilde;o entre a fam&iacute;lia de acolhimento    e a escola, as ac&ccedil;&otilde;es a implementar para ultrapassar este obst&aacute;culo,    que pode ser particularmente gravoso para o percurso educativo da crian&ccedil;a,    t&ecirc;m de se ajustar ao contexto em que decorrem, aos padr&otilde;es sociais    e culturais dos acolhedores, &agrave;s suas expectativas, cren&ccedil;as e valores,    e aos recursos dispon&iacute;veis na escola (podendo ser recomend&aacute;vel    uma visita domicili&aacute;ria fora do hor&aacute;rio laboral em detrimento    da mera convocat&oacute;ria para uma reuni&atilde;o de pais na escola).</P >     <P   align="center" ><img src="/img/revistas/rle/n14/n14a11f1.bmp"></P >     
<P   align="justify" >O desenvolvimento da crian&ccedil;a na dimens&atilde;o intelectual, emocional, social e moral requer &ldquo;a participa&ccedil;&atilde;o em actividades progressivamente mais complexas, numa base regular durante um extenso per&iacute;odo de tempo da vida de uma crian&ccedil;a, com uma ou mais pessoas com quem a crian&ccedil;a desenvolve uma forte e m&uacute;tua vincula&ccedil;&atilde;o, e que est&atilde;o empenhadas no desenvolvimento e no bem-estar da crian&ccedil;a, de prefer&ecirc;ncia para a vida&rdquo; (Brofenbrenner, 2005, p.9), e de prefer&ecirc;ncia com a presen&ccedil;a e a participa&ccedil;&atilde;o de pelo menos uma terceira pessoa, como um c&ocirc;njuge, um parente, um amigo ou um vizinho, compondo uma estrutura interpessoal mais ampla. Este sistema de interac&ccedil;&atilde;o depende, por sua vez, dos restantes n&iacute;veis ecol&oacute;gicos, e da forma como estes proporcionam os lugares, os tempos e os refor&ccedil;os positivos, no &acirc;mbito das estruturas e pol&iacute;ticas sociais, aos seus participantes. Vai mudando ao longo da vida, &agrave; medida que v&atilde;o ocorrendo as <I>transi&ccedil;&otilde;es ecol&oacute;gicas</I>, que s&atilde;o mudan&ccedil;as de papel ou ambiente, como a entrada na escola, a mudan&ccedil;a de emprego ou de casa, a doen&ccedil;a, o casamento e o div&oacute;rcio, ter um filho ou um irm&atilde;o. A cada um destes novos pap&eacute;is associa-se a expectativa do desempenho de um conjunto de comportamentos, que alteram &ldquo;a maneira pela qual a pessoa &eacute; tratada, como ela age, o que ela faz, e inclusive o que ela pensa e sente&rdquo; (Brofenbrenner, 1996, p.7). As transi&ccedil;&otilde;es produzem uma boa adapta&ccedil;&atilde;o quando o novo ambiente assegura a satisfa&ccedil;&atilde;o das necessidades e o bem-estar do individuo, sucedendo o contr&aacute;rio quando geram &ldquo;tens&otilde;es e antagonismos, criando um relacionamento entre a pessoa e o ambiente caracterizado pelo conflito, perda e stress&rdquo; (Thomas &amp; Pierson, 1995, p.125).   </P >    ]]></body>
<body><![CDATA[<P   align="justify" >S&atilde;o momentos chave, porque revelam o desenvolvimento obtido nos ambientes anteriores. Na verdade, &ldquo;enquanto a pessoa permanece no mesmo ambiente prim&aacute;rio, n&atilde;o podemos saber com certeza se aquele ambiente est&aacute; tendo uma influ&ecirc;ncia ben&eacute;fica ou nociva sobre o crescimento psicol&oacute;gico da pessoa; o comportamento observado pode ser meramente adaptativo e n&atilde;o reflectir nenhuma mudan&ccedil;a desenvolvimental genu&iacute;na&rdquo; (Brofenbrenner, 1996, p.218). A coloca&ccedil;&atilde;o em Acolhimento Familiar constitui um momento de transi&ccedil;&atilde;o, de uma enorme extens&atilde;o e significado, pelas altera&ccedil;&otilde;es que acarreta e pelos novos pap&eacute;is que atribui aos seus protagonistas. Constitui tamb&eacute;m um momento traum&aacute;tico, pelos maus tratos sofridos e que conduziram &agrave; coloca&ccedil;&atilde;o e pela retirada, pelo &laquo;desenraizamento&raquo; que provoca e que revela, ami&uacute;de, atrasos no desenvolvimento cognitivo, intelectual, emocional e social. Num territ&oacute;rio desconhecido, a crian&ccedil;a v&ecirc;-se confrontada com novos espa&ccedil;os de identifica&ccedil;&atilde;o, com outros lugares de encontro e de ac&ccedil;&atilde;o (Caballo <I>et al.