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<kwd lng="pt"><![CDATA[estética]]></kwd>
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<kwd lng="pt"><![CDATA[subjetivação]]></kwd>
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</front><body><![CDATA[ <p><b>Contribui&ccedil;&otilde;es para   entender a experi&ecirc;ncia   est&eacute;tica</b></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>Marcos Villela Pereira<sup>*</sup></b></p>     <p><sup>*</sup>Licenciado em Filosofia, Doutor em Educa&ccedil;&atilde;o, Pesquisador do CNPq.   Professor Titular do Programa de P&oacute;s-Gradua&ccedil;&atilde;o em Educa&ccedil;&atilde;o da PUCRS.<br />   <a href="mailto:marcos.villela@yahoo.com.br">marcos.villela@yahoo.com.br</a></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>Resumo</b></p>     <p> Este trabalho coloca em an&aacute;lise algumas concep&ccedil;&otilde;es sobre arte, obra de arte,   atitude est&eacute;tica e experi&ecirc;ncia est&eacute;tica com o intuito de propor o exerc&iacute;cio da   racionalidade est&eacute;tica como uma amplia&ccedil;&atilde;o da capacidade dos sujeitos para   orientar sua percep&ccedil;&atilde;o e compreens&atilde;o ante as infinitas possibilidades da exist&ecirc;ncia.   A raz&atilde;o est&eacute;tica habilita o sujeito para que se concebam mundos n&atilde;o   apenas a partir de e/ou sobre esquemas referenciais, mas, a partir de e sobre a   experi&ecirc;ncia da presentifica&ccedil;&atilde;o do que existe, do ser-a&iacute;, da hist&oacute;ria efeitual e   da desrealiza&ccedil;&atilde;o dos limites estabelecidos pelas formas tradicionais de racionalidade.   Postulo a id&eacute;ia da experi&ecirc;ncia est&eacute;tica como uma oportunidade de   amplia&ccedil;&atilde;o, de desvelamento e de expans&atilde;o da subjetividade na medida que   representa uma abertura para a cole&ccedil;&atilde;o de exemplos que s&atilde;o a arte e a vida. A   atitude est&eacute;tica &eacute; uma atitude desinteressada, &eacute; uma abertura, uma disponibilidade   n&atilde;o tanto para a coisa ou o acontecimento &quot;em si&quot;, naquilo que ele tem   de consist&ecirc;ncia, mas para os efeitos que ele pode produzir.</p>     <p><b>Palavras-chave:</b> est&eacute;tica; experi&ecirc;ncia; arte; subjetiva&ccedil;&atilde;o.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>Introdu&ccedil;&atilde;o</b></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Pretendo apresentar algumas id&eacute;ias e reflex&otilde;es que, mais do que apontar   caminhos, permitam ampliar a discuss&atilde;o acerca do significado e do sentido do   trabalho com as artes nas fronteiras do campo da educa&ccedil;&atilde;o. Mais especificamente,   minha id&eacute;ia &eacute; contribuir com alguns temas bastante caros &agrave; forma&ccedil;&atilde;o de   professores de arte. Mais especificamente, pretendo ensaiar um confronto do   tema do <i>rigor</i> na experi&ecirc;ncia est&eacute;tica, colocando em an&aacute;lise algumas concep&ccedil;&otilde;es   sobre arte, obra de arte, atitude est&eacute;tica e experi&ecirc;ncia est&eacute;tica.</p>     <p> Tomo como ponto de partida uma id&eacute;ia bastante comum: a impossibilidade   de defini&ccedil;&atilde;o un&iacute;voca da arte. Ao longo da hist&oacute;ria da humanidade temos presenciado   calorosos debates sobre esse tema, sem nunca alcan&ccedil;armos um conceito   universal que silenciasse essa pergunta. Na antig&uuml;idade, o campo da arte   circundava as no&ccedil;&otilde;es de imita&ccedil;&atilde;o e beleza, passando pela sua utiliza&ccedil;&atilde;o como   elemento decorativo. No auge da modernidade cl&aacute;ssica, a arte aproximou-se da   sublima&ccedil;&atilde;o, do sublime. Na contemporaneidade, aderida antes ao conceito do   que ao seu conte&uacute;do expressivo estrito, a id&eacute;ia de arte se ampliou e ultrapassou   os limites da inteligibilidade. Alcan&ccedil;ou-se o patamar em que tratamos de diferentes   formas de racionalidade em situa&ccedil;&atilde;o de simultaneidade e conting&ecirc;ncia   e, portanto, caem por terra as iniciativas de circunscrever a arte &agrave;s formas mais   tradicionais ou universais de racionaliza&ccedil;&atilde;o.</p>     <p> Tamb&eacute;m vale dizer que j&aacute; n&atilde;o se trata de perseguirmos alguma id&eacute;ia de <i>beleza</i> como par&acirc;metro. Tamb&eacute;m o belo, ao longo da hist&oacute;ria do pensamento, foi   deslocado dos c&acirc;nones que, pretensiosos e reducionistas, buscaram fixar seu   significado. No come&ccedil;o, belo era o que imitava a realidade vis&iacute;vel, era o que   correspondia &agrave; repeti&ccedil;&atilde;o do paradigma naturalista e realista de representa&ccedil;&atilde;o.   Depois, o belo passou a ser tomado como sublima&ccedil;&atilde;o, como efeito tang&iacute;vel do   sentimento oriundo da rela&ccedil;&atilde;o que nossa raz&atilde;o pura estabelecia com o mundo.   Mais tarde, o belo passou a ser um valor subjetivo, um sentimento singular proveniente   de uma experi&ecirc;ncia &uacute;nica e individual que o sujeito tinha do mundo.   Ou seja, assim como se passa com a arte, o belo foi deslocado do campo de poss&iacute;veis   estabelecido pelas formas tradicionais ou universais de racionalidade.