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<abstract abstract-type="short" xml:lang="en"><p><![CDATA[This article puts in question some views on art, artwork, aesthetic attitude and aesthetic experience in order to propose the exercise of aesthetic rationality extending subjective capacity to guide the perception and understanding regarding the infinite possibilities of existence. The aesthetic rationality for empower subjects to conceive not only worlds reduced at reference schemes, but from and about experience of presentification of being, the effects history and derealization establishments limits of traditional forms of rationality. I postulate the idea of aesthetic experience as an opportunity for expansion and disclosure of subjectivity in that it represents an opening to the collection of examples that are art and life. The aesthetic attitude is a selfless attitude, is an openness, a willingness not so much for the thing or event "in itself ", what he has consistency, but the effects it can produce.]]></p></abstract>
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</front><body><![CDATA[ <p><b>Contribui&ccedil;&otilde;es para   entender a experi&ecirc;ncia   est&eacute;tica</b></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>Marcos Villela Pereira<sup>*</sup></b></p>     <p><sup>*</sup>Licenciado em Filosofia, Doutor em Educa&ccedil;&atilde;o, Pesquisador do CNPq, Professor Titular do Programa de  P&oacute;s-Gradua&ccedil;&atilde;o em Educa&ccedil;&atilde;o da PUCRS. <a href="mailto:marcos.villela@yahoo.com.br">marcos.villela@yahoo.com.br</a></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>Resumo</p>     <p>Este trabalho coloca em an&aacute;lise algumas concep&ccedil;&otilde;es sobre arte, obra de arte,   atitude est&eacute;tica e experi&ecirc;ncia est&eacute;tica com o intuito de propor o exerc&iacute;cio da   racionalidade est&eacute;tica como uma amplia&ccedil;&atilde;o da capacidade dos sujeitos para   orientar sua percep&ccedil;&atilde;o e compreens&atilde;o ante as infinitas possibilidades da exist&ecirc;ncia.   A raz&atilde;o est&eacute;tica habilita o sujeito para que se concebam mundos n&atilde;o   apenas <i>a partir de</i> e/ou <i>sobre</i> esquemas referenciais, mas, <i>a partir de</i> e <i>sobre</i> a   experi&ecirc;ncia da presentifica&ccedil;&atilde;o do que existe, do ser-a&iacute;, da hist&oacute;ria efeitual e   da desrealiza&ccedil;&atilde;o dos limites estabelecidos pelas formas tradicionais de racionalidade.   Postulo a id&eacute;ia da experi&ecirc;ncia est&eacute;tica como uma oportunidade de   amplia&ccedil;&atilde;o, de desvelamento e de expans&atilde;o da subjetividade na medida que   representa uma abertura para a <i>cole&ccedil;&atilde;o de exemplos</i> que s&atilde;o a arte e a vida. A   atitude est&eacute;tica &eacute; uma atitude <i>desinteressada</i>, &eacute; uma abertura, uma disponibilidade   n&atilde;o tanto para a coisa ou o acontecimento &quot;em si&quot;, naquilo que ele tem   de consist&ecirc;ncia, mas para os efeitos que ele pode produzir.</p>     <p><b>Palavras-chave:</b> est&eacute;tica; experi&ecirc;ncia; experi&ecirc;ncia est&eacute;tica; arte; subjetiva&ccedil;&atilde;o.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>Contributions to understand aesthetic   experience</b></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Abstract</p>     <p>This article puts in question some views   on art, artwork, aesthetic attitude and   aesthetic experience in order to propose the   exercise of aesthetic rationality extending   subjective capacity to guide the perception   and understanding regarding the infinite   possibilities of existence. The aesthetic   rationality for empower subjects to conceive not   only worlds reduced at reference schemes, but   from and about experience of presentification   of being, the effects history and derealization   establishments limits of traditional forms of   rationality. I postulate the idea of aesthetic   experience as an opportunity for expansion and   disclosure of subjectivity in that it represents an   opening to the collection of examples that are   art and life. The aesthetic attitude is a selfless   attitude, is an openness, a willingness not so   much for the thing or event &quot;in itself &quot;, what he   has consistency, but the effects it can produce.</p>     <p> <b>Keywords:</b> Aesthetics; experience; aesthetic   experience; art; subjectivation.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p>Pretendo apresentar algumas id&eacute;ias e reflex&otilde;es que, mais do que apontar   caminhos, permitam ampliar a discuss&atilde;o acerca do significado e do sentido do   trabalho com as artes nas fronteiras do campo da educa&ccedil;&atilde;o. Mais especificamente,   minha id&eacute;ia &eacute; contribuir com alguns temas bastante caros &agrave; forma&ccedil;&atilde;o de   professores de arte. Mais especificamente, pretendo ensaiar um confronto do   tema do <i>rigor</i> na experi&ecirc;ncia est&eacute;tica, colocando em an&aacute;lise algumas concep&ccedil;&otilde;es   sobre arte, obra de arte, atitude est&eacute;tica e experi&ecirc;ncia est&eacute;tica1.</p>     <p> Tomo como ponto de partida uma id&eacute;ia bastante comum: a impossibilidade   de defini&ccedil;&atilde;o un&iacute;voca da arte. Ao longo da hist&oacute;ria da humanidade temos presenciado   calorosos debates sobre esse tema, sem nunca alcan&ccedil;armos um conceito   universal que silenciasse essa pergunta. Na antig&uuml;idade, o campo da arte   circundava as no&ccedil;&otilde;es de imita&ccedil;&atilde;o e beleza, passando pela sua utiliza&ccedil;&atilde;o como   elemento decorativo. No auge da modernidade cl&aacute;ssica, a arte aproximou-se da   sublima&ccedil;&atilde;o, do sublime. Na contemporaneidade, aderida antes ao conceito do   que ao seu conte&uacute;do expressivo estrito, a id&eacute;ia de arte se ampliou e ultrapassou   os limites da inteligibilidade. Alcan&ccedil;ou-se o patamar em que tratamos de diferentes   formas de racionalidade em situa&ccedil;&atilde;o de simultaneidade e conting&ecirc;ncia   e, portanto, caem por terra as iniciativas de circunscrever a arte &agrave;s formas mais   tradicionais ou universais de racionaliza&ccedil;&atilde;o.