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<article-title xml:lang="pt"><![CDATA[Currículo e multiculturalismo: re&#64258;exões para a formação de educadores]]></article-title>
<article-title xml:lang="en"><![CDATA[Curriculum and multiculturalism: re&#64258;ections for the training of educators]]></article-title>
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<abstract abstract-type="short" xml:lang="en"><p><![CDATA[This article is a result of a research project associated with the Graduate Studies Program in Education of the Dom Bosco Catholic University. Its goal is to understand the re&#64258;ection on the school curriculum made by basic education teachers and, on the basis of the results, to discuss the need for multicultural training. It starts with a discussion of teachers&#8217; re&#64258;ections and highlights the various approaches to the school curriculum in the history of education.Then it characterizes the educators&#8217; re&#64258;ection in its relation to the curriculum and concludes by emphasizing the need for multicultural training.]]></p></abstract>
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</front><body><![CDATA[ <p><b>Curr&iacute;culo e multiculturalismo: re&#64258;ex&otilde;es para a forma&ccedil;&atilde;o    de educadores </b></p>     <p>&nbsp; </p>     <p><b>Ruth Pavan</b></p>     <p> Universidade Cat&oacute;lica Dom Bosco, Campo Grande, Mato Grosso do Sul,    Brasil <a href="mailto:ruth@ucdb.br" target="_blank">ruth@ucdb.br</a></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>Resumo</b></p>     <p>Este artigo &eacute; resultado da pesquisa docente vinculada ao Programa de P&oacute;s-Gradua&ccedil;&atilde;o &ndash; Mestrado em Educa&ccedil;&atilde;o &ndash; UCDB.Tem como objetivo compreender a reflex&atilde;o dos professores e professoras da educa&ccedil;&atilde;o b&aacute;sica sobre o curr&iacute;culo escolar e, a partir dos resultados, fazer algumas pondera&ccedil;&otilde;es sobre a necessidade da forma&ccedil;&atilde;o multicultural. Inicialmente apresentamos uma abordagem sobre a reflex&atilde;o do docente e destacamos as diferentes abordagens acerca do curr&iacute;culo escolar ao longo da hist&oacute;ria da educa&ccedil;&atilde;o. Em seguida caracterizamos a reflex&atilde;o dos educadores em rela&ccedil;&atilde;o ao curr&iacute;culo e finalizamos enfatizando a necessidade da forma&ccedil;&atilde;o multicultural. </p>     <p><b>Palavras-chave:</b> Curr&iacute;culo, forma&ccedil;&atilde;o, reflex&atilde;o.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>Curriculum and multiculturalism: re&#64258;ections for the training of educators    </b></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><b>Abstract</b></p>     <p>This article is a result of a research project associated with the Graduate Studies Program in Education of the Dom Bosco Catholic University. Its goal is to understand the re&#64258;ection on the school curriculum made by basic education teachers and, on the basis of the results, to discuss the need for multicultural training. It starts with a discussion of teachers&rsquo; re&#64258;ections and highlights the various approaches to the school curriculum in the history of education.Then it characterizes the educators&rsquo; re&#64258;ection in its relation to the curriculum and concludes by emphasizing the need for multicultural training. </p>     <p><b>Keywords:</b><b> </b>Curriculum; training; re&#64258;ection. </p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>1. Considera&ccedil;&otilde;es iniciais </b></p>     <p>A pesquisa sobre curr&iacute;culo escolar adquire um novo sentido quando reconhecemos    o car&aacute;ter centralmente produtivo do curr&iacute;culo<a name="top1"></a><Sup><a href="#1">1</a></Sup>.    Deste modo, o curr&iacute;culo &eacute; percebido como algo que se movimenta    e, ao se movimentar, muda de &ldquo;cara&rdquo;. Estas mudan&ccedil;as produzem    novos efeitos. Estes efeitos ajudam a construir os alunos e alunas e esta constru&ccedil;&atilde;o    redunda nos diferentes conv&iacute;vios dos diferentes grupos sociais. Estas    conviv&ecirc;ncias tamb&eacute;m ter&atilde;o efeitos sobre outros curr&iacute;culos    que ter&atilde;o efeitos sobre outras pessoas. Ou seja:&ldquo;N&oacute;s fazemos    o curr&iacute;culo e o curr&iacute;culo nos faz.&rdquo; (Silva, 1995: 194).  </p>     <p>Com isso, queremos dizer que n&atilde;o temos a pretens&atilde;o de congelar uma determinada concep&ccedil;&atilde;o de curr&iacute;culo, mas de apreender as diferentes formas curricula-res, situ&aacute;-las, historiciz&aacute;-las com os poss&iacute;veis atravessamentos que possam ocorrer, tais como: g&ecirc;nero, cultura, religiosidade, nacionalidade, ra&ccedil;a e outros. </p>        <p>Nossa preocupa&ccedil;&atilde;o em trabalhar com a pesquisa no espa&ccedil;o    escolar de forma mais espec&iacute;fica, embora n&atilde;o seja ali o &uacute;nico    espa&ccedil;o em que a educa&ccedil;&atilde;o ocorre, tem a ver com o fato de    considerar a escola como um espa&ccedil;o </p>     <blockquote>       <p>[...] capaz de promover a cr&iacute;tica do existente e o questionamento      do que parece inscrito na natureza das coisas; capaz, ent&atilde;o, de formar      indiv&iacute;duos n&atilde;o conformistas, rebeldes, transgressores, comprometidos      com a luta contra toda e qualquer opress&atilde;o. Decorre de consider&aacute;-la,      em s&iacute;ntese, espa&ccedil;o p&uacute;blico em que, em meio a pr&aacute;ticas,      rela&ccedil;&otilde;es sociais e embates, se produzem significados e identidades.      