</p>     <p> Por fim, podemos tentar perguntar pela <i>utilidade</i> da arte. Da mesma forma,   veremos uma s&eacute;rie de deslocamentos ao longo da hist&oacute;ria. No come&ccedil;o, a arte   tinha por objetivo aproximar o homem do universo transcendente das divindades,   dos deuses, do sobrenatural. Tamb&eacute;m podemos identificar, em algumas   civiliza&ccedil;&otilde;es, a arte com fins decorativos. Sob outro enfoque, podemos ver a arte   assumir fins expressivos, comunicativos e representativos: a obra de arte pode <i>expressar</i> algo quando ela &eacute; a materializa&ccedil;&atilde;o ou a vivifica&ccedil;&atilde;o de uma id&eacute;ia ou   sentimento que apela ao seu criador para alcan&ccedil;ar a exist&ecirc;ncia; a arte pode <i>comunicar</i> algo quando sua materialidade &eacute; portadora de um conte&uacute;do, quando   ela veicula uma id&eacute;ia, uma inten&ccedil;&atilde;o, uma mensagem moral ou pol&iacute;tica; a arte   pode <i>representar</i> algo quando, articulando sua potencialidade expressiva e comunicativa, <i>significa</i> algo, quando sua exist&ecirc;ncia remete a algo que n&atilde;o est&aacute; ali.   Enfim, em termos de atribui&ccedil;&atilde;o de utilidade, chegamos ao que nos diz Oscar   Wilde, em 1891, no Pref&aacute;cio ao seu <i>Retrato de Dorian Gray</i> (Wilde, 2000:17):  &quot;toda arte &eacute; perfeitamente in&uacute;til&quot;. Ou seja, alcan&ccedil;amos a id&eacute;ia de que a arte   n&atilde;o <i>serve</i> para nada. Ali&aacute;s, para explorar um pouco mais essa concep&ccedil;&atilde;o, me   detenho um pouco mais no que diz esse autor. Segundo ele, &quot;revelar a arte e   ocultar o artista &eacute; a finalidade da arte&quot; (Wilde, 2000:17). Com essa id&eacute;ia ele   inaugura a vis&atilde;o contempor&acirc;nea da dimens&atilde;o <i>conceitual</i> da arte e proporciona a   compreens&atilde;o da experi&ecirc;ncia com a obra de arte como uma experi&ecirc;ncia singular   e subjetiva que pode bem ser individual ou coletiva, mas que definitivamente   vai na dire&ccedil;&atilde;o da singularidade. E a singularidade, nesse caso, tanto pode ser   a do artista quanto a do cr&iacute;tico ou, ainda, do espectador. &Eacute; arte o que eu digo   que &eacute; arte. &Eacute; arte o que eu fa&ccedil;o ser arte. &Eacute; arte o que eu torno arte. E, em &uacute;ltima   an&aacute;lise, ela serve para produzir <i>efeitos de sentido</i> no criador, no cr&iacute;tico e no   p&uacute;blico. Ou seja, a arte existe para produzir diferen&ccedil;a no artista, no cr&iacute;tico e no   p&uacute;blico &ndash; n&atilde;o vindo ao caso, nesta circunst&acirc;ncia, o ju&iacute;zo de valor sobre se essa &eacute;   uma diferen&ccedil;a <i>para o bem</i> ou <i>para o mal</i>, j&aacute; que falamos aqui de singularidades.</p>     <p> Enfim, para esse autor &quot;toda arte &eacute;, ao mesmo tempo, superf&iacute;cie e s&iacute;mbolo.   Os que buscam sob a superf&iacute;cie fazem-no por seu pr&oacute;prio risco. Os que procuram   decifrar o s&iacute;mbolo correm tamb&eacute;m seu pr&oacute;prio risco. Na realidade, a arte   reflete o espectador e n&atilde;o a vida&quot; (Wilde, 2000:17).</p>     <p> Ou seja, n&atilde;o se trata de buscarmos decifrar a obra de arte como se houvesse   nela um conte&uacute;do essencial ou fundamental que devesse ser descoberto e revelado.   O esfor&ccedil;o pelo entendimento do que seja uma <i>obra de arte</i> como ess&ecirc;ncia   universal tamb&eacute;m cai por terra, sucumbindo &agrave; impossibilidade de circunscri&ccedil;&atilde;o   estanque em <i>uma</i> ou <i>outra</i> forma de racionalidade. O que nos resta, assim, &eacute;   pautarmos nossa discuss&atilde;o pelas formas de opera&ccedil;&atilde;o, uso, experi&ecirc;ncia e entendimento   da obra de arte, procurando desviar a resposta da captura reducionista   da defini&ccedil;&atilde;o, da classifica&ccedil;&atilde;o ou do julgamento. Ao contr&aacute;rio de perguntar o que   &eacute; arte ou se isso &eacute; uma obra de arte, vale tomar em quest&atilde;o a experi&ecirc;ncia de algum   objeto, situa&ccedil;&atilde;o, acontecimento ou processo <i>naquilo que ele tem em termos     de potencial art&iacute;stico</i>, ou seja, naquilo que o configura como um acontecimento   est&eacute;tico.</p>     <p> O risco de adentrarmos demasiadamente nessa regi&atilde;o especulativa &eacute; sermos   a&iacute; capturados pelo vazio inconsistente da id&eacute;ia de que, se <i>nada</i> &eacute; arte, ent&atilde;o <i>tudo</i> &eacute; arte. O risco &eacute; vacilarmos na sedu&ccedil;&atilde;o que essa relativiza&ccedil;&atilde;o provoca e   fazermos desse relativo um absoluto. Por isso, me importa adentrar um pouco   mais em algumas pondera&ccedil;&otilde;es.</p>     <p> Come&ccedil;o, aqui, pelo estabelecimento de uma condi&ccedil;&atilde;o de possibilidade para a   experi&ecirc;ncia est&eacute;tica: a <i>atitude</i> est&eacute;tica. Para que se possa viver uma experi&ecirc;ncia   est&eacute;tica, antes de tudo, &eacute; preciso assumir uma atitude est&eacute;tica, ou seja, assumir   uma <i>posi&ccedil;&atilde;o</i>, uma postura que constitua e configure a nossa percep&ccedil;&atilde;o. N&atilde;o   como uma intencionalidade, uma premedita&ccedil;&atilde;o, uma antecipa&ccedil;&atilde;o racional do que   est&aacute; por vir, mas como uma disposi&ccedil;&atilde;o contingente, uma abertura circunstancial   ao mundo. A premedita&ccedil;&atilde;o &eacute; da ordem da atitude <i>pr&aacute;tica</i>, utilit&aacute;ria, funcional, &eacute;   quando nos dirigimos para o mundo com vista a determinados fins, considerando   as coisas e os acontecimentos como <i>meios &uacute;teis</i> para atingir um fim.