</p>     <p> Tamb&eacute;m vale dizer que j&aacute; n&atilde;o se trata de perseguirmos alguma id&eacute;ia de <i>beleza</i> como par&acirc;metro. Tamb&eacute;m o <i>belo</i>, ao longo da hist&oacute;ria do pensamento, foi   deslocado dos c&acirc;nones que, pretensiosos e reducionistas, buscaram fixar seu   significado. No come&ccedil;o, belo era o que imitava a realidade vis&iacute;vel, era o que   correspondia &agrave; repeti&ccedil;&atilde;o do paradigma naturalista e realista de representa&ccedil;&atilde;o.   Depois, o belo passou a ser tomado como sublima&ccedil;&atilde;o, como efeito tang&iacute;vel do   sentimento oriundo da rela&ccedil;&atilde;o que nossa raz&atilde;o pura estabelecia com o mundo.   Mais tarde, o belo passou a ser um valor subjetivo, um sentimento singular proveniente   de uma experi&ecirc;ncia &uacute;nica e individual que o sujeito tinha do mundo.   Ou seja, assim como se passa com a arte, o belo foi deslocado do campo de poss&iacute;veis   estabelecido pelas formas tradicionais ou universais de racionalidade.</p>     <p> Por fim, podemos tentar perguntar pela <i>utilidade</i> da arte. Da mesma forma,   veremos uma s&eacute;rie de deslocamentos ao longo da hist&oacute;ria. No come&ccedil;o, a arte   tinha por objetivo aproximar o homem do universo transcendente das divindades,   dos deuses, do sobrenatural. Tamb&eacute;m podemos identificar, em algumas   civiliza&ccedil;&otilde;es, a arte com fins decorativos. Sob outro enfoque, podemos ver a arte   assumir fins expressivos, comunicativos e representativos: a obra de arte pode   expressar algo quando ela &eacute; a materializa&ccedil;&atilde;o ou a vivifica&ccedil;&atilde;o de uma id&eacute;ia ou   sentimento que apela ao seu criador para alcan&ccedil;ar a exist&ecirc;ncia; a arte pode   comunicar algo quando sua materialidade &eacute; portadora de um conte&uacute;do, quando   ela veicula uma id&eacute;ia, uma inten&ccedil;&atilde;o, uma mensagem moral ou pol&iacute;tica; a arte   pode <i>representar</i> algo quando, articulando sua potencialidade expressiva e comunicativa,   significa algo, quando sua exist&ecirc;ncia remete a algo que n&atilde;o est&aacute; ali.   Enfim, em termos de atribui&ccedil;&atilde;o de utilidade, chegamos ao que nos diz Oscar   Wilde, em 1891, no Pref&aacute;cio ao seu <i>Retrato de Dorian Gray</i> (Wilde, 2000:17):  &quot;toda arte &eacute; perfeitamente in&uacute;til&quot;. Ou seja, alcan&ccedil;amos a id&eacute;ia de que a arte   n&atilde;o <i>serve</i> para nada. Ali&aacute;s, para explorar um pouco mais essa concep&ccedil;&atilde;o, me   detenho um pouco mais no que diz esse autor. Segundo ele, &quot;revelar a arte e   ocultar o artista &eacute; a finalidade da arte&quot; (Wilde, 2000:17). Com essa id&eacute;ia ele   inaugura a vis&atilde;o contempor&acirc;nea da dimens&atilde;o conceitual da arte e proporciona a   compreens&atilde;o da experi&ecirc;ncia com a obra de arte como uma experi&ecirc;ncia singular   e subjetiva que pode bem ser individual ou coletiva, mas que definitivamente   vai na dire&ccedil;&atilde;o da singularidade. E a singularidade, nesse caso, tanto pode ser   a do artista quanto a do cr&iacute;tico ou, ainda, do espectador. &Eacute; arte o que eu digo   que &eacute; arte. &Eacute; arte o que eu fa&ccedil;o ser arte. &Eacute; arte o que eu torno arte. E, em &uacute;ltima   an&aacute;lise, ela serve para produzir <i>efeitos de sentido</i> no criador, no cr&iacute;tico e no   p&uacute;blico. Ou seja, a arte existe para produzir diferen&ccedil;a no artista, no cr&iacute;tico e no   p&uacute;blico &ndash; n&atilde;o vindo ao caso, nesta circunst&acirc;ncia, o ju&iacute;zo de valor sobre se essa &eacute;   uma diferen&ccedil;a para o <i>bem</i> ou <i>para o mal</i>, j&aacute; que falamos aqui de singularidades.</p>     <p>Enfim, para esse autor &quot;toda arte &eacute;, ao mesmo tempo, superf&iacute;cie e s&iacute;mbolo.   Os que buscam sob a superf&iacute;cie fazem-no por seu pr&oacute;prio risco. Os que procuram   decifrar o s&iacute;mbolo correm tamb&eacute;m seu pr&oacute;prio risco. Na realidade, a arte   reflete o espectador e n&atilde;o a vida&quot; (Wilde, 2000:17).</p>     <p> Ou seja, n&atilde;o se trata de buscarmos decifrar a obra de arte como se houvesse   nela um conte&uacute;do essencial ou fundamental que devesse ser descoberto e revelado.   O esfor&ccedil;o pelo entendimento do que seja uma <i>obra de arte</i> como ess&ecirc;ncia   universal tamb&eacute;m cai por terra, sucumbindo &agrave; impossibilidade de circunscri&ccedil;&atilde;o   estanque em <i>uma</i> ou <i>outra</i> forma de racionalidade. O que nos resta, assim, &eacute;   pautarmos nossa discuss&atilde;o pelas formas de opera&ccedil;&atilde;o, uso, experi&ecirc;ncia e entendimento   da obra de arte, procurando desviar a resposta da captura reducionista   da defini&ccedil;&atilde;o, da classifica&ccedil;&atilde;o ou do julgamento. Ao contr&aacute;rio de perguntar o que   &eacute; arte ou se isso &eacute; uma obra de arte, vale tomar em quest&atilde;o a experi&ecirc;ncia de algum   objeto, situa&ccedil;&atilde;o, acontecimento ou processo <i>naquilo que ele tem em termos     de potencial art&iacute;stico</i>, ou seja, naquilo que o configura como um acontecimento   est&eacute;tico.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p> O risco de adentrarmos demasiadamente nessa regi&atilde;o especulativa &eacute; sermos   a&iacute; capturados pelo vazio inconsistente da id&eacute;ia de que, se <i>nada</i> &eacute; arte, ent&atilde;o <i>tudo</i> &eacute; arte. O risco &eacute; vacilarmos na sedu&ccedil;&atilde;o que essa relativiza&ccedil;&atilde;o provoca e   fazermos desse relativo um absoluto. Por isso, me importa adentrar um pouco   mais em algumas pondera&ccedil;&otilde;es.