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</front><body><![CDATA[ <p><b>Editorial</b></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>Ant&oacute;nio Teodoro, Eduardo Santos &amp; Manuel Tavares</b></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>1. O objectivo de tornar a <i>Revista Lus&oacute;fona de Educa&ccedil;&atilde;o</i> (RLE) uma revista internacional, presente nos principais indexadores mundiais, foi conseguido nos primeiros 10 anos de publica&ccedil;&atilde;o. E conseguimo-lo como uma revista publicada apenas em l&iacute;ngua portuguesa. No presente n&uacute;mero iniciamos duas inova&ccedil;&otilde;es com significado: a primeira, no plano da pol&iacute;tica de l&iacute;ngua da RLE; a segunda, na abertura da RLE &agrave; colabora&ccedil;&atilde;o com outros centros de investiga&ccedil;&atilde;o, para al&eacute;m daquele que &eacute; o seu editor oficial, o Centro de Estudos Interdisciplinares em Educa&ccedil;&atilde;o e Desenvolvimento (CeiED), na sua nova designa&ccedil;&atilde;o. </p>     <p>Por decis&atilde;o dos editores e do Conselho de Reda&ccedil;&atilde;o (e com o apoio de muitos membros do Conselho Editorial), a RLE passar&aacute; a ser editada em quatro l&iacute;nguas: portugu&ecirc;s, ingl&ecirc;s, espanhol e franc&ecirc;s (neste n&uacute;mero, apenas as tr&ecirc;s primeiras est&atilde;o representadas). Foi uma decis&atilde;o ponderada, que assume o car&aacute;ter cosmopolita da produ&ccedil;&atilde;o cient&iacute;fica e a defesa dessas quatro l&iacute;nguas como l&iacute;nguas de difus&atilde;o cient&iacute;fica (e n&atilde;o apenas o ingl&ecirc;s). Esperamos que essa decis&atilde;o n&atilde;o descaraterize a RLE e, pelo contr&aacute;rio, a permita confirmar como uma revista internacional de primeiro plano nas Ci&ecirc;ncias da Educa&ccedil;&atilde;o. A segunda mudan&ccedil;a diz respeito a uma pr&aacute;tica de colabora&ccedil;&atilde;o com outros centros de investiga&ccedil;&atilde;o ou de forma&ccedil;&atilde;o p&oacute;s-graduada na elabora&ccedil;&atilde;o de n&uacute;meros ou dossiers tem&aacute;ticos. &Eacute; o caso deste n&uacute;mero sobre <i>Paulo Freire e a Educa&ccedil;&atilde;o Superior</i>, realizado com a inestim&aacute;vel participa&ccedil;&atilde;o do Programa de P&oacute;s-Gradua&ccedil;&atilde;o em Educa&ccedil;&atilde;o (PPGE) e do Programa de Mestrado em Gest&atilde;o e Pr&aacute;ticas Educacionais (PROGEPE) da Universidade Nove de Julho (UNINOVE), de S. Paulo. Pr&oacute;ximos n&uacute;meros, sobre outras tem&aacute;ticas, manter&atilde;o essa coopera&ccedil;&atilde;o inter-institucional, resultado tan-to do trabalho de coopera&ccedil;&atilde;o nacional como do esfor&ccedil;o de internacionaliza&ccedil;&atilde;o do CeiED. Esperamos que essa abertura da RLE a outros centros e programas permita aumentar ainda mais a sua visibilidade, tornando-se um eficaz e respeitado ve&iacute;culo de difus&atilde;o, no plano cient&iacute;fico, de conhecimento e de debate sobre as problem&aacute;ticas do campo da Educa&ccedil;&atilde;o. </p>     <p>2. O dossier tem&aacute;tico sobre <i>Paulo Freire e a Educa&ccedil;&atilde;o Superior</i> &eacute; uma homenagem a Paulo Freire no &acirc;mbito das comemora&ccedil;&otilde;es dos 50 anos da experi&ecirc;ncia de Angicos, cidade do interior do Rio Grande do