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</front><body><![CDATA[ <p><b>O pensamento de Paulo Freire:   suas implica&ccedil;&otilde;es na Educa&ccedil;&atilde;o Superior</b></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>Eduardo Santos e Manuel Tavares conversam   com o Professor Rui Beisiegel</b></p>     <p>Celso de Rui Beisiegel possui gradua&ccedil;&atilde;o em Ci&ecirc;ncias Sociais (1958), mestrado em Sociologia (1964) e doutorado em Sociologia (1972) pela Universidade de S&atilde;o Paulo &ndash; USP. Exerceu a chefia do Departamento de Filosofia da Educa&ccedil;&atilde;o e Ci&ecirc;ncias da Educa&ccedil;&atilde;o e a Diretoria da Faculdade de Educa&ccedil;&atilde;o da Universidade de S&atilde;o Paulo, e foi Pr&oacute;-Reitor de Gradua&ccedil;&atilde;o da USP entre 1990 e 1993. Sua experi&ecirc;ncia acad&eacute;mica situa-se na &aacute;rea de Educa&ccedil;&atilde;o, com &ecirc;nfase em Sociologia da Educa&ccedil;&atilde;o, atuando principalmente nos seguintes temas: educa&ccedil;&atilde;o popular, pol&iacute;tica educacional, sociologia da educa&ccedil;&atilde;o e educa&ccedil;&atilde;o de jovens e adultos.&nbsp;Autor de vasta obra, disseminada por livros e artigos cient&iacute;ficos, destacam-se aquelas em que discorre sobre o pensamento de Paulo Freire e a educa&ccedil;&atilde;o popular: </p>     <p>(2010) <i>Paulo Freire</i>. Recife: Editora Massangana. </p>     <p>(1982) <i>Pol&iacute;tica e Educa&ccedil;&atilde;o Popular. A teoria e a pr&aacute;tica de Paulo Freire no Brasil.</i> S&atilde;o Paulo: &Aacute;tica. </p>     <p>(1974) <i>Estado e Educa&ccedil;&atilde;o Popular: Um estudo sobre a educa&ccedil;&atilde;o de adultos</i>. S&atilde;o Paulo: Livraria Pioneira Editora. </p>     <p>A entrevista do Prof. Celso de Rui Beisiegel, um dos maiores especialistas brasileiros no pensamento de Paulo Freire, com quem conviveu e debateu os temas da educa&ccedil;&atilde;o, foi realizada no seu gabinete na USP em junho de 2013, tendo por tem&aacute;tica central &ldquo;Paulo Freire e a Educa&ccedil;&atilde;o Superior&rdquo;. </p>     <p>Esta entrevista, que a seguir se reproduz, foi uma amabilidade especial do Professor Celso para com a <i>Revista Lus&oacute;fona de Educa&ccedil;&atilde;o </i>e, por isso, aqui ficam os nossos sinceros agradecimentos. </p>     <p><b>Eduardo Santos</b><i>: Podemos chamar ou nominar Paulo Freire de fil&oacute;sofo, soci&oacute;logo, antrop&oacute;logo, educador, epistem&oacute;logo... Quais as distintas facetas do professor Paulo Freire que o senhor entende que correspondem mais &agrave; verdade hist&oacute;rica da atua&ccedil;&atilde;o pol&iacute;tica e profissional do nosso patrono da educa&ccedil;&atilde;o brasileira? </i></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><b>Celso Beisiegel</b>: Paulo Freire se formou em direito em 1947, come&ccedil;ando na educa&ccedil;&atilde;o depois de uma pequena experi&ecirc;ncia na advocacia. Concluiu que o Direito n&atilde;o era a sua voca&ccedil;&atilde;o. Depois de uma experi&ecirc;ncia, como professor de Portugu&ecirc;s, no Col&eacute;gio Pessoa, um col&eacute;gio tradicional muito respeitado em Recife, foi convidado por um companheiro de estudos para entrar numa organiza&ccedil;&atilde;o assistencial da ind&uacute;stria, o SESI de Pernambuco, iniciando a sua atividade como respons&aacute;vel pela se&ccedil;&atilde;o de educa&ccedil;&atilde;o. Depois de formado em direito, j&aacute; trabalhando no SESI, o Paulo deu aula de filosofia e hist&oacute;ria da educa&ccedil;&atilde;o na Escola de Servi&ccedil;o Social e na Faculdade de Belas Artes, ambas do Recife. Ent&atilde;o, ele era advogado, professor de portugu&ecirc;s, de hist&oacute;ria e de filosofia da educa&ccedil;&atilde;o; segundo algumas entrevistas de contempor&acirc;neos (por ex., o Paulo Rosas), o Paulo tinha tamb&eacute;m uma viv&ecirc;ncia universit&aacute;ria, na qual j&aacute; exercia uma certa lideran&ccedil;a. O Paulo Rosas come&ccedil;ou a ter uma atividade com Paulo Freire, que ainda era jovem e j&aacute; pertencia &agrave; Juventude Cat&oacute;lica (JUC) e fazia trabalhos com os oper&aacute;rios do SESI. O trabalho como professor na Escola de Servi&ccedil;o Social permitiu-lhe conhecer um conjunto de pessoas, sobretudo mulheres, ligadas &agrave; Educa&ccedil;&atilde;o (Anita Paes Barreto, Dolores, Lourdes Coelho) e que eram militantes cat&oacute;licas com atividade na educa&ccedil;&atilde;o e no servi&ccedil;o social. A atua&ccedil;&atilde;o de Paulo Freire foi muito ampla, mas a sua milit&acirc;ncia acabou se consolidando na &aacute;rea da Educa&ccedil;&atilde;o, dentro de um mundo onde ele convivia com fil&oacute;sofos, soci&oacute;logos, historiadores da educa&ccedil;&atilde;o, militantes da assist&ecirc;ncia social, a Escola de Servi&ccedil;o Social. Ele foi, sobretudo, um homem identificado com a &aacute;rea da educa&ccedil;&atilde;o, e desde o come&ccedil;o atuou numa perspectiva ampla de educador. Ent&atilde;o, Paulo Freire &eacute; tudo isso: educador, soci&oacute;logo, fil&oacute;sofo, epistem&oacute;logo, antrop&oacute;logo. </p>     <p>Eu conheci o Paulo como algu&eacute;m que havia acabado de propor um m&eacute;todo de alfabetiza&ccedil;&atilde;o de adultos e come&ccedil;ou a ser conhecido no pa&iacute;s a partir dessa proposta. No entanto, apesar disso, Paulo Freire dizia que n&atilde;o era um alfabetizador de adultos, mas que o seu trabalho em educa&ccedil;&atilde;o de adultos surge a partir das suas atividades no Recife com os trabalhadores e oper&aacute;rios do SESI, e foram estas circunst&acirc;ncias que o encaminharam para a educa&ccedil;&atilde;o de adultos; tanto que ele me disse e em outras entrevistas: &ldquo;se eu tivesse ido para a arquitetura, provavelmente teria me encaminhado para a ambienta&ccedil;&atilde;o popular no campo, no Recife, ou se tivesse ido para &aacute;rea da sa&uacute;de ter-me-ia encaminhado para a sa&uacute;de popular&rdquo;, mas ele enfatizava muito esta sua sensibilidade &agrave;s necessidades populares. Ele vai se formar tendo como foco esta atividade na educa&ccedil;&atilde;o, mas vai desenvolver o seu pensamento tendo o homem e a sociedade como refer&ecirc;ncias e uma preocupa&ccedil;&atilde;o social como elemento predominante. Era mesmo uma quest&atilde;o de sensibilidade e que, por isso, assumiu na &aacute;rea da educa&ccedil;&atilde;o popular essa dimens&atilde;o de alfabetiza&ccedil;&atilde;o. </p>     <p>Ele come&ccedil;a a produzir, a elaborar esta proposta de alfabetiza&ccedil;&atilde;o porque, como um educador e como um intelectual n&atilde;o s&oacute; do SESI, onde ele ficou at&eacute; ao come&ccedil;o da d&eacute;cada de 50, mas tamb&eacute;m nas escolas de servi&ccedil;o social e de belas artes, ele formava com um grupo de intelectuais progressistas, atuantes, e nesta condi&ccedil;&atilde;o foi um dos fundadores do Movimento de Cultura Popular do Miguel Arraes<a name="top1" id="top1"></a><a href="#1"><sup>1</sup></a>. Por meio de um