</p>     <p> Come&ccedil;o, aqui, pelo estabelecimento de uma condi&ccedil;&atilde;o de possibilidade para a   experi&ecirc;ncia est&eacute;tica: a <i>atitude est&eacute;tica</i>. Para que se possa viver uma experi&ecirc;ncia   est&eacute;tica, antes de tudo, &eacute; preciso assumir uma atitude est&eacute;tica, ou seja, assumir   uma <i>posi&ccedil;&atilde;o</i>, uma postura que constitua e configure a nossa percep&ccedil;&atilde;o. N&atilde;o   como uma intencionalidade, uma premedita&ccedil;&atilde;o, uma antecipa&ccedil;&atilde;o racional do que   est&aacute; por vir, mas como uma disposi&ccedil;&atilde;o contingente, uma abertura circunstancial   ao mundo. A premedita&ccedil;&atilde;o &eacute; da ordem da atitude <i>pr&aacute;tica</i>, utilit&aacute;ria, funcional, &eacute;   quando nos dirigimos para o mundo com vista a determinados fins, considerando   as coisas e os acontecimentos como <i>meios &uacute;teis</i> para atingir um fim.</p>     <p> A atitude est&eacute;tica &eacute; uma atitude <i>desinteressada</i>, &eacute; uma abertura, uma disponibilidade   n&atilde;o tanto para a coisa ou o acontecimento &quot;em si&quot;, naquilo que   ele tem de consist&ecirc;ncia, mas para os efeitos que ele produz em mim, na minha   percep&ccedil;&atilde;o, no meu sentimento. Tomo, aqui, o que postula Kant acerca do ju&iacute;zo   est&eacute;tico. Segundo ele, quando apreciamos esteticamente, n&atilde;o se trata de simpatizar   ou n&atilde;o com a exist&ecirc;ncia da coisa, tampouco importa algo da sua exist&ecirc;ncia,   em termos daquilo que nos pode dizer o <i>entendimento</i> ou a explica&ccedil;&atilde;o (Kant,   1993: 49-50). Diferente disso, trata-se de contemplar ativamente a coisa, ou   seja, atentar para o sentimento que a experi&ecirc;ncia da coisa produz em mim. O <i>desinteresse</i> reside na suspens&atilde;o dos ju&iacute;zos explicativos que o sujeito poderia   proferir ante a coisa ou o acontecimento que vive, de modo que possa colocarse   em uma posi&ccedil;&atilde;o de vulnerabilidade ao seu efeito. O ju&iacute;zo est&eacute;tico, nesse sentido,   se refere n&atilde;o propriamente a um objeto ou acontecimento, puramente, mas   ao sentimento que esse objeto ou acontecimento produz no sujeito. O interesse   reduz o objeto ou o acontecimento &agrave; sua condi&ccedil;&atilde;o de bem de consumo ou ve&iacute;culo   moral ou pe&ccedil;a de cole&ccedil;&atilde;o ou portador de uma mensagem, etc., impedindo-o   de tornar-se o disparador de algo que n&atilde;o seja aquilo a que foi destinado pelo   interesse.</p>     <p> A atitude est&eacute;tica, ent&atilde;o, diz respeito &agrave; abertura que o sujeito tem ante o   mundo. E essa atitude n&atilde;o se caracteriza <i>nem</i> por uma posi&ccedil;&atilde;o passiva <i>nem</i> ativa,   diante do objeto ou acontecimento, mas a uma <i>disponibilidade</i> que o sujeito   tem. N&atilde;o se trata <i>nem</i> de procurar submeter o objeto ou o acontecimento a um   certo esquema explicativo que poderia produzir um conceito, um ju&iacute;zo, uma defini&ccedil;&atilde;o   ou uma id&eacute;ia <i>nem</i> submeter-se a uma suposta ess&ecirc;ncia ou fundamento   que estivesse contida no objeto ou no acontecimento. Somos seres de encontro.   Como nos diz Ortega-y-Gasset, n&oacute;s somos n&oacute;s e nossa circunst&acirc;ncia; se n&atilde;o a   salvamos, n&atilde;o nos salvamos tamb&eacute;m a n&oacute;s. Portanto, n&atilde;o se pode polarizar a   atitude nem no sujeito <i>nem</i> no objeto. N&oacute;s nos constitu&iacute;mos e constitu&iacute;mos ao   mundo realizando composi&ccedil;&otilde;es e arranjamentos com a realidade circundante. A   realidade, aquilo que existe (seja concreta e materialmente, seja abstrata e conceitualmente) n&atilde;o &eacute; mera exterioridade, mas algo que me constitui tanto quanto   eu a constituo. Assim, n&atilde;o se trata de operarmos na dimens&atilde;o da racionalidade   que busca efetuar uma <i>domina&ccedil;&atilde;o</i>: n&atilde;o vou nem pretendo <i>dominar</i> a realidade   nem ser <i>dominado</i> por ela. N&atilde;o se trata de efetuar uma raz&atilde;o que apreende, possui,   define, nomeia, reduz ou entende a realidade. Trata-se, antes, de um <i>jogo</i> de m&uacute;tua interfer&ecirc;ncia, de composi&ccedil;&atilde;o de <i>possibilidades</i> que constituem sujeito   e mundo. Do encontro e do arranjo entre sujeito e objeto ou acontecimento   resulta algo que <i>ainda n&atilde;o</i> existia, resulta um efeito novo: um sentimento, um   gosto, um estado que apenas existia enquanto possibilidade, como porvir. Ao   entrar em jogo com o objeto ou o acontecimento, eles deixam de ser exteriores   ao sujeito e passam a constituir o <i>campo</i> da experi&ecirc;ncia. E &eacute; a&iacute; que come&ccedil;a a   cria&ccedil;&atilde;o, a experi&ecirc;ncia est&eacute;tica.</p>     <p> Podemos ter experi&ecirc;ncias est&eacute;ticas com rela&ccedil;&atilde;o a qualquer objeto ou acontecimento,   independentemente de ser arte ou n&atilde;o, de ser belo ou n&atilde;o, de existir   concretamente ou n&atilde;o. Qualquer coisa pode ser um objeto est&eacute;tico se estabelecemos   ante ele uma atitude est&eacute;tica. Podemos ter experi&ecirc;ncias est&eacute;ticas ao entrar   em jogo com uma m&uacute;sica erudita, uma m&uacute;sica popular, um som da natureza,   um ru&iacute;do urbano ou, mesmo, com o sil&ecirc;ncio. Podemos ter experi&ecirc;ncias est&eacute;ticas   com uma pintura cl&aacute;ssica, uma imagem sagrada, um desenho na parede de uma   caverna, uma fotografia, um filme, um desenho na areia do ch&atilde;o, uma paisagem,   uma cena urbana ou, mesmo, com uma imagem apenas imaginada ou sonhada.   