Norte, onde se realizou a primeira experi&ecirc;ncia de alfabetiza&ccedil;&atilde;o de adultos por meio dos C&iacute;rculos de Cultura, mas &eacute; tamb&eacute;m uma revela&ccedil;&atilde;o e discuss&atilde;o das perspectivas freirianas sobre a universidade, o ensino e a educa&ccedil;&atilde;o superiores. O pensamento de Paulo Freire tem sido perspectivado sobretudo nas dimens&otilde;es de alfabetiza&ccedil;&atilde;o, de educa&ccedil;&atilde;o de adultos e dos movimentos sociais e, por diversas raz&otilde;es, tem sofrido alguma hostiliza&ccedil;&atilde;o e menosprezo por parte do mundo acad&eacute;mico. Os artigos que fazem parte deste dossier pretendem desvelar as diversas dimens&otilde;es do pensamento freiriano - pol&iacute;tica, epistemol&oacute;gica, antropol&oacute;gica, ontol&oacute;gica, &eacute;tica e est&eacute;tica &ndash; e mostrar que elas t&ecirc;m um horizonte de aplica&ccedil;&atilde;o que ultrapassa a educa&ccedil;&atilde;o de adultos e que, por isso, n&atilde;o s&atilde;o incompat&iacute;veis com uma educa&ccedil;&atilde;o superior. </p>     <p>O primeiro artigo, de Carlos Alberto Torres, <i>Fifty Years After Angicos. Paulo Freire, Popular Education and the Struggle for a Better World that is Possible</i>, &eacute; uma rememora&ccedil;&atilde;o e atualiza&ccedil;&atilde;o da experi&ecirc;ncia de Angicos, s&iacute;mbolo da luta contra o analfabetismo no Brasil e como marco incontorn&aacute;vel de um processo de exig&ecirc;ncia pol&iacute;tica pela democratiza&ccedil;&atilde;o da educa&ccedil;&atilde;o, fundamento imprescind&iacute;vel para a constru&ccedil;&atilde;o da democracia e da cidadania brasileiras. A tese defendida por Torres &eacute; a  de que a experi&ecirc;ncia original de Freire em Angicos antecipou um grande projeto de transforma&ccedil;&atilde;o social e do sistema educacional. Nesse sentido, reuniu dois conceitos-chave que constituem a base de seu sistema educacional: cultura popular como um projeto contra-hegem&oacute;nico e de educa&ccedil;&atilde;o popular, mais particularmente, o que mais tarde foi chamado de escola cidad&atilde; ou educa&ccedil;&atilde;o p&uacute;blica popular, como pedra fundamental de seu novo sistema educacional. Torres salienta ainda que a experi&ecirc;ncia de Angicos n&atilde;o foi apenas uma experi&ecirc;ncia de alfabetiza&ccedil;&atilde;o de adultos, mas o in&iacute;cio de um projeto pol&iacute;tico p&oacute;s-colonial de transforma&ccedil;&atilde;o social a partir da rela&ccedil;&atilde;o entre democracia, cidadania e educa&ccedil;&atilde;o, rela&ccedil;&atilde;o essa que constituiu uma das obsess&otilde;es de Paulo Freire ao longo de toda a sua vida. </p>     <p>O segundo artigo, <i>Colonialidade e insurg&ecirc;ncia: contribui&ccedil;&otilde;es para uma pedagogia latino-americana</i>, de Danilo R. Streck e Cheron Zanini Moretti<i>, </i>discute a pedagogia latino-americana e a produ&ccedil;&atilde;o de conhecimento numa perspectiva de supera&ccedil;&atilde;o da colonialidade pedag&oacute;gica. Procura identificar e situar as marcas de pr&aacute;ticas pedag&oacute;gicas de car&aacute;cter emancipat&oacute;rio na Am&eacute;rica Latina, particularmente no interior dos movimentos sociais e de algumas universidades decorrentes da recupera&ccedil;&atilde;o da mem&oacute;ria a partir de refer&ecirc;ncias