</p>     <p> A atitude est&eacute;tica &eacute; uma atitude <i>desinteressada</i>, &eacute; uma abertura, uma disponibilidade   n&atilde;o tanto para a coisa ou o acontecimento &quot;em si&quot;, naquilo que   ele tem de consist&ecirc;ncia, mas para os efeitos que ele produz em mim, na minha   percep&ccedil;&atilde;o, no meu sentimento. Tomo, aqui, o que postula Kant acerca do ju&iacute;zo   est&eacute;tico. Segundo ele, quando apreciamos esteticamente, n&atilde;o se trata de simpatizar   ou n&atilde;o com a exist&ecirc;ncia da coisa, tampouco importa algo da sua exist&ecirc;ncia,   em termos daquilo que nos pode dizer o <i>entendimento</i> ou a explica&ccedil;&atilde;o (Kant,   1993: 49-50). Diferente disso, trata-se de contemplar ativamente a coisa, ou   seja, atentar para o sentimento que a experi&ecirc;ncia da coisa produz em mim. O <i>desinteresse</i> reside na suspens&atilde;o dos ju&iacute;zos explicativos que o sujeito poderia   proferir ante a coisa ou o acontecimento que vive, de modo que possa colocarse   em uma posi&ccedil;&atilde;o de vulnerabilidade ao seu efeito. O ju&iacute;zo est&eacute;tico, nesse sentido,   se refere n&atilde;o propriamente a um objeto ou acontecimento, puramente, mas   ao sentimento que esse objeto ou acontecimento produz no sujeito. O interesse   reduz o objeto ou o acontecimento &agrave; sua condi&ccedil;&atilde;o de bem de consumo ou ve&iacute;culo   moral ou pe&ccedil;a de cole&ccedil;&atilde;o ou portador de uma mensagem, etc., impedindo-o   de tornar-se o disparador de algo que n&atilde;o seja aquilo a que foi destinado pelo   interesse.</p>     <p> A atitude est&eacute;tica, ent&atilde;o, diz respeito &agrave; abertura que o sujeito tem ante o<br />   mundo. E essa atitude n&atilde;o se caracteriza <i>nem</i> por uma posi&ccedil;&atilde;o passiva <i>nem</i> ativa,diante do objeto ou acontecimento, mas a uma <i>disponibilidade</i> que o sujeito   tem. N&atilde;o se trata <i>nem</i> de procurar submeter o objeto ou o acontecimento a um   certo esquema explicativo que poderia produzir um conceito, um ju&iacute;zo, uma defini&ccedil;&atilde;o   ou uma id&eacute;ia <i>nem</i> submeter-se a uma suposta ess&ecirc;ncia ou fundamento   que estivesse contida no objeto ou no acontecimento. Somos seres de <i>encontro</i>.   Como nos diz Ortega-y-Gasset, n&oacute;s somos n&oacute;s e nossa circunst&acirc;ncia; se n&atilde;o a   salvamos, n&atilde;o nos salvamos tamb&eacute;m a n&oacute;s. Portanto, n&atilde;o se pode polarizar a   atitude <i>nem</i> no sujeito <i>nem</i> no objeto. N&oacute;s nos constitu&iacute;mos e constitu&iacute;mos ao   mundo realizando composi&ccedil;&otilde;es e arranjamentos com a realidade circundante. A   realidade, aquilo que existe (seja concreta e materialmente, seja abstrata e conceitualmente) n&atilde;o &eacute; mera exterioridade, mas algo que me constitui tanto quanto   eu a constituo. Assim, n&atilde;o se trata de operarmos na dimens&atilde;o da racionalidade   que busca efetuar uma <i>domina&ccedil;&atilde;o</i>: n&atilde;o vou nem pretendo <i>dominar</i> a realidade   nem ser <i>dominado</i> por ela. N&atilde;o se trata de efetuar uma raz&atilde;o que apreende, possui,   define, nomeia, reduz ou entende a realidade. Trata-se, antes, de um <i>jogo</i> de m&uacute;tua interfer&ecirc;ncia, de composi&ccedil;&atilde;o de <i>possibilidades</i> que constituem sujeito   e mundo. Do encontro e do arranjo entre sujeito e objeto ou acontecimento   resulta algo que <i>ainda n&atilde;o</i> existia, resulta um efeito novo: um sentimento, um   gosto, um estado que apenas existia enquanto possibilidade, como porvir. Ao   entrar em jogo com o objeto ou o acontecimento, eles deixam de ser exteriores   ao sujeito e passam a constituir o <i>campo</i> da experi&ecirc;ncia. E &eacute; a&iacute; que come&ccedil;a a   cria&ccedil;&atilde;o, a experi&ecirc;ncia est&eacute;tica.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p> Podemos ter experi&ecirc;ncias est&eacute;ticas com rela&ccedil;&atilde;o a qualquer objeto ou acontecimento,   independentemente de ser arte ou n&atilde;o, de ser belo ou n&atilde;o, de existir   concretamente ou n&atilde;o. Qualquer coisa pode ser um objeto est&eacute;tico se estabelecemos   ante ele uma atitude est&eacute;tica. Podemos ter experi&ecirc;ncias est&eacute;ticas ao entrar   em jogo com uma m&uacute;sica erudita, uma m&uacute;sica popular, um som da natureza,   um ru&iacute;do urbano ou, mesmo, com o sil&ecirc;ncio. Podemos ter experi&ecirc;ncias est&eacute;ticas   com uma pintura cl&aacute;ssica, uma imagem sagrada, um desenho na parede de uma   caverna, uma fotografia, um filme, um desenho na areia do ch&atilde;o, uma paisagem,   uma cena urbana ou, mesmo, com uma imagem apenas imaginada ou sonhada.   Podemos ter experi&ecirc;ncias est&eacute;ticas sempre que adotamos uma atitude est&eacute;tica   ante qualquer objeto da consci&ecirc;ncia (Stolnitz, 1960: 49). Essa condi&ccedil;&atilde;o, entretanto,   nos coloca novamente diante de um dilema: a quest&atilde;o do rigor da experi&ecirc;ncia   est&eacute;tica. Se <i>tudo</i> pode ser objeto est&eacute;tico, <i>se qualquer</i> coisa pode s&ecirc;-lo,   qual &eacute; o crit&eacute;rio para falarmos em experi&ecirc;ncia est&eacute;tica?</p>     <p> Aqui nesse ponto, para dar conta de enfrentar essa quest&atilde;o, vou abordar a   experi&ecirc;ncia est&eacute;tica primeiro do ponto de vista daquele que <i>cria</i>, o artista e,   depois, do ponto de vista daquele que <i>frui</i>, o p&uacute;blico.</p>     <p> A atividade criadora do artista implica em algumas condi&ccedil;&otilde;es e, dentre elas,   destaco uma que considero b&aacute;sica: o dom&iacute;nio de uma linguagem, de uma t&eacute;cnica,   de uma mat&eacute;ria &eacute; condi&ccedil;&atilde;o de possibilidade para a cria&ccedil;&atilde;o. A cria&ccedil;&atilde;o n&atilde;o   &eacute; uma atividade espont&acirc;nea. O fato de ser <i>desinteressada</i> n&atilde;o pode fazer dela   uma abertura indefinida e incondicional. O <i>desinteresse</i> diz respeito &agrave; id&eacute;ia de   que n&atilde;o se trava uma rela&ccedil;&atilde;o de domina&ccedil;&atilde;o entre o sujeito artista e o mundo   que o cerca e o constitui, mas que entre eles se produz uma zona de pot&ecirc;ncia,   um campo de possibilidades, o porvir de uma nova realidade.