Podemos ter experi&ecirc;ncias est&eacute;ticas sempre que adotamos uma atitude est&eacute;tica   ante qualquer objeto da consci&ecirc;ncia (Stolnitz, 1960: 49). Essa condi&ccedil;&atilde;o, entretanto,   nos coloca novamente diante de um dilema: a quest&atilde;o do rigor da experi&ecirc;ncia   est&eacute;tica. Se <i>tudo</i> pode ser objeto est&eacute;tico, se <i>qualquer</i> coisa pode s&ecirc;-lo,   qual &eacute; o crit&eacute;rio para falarmos em experi&ecirc;ncia est&eacute;tica?</p>     <p> Aqui nesse ponto, para dar conta de enfrentar essa quest&atilde;o, vou abordar a   experi&ecirc;ncia est&eacute;tica primeiro do ponto de vista daquele que <i>cria</i>, o artista e,   depois, do ponto de vista daquele que <i>frui</i>, o p&uacute;blico.</p>     <p> A atividade criadora do artista implica em algumas condi&ccedil;&otilde;es e, dentre elas,   destaco uma que considero b&aacute;sica: o dom&iacute;nio de uma linguagem, de uma t&eacute;cnica,   de uma mat&eacute;ria &eacute; condi&ccedil;&atilde;o de possibilidade para a cria&ccedil;&atilde;o. A cria&ccedil;&atilde;o n&atilde;o   &eacute; uma atividade espont&acirc;nea. O fato de ser <i>desinteressada</i> n&atilde;o pode fazer dela   uma abertura indefinida e incondicional. O <i>desinteresse</i> diz respeito &agrave; id&eacute;ia de   que n&atilde;o se trava uma rela&ccedil;&atilde;o de domina&ccedil;&atilde;o entre o sujeito artista e o mundo   que o cerca e o constitui, mas que entre eles se produz uma zona de pot&ecirc;ncia,   um campo de possibilidades, o porvir de uma nova realidade.</p>     <p> Quando se produz um arranjo entre sujeito e mundo (entendido o mundo   aqui como qualquer daquelas realidades &ndash; existentes ou n&atilde;o &ndash; a que me referi   logo acima: uma m&uacute;sica, o sil&ecirc;ncio, uma paisagem, uma cena, um sentimento,   um sonho) e esse arranjo gera um estado diferente, um potencial deslocamento   no modo de ser do sujeito, uma vertigem, um <i>embrulho no est&ocirc;mago</i>, estamos   falando do aparecimento do primeiro movimento de emerg&ecirc;ncia da obra de   arte. Uma experi&ecirc;ncia est&eacute;tica, nesses termos, se assemelha ao estado de esp&iacute;rito   daquele que se apaixona: no encontro com seu amado, se inaugura um tipo   de rela&ccedil;&atilde;o que n&atilde;o &eacute; de domina&ccedil;&atilde;o, mas de composi&ccedil;&atilde;o, de arranjo, que desloca   boa parte das refer&ecirc;ncias que at&eacute; ent&atilde;o o constitu&iacute;a e o projeta numa esp&eacute;cie   de abismo. &Eacute; aquele momento em que faltam palavras para dizer, para descrever.   Falta mat&eacute;ria racional para explicar o que est&aacute; se passando. <i>Algo</i> come&ccedil;a a   existir em mim que n&atilde;o consegue via de express&atilde;o ou comunica&ccedil;&atilde;o conhecida.   E esse <i>algo</i> me apela, me pede que o traga &agrave; exist&ecirc;ncia, pede um corpo, uma materialidade,   um substrato para existir. Ent&atilde;o, &eacute; com esse sentimento novo, esse <i>algo</i> que inicio um jogo compreensivo, uma dan&ccedil;a que tem como prop&oacute;sito n&atilde;o   o entendimento ou a explica&ccedil;&atilde;o, mas a compreens&atilde;o: a sensibilidade, a aten&ccedil;&atilde;o,   a percep&ccedil;&atilde;o disso que <i>por enquanto</i> &eacute; s&oacute; uma subst&acirc;ncia de conte&uacute;do, <i>ainda     sem</i> forma de express&atilde;o. Exercito a escuta perspicaz e meticulosa disso que me   assola e que ainda n&atilde;o tem nome. Perscruto isso que ainda &eacute; s&oacute; movimento, isso   que est&aacute; <i>pedindo</i> vida, pedindo exist&ecirc;ncia, pedindo express&atilde;o.</p>     <p> Dupla compet&ecirc;ncia se me exige, esse ponto. Compet&ecirc;ncia de compreens&atilde;o e   compet&ecirc;ncia de express&atilde;o.</p>     <p> A compet&ecirc;ncia da compreens&atilde;o adv&eacute;m da experi&ecirc;ncia e pode ser aqui entendida   como discernimento. <i>Discernimento</i>, segundo Gadamer, &eacute; mais que conhecimento,   &eacute; algo &quot;a que se chega&quot; (Gadamer, 2008: 466). O conte&uacute;do de verdade   que produzimos pela experi&ecirc;ncia, justamente por seu car&aacute;ter de realidade que   se efetuou, de experi&ecirc;ncia que efetivamente aconteceu, remete sempre para   novas experi&ecirc;ncias, ou seja, para todas as experi&ecirc;ncias que poderiam ter sido   efetuadas, para todas as verdades que poderiam ter sido geradas ali. Nesse sentido,   contrariando o senso comum, entendemos que experimentada &eacute; a pessoa   que, justamente por ter tido as experi&ecirc;ncias que teve, est&aacute; aberta a novas e   in&eacute;ditas experi&ecirc;ncias. Experimentado n&atilde;o &eacute; aquele que <i>sabe</i> mas, ao contr&aacute;rio,   aquele que est&aacute; aberto ao porvir, ao que <i>ainda n&atilde;o sabe</i>. O artista, nesse caso,   tem a compet&ecirc;ncia do discernimento porque sabe que aquilo que sabe &eacute; a evid&ecirc;ncia   do limite do seu conhecimento, &eacute; a evid&ecirc;ncia da sua finitude, da sua   m&iacute;nima posi&ccedil;&atilde;o na hist&oacute;ria e na realidade que o circunda e o circunscreve. O   artista pode ser entendido, nesse caso, como o menos dogm&aacute;tico poss&iacute;vel porque   teve tantas experi&ecirc;ncias e j&aacute; aprendeu tanto dessas tantas experi&ecirc;ncias que   isso o faz aberto e capacitado para voltar a ter experi&ecirc;ncias e com elas aprender   (Gadamer, 2008: 465). O discernimento oriundo da experi&ecirc;ncia nos possibilita   a evid&ecirc;ncia de que as coisas n&atilde;o s&atilde;o apenas como sup&uacute;nhamos em nossos exerc&iacute;cios   explicativos e, dessa maneira, que as coisas experimentadas n&atilde;o cabem   na mat&eacute;ria ou na forma expressiva tradicional. O discernimento, assim, &eacute; o que   nos d&aacute; a capacidade de compreender o que se passa, &eacute; a tomada de consci&ecirc;ncia   daquele <i>algo</i> que nos passa e para o qual ainda n&atilde;o temos palavras. O discernimento   &eacute;, ao mesmo tempo, um quase-saber e um al&eacute;m-saber, &eacute; um pressentimento,   &eacute; a faculdade que temos de conhecer pela nega&ccedil;&atilde;o: nos aproximamos <i>do     que &eacute;</i> pelo exerc&iacute;cio de discernir <i>o que n&atilde;o &eacute;</i>.