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</front><body><![CDATA[ <p><b>Vigotsky, L. S. (2005). <I>Pensamento e linguagem</I>. </b>    <br> S&atilde;o Paulo: Martins Fontes (194 p&aacute;ginas) ( 1&ordf;ed. 1987). </p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>Isabel Brites <sup>*</sup></b>& <b>Roberta de C&aacute;ssia <sup>**</sup></b></p>     <p><sup>*</sup>(CeiEF-ULHT)    <br> <a href="mailto:misabrites@gmail.com ">misabrites@gmail.com </a></p>     <p><sup>**</sup>(CeiEF-ULHT)    <br> <a href="mailto:robertacassia2006@hotmail.com ">robertacassia2006@hotmail.com </a></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>Estruturado em sete diferentes &aacute;reas tem&aacute;ticas, nas palavras do autor&ldquo; &hellip; uma estrutura for&ccedil;osamente complexa e multifacetada&hellip;&rdquo; (p. XX), do livro consta uma introdu&ccedil;&atilde;o redigida por Bruner, que faz uma breve refer&ecirc;ncia &agrave; biografia do autor e um resumo das ideias essenciais do seu estudo, e ainda um pref&aacute;cio &agrave; tradu&ccedil;&atilde;o inglesa da obra e suas posteriores reorganiza&ccedil;&otilde;es e reestrutura&ccedil;&otilde;es, sempre no sentido de a tornar mais simples, mais leg&iacute;vel e mais acess&iacute;vel. Tamb&eacute;m Vygotsky a prefacia, apresentando a sua estrutura, a sua problem&aacute;tica e explicando a finalidade dos seus estudos. </p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Na primeira parte o autor aborda a import&acirc;ncia das rela&ccedil;&otilde;es interfuncionais entre pensamento e linguagem, rela&ccedil;&otilde;es essas que, a seu ver, estudos anteriores n&atilde;o conseguiram desenvolver com propriedade por entenderem pensamento e fala como fun&ccedil;&otilde;es isoladas. </p>    <blockquote>     <p>Os m&eacute;todos de an&aacute;lise atom&iacute;sticos e funcionais, predominantes na &uacute;ltima d&eacute;cada, trataram os processos ps&iacute;quicos isoladamente. M&eacute;todos de pesquisa foram desenvolvidos e aperfei&ccedil;oados com a finalidade de estudar fun&ccedil;&otilde;es isoladas, enquanto sua interdepend&ecirc;ncia e sua organiza&ccedil;&atilde;o na estrutura da consci&ecirc;ncia como um todo permaneceram fora do campo de investiga&ccedil;&atilde;o (p.1). </p></blockquote>     <p>Impunha-se, ent&atilde;o, uma mudan&ccedil;a de abordagem, de paradigma, que levasse a Psicologia a assumir essa inter-rela&ccedil;&atilde;o como seu problema central, seu foco de aten&ccedil;&atilde;o, essencial a um estudo produtivo do pensamento e da linguagem. </p>     <p>Vygotsky prop&otilde;e que se analise o aspecto intr&iacute;nseco da palavra, ou seja, o seu significado, pois &eacute; no significado da palavra que o pensamento e a fala se unem. O significado &eacute;, ent&atilde;o, simultaneamente acto de pensamento e lingua-gem, de onde decorre que o m&eacute;todo a seguir na explora&ccedil;&atilde;o da sua natureza seja a an&aacute;lise sem&acirc;ntica &ndash; estudo do desenvolvimento, do funcionamento e da estrutura dessa unidade em que pensamento e fala est&atilde;o indissociavelmente interrelacionados. </p>     <p>Um outro aspecto do estudo de Vigotsky, porventura o mais relevante, o mais inovador e o que mais marca o seu pensamento refere-se &agrave; comunica&ccedil;&atilde;o, &agrave; interac&ccedil;&atilde;o social enquanto fun&ccedil;&atilde;o primordial da fala. &Eacute; para comunicar que o homem cria e utiliza os sistemas de linguagem, e &eacute; a necessidade de comunicar que impulsiona o seu desenvolvimento. Na aus&ecirc;ncia de um sistema de