movimento desse tipo Arraes pensava em levar educa&ccedil;&atilde;o para as periferias carentes do Recife, onde n&atilde;o havia escolas (nessa &eacute;poca, em 50, em S&atilde;o Paulo, j&aacute; havia escolas prim&aacute;rias p&uacute;blicas em praticamente toda a metr&oacute;pole, mesmo nas cidades do interior). Ent&atilde;o, o Arraes e a Anita<a name="top2" id="top2"></a><a href="#2"><sup>2</sup></a>, que foi secret&aacute;ria da educa&ccedil;&atilde;o do primeiro governo de Arraes, usa as oficinas, Anita forma as professoras prim&aacute;rias para trabalharem nas oficinas da prefeitura, produzem carteiras e n&oacute;s vamos encontrar nos centros populares, nos clubes, nas igrejas, os espa&ccedil;os necess&aacute;rios para, reunindo professores, mobili&aacute;rios e locais, dar pelo menos escola prim&aacute;ria para toda essa juventude que n&atilde;o tem escola. Essa foi uma proposta levada aos intelectuais que estavam reunidos na frente ampla do Recife, que elegeu o Arraes, e isso cai na cabe&ccedil;a de intelectuais gerando grande discuss&atilde;o e acaba por se transformar numa coisa bem diferente: uma proposta de um movimento de cultura popular que envolvia inclusive uma ideia de uma universidade popular, de teatro popular, de educa&ccedil;&atilde;o popular, de uma cartilha. </p>     <p><b>Eduardo Santos</b><i>: Nas origens mais remotas da d&eacute;cada de 50, &eacute; poss&iacute;vel identificar j&aacute; uma rela&ccedil;&atilde;o da pr&oacute;pria educa&ccedil;&atilde;o popular com uma proposta ou uma proto-proposta de uma universidade popular, ou &eacute; uma coisa ainda difusa? </i></p>     <p><b>Celso Beisiegel</b>: &Eacute; difuso, mas o popular come&ccedil;a a vir &agrave; tona. &Eacute; consequ&ecirc;ncia direta das mudan&ccedil;as que ocorrem com o final da segunda guerra mundial, em que muda o mundo. Uma coisa que era considerada abomin&aacute;vel, o comunismo, agora passa a ser de certa forma uma express&atilde;o pol&iacute;tico-cultural popular de um dos vencedores do totalitarismo; durou pouco, mas, pelo menos neste per&iacute;odo, foi importante. O PCb&atilde;o<a name="top3" id="top3"></a><a href="#3"><sup>3</sup></a> se tornou uma coisa relativamente importante, &eacute; at&eacute; dif&iacute;cil contar isso hoje, mas naquela &eacute;poca o Partido conseguiu ajudar a eleger o Ademar no estado de S&atilde;o Paulo. </p>     <p><b>Manuel Tavares</b><i>: No Ocidente, h&aacute; acad&ecirc;micos, sobretudo no Norte da Europa, que defendem que o pensamento de Paulo Freire &eacute; v&aacute;lido para os pa&iacute;ses do terceiro mundo, que &eacute; um pensamento terceiro-mundista. Concorda com essa perspectiva ou poder&aacute; afirmar-se que o pensamento de Paulo Freire tem uma dimens&atilde;o universalista e, por isso, &eacute; aplic&aacute;vel em todos os pa&iacute;ses onde existem explora&ccedil;&atilde;o e opress&atilde;o? </i></p>     <p><b>Celso Beisiegel</b>: Isso &eacute; muito dif&iacute;cil de responder, n&atilde;o existe o Paulo Freire que &eacute; isto e, portanto, cabe naquilo, mas n&atilde;o cabe nisto! O Paulo &eacute; um vulc&atilde;o em movimento desde que ele come&ccedil;a a atuar. Ele gastou muito esfor&ccedil;o e muita entrevista para justificar porque era contra cartilhas. Uma das coisas que me disse &eacute; que ele partiu para propor um m&eacute;todo de alfabetiza&ccedil;&atilde;o porque era contra a cartilha, porque a cartilha &eacute; o pensamento de quem sabe depositado, levado para aquele que n&atilde;o sabe; quem sabe, age verticalmente sobre aquele que n&atilde;o sabe. Depois, ele vai falar em educa&ccedil;&atilde;o banc&aacute;ria e educa&ccedil;&atilde;o libertadora. Naquela &eacute;poca, o MCP - Movimento de Cultura Popular do Recife, do qual Paulo era um dos diretores, produziu uma cartilha muito interessante a pedido do Servi&ccedil;o de Educa&ccedil;&atilde;o Rural do pr&oacute;prio Movimento, e o Paulo justificava: &ldquo;N&atilde;o, eu criei uma alternativa, sou contra a cartilha!&rdquo;, ou seja, ele era contra essa coisa de quem sabe botar alguma coisa na cabe&ccedil;a de quem n&atilde;o sabe. </p>     <p>Algum tempo e muitas perip&eacute;cias depois, o Paulo teria um envolvimento real com a liberta&ccedil;&atilde;o colonial - a descoloniza&ccedil;&atilde;o - e a constru&ccedil;&atilde;o de na&ccedil;&otilde;es naquela terra arrasada pelos colonizadores. Numa dessas vincula&ccedil;&otilde;es, com a Tanz&acirc;nia e, sobretudo, com a Guin&eacute; Bissau, ele escreveu um livro, que &eacute; uma longa introdu&ccedil;&atilde;o, e depois <i>Cartas a Guin&eacute; Bissau</i>. Nas <i>Cartas </i>ele se refere ao papel do PAIGC (Partido Africano para a Independ&ecirc;ncia de Guin&eacute; e Cabo Verde) na educa&ccedil;&atilde;o popular e diz, em muitas passagens, que aquele Partido &eacute; um grande mestre do seu povo, que Amilcar Cabral &eacute; o grande mestre de seu povo. Ele prop&otilde;e, ent&atilde;o, a pr&aacute;tica da educa&ccedil;&atilde;o daquelas popula&ccedil;&otilde;es extremamente pobres, com uma consci&ecirc;ncia ing&ecirc;nua, daquelas pessoas que n&atilde;o saem do seu c&iacute;rculo; n&atilde;o se trata de uma lavagem cerebral, mas de alguma coisa que &eacute; feita a partir de quem sabe como vai ser o processo e, por isso, h&aacute; uma certa contradi&ccedil;&atilde;o com o pensamento e m&eacute;todo do pr&oacute;prio Paulo Freire. </p>     <p><b>Eduardo Santos</b><i>: Uma educa&ccedil;&atilde;o de fora para dentro... </i></p>     <p><b>Celso Beisiegel</b>: ...a liberta&ccedil;&atilde;o vem de cima para baixo, vem do mestre para aqueles que t&ecirc;m que seguir as ordens do mestre e o Paulo, que foi um homem radicalmente honesto em tudo o que fez, estava honestamente fazendo isto. Ele estava em absoluta contradi&ccedil;&atilde;o com aquilo que defendia naquela fase que n&atilde;o aceitava a cartilha, mas a cartilha do PAIGC fica, como se fosse um rebento do PCz&atilde;o funcionando como cartilha. Ao mesmo tempo, numa das cartas, ele prop&otilde;e que uma tabanca<a name="top4" id="top4"></a><a href="#4"><sup>4</sup></a> seja trabalhada como se fosse um c&iacute;rculo de cultura, seja tomada como o n&uacute;cleo a partir do qual se faz a educa&ccedil;&atilde;o, pois j&aacute; n&atilde;o se trata de mais um grupo de analfabetos: agora &eacute; uma popula&ccedil;&atilde;o que tem que ser mobilizada e educada para criar uma p&aacute;tria. Paulo Freire foi um educador: a coisa concreta que ele est&aacute; propondo l&aacute; na Guin&eacute; Bissau continua sendo daquele Freire que busca, com a educa&ccedil;&atilde;o, chegar a uma conscientiza&ccedil;&atilde;o. Muito disso mudou o pr&oacute;prio universo te&oacute;rico do Paulo Freire; j&aacute; no Chile, ele cita Mao-Tse-Tung, depois viria a conhecer Gramsci, o que lhe permite ir mudando o seu universo te&oacute;rico. Mas as quest&otilde;es que ele coloca como educador n&atilde;o se alteram, ele continua fiel &agrave;quilo que est&aacute; buscando, o que