te&oacute;ricas e pr&aacute;ticas de liberta&ccedil;&atilde;o como as de Jos&eacute; Mart&iacute;, Sim&oacute;n Rodriguez e do movimento zapatista. Os autores afirmam que a hist&oacute;ria do capitalismo mundializado, eurocentrado, marca a hist&oacute;ria da Am&eacute;rica Latina, tendo a colonialidade e a modernidade instalado-se como eixos constitutivos de padr&atilde;o de poder. Nesta linha de racioc&iacute;nio, a educa&ccedil;&atilde;o latino-americana parece estar prisioneira de um destino impeditivo de uma verdadeira educa&ccedil;&atilde;o para a cidadania. O conceito de insurg&ecirc;ncia remete-nos para a luta dos povos contra o esquecimento das suas culturas e contra todas as formas de colonialidade e colonialismo como resposta contra-hegem&oacute;nica: &ldquo;junto com o silenciamento das culturas foram silenciadas suas pedagogias que continuaram sobrevivendo na clandestinidade&rdquo;. </p>     <p>No terceiro artigo, <i>A Universidade e a pluridiversidade epistemol&oacute;gica: a constru&ccedil;&atilde;o do conhecimento em fun&ccedil;&atilde;o de outros paradigmas epistemol&oacute;gicos n&atilde;o ocidentoc&ecirc;ntricos, </i>Manuel Tavares discute os novos modelos de Institui&ccedil;&otilde;es de Ensino Superior nos pa&iacute;ses da Am&eacute;rica Latina e as suas propostas de inclus&atilde;o e de afirma&ccedil;&atilde;o da diversidade cultural, sobretudo afrodescendente e ind&iacute;gena, partindo do princ&iacute;pio de que as universidades convencionais, pelos seus compromissos com o poder econ&oacute;mico-financeiro e com as agendas internacionais impostas pelas organiza&ccedil;&otilde;es neoliberais, pela sua estrutura ainda colonial e pelo grau de colonialidade que invade as dimens&otilde;es do poder e do conhecimento, n&atilde;o t&ecirc;m capacidade para incluir os diversos saberes e promover a interculturalidade. As experi&ecirc;ncias inovadoras das universidades interculturais est&atilde;o enraizadas nas comunidades ind&iacute;genas e afrodescendentes, os seus projetos pretendem responder aos anseios e necessidades dos povos e na&ccedil;&otilde;es que historicamente foram exclu&iacute;dos dos processos de constru&ccedil;&atilde;o social. O autor apresenta e discute a proposta da universidade popular dos movimentos sociais (UPMS) de Boaventura de Sousa Santos e recupera alguns dos princ&iacute;pios do pensamento de Paulo Freire que podem ser aplicados a uma  educa&ccedil;&atilde;o superior emancipat&oacute;ria e popular. O referido artigo, tal como o de Nilma Gomes e Sofia Lerche Vieira, sobre a UNILAB e o de Eust&aacute;quio Rom&atilde;o sobre Paulo Freire e a Universidade constituem j&aacute; colabora&ccedil;&otilde;es te&oacute;ricas importantes para o Projeto Observat&oacute;rio de Educa&ccedil;&atilde;o (OBEDUC), do Programa de P&oacute;s-Gradua&ccedil;&atilde;o em Educa&ccedil;&atilde;o da Universidade Nove de Julho (UNINOVE), financiado pela CAPES. </p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Nilma Lino Gomes e Sofia Lerche Vieira discutem, no quarto artigo, o projeto de uma das novas universidades federais, a Universidade da Integra&ccedil;&atilde;o Internacional da Lusofonia Afrobrasileira (UNILAB), uma universidade multi cam-pi, sediada simbolicamente na cidade de Reden&ccedil;&atilde;o, no Cear&aacute;, primeira cidade