Nesse espa&ccedil;o, novos tempos podem ser anunciados. (Moreira, 2001: 68).    </p> </blockquote>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>E, neste sentido, o recorte no curr&iacute;culo escolar tem a ver com o que Moreira afirma, ou seja, entendemos o curr&iacute;culo como &ldquo;[...] todas as experi&ecirc;ncias organizadas pela escola que se desdobram em torno do conhecimento escolar&rdquo; (Moreira, 2001: 68). Est&atilde;o inclu&iacute;dos, portanto,&ldquo;[...] tanto os planos com base nos quais a es-cola se organiza, como a materializa&ccedil;&atilde;o desses planos nas experi&ecirc;ncias e rela&ccedil;&otilde;es vividas por professores e alunos no processo de ensinar e aprender conhecimentos&rdquo; (Moreira, 2001: 68). Compreendermos o curr&iacute;culo como todas as experi&ecirc;ncias organizadas pela escola significa considerar toda a gama de acontecimentos que temos dentro da escola, tais como: o tratamento que &eacute; dispensado ao aluno e a aluna, que tipo de exig&ecirc;ncias s&atilde;o feitas em rela&ccedil;&atilde;o ao seu comportamento, as suas aprendizagens, avalia&ccedil;&atilde;o, o que &eacute; considerado conhecimento v&aacute;lido, o que &eacute; cultura, bem como os valores que s&atilde;o trabalhados expl&iacute;cita e/ou implicitamente no espa&ccedil;o escolar. Al&eacute;m disso, que tipo de identidades s&atilde;o legitimadas, inclu&iacute;das, valorizadas... Considerando este sentido de curr&iacute;culo, pensamos que o &ldquo;recorte&rdquo; que efetuamos tem a ver com a id&eacute;ia de que queremos pesquisar o curr&iacute;culo que circula na escola, ou seja, um curr&iacute;culo em exerc&iacute;cio, um &ldquo;curr&iacute;culo em a&ccedil;&atilde;o&rdquo; (Para&iacute;so, 1996: 138). </p>    <p>E, ao compreend&ecirc;-lo desta maneira, entendemos que incluir os professores numa pesquisa que tem o curr&iacute;culo que acontece na escola como centro &eacute; imprescind&iacute;vel.Assim, apresentamos os professores entrevistados. Desde j&aacute; informamos que todos os professores possuem curso superior, o que entendemos como fundamental, pois, &ldquo;n&atilde;o podemos falar em &lsquo;professor reflexivo&rsquo; se n&atilde;o houver um m&iacute;nimo de forma&ccedil;&atilde;o, de remunera&ccedil;&atilde;o, de profissionalidade&rdquo; (N&oacute;voa, 1997: 30). Ou seja, para pesquisarmos a reflex&atilde;o dos professores sobre o curr&iacute;culo, &eacute; importante que estes tenham forma&ccedil;&atilde;o e sejam profissionais da educa&ccedil;&atilde;o. </p>     <p>Para a coleta de dados no campo emp&iacute;rico e sua posterior an&aacute;lise,    utilizamos uma abordagem metodol&oacute;gica qualitativa. Portanto, n&atilde;o    est&atilde;o em quest&atilde;o dados quantitativos, mas o aprofundamento da    reflex&atilde;o sobre as informa&ccedil;&otilde;es coletadas. Para coletar os    dados, usamos a entrevista semi-estruturada. Neste artigo, embora a pesquisa    na sua totalidade envolva mais informantes, apresentaremos somente os dados    de quatro professores. Informamos que as respostas dadas pelas professoras foram    obtidas durante o per&iacute;odo de 2006 e 2007. Neste artigo, tomamos o cuidado    de trazer uma fala de cada um dos n&iacute;veis de ensino, desde a Educa&ccedil;&atilde;o    Infantil, Ensino Fundamental (dividido em primeira a quarta e em quinta a oitava    s&eacute;rie) e Ensino M&eacute;dio.Todas as professoras e professores s&atilde;o    de escolas p&uacute;blicas da rede municipal e estadual, instaladas no estado    do Mato Grosso do Sul. N&atilde;o ser&atilde;o nomeados os munic&iacute;pios    a que pertencem as escolas e as professoras e professores, e os nomes dos mesmos    s&atilde;o fict&iacute;cios, garantindo o anonimato. </p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>2. O curr&iacute;culo multicultural: a reflex&atilde;o dos/as professores/as </b></p>     <p>Embora tenhamos a preocupa&ccedil;&atilde;o em caracterizar o curr&iacute;culo, a escola e o multiculturalismo, assumimos que os conceitos de que dispomos para pensar carregam significados l&iacute;quidos (Bauman, 2001) e bab&eacute;licos (Larrosa &amp; Skliar, 2001). Os conceitos s&atilde;o hist&oacute;ricos. Os conceitos carregam sobretudo a marca do poder que os produziu (Hall, 2003). Portanto, quando nos referimos ao curr&iacute;culo, estamos nos referindo a uma &ldquo;arena de significados&rdquo; (Silva, 2003). </p>       <p>O curr&iacute;culo tem um car&aacute;ter plural, poliss&ecirc;mico. Juntamente com Apple (2006) afirmamos que os educadores e as educadoras comprometidos com a educa&ccedil;&atilde;o democr&aacute;tica &ldquo;[...] devem unir-se para lutar contra a reestrutura&ccedil;&atilde;o antidemocr&aacute;tica que estamos testemunhando&rdquo;, negando &ldquo;[...] aos neoliberais e neoconservadores o direto de mudar nossas sociedades de maneira que aumentem a vantagem daqueles que j&aacute; possuem capital econ&ocirc;mico, social e cultural&rdquo; (Apple, 2006: 15). O autor ainda afirma que no mundo, em diferentes regi&otilde;es, continua a luta para construir uma educa&ccedil;&atilde;o digna para todos: </p>     <blockquote>       <p>Assim, assumo a posi&ccedil;&atilde;o de ser &ldquo;um otimista sem ilus&otilde;es&rdquo;.      