<?xml version="1.0" encoding="ISO-8859-1"?><article xmlns:mml="http://www.w3.org/1998/Math/MathML" xmlns:xlink="http://www.w3.org/1999/xlink" xmlns:xsi="http://www.w3.org/2001/XMLSchema-instance">
<front>
<journal-meta>
<journal-id>1645-9199</journal-id>
<journal-title><![CDATA[Relações Internacionais (R:I)]]></journal-title>
<abbrev-journal-title><![CDATA[Relações Internacionais]]></abbrev-journal-title>
<issn>1645-9199</issn>
<publisher>
<publisher-name><![CDATA[IPRI-UNL]]></publisher-name>
</publisher>
</journal-meta>
<article-meta>
<article-id>S1645-91992009000300004</article-id>
<title-group>
<article-title xml:lang="pt"><![CDATA[A Rússia, a Europa e o legado de 1989: conflitos de interpretação]]></article-title>
<article-title xml:lang="en"><![CDATA[Russia, Europe and the legacy of 1989: conflicts of interpretation]]></article-title>
</title-group>
<contrib-group>
<contrib contrib-type="author">
<name>
<surname><![CDATA[Makarychev]]></surname>
<given-names><![CDATA[Andrey S.]]></given-names>
</name>
<xref ref-type="aff" rid="A01"/>
</contrib>
</contrib-group>
<aff id="A01">
<institution><![CDATA[,Universidade de Nizhny Novgorod  ]]></institution>
<addr-line><![CDATA[ ]]></addr-line>
<country>Rússia</country>
</aff>
<pub-date pub-type="pub">
<day>00</day>
<month>09</month>
<year>2009</year>
</pub-date>
<pub-date pub-type="epub">
<day>00</day>
<month>09</month>
<year>2009</year>
</pub-date>
<numero>23</numero>
<fpage>53</fpage>
<lpage>74</lpage>
<copyright-statement/>
<copyright-year/>
<self-uri xlink:href="http://scielo.pt/scielo.php?script=sci_arttext&amp;pid=S1645-91992009000300004&amp;lng=en&amp;nrm=iso"></self-uri><self-uri xlink:href="http://scielo.pt/scielo.php?script=sci_abstract&amp;pid=S1645-91992009000300004&amp;lng=en&amp;nrm=iso"></self-uri><self-uri xlink:href="http://scielo.pt/scielo.php?script=sci_pdf&amp;pid=S1645-91992009000300004&amp;lng=en&amp;nrm=iso"></self-uri><abstract abstract-type="short" xml:lang="pt"><p><![CDATA[Este artigo analisa alguns exemplos notórios das relações conflituosas da Rússia com estados adjacentes pós-soviéticos como a Estónia, a Geórgia e a Ucrânia. A análise será depois alargada às relações controversas com a Grã-Bretanha e a NATO, e termina abordando o caso do oblast de Kaliningrado. Todos estes casos demonstram a dificuldade em ultrapassar a herança soviética na política externa russa e o tipo de choques que a inevitável reactualização desta herança poderá originar.]]></p></abstract>
<abstract abstract-type="short" xml:lang="en"><p><![CDATA[In this paper, I will examine a number of most notorious examples of Russia's conflictual relations with adjacent post-Soviet states like Estonia, Georgia, and Ukraine. I will then extend my analysis to Russia's controversial relations with Great Britain and NATO, and conclude by referring to the case of the Kaliningrad oblast. In my judgment, all these cases demonstrate how uneasy is the overcoming of the Soviet heritage in Russia's foreign policy and what kind of collisions the inevitable reactualization of this heritage might entail.]]></p></abstract>
<kwd-group>
<kwd lng="pt"><![CDATA[Rússia]]></kwd>
<kwd lng="pt"><![CDATA[URSS]]></kwd>
<kwd lng="pt"><![CDATA[Europa]]></kwd>
<kwd lng="pt"><![CDATA[comunismo]]></kwd>
<kwd lng="en"><![CDATA[Russia]]></kwd>
<kwd lng="en"><![CDATA[USSR]]></kwd>
<kwd lng="en"><![CDATA[Europe]]></kwd>
<kwd lng="en"><![CDATA[communism]]></kwd>
</kwd-group>
</article-meta>