signos, lingu&iacute;sticos ou n&atilde;o, a comunica&ccedil;&atilde;o torna-se limitada e de cariz mais afectivo, j&aacute; que a transmiss&atilde;o racional e intencional de experi&ecirc;ncias e de pensamentos requer um sistema mediador &ndash; a fala. Ou seja, a verdadeira comunica&ccedil;&atilde;o requer significado e generaliza&ccedil;&atilde;o, tanto quanto requer signos. </p>     <p>Mas as formas mais elevadas da comunica&ccedil;&atilde;o humana s&oacute; s&atilde;o poss&iacute;veis porque o pensamento reflecte realidades conceptualizadas, raz&atilde;o pela qual certos pensamentos s&oacute; devem ser comunicados &agrave;s crian&ccedil;as quando estas tiverem os conceitos adquiridos e amadurecidos. O mais dif&iacute;cil do ensino de palavras novas &eacute;, exactamente, a apropria&ccedil;&atilde;o dos conceitos e n&atilde;o a dos sons. Os aspectos afectivos e intelectuais tamb&eacute;m n&atilde;o podem ser separados enquanto objecto de estudo, pois pensamentos dissociados das necessidades e interesses, das inclina&ccedil;&otilde;es e dos impulsos daquele que pensa, s&atilde;o desprovidos de significado/ sentido. </p>     <p>Na parte seguinte da obra Vigotsky faz uma an&aacute;lise cr&iacute;tica &agrave; teoria de Piaget sobre a linguagem e o pensamento das crian&ccedil;as, bem como &agrave; sua ideia de evolu&ccedil;&atilde;o. Para Piaget, a caracter&iacute;stica espec&iacute;fica da l&oacute;gica das crian&ccedil;as &eacute; o egocentrismo do seu pensamento, que relaciona com o realismo intelectual, o sincretismo e a dificuldade de compreender as rela&ccedil;&otilde;es, descrevendo-o como gen&eacute;tico, estrutural, e intermedi&aacute;rio entre o pensamento aut&iacute;stico e o pensamento dirigido. Este &eacute; entendido como o pensamento consciente, inteligente, suscept&iacute;vel de verdade ou de erro, social, que pode ser comunicado atrav&eacute;s da linguagem e influenciado pela experi&ecirc;ncia e pela l&oacute;gica, enquanto o pensamento aut&iacute;stico &eacute; subconsciente, ligado &agrave; imagina&ccedil;&atilde;o e ao sonho e, assim, estritamente individual. J&aacute; o pensamento sincr&eacute;tico &eacute; uma transi&ccedil;&atilde;o da l&oacute;gica dos sonhos para a l&oacute;gica dos pensamentos, ocorrendo quando a fala egoc&ecirc;ntrica se transforma em fala socializada. </p>     <p>Para Vigotsky, por&eacute;m, ambas as falas de Piaget s&atilde;o sociais, embora com fun&ccedil;&otilde;es diferentes e, por isso, prop&otilde;e que a fala &ldquo;socializada&rdquo; de Piaget seja substitu&iacute;da pelo termo &ldquo;comunicativa&rdquo;. Embora na fala egoc&ecirc;ntrica o indiv&iacute;duo n&atilde;o verbalize, n&atilde;o interaja socialmente, ele est&aacute; a interiorizar ideias e pensamentos, a falar consigo pr&oacute;prio. E enquanto que para Piaget esta desaparece &agrave; medida que se manifesta nas crian&ccedil;as o desejo de trabalhar, &agrave; medida que se v&atilde;o socializando e interagindo, para Vigotsky a fala egoc&ecirc;ntrica das crian&ccedil;as transforma-se na fala interior dos adultos, no pensar para si pr&oacute;prio, na reflex&atilde;o silenciosa, uma mudan&ccedil;a qualitativa de vulto. A fun&ccedil;&atilde;o primordial da fala &eacute;, ent&atilde;o, para Vigostsky, nunca &eacute; demais repeti-lo, a comunica&ccedil;&atilde;o, o contacto social, que se desenvolve &agrave; medida que o indiv&iacute;duo interage, sempre influenciado pelo meio social e cultural em que se insere. </p>     <p>Ainda segundo Piaget, o pensamento aparece antes da linguagem, que lhe &eacute; subordinada e