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</front><body><![CDATA[ <p><b>O Trabalho Coletivo como   Princ&iacute;pio Pedag&oacute;gico</b></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>Moacir Gadotti</b></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>A <i>Revista Lus&oacute;fona de Educa&ccedil;&atilde;o</i> nos coloca uma tarefa nada f&aacute;cil: &ldquo;apresentar um princ&iacute;pio do pensamento de Paulo Freire que possui maior aplicabilidade &agrave; Educa&ccedil;&atilde;o Superior&rdquo;. </p>     <p>Como se trata de uma escolha, precisamos nos perguntar quais seriam os princ&iacute;pios do pensamento freiriano aplic&aacute;veis &agrave; Educa&ccedil;&atilde;o Superior. Para n&atilde;o me estender, neste pequeno texto, gostaria de apontar alguns princ&iacute;pios que poderiam ser escolhidos. Para Paulo Freire a educa&ccedil;&atilde;o n&atilde;o &eacute; um processo neutro porque sempre implica um projeto de Sociedade. Partindo desta politicidade da educa&ccedil;&atilde;o, eu apontaria como seus principais <b>princ&iacute;pios</b>: teorizar a pr&aacute;tica para transform&aacute;-la; reconhecer a legitimidade do saber popular numa &eacute;poca de extremado elitismo; construir uma ci&ecirc;ncia aberta &agrave;s necessidades populares (relev&acirc;ncia social como crit&eacute;rio de qualidade da ci&ecirc;ncia); utilizar um m&eacute;todo de ensino e de pesquisa que parta da leitura da realidade (leitura do mundo); harmonizar o formal e o n&atilde;o-formal, portanto, n&atilde;o considerar a universidade ou a escola como &uacute;nicos espa&ccedil;os de constru&ccedil;&atilde;o de conhecimentos; a defesa de uma educa&ccedil;&atilde;o p&uacute;blica popular, que atenda, com qualidade, aos interesses da maioria da popula&ccedil;&atilde;o, superando padr&otilde;es elitistas. </p>     <p>Qualquer um desses princ&iacute;pios poderia ser escolhido. Entretanto, prefiro me deter mais no trabalho coletivo como princ&iacute;pio pedag&oacute;gico, defendido por ele como uma forma de incidir, simultaneamente, sobre o curr&iacute;culo e sobre a gest&atilde;o. Ele traduziu esse princ&iacute;pio, de um lado, pela sua vis&atilde;o interdisciplinar do curr&iacute;culo, das ci&ecirc;ncias, da cultura e da educa&ccedil;&atilde;o, e, de outro, pela defesa intransigente da gest&atilde;o democr&aacute;tica. Para Paulo Freire, a educa&ccedil;&atilde;o &eacute; uma pr&aacute;tica social que se realiza em espa&ccedil;os para al&eacute;m da escola e enquanto pr&aacute;tica social, presente em diferentes espa&ccedil;os, cada vez mais precisamos da constru&ccedil;&atilde;o coletiva. </p>     <p>Dois anos antes de ser nomeado Secret&aacute;rio Municipal de Educa&ccedil;&atilde;o de S&atilde;o Paulo, entre os anos 1987 e 1988, ele participou ativamente de um grupo de reflex&atilde;o constitu&iacute;do de professores de v&aacute;rias &aacute;reas da Universidade de Campinas (UNICAMP) o qual discutia como realizar a interdisciplinaridade n&atilde;o s&oacute; na Universidade, mas, igualmente, nos trabalhos com comunidades populares. No ano seguinte, j&aacute; como Secret&aacute;rio Municipal de S&atilde;o Paulo, Paulo Freire deu in&iacute;cio a um amplo processo de reorienta&ccedil;&atilde;o curricular no qual prop&ocirc;s a discuss&atilde;o da &ldquo;Interdisciplinaridade via Tema Gerador&rdquo; que foi chamada de &ldquo;Projeto Inter&rdquo;. </p>     <p>A a&ccedil;&atilde;o pedag&oacute;gica atrav&eacute;s da interdisciplinaridade e da transdisciplinaridade aponta para a constru&ccedil;&atilde;o de uma escola participativa e decisiva na