</I>, 1996).</P >    <P   align="justify" >As transi&ccedil;&otilde;es ecol&oacute;gicas podem ocorrer em qualquer um dos quatro n&iacute;veis do meio ambiente: &ldquo;o aparecimento de um irm&atilde;o mais jovem &eacute; um fen&oacute;meno de microsistema, a entrada na escola transforma o exo num mesosistema, e emigrar para um outro pa&iacute;s (ou talvez s&oacute; visitar a casa de um amigo de um background socioecon&oacute;mico ou cultural diferente) envolve atravessar fronteiras de macrosistema&rdquo; (Brofenbrenner, 1996, p.22). No caso espec&iacute;fico da transi&ccedil;&atilde;o inicial para um mesosistema, o seu potencial de desenvolvimento aumenta se a entrada no novo ambiente se der &ldquo;na companhia de uma ou mais pessoas com as quais participou de ambientes anteriores (por exemplo, a m&atilde;e acompanha a crian&ccedil;a &agrave; escola) &rdquo; (<I>idem</I>, p.163) e se as liga&ccedil;&otilde;es entre os ambientes assentam na confian&ccedil;a m&uacute;tua, no consenso de objectivos e na facilidade e extens&atilde;o da comunica&ccedil;&atilde;o. Pelo contr&aacute;rio, se no primeiro dia a crian&ccedil;a vai sozinha &agrave; escola, &ldquo;isto significa que entre a casa e a escola h&aacute; um s&oacute; nexo: a participa&ccedil;&atilde;o da crian&ccedil;a em ambos&rdquo; (Garbarino &amp; Eckenrode, 1999, p.39).</P >    <P   align="justify" >O tipo de comunica&ccedil;&atilde;o entre os meios tamb&eacute;m interfere no potencial de desenvolvimento que proporcionam, destacando-se a comunica&ccedil;&atilde;o face a face e a carta ou nota pessoal. O mesmo se afirma em rela&ccedil;&atilde;o &agrave;s informa&ccedil;&otilde;es, conselhos e experi&ecirc;ncias de que o indiv&iacute;duo disp&otilde;e antes de entrar no novo ambiente. Uma vez no novo meio, &ldquo;o desenvolvimento da pessoa &eacute; aumentado na extens&atilde;o em que informa&ccedil;&otilde;es, conselhos e experi&ecirc;ncias v&aacute;lidas relevantes num ambiente s&atilde;o tornadas dispon&iacute;veis, numa base continuada, para o outro&rdquo; (Brofenbrenner, 1996, p.168). </P >    <P   align="justify" >Palavras que se aplicam na perfei&ccedil;&atilde;o ao Acolhimento Familiar e que alertam para a import&acirc;ncia da prepara&ccedil;&atilde;o da coloca&ccedil;&atilde;o e da fase inicial da estadia, da presen&ccedil;a de um assistente social que funcione como uma pessoa de refer&ecirc;ncia e de continuidade ao longo da transi&ccedil;&atilde;o, e que informe de modo adequado sobre o processo e o novo destino, da capacidade comunicativa e do relacionamento cooperante entre a acolhedores e fam&iacute;lia biol&oacute;gica, de que resultam in&uacute;meras vantagens para o bem-estar da crian&ccedil;a, bem como do respeito pela identidade e pelo patrim&oacute;nio cultural e social da crian&ccedil;a, que lhe possibilite falar aberta e livremente dos &laquo;seus dois mundos&raquo;.  </P >    <P   align="justify" >O desenvolvimento &eacute; igualmente intensificado se a crian&ccedil;a ou jovem participa, ao longo dos anos, numa diversidade de ambientes estruturalmente diferentes, como sucede regra geral no Acolhimento Familiar, que requerem a adapta&ccedil;&atilde;o a pessoas, tarefas e situa&ccedil;&otilde;es que estimula, por sua vez, o aperfei&ccedil;oamento das compet&ecirc;ncias cognitivas e das habilidades sociais. Este pressuposto leva Bronfenbrenner a concluir que &ldquo;os efeitos desenvolvimentais positivos da participa&ccedil;&atilde;o em m&uacute;ltiplos ambientes s&atilde;o aumentados quando os ambientes ocorrem em contextos culturais ou subculturais que s&atilde;o diferentes entre si, em termos de etnicidade, classe social, religi&atilde;o, faixa et&aacute;ria ou outros factores de <I>background&rdquo; </I>(<I>idem</I>, p.164).</P >    <P   align="justify" >No que diz respeito ao mesosistema, mas tamb&eacute;m ao exosistema, o potencial de desenvolvimento dos seus participantes tamb&eacute;m varia de acordo com a exist&ecirc;ncia de v&iacute;nculos directos ou indirectos com os ambientes de poder, tanto na comunidade local como mais al&eacute;m, e na correspondente capacidade para influenciar a distribui&ccedil;&atilde;o de recursos e a tomada de decis&otilde;es. </P >    <P   align="justify" >Payne (2005, p.158) elenca diversas cr&iacute;ticas que t&ecirc;m sido dirigidas &agrave; abordagem ecol&oacute;gica, nomeadamente, ser mais descritiva do que explicativa, n&atilde;o ser prescritiva, dificultar a mudan&ccedil;a radical do sistema quando ela &eacute; necess&aacute;ria, em detrimento da sua manuten&ccedil;&atilde;o, e usar uma linguagem t&eacute;cnica e complexa. Uma parte destas observa&ccedil;&otilde;es j&aacute; ter&aacute; encontrado resposta, ao longo da reflex&atilde;o aqui exposta. </P >    <P   align="justify" >Parece essencial real&ccedil;ar que a abordagem ecosist&eacute;mica se foca no interpessoal, que caracteriza a ess&ecirc;ncia do Acolhimento Familiar. Com efeito, para a &aacute;rea onde nos situamos, proporciona um modelo descritivo e compreensivo que permite a identifica&ccedil;&atilde;o das m&uacute;ltiplas vari&aacute;veis e factores no contexto do Acolhimento familiar, que evidencia os par&acirc;metros que o definem, os processos que o caracterizam e os potenciais efeitos que pode produzir na integra&ccedil;&atilde;o social e no desenvolvimento das crian&ccedil;as. Nas palavras da Caride e Meira (1995), a perspectiva ecol&oacute;gica permite conhecer e intervir de m&uacute;ltiplas formas e com diversas finalidades, &ldquo;seja como mera interpreta&ccedil;&atilde;o; como conte&uacute;do para uma mudan&ccedil;a de discursos; como suporte metodol&oacute;gico para aprender de acordo com renovados crit&eacute;rios de cientificidade; ou como oportunidade para situar-se nos postulados &eacute;ticos que se reclamam para preservar o meio ambiente em condi&ccedil;&otilde;es de qualidade&rdquo; (p.163). O enfoque ambiental ou comunit&aacute;rio abarca, pelo exposto, tanto &ldquo;os modelos para analisar e interpretar os problemas sociais que afectam o menor como as estrat&eacute;gias de interven&ccedil;&atilde;o social (educativa, legal, urban&iacute;stica, sanit&aacute;ria, psicoterap&ecirc;utica&hellip;) que se articulam para prevenir a sua apari&ccedil;&atilde;o ou para atenuar os seus efeitos&rdquo; (Meira, 1999, p.71). &Agrave; defini&ccedil;&atilde;o pr&aacute;tica do fen&oacute;meno, segue-se a procura de explica&ccedil;&otilde;es e a predi&ccedil;&atilde;o do resultado da interven&ccedil;&atilde;o, cientificamente fundamentadas (Howe, 1999; Triseliotis, Sellick &amp; Short, 1995). Uma vez diagnosticada e analisada a m&aacute; adapta&ccedil;&atilde;o da crian&ccedil;a ao meio, h&aacute; que intervir nos diversos factores que geram a situa&ccedil;&atilde;o problema, procurando assegurar o seu desenvolvimento pessoal e a sua integra&ccedil;&atilde;o social. O Acolhimento Familiar &eacute; um dos processos que podem servir para esse fim.</P >     <P   align="justify" >&nbsp;</P >     <P   align="justify" >  <B>Refer&ecirc;ncias bibliogr&aacute;ficas </b></P >           ]]></body>