Esses s&atilde;o tempos dif&iacute;ceis, mas tamb&eacute;m s&atilde;o tempos      em que est&aacute; igualmente claro que um grande n&uacute;mero de educadores      e ativistas culturais e pol&iacute;ticos de todo o mundo est&atilde;o profundamente      comprometidos, tanto com a defesa quanto com a constru&ccedil;&atilde;o de      pol&iacute;ticas e pr&aacute;ticas no curr&iacute;culo, na pedagogia e na      avalia&ccedil;&atilde;o que expandam a esfera de di&aacute;logo democr&aacute;tico      e cr&iacute;tico, mantendo vivas as possibilidades educacionais. (Apple, 2006:      15). </p> </blockquote>     <p>Segundo nosso entendimento, pautado nos autores utilizados neste texto, a expans&atilde;o da esfera do di&aacute;logo democr&aacute;tico e cr&iacute;tico passa pelo curr&iacute;culo multicultural. </p>       ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&Eacute; importante ressaltarmos que o multiculturalismo e, neste sentido, tamb&eacute;m o curr&iacute;culo multicultural t&ecirc;m assumido diferentes conota&ccedil;&otilde;es. Juntamente com Silva (2003) e Moreira (2001), ressaltamos a id&eacute;ia de uma compreens&atilde;o cr&iacute;tica e p&oacute;s-cr&iacute;tica do curr&iacute;culo. Estas compreens&otilde;es nos possibilitam ampliar o debate, bem como colocar no centro as rela&ccedil;&otilde;es de poder que s&atilde;o em definitivo as que t&ecirc;m norteado a constru&ccedil;&atilde;o de diferentes curr&iacute;culos na educa&ccedil;&atilde;o. Mais que isso, as rela&ccedil;&otilde;es de poder t&ecirc;m definido quais conhecimentos s&atilde;o curriculares e quais n&atilde;o s&atilde;o, assim como quais grupos culturais s&atilde;o inclu&iacute;dos e quais s&atilde;o marginalizados. </p>     <blockquote>       <p>Para Tomaz Tadeu da Silva (1999), o multiculturalismo cr&iacute;tico caracteriza-se      por n&atilde;o conceber as diferen&ccedil;as culturais separadamente de rela&ccedil;&otilde;es      de poder. Enquanto em uma perspectiva liberal apela-se para o respeito &agrave;      diferen&ccedil;a, por se considerar que sob a aparente diferen&ccedil;a h&aacute;      uma mesma humanidade, no multiculturalismo cr&iacute;tico a pr&oacute;pria      defini&ccedil;&atilde;o do que &eacute; humano &eacute; vista como resultado      de rela&ccedil;&otilde;es de poder.Ainda segundo o autor, a perspectiva cr&iacute;tica      do multiculturalismo pode ser dividida em uma concep&ccedil;&atilde;o p&oacute;s-estruturalista      (que concebe a diferen&ccedil;a como essencialmente um processo ling&uuml;&iacute;stico      e discursivo) e uma concep&ccedil;&atilde;o mais materialista (para o qual      os processos institucionais, econ&ocirc;micos, estruturais, estariam na base      da produ&ccedil;&atilde;o dos processos de discrimina&ccedil;&atilde;o e desigualdade      baseados na diferen&ccedil;a cultural). (Moreira, 2001: 69). </p> </blockquote>     <p>Neste sentido, trazemos novamente para o texto o espa&ccedil;o da sala de aula, pois nosso recorte no curr&iacute;culo escolar nos exige uma especial aten&ccedil;&atilde;o a este espa&ccedil;o, reiterando que nossa an&aacute;lise considera &ldquo;[...] as escolas e seus curr&iacute;culos como territ&oacute;rios de produ&ccedil;&atilde;o, circula&ccedil;&atilde;o e consolida&ccedil;&atilde;o de significados, como espa&ccedil;os privilegiados de concretiza&ccedil;&atilde;o da pol&iacute;tica de identidade.&rdquo; (Costa, 1999: 38) </p>    <p>Em rela&ccedil;&atilde;o &agrave;s reflex&otilde;es dos professores entrevistados, podemos destacar que n&oacute;s encontramos nelas uma concep&ccedil;&atilde;o mais pr&oacute;xima de uma perspectiva tecnocr&aacute;tica de curr&iacute;culo, ou melhor, de uma perspectiva monocultural de curr&iacute;culo, sobretudo, quando perguntados especificamente sobre o que concebem como curr&iacute;culo. No entanto, quando perguntamos o que eles levam em considera&ccedil;&atilde;o para a aprendizagem dos seus alunos e alunas, embora a palavra cultura n&atilde;o tenha sido mencionada nenhuma vez, a rela&ccedil;&atilde;o entre professores e alunos, o contexto da vida dos alunos &eacute; destacado como aspecto importante no processo ensino e aprendizagem. Como podemos perceber nas seguintes falas: </p>     <blockquote>        <p>Estar sempre trabalhando o conte&uacute;do de acordo com a realidade de cada      um, que eu n&atilde;o posso levar uma mat&eacute;ria, um conte&uacute;do para      a sala de aula, uma atividade pronta que os meus alunos n&atilde;o sabem o      que est&aacute; acontecendo, ent&atilde;o dar um conte&uacute;do da realidade.      (Professora Analice.Trabalha h&aacute; cinco anos na Educa&ccedil;&atilde;o      Infantil numa escola municipal. &Eacute; formada em Pedagogia). </p>       <p>Olha, eu acho assim, &eacute; importante que haja trabalho em grupo, leitura,      troca de experi&ecirc;ncia, participa&ccedil;&atilde;o, respeitando sempre      a capacidade de cada um nesse processo. (Professora Gabriela. Trabalha h&aacute;      27 anos no magist&eacute;rio. Atualmente leciona L&iacute;ngua Portuguesa      e Literatura Infantil, na quarta s&eacute;rie do Ensino Fundamental, na rede      municipal e estadual de ensino. &Eacute; formada em Literatura e L&iacute;ngua      Portuguesa). </p>       <p>Claro, eu quero que o aluno aprenda o que &eacute; importante para ele. [...].      (Professora Rosa. H&aacute; 14 anos no magist&eacute;rio, atualmente trabalha      de quinta a oitava s&eacute;rie do Ensino Fundamental e primeira s&eacute;rie      do Ensino M&eacute;dio, com Ci&ecirc;ncias, Ed.Art&iacute;stica, Filosofia      e Educa&ccedil;&atilde;o de Jovens e Adultos na rede estadual de ensino. &Eacute;      formada em Biologia e Pedagogia). </p>       <p>Bom, primeiramente para que ocorra o processo de ensino aprendizagem, eu      acho que entre professor e aluno tem que estabelecer um v&iacute;nculo e esse      v&iacute;nculo tem que ser estabelecido na quest&atilde;o do respeito, amizade,      n&atilde;o essa amizade que n&oacute;s temos no dia-a-dia com um amigo fraterno,      mas uma rela&ccedil;&atilde;o fraternal ali no sentido, assim, de respeito      mesmo tanto do aluno para com o professor como do professor com o o aluno,      o professor demonstrar que realmente est&aacute; preocupado com a forma&ccedil;&atilde;o      do aluno, n&eacute;? E respeitar o aluno como um ser evolutivo ainda. (Professor      Gilberto. H&aacute; sete anos no magist&eacute;rio, atualmente trabalha com      as primeiras e segundas s&eacute;ries do Ensino M&eacute;dio, com Literatura,      na rede estadual de ensino. &Eacute; formado em Letras). </p> </blockquote>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Chama-nos a aten&ccedil;&atilde;o que, durante toda a entrevista, ainda que v&aacute;rias perguntas se referissem ao que consideram importante para o processo ensino e aprendizagem e atualmente v&aacute;rios sejam os estudos que apontam a dimens&atilde;o cultural como significativa, a palavra cultura n&atilde;o foi sequer mencionada. Embora &ldquo;realidade&rdquo;, &ldquo;troca de experi&ecirc;ncia&rdquo;,&ldquo;participa&ccedil;&atilde;o&rdquo;,&ldquo;aprender o que &eacute; importante&rdquo;,&ldquo;relacionamento professor aluno&rdquo; sejam express&otilde;es que lembram aspectos de uma abordagem cr&iacute;tica do curr&iacute;culo, n&atilde;o expressam uma reflex&atilde;o mais abrangente sobre esta abordagem. Pois quest&otilde;es relacionadas &agrave; luta de classes, &agrave; reprodu&ccedil;&atilde;o da sociedade desigual, &agrave; ideologia e tantos outros elementos que s&atilde;o o cerne do curr&iacute;culo cr&iacute;tico n&atilde;o s&atilde;o explicitados em nenhum momento pelas professoras e professores. Na abordagem cr&iacute;tica do curr&iacute;culo, ressaltam-se tanto &ldquo;[...] o car&aacute;ter hist&oacute;rico da educa&ccedil;&atilde;o (vari&aacute;vel, mut&aacute;vel) quanto o car&aacute;ter social (constru&iacute;do) do conhecimento escolar&rdquo; (Silva, 2003: 13), bem como o exame das rela&ccedil;&otilde;es entre curr&iacute;culo e economia, curr&iacute;culo e pol&iacute;tica, curr&iacute;culo e poder, curr&iacute;culo e cultura, curr&iacute;culo e ideologia e outros:&ldquo;Com a no&ccedil;&atilde;o de que curr&iacute;culo &eacute; uma constru&ccedil;&atilde;o social aprendemos que a pergunta importante n&atilde;o &eacute; &lsquo;quais conhecimentos s&atilde;o v&aacute;lidos?&rsquo;, mas sim &lsquo;quais conhecimentos s&atilde;o considerados v&aacute;lidos?&rsquo;&rdquo; (Silva, 2004: 148). E, neste sentido, as professoras e o professor n&atilde;o apresentam ou, no m&aacute;ximo, apresentam &ldquo;t&iacute;midas&rdquo; express&otilde;es que explicitam um car&aacute;ter &ldquo;cr&iacute;tico&rdquo; de curr&iacute;culo escolar. </p>       <p>A aus&ecirc;ncia da dimens&atilde;o cultural tamb&eacute;m &eacute; percebida quando a pergunta aos professores &eacute; sobre o curr&iacute;culo escolar:&ldquo;Todas aquelas atividades que o professor trabalha em sala que observa os v&aacute;rios desenvolvimentos&rdquo; (professora Analice); &ldquo;Curr&iacute;culo escolar que eu entendo s&atilde;o os conte&uacute;dos program&aacute;ticos [...]&rdquo; (profes-sora Rosa);&ldquo;Grade curricular, trabalho extraclasse, pesquisa que envolve a comunidade interna e externa visando o aprendizado dos alunos&rdquo; (professora Gabriela); o professor Gilberto, quando perguntado sobre sua concep&ccedil;&atilde;o de curr&iacute;culo, fala sobre o conte&uacute;do espec&iacute;fico da sua disciplina.&ldquo;[...] hist&oacute;ria e literatura, quando voc&ecirc; encontra um professor que h&aacute; disposi&ccedil;&atilde;o de t&aacute; trabalhando junto o conte&uacute;do, que h&aacute; esta abertura, ocorre facilidade de entendimento [...].