muda &eacute; a perspectiva social. </p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>H&aacute; v&aacute;rios trabalhos em que Paulo fala da Igreja, um deles &eacute; sobre o papel educativo das igrejas na Am&eacute;rica Latina. &Eacute; um texto muito violento porque a Igreja estava como a gente a conhece ainda hoje, n&atilde;o uma Igreja diferente que se est&aacute; recriando, mas que se perdeu e que est&aacute; sufocada. Para Paulo Freire s&oacute; se entende a Igreja como alguma coisa hist&oacute;rica, mas a Igreja, ao contr&aacute;rio, era igual &agrave; &eacute;poca da Inquisi&ccedil;&atilde;o. </p>     <p><b>Eduardo Santos</b>: <i>H&aacute;, pelo menos, tr&ecirc;s cr&iacute;ticas fortes, vindas da pr&oacute;pria Academia, a Paulo Freire e a seu pensamento pedag&oacute;gico: a primeira, que as ideias freirianas s&oacute; teriam aplicabilidade &agrave; realidade terceiro-mundista; outra, &eacute; que a obra dele n&atilde;o constitui propriamente um trabalho cientifico, &eacute; muito mais uma obra com certos laivos did&aacute;ticos e razoavelmente superficiais, talvez at&eacute; pelo estilo missivista de v&aacute;rias delas (Cartas a Guin&eacute; Bissau, Cartas a Cristina etc.); uma terceira quest&atilde;o &eacute; que o m&eacute;todo ou t&eacute;cnica que ele criou, e que chama de c&iacute;rculo de cultura, tamb&eacute;m &eacute; aplic&aacute;vel exclusivamente a adultos em processo de alfabetiza&ccedil;&atilde;o. Em torno dessas tr&ecirc;s grandes cr&iacute;ticas que v&ecirc;m da pr&oacute;pria Academia, impeditivas para que Paulo Freire tenha um pouco mais de dignidade acad&ecirc;mica no ensino superior, qual a sua perspectiva? </i></p>     <p><b>Celso Beisiegel</b>: Eu desconfio que l&aacute; em Wall Street, por exemplo, n&atilde;o tem muita aplica&ccedil;&atilde;o, mas o terceiro mundo tem uma presen&ccedil;a muito forte no primeiro mundo. N&atilde;o conhe&ccedil;o intensamente a realidade de Portugal, que se defendeu de alguns movimentos, embora tenha tamb&eacute;m uma boa percentagem de popula&ccedil;&atilde;o africana. Na Espanha, essa popula&ccedil;&atilde;o &eacute; muito grande e perturbadora; na Alemanha, os portugueses, espanh&oacute;is, turcos, tamb&eacute;m perturbam... A quest&atilde;o talvez fosse mais pass&iacute;vel de exame se a gente mudasse um pouco: n&atilde;o &eacute; uma quest&atilde;o dos oprimidos mesmo, a opress&atilde;o &eacute; uma realidade que cada um de n&oacute;s vive, &eacute; um trabalho do psicanalista tentar trabalhar junto a cada um de n&oacute;s as nossas respectivas opress&otilde;es e da sociedade. </p>     <p>O mundo oprime e todos t&ecirc;m a sua carga de opress&atilde;o, mas a opress&atilde;o econ&ocirc;mica e social &eacute; aquela que se materializa de uma dimens&atilde;o politicamente transformadora - a&iacute; voc&ecirc; tem realmente um problema de educa&ccedil;&atilde;o, opress&atilde;o e de possibilidades transformadoras nessa educa&ccedil;&atilde;o do oprimido. </p>     <p>Eu terminei o livro que escrevi sobre Paulo Freire exatamente colocando essa quest&atilde;o, quer dizer, talvez Freire acabe sendo um educador proibido de educar porque esta sua educa&ccedil;&atilde;o &eacute;, numa ou outra perspectiva, uma educa&ccedil;&atilde;o revolucion&aacute;ria. O Paulo, desde o come&ccedil;o, passou a ser um educador importante em fun&ccedil;&atilde;o da percep&ccedil;&atilde;o desse fato. Ele foi um dos principais &ldquo;homenageados&rdquo; pela ditadura exatamente pela percep&ccedil;&atilde;o disto: ele era visto como uma amea&ccedil;a. Ent&atilde;o, quando se fala em educador de terceiro mundo, tem a sua razoabilidade, porque o impacto de propostas como as dele seguramente &eacute; muito maior onde essas massas populares s&atilde;o mais oprimidas, onde se tem uma possibilidade transformadora maior. N&atilde;o acredito que seria poss&iacute;vel desenvolver sua proposta nos Estados Unidos, por exemplo. Fala-se muito de Paulo Freire nos Estados Unidos; num artigo que escrevi sobre Paulo e que publiquei em espanhol, numa revista virtual que um colega aqui da faculdade editava, acabou sendo um dos artigos de Filosofia da Educa&ccedil;&atilde;o mais lidos no Google. A quest&atilde;o da conscientiza&ccedil;&atilde;o, por exemplo, seria com certeza rejeitada num pa&iacute;s opressivo, cultural e politicamente, como os Estados Unidos. </p>     <p><b>Eduardo Santos</b><i>: Nos Estados Unidos, nomeadamente em Los Angeles, um dos membros do Instituto Paulo Freire, Peter Lawnds, trabalha na periferia com popula&ccedil;&otilde;es que tendem a ser ou s&atilde;o oprimidas. </i></p>     <p><b>Celso Beisiegel</b>: Imagine se seria poss&iacute;vel, na Cor&eacute;ia do Norte ou na Uni&atilde;o Sovi&eacute;tica, uma educa&ccedil;&atilde;o que contesta exatamente aquilo que gera o explorado, numa sociedade exploradora. O explorador sempre &ndash; pelo menos na hora em que isso come&ccedil;a a ter uma consist&ecirc;ncia &ndash; vai ser sufocado. Uma educa&ccedil;&atilde;o dos oprimidos sugere terceiro mundo. No que diz respeito &agrave; alfabetiza&ccedil;&atilde;o de adultos, a educa&ccedil;&atilde;o que Paulo Freire prop&otilde;e n&atilde;o &eacute; apenas a alfabetiza&ccedil;&atilde;o. Pega a palavra geradora &ldquo;arroz&rdquo;, por exemplo, e deriva para as quest&otilde;es econ&ocirc;micas. Como educador, Freire foi muito marcado nesta dire&ccedil;&atilde;o, foi por a&iacute; que ele come&ccedil;ou e por a&iacute; continuou. </p>     <p><b>Eduardo Santos</b>:<i> No F&oacute;rum Social Mundial (FSM), h&aacute; uns tr&ecirc;s ou quatro anos, em Porto Alegre, fizemos c&iacute;rculos de cultura, numa tentativa de testar o m&eacute;todo, na pr&aacute;tica, com pessoal universit&aacute;rio, professores, estudantes etc., para buscar dar-lhe, digamos assim, um certo estatuto ou dignidade cientifica, inclusive como processo de pesquisa, talvez mais propriamente de pesquisa-a&ccedil;&atilde;o. Uma das cr&iacute;ticas da Academia &ndash; e n&atilde;o apenas em rela&ccedil;&atilde;o a Paulo Freire &ndash; &eacute; que n&atilde;o h&aacute; ou n&atilde;o havia cientificidade e profundidade naquilo que ele fazia. </i></p>     <p><b>Celso Beisiegel</b>: Essa &eacute; uma quest&atilde;o dif&iacute;cil de responder. A grande quest&atilde;o que me parece ter sido at&eacute; resposta para alguns problemas deste tipo &eacute; a famosa rela&ccedil;&atilde;o entre educando e educador, que ningu&eacute;m educa ningu&eacute;m, que se educam em comunh&atilde;o. O Paulo chega a dizer que quem sabe informa aquele que n&atilde;o sabe daquilo que ele sabe, mas depois ele vai redesvelando aquele objeto junto com o processo de desvelamento realizado pelo seu educando. Tudo isso &eacute; vago: como voc&ecirc; vai transformar isso em alguma coisa que tenha um estatuto cient&iacute;fico? &Eacute; complicado! Eu e o Paulo t&iacute;nhamos um grupo constitu&iacute;do por n&oacute;s, a Dotti, a irm&atilde; da F&aacute;tima, o Paulo, o Barret&atilde;o, a Vera Barreto<a name="top5" id="top5"></a><a href="#5"><sup>5</sup></a>, para tentar desenvolver uma proposta que o Paulo Freire tinha recebido para trabalhar com os professores leigos. Lembro-me que, quando prosperou, Paulo disse: &ldquo;Imaginem se a gente pegasse o Celso e lhe perguntasse: como &eacute; que voc&ecirc; educa na Universidade?