</p>     <p> Quando se produz um arranjo entre sujeito e mundo (entendido o mundo   aqui como qualquer daquelas realidades &ndash; existentes ou n&atilde;o &ndash; a que me referi   logo acima: uma m&uacute;sica, o sil&ecirc;ncio, uma paisagem, uma cena, um sentimento,   um sonho) e esse arranjo gera um estado diferente, um potencial deslocamento   no modo de ser do sujeito, uma vertigem, um <i>embrulho no est&ocirc;mago</i>, estamos   falando do aparecimento do primeiro movimento de emerg&ecirc;ncia da obra de   arte. Uma experi&ecirc;ncia est&eacute;tica, nesses termos, se assemelha ao estado de esp&iacute;rito   daquele que se apaixona: no encontro com seu amado, se inaugura um tipo   de rela&ccedil;&atilde;o que n&atilde;o &eacute; de domina&ccedil;&atilde;o, mas de composi&ccedil;&atilde;o, de arranjo, que desloca   boa parte das refer&ecirc;ncias que at&eacute; ent&atilde;o o constitu&iacute;a e o projeta numa esp&eacute;cie   de abismo. &Eacute; aquele momento em que faltam palavras para dizer, para descrever.   Falta mat&eacute;ria racional para explicar o que est&aacute; se passando. <i>Algo</i> come&ccedil;a a   existir em mim que n&atilde;o consegue via de express&atilde;o ou comunica&ccedil;&atilde;o conhecida.   E esse <i>algo</i> me apela, me pede que o traga &agrave; exist&ecirc;ncia, pede um corpo, uma materialidade,   um substrato para existir. Ent&atilde;o, &eacute; com esse sentimento novo, esse   algo que inicio um jogo compreensivo, uma dan&ccedil;a que tem como prop&oacute;sito n&atilde;o   o entendimento ou a explica&ccedil;&atilde;o, mas a compreens&atilde;o: a sensibilidade, a aten&ccedil;&atilde;o,   a percep&ccedil;&atilde;o disso que por enquanto &eacute; s&oacute; uma subst&acirc;ncia de conte&uacute;do, <i>ainda     sem</i> forma de express&atilde;o. Exercito a escuta perspicaz e meticulosa <i>disso</i> que me   assola e que ainda n&atilde;o tem nome. Perscruto isso que ainda &eacute; s&oacute; movimento, isso   que est&aacute; pedindo vida, <i>pedindo</i> exist&ecirc;ncia, pedindo express&atilde;o.</p>     <p> Dupla compet&ecirc;ncia se me exige, esse ponto. Compet&ecirc;ncia de <i>compreens&atilde;o</i> e   compet&ecirc;ncia de <i>express&atilde;o</i>.</p>     <p> A compet&ecirc;ncia da compreens&atilde;o adv&eacute;m da experi&ecirc;ncia e pode ser aqui entendida   como discernimento. <i>Discernimento</i>, segundo Gadamer, &eacute; mais que conhecimento,   &eacute; algo &quot;a que se chega&quot; (Gadamer, 2008: 466). O conte&uacute;do de verdade   que produzimos pela experi&ecirc;ncia, justamente por seu car&aacute;ter de realidade que   se efetuou, de experi&ecirc;ncia que efetivamente aconteceu, remete sempre para   novas experi&ecirc;ncias, ou seja, para todas as experi&ecirc;ncias que poderiam ter sido   efetuadas, para todas as verdades que poderiam ter sido geradas ali. Nesse sentido,   contrariando o senso comum, entendemos que experimentada &eacute; a pessoa   que, justamente por ter tido as experi&ecirc;ncias que teve, est&aacute; aberta a novas e   in&eacute;ditas experi&ecirc;ncias. Experimentado n&atilde;o &eacute; aquele que <i>sabe</i> mas, ao contr&aacute;rio,   aquele que est&aacute; aberto ao porvir, ao que <i>ainda n&atilde;o sabe</i>. O artista, nesse caso,   tem a compet&ecirc;ncia do discernimento porque sabe que aquilo que sabe &eacute; a evid&ecirc;ncia   do limite do seu conhecimento, &eacute; a evid&ecirc;ncia da sua finitude, da sua   m&iacute;nima posi&ccedil;&atilde;o na hist&oacute;ria e na realidade que o circunda e o circunscreve. O   artista pode ser entendido, nesse caso, como o menos dogm&aacute;tico poss&iacute;vel porque   teve tantas experi&ecirc;ncias e j&aacute; aprendeu tanto dessas tantas experi&ecirc;ncias que   isso o faz aberto e capacitado para voltar a ter experi&ecirc;ncias e com elas aprender   (Gadamer, 2008: 465). O discernimento oriundo da experi&ecirc;ncia nos possibilita   a evid&ecirc;ncia de que as coisas n&atilde;o s&atilde;o apenas como sup&uacute;nhamos em nossos exerc&iacute;cios   explicativos e, dessa maneira, que as coisas experimentadas n&atilde;o cabem   na mat&eacute;ria ou na forma expressiva tradicional. O discernimento, assim, &eacute; o que   nos d&aacute; a capacidade de compreender o que se passa, &eacute; a tomada de consci&ecirc;ncia   daquele algo que nos passa e para o qual ainda n&atilde;o temos palavras. O discernimento   &eacute;, ao mesmo tempo, um quase-saber e um al&eacute;m-saber, &eacute; um pressentimento,   &eacute; a faculdade que temos de conhecer pela nega&ccedil;&atilde;o: nos aproximamos <i>do     que &eacute;</i> pelo exerc&iacute;cio de discernir <i>o que n&atilde;o &eacute;</i>.</p>     <p> A outra compet&ecirc;ncia, da <i>express&atilde;o</i>, diz respeito &agrave; pr&aacute;tica. Ela &eacute; relativa ao   dom&iacute;nio t&eacute;cnico e instrumental da mat&eacute;ria e da linguagem que, operadas, v&atilde;o   dar subst&acirc;ncia e forma &agrave; express&atilde;o. Ela adv&eacute;m do estudo, do dom&iacute;nio, do conhecimento   e da pr&aacute;tica de uma determinada linguagem, de uma t&eacute;cnica e de   um material. Essa compet&ecirc;ncia diz respeito &agrave; capacidade pr&aacute;tica que um sujeito   tem para operar com uma linguagem (a poesia, a literatura, a m&uacute;sica, o desenho,   a pintura, a dan&ccedil;a, o teatro, a escultura, etc.), desenvolver um modo (romance,   novela, soneto, aquarela, &oacute;leo, m&uacute;sica tonal, atonal, modal, dan&ccedil;a cl&aacute;ssica,   folcl&oacute;rica, etc.), utilizar um material (a l&iacute;ngua, o som, a tinta, a pedra, o ferro,   o corpo, etc.), e manejar uma ferramenta, um instrumento (a gram&aacute;tica, um violino,   o l&aacute;pis, um pincel, a voz, a c&acirc;mera, enfim). Na medida em que aquele algo   que emergiu na experi&ecirc;ncia est&eacute;tica<i> pede exist&ecirc;ncia</i>, &eacute; necess&aacute;rio dominar com   compet&ecirc;ncia alguma via de express&atilde;o. A cria&ccedil;&atilde;o somente ter&aacute; consist&ecirc;ncia se   ancorada em uma mat&eacute;ria expressiva operada com rigor.