forma&ccedil;&atilde;o do sujeito social. Interdisciplinaridade e transdisciplinaridade exigem di&aacute;logo que se confunde com o pr&oacute;prio processo educativo. Numa perspectiva emancipat&oacute;ria, n&atilde;o &eacute; poss&iacute;vel ensinar e aprender sem o di&aacute;logo, sem uma comunica&ccedil;&atilde;o dial&oacute;gica. Nesse processo, o educador, sujeito de sua a&ccedil;&atilde;o pedag&oacute;gica, &eacute; capaz de elaborar programas e m&eacute;todos de ensino-aprendizagem, sendo competente para inserir a sua escola numa comunidade. O objetivo fundamental da interdisciplinaridade &eacute; experimentar a viv&ecirc;ncia de uma realidade global que se inscreve nas experi&ecirc;ncias cotidianas do aluno, do professor e do povo e que, na escola tradicional, &eacute; compartimentada e fragmentada. Articular saber, conhecimento, viv&ecirc;ncia, escola, comunidade, meio-ambiente etc &eacute; o objetivo da interdisciplinaridade que se traduz na pr&aacute;tica por um trabalho coletivo e solid&aacute;rio. N&atilde;o h&aacute; interdisciplinaridade sem descentraliza&ccedil;&atilde;o do poder, portanto, sem a gest&atilde;o democr&aacute;tica e sem uma efetiva autonomia da escola. </p>     <p>Na reorienta&ccedil;&atilde;o curricular de Paulo Freire, o processo envolvia tr&ecirc;s fases ou momentos, articulados entre si: o estudo da realidade, a organiza&ccedil;&atilde;o do conhecimento e a aplica&ccedil;&atilde;o do conhecimento. O estudo da realidade era orientado pela problematiza&ccedil;&atilde;o, partindo da hist&oacute;ria de vida dos educadores, educandos e das comunidades, envolvendo visitas, entrevistas, question&aacute;rios e situa&ccedil;&otilde;es significativas para se chegar aos temas geradores. A organiza&ccedil;&atilde;o do conhecimento era feita por meio da sele&ccedil;&atilde;o das &aacute;reas do conte&uacute;do program&aacute;tico, a sistematiza&ccedil;&atilde;o do conhecimento j&aacute; constru&iacute;do, a rela&ccedil;&atilde;o entre o afetivo e o cognitivo e o levantamento de hip&oacute;teses, pressupostos, no&ccedil;&otilde;es e teorias. A aplica&ccedil;&atilde;o do conhecimento implicava no planejamento e na implementa&ccedil;&atilde;o do programa, a reconstru&ccedil;&atilde;o do conhecimento j&aacute; constru&iacute;do, usando como ferramentas n&atilde;o s&oacute; livros e materiais did&aacute;ticos mas, igualmente, a leitura do mundo vivido, visando &agrave; transforma&ccedil;&atilde;o, no processo, do educador e do educando. </p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Na vis&atilde;o de Paulo Freire, a aplica&ccedil;&atilde;o do conhecimento pressupunha necessariamente a demonstra&ccedil;&atilde;o da compreens&atilde;o mais aprofundada por parte do educando mas tamb&eacute;m a apresenta&ccedil;&atilde;o de propostas de mudan&ccedil;a e o compromisso com elas. Ela tinha a ver com o aprofundamento da compreens&atilde;o, do conhecimento e tamb&eacute;m com a capacidade de o educando utilizar o conhecimento constru&iacute;do para a transforma&ccedil;&atilde;o da realidade. Para Paulo Freire, o conhecimento tem uma fun&ccedil;&atilde;o emancipat&oacute;ria: saber pensar por si mesmo, ser autor, sujeito, com autonomia, aprender para governar-se e governar, para ser soberano. A palavra &ldquo;emancipar&rdquo; - do latim ex-manus &ndash; significa tirar a m&atilde;o, tirar o poder de cima. Emancipar seria, ent&atilde;o, &ldquo;retirar a m&atilde;o que agarra&rdquo;, &ldquo;libertar, abrir m&atilde;o de poderes&rdquo;, significa &ldquo;p&ocirc;r fora de tutela&rdquo;. Emancipar-se &eacute;, ent&atilde;o, dizer a quem nos oprime: &ldquo;tire a sua m&atilde;o de cima de mim!