&rdquo; Eu fiquei quieto com os meus bot&otilde;es &ndash; nunca procurei desenvolver di&aacute;logo nas minhas aulas! Eu estudei Weber. Ent&atilde;o, explico para os meus alunos como &eacute; que se coloca a quest&atilde;o dos tipos ideais, como isso &eacute; utilizado na pesquisa, exemplos de soci&oacute;logos que realizam as propostas de Weber nas suas investiga&ccedil;&otilde;es. D&aacute; para pensar, por exemplo, como &eacute; que a gente chega ao processo de mais valia com meus alunos universit&aacute;rios. &Eacute; claro que eles n&atilde;o s&atilde;o explorados da mesma forma, pelo menos nem todos; n&atilde;o &eacute; f&aacute;cil! A minha rela&ccedil;&atilde;o nunca foi uma rela&ccedil;&atilde;o dialogal como aquela que o Paulo propunha. N&atilde;o sei se aquelas etapas do m&eacute;todo, se aquelas pr&aacute;ticas do m&eacute;todo s&atilde;o o mais importante; elas foram o modo mediante o qual Paulo Freire exprimiu uma perspectiva que ia se formando dele sobre o homem, a educa&ccedil;&atilde;o e a sociedade, mas eventualmente voc&ecirc; pode medir valores &ndash; aqueles ou outros &ndash; de uma forma diversa, sem trabalhar a famosa conscientiza&ccedil;&atilde;o com os portadores de uma consci&ecirc;ncia ing&ecirc;nua, naqueles termos que o Paulo os colocava naquela &eacute;poca. </p>     <p>Freire influenciou seriamente amplos setores do pensamento, enriqueceu bastante a pr&aacute;tica dos educadores, inclusive no ensino superior. O pensamento de Paulo Freire &eacute; muito mais amplo do que trabalhar com jovens e adultos analfabetos. Este foi o foco da atua&ccedil;&atilde;o do Paulo, mas ele foi um educador. </p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Um amigo muito querido e meu orientador de doutorado, Florestan. Florestan, foi cassado. Ficou o Luis Pereira<a name="top6" id="top6"></a><a href="#6"><sup>6</sup></a> na minha defesa de livre-doc&ecirc;ncia; o Luis me criticou, dizendo: &ldquo;Voc&ecirc; est&aacute; monumentalizando o Paulo Freire&rdquo;. N&atilde;o, meu trabalho &eacute; critico em rela&ccedil;&atilde;o ao Paulo, mas o Paulo &eacute; uma coisa muito c&eacute;lebre, muito importante no panorama educacional. </p>     <p>No que diz respeito &agrave; profundidade, n&atilde;o h&aacute; nenhum exemplo melhor do que a proposta de Paulo Freire para entender a teoria formulada por Marx para a educa&ccedil;&atilde;o, muito mais do que o modo como os famosos educadores sovi&eacute;ticos a explicam. Cada um deles &eacute; not&aacute;vel, mas a proposta de Paulo Freire &eacute; muito mais ampla. Nela, a ci&ecirc;ncia do f&iacute;sico, do astr&ocirc;nomo, tem que ser entendida....a ci&ecirc;ncia exprimiu-se na ditadura. Essa famosa ci&ecirc;ncia sem fronteiras &eacute; um neg&oacute;cio respeit&aacute;vel, estimulante. Ajudou a construir esse mundo em que a gente vive, que &eacute; um mundo desgra&ccedil;ado. </p>     <p>H&aacute; outras formas de atuar t&atilde;o fronteiri&ccedil;as quanto a daquele indiv&iacute;duo que est&aacute; tentando chegar &agrave; lua, quer dizer, o conceito de pensamento de fronteira &eacute; um conceito que tamb&eacute;m precisa ser trabalhado. Seguramente, o pensamento de Paulo Freire &eacute; um pensamento de fronteira na educa&ccedil;&atilde;o. Isso n&atilde;o quer dizer que ele seja original em tudo: h&aacute; aspetos que n&atilde;o t&ecirc;m qualquer originalidade. Numa aula que frequentei, penso que h&aacute; uns sessenta anos, o professor afirmou que os gregos j&aacute; tinham dito tudo aquilo que est&aacute;vamos dizendo. E &eacute; verdade. Na base do pensamento de Paulo Freire h&aacute; uma s&eacute;rie de pensadores que foram seus interlocutores: Mannheim, Goldmann...O Paulo n&atilde;o tem uma consci&ecirc;ncia ing&ecirc;nua, mas uma consci&ecirc;ncia cr&iacute;tica. As modalidades de consci&ecirc;ncia, cr&iacute;tica, transitiva..nada disso &eacute; original. Mas o pensamento do Paulo &eacute; original! </p>     <p>Nesse meu estudo defendo que o Paulo foi o maior educando das suas pr&oacute;prias ideias e do seu m&eacute;todo. Criou uma proposta que o lan&ccedil;ou numa bola de neve que foi crescendo e se reconstruindo. N&atilde;o aceito, por isso, esse tipo de cr&iacute;tica, que o Paulo era superficial. Em algumas coisas ele pode at&eacute; ser, mas ao desbravar um campo como este e dada a forma pela qual ele vai percorrendo seus caminhos, estamos perante um homem muito inteligente, com uma sensibilidade social &agrave; flor da pele, que criou uma proposta que &eacute; realmente original. </p>     <p><b>Eduardo Santos</b>: <i>Do seu discurso infere-se o papel de educador de Paulo Freire. De certo modo, essa seria a s&iacute;ntese das suas m&uacute;ltiplas forma&ccedil;&otilde;es. No entanto, caracterizando-se como educador, n&atilde;o atribui o nome de c&iacute;rculo pedag&oacute;gico &agrave; sua t&eacute;cnica, mas de c&iacute;rculo de cultura. O senhor n&atilde;o pensa que a&iacute; reside uma inova&ccedil;&atilde;o que busca atribuir precis&atilde;o &agrave; linguagem, j&aacute; que Paulo Freire era mestre da palavra, utilizava-a com muita precis&atilde;o? </i></p>     <p><b>Celso Beisiegel</b>: Quando o MCP foi fundado, Paulo prop&ocirc;s o funcionamento de c&iacute;rculos de cultura: reunia oper&aacute;rios e homens do povo de Recife para debater temas tais como ligas camponesas, socialismo etc. (Ali&aacute;s, coloquei no meu livro que achei muito estranho que homens do povo de Recife tenham chegado a propor aqueles temas. Tudo bem, o Recife &eacute; um centro pol&iacute;tico, mas n&atilde;o &eacute; para analfabetos do povo; v&ecirc;-se claramente o tipo de &ldquo;popular culto&rdquo;, com alguma participa&ccedil;&atilde;o, que, reunindo-se, chegam a ter curiosidades que levam a propor temas como estes, mas tudo bem...). Nessas reuni&otilde;es, Paulo propunha a discuss&atilde;o desses temas. Ele dizia que n&atilde;o conhecia tudo, que ningu&eacute;m &eacute; obrigado a conhecer tudo; ele procurava os colegas l&aacute; na universidade, como o Souza Lima, para que ajudassem a propor conte&uacute;dos que pudessem ser trabalhados de forma a enriquecer e tornar produtivas aquelas discuss&otilde;es dos c&iacute;rculos de cultura. No Centro de Cultura eram outras coisas. </p>     <p>No primeiro artigo de Paulo Freire sobre o m&eacute;todo, ele diz como aqueles trabalhos com os adultos no Recife tinham se mostrado muito ricos, e ent&atilde;o pensou: &ldquo;Ser&aacute; que eu n&atilde;o poderia come&ccedil;ar um trabalho de alfabetiza&ccedil;&atilde;o exatamente como se fosse um c&iacute;rculo de cultura&rdquo;? E foi o que ele fez. Ent&atilde;o, veja, quando