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p> A outra compet&ecirc;ncia, da <i>express&atilde;o</i>, diz respeito &agrave; pr&aacute;tica. Ela &eacute; relativa ao   dom&iacute;nio t&eacute;cnico e instrumental da mat&eacute;ria e da linguagem que, operadas, v&atilde;o   dar subst&acirc;ncia e forma &agrave; express&atilde;o. Ela adv&eacute;m do estudo, do dom&iacute;nio, do conhecimento   e da pr&aacute;tica de uma determinada linguagem, de uma t&eacute;cnica e de   um material. Essa compet&ecirc;ncia diz respeito &agrave; capacidade pr&aacute;tica que um sujeito   tem para operar com uma linguagem (a poesia, a literatura, a m&uacute;sica, o desenho,   a pintura, a dan&ccedil;a, o teatro, a escultura, etc.), desenvolver um modo (romance,   novela, soneto, aquarela, &oacute;leo, m&uacute;sica tonal, atonal, modal, dan&ccedil;a cl&aacute;ssica,   folcl&oacute;rica, etc.), utilizar um material (a l&iacute;ngua, o som, a tinta, a pedra, o ferro,   o corpo, etc.), e manejar uma ferramenta, um instrumento (a gram&aacute;tica, um violino,   o l&aacute;pis, um pincel, a voz, a c&acirc;mera, enfim). Na medida em que aquele <i>algo</i> que emergiu na experi&ecirc;ncia est&eacute;tica <i>pede exist&ecirc;ncia</i>, &eacute; necess&aacute;rio dominar com   compet&ecirc;ncia alguma via de express&atilde;o. A cria&ccedil;&atilde;o somente ter&aacute; consist&ecirc;ncia se   ancorada em uma mat&eacute;ria expressiva operada com rigor.</p>     <p> A <i>livre-express&atilde;o </i>&eacute; um exemplo da opera&ccedil;&atilde;o impr&oacute;pria da mat&eacute;ria expressiva   quando o sujeito d&aacute; vaz&atilde;o &agrave; atividade criadora sem a necess&aacute;ria compet&ecirc;ncia   no trato do material ou da linguagem que emprega. Apoiado numa suposta espontaneidade,   ele mais faz <i>catarse</i> do que <i>cria</i>. Ainda que possamos aproximar   a catarse da cria&ccedil;&atilde;o, n&atilde;o &eacute; esse o prop&oacute;sito aqui: antes, pretendo evidenciar a   necessidade do rigor no processo de cria&ccedil;&atilde;o de uma obra de arte. Por exemplo,   um sujeito s&oacute; &eacute; capaz de <i>improvisar</i> em um campo no qual tenha um m&iacute;nimo de   compet&ecirc;ncia: s&oacute; posso improvisar uma m&uacute;sica ao viol&atilde;o se souber minimamente   tocar viol&atilde;o; s&oacute; posso improvisar uma comida se souber minimamente cozinhar.</p>     <p> Enfim, concluindo minha especula&ccedil;&atilde;o sobre a experi&ecirc;ncia est&eacute;tica do artista,   torno a me referir &agrave; experi&ecirc;ncia que ele tem com essa <i>quase-forma</i> que um   conte&uacute;do in&eacute;dito de sua exist&ecirc;ncia faz assomar nele e que o convoca a criar. O   artista fabrica a obra ao mesmo tempo em que &eacute; fabricado por ela. E &eacute; essa obra,   enquanto produto, que se d&aacute; a ver (ou ouvir ou presenciar ou assistir, etc.) para<br />   o p&uacute;blico.</p>     <p> Assim, chego ao segundo p&oacute;lo anunciado. No caso do p&uacute;blico, trato da experi&ecirc;ncia   est&eacute;tica com algumas varia&ccedil;&otilde;es. Igualmente, tomo como ponto de partida   a necess&aacute;ria atitude est&eacute;tica, ou seja, uma atitude de abertura desinteressada   ante os efeitos que a realidade de um objeto ou acontecimento podem produzir.</p>     <p> As obras de arte &ndash; sejam de que natureza forem &ndash; representam uma zona   de conflu&ecirc;ncia de possibilidades que foi trazida &agrave; vida pela opera&ccedil;&atilde;o de um   artista e, por isso, representam um campo de pot&ecirc;ncia ilimitado. Um objeto ou   acontecimento cultural ou art&iacute;stico n&atilde;o est&aacute; a&iacute; meramente para ser compreendido,   manejado ou dominado mas, ao contr&aacute;rio, para ser experimentado. E isso   significa que eles representam inst&acirc;ncias de convoca&ccedil;&atilde;o dos sujeitos, situa&ccedil;&otilde;es   de apelo ao jogo e &agrave; composi&ccedil;&atilde;o com o p&uacute;blico que voltar&aacute; a dar exist&ecirc;ncia &agrave;   sua materialidade. Um livro, por exemplo, &eacute; apenas um livro: um objeto material   com peso e dimens&otilde;es concretas que o torna meramente uma <i>coisa</i>. Mas, ao ser   aberto e lido, transforma-se, torna-se uma <i>ag&ecirc;ncia</i> de novos sentidos que colocam   em movimento o repert&oacute;rio e o universo daquele que l&ecirc;. Assim, qualquer   objeto art&iacute;stico ou cultural: todos s&atilde;o e cada um &eacute; nada muito mais do que um <i>amontoado</i> de algo material &ndash;papel, pedra, corpos, letras, notas, dados, cores,   etc. &ndash; at&eacute; que entrem em composi&ccedil;&atilde;o ou arranjo com um sujeito que estabele&ccedil;a   com eles uma rela&ccedil;&atilde;o est&eacute;tica e os transfigure em algo que eles apenas eram   em pot&ecirc;ncia. Todo objeto ou acontecimento &eacute; uma fonte inesgot&aacute;vel de possibilidades   que abarca um infinito de sentidos apesar de sua limita&ccedil;&atilde;o material.</p>     <p> Por isso, trata-se de propor a atitude est&eacute;tica como uma abertura desinteressada.   Movidos pelo interesse, nossa tend&ecirc;ncia &eacute; <i>dominar</i> (conceitual ou materialmente)   as realidades que nos cercam e, nesse del&iacute;rio de poder, nos furtamos   a possibilidade de sermos criativos. Entrar em jogo com um objeto ou acontecimento,   de outro modo, representa conceder-se a possibilidade de, num &uacute;nico   lance, configurar a experi&ecirc;ncia est&eacute;tica e ser configurado por ela. E aqui, da   mesma maneira, nos confrontamos com um dilema: se &eacute; poss&iacute;vel produzir experi&ecirc;ncias   est&eacute;ticas com qualquer coisa, qual &eacute; a medida do rigor que se coloca   para n&oacute;s?