apenas uma das suas formas de express&atilde;o. E a forma&ccedil;&atilde;o do pensamento depende, basicamente, da coordena&ccedil;&atilde;o dos esquemas sensoriomotores, pelo que s&oacute; ocorre depois de a crian&ccedil;a ter alcan&ccedil;ado um determinado n&iacute;vel de habilidades mentais, que pode mobilizar na evoca&ccedil;&atilde;o de um objecto ou acontecimento ausente, ou seja, na forma&ccedil;&atilde;o de conceitos. J&aacute; para Vigotsky, pensamento e linguagem s&atilde;o processos interdependentes desde o in&iacute;cio da vida. A aquisi&ccedil;&atilde;o da linguagem pela crian&ccedil;a modifica as suas fun&ccedil;&otilde;es mentais superiores, d&aacute; forma definida ao pensamento, possibilita o aparecimento da imagina&ccedil;&atilde;o, o uso da mem&oacute;ria e o planeamento da ac&ccedil;&atilde;o. Neste sentido a linguagem, diferentemente daquilo que Piaget postula, sistematiza a experi&ecirc;ncia directa da crian&ccedil;a e, por isso, adquire uma fun&ccedil;&atilde;o central no seu desenvolvimento cognitivo, reorganizando os processos em desenvolvimento. </p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>A parte III da obra debru&ccedil;a-se sobre a teoria de Stern acerca do desenvolvimento da linguagem. Este autor desenvolveu uma concep&ccedil;&atilde;o intelectualista do desenvolvimento da fala na crian&ccedil;a, de um ponto de vista gen&eacute;tico-personalista, em que distingue tr&ecirc;s ra&iacute;zes: a (tend&ecirc;ncia) expressiva, a social e a intencional. E enquanto as duas primeiras s&atilde;o tamb&eacute;m observadas entre os animais, a terceira &eacute; espec&iacute;fica e exclusivamente humana, reflectindo uma intencionalidade que se desenvolve a partir de uma for&ccedil;a motriz inata, quase um impulso. Para Stern a crian&ccedil;a, por volta dos dois anos, descobre o significado da linguagem de uma vez por todas, experi&ecirc;ncia que considera ser fruto da gen&eacute;tica, n&atilde;o levando em conta os estudos experimentais que indicam que s&oacute; mais tarde a crian&ccedil;a aprende a rela&ccedil;&atilde;o entre signo e significado, e ignorando a rela&ccedil;&atilde;o entre as complexas transforma&ccedil;&otilde;es funcionais e estruturais do pensamento que ocorrem com o desenvolvimento da fala. Vigotsky, criticando esta premissa, reconhece haver um momento de descoberta que &agrave; primeira vista parece ser repentino, mas que se trata, de facto, de um desenvolvimento lingu&iacute;stico, cultural e intelectual relacionado com as viv&ecirc;ncias, trocas e experi&ecirc;ncias da crian&ccedil;a, que assim aprende e apreende novos conceitos e cria novas compet&ecirc;ncias, pelo que n&atilde;o se trata apenas de gen&eacute;tica. </p>     <p>O quarto tema da obra trata exactamente disso, das ra&iacute;zes gen&eacute;ticas do pensamento e da linguagem. Considerando estudos anteriores realizados por Koehler e Yerkes com macacos ant&iacute;lopes, Vigotsky chega &agrave; conclus&atilde;o que, embora haja nesses animais, em certos aspectos, um intelecto parecido com o do homem e uma linguagem rudimentar, isso n&atilde;o significa que tenham a capacidade de desenvolver um racioc&iacute;nio e uma linguagem igual &agrave; humana, porque a correspond&ecirc;ncia estreita entre pensamento e fala, caracter&iacute;stica do homem, n&atilde;o existe nos animais. Os seus estudos comprovaram que o pensamento e a fala t&ecirc;m ra&iacute;zes gen&eacute;ticas diferentes, e que o progresso de ambas n&atilde;o &eacute; paralelo: as fun&ccedil;&otilde;es do pensamento e da fala desenvolvem-se ao longo de