nas <i>Cartas a Guin&eacute; Bissau </i>ele prop&otilde;e que a tabanca seja o foco da educa&ccedil;&atilde;o popular, est&aacute;, de certa forma, recuperando aquele c&iacute;rculo de cultura original, mas dando a ele um sentido muito mais amplo, porque a organiza&ccedil;&atilde;o social na Guin&eacute; Bissau possibilitava isso, eram pequenos aglomerados. Se eu fosse trabalhar com algum aglomerado cai&ccedil;ara naquela &eacute;poca talvez tivesse partido para isso mesmo. </p>     <p><b>Eduardo Santos</b><i>: Se o senhor tivesse que escolher, de todos os princ&iacute;pios freirianos, um que pudesse aplicar-se &agrave; educa&ccedil;&atilde;o superior, qual deles escolheria? </i></p>     <p><b>Celso Beisiegel</b>: A ideia dos compromissos da universidade com as condi&ccedil;&otilde;es de vida da popula&ccedil;&atilde;o mais pobre muitas vezes acaba levando a uma ideia que me parece equivocada de engajamento da universidade, porque, de certa forma, seria valorizar uma dimens&atilde;o da universidade no sentido da melhoria das condi&ccedil;&otilde;es de vida da popula&ccedil;&atilde;o. Do meu ponto de vista, n&atilde;o &eacute; essa a fun&ccedil;&atilde;o da universidade. A universidade tem o seu n&iacute;vel de atua&ccedil;&atilde;o. A universidade como um todo tem o seu valor espec&iacute;fico e ter&aacute; muito mais peso pol&iacute;tico se preservar esse seu papel do que procurando organizar os professores universit&aacute;rios num partido ou outro para agir politicamente na sociedade. Penso que poderemos contribuir muito mais para as transforma&ccedil;&otilde;es sociais se valorizarmos a especificidade da universidade, e n&atilde;o se a transformarmos numa sucursal de um sindicato ou de um partido pol&iacute;tico, o que a enfraqueceria. Da&iacute; que me parece que o engajamento do professor universit&aacute;rio deve ser de engajamento intelectual, o que n&atilde;o nos impede de agir politicamente enquanto cidad&atilde;os. Nunca fui aberto ao engajamento pol&iacute;tico ou sindical de institui&ccedil;&otilde;es. Se os professores ou o movimento estudantil quiserem ter algum engajamento pol&iacute;tico-sindical, tudo bem. </p>     <p>Nos meus trabalhos em rela&ccedil;&atilde;o &agrave; educa&ccedil;&atilde;o popular em geral e, especificamente, em rela&ccedil;&atilde;o &agrave; de Paulo Freire, procurei manter esse tipo de posi&ccedil;&atilde;o. Nunca fui de fazer um proselitismo de Freire...o Lu&iacute;s Pereira n&atilde;o tinha raz&atilde;o quando disse que eu estava monumentalizando o Paulo. </p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><b>Manuel Tavares</b><i>: Farei duas quest&otilde;es em uma, versando sobre a educa&ccedil;&atilde;o superior e sobre o papel hist&oacute;rico da universidade. A universidade foi constitu&iacute;da para e por elites e n&atilde;o propriamente para as camadas populares; isto quer dizer que o modelo educativo das universidades gera um modelo epistemol&oacute;gico que possibilita uma determinada leitura do mundo que &eacute;, muitas vezes, uma leitura alienante. Neste sentido, o modelo educativo que Paulo Freire prop&otilde;e, pelos seus diversos princ&iacute;pios epistemol&oacute;gicos, antropol&oacute;gicos, &eacute;ticos, ontol&oacute;gicos poder&atilde;o, no ensino superior, conduzir a uma outra leitura do mundo que seja desalienante e tenha uma perspectiva democr&aacute;tica, emancipat&oacute;ria e popular? </i></p>     <p><b>Celso Beisiegel</b> : Eu acho que n&atilde;o &eacute; por a&iacute;, a universidade tem as suas m&uacute;ltiplas formas de estabelecer conex&atilde;o com a sociedade de classes, e uma dessas formas &eacute; a cr&iacute;tica da sociedade. Por exemplo, o marxismo como pensamento de esquerda. O pensamento cr&iacute;tico &eacute; coisa que nasce exclusivamente fora da universidade, mas que constitui dimens&otilde;es presentes no corpo da atua&ccedil;&atilde;o da universidade em todos os seus setores, tanto que se fossemos fazer uma vota&ccedil;&atilde;o aqui na universidade sobre quem ganharia as elei&ccedil;&otilde;es, penso que majoritariamente a posi&ccedil;&atilde;o seria de esquerda. Nas &uacute;ltimas elei&ccedil;&otilde;es, a posi&ccedil;&atilde;o da universidade foi majoritariamente a favor de Fernando Haddad<a name="top7" id="top7"></a><a href="#7"><sup>7</sup></a>. A posi&ccedil;&atilde;o dos estudantes e de grande parte dos professores &eacute; uma posi&ccedil;&atilde;o cr&iacute;tica mais avan&ccedil;ada do que a m&eacute;dia do pensamento exterior &agrave; universidade. </p>     <p>Se recuarmos no tempo, apercebemo-nos do n&iacute;vel de repress&atilde;o sobre a universidade em 1964 como uma evid&ecirc;ncia emp&iacute;rica da presen&ccedil;a de um pensamento transformador, considerado perigoso, dentro da universidade. Por isso, n&atilde;o &eacute; bem por a&iacute;! &Eacute; verdade que a universidade tem problemas de demora cultural, mais pesada em certos setores do que em outros. Na educa&ccedil;&atilde;o eu tenho a impress&atilde;o de que esta demora &eacute; bem mais palp&aacute;vel: &eacute; demorado assimilar um pensamento diferente dentro da universidade. Os professores foram aprendendo certas coisas ao longo da sua forma&ccedil;&atilde;o, continuam trabalhando, tomam conhecimento das novas propostas, mas o processo de incorpora&ccedil;&atilde;o mais profundo do que vem incutido nessas novas propostas &eacute; um processo lento. A educa&ccedil;&atilde;o, de um modo geral, do prim&aacute;rio ao secund&aacute;rio e mesmo no superior, &eacute; algo que evolui lentamente. A universidade tem um papel importante na incorpora&ccedil;&atilde;o da produ&ccedil;&atilde;o do novo, sobretudo nas &aacute;reas tecnol&oacute;gicas isso &eacute; evidente. No plano da vida social tenho a impress&atilde;o de que &eacute; na pr&oacute;pria educa&ccedil;&atilde;o que as mudan&ccedil;as s&atilde;o mais lentas. </p>     <p><b>Manuel Tavares</b><i>: Ent&atilde;o, quer dizer que a academia brasileira &eacute;, genericamente, uma academia progressista? </i></p>     <p><b>Celso Beisiegel</b>: Esse progressismo varia muito de acordo com a din&acirc;mica da sociedade. Em 74, um pouco antes, em 72, publiquei um trabalhinho numa revista organizada por um colega nosso da &aacute;rea da f&iacute;sica. Eu tinha acabado de fazer um estudo sobre o destino profissional dos alunos de v&aacute;rios cursos, inclusive do curso de f&iacute;sica, e nesse estudo aparecia, claramente, que s&oacute; uma minoria extravagante ia trabalhar na ind&uacute;stria, a grande maioria estava no ensino superior ou no secund&aacute;rio. Na ind&uacute;stria, na produ&ccedil;&atilde;o de novos conhecimentos o n&uacute;mero de f&iacute;sicos era muito pequeno, e aqueles que estavam na ind&uacute;stria vendiam produtos da ind&uacute;stria, quer dizer, o f&iacute;sico poderia ser um excelente vendedor de certos equipamentos porque tinha mais condi&ccedil;&otilde;es de convencer os clientes a comprar aqueles equipamentos. </p>     <p>Como