</p>     <p> &Eacute; bem verdade que podemos pensar na experi&ecirc;ncia est&eacute;tica que ocorre por <i>arrebatamento</i>, ou seja, que atropela o sujeito e o desloca radicalmente do campo   de racionalidade que o circunscrevia. Nesse sentido, lembro do que nos diz   Hilda Hilst sobre a pot&ecirc;ncia da poesia: &quot;Um poema &eacute; como um soco. E, se for   perfeito, te alimenta para toda a vida. Um soco certamente te acorda e, se for   em cheio, faz cair a tua m&aacute;scara, essa fr&iacute;vola, repugnante, empolada m&aacute;scara   que tentamos manter para atrair ou assustar&quot; (Hilst, 1998:53). Ou seja, podemos   pensar na experi&ecirc;ncia est&eacute;tica <i>involunt&aacute;ria</i>, que pega o sujeito de sopet&atilde;o,   no susto. Mas, antes, me importa tomar em quest&atilde;o a experi&ecirc;ncia intencional,   aquela para o qual o sujeito se <i>disp&otilde;e</i>. O mundo cultural e art&iacute;stico &eacute; constitu&iacute;do   com formas de racionalidade pr&oacute;prias que implicam formas de rigor espec&iacute;ficas.   Essas formas de racionalidade e rigor, por sua vez, s&oacute; podem ser experimentadas   quando se tem alguma compet&ecirc;ncia para saber ler, ouvir, viv&ecirc;-las. Saber   operar minimamente com as diferentes linguagens &eacute; uma condi&ccedil;&atilde;o de possibilidade   da experi&ecirc;ncia rigorosa. E, nesse sentido, a forma&ccedil;&atilde;o para a experi&ecirc;ncia   est&eacute;tica passa pela amplia&ccedil;&atilde;o da capacidade perceptiva, pela dota&ccedil;&atilde;o de uma   certa compet&ecirc;ncia nas diferentes linguagens que permitam, justamente pela   familiariza&ccedil;&atilde;o que se produz, uma suspens&atilde;o dos ju&iacute;zos explicativos, abrindo   espa&ccedil;o para a frui&ccedil;&atilde;o e a experi&ecirc;ncia desinteressada, para a abertura aos efeitos   que o objeto ou o acontecimento podem produzir. Se me atenho ao impulso   de <i>decifra&ccedil;&atilde;o</i> ou entendimento do objeto ou do acontecimento, torno a cair na   armadilha de tentar domin&aacute;-los sob uma certa forma de racionalidade, impedindo-me de sentir os efeitos que esteticamente podem produzir. Da mesma forma,   se me <i>entrego</i> &quot;livremente&quot; &agrave; experi&ecirc;ncia, tamb&eacute;m resvalo para o espontane&iacute;smo   cat&aacute;rtico e leviano que resultam da freq&uuml;ente falta de rigor. A produ&ccedil;&atilde;o de   sentidos que caracteriza a experi&ecirc;ncia est&eacute;tica &eacute; efeito do entrela&ccedil;amento, do   arranjamento que o sujeito faz com o objeto ou o acontecimento de maneira rigorosa,   ou seja, levadas em considera&ccedil;&atilde;o as possibilidades de compreens&atilde;o que   a experi&ecirc;ncia torna vi&aacute;vel. E esse rigor responde &agrave; compet&ecirc;ncia de perscrutar   meticulosa e minuciosamente os pormenores do objeto, alcan&ccedil;ando a sutileza   da perspic&aacute;cia que a discrimina&ccedil;&atilde;o e o discernimento conferem ao sujeito experimentado   que, como j&aacute; explorei acima, se constitui. O sujeito experimentado   &eacute; n&atilde;o dogm&aacute;tico e, por isso, consegue suspender seus preconceitos, clich&ecirc;s e   estere&oacute;tipos justamente porque a experi&ecirc;ncia o confronta sempre com sua finitude,   com a evid&ecirc;ncia do limite de sua interpreta&ccedil;&atilde;o. O que ele <i>pensa</i> sobre o   que sente &eacute; sempre apenas uma das inumer&aacute;veis possibilidades de <i>pensar</i> ou de <i>sentir</i>. A forma&ccedil;&atilde;o do p&uacute;blico, a forma&ccedil;&atilde;o do sujeito fruidor passa, assim, pela   amplia&ccedil;&atilde;o de sua capacidade perceptiva, no sentido de mostrar as armadilhas   da interpreta&ccedil;&atilde;o categ&oacute;rica e judicativa do gosto manique&iacute;sta (bom vs. mau,   bonito vs. feio, etc.) e instigar o exerc&iacute;cio da compreens&atilde;o como uma tomada de   aten&ccedil;&atilde;o sobre os efeitos que a experi&ecirc;ncia pode produzir. Significa compreender   que<i> n&atilde;o gostar</i> &eacute;, igualmente, uma forma de <i>gostar</i>. A forma&ccedil;&atilde;o do sujeito   fruidor consiste em explorar diferentes maneiras de compreender a experi&ecirc;ncia   est&eacute;tica, possibilitando uma abertura &agrave; diversidade de sentidos do mundo (ou   seja, de <i>formas de sentir</i> a realidade).</p>     <p> Ampliar o repert&oacute;rio cultural, ampliar o repert&oacute;rio de experi&ecirc;ncias representa,   assim, uma amplia&ccedil;&atilde;o da capacidade dos sujeitos orientarem sua percep&ccedil;&atilde;o   e compreens&atilde;o ante as infinitas possibilidades da exist&ecirc;ncia. Inspirado por Lucimar   Bello, ouso afirmar que a vida &ndash; como a arte &ndash;, n&atilde;o se define: a vida &ndash; e a   arte - &eacute; uma cole&ccedil;&atilde;o de exemplos. Nesse sentido, postulo a id&eacute;ia da experi&ecirc;ncia   est&eacute;tica como uma oportunidade de amplia&ccedil;&atilde;o, de desvelamento e de expans&atilde;o   da subjetividade na medida em que representa uma abertura para essa cole&ccedil;&atilde;o   de <i>exemplos</i>.</p>     <p> Vale abrir, para finalizar, uma breve mas nem por isso pouco importante digress&atilde;o.   Quero me referir &agrave; possibilidade da constitui&ccedil;&atilde;o da obra de arte a partir   da experi&ecirc;ncia est&eacute;tica com objetos ou acontecimentos n&atilde;o-art&iacute;sticos, ou   seja, n&atilde;o enquadrados nos c&acirc;nones do que se considera arte, seja em que esfera   for. E quero, nessa digress&atilde;o, me referir tanto &agrave; experi&ecirc;ncia do artista quanto &agrave;   do cr&iacute;tico quanto &agrave; do p&uacute;blico. Quero retomar aqui um aspecto que ficou pulsando   em diferentes momentos deste ensaio: o fato de podermos ter experi&ecirc;ncias   est&eacute;ticas com qualquer coisa.