traject&oacute;rias diferentes e independentes, n&atilde;o havendo qualquer rela&ccedil;&atilde;o clara e constante entre elas, embora essas linhas se encontrem no pensamento verbal e na fala racional. Procurando esclarecer essa rela&ccedil;&atilde;o Vigotsky aborda o estudo da fala interior, que considera importante para a compreens&atilde;o entre pensamento e linguagem. Para ele, a linguagem interior n&atilde;o consiste na aus&ecirc;ncia de som, nem t&atilde;o pouco na reprodu&ccedil;&atilde;o da fala na mem&oacute;ria. &Eacute; o contr&aacute;rio da fala exterior e consiste na tradu&ccedil;&atilde;o do pensamento em palavras, invertendo-se o processo: a fala interioriza-se no pensamento. </p>     <p>Piaget foi o primeiro a prestar aten&ccedil;&atilde;o &agrave; fala egoc&ecirc;ntrica da crian&ccedil;a, mas os resultados dos seus estudos teriam sido mais prof&iacute;cuos se tivesse considerado a sua caracter&iacute;stica mais importante &ndash; a rela&ccedil;&atilde;o com a fala interior. Com efeito, se a fala egoc&ecirc;ntrica &eacute; um est&aacute;gio da fala interior, e a primeira desaparece na idade escolar, quando a segunda surge, uma transforma-se na outra, como conclui Vigotsky. Dizer que a fala egoc&ecirc;ntrica desaparece equivale a dizer que a crian&ccedil;a para de contar quando n&atilde;o usa mais os dedos, quando o que na realidade sucede &eacute; que com a decrescente vocaliza&ccedil;&atilde;o da fala egoc&ecirc;ntrica a crian&ccedil;a adquire uma nova capacidade: a de pensar as palavras, ao inv&eacute;s de as pronunciar. </p>     <p>Para Vigotsky, a fala &eacute; interiorizada psicologicamente antes de o ser fisicamente, e est&aacute; ligada &agrave; organiza&ccedil;&atilde;o do desenvolvimento da crian&ccedil;a. A fala interioriza-se porque a sua fun&ccedil;&atilde;o muda, e desenvolve-se mediante um lento acumular de mudan&ccedil;as estruturais e funcionais - as estruturas da fala que a crian&ccedil;a domina tornam-se estruturas b&aacute;sicas do pensamento. Assim, o desenvolvimento do pensamento &eacute; determinado pela linguagem, pelos instrumentos lingu&iacute;sticos, mas tamb&eacute;m pela experi&ecirc;ncia social e cultural da crian&ccedil;a &ndash; o seu crescimento intelectual depende do dom&iacute;nio que tem sobre os meios sociais do pensamento. Com o desenvolvimento da fala interior e do pensamento verbal &eacute; a natureza do pr&oacute;prio desenvolvimento que se transforma. </p>     <p>A parte V apresenta um estudo experimental sobre a forma&ccedil;&atilde;o de conceitos (a compreens&atilde;o do processo da forma&ccedil;&atilde;o de conceitos pelo sujeito, como j&aacute; vimos, &eacute; uma das preocupa&ccedil;&otilde;es de Vigotsky). Analisando criticamente os estudos de Ach, Rimat e Usnadze o autor leva a cabo experi&ecirc;ncias que revelam que a forma&ccedil;&atilde;o de conceitos &eacute; um processo criativo, orientado para a solu&ccedil;&atilde;o de problemas. O desenvolvimento destes processos tem in&iacute;cio na inf&acirc;ncia, mas as fun&ccedil;&otilde;es intelectuais b&aacute;sicas s&oacute; se desenvolvem na adolesc&ecirc;ncia, e n&atilde;o apenas em fun&ccedil;&atilde;o da idade. Tamb&eacute;m em fun&ccedil;&atilde;o da experi&ecirc;ncia, do contexto hist&oacute;rico-cultural do indiv&iacute;duo, das viv&ecirc;ncias do sujeito, j&aacute; que &eacute; na rela&ccedil;&atilde;o entre o indiv&iacute;duo e o contexto que ocorre a apropria&ccedil;&atilde;o de significados que v&atilde;o ajudar a formar novos conceitos. E neste processo distingue tr&ecirc;s fases: &agrave; primeira