a nossa ind&uacute;stria n&atilde;o tinha inova&ccedil;&atilde;o tecnol&oacute;gica, dado que nessa &eacute;poca o Brasil trabalhava na base do <i>know how </i>importado, comprando pensamento ao exterior, ent&atilde;o o f&iacute;sico n&atilde;o tinha lugar no mercado de trabalho. A F&iacute;sica n&atilde;o era ainda t&atilde;o avan&ccedil;ada assim porque a sociedade n&atilde;o comportava o avan&ccedil;o, n&atilde;o o solicitava nem o financiava. Claro que no dom&iacute;nio da constru&ccedil;&atilde;o, nesse trabalho quase artesanal, somos t&atilde;o criadores quanto os estrangeiros. O problema surge no dom&iacute;nio da investiga&ccedil;&atilde;o e da inova&ccedil;&atilde;o. </p>     <p>Se eu fosse pensar de acordo com Paulo Freire e em fun&ccedil;&atilde;o da sua proposta, neste aspecto eu diria que era preciso ver como a odontologia podia chegar &agrave; boca da popula&ccedil;&atilde;o das mais diversas classes sociais e acabar com os nossos banguelas. &Eacute; preciso mais inova&ccedil;&atilde;o, novas formas de tratar os dentes, implantes, principalmente novos equipamentos. </p>     <p><b>Eduardo Santos</b><i>: Paulo Freire tem uma obra monumental, com impacto decisivo e importante na educa&ccedil;&atilde;o, seja pensando no m&eacute;todo, seja difundindo e sintetizando outros valores com os quais o educador trabalha. Ele tem uma tremenda import&acirc;ncia, quer do ponto de vista da formula&ccedil;&atilde;o original do pensamento pedag&oacute;gico quer no &acirc;mbito das t&eacute;cnicas de letramento ou de descobrir o mundo, e, em rigor, ele n&atilde;o &eacute; t&atilde;o utilizado na academia, mas tem um impacto na forma&ccedil;&atilde;o dos novos professores que v&atilde;o alfabetizar, que v&atilde;o para o Ensino M&eacute;dio e assim por diante. Estou pensando na forma&ccedil;&atilde;o nas licenciaturas, no curso de pedagogia etc. A F&iacute;sica n&atilde;o resolve os problemas que est&atilde;o postos na sociedade; ela pode desenvolver-se mais ou menos dependendo dos problemas que est&atilde;o postos pela sociedade. No entanto, temos um problema grav&iacute;ssimo que &eacute; o do sistema educacional, do seu desempenho. A incorpora&ccedil;&atilde;o das ideias de Paulo Freire na educa&ccedil;&atilde;o superior, especialmente na forma&ccedil;&atilde;o inicial dos professores, n&atilde;o seria uma das respostas importantes para n&oacute;s resolvermos um problema tamb&eacute;m importante na nossa sociedade? </i></p>     <p><b>Celso Beisiegel</b>: Deixa eu fazer um contraponto. De vez em quando eu levo um recorte de jornal aos meus alunos sobre a Guin&eacute; Bissau. Atualmente, Paulo Freire tem a import&acirc;ncia dele. N&atilde;o acredito que no aspecto operacional o professor tal, na escolinha tal, no bairro dos Fonsecas, vai fazer melhoras pelo fato de ser um professor at&eacute; querido, Paulo Freire &eacute; um contexto muito mais... O Paulo tem import&acirc;ncia inclusive na sensibiliza&ccedil;&atilde;o para a import&acirc;ncia real da educa&ccedil;&atilde;o, para uma popula&ccedil;&atilde;o que n&atilde;o est&aacute; conseguindo obter da escola o sucesso a que tem direito, uma escola que ela j&aacute; conquistou. A popula&ccedil;&atilde;o conquistou a escola, a luta pela universaliza&ccedil;&atilde;o da escola foi muito bem sucedida, n&atilde;o s&oacute; no Brasil, mas tamb&eacute;m em grande parte do mundo. </p>     <p>Agora que conseguiu o acesso &agrave; educa&ccedil;&atilde;o, o que n&oacute;s podemos considerar tranquilamente &eacute; que a valoriza&ccedil;&atilde;o da educa&ccedil;&atilde;o de qualidade foi afetada por gente como Paulo Freire e por outros engajados nesse movimento. Atualmente, h&aacute; uma universaliza&ccedil;&atilde;o do acesso &agrave; educa&ccedil;&atilde;o n&atilde;o s&oacute; no antigo ensino prim&aacute;rio, mas tamb&eacute;m no secund&aacute;rio, e assistimos tamb&eacute;m &agrave; expans&atilde;o do ensino superior. No entanto, essa expans&atilde;o n&atilde;o foi acompanhada de recursos que possibilitassem a qualidade do ensino. Os problemas sociais na sociedade brasileira ainda s&atilde;o enormes e, por isso, grande parte da popula&ccedil;&atilde;o que tem acesso &agrave; educa&ccedil;&atilde;o &eacute; uma popula&ccedil;&atilde;o pobre. E a possibilidade de acompanhamento e de colabora&ccedil;&atilde;o das fam&iacute;lias pobres na forma&ccedil;&atilde;o das crian&ccedil;as &eacute; muito pequena; o professor que se disp&otilde;e a enfrentar a viol&ecirc;ncia, o tr&acirc;nsito e a pobreza de uma escola da periferia, esse professor &eacute; aquele que n&atilde;o conseguiu qualquer outra coisa melhor, inclusive pelo sal&aacute;rio, que &eacute; um dos mais prec&aacute;rios. Eu tenho um molec&atilde;o que trabalha no jardim l&aacute; de casa que ganha mais que um professor prim&aacute;rio, o que significa que, atualmente, n&atilde;o &eacute; uma proposta pedag&oacute;gica que vai resolver problemas desse tipo. Pode ser que sim quando voc&ecirc; tem uma lideran&ccedil;a comprometida, e at&eacute; numa escolinha com essas condi&ccedil;&otilde;es ele pode avan&ccedil;ar, mas ainda n&atilde;o se conseguiu tanto engajamento assim. </p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><b>Eduardo Santos</b><i>: No n&iacute;vel da educa&ccedil;&atilde;o popular, tanto sua teoriza&ccedil;&atilde;o quanto sua pr&aacute;tica s&atilde;o consideradas como das maiores contribui&ccedil;&otilde;es da Am&eacute;rica Latina para o pensamento pedag&oacute;gico mundial. E Paulo Freire pode ser considerado o seu representante m&aacute;ximo. O senhor pensa que os princ&iacute;pios fundamentais da educa&ccedil;&atilde;o popular podem penetrar na educa&ccedil;&atilde;o superior? </i></p>     <p><b>Celso Beisiegel</b>: N&atilde;o sei se d&aacute; para colocar por a&iacute;, pelo menos eu nunca pensei nisso. O que eu tenho discutido com alguns colegas, e at&eacute; em alguns cursos, &eacute; que aquilo que era a educa&ccedil;&atilde;o popular quando se come&ccedil;ou a desenvolver este tipo de pr&aacute;tica e de estudo invadiu a universidade, at&eacute; uma universidade de elite como a Universidade de S&atilde;o Paulo. </p>     <p><b>Eduardo Santos</b><i>: ...o senhor diz invadiu...invadiu como objeto de estudos? Os temas da educa&ccedil;&atilde;o popular foram trabalhados com os alunos? </i></p>     <p><b>Celso Beisiegel</b>: Eu enfrentei as quest&otilde;es como pr&oacute;-reitor em 1990. N&oacute;s t&iacute;nhamos que fazer um segundo vestibular para preencher 13% das vagas que n&atilde;o tinham sido preenchidas na universidade pelo vestibular, e porque, principalmente na USP, o curso de Pedagogia &eacute; o curso dos pobres. Atrai alunos com uma forma&ccedil;&atilde;o escolar mais prec&aacute;ria e, por isso, com dificuldades no vestibular. As vagas aqui no curso de Pedagogia e das licenciaturas n&atilde;o foram preenchidas, ent&atilde;o, fizemos um segundo vestibular. Deu para sentir a rea&ccedil;&atilde;o de alguns colegas, alguns