</p>     <p> Para demarcar a g&ecirc;nese dessa possibilidade, tomo a proposi&ccedil;&atilde;o de Marcel   Duchamp. Sua id&eacute;ia de<i> ready-made</i> representa justamente a possibilidade de   que qualquer objeto existente pode, ao ser deslocado de seu contexto, tornarse   disparador de uma experi&ecirc;ncia est&eacute;tica. Essa id&eacute;ia desloca radicalmente a   natureza da condi&ccedil;&atilde;o est&eacute;tica para a <i>atitude</i> que se pode ter diante do objeto.   Nessa medida, tanto o artista quanto o cr&iacute;tico ou o p&uacute;blico t&ecirc;m a prerrogativa de   transfigurar os objetos e os acontecimentos convertendo-os em objetos est&eacute;ticos.   Mais uma vez, o mesmo dilema: se tudo pode, qual o limite?</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p> Antonio C&iacute;cero nos lembra que assim como nas artes visuais o <i>ready-made</i> levou muitos artistas e cr&iacute;ticos de arte a considerarem obsoleta a arte de pintar   ou esculpir, na poesia ele levou muitos poetas e cr&iacute;ticos liter&aacute;rios a considerarem   obsoleta a arte de fazer poemas (C&iacute;cero, 2005: 107). Ora, se abdicarmos do   necess&aacute;rio rigor, tamb&eacute;m aqui ca&iacute;mos na inconsist&ecirc;ncia da experi&ecirc;ncia est&eacute;tica.   Temos que ter presente que o fato de ser poss&iacute;vel realizar experi&ecirc;ncias est&eacute;ticas   com<i> qualquer coisa</i> n&atilde;o significa que se trata da mesma <i>natureza</i> de experi&ecirc;ncia:   se somos capazes de ter uma experi&ecirc;ncia est&eacute;tica com o barulho do   vento ou com o sil&ecirc;ncio isso n&atilde;o significa que podemos prescindir da m&uacute;sica; se   somos capazes de realizar uma experi&ecirc;ncia est&eacute;tica com um trocadilho, um anagrama,   um trava-l&iacute;ngua, uma parlenda ou uma frase recortada a esmo, n&atilde;o significa   que podemos prescindir da poesia; se podemos realizar uma experi&ecirc;ncia   est&eacute;tica com o bater de uma onda do mar em nossos p&eacute;s ou com um p&ocirc;r-de-sol,   n&atilde;o significa que podemos prescindir da pintura ou do cinema. A experi&ecirc;ncia   que podemos ter com uma pe&ccedil;a de Bach, com uma m&uacute;sica de Luis Gonzaga, com   uma can&ccedil;&atilde;o infantil, com o canto de um p&aacute;ssaro ou com o ru&iacute;do de um trem n&atilde;o   t&ecirc;m o mesmo valor. Sim, todas podem constituir-se experi&ecirc;ncias est&eacute;ticas. Mas   &eacute; ineg&aacute;vel que h&aacute; uma grande diferen&ccedil;a de valor entre elas (ressalte-se que   essa diferen&ccedil;a n&atilde;o diz respeito a uma hierarquia &ndash; em que algo pode valer <i>mais</i> ou <i>menos</i> &ndash; mas que cada experi&ecirc;ncia inaugura ou diz respeito a uma ordem   singular e irredut&iacute;vel a qualquer outra!). Podemos captar e experimentar esteticamente <i>qualquer coisa</i>, sim. E essas experi&ecirc;ncias sempre apresentam um grande   potencial formativo para os sujeitos nelas implicados. Porque a experi&ecirc;ncia   consiste, justamente, no deslocamento que se sofre da forma tradicional de racionalidade   que nos circunscreve, nos colocando diante do in&eacute;dito, da novidade   da interpreta&ccedil;&atilde;o. O fato de termos produzido uma interpreta&ccedil;&atilde;o a partir de uma   experi&ecirc;ncia &eacute; a evid&ecirc;ncia de que cada um que experimente o que experimentamos   poder&aacute; produzir outra interpreta&ccedil;&atilde;o. Ademais, se chegamos a produzir <i>uma</i> interpreta&ccedil;&atilde;o, &eacute; porque <i>infinitas</i> outras interpreta&ccedil;&otilde;es permanecem como   interpreta&ccedil;&otilde;es poss&iacute;veis.</p>     <p> Assim, ante o mundo, temos a permanente e infind&aacute;vel possibilidade de   transfigurar a realidade e sermos transfigurados por ela: Marcel Duchamp transfigura   a realidade quando desloca o urinol ou a roda de bicicleta para uma exposi&ccedil;&atilde;o;   Nuno Ramos transfigura a realidade quando exp&otilde;e tr&ecirc;s urubus vivos   na instala&ccedil;&atilde;o Bandeira Branca, na 29a Bienal de S&atilde;o Paulo; Frederico Moraes   transfigura a realidade quando desloca os bordados e as cole&ccedil;&otilde;es de Arthur Bispo   do Ros&aacute;rio para uma galeria; Fausto Fawcett transfigura a realidade quando   brinca com o anagrama Caroline Dickman &ndash; Nicole Kidman no poema &quot;A f&ecirc;mea   camafeu&quot;; uma crian&ccedil;a transfigura a realidade quando monta num cabo de vassoura   e sai cavalgando; um sujeito transfigura a realidade quando chora ante a   vis&atilde;o do mar ou quando escuta uma sonata; um amante apaixonado transfigura   a realidade quando, ante a insufici&ecirc;ncia das palavras, faz sil&ecirc;ncio ou grita ou   beija ou abra&ccedil;a.</p>     <p> A medida do rigor, nesse caso, est&aacute; no entendimento da <i>intradutibilidade</i> do   conte&uacute;do da experi&ecirc;ncia est&eacute;tica, ou seja, na impossibilidade daquele algo que   se produz no sujeito que experimenta esteticamente a realidade ser traduzido   em alguma linguagem ou forma de racionalidade conhecida. Por ser intraduz&iacute;vel,   a forma de express&atilde;o que vai dar concretude ao conte&uacute;do da experi&ecirc;ncia   est&eacute;tica precisa ser inventada. Uma imagem que bem representa essa situa&ccedil;&atilde;o,   a meu ver, &eacute; a id&eacute;ia do abismo. Como nos sugere Chantal Maillard, a experi&ecirc;ncia   da cria&ccedil;&atilde;o e a experi&ecirc;ncia est&eacute;tica se assemelham a ser projetada em um abismo:   tudo come&ccedil;a quando o mundo acaba. A experi&ecirc;ncia est&eacute;tica inicia quando   tudo o que sei e tudo o que tenho sido j&aacute; n&atilde;o bastam e o mundo apela por ser   inventado. Ali onde, para as formas tradicionais de racionalidade, &eacute; o fim-domundo,   porque n&atilde;o h&aacute; palavras, n&atilde;o h&aacute; forma poss&iacute;vel de express&atilde;o, n&atilde;o h&aacute;   mais explica&ccedil;&atilde;o, quando a gente <i>n&atilde;o entende mais nada</i>, ali onde<i> o mundo acaba</i> &eacute; que come&ccedil;a o percurso e o processo de cria&ccedil;&atilde;o (Maillard, 1998: 252). Tratase   de aprender uma outra forma de racionalidade, a raz&atilde;o est&eacute;tica: aprender a   viver conscientes das fic&ccedil;&otilde;es que criamos; aprender a palpar o vazio &ndash; n&atilde;o o   vazio como aus&ecirc;ncia, desaparecimento, fim ou morte de algo, mas, ao contr&aacute;rio,   como <i>origem</i>, como porvir, como um perp&eacute;tuo n&atilde;o-ser-mais ao lado de um n&atilde;o ser-ainda, um n&atilde;o-ser-isso ou um n&atilde;o-ser-eu ao lado de um ser-quase.