brasileira a abolir a escravatura e uma das mais novas institui&ccedil;&otilde;es federais de ensino superior do Brasil. Foi criada pela Lei Federal n&ordm; 12.289/2010 e as suas atividades letivas tiveram inicio em 25 de Maio de 2011. O artigo, <i>UNILAB: uma ponte entre o Brasil e &Aacute;frica</i>, apresenta e discute o projeto desta nova universidade. A sua miss&atilde;o &eacute; a de construir uma ponte hist&oacute;rica entre o Brasil e os pa&iacute;ses de l&iacute;ngua portuguesa, baseada no princ&iacute;pio da coopera&ccedil;&atilde;o solid&aacute;ria e tem um projeto pol&iacute;tico-pedag&oacute;gico diferenciado de matriz multi e intercultural. Abriga estudantes brasileiros e estudantes oriundos dos pa&iacute;ses de  l&iacute;ngua oficial portuguesa &ndash; Angola, Cabo Verde, Guin&eacute; Bissau, Mo&ccedil;ambique, S&atilde;o Tom&eacute; e Pr&iacute;ncipe e Timor Leste e o seu corpo docente &eacute; constitu&iacute;do tamb&eacute;m por professores de diversas nacionalidades. A UNILAB &eacute; parte significativa de um novo movimento expansionista da educa&ccedil;&atilde;o superior no Brasil e que &eacute; fortemente marcado pela interioriza&ccedil;&atilde;o das lutas em prol de pol&iacute;ticas afirmativas na educa&ccedil;&atilde;o superior brasileira. </p>     <p>O quinto artigo, de Jos&eacute; Eust&aacute;quio Rom&atilde;o, est&aacute; subordinado &agrave; tem&aacute;tica <i>Paulo Freire e a Universidade </i> e analisa as contribui&ccedil;&otilde;es do patrono da educa&ccedil;&atilde;o brasileira para uma educa&ccedil;&atilde;o superior popular, democr&aacute;tica e emancipat&oacute;ria. O autor defende que a crise do sistema universit&aacute;rio &eacute; o resultado da crise das sociedades hegem&oacute;nicas que tentam socializar o seu sentimento de crise, universalizando a crise, continuando a sua empreitada colonizadora, afirmando que todo o mundo est&aacute; em crise. Efetivamente, refere o autor, o que est&aacute; em crise &eacute; um modo de produ&ccedil;&atilde;o espec&iacute;fico, uma forma&ccedil;&atilde;o social hist&oacute;rica e uma teoria singular que lhes d&aacute; sustenta&ccedil;&atilde;o ideol&oacute;gica. N&atilde;o &eacute; a ci&ecirc;ncia que est&aacute; em crise, mas um tipo de ci&ecirc;ncia, formulada pelos intelectuais org&acirc;nicos de uma forma&ccedil;&atilde;o social que entrou em uma fase cr&iacute;tica, ou de transi&ccedil;&atilde;o para outro tipo de sociedade. Rom&atilde;o rebate a tese defendida por alguns acad&eacute;micos de que o pensamento de Paulo Freire, pelo seu car&aacute;cter intuitivo e pela aus&ecirc;ncia de t&iacute;tulos acad&eacute;micos do seu promotor, n&atilde;o tem estatuto cient&iacute;fico e n&atilde;o se enquadra no &acirc;mbito da Universidade. Para al&eacute;m de ter discutido a quest&atilde;o do poder nas universidades e o papel dos intelectuais, mostrando que o seu pensamento n&atilde;o se direciona apenas para o ensino n&atilde;o superior, o conceito de educa&ccedil;&atilde;o popular ter&aacute; sido uma das maiores contribui&ccedil;&otilde;es de Paulo Freire para o pensamento pedag&oacute;gico mundial. Neste sentido, os novos modelos de educa&ccedil;&atilde;o superior que surgem no Brasil e noutros pa&iacute;ses da Am&eacute;rica Latina e Caribe mostram como o pensamento de Paulo Freire