at&eacute; de esquerda, muito mais do que eu, mas o argumento e o sentimento &eacute; que a USP &eacute; uma universidade para alunos que t&ecirc;m condi&ccedil;&otilde;es de acompanhar aquilo que ela quer lecionar no n&iacute;vel em que os seus professores colocam os temas. Isso &eacute; absolutamente contr&aacute;rio &agrave;quilo que Paulo Freire defendia. Quando ele afirmava que era necess&aacute;rio partir dos conhecimentos dos alunos... mas que conhecimentos? Quais s&atilde;o os conhecimentos que os alunos t&ecirc;m de F&iacute;sica? N&atilde;o se pode partir do conhecimento que eles t&ecirc;m no Ensino M&eacute;dio! Ent&atilde;o, &eacute; necess&aacute;rio ser sens&iacute;vel ao ponto de partida dispon&iacute;vel nestes alunos que entram na universidade. Na USP existem tr&ecirc;s turmas nos cursos noturnos de Pedagogia, o que significa que aumentou consideravelmente o n&uacute;mero de alunos que v&ecirc;m da periferia, da escola p&uacute;blica, no ensino superior em geral aumentou muito em fun&ccedil;&atilde;o do PROUNI<a name="top8" id="top8"></a><a href="#8"><sup>8</sup></a>. H&aacute;, hoje, jovens da periferia que colocam a possibilidade de entrar na universidade, o que n&atilde;o acontecia h&aacute; algum tempo atr&aacute;s. Esta &eacute; uma tem&aacute;tica que em muitos aspectos &eacute; a tem&aacute;tica da educa&ccedil;&atilde;o popular. Vou partindo daquilo que eu acho, que tenho que ensinar para um aluno no primeiro ano, num curso da sociologia da educa&ccedil;&atilde;o, n&atilde;o consigo coisa nenhuma. N&atilde;o &eacute; s&oacute; Paulo Freire que defende, &eacute; muita gente, que &eacute; preciso tomar como ponto de refer&ecirc;ncia aquilo que o seu aluno &eacute;, e depois ir tentando chegar com ele a um n&iacute;vel aceit&aacute;vel na universidade.</p>     <p> Isso n&atilde;o implica abandonar os mais capazes, eu sempre trabalhei de forma heterog&ecirc;nea, tenho alunos muito bons, e por isso n&atilde;o se pode nivelar por baixo; com bibliografia adequada e com envolvimento vamos conseguindo alguns resultados. </p>     <p><b>Manuel Tavares</b><i>: Uma quest&atilde;o que envolve duas tem&aacute;ticas trabalhadas por Paulo Freire: qual a rela&ccedil;&atilde;o, dentro da universidade, entre conhecimento e poder? E, do seu ponto de vista, qual a fun&ccedil;&atilde;o dos intelectuais? </i></p>     <p><b>Celso Beisiegel</b>: O atual Ministro da Fazenda, o Mantega, da Unicamp, o Delfim Neto, que foi uma esp&eacute;cie de grande papa da economia durante uma grande parte da ditadura, &eacute; da USP, um homem muito respeitado aqui na universidade, o Maluf saiu da Universidade... agora, n&atilde;o &eacute; por a&iacute; que a gente vai pensar a quest&atilde;o da universidade e poder, esse poder j&aacute; existia, j&aacute; existe na sociedade, este poder pol&iacute;tico stricto sensu, mesmo o poder. </p>     <p><b>Manuel Tavares</b><i>: Uma outra quest&atilde;o relacionada com o poder, um pouco na perspectiva de P. Bourdieu: na universidade, h&aacute; &ldquo;mercados de bens simb&oacute;licos&rdquo; que conflituam entre si. S&atilde;o esses mercados hegem&ocirc;nicos que determinam o conhecimento e as representa&ccedil;&otilde;es que se t&ecirc;m do mundo. N&atilde;o lhe parece que s&atilde;o estes mercados de bens simb&oacute;licos que determinam tamb&eacute;m as rela&ccedil;&otilde;es de poder existentes na universidade e que se exteriorizam na sociedade? </i></p>     <p><b>Celso Beisiegel</b>: Isso poderia ser colocado para a Igreja cat&oacute;lica, para a imprensa...H&aacute; certos momentos em que o poder exerce um controle sobre cada uma dessas institui&ccedil;&otilde;es no sentido de recoloc&aacute;-las numa rela&ccedil;&atilde;o aceit&aacute;vel, quer dizer, s&atilde;o institui&ccedil;&otilde;es da sociedade que n&atilde;o podem extrapolar a sua participa&ccedil;&atilde;o numa situa&ccedil;&atilde;o de poder. Jo&atilde;o Paulo II, por exemplo, e depois Bento XVI, s&atilde;o claramente uma recoloca&ccedil;&atilde;o da institui&ccedil;&atilde;o religiosa naqueles pap&eacute;is que o poder amplo que a sociedade exige da Igreja, e a Igreja faz parte da defini&ccedil;&atilde;o desse poder. &Eacute; a mesma coisa com a imprensa: a grande imprensa, n&atilde;o a imprensa alternativa, mas a grande imprensa, tamb&eacute;m em certos momentos foi recolocada, at&eacute; com certo vigor, dentro dos seus papeis nesta ordem de poder, pensando mais ou menos como os donos do poder. O mesmo se passa com a universidade. O meu orientador de doutorado, Florestan Fernandes, foi botado para fora, o Fernando Henrique Cardoso foi botado para fora, os l&iacute;deres da minha escola, os mais velhos e os jovens mais expressivos foram expurgados, todos os professores que estavam ligados ao movimento estudantil foram completamente oprimidos. Na pr&aacute;tica da educa&ccedil;&atilde;o Paulo Freire foi completamente surpreendido. Ele n&atilde;o foi exilado, ele se auto exilou para fugir de algo pior que estava por acontecer. &Eacute; uma cadeia complexa, e essa Igreja n&atilde;o era aquela que se envolveu com a educa&ccedil;&atilde;o popular e que chegou aos extremos da teologia da liberta&ccedil;&atilde;o; era uma viol&ecirc;ncia dentro da pr&oacute;pria Igreja, assim como a universidade n&atilde;o era Florestan ou o Fernando Henrique. </p>     <p>S&atilde;o campos de luta que atuam e t&ecirc;m uma din&acirc;mica dentro de cada um desses campos institucionais; no entanto, dificilmente essas a&ccedil;&otilde;es de transforma&ccedil;&atilde;o radical prosperam. Depois da Segunda Guerra Mundial houve um <i>boom</i> de transforma&ccedil;&atilde;o, mas a devasta&ccedil;&atilde;o que ela provocou explica, em grande parte, as revolu&ccedil;&otilde;es que se seguiram no mundo inteiro. A Revolu&ccedil;&atilde;o Cubana &eacute; caso &uacute;nico que provocou grandes transforma&ccedil;&otilde;es sociais. De resto, tendo em considera&ccedil;&atilde;o que no plano simb&oacute;lico uma determinada ordem social se imp&otilde;e e se defende, parece-me que, de certa forma, a ordem social capitalista se consolidou. </p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Tenho alguns amigos envolvidos com o MST, ou com a economia solid&aacute;ria, e n&oacute;s, de alguma forma, com a educa&ccedil;&atilde;o popular. &Eacute; minha gente, n&oacute;s estamos a&iacute;, fazendo algo importante. Tenho uma orientanda trabalhando com o consumo respons&aacute;vel; eu a orientei a ler, na primeira semana que ela veio conversar comigo, <i>Admir&aacute;vel mundo novo</i>. Tem l&aacute; uma passagem que explica que as pessoas usam terno e jogam fora, porque se eles n&atilde;o comprarem outro terno a organiza&ccedil;&atilde;o daquele mundo vai por &aacute;gua abaixo. Ent&atilde;o, h&aacute; uma ordem a manter, a preservar, e &eacute; dif&iacute;cil lutar contra essa ordem. </p>     <p><b>Eduardo Santos</b><i>: O MST, a economia solid&aacute;ria, o consumo respons&aacute;vel s&atilde;o &aacute;reas