chama um &ldquo;conglomerado vago e sincr&eacute;tico de objectos isolados&rdquo;(p. 74); na segunda, que denomina &ldquo;pensamento por complexos&rdquo;(p.76) os objectos isolados associam-se na mente da crian&ccedil;a devido &agrave;s suas impress&otilde;es subjectivas e &ldquo;&agrave;s rela&ccedil;&otilde;es que de facto existem entre esses objectos&rdquo;(p.76). &Eacute; uma fase importante, porque h&aacute; nela aquilo que considera pseudoconceito, que vai ajudar na forma&ccedil;&atilde;o deste. A terceira fase &eacute; j&aacute; de &ldquo;forma&ccedil;&atilde;o efectiva de conceitos&rdquo; (p. 95) e Vigostky distingue-a da fase do pensamento por complexos afirmando que para formar conceitos &eacute; necess&aacute;rio abstrair, isolar elementos, examinar os pensamentos abstractos separados da totalidade de que fazem parte. </p>     <p>Na parte VI da obra o autor retoma esta quest&atilde;o, descrevendo o desenvolvimento dos conceitos cient&iacute;ficos na inf&acirc;ncia e questionando-se sobre o que acontece na mente da crian&ccedil;a relativamente aos conceitos que lhe s&atilde;o ensinados na escola, na sua experi&ecirc;ncia quotidiana ou em situa&ccedil;&atilde;o de sala de aula, bem como sobre a rela&ccedil;&atilde;o entre a assimila&ccedil;&atilde;o e a interioriza&ccedil;&atilde;o dos conceitos cient&iacute;ficos na consci&ecirc;ncia da crian&ccedil;a. E refere dois tipos de conceitos que se relacionam e se influenciam: os espont&acirc;neos e os n&atilde;o espont&acirc;neos, criticando aqui o que considera ser um dos pontos fracos da teoria de Piaget, para quem os conceitos espont&acirc;neos, que constituem as ideias da crian&ccedil;a acerca da realidade, s&atilde;o independentes dos conceitos n&atilde;o espont&acirc;neos, decisivamente influenciados pelos adultos e que v&atilde;o gradualmente substituindo os primeiros. </p>     <p>Para Vigotsky, uns e outros n&atilde;o conflituam, ainda que se formem e desenvolvam sob condi&ccedil;&otilde;es externas e internas diferentes, envolvam experi&ecirc;ncias e atitudes diferentes por parte das crian&ccedil;as, e se desenvolvam por caminhos tamb&eacute;m diferentes. A aus&ecirc;ncia de um sistema &eacute; a diferen&ccedil;a principal que distingue os conceitos espont&acirc;neos dos cient&iacute;ficos (um conceito espont&acirc;neo define-se pela aus&ecirc;ncia de uma organiza&ccedil;&atilde;o consistente e sistem&aacute;tica, enquanto o conceito cient&iacute;fico &eacute; sempre mediado por outros conceitos). E &eacute; o conceito cient&iacute;fico o meio no qual a consci&ecirc;ncia reflexiva se desenvolve (nas suas experi&ecirc;ncias quotidianas a crian&ccedil;a centra-se nos objectos sem ter consci&ecirc;ncia dos conceitos). S&atilde;o os conceitos que aprende na escola, com o adulto, que usa para resolver os problemas que implicam o seu uso consciente. Os estudos do autor confirmam esta hip&oacute;tese: os conceitos, espont&acirc;neos e cient&iacute;ficos, inicialmente afastados por se desenvolverem em direc&ccedil;&otilde;es contr&aacute;rias, acabam por se encontrar. </p>     <p>Pensamento e palavra s&atilde;o as quest&otilde;es abordadas na parte VII e &uacute;ltima do livro. Nela Vigotsky revisita o tema central da obra, apresenta o resultado das suas pesquisas, investiga&ccedil;&otilde;es e experi&ecirc;ncias sobre as rela&ccedil;&otilde;es entre pensamento e linguagem, rev&ecirc; os temas que veio debatendo, e sublinha algumas das suas conclus&otilde;es: 1 &ndash; tal como no reino animal, tamb&eacute;m no ser humano pensamento e linguagem t&ecirc;m