na sua multidimensionalidade &eacute; um fundamento essencial para a deselitiza&ccedil;&atilde;o da universidade e para uma educa&ccedil;&atilde;o que promova uma ci&ecirc;ncia p&uacute;blica democr&aacute;tica e uma democracia omnilateral. </p>     <p>Para completar o dossier &ldquo;Paulo Freire e a Educa&ccedil;&atilde;o Superior&rdquo;, Noemi Sutil, Lizete Maria Orquiza de Carvalho e Jo&atilde;o Amadeus Pereira Alves discutem a <i>forma&ccedil;&atilde;o de professores e a pesquisa em ensino de F&iacute;sica a partir de uma concep&ccedil;&atilde;o dial&oacute;gica e problematizadora freiriana</i>. Os autores referem que os pressupostos da concep&ccedil;&atilde;o educacional dial&oacute;gico-problematizadora freiriana podem ser integrados no delineamento de uma proposta para forma&ccedil;&atilde;o de professores e pesquisa em ensino de F&iacute;sica. A forma&ccedil;&atilde;o de professores de F&iacute;sica pode ser concebida como processo cont&iacute;nuo de busca de conclus&atilde;o, de humaniza&ccedil;&atilde;o, de liberta&ccedil;&atilde;o. Esse processo n&atilde;o se extingue no ato em que os sujeitos concluem o curso de forma&ccedil;&atilde;o inicial de professores, pelo contr&aacute;rio, implica a continuidade na <i>praxis</i> educativa. A proposta para a forma&ccedil;&atilde;o de professores baseada na reflex&atilde;o e na a&ccedil;&atilde;o colaborativa e dial&oacute;gica sobre as condi&ccedil;&otilde;es existenciais e as constru&ccedil;&otilde;es conjuntas pode ser associada ao desenvolvimento de pesquisa cient&iacute;fica que, cada vez menos, se enclausura no individualismo e, cada vez mais, se abre &agrave; colabora&ccedil;&atilde;o, di&aacute;logo e partilha com o outro. Forma&ccedil;&atilde;o e pesquisa envolvem mudan&ccedil;a de teorias e estruturas, de percep&ccedil;&otilde;es e atitudes dos pesquisadores perante a realidade tendo em vista a sua transforma&ccedil;&atilde;o. </p>     <p>No &acirc;mbito do Dossier RIAIPE, a tem&aacute;tica dos dois artigos apresentados est&aacute; submetida &agrave; tem&aacute;tica Educa&ccedil;&atilde;o Superior, Equidade e Justi&ccedil;a Social. </p>     <p>O primeiro artigo, <i>Equidad en la educaci&oacute;n superior cubana: logros y desaf&iacute;os</i>, de Boris Trist&aacute; P&eacute;rez, Amelia Gort Almeida e Enrique I&ntilde;igo Bajos, analisa a problem&aacute;tica da inclus&atilde;o na Am&eacute;rica Latina tendo em considera&ccedil;&atilde;o o tradicional e hist&oacute;rico car&aacute;ter excludente das universidades, herdeiras de 300 anos de colonialismo. O artigo  concentra-se na realidade cubana e nos esfor&ccedil;os, sobretudo no que diz respeito &agrave;s pol&iacute;ticas sociais, levados a cabo pelo governo cubano sa&iacute;do da Revolu&ccedil;&atilde;o de 1959. Os autores destacam, neste dom&iacute;nio, a cria&ccedil;&atilde;o de um amplo sistema de bolsas de estudo que foram atribu&iacute;das em fun&ccedil;&atilde;o das limita&ccedil;&otilde;es econ&oacute;micas dos estudantes, do interesse social e das necessidades sociais no que diz respeito a especialidades cient&iacute;ficas, a implanta&ccedil;&atilde;o de um amplo sistema de educa&ccedil;&atilde;o especial e, dois anos depois da Revolu&ccedil;&atilde;o, a inclus&atilde;o no texto constitucional da nacionaliza&ccedil;&atilde;o do sistema