</p>     <p> A <i>livre-express&atilde;o</i> &eacute; um exemplo da opera&ccedil;&atilde;o impr&oacute;pria da mat&eacute;ria expressiva   quando o sujeito d&aacute; vaz&atilde;o &agrave; atividade criadora sem a necess&aacute;ria compet&ecirc;ncia   no trato do material ou da linguagem que emprega. Apoiado numa suposta espontaneidade,   ele mais faz <i>catarse</i> do que cria. Ainda que possamos aproximar   a catarse da cria&ccedil;&atilde;o, n&atilde;o &eacute; esse o prop&oacute;sito aqui: antes, pretendo evidenciar a   necessidade do rigor no processo de cria&ccedil;&atilde;o de uma obra de arte. Por exemplo,   um sujeito s&oacute; &eacute; capaz de <i>improvisar</i> em um campo no qual tenha um m&iacute;nimo de   compet&ecirc;ncia: s&oacute; posso improvisar uma m&uacute;sica ao viol&atilde;o se souber minimamente   tocar viol&atilde;o; s&oacute; posso improvisar uma comida se souber minimamente cozinhar.</p>     <p> Enfim, concluindo minha especula&ccedil;&atilde;o sobre a experi&ecirc;ncia est&eacute;tica do artista,   torno a me referir &agrave; experi&ecirc;ncia que ele tem com essa <i>quase-forma</i> que um   conte&uacute;do in&eacute;dito de sua exist&ecirc;ncia faz assomar nele e que o convoca a criar. O   artista fabrica a obra ao mesmo tempo em que &eacute; fabricado por ela. E &eacute; essa obra,   enquanto <i>produto</i>, que se d&aacute; a ver (ou ouvir ou presenciar ou assistir, etc.) para   o p&uacute;blico.</p>     <p> Assim, chego ao segundo p&oacute;lo anunciado. No caso do p&uacute;blico, trato da experi&ecirc;ncia   est&eacute;tica com algumas varia&ccedil;&otilde;es. Igualmente, tomo como ponto de partida   a necess&aacute;ria atitude est&eacute;tica, ou seja, uma atitude de abertura desinteressada   ante os efeitos que a realidade de um objeto ou acontecimento podem produzir.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p> As obras de arte &ndash; sejam de que natureza forem &ndash; representam uma zona   de conflu&ecirc;ncia de possibilidades que foi trazida &agrave; vida pela opera&ccedil;&atilde;o de um   artista e, por isso, representam um campo de pot&ecirc;ncia ilimitado. Um objeto ou   acontecimento cultural ou art&iacute;stico n&atilde;o est&aacute; a&iacute; meramente para ser compreendido,   manejado ou dominado mas, ao contr&aacute;rio, para ser experimentado. E isso   significa que eles representam inst&acirc;ncias de convoca&ccedil;&atilde;o dos sujeitos, situa&ccedil;&otilde;es   de apelo ao jogo e &agrave; composi&ccedil;&atilde;o com o p&uacute;blico que voltar&aacute; a dar exist&ecirc;ncia &agrave;   sua materialidade. Um livro, por exemplo, &eacute; apenas um livro: um objeto material   com peso e dimens&otilde;es concretas que o torna meramente uma <i>coisa</i>. Mas, ao ser   aberto e lido, transforma-se, torna-se uma <i>ag&ecirc;ncia</i> de novos sentidos que colocam   em movimento o repert&oacute;rio e o universo daquele que l&ecirc;. Assim, qualquer   objeto art&iacute;stico ou cultural: todos s&atilde;o e cada um &eacute; nada muito mais do que um <i>amontoado</i> de algo material &ndash;papel, pedra, corpos, letras, notas, dados, cores,   etc. &ndash; at&eacute; que entrem em composi&ccedil;&atilde;o ou arranjo com um sujeito que estabele&ccedil;a   com eles uma rela&ccedil;&atilde;o est&eacute;tica e os transfigure em algo que eles apenas eram   em pot&ecirc;ncia. Todo objeto ou acontecimento &eacute; uma fonte inesgot&aacute;vel de possibilidades   que abarca um infinito de sentidos apesar de sua limita&ccedil;&atilde;o material.</p>     <p> Por isso, trata-se de propor a atitude est&eacute;tica como uma abertura desinteressada.   Movidos pelo interesse, nossa tend&ecirc;ncia &eacute; <i>dominar</i> (conceitual ou materialmente)   as realidades que nos cercam e, nesse del&iacute;rio de poder, nos furtamos   a possibilidade de sermos criativos. Entrar em jogo com um objeto ou acontecimento,   de outro modo, representa conceder-se a possibilidade de, num &uacute;nico   lance, configurar a experi&ecirc;ncia est&eacute;tica e ser configurado por ela. E aqui, da   mesma maneira, nos confrontamos com um dilema: se &eacute; poss&iacute;vel produzir experi&ecirc;ncias   est&eacute;ticas com qualquer coisa, qual &eacute; a medida do rigor que se coloca   para n&oacute;s?</p>     <p> &Eacute; bem verdade que podemos pensar na experi&ecirc;ncia est&eacute;tica que ocorre <i>por   arrebatamento</i>, ou seja, que atropela o sujeito e o desloca radicalmente do campo   de racionalidade que o circunscrevia. Nesse sentido, lembro do que nos diz   Hilda Hilst sobre a pot&ecirc;ncia da poesia: &quot;Um poema &eacute; como um soco. E, se for   perfeito, te alimenta para toda a vida. Um soco certamente te acorda e, se for   em cheio, faz cair a tua m&aacute;scara, essa fr&iacute;vola, repugnante, empolada m&aacute;scara   que tentamos manter para atrair ou assustar&quot; (Hilst, 1998:53). Ou seja, podemos   pensar na experi&ecirc;ncia est&eacute;tica <i>involunt&aacute;ria</i>, que pega o sujeito de sopet&atilde;o,   no susto. Mas, antes, me importa tomar em quest&atilde;o a experi&ecirc;ncia intencional,   aquela para o qual o sujeito <i>se disp&otilde;e</i>. O mundo cultural e art&iacute;stico &eacute; constitu&iacute;do   com formas de racionalidade pr&oacute;prias que implicam formas de rigor espec&iacute;ficas.   