origens diferentes; 2- inicialmente o pensamento n&atilde;o &eacute; verbal, a linguagem n&atilde;o &eacute; intelectual, e as suas traject&oacute;rias n&atilde;o s&atilde;o paralelas, embora se cruzem em dado momento, dando in&iacute;cio a uma nova forma de pensamento; 3 &ndash; &eacute; a partir desse ponto que o pensamento se come&ccedil;a a tornar verbal e a linguagem se come&ccedil;a a tornar racional; 4 &ndash; de in&iacute;cio, a linguagem usada pela crian&ccedil;a parece servir apenas para interac&ccedil;&atilde;o superficial, para conv&iacute;vio, mas a certa altura penetra no subconsciente e passa a constituir a estrutura do pensamento da crian&ccedil;a; 5 &ndash; a partir do momento que a crian&ccedil;a descobre que tudo tem um nome, cada objecto que surge representa um problema s&oacute; solucionado quando lhe atribui esse nome; 6 &ndash; quando lhe falta a palavra para nomear esse objecto, a crian&ccedil;a recorre &agrave; ajuda do adulto para solucionar o problema; 7 &ndash; os novos significados das novas palavras servem como embri&otilde;es de novos e complexos conceitos. </p>     <p>Como j&aacute; vimos, para Vigotsky todas as actividades cognitivas b&aacute;sicas do indiv&iacute;duo ocorrem e decorrem de acordo com a sua hist&oacute;ria social, acabando por contribuir, e fazer parte integrante, do desenvolvimento hist&oacute;rico-social da sua comunidade. Logo, as habilidades cognitivas e as formas de estruturar o pensamento do indiv&iacute;duo n&atilde;o s&atilde;o determinadas por factores gen&eacute;ticos, antes s&atilde;o o resultado das experi&ecirc;ncias e dos h&aacute;bitos sociais da cultura em que o sujeito se insere. Assim, a hist&oacute;ria da sociedade na qual a crian&ccedil;a se desenvolve, e a hist&oacute;ria pessoal dessa crian&ccedil;a, s&atilde;o factores cruciais para a sua forma de pensar. E nesse processo de desenvolvimento cognitivo a linguagem tem um papel determinante na forma como a crian&ccedil;a vai aprender a pensar, uma vez que as formas mais avan&ccedil;adas do pensamento s&atilde;o transmitidas &agrave; crian&ccedil;a atrav&eacute;s de palavras. Ent&atilde;o, &eacute; necess&aacute;rio um claro entendimento das rela&ccedil;&otilde;es entre pensamento e linguagem para se entender o processo do desenvolvimento intelectual. A linguagem n&atilde;o &eacute; apenas uma express&atilde;o do conhecimento adquirido pela crian&ccedil;a, mas existe uma inter-rela&ccedil;&atilde;o entre pensamento e linguagem, que se proporcionam mutuamente recursos. </p>     <p>Em s&iacute;ntese, o livro de Vigotsky ora recenseado procura analisar a rela&ccedil;&atilde;o entre pensamento e linguagem. Fazendo uma an&aacute;lise cr&iacute;tica de estudos anteriores e das teorias de outros autores, aponta a necessidade de se olhar para a crian&ccedil;a como um ser social, que apreende e aprende ao longo da vida com as suas viv&ecirc;ncias, na rela&ccedil;&atilde;o e intera&ccedil;&atilde;o com o outro, e que constr&oacute;i significados &agrave; medida que vai tendo experi&ecirc;ncias e contatos com a cultura em que se insere. A crian&ccedil;a n&atilde;o deve ser vista como um adulto em miniatura mas como ela pr&oacute;pria, um ser social &uacute;nico, singular e particular, que ao longo da sua hist&oacute;ria se vai construindo e reconstruindo. Da&iacute; a necessidade de a observar, escutar e compreender na fase real em que se encontra, tentando perceber o significado do pensamento e da linguagem que lhe s&atilde;o pr&oacute;prios.</p>     ]]></body>
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