educacional, com a proibi&ccedil;&atilde;o do ensino privado e atribuindo ao Estado a responsabilidade pela educa&ccedil;&atilde;o, e o car&aacute;ter integrador e sist&eacute;mico do sistema educacional tal como a sua necess&aacute;ria vincula&ccedil;&atilde;o &agrave;s necessidades do pa&iacute;s. O texto constitucional consigna ainda o direito de todos &agrave; educa&ccedil;&atilde;o gratuita, desde o n&iacute;vel b&aacute;sico &agrave; educa&ccedil;&atilde;o superior, independentemente da sua origem social, cor da pele, g&eacute;nero ou cren&ccedil;a religiosa. Apesar da crise econ&oacute;mica, decorrente da dissolu&ccedil;&atilde;o da antiga Uni&atilde;o Sovi&eacute;tica e do bloco do leste europeu -com os quais Cuba mantinha rela&ccedil;&otilde;es econ&oacute;micas privilegiadas - e dos efeitos do bloqueio dos EUA a Cuba, que persiste h&aacute; cerca de 50 anos, mant&eacute;m-se o car&aacute;ter gratuito da educa&ccedil;&atilde;o em todos os n&iacute;veis, apesar dos evidentes custos sociais. Che Guevara afirmava, em 1959, que a universidade n&atilde;o &eacute; de ningu&eacute;m, pertence ao povo de Cuba. Este foi o ponto de partida para a transforma&ccedil;&atilde;o do sistema universit&aacute;rio e da educa&ccedil;&atilde;o superior ao servi&ccedil;o do povo cubano: um sistema  inclusivo direcionado tamb&eacute;m para os grupos mais vulner&aacute;veis e para as mulheres, a vincula&ccedil;&atilde;o da universidade aos outros n&iacute;veis de ensino, a investiga&ccedil;&atilde;o cient&iacute;fica como um fator imprescind&iacute;vel da educa&ccedil;&atilde;o superior, a expans&atilde;o da matr&iacute;cula universit&aacute;ria, a exten&ccedil;&atilde;o e a especializa&ccedil;&atilde;o, medidas que tiveram os seus efeitos ao n&iacute;vel do aumento exponencial da frequ&ecirc;ncia na educa&ccedil;&atilde;o superior. </p>     <p>O segundo artigo, de Julio Ch&aacute;vez Achong, incide sobre os processos de<i> inclus</i>&atilde;o <i>social e da discrimina&ccedil;&atilde;o social na Universidade Nacional Agr&aacute;ria &ndash; La Molina, do Per&uacute;</i>. O estudo, com dimens&atilde;o emp&iacute;rica de car&aacute;ter quantitativo, tem por objetivos o conhecimento das caracter&iacute;sticas de exclus&atilde;o e inclus&atilde;o social na composi&ccedil;&atilde;o dos estudantes de gradua&ccedil;&atilde;o da UNALM, a identifica&ccedil;&atilde;o das percep&ccedil;&otilde;es dos mesmos alunos relativamente &agrave; discrimina&ccedil;&atilde;o social na UNALM e, finalmente, contribuir para a constru&ccedil;&atilde;o de uma agenda de inclus&atilde;o social. O autor trabalha com tr&ecirc;s conceitos fundamentais em torno dos quais desenvolve o seu referencial te&oacute;rico: coes&atilde;o social, inclus&atilde;o social e discrimina&ccedil;&atilde;o. O primeiro tem um car&aacute;ter afirmativo dado que implica um projeto que se destina a criar as condi&ccedil;&otilde;es institucionais necess&aacute;rias para a promo&ccedil;&atilde;o da igualdade de direitos e oportunidades, particularmente da popula&ccedil;&atilde;o que, tradicionalmente, foi reprimida ou impedida de ter acesso aos recursos coletivos. O fen&oacute;meno da inclus&atilde;o consiste, precisamente, em olhar de frente aqueles que historicamente foram marginalizados, olhados de lado, reconhecendo-lhes os