&rdquo; Embora a professora Gabriela nomeie trabalhos para al&eacute;m da sala de aula (comunidade interna e externa), n&atilde;o h&aacute; em toda a sua entrevista ind&iacute;cios de que fa&ccedil;a um trabalho realmente articulado com a comunidade. As concep&ccedil;&otilde;es que os professores apresentam de curr&iacute;culo est&atilde;o circunscritas a uma abordagem t&iacute;pica da vis&atilde;o tradicional (os conte&uacute;dos program&aacute;ticos): </p>     <blockquote>       <p>Na vis&atilde;o tradicional, o curr&iacute;culo &eacute; pensado como um      conjunto de fatos, de conhecimento e de informa&ccedil;&otilde;es, selecionados      do estoque cultural mais amplo da sociedade, para serem transmitidos &agrave;s      crian&ccedil;as e aos jovens nas escolas. Na perspectiva convencional, trata-se      de um processo nada problem&aacute;tico. Sup&otilde;e-se: 1) um consenso em      torno do conhecimento que deve ser selecionado; 2) uma coincid&ecirc;ncia      entre a natureza do conhecimento e da cultura mais gerais (a ci&ecirc;ncia,      por exemplo) e a natureza do conhecimento e da cultura especificamente escolares,      admitindo-se uma diferen&ccedil;a apenas de grada&ccedil;&atilde;o e de quantidade;      3) uma rela&ccedil;&atilde;o passiva entre quem &ldquo;conhece&rdquo; e aquilo      que &eacute; conhecido; 4) o car&aacute;ter est&aacute;tico e inercial da      cultura e do conhecimento. (Silva, 2003: 13). </p> </blockquote>     <p>O pr&oacute;prio termo &ldquo;program&aacute;tico&rdquo; utilizado pela professora Rosa, bem como a &ldquo;grade curricular&rdquo;, termo utilizado pela professora Gabriela, expressam a posi&ccedil;&atilde;o te&oacute;rica de curr&iacute;culo. &Eacute; importante esclarecer que para Silva (2003), um dos auto-res que pauta nossa discuss&atilde;o, &eacute; poss&iacute;vel fazer uma aproxima&ccedil;&atilde;o entre as concep&ccedil;&otilde;es tradicionais e tecnicistas. Referindo-se ao curr&iacute;culo tradicional, destaca: &ldquo;Na hist&oacute;ria da educa&ccedil;&atilde;o ocidental, essa concep&ccedil;&atilde;o [a vis&atilde;o tradicional] &eacute; compartilhada por ideologias educacionais t&atilde;o diversas quanto o humanismo tradicional e o tecnicismo.&rdquo; (Silva, 2003: 13). </p>    <p>Em rela&ccedil;&atilde;o a uma preocupa&ccedil;&atilde;o mais pr&oacute;xima do que Silva (2004) chama de perspectiva p&oacute;s-cr&iacute;tica, na qual tamb&eacute;m se insere uma perspectiva multicultural, podemos afirmar que, em nenhum momento, as professoras expressaram qualquer preocupa&ccedil;&atilde;o com as quest&otilde;es ligadas a g&ecirc;nero, ra&ccedil;a, religiosidade e outros elementos importantes numa perspectiva p&oacute;s-cr&iacute;tica/multicultural. </p>     <blockquote>       <p>As teorias p&oacute;s-cr&iacute;ticas ampliam e, ao mesmo tempo, modificam      que as teorias cr&iacute;ticas nos ensinaram. As teorias p&oacute;s-cr&iacute;ticas      continuam a enfatizar que o curr&iacute;culo n&atilde;o pode ser compreendido,      sem uma an&aacute;lise das rela&ccedil;&otilde;es de poder nas quais est&aacute;      envolvido. Nas teorias p&oacute;s-cr&iacute;ticas, entretanto, o poder tornase      descentrado. O poder est&aacute; espalhado por toda a rede social. [...] Com      as teorias p&oacute;s-criticas, o mapa do poder &eacute; ampliado para incluir      os processos de domina&ccedil;&atilde;o centrados na ra&ccedil;a, na etnia,      no g&ecirc;nero e na sexualidade. (Silva, 2004: 148-149). </p> </blockquote>     <p>Ao salientarmos que os professores n&atilde;o fazem este tipo de discuss&atilde;o, n&atilde;o estamos entrando em um processo de culpabiliza&ccedil;&atilde;o, mas sim expressando a necessidade de a forma&ccedil;&atilde;o inicial e continuada incluir as problematiza&ccedil;&otilde;es levantadas pela perspectiva multicultural, sobretudo, porque, segundo Costa (1999: 57), algumas teorias &ldquo;[...] que t&ecirc;m formulado concep&ccedil;&otilde;es sobre como se d&aacute; o desenvolvimento da intelig&ecirc;ncia e da personalidade a partir de pesquisas com determinados grupos de civiliza&ccedil;&atilde;o europ&eacute;ia t&ecirc;m naturalizado essas no&ccedil;&otilde;es, instituindo-as como norma, e patologizado tudo que a&iacute; n&atilde;o se encaixa&rdquo;. </p>    <p>N&atilde;o &eacute; raro percebermos como na educa&ccedil;&atilde;o escolar rapidamente se classificam os alunos e alunas como portadoras de algum tipo de &ldquo;defici&ecirc;ncia&rdquo; (de &ldquo;prefer&ecirc;ncia&rdquo;, de origem biol&oacute;gica) que os impede de aprender. Como nossa pesquisa tamb&eacute;m mostrou, dificilmente o argumento utilizado pela escola &eacute; que culturalmente h&aacute; algum tipo de diferen&ccedil;a entre os/as estudantes e a escola que est&aacute; impossibilitando o di&aacute;logo, o encontro, a aprendizagem. No discurso da escola, tem sido o aluno ou aluna o/a culpado/a. E, neste aspecto, &eacute; de suma import&acirc;ncia questionar a linguagem que se utiliza para representar, nomear o aluno ou aluna.Veiga-Neto (1999: 100) nos traz a contribui&ccedil;&atilde;o da Virada Ling&uuml;&iacute;stica, que trouxe para a educa&ccedil;&atilde;o a relev&acirc;ncia da linguagem, o que, nesta investiga&ccedil;&atilde;o, se relaciona com o que os professores dizem sobre o curr&iacute;culo escolar: &ldquo;Ao inv&eacute;s de ser vista como a pr&oacute;pria ess&ecirc;ncia das coisas ou como representa&ccedil;&atilde;o das coisas, a linguagem passa a ser entendida como constituidora das coisas e, enquanto tal, como pr&oacute;prio objeto de conhecimento.