Essas formas de racionalidade e rigor, por sua vez, s&oacute; podem ser experimentadas   quando se tem alguma compet&ecirc;ncia para saber ler, ouvir, viv&ecirc;-las. Saber   operar minimamente com as diferentes linguagens &eacute; uma condi&ccedil;&atilde;o de possibilidade   da experi&ecirc;ncia rigorosa. E, nesse sentido, a forma&ccedil;&atilde;o para a experi&ecirc;ncia   est&eacute;tica passa pela amplia&ccedil;&atilde;o da capacidade perceptiva, pela dota&ccedil;&atilde;o de uma   certa compet&ecirc;ncia nas diferentes linguagens que permitam, justamente pela   familiariza&ccedil;&atilde;o que se produz, uma suspens&atilde;o dos ju&iacute;zos explicativos, abrindo   espa&ccedil;o para a frui&ccedil;&atilde;o e a experi&ecirc;ncia desinteressada, para a abertura aos efeitos   que o objeto ou o acontecimento podem produzir. Se me atenho ao impulso   de <i>decifra&ccedil;&atilde;o</i> ou <i>entendimento</i> do objeto ou do acontecimento, torno a cair na   armadilha de tentar domin&aacute;-los sob uma certa forma de racionalidade, impedindo-me de sentir os efeitos que esteticamente podem produzir. Da mesma forma,   se me <i>entrego</i> &quot;livremente&quot; &agrave; experi&ecirc;ncia, tamb&eacute;m resvalo para o espontane&iacute;smo   cat&aacute;rtico e leviano que resultam da freq&uuml;ente falta de rigor. A produ&ccedil;&atilde;o de   sentidos que caracteriza a experi&ecirc;ncia est&eacute;tica &eacute; efeito do entrela&ccedil;amento, do   arranjamento que o sujeito faz com o objeto ou o acontecimento de maneira rigorosa,   ou seja, levadas em considera&ccedil;&atilde;o as possibilidades de compreens&atilde;o que   a experi&ecirc;ncia torna vi&aacute;vel. E esse rigor responde &agrave; compet&ecirc;ncia de perscrutar   meticulosa e minuciosamente os pormenores do objeto, alcan&ccedil;ando a sutileza   da perspic&aacute;cia que a discrimina&ccedil;&atilde;o e o discernimento conferem ao sujeito experimentado   que, como j&aacute; explorei acima, se constitui. O sujeito experimentado   &eacute; n&atilde;o dogm&aacute;tico e, por isso, consegue suspender seus preconceitos, clich&ecirc;s e   estere&oacute;tipos justamente porque a experi&ecirc;ncia o confronta sempre com sua finitude,   com a evid&ecirc;ncia do limite de sua interpreta&ccedil;&atilde;o. O que ele <i>pensa</i> sobre o   que <i>sente</i> &eacute; sempre apenas uma das inumer&aacute;veis possibilidades de <i>pensar</i> ou de <i>sentir</i>. A forma&ccedil;&atilde;o do p&uacute;blico, a forma&ccedil;&atilde;o do sujeito fruidor passa, assim, pela   amplia&ccedil;&atilde;o de sua capacidade perceptiva, no sentido de mostrar as armadilhas   da interpreta&ccedil;&atilde;o categ&oacute;rica e judicativa do gosto manique&iacute;sta (bom vs. mau,   bonito vs. feio, etc.) e instigar o exerc&iacute;cio da compreens&atilde;o como uma tomada de   aten&ccedil;&atilde;o sobre os efeitos que a experi&ecirc;ncia pode produzir. Significa compreender   que n&atilde;o gostar &eacute;, igualmente, uma forma de <i>gostar</i>. A forma&ccedil;&atilde;o do sujeito   fruidor consiste em explorar diferentes maneiras de compreender a experi&ecirc;ncia   est&eacute;tica, possibilitando uma abertura &agrave; diversidade de sentidos do mundo (ou   seja, de<i> formas de sentir</i> a realidade).</p>     <p> Ampliar o repert&oacute;rio cultural, ampliar o repert&oacute;rio de experi&ecirc;ncias representa,   assim, uma amplia&ccedil;&atilde;o da capacidade dos sujeitos orientarem sua percep&ccedil;&atilde;o   e compreens&atilde;o ante as infinitas possibilidades da exist&ecirc;ncia. Inspirado por Lucimar   Bello, ouso afirmar que a vida &ndash; como a arte &ndash;, n&atilde;o se define: a vida &ndash; e a   arte - &eacute; uma cole&ccedil;&atilde;o de exemplos. Nesse sentido, postulo a id&eacute;ia da experi&ecirc;ncia   est&eacute;tica como uma oportunidade de amplia&ccedil;&atilde;o, de desvelamento e de expans&atilde;o   da subjetividade na medida em que representa uma abertura para essa cole&ccedil;&atilde;o   de <i>exemplos</i>.</p>     <p> Vale abrir, para finalizar, uma breve mas nem por isso pouco importante digress&atilde;o.   Quero me referir &agrave; possibilidade da constitui&ccedil;&atilde;o da obra de arte a partir   da experi&ecirc;ncia est&eacute;tica com objetos ou acontecimentos n&atilde;o-art&iacute;sticos, ou   seja, n&atilde;o enquadrados nos c&acirc;nones do que se considera arte, seja em que esfera   for. E quero, nessa digress&atilde;o, me referir tanto &agrave; experi&ecirc;ncia do artista quanto &agrave;   do cr&iacute;tico quanto &agrave; do p&uacute;blico. Quero retomar aqui um aspecto que ficou pulsando   em diferentes momentos deste ensaio: o fato de podermos ter experi&ecirc;ncias   est&eacute;ticas com qualquer coisa.</p>     <p> Para demarcar a g&ecirc;nese dessa possibilidade, tomo a proposi&ccedil;&atilde;o de Marcel   Duchamp. Sua id&eacute;ia de <i>ready-made</i> representa justamente a possibilidade de   que qualquer objeto existente pode, ao ser deslocado de seu contexto, tornar-se   disparador de uma experi&ecirc;ncia est&eacute;tica. Essa id&eacute;ia desloca radicalmente a   natureza da condi&ccedil;&atilde;o est&eacute;tica para a <i>atitude</i> que se pode ter diante do objeto.   Nessa medida, tanto o artista quanto o cr&iacute;tico ou o p&uacute;blico t&ecirc;m a prerrogativa de   transfigurar os objetos e os acontecimentos convertendo-os em objetos est&eacute;ticos.   Mais uma vez, o mesmo dilema: se <i>tudo</i> pode, qual o limite?