&rdquo;. </p>     <p>Paulo Freire falava de uma rigorosidade met&oacute;dica no processo de constru&ccedil;&atilde;o do conhecimento que n&atilde;o pode ser dissociada de uma rigorosidade &eacute;tica. O primeiro dos 27 saberes necess&aacute;rios &agrave; pr&aacute;tica educativa expostos em seu &uacute;ltimo livro Pedagogia da autonomia, &eacute; a &ldquo;rigorosidade met&oacute;dica&rdquo;. A no&ccedil;&atilde;o de rigor em Paulo Freire n&atilde;o &eacute; meramente formal e metodol&oacute;gica; ela n&atilde;o est&aacute; separada da relev&acirc;ncia social do conhecimento. </p>     <p>Por outro lado, a gest&atilde;o democr&aacute;tica defendida por Paulo Freire, n&atilde;o &eacute; s&oacute; um princ&iacute;pio pedag&oacute;gico. Ela &eacute; pressuposto. Sem ela, a constru&ccedil;&atilde;o do conhecimento na perspectiva da emancipa&ccedil;&atilde;o humana n&atilde;o se d&aacute;. Ela faz parte da tradi&ccedil;&atilde;o das chamadas pedagogias participativas e incide positivamente na aprendizagem. Pode-se dizer que a participa&ccedil;&atilde;o e a autonomia comp&otilde;em a pr&oacute;pria natureza do ato pedag&oacute;gico. A participa&ccedil;&atilde;o &eacute; um pressuposto da aprendizagem. N&atilde;o se consegue melhorar a qualidade da educa&ccedil;&atilde;o sem a participa&ccedil;&atilde;o. A melhoria da qualidade da educa&ccedil;&atilde;o e das pol&iacute;ticas educacionais est&aacute; intrinsecamente ligada &agrave; cria&ccedil;&atilde;o de espa&ccedil;os de delibera&ccedil;&atilde;o coletiva. </p>     <p>A gest&atilde;o democr&aacute;tica pode impregnar todos os sistemas e redes de ensino. O princ&iacute;pio da gest&atilde;o democr&aacute;tica tamb&eacute;m n&atilde;o se limita &agrave; educa&ccedil;&atilde;o b&aacute;sica: ela se refere a todos os n&iacute;veis e modalidades de ensino. Ela n&atilde;o est&aacute; separada de uma certa concep&ccedil;&atilde;o da educa&ccedil;&atilde;o. N&atilde;o tem sentido falar de gest&atilde;o democr&aacute;tica no contexto de uma educa&ccedil;&atilde;o tecnocr&aacute;tica ou autorit&aacute;ria. Ela deve ser coerente com uma concep&ccedil;&atilde;o democr&aacute;tica e emancipat&oacute;ria da educa&ccedil;&atilde;o. O princ&iacute;pio da gest&atilde;o democr&aacute;tica n&atilde;o deve ser entendido apenas como pr&aacute;tica participativa e descentraliza&ccedil;&atilde;o do poder, mas como radicaliza&ccedil;&atilde;o da democracia, como uma estrat&eacute;gia de supera&ccedil;&atilde;o do autoritarismo, do patrimonialismo, do individualismo e das desigualdades sociais. Desigualdades educacionais produzem desigualdades sociais. </p>     <p>A quest&atilde;o que se coloca &eacute; como incorporar nas teorias e pr&aacute;ticas do Ensino Superior essa vis&atilde;o interdisciplinar e democr&aacute;tica. Portanto, como realizar um trabalho coletivo na universidade. </p>     <p>Como Piaget, Paulo Freire entendia a interdisciplinaridade como uma etapa para chegar &agrave; <b>transdisciplinaridade</b> na busca da totalidade, isto &eacute;, como atitude e como m&eacute;todo, indispens&aacute;veis ao pesquisador e ao educador e como dimens&atilde;o essencial de tudo o que existe. A interdisciplinaridade est&aacute; na pr&aacute;tica do ensino e da pesquisa porque est&aacute; l&aacute; fora, nas coisas. </p>     <p>A transdisciplinaridade procura compreender mais do que acumular conhecimentos, inclui, agrega, compartilha, n&atilde;o divide. Por isso, Paulo Freire, como cruzador de fronteiras, aproximava a atitude interdisciplinar da atitude