&rdquo; Assim, evidencia-se o poder da linguagem: &ldquo;Com isso, o que interessa n&atilde;o &eacute; pensar se as coisas t&ecirc;m, ou n&atilde;o, uma ess&ecirc;ncia e/ou uma realidade real, est&aacute;vel e independente de n&oacute;s, sen&atilde;o &eacute; pens&aacute;-las no significado que adquirem para n&oacute;s.&rdquo; (Veiga-Neto, 1999: 100). </p>    ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Neste sentido, tanto o que os professores e as professoras dizem adquire fundamental import&acirc;ncia quanto o pr&oacute;prio curr&iacute;culo trabalhado nas escolas, para pensar os seus processos de forma&ccedil;&atilde;o (inicial e continuada): </p>        <blockquote>       <p>As narrativas contidas no curr&iacute;culo, expl&iacute;cita ou implicitamente,      corporificam no&ccedil;&otilde;es particulares sobre conhecimento, sobre formas      de organiza&ccedil;&atilde;o da sociedade, sobre os diferentes grupos sociais.      Elas dizem qual conhecimento &eacute; leg&iacute;timo e qual &eacute; ileg&iacute;timo,      quais formas de conhecer s&atilde;o v&aacute;lidas e quais n&atilde;o o s&atilde;o,      o que &eacute; certo e o que &eacute; errado, o que &eacute; moral e o que      &eacute; imoral, o que &eacute; bom e o que &eacute; mau, o que &eacute; belo      e o que &eacute; feio, quais vozes s&atilde;o autorizadas e quais n&atilde;o      o s&atilde;o.As narrativas contidas no curr&iacute;culo trazem embutidas no&ccedil;&otilde;es      sobre quais grupos sociais podem representar a si e aos outros e quais os      grupos sociais podem apenas ser representados ou at&eacute; mesmo serem totalmente      exclu&iacute;dos de qualquer representa&ccedil;&atilde;o. (Silva, 1995: 195).    </p> </blockquote>     <p>Neste sentido, podemos trazer novamente Veiga-Neto (1999: 101): &ldquo;[...]    o curr&iacute;culo &ndash; entendido como um artefato que ao mesmo tempo traz    para a escola elementos que existem no mundo e cria, na escola, sentidos para    o mundo&rdquo;. Segundo o pensamento do autor, o curr&iacute;culo &ldquo;[...]    passa a ser visto como ocupando uma posi&ccedil;&atilde;o central nos processos    de identidade social, de representa&ccedil;&atilde;o, de regula&ccedil;&atilde;o    moral&rdquo; (1999: 101). Por isso &eacute; que destacamos a necessidade do    debate em torno do curr&iacute;culo escolar, pois estamos nos referindo a algo    que produz efeitos sobre a vida de alunos e alunas, bem como de professores    e professoras. Lembrando novamente Silva (1995), n&atilde;o &eacute; s&oacute;    o curr&iacute;culo que &eacute; constru&iacute;do, mas ele tamb&eacute;m nos    constr&oacute;i. E, com Costa (1999: 42-43), queremos lembrar que representar    &eacute; </p>     <blockquote>       <p>produzir significados segundo um jogo de correla&ccedil;&atilde;o de for&ccedil;as      no qual grupos mais poderosos &ndash; seja pela posi&ccedil;&atilde;o pol&iacute;tica      e geogr&aacute;fica que ocupam, seja pela l&iacute;ngua que falam, seja pelas      riquezas materiais ou simb&oacute;licas que concentram e distribuem, ou por      alguma outra prerrogativa &ndash; atribuem significado aos mais fracos e,      al&eacute;m disso, imp&otilde;em a estes seus significados. </p> </blockquote>     <p>Nesta perspectiva &eacute; que o curr&iacute;culo &eacute;, como diz&iacute;amos    no in&iacute;cio deste artigo, centralmente produtivo. Como j&aacute; destacamos    anteriormente, ao trazer a reflex&atilde;o dos professores, nosso interesse    n&atilde;o &eacute; &ldquo;culpabiliz&aacute;-los&rdquo;, mas buscar pistas    para a forma&ccedil;&atilde;o docente. Neste sentido, salientamos que os professores    (como qualquer sujeito) pensam atravessados pelo contexto, motivo pelo qual    traremos algo do contexto vivido pelo professor atualmente. </p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>3. Os professores e as professoras entre a proletariza&ccedil;&atilde;o     e a constru&ccedil;&atilde;o de alternativas (multiculturais) </b></p>       <p>Num primeiro momento, queremos destacar que a constru&ccedil;&atilde;o de alternativas passa pelo questionamento das teorias hegem&ocirc;nicas que norteiam a educa&ccedil;&atilde;o. Vivemos um momento em que se exige cada vez mais dos/as profissionais da educa&ccedil;&atilde;o.Alguns responsabilizam os/as professores/as por todos os problemas, outros acreditam que todas as solu&ccedil;&otilde;es, para problemas de qualquer ordem, est&atilde;o nas m&atilde;os dos/as profissionais da educa&ccedil;&atilde;o. H&aacute;, portanto, um processo de supervaloriza&ccedil;&atilde;o das responsabilidades, mas, ao mesmo tempo, estes/as profissionais se v&ecirc;em repletos de atividades que, na sua maioria, se apresentam de forma &ldquo;tarefeira&rdquo;, levando-os/as a trabalharem incessantemente com atribui&ccedil;&otilde;es que, geralmente, os mant&ecirc;m longe de momentos