</p>     <p>Os efeitos da experi&ecirc;ncia est&eacute;tica &ndash; os valores, os sentimentos, os gostos,   os ju&iacute;zos, as representa&ccedil;&otilde;es, as categorias &ndash; s&atilde;o as modalidades das experi&ecirc;ncias   que v&atilde;o se modificando com a pr&oacute;pria hist&oacute;ria, cujo n&uacute;cleo &eacute; sempre essa   estranha satisfa&ccedil;&atilde;o que resulta do reconhecimento da capacidade de construir,   de produzir sentidos que, quando a gente experimenta, ao mesmo tempo est&aacute;   construindo e produzindo a gente mesmo (Maillard, 1998: 254). A raz&atilde;o est&eacute;tica   habilita o sujeito para que se construam mundos n&atilde;o apenas a partir de e sobre   esquemas referenciais, mas, igualmente, a partir de e sobre a experi&ecirc;ncia da   presentifica&ccedil;&atilde;o do que existe, do ser-a&iacute;, da hist&oacute;ria efeitual e da desrealiza&ccedil;&atilde;o   dos limites estabelecidos pelas formas tradicionais de racionalidade. Novamente,   reitero a id&eacute;ia de que <i>o que existe</i> n&atilde;o &eacute; pass&iacute;vel de aprisionamento em uma   defini&ccedil;&atilde;o, mas, de outro modo, <i>o que existe</i> &eacute; uma cole&ccedil;&atilde;o incomensur&aacute;vel de   exemplos. Cada sujeito &ndash; personagem da ficc&ccedil;&atilde;o, da mem&oacute;ria ou do presente &ndash;   representa uma forma de subjetiva&ccedil;&atilde;o poss&iacute;vel.</p>     <p> Enfim. Concluo esta reflex&atilde;o, esta provoca&ccedil;&atilde;o com algumas cita&ccedil;&otilde;es que h&aacute;<br />   muito me acompanham:</p>     <blockquote>&quot;O que &eacute; o belo, sen&atilde;o um grau suport&aacute;vel do terr&iacute;vel?&quot; (Rainer Maria Rilke,   Primeira Elegia &ndash; grifo meu)</blockquote>     <blockquote>&quot;Vai, vai, vai, disse o p&aacute;ssaro. O g&ecirc;nero humano n&atilde;o pode suportar tanta   realidade. O tempo passado e o tempo futuro, o que poderia ter sido e o que   foi, convergem para um s&oacute; fim, que &eacute; sempre presente.&quot; (T.S. Eliot, Burnt   Norton &ndash; grifo meu)</blockquote>     <blockquote>&quot;A realidade sempre &eacute; mais ou menos do que n&oacute;s queremos.&quot; (Fernando   Pessoa &ndash; grifo meu)</blockquote>     <p> E, por fim,</p>     <blockquote>&quot;No puedo hablar con mi voz, sino con mis voces.&quot; (Alejandra Pizarnik &ndash;   grifo meu)</blockquote>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>     <p><b> Refer&ecirc;ncias Bibliogr&aacute;ficas</b></p>     <!-- ref --><p> C&iacute;cero, A. (2005). Finalidades sem fim: ensaios sobre poesia e arte. S&atilde;o Paulo: Companhia das   Letras.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000055&pid=S1645-7250201100020000800001&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p> Eliot, T.S. (1981). Quatro Quartetos/Burnt Norton em Poesia. (tradu&ccedil;&atilde;o Ivan Junqueira). 3.ed. Rio   de Janeiro: Nova Fronteira.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000057&pid=S1645-7250201100020000800002&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p> Fawcett, F. (2000). A f&ecirc;mea camafeu no pa&iacute;s dos danados em CEP 20.000: o celeiro do underground   carioca, Revista Trip, 83, 11-22.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000059&pid=S1645-7250201100020000800003&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <p> Gadamer, H.G. (2008). Verdade e M&eacute;todo I &ndash; tra&ccedil;os fundamentais de uma hermen&ecirc;utica filos&oacute;fica.   Petr&oacute;polis: Vozes.</p>     <!-- ref --><p> Hilst, H. (1998). Cascos e car&iacute;cias. S&atilde;o Paulo: Nankin.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000062&pid=S1645-7250201100020000800005&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p> Kant, I. (1993). Cr&iacute;tica da faculdade do ju&iacute;zo. Rio de Janeiro: Forense Universit&aacute;ria (1&ordf; ed.1793).    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000064&pid=S1645-7250201100020000800006&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p> Maillard, C. (1998). La raz&oacute;n est&eacute;tica. Barcelona: Ed. Laertes.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000066&pid=S1645-7250201100020000800007&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p> Pessoa, F. (2006). Odes de Ricardo Reis. Porto Alegre, L&amp;PM.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000068&pid=S1645-7250201100020000800008&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p> Pizarnik, A. (1993). Obras Completas. Buenos Aires: Corregidor.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000070&pid=S1645-7250201100020000800009&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p> Rilke, R.-M. (1988). Elegias do Du&iacute;no. Porto Alegre: Globo.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000072&pid=S1645-7250201100020000800010&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p> Stolniz, J. (1960). Aesthetics and the Philosophy of Art Criticism. Boston: Houghton Mifflin.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000074&pid=S1645-7250201100020000800011&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p> Wilde, O. (2000). Pref&aacute;cio em O Retrato de Dorian Gray (1891). Rio de Janeiro: Civiliza&ccedil;&atilde;o Brasileira.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000076&pid=S1645-7250201100020000800012&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>      ]]></body><back>
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