</p>     <p> Antonio C&iacute;cero nos lembra que assim como nas artes visuais o <i>ready-made</i> levou muitos artistas e cr&iacute;ticos de arte a considerarem obsoleta a arte de pintar   ou esculpir, na poesia ele levou muitos poetas e cr&iacute;ticos liter&aacute;rios a considerarem   obsoleta a arte de fazer poemas (C&iacute;cero, 2005: 107). Ora, se abdicarmos do   necess&aacute;rio rigor, tamb&eacute;m aqui ca&iacute;mos na inconsist&ecirc;ncia da experi&ecirc;ncia est&eacute;tica.   Temos que ter presente que o fato de ser poss&iacute;vel realizar experi&ecirc;ncias est&eacute;ticas   com <i>qualquer coisa</i> n&atilde;o significa que se trata da mesma <i>natureza</i> de experi&ecirc;ncia:   se somos capazes de ter uma experi&ecirc;ncia est&eacute;tica com o barulho do   vento ou com o sil&ecirc;ncio isso n&atilde;o significa que podemos prescindir da m&uacute;sica; se   somos capazes de realizar uma experi&ecirc;ncia est&eacute;tica com um trocadilho, um anagrama,   um trava-l&iacute;ngua, uma parlenda ou uma frase recortada a esmo, n&atilde;o significa   que podemos prescindir da poesia; se podemos realizar uma experi&ecirc;ncia   est&eacute;tica com o bater de uma onda do mar em nossos p&eacute;s ou com um p&ocirc;r-de-sol,   n&atilde;o significa que podemos prescindir da pintura ou do cinema. A experi&ecirc;ncia   que podemos ter com uma pe&ccedil;a de Bach, com uma m&uacute;sica de Luis Gonzaga, com   uma can&ccedil;&atilde;o infantil, com o canto de um p&aacute;ssaro ou com o ru&iacute;do de um trem n&atilde;o   t&ecirc;m o mesmo <i>valor</i>. Sim, todas podem constituir-se experi&ecirc;ncias est&eacute;ticas. Mas   &eacute; ineg&aacute;vel que h&aacute; uma grande diferen&ccedil;a de valor entre elas (ressalte-se que   essa diferen&ccedil;a n&atilde;o diz respeito a uma hierarquia &ndash; em que algo pode valer <i>mais</i> ou <i>menos</i> &ndash; mas que cada experi&ecirc;ncia inaugura ou diz respeito a uma ordem   singular e irredut&iacute;vel a qualquer outra!). Podemos captar e experimentar esteticamente <i>qualquer coisa</i>, sim. E essas experi&ecirc;ncias sempre apresentam um grande   potencial formativo para os sujeitos nelas implicados. Porque a experi&ecirc;ncia   consiste, justamente, no deslocamento que se sofre da forma tradicional de racionalidade   que nos circunscreve, nos colocando diante do in&eacute;dito, da novidade   da interpreta&ccedil;&atilde;o. O fato de termos produzido uma interpreta&ccedil;&atilde;o a partir de uma   experi&ecirc;ncia &eacute; a evid&ecirc;ncia de que <i>cada um</i> que experimente o que experimentamos   poder&aacute; produzir outra interpreta&ccedil;&atilde;o. Ademais, se chegamos a produzir <i>uma</i> interpreta&ccedil;&atilde;o, &eacute; porque <i>infinitas</i> outras interpreta&ccedil;&otilde;es permanecem como   interpreta&ccedil;&otilde;es poss&iacute;veis.</p>     <p> Assim, ante o mundo, temos a permanente e infind&aacute;vel possibilidade de   transfigurar a realidade e sermos transfigurados por ela: Marcel Duchamp transfigura   a realidade quando desloca o urinol ou a roda de bicicleta para uma exposi&ccedil;&atilde;o;   Nuno Ramos transfigura a realidade quando exp&otilde;e tr&ecirc;s urubus vivos   na instala&ccedil;&atilde;o Bandeira Branca, na 29a Bienal de S&atilde;o Paulo; Frederico Moraes   transfigura a realidade quando desloca os bordados e as cole&ccedil;&otilde;es de Arthur Bispo   do Ros&aacute;rio para uma galeria; Fausto Fawcett transfigura a realidade quando   brinca com o anagrama Caroline Dickman &ndash; Nicole Kidman no poema &quot;A f&ecirc;mea   camafeu&quot;; uma crian&ccedil;a transfigura a realidade quando monta num cabo de vassoura   e sai cavalgando; um sujeito transfigura a realidade quando chora ante a   vis&atilde;o do mar ou quando escuta uma sonata; um amante apaixonado transfigura   a realidade quando, ante a insufici&ecirc;ncia das palavras, faz sil&ecirc;ncio ou grita ou   beija ou abra&ccedil;a.</p>     <p> A medida do rigor, nesse caso, est&aacute; no entendimento da <i>intradutibilidade</i> do   conte&uacute;do da experi&ecirc;ncia est&eacute;tica, ou seja, na impossibilidade daquele <i>algo</i> que   se produz no sujeito que experimenta esteticamente a realidade ser traduzido   em alguma linguagem ou forma de racionalidade conhecida. Por ser intraduz&iacute;vel,   a forma de express&atilde;o que vai dar concretude ao conte&uacute;do da experi&ecirc;ncia   est&eacute;tica precisa ser inventada. Uma imagem que bem representa essa situa&ccedil;&atilde;o,   a meu ver, &eacute; a id&eacute;ia do abismo. Como nos sugere Chantal Maillard, a experi&ecirc;ncia   da cria&ccedil;&atilde;o e a experi&ecirc;ncia est&eacute;tica se assemelham a ser projetada em um abismo:   tudo come&ccedil;a quando o mundo acaba. A experi&ecirc;ncia est&eacute;tica inicia quando   tudo o que sei e tudo o que tenho sido j&aacute; n&atilde;o bastam e o mundo apela por ser   inventado. Ali onde, para as formas tradicionais de racionalidade, &eacute; o fim-domundo,   porque n&atilde;o h&aacute; palavras, n&atilde;o h&aacute; forma poss&iacute;vel de express&atilde;o, n&atilde;o h&aacute;   mais explica&ccedil;&atilde;o, quando a gente <i>n&atilde;o entende mais nada</i>, ali onde <i>o mundo acaba</i> &eacute; que come&ccedil;a o percurso e o processo de cria&ccedil;&atilde;o (Maillard, 1998: 252). Tratase   de aprender uma outra forma de racionalidade, a raz&atilde;o est&eacute;tica: aprender a   viver conscientes das fic&ccedil;&otilde;es que criamos; aprender a palpar o vazio &ndash; n&atilde;o o   vazio como aus&ecirc;ncia, desaparecimento, fim ou morte de algo, mas, ao contr&aacute;rio,   como <i>origem</i>, como porvir, como um perp&eacute;tuo n&atilde;o-ser-mais ao lado de um n&atilde;o-ser-ainda, um n&atilde;o-ser-isso ou um n&atilde;o-ser-eu ao lado de um ser-quase.