transdisciplinar, porque encontrava nas duas, o coletivo instituinte, o trabalho em grupo, a convivialidade, a transversalidade, o di&aacute;logo. &Eacute; nesse sentido que a transdisciplinaridade pode nos ajudar a construir sentido numa era em que muitos estudantes e muitos professores se perguntam que sentido tem estudar isso ou aquilo que pouco significado tem em suas vidas. </p>     <p>Talvez, mais do que nos perguntar quais s&atilde;o os princ&iacute;pios freirianos que podemos &ldquo;aplicar&rdquo; na Educa&ccedil;&atilde;o Superior, dever&iacute;amos nos aprofundar mais na concep&ccedil;&atilde;o de universidade em Paulo Freire. </p>     <p>A Universidade &eacute; um espa&ccedil;o privilegiado de constru&ccedil;&atilde;o do conhecimento e de elabora&ccedil;&atilde;o da cultura. Em sua compreens&atilde;o, o conhecimento &eacute; uma constru&ccedil;&atilde;o social e n&atilde;o uma mera &ldquo;aquisi&ccedil;&atilde;o&rdquo;, &ldquo;assimila&ccedil;&atilde;o&rdquo; de algo pr&eacute;-existente ao sujeito que conhece. N&atilde;o se trata de &ldquo;transpor&rdquo; o conhecimento de quem sabe para quem n&atilde;o sabe. Antes de conhecer o sujeito se &ldquo;interessa por&rdquo;, &ldquo;&eacute; curio-so de&rdquo;... que Paulo Freire chama de &ldquo;curiosidade epistemol&oacute;gica&rdquo; o que o leva apropriar-se do que a humanidade j&aacute; produziu historicamente, desde que isso fa&ccedil;a sentido para ele. No processo de constru&ccedil;&atilde;o do conhecimento passa-se da &ldquo;curiosidade ing&ecirc;nua&rdquo; &agrave; &ldquo;curiosidade epistemol&oacute;gica&rdquo;, diz ele em Pedagogia da autonomia. A Teoria do Conhecimento de Paulo Freire fundamenta-se numa <b>Antropologia</b>, numa concep&ccedil;&atilde;o de ser humano inacabado, inconcluso, incompleto. Ele precisa conhecer para tornar-se sujeito de sua hist&oacute;ria. Ele precisa do outro para completar-se. Por isso, precisa dialogar<i>. </i></p>     <p>Em sua compreens&atilde;o, a universidade deveria ser &ldquo;popular&rdquo;, o que n&atilde;o significa uma universidade dirigida apenas &agrave;s &ldquo;camadas populares&rdquo; e, muito menos, uma universidade &ldquo;empobrecida&rdquo;, &ldquo;aligeirada&rdquo;. Como dizia Kant, o popular se op&otilde;e ao vulgar: enquanto o vulgar empobrece o real, o popular manter toda a sua complexidade. Uma educa&ccedil;&atilde;o superior popular deve ser para todos e de boa qualidade. E ele nos falava de uma &ldquo;nova&rdquo; qualidade. N&atilde;o pode ser a extens&atilde;o da universidade burguesa elitista e sua concep&ccedil;&atilde;o colonialista. Trata-se de uma institui&ccedil;&atilde;o alternativa &agrave; universidade neoliberal que combate toda forma de mercantiliza&ccedil;&atilde;o, privatiza&ccedil;&atilde;o, aliena&ccedil;&atilde;o e desumaniza&ccedil;&atilde;o. </p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Uma universidade popular &eacute; uma universidade sem fronteiras, agregadora, aberta &agrave; diversidade, transversal, sem cercas ou poder acad&ecirc;mico. Ao contr&aacute;rio da merco-universidade e de uma educa&ccedil;&atilde;o submetida &agrave; l&oacute;gica do mercado que cria empresas fornecedoras de professores, sistemas de ensino, curr&iacute;culos e pr&eacute;dios, que avaliam e certificam, a universidade popular ocupa-se do conhecimento cidad&atilde;o, da democracia e da solidariedade, quest&otilde;es exclu&iacute;das do projeto mercantil das ind&uacute;strias do conhecimento. Na vis&atilde;o de Paulo Freire, uma universidade popular n&atilde;o pode prescindir da constru&ccedil;&atilde;o de um projeto de poder