de reflex&atilde;o sobre suas teorias, metodologias e pr&aacute;ticas. Tudo indica que este tempo tarefeiro impede-os/as de exercerem um trabalho reconhecidamente reflexivo, intelectualizado, aqui compreendido como a n&atilde;o-divis&atilde;o entre planejamento e execu&ccedil;&atilde;o. Conforme nos coloca Giroux: </p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<blockquote>       <p>No cerne da atual &ecirc;nfase nos fatores instrumentais e pragm&aacute;ticos      da vida escolar colocam-se diversas suposi&ccedil;&otilde;es pedag&oacute;gicas      importantes. Elas incluem: o apelo pela separa&ccedil;&atilde;o de concep&ccedil;&atilde;o      e execu&ccedil;&atilde;o; a padroniza&ccedil;&atilde;o do conhecimento escolar      com o interesse de administr&aacute;-lo e control&aacute;-lo; e a desvaloriza&ccedil;&atilde;o      do trabalho cr&iacute;tico e intelectual de professores e estudantes pela      primazia de considera&ccedil;&otilde;es pr&aacute;ticas. (1997: 159). </p> </blockquote>     <p>Embora o autor analise o contexto estadunidense, podemos afirmar que tanto l&aacute; como c&aacute; vivemos numa sociedade em que tudo &eacute; compartimentado, em que a maioria das institui&ccedil;&otilde;es est&aacute; atrelada &agrave; sociedade de consumo, o que dificulta a busca de outras abordagens, ou melhor, outras possibilidades. Assim, deixa-se de lado algo que &eacute; profundamente humano e, sobretudo, humanizador: o processo reflexivo, tanto dos/as profissionais da educa&ccedil;&atilde;o como dos grupos envolvidos no seu trabalho di&aacute;rio, ou seja, a grande parte da popula&ccedil;&atilde;o que freq&uuml;enta a escola. Assim, a perspectiva da divis&atilde;o entre o pensar e o fazer, entre o conceber e o executar, atravessa n&atilde;o s&oacute; o/a profissional docente, mas tamb&eacute;m todas as pessoas &ldquo;educadas&rdquo; por eles/as. </p>    <p>H&aacute; um refinamento das formas de controle do trabalho dos professores, segundo Pimenta (2002), quando, por exemplo, o conceito de saberes e conhecimentos &eacute; substitu&iacute;do pelo conceito de compet&ecirc;ncias utilizado para expressar o trabalho docente. Evidentemente isto n&atilde;o &eacute; s&oacute; uma quest&atilde;o conceitual. &ldquo;Esta substitui&ccedil;&atilde;o acarreta &ocirc;nus para os professores, uma vez que os expropria de sua condi&ccedil;&atilde;o de sujeito do seu conhecimento.&rdquo; (Pimenta, 2002: 20). Nesta mesma perspectiva, chamamos a aten&ccedil;&atilde;o para duas quest&otilde;es relevantes no processo de proletariza&ccedil;&atilde;o docente apontada por Contreras (2002: 51). Primeiro: </p>     <blockquote>       <p>No contexto educativo, a proletariza&ccedil;&atilde;o, se ela significa alguma      coisa, &eacute; sobretudo a perda de um sentido &eacute;tico impl&iacute;cito      no trabalho do professor.A falta de controle sobre o pr&oacute;prio trabalho      que possa significar a separa&ccedil;&atilde;o entre concep&ccedil;&atilde;o      e execu&ccedil;&atilde;o se traduz no campo educativo numa desorienta&ccedil;&atilde;o      ideol&oacute;gica e n&atilde;o s&oacute; na perda de uma qualidade pessoal      para uma categoria profissional. </p> </blockquote>     <p>A segunda quest&atilde;o que se apresenta &eacute; a seguinte: </p>     <blockquote>       <p>[...] h&aacute; processos de controle ideol&oacute;gico sobre os professores      que podem ficar encobertos por um aumento de sofistica&ccedil;&atilde;o t&eacute;cnica      e pela apar&ecirc;ncia de uma maior qualifica&ccedil;&atilde;o profissional.      Um determinado resgate de habilidades e decis&otilde;es profissionais pode      se transformar em uma forma mais sutil de controle ideol&oacute;gico. (Contreras,      2002: 51). </p> </blockquote>     <p>Assim, o processo de proletariza&ccedil;&atilde;o n&atilde;o se explica somente pela separa&ccedil;&atilde;o entre concep&ccedil;&atilde;o e execu&ccedil;&atilde;o, isto &eacute;, a proletariza&ccedil;&atilde;o n&atilde;o se explica somente pelo fato dos professores e professoras serem reduzidos a executores de tarefas educacionais pensadas por outros, ou melhor dizendo,&ldquo;meros executores de decis&otilde;es externas&rdquo; (Contreras, 2002: 51). Segundo o autor, o fato de professores e professoras alcan&ccedil;arem &ldquo;a recupera&ccedil;&atilde;o de determinado controle pode n&atilde;o ser mais que a passagem da simples submiss&atilde;o a diretrizes alheias &agrave; &lsquo;autogest&atilde;o do controle externo&rsquo; (Contreras, 2002: 51). Isso nos faz ter cuidado redobrado na an&aacute;lise do que nos &eacute; apresentado como avan&ccedil;os profissionais e/ou educativos. Ou seja, ret&oacute;ricas que nos v&ecirc;m a todo momento, tanto como possibilidade de profissionalismo quanto referentes a propostas educativas mais espec&iacute;ficas, como algo que nos &eacute; necess&aacute;rio, como professores e professoras, para Contreras (2002: 52), mesmo que apresentadas como alternativas &agrave; proletariza&ccedil;&atilde;o, devem ser analisadas para ver se n&atilde;o se trata de propostas de mais controle sobre o professor &ldquo;tanto nos processos sociais e pol&iacute;ticos a que