mesmos direitos de cidadania plena. Tanto a exclus&atilde;o como a discrimina&ccedil;&atilde;o implicam constru&ccedil;&otilde;es ideol&oacute;gicas que visam a legitima&ccedil;&atilde;o e perpetua&ccedil;&atilde;o das desigualdades. O projeto RIAIPE, de que a UNALM faz parte, visa criar uma corrente contra-hegem&oacute;nica de luta contra todo o tipo de desigualdades, exclus&atilde;o e formas de discrimina&ccedil;&atilde;o. Nas conclus&otilde;es do estudo, o autor refere que a Universidade objeto de estudo emp&iacute;rico n&atilde;o &eacute; uma universidade elitista, mas nela se concentra uma popula&ccedil;&atilde;o estudantil oriunda, sobretudo, da classe m&eacute;dia e que n&atilde;o sofreu um proceso de massifica&ccedil;&atilde;o como outras universidades do Per&uacute;. Apesar disso, o estudo revela a persist&ecirc;ncia de rela&ccedil;&otilde;es de discrimina&ccedil;&atilde;o como algo estrutural e que se manifestam em intoler&acirc;ncia e exclus&atilde;o por motivos raciais e por fatores de ordem econ&oacute;mica.  Todavia, os referidos fen&oacute;menos n&atilde;o s&atilde;o de car&aacute;ter individual, mas algo que se externaliza e &eacute; transferido para outras pessoas. </p> </p>     <p>A ideia inicial da sec&ccedil;&atilde;o <i>Depoimentos</i> foi reunir os fundadores do Instituto Paulo Freire colocando-lhes uma pergunta sobre as dimens&otilde;es do pensamento freiriano e, na perspectiva de cada um deles, qual se aplicaria &agrave; Educa&ccedil;&atilde;o Superior. Lamentavelmente, s&oacute; dois dos fundadores responderam ao desafio: Moacir Gadotti, atual presidente do Instituto Paulo Freire, e Jos&eacute; Eust&aacute;quio Rom&atilde;o, ex-secret&aacute;rio geral e co-fundador do Instituto. Gadotti, apesar de considerar que qualquer um dos princ&iacute;pios pode ser aplicado &agrave; Educa&ccedil;&atilde;o Superior, optou por discorrer sobre o trabalho coletivo como princ&iacute;pio pedag&oacute;gico. Por sua vez, Rom&atilde;o considera que a rela&ccedil;&atilde;o de Paulo Freire com a Educa&ccedil;&atilde;o Superior sempre foi t&atilde;o importante quanto a sua rela&ccedil;&atilde;o com a educa&ccedil;&atilde;o de adultos. Refere ainda que os princ&iacute;pios e propostas metodol&oacute;gicas freirianos se aplicam a qualquer tipo de reflex&atilde;o ou de interven&ccedil;&atilde;o educacionais.  Dos princ&iacute;pios freirianos destaca o que se refere &agrave; vantagem epistemol&oacute;gica dos(as) oprimidos(as). Segundo Paulo Freire, nas rela&ccedil;&otilde;es de opress&atilde;o, emergem os atores hist&oacute;ricos (n&atilde;o naturais, portanto) opressor(a) e oprimido(a). Afirma ainda que somente os oprimidos e oprimidas em se libertando &eacute; que libertar&atilde;o, tamb&eacute;m, os seus opressores(as). Estes(as), ocupados em oprimir e apropriar-se de tudo, n&atilde;o libertam quem quer que seja, nem a si pr&oacute;prios(as). Ora, concordando-se com esta afirma&ccedil;&atilde;o e estendendo-a ao universo mais amplo das rela&ccedil;&otilde;es humanas, poder-se-ia concluir que o pensamento humano s&oacute; se liberta e avan&ccedil;a em rela&ccedil;&atilde;o ao conhecimento institu&iacute;do, quando os(as) oprimidos(as) logram avan&ccedil;ar com o seu conhecimento, universalizando-o.  