popular. N&atilde;o pode haver universidade popular sem projeto pol&iacute;tico-pedag&oacute;gico popular entendido como uma pr&aacute;xis, um processo de experimenta&ccedil;&atilde;o e constru&ccedil;&atilde;o de novas rela&ccedil;&otilde;es sociais n&atilde;o mercantilizadas. </p>     <p>A sociedade contempor&acirc;nea est&aacute; marcada pela quest&atilde;o do conhecimento. E n&atilde;o &eacute; por acaso. O conhecimento tornou-se pe&ccedil;a chave para entender a pr&oacute;pria evolu&ccedil;&atilde;o das estruturas sociais, pol&iacute;ticas e econ&ocirc;micas de hoje. Fala-se muito hoje em sociedade do conhecimento, &agrave;s vezes com impropriedade. Mais do que a era do conhecimento, devemos dizer que vivemos a era da generaliza&ccedil;&atilde;o da informa&ccedil;&atilde;o: existe mais dissemina&ccedil;&atilde;o da informa&ccedil;&atilde;o e de dados do que, propriamente, de constru&ccedil;&atilde;o de conhecimentos. O acesso ao conhecimento emancipador &eacute; ainda muito prec&aacute;rio. </p>     <p>Paulo Freire nos aponta para uma educa&ccedil;&atilde;o do s&eacute;culo XXI e n&atilde;o a &ldquo;expans&atilde;o&rdquo; da educa&ccedil;&atilde;o do s&eacute;culo XIX que temos. Uma educa&ccedil;&atilde;o para a emerg&ecirc;ncia do que ainda n&atilde;o &eacute;, o ainda-n&atilde;o, a utopia, uma educa&ccedil;&atilde;o cr&iacute;tica e criativa. Assim fazendo, estamos assumindo a hist&oacute;ria como possibilidade e n&atilde;o como fatalidade. Educar para a ruptura, para a rebeldia, para a recusa, para dizer &ldquo;n&atilde;o&rdquo;, para gritar, que &eacute;, exatamente, o contr&aacute;rio da educa&ccedil;&atilde;o mercantilizada que temos. A mercantiliza&ccedil;&atilde;o da educa&ccedil;&atilde;o &eacute; um dos desafios mais decisivos da hist&oacute;ria atual, porque ela sobrevaloriza o econ&ocirc;mico em detrimento do humano. S&oacute; uma educa&ccedil;&atilde;o emancipadora poder&aacute; inverter essa l&oacute;gica, atrav&eacute;s da forma&ccedil;&atilde;o para a consci&ecirc;ncia cr&iacute;tica e para a desaliena&ccedil;&atilde;o. </p>     <p>A utopia &eacute; uma categoria central do pensamento de Paulo Freire. Por isso ele se op&otilde;e diametralmente &agrave; educa&ccedil;&atilde;o banc&aacute;ria neoliberal pois o neoliberalismo recusa o sonho e a utopia. Na perspectiva banc&aacute;ria (neoliberal) de universidade a qualidade visa a uniformizar procedimentos e projetos. Nessa concep&ccedil;&atilde;o da qualidade os professores s&atilde;o exclu&iacute;dos da discuss&atilde;o. Eles n&atilde;o t&ecirc;m voz. O que se busca &eacute; a estandardiza&ccedil;&atilde;o (fordismo) da qualidade, da avalia&ccedil;&atilde;o, da aprendizagem. Para essa concep&ccedil;&atilde;o os docentes n&atilde;o t&ecirc;m conhecimento cient&iacute;fico; seu saber &eacute; in&uacute;til. Por isso, n&atilde;o precisam ser consultados. Eles s&oacute; precisam receber receitas, &ldquo;como fazer&rdquo;, sem se perguntar porque fazer. Eles s&oacute; servem para aplicar novas tecnologias: a sala de aula perder&aacute; sua centralidade e a rela&ccedil;&atilde;o <i>professor-aluno</i> entrar&aacute; em decl&iacute;nio em favor da rela&ccedil;&atilde;o <i>aluno-computador. </i>Freire se op&ocirc;s a essa mercantiliza&ccedil;&atilde;o da educa&ccedil;&atilde;o, ao ensino burocratizado e ao pragmatismo pol&iacute;tico que reduz a educa&ccedil;&atilde;o &agrave; escolariza&ccedil;&atilde;o, uma educa&ccedil;&atilde;o estandardizada, que exclui o debate pol&iacute;tico do mundo que queremos. </p>      ]]></body>
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