<body><![CDATA[<!-- ref --><P   align="justify" >Alarc&atilde;o, M. (2000). <I>(des)equil&iacute;brios familiares.</I> Coimbra:          Quarteto.</P >           &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000043&pid=S1645-7250200900020001100001&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><P   align="justify" >Alberto, I. (2004). <I>Maltrato e trauma na inf&acirc;ncia. </I>Coimbra: Almedina.</P >    <P   align="justify" >Ander-Egg, E. (1997). <I>Diccionario de Pedagog&iacute;a. </I>Buenos Aires: Editorial Magisterio.</P >    <P   align="justify" >Azevedo, M. &amp; Maia, A. (2006). <I>Maus-tratos &agrave; crian&ccedil;a. </I>Lisboa: Climepsi.</P >    <P   align="justify" >Belsky, J. (1980). Child maltreatment. An ecological integration. <I>American Psychologist, 35, </I>pp.320-335.</P >    <P   align="justify" >Bronfenbrenner, U. (1996). <I>A ecologia do desenvolvimento humano: experimentos naturais e planejados. </I>Porto Alegre: Artes M&eacute;dicas. </P >    <P   align="justify" >Bronfenbrenner, U. (2005). <I>Making humans beings human. </I>London: Sage Publications.</P >    <P   align="justify" >Bronfenbrenner, U. (n.d.). <I>Influences on human development. </I>Illinois: Dryden. </P >    <P   align="justify" >Caballo, M., Candia, F., Caride, J. &amp; Meira, P. (1996). <I>L&eacute;xico b&aacute;sico de 131 conceptos clave de Educaci&oacute;n Social. </I>Santiago de Compostela: Universidade de Santiago de Compostela.</P >    <P   align="justify" >Cairns, K. (2002). <I>Attachment, trauma and resilience: therapeutic caring for children. </I>London: BAAF.</P >    ]]></body>
<body><![CDATA[<P   align="justify" >Caride, J. &amp; Meira, P. (1995). A perspectiva ecol&oacute;gica: refer&ecirc;ncias para o conhecimento e a praxis educativa. In A. Carvalho (Org.), <I>Novas Metodologias em Educa&ccedil;&atilde;o </I>(pp. 135-170). Porto: Porto Editora.</P >    <P   align="justify" >Daniel, B., Wassell, S. &amp; Gilligan, R. (1999). <I>Child Development for Child Care and Protection Workers. </I>London: Jessica Kingsley Publishers. </P >    <P   align="justify" >David, M. (2000). <I>Enfants, parents, famille d&rsquo;accueil. Un dispositif de soins</I>&nbsp;<I>: l&rsquo;accueil familial permanent. </I>Ramonville Saint-Agne&nbsp;: &Eacute;r&egrave;s.</P >    <P   align="justify" >Garbarino, J. &amp; Barry, F. (1999). El contexto comunit&aacute;rio del abuso y descuido del ni&ntilde;o. In J. Garbarino &amp; J. Eckenrode, <I>Porque las fam&iacute;lias abusan de sus hijos</I> (pp. 85-124).<I> </I>Barcelona: Granica.</P >    <P   align="justify" >Garbarino, J. &amp; Eckenrode, J. (1999). El significado del maltrato. In J. Garbarino &amp; J. Eckenrode, <I>Porque las </I><I>fam&iacute;lias abusan de sus hijos </I>(pp. 15-44)<I>. </I>Barcelona: Granica.</P >    <P   align="justify" >Garbarino, J. (1982). <I>Children and families in the social environment. </I>New York: Aldine.</P >    <P   align="justify" >Garbarino, J. (2000). A conceptual tool box for understanding Childhood Social and Cultural Worlds. In <I>Congresso Internacional Os Mundos Sociais e Culturais da Inf&acirc;ncia</I> (pp.33-45). Braga: Universidade do Minho/Instituto de Estudos da Crian&ccedil;a. </P >    <P   align="justify" >Garc&iacute;a, J. &amp; Mel&iacute;an, J. (1993). <I>Hacia un Nuevo enfoque del Trabajo Social.