em que, de certa forma, se trabalha contra o sistema, contra essa ordem, e em que se consegue preservar um pensamento cr&iacute;tico, a busca e a valoriza&ccedil;&atilde;o da reflex&atilde;o sobre as injusti&ccedil;as que essa ordem envolve. A&iacute; reside a preserva&ccedil;&atilde;o da esperan&ccedil;a que Paulo Freire postulava, e que tem a ver com a possibilidade de construir o in&eacute;dito vi&aacute;vel. </i></p>     <p><b>Celso Beisiegel</b>: O Paulo n&atilde;o tem esses estalos originais. Ele articulou coisas muito importantes no conjunto de suas propostas, e o in&eacute;dito vi&aacute;vel &eacute; um daqueles sonhos por que vale a pena lutar. </p>     <p><b>Manuel Tavares</b><i>: Vou fazer uma &uacute;ltima pergunta, que &eacute; meio provocat&oacute;ria. Considera que a educa&ccedil;&atilde;o superior no Brasil &eacute; brasileira? Quais as especificidades da educa&ccedil;&atilde;o superior brasileira em oposi&ccedil;&atilde;o &agrave;s pol&iacute;ticas determinadas pelas organiza&ccedil;&otilde;es internacionais e pelas respectivas agendas? </i></p>     <p><b>Celso Beisiegel</b>: H&aacute; alguns temas que a gente precisaria de muito tempo para poder examinar, a gesta&ccedil;&atilde;o interna ou externa da organiza&ccedil;&atilde;o e da din&acirc;mica social num mundo como o Brasil. N&oacute;s somos um mundo atrasado, chegamos tarde na festa, fomos produtos de uma invas&atilde;o cultural durante a coloniza&ccedil;&atilde;o e depois, em grande parte da nossa exist&ecirc;ncia, o mundo teve uma din&acirc;mica de expans&atilde;o cultural que foi afetando de maneiras desiguais o conjunto do planeta. Um dos focos de gesta&ccedil;&atilde;o dessa din&acirc;mica, nos &uacute;ltimos tempos, &eacute; o mundo Ocidental, particularmente os Estados Unidos. Mas a din&acirc;mica &eacute; mesmo capitalista e passa pela produ&ccedil;&atilde;o de mercadorias e pela organiza&ccedil;&atilde;o do mundo a partir das mercadorias que s&atilde;o produzidas. A ci&ecirc;ncia e a tecnologia caminham tamb&eacute;m de forma particular. Ent&atilde;o, a universidade, a ci&ecirc;ncia, a tecnologia, a cultura, as artes, num pa&iacute;s como o Brasil, s&atilde;o pesadamente determinadas pelos centros e pelas din&acirc;micas dessas organiza&ccedil;&otilde;es. H&aacute; muitos aspectos em que a criatividade num pa&iacute;s como o nosso tem campo para se manifestar, apesar de toda essa a&ccedil;&atilde;o externa. Costuma-se dizer que fomos copiar tudo ao estrangeiro, desde a Constitui&ccedil;&atilde;o at&eacute; &agrave; organiza&ccedil;&atilde;o do ensino. Na verdade, n&oacute;s procuramos algumas formula&ccedil;&otilde;es que os outros fizeram no exterior para problemas espec&iacute;ficos que estamos vivendo e, muitas vezes, de uma forma original. No entanto, mesmo nessa importa&ccedil;&atilde;o de institui&ccedil;&otilde;es, nesse conjunto de normas que s&atilde;o testadas no exterior, h&aacute; um campo para uma recria&ccedil;&atilde;o, uma reintepreta&ccedil;&atilde;o, uma criatividade. Apesar disso, h&aacute; muita originalidade no Brasil &ndash; e eu acentuei isso em alguns trabalhos &ndash;, em que as condi&ccedil;&otilde;es internas se exprimem mais vigorosamente, como &eacute; o caso daqueles campos mais artesanais como a m&uacute;sica, a pintura, e a&iacute; aparece um Portinari<a name="top9" id="top9"></a><a href="#9"><sup>9</sup></a>, na educa&ccedil;&atilde;o, e temos um Paulo Freire, mas de um modo geral o peso dessa demonstra&ccedil;&atilde;o e das exig&ecirc;ncias de um modo de produ&ccedil;&atilde;o na vida interna... Precisar&iacute;amos ver e examinar coisa por coisa.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>Notas</b></p>     <p><a name="1" id="1"></a><a href="#top1">1</a>Miguel Arraes Alencar (1916-2005) foi advogado, economista e pol&iacute;tico brasileiro, cassado pelo regime ditatorial implantado em 1964 quando era prefeito do Recife e apoiava politicamente as a&ccedil;&otilde;es pedag&oacute;gicas de Freire. De volta ao Brasil, em 1979, foi eleito deputado estadual, deputado federal e governador do estado de Pernambuco. </p>     <p><a name="2" id="2"></a><a href="#top2">2</a>Trata-se da segunda esposa de Paulo Freire, Nita Freire, como carinhosamente a chamava o educador. </p>     <p><a name="3" id="3"></a><a href="#top3">3</a>O professor se refere &agrave; legenda do PCB &ndash; Partido Comunista Brasileiro, fundado em 1922, cuja alcunha &ndash; Pcz&atilde;o ou PCb&atilde;o &ndash; a distinguia de outra agremia&ccedil;&atilde;o pol&iacute;tica brasileira de esquerda, esta denominada Partido Comunista do Brasil. </p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><a name="4" id="4"></a><a href="#top4">4</a>Como g&eacute;nero musical, a tabanca caracteriza-se por ter um andamento <i>allegro</i>, um compasso bin&aacute;rio, e tradicionalmente ser apenas mel&oacute;dico, isto &eacute;, ser cantado sem acompanhamento polif&oacute;nico. A palavra &laquo;tabanca&raquo; existe em textos portugueses desde o s&eacute;c. XVI e provavelmente tem origem em alguma l&iacute;ngua africana, sendo usada para designar fortifica&ccedil;&otilde;es constru&iacute;das por navegadores portugueses na costa da Guin&eacute;. No crioulo da Guin&eacute;-Bissau a palavra &laquo;tabanca&raquo; significa &laquo;aldeia&raquo;. </p>     <p><a name="5" id="5"></a><a href="#top5">5</a>S&atilde;o nomes de companheiros ativistas da educa&ccedil;&atilde;o, todos do Brasil, que atuaram pedag&oacute;gica e politicamente ao lado de Paulo Freire. </p>     <p><a name="6" id="6"></a><a href="#top6">6</a>Luiz Pereira foi cientista social, pedagogo e professor que atuou e publicou no campo da Educa&ccedil;&atilde;o, a exemplo das obras <i>Rendimento e Defici&ecirc;ncias do Ensino Prim&aacute;rio Brasileiro </i>(1959) e <i>A escola numa &Aacute;rea Metropolitana </i>(1967). Em 1955, foi indicado para compor o quadro de pesquisadores do Centro Regional de Pesquisas Educacionais de S&atilde;o Paulo &ndash; CRPE &ndash;, se&ccedil;&atilde;o estadual do Centro Brasileiro de Pesquisas Educacionais &ndash; CBPE. &Eacute; considerado um dos criadores da Sociologia da Educa&ccedil;&atilde;o no Brasil. </p>     <p><a name="7" id="7"></a><a href="#top7">7</a>Ministro da Educa&ccedil;&atilde;o no governo Lula da Silva e Dilma Roussef, elegeu-se prefeito da cidade de S&atilde;o Paulo em 2012. </p>     <p><a name="8" id="8"></a><a href="#top8">8</a>Programa Universidade para Todos: criado pelo governo federal brasileiro em 2004, oferece bolsas a estudantes que tenham estudado em escola p&uacute;blica no ensino superior privado. </p>     <p><a name="9" id="9"></a><a href="#top9">9</a>Candido Torquato Portinari (1903-1962), artista pl&aacute;stico brasileiro, &eacute; autor de cerca de cinco mil obras, entre as quais se destaca o grandioso painel <i>Guerra e Paz</i>, produzido em 1956 para ser fixado na sede da ONU em Nova Iorque. </p>      ]]></body>
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