</p>     <p> Os efeitos da experi&ecirc;ncia est&eacute;tica &ndash; os valores, os sentimentos, os gostos,   os ju&iacute;zos, as representa&ccedil;&otilde;es, as categorias &ndash; s&atilde;o as modalidades das experi&ecirc;ncias   que v&atilde;o se modificando com a pr&oacute;pria hist&oacute;ria, cujo n&uacute;cleo &eacute; sempre essa   estranha satisfa&ccedil;&atilde;o que resulta do reconhecimento da capacidade de construir,   de produzir sentidos que, quando a gente experimenta, ao mesmo tempo est&aacute;   construindo e produzindo a gente mesmo (Maillard, 1998: 254). A raz&atilde;o est&eacute;tica   habilita o sujeito para que se construam mundos n&atilde;o apenas a partir de e sobre   esquemas referenciais, mas, igualmente, a partir de e sobre a experi&ecirc;ncia da   presentifica&ccedil;&atilde;o do que existe, do ser-a&iacute;, da hist&oacute;ria efeitual e da desrealiza&ccedil;&atilde;o   dos limites estabelecidos pelas formas tradicionais de racionalidade. Novamente,   reitero a id&eacute;ia de que o que existe n&atilde;o &eacute; pass&iacute;vel de aprisionamento em uma   defini&ccedil;&atilde;o, mas, de outro modo, <i>o que existe</i> &eacute; uma cole&ccedil;&atilde;o incomensur&aacute;vel de   exemplos. Cada sujeito &ndash; personagem da ficc&ccedil;&atilde;o, da mem&oacute;ria ou do presente &ndash;   representa uma forma de subjetiva&ccedil;&atilde;o poss&iacute;vel.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p> Enfim. Concluo esta reflex&atilde;o, esta provoca&ccedil;&atilde;o com algumas cita&ccedil;&otilde;es que h&aacute;   muito me acompanham:</p>     <blockquote>&quot;O que &eacute; o belo, sen&atilde;o um grau suport&aacute;vel do terr&iacute;vel?&quot; (Rainer Maria Rilke,   Primeira Elegia &ndash; grifo meu)</blockquote>     <blockquote>&quot;Vai, vai, vai, disse o p&aacute;ssaro. O g&ecirc;nero humano n&atilde;o pode suportar tanta   realidade. O tempo passado e o tempo futuro, o que poderia ter sido e o que   foi, convergem para um s&oacute; fim, que &eacute; sempre presente.&quot; (T.S. Eliot, Burnt   Norton &ndash; grifo meu)</blockquote>     <blockquote>&quot;A realidade sempre &eacute; mais ou menos do que n&oacute;s queremos.&quot; (Fernando   Pessoa &ndash; grifo meu)</blockquote>     <p> E, por fim,</p>     <blockquote>&quot;No puedo hablar con mi voz, sino con mis voces.&quot; (Alejandra Pizarnik &ndash;   grifo meu)</blockquote>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>Refer&ecirc;ncias Bibliogr&aacute;ficas</b></p>     <!-- ref --><p>C&iacute;cero, A. (2005).<i> Finalidades sem fim: ensaios sobre poesia e arte</i>. S&atilde;o Paulo: Companhia das   Letras.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000051&pid=S1645-7250201200010000800001&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<!-- ref --><p> Eliot, T.S. (1981). Quatro Quartetos/Burnt Norton em <i>Poesia</i>. (tradu&ccedil;&atilde;o Ivan Junqueira). 3.ed. Rio   de Janeiro: Nova Fronteira.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000053&pid=S1645-7250201200010000800002&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p> Fawcett, F. (2000). A f&ecirc;mea camafeu no pa&iacute;s dos danados em CEP 20.000: o celeiro do underground   carioca, <i>Revista Trip</i>, 83, 11-22.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000055&pid=S1645-7250201200010000800003&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <p> Gadamer, H.G. (2008). <i>Verdade e M&eacute;todo I &ndash; tra&ccedil;os fundamentais de uma hermen&ecirc;utica filos&oacute;fica</i>.   Petr&oacute;polis: Vozes.</p>     <!-- ref --><p> Hilst, H. (1998). <i>Cascos e car&iacute;cias</i>. S&atilde;o Paulo: Nankin.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000058&pid=S1645-7250201200010000800005&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p> Kant, I. (1993). <i>Cr&iacute;tica da faculdade do ju&iacute;zo</i>. Rio de Janeiro: Forense Universit&aacute;ria (1&ordf; ed.1793).    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000060&pid=S1645-7250201200010000800006&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p> Maillard, C. (1998).<i> La raz&oacute;n est&eacute;tica</i>. Barcelona: Ed. Laertes.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000062&pid=S1645-7250201200010000800007&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p> Pessoa, F. (2006). <i>Odes de Ricardo Reis</i>. Porto Alegre, L&amp;PM.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000064&pid=S1645-7250201200010000800008&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p> Pizarnik, A. (1993). <i>Obras Completas</i>. Buenos Aires: Corregidor.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000066&pid=S1645-7250201200010000800009&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p> Rilke, R.-M. (1988). <i>Elegias do Du&iacute;no</i>. Porto Alegre: Globo.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000068&pid=S1645-7250201200010000800010&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p> Stolniz, J. (1960). <i>Aesthetics and the Philosophy of Art Criticism</i>. Boston: Houghton Mifflin.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000070&pid=S1645-7250201200010000800011&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p> Wilde, O. (2000). <i>Pref&aacute;cio em O Retrato de Dorian Gray</i> (1891). Rio de Janeiro: Civiliza&ccedil;&atilde;o Brasileira.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000072&pid=S1645-7250201200010000800012&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>      ]]></body><back>
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