</I> Madrid: Narcea. </P >    <P   align="justify" >Gilligan, R. (1998). Beyond permanence? The importance of resilience in child placement practice and planning. In M. Hill &amp; M. Shaw (Edit.), <I>Signpost in adoption. Policy, practice and research issues. </I>(pp.80-96). London: BAAF. </P >    <P   align="justify" >Gilligan, R. (2000). Promoting resilience in Foster Care. In G. Kelly &amp; R. Gilligan (Edit.), <I>Issues in Foster Care </I>(pp. 107-126). London: Jessica Kingsley Publishers.</P >    ]]></body>
<body><![CDATA[<P   align="justify" >Gonz&aacute;lez, M. &amp; Triana, B. (1998). Divorcio, monoparentalidad y nuevos emparejamientos. In M. Rodrigo &amp; J. Palacios (Coord.),<I> Familia y desarrollo humano </I>(pp.373-398)<I>. </I>Madrid: Alianza Editorial.</P >    <P   align="justify" >Hill, M. (1998). Concepts of parenthood and their applications to adoption. In M. Hill &amp; M. Shaw (Edit.), <I>Signpost in adoption. Policy, practice and research issues. </I>(pp.30-44). London: BAAF.</P >    <P   align="justify" >Howe, D. (1999). <I>Dando sentido a la pr&aacute;ctica. Una introducci&oacute;n a la teor&iacute;a del trabajo social. </I>Granada: Editorial Marist&aacute;n.</P >    <P   align="justify" > Howe, D., Brandon, M., Hinings, D. &amp; Schofield, G. (1999). <I>Attachment Theory, child maltreatment and family </I><I>support. </I>London: Macmillan Press.</P >    <P   align="justify" >Meira, P. (1999). La perspectiva ecol&oacute;gica en la acci&oacute;n con menores. In J. Ortega (Coord.), <I>Pedagog&iacute;a Social </I><I>Especializada </I>(pp. 71-79). Barcelona: Ariel.</P >    <P   align="justify" >Panch&oacute;n, C. (1998). <I>Manual de Pedagogia de la Inadaptaci&oacute;n Social. </I>Barcelona: Dulac.</P >    <P   align="justify" >Pa&uacute;l, J. &amp; Arruabarrena, M. (1996). <I>Manual de protecci&oacute;n infantil. </I>Barcelona: Masson.</P >    <P   align="justify" >Payne, M. (2005). <I>Modern Social Work Theory. </I>New York: Palgrave.</P >    <P   align="justify" >Relvas, A. (1996). <I>O ciclo vital da fam&iacute;lia. Perspectiva Sist&eacute;mica.</I> Porto: Afrontamento.</P >    <P   align="justify" >Rodrigo, M. &amp; Palacios, J. (1998). La familia como contexto de desarrollo humano. In M. Rodrigo &amp; J. Palacios (Coord.),<I> Familia y desarrollo humano </I>(pp.25-44)<I>. </I>Madrid: Alianza Editorial</P >    ]]></body>
<body><![CDATA[<P   align="justify" >Thomas, M. &amp; Pierson, J. (1995). <I>Dictionary of Social Work. </I>London: Collins Educational.</P >    <P   align="justify" >Triseliotis, J.; Sellick, C. &amp; Short, R. (1995). <I>Foster Care. </I><I>Theory and practice. </I>London: Batsford.</P >    <P   align="justify" >Wade, J. (1999). Developing Leaving Care Services. In M. Hill (Edit.), <I>Signpost in fostering. </I><I>Policy, practice and </I><I>research issues. </I>(pp.46-66). London: BAAF.</P >     <p>&nbsp;</p>     <p><a href="#top1">*</a><a name="1"></a> Escola Superior de Educa&ccedil;&atilde;o    do Instituto Polit&eacute;cnico do Porto. <a href="mailto:jpfdelgado@iol.pt">jpfdelgado@iol.pt</a>  </p>     <p>&nbsp;</p>      ]]></body><back>
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<surname><![CDATA[Alarcão]]></surname>
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<source><![CDATA[(des)equilíbrios familiares]]></source>
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<publisher-name><![CDATA[Quarteto]]></publisher-name>
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