d&aacute;  lugar como na ret&oacute;rica na qual se sustenta&rdquo;.Al&eacute;m disso, quando nos filiamos a uma perspectiva multicultural, &eacute; importante lembrar que: </p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<blockquote>       <p>A nossa forma&ccedil;&atilde;o hist&oacute;rica est&aacute; marcada pela      elimina&ccedil;&atilde;o f&iacute;sica do &ldquo;outro&rdquo; ou por sua escraviza&ccedil;&atilde;o,      formas violentas de nega&ccedil;&atilde;o de sua alteridade. Os processos      de nega&ccedil;&atilde;o do &ldquo;outro&rdquo; tamb&eacute;m se d&atilde;o      no plano das representa&ccedil;&otilde;es e no imagin&aacute;rio social. Neste      sentido, o debate multicultural na Am&eacute;rica Latina nos coloca diante      desses sujeitos hist&oacute;ricos que foram massacrados, que souberam resistir      e continuam hoje afirmando fortemente suas identidades na nossa sociedade,      mas numa situa&ccedil;&atilde;o de rela&ccedil;&otilde;es assim&eacute;tricas,      de subordina&ccedil;&atilde;o e acentuada exclus&atilde;o. (Candau, 2005:      13-14). </p> </blockquote>     <p>Finalizamos o texto reiterando que a pesquisa aponta que as professoras e professores entrevistados refletem, em sua maioria, numa perspectiva tecnocr&aacute;tica, legitimando um lugar de executor de tarefas, bem como a execu&ccedil;&atilde;o de um curr&iacute;culo monocultural. Neste sentido, destacamos que &ldquo;o multiculturalismo nos faz lembrar que a igualdade n&atilde;o pode ser obtida simplesmente atrav&eacute;s da igualdade de acesso ao curr&iacute;culo hegem&ocirc;nico existente&rdquo; (Silva, 2004: 90). </p>     <p>Destacamos ainda que, ao trazermos o contexto dos professores, n&atilde;o o    fazemos no sentido de &ldquo;reific&aacute;-lo&rdquo;, mas de afirmar a necessidade    de pensar a forma&ccedil;&atilde;o articulada com este contexto. Considerar    o contexto contribui para n&atilde;o culpabilizarmos os professores pela sua    reflex&atilde;o tecnocr&aacute;tica/tradicional e encontrarmos alternativas    para propor uma forma&ccedil;&atilde;o (multicultural) que contribua para que    os professores possam desenvolver reflex&otilde;es multiculturais. </p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>Notas </b></p>     <p><sup><a name="1" id="1"></a><a href="#top1">1</a></sup> Vers&atilde;o revisada    do texto apresentado oralmente no XXIII Simp&oacute;sio Brasileiro,V Congresso    Luso-Brasileiro e I Col&oacute;quio Ibero-Americano de Pol&iacute;tica e Administra&ccedil;&atilde;o    da Educa&ccedil;&atilde;o. Porto Alegre - Brasil, 2007. </p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>Refer&ecirc;ncias Bibliogr&aacute;&#64257;cas </b></p>     <!-- ref --><p>Apple, M. W. (2006). Re&#64258;ex&otilde;es sobre neoliberalismo, neoconservadorismo e curr&iacute;culo. <I>Revista P&aacute;tio,</I> 37, 12-15. &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000082&pid=S1645-7250201000010000900001&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><p>Bauman, Z. (2001). <I>Modernidade l&iacute;quida</I>. Rio de Janeiro: Jorge Zahar. </p>     <p>Candau,V. M. (2005). Sociedade multicultural e educa&ccedil;&atilde;o: tens&otilde;es e desa&#64257;os. In:V. M. Candau (Org.). <I>Cultura</I><I>(s)</I><I> e educa&ccedil;&atilde;o: entre o cr&iacute;tico e o p&oacute;s-cr&iacute;tico</I> (pp. 13-37). Rio de Janeiro: DP&amp;A. </p>     <p>Contreras, J. (1999). <I>Autonomia dos professores</I>. S&atilde;o Paulo: Cortez. Costa, M.V. (1999). Curr&iacute;culo e pol&iacute;tica cultural. In M.V. 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Lutas entre culturas no curr&iacute;culo em a&ccedil;&atilde;o da forma&ccedil;&atilde;o docente. <I>Educa&ccedil;&atilde;o e Realidade, </I>21 (1). 137-157. &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000091&pid=S1645-7250201000010000900003&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><p>Pimenta, S. G. (2002). Por que traduzir o livro La autonom&iacute;a del profesorado? In: J. Contreras. <I>A autonomia de professores</I> (pp. 11-21). S&atilde;o Paulo: Cortez. </p>    ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Silva,T.T. (1995). Curr&iacute;culo e identidade social: territ&oacute;rios contestados. In:T.T. Silva (Org.). <I>Alien&iacute;genas na sala </I><I>de aula: uma introdu&ccedil;&atilde;o aos estudos culturais em educa&ccedil;&atilde;o</I> (pp. 190-207). Petr&oacute;polis:Vozes. </p>     <p>Silva, T. T. (2004). <I>Documentos de identidade: uma introdu&ccedil;&atilde;o &agrave;s teorias do curr&iacute;culo</I>. Belo Horizonte:Aut&ecirc;ntica. </p>    <p>Silva, T. T. (2003). <I>O curr&iacute;culo como fetiche: a po&eacute;tica e a pol&iacute;tica do texto curricular</I>. Belo Horizonte:Aut&ecirc;ntica. </p>     <p>Veiga-Neto,A. (1999). Curr&iacute;culo e hist&oacute;ria: uma conex&atilde;o radical. In: M.V. Costa (Org.). <I>O curr&iacute;culo nos limiares </I><I>do contempor&acirc;neo</I> (pp. 93-104). Rio de Janeiro: DP&amp;A.</p>      ]]></body><back>
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<source><![CDATA[Revista Brasileira de Educação]]></source>
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