Em suma, o &ldquo;conhecimento oprimido&rdquo; teria uma vantagem gnosiol&oacute;gica e epistemol&oacute;gica em rela&ccedil;&atilde;o &agrave; &ldquo;ci&ecirc;ncia&rdquo; hegem&ocirc;nica e opressora. Talvez seja, afinal, esta a raz&atilde;o por que alguns acad&eacute;micos hostilizam o pensamento de Paulo Freire. </p>     <p>A sec&ccedil;&atilde;o <i>Documentos</i> pretende ser a prova da dedica&ccedil;&atilde;o e preocupa&ccedil;&atilde;o de Freire em rela&ccedil;&atilde;o &aacute; Universidade e &agrave; Educa&ccedil;&atilde;o Superior. No in&iacute;cio da d&eacute;cada de noventa, do s&eacute;culo XX, Paulo Freire participou de um semin&aacute;rio promovido pela Universidade Nacional Aut&oacute;noma do M&eacute;xico (UNAM) com Miguel Escobar, Alfredo L. Fern&aacute;ndez, Raquel Glazman, Gilberto Guevara-Niebla e Jos&eacute; Angel Pescador, e com a participa&ccedil;&atilde;o de acad&ecirc;micos provenientes de diversas Faculdades e Institutos acad&ecirc;micos. O debate percorreu os temas mais diversos referentes &agrave; educa&ccedil;&atilde;o superior, bem como demarcou a pot&ecirc;ncia da vis&atilde;o educativa de Freire e a consist&ecirc;ncia pol&iacute;tico-pedag&oacute;gica de seus conceitos e da sua concep&ccedil;&atilde;o de educa&ccedil;&atilde;o. Trata-se de um dos poucos textos em que o patrono da educa&ccedil;&atilde;o brasileira teve a oportunidade de aplicar as suas ideias ao contexto universit&aacute;rio. Este documento hist&oacute;rico tem animado pesquisadores de diversos pa&iacute;ses a promoverem pesquisas, estudos e debates que t&ecirc;m a perspectiva freiriana como mote principal. Em 1994, foi feita a tradu&ccedil;&atilde;o desses debates para a l&iacute;ngua inglesa por Peter McLaren e publicada pela State University of New York. A obra est&aacute; dispon&iacute;vel em Ingl&ecirc;s e Castelhano e est&aacute; em prepara&ccedil;&atilde;o a edi&ccedil;&atilde;o portuguesa no Brasil. Aqui fica a refer&ecirc;ncia: (1994) <i>Paulo Freire on higher education</i>: a <i>dialogue at the National University of Mexico</i>. Pref&aacute;cio de Peter McLaren; Introdu&ccedil;&atilde;o de Carlos Alberto Torres; posf&aacute;cio de Colin Lankshear. Albany: State University of New York. </p>     <p>Na sec&ccedil;&atilde;o <i>Di&aacute;logos</i> reproduz-se a entrevista realizada com o Professor Celso de Rui Beisiegel, Professor da USP e um dos principais int&eacute;rpretes brasileiros do pensamento de Paulo Freire. A entrevista foi realizada no seu gabinete na USP e a tem&aacute;tica centrou-se nas implica&ccedil;&otilde;es do pensamento freiriano na Educa&ccedil;&atilde;o Superior. Uma recens&atilde;o cr&iacute;tica efetuada por Ana L&uacute;cia Souza de Freitas do <i>Dicion&aacute;rio Paulo Freire, </i>organizado por D. Streck e J. J. Zitkoski, tamb&eacute;m faz parte deste n&uacute;mero. </p>     <p>Como habitualmente, a <i>Revista Lus&oacute;fona de Educa&ccedil;&atilde;o</i> tem uma preocupa&ccedil;&atilde;o que faz parte da sua hist&oacute;ria: a divulga&ccedil;&atilde;o das pesquisas realizadas ao n&iacute;vel do doutoramento. Da&iacute; a se&ccedil;&atilde;o <i>Teses </i>que d&aacute; conta da preocupa&ccedil;&atilde;o referida. </p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><i>S.</i><i> Paulo, setembro de 2013</i></p>      ]]></body>
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