</front><body><![CDATA[ <p><b>A Rússia, a Europa e o legado de 1989</b></p>      <p><b>conflitos de interpretação</b></p>      <p><b>Andrey S. Makarychev <a href="#a1">*</a><a name="topa1"></a></b></p>      <p>&nbsp;</p>      <p>Este artigo analisa alguns exemplos notórios das relações conflituosas da Rússia com estados adjacentes pós-soviéticos como a Estónia,  a Geórgia e a Ucrânia. A análise será depois alargada às relações controversas com a Grã-Bretanha e a NATO, e termina abordando o caso do oblast  de Kaliningrado. Todos estes casos demonstram a dificuldade em ultrapassar a herança soviética na política externa russa e o tipo de choques que  a inevitável reactualização desta herança poderá originar.</p>      <p><i>Palavras-chave:</i> Rússia, URSS, Europa, comunismo    <p>       <p>&nbsp;</p>      <p><b>Russia, Europe and the legacy of 1989: conflicts of interpretation</b></p>      <p>In this paper, I will examine a number of most notorious examples of Russia's conflictual relations with adjacent post-Soviet  states like Estonia, Georgia, and Ukraine. I will then extend my analysis to Russia's controversial relations with Great Britain and NATO,  and conclude by referring to the case of the Kaliningrad oblast. In my judgment, all these cases demonstrate how uneasy is the  overcoming of the Soviet heritage in Russia's foreign policy and what kind of collisions the inevitable reactualization of this heritage  might entail. </p>      ]]></body>
<body><![CDATA[<p><i>Keywords:</i> Russia, USSR, Europe, communism</p>      <p>&nbsp;</p>      <p>Na área da investigação académica, conhecida como análise do discurso, existe    um argumento que nos ajuda a compreender o modo como os discursos políticos    são estruturados. Defende que os acontecimentos que seleccionamos para construir    uma narrativa sobre nós próprios são de extrema importância. Cada actor político    fundamenta a sua subjectividade em determinadas "histórias" indispensáveis para    a sua construção da identidade. Como Judith Butler afirma, se começarmos uma    história antes ou depois de um determinado momento, toda a identidade do "sujeito    falante" e a sua relação com os outros sujeitos pode ser reconsiderada ou reconstituída<sup><a href="#1">1</a><a name="top1"></a></sup>.    O tempo é, portanto, uma categoria politicamente contestada, uma vez que a selecção    de pontos de referência temporais (momentos formativos) predetermina os significados    ligados às entidades dos sujeitos políticos.</p>     <p>É precisamente este ponto de vista que utilizarei como base para o presente    ensaio. Por "legado de 1989" entendo a reactualização discursiva do fim da Guerra    Fria. As mudanças que ocorreram entre 1989 (a queda do Muro de Berlim) e 1991    (a desagregação da União Soviética) poderiam receber a designação de "evento",    termo usado por Alain Badiou; algo que desloca as estruturas estabelecidas de    relações de poder e torna possível o que parecia inexequível ou impensável algum    tempo antes<sup><a href="#2">2</a><a name="top2"></a></sup>. Os eventos são    moldadores de identidade e diferenciadores; por isso mesmo, são também contentores    de diversidade temporal. O que importa é o modo como as datas históricas são    transformadas em símbolos, e o tipo de fronteiras imaginário-mentais que induzem.</p>     <p>À primeira vista a Rússia e a maioria dos países europeus diferem drasticamente  na sua respectiva simbolização do legado de 1989. Após a presidência de Gorbachev  - conhecido pelos seus conceitos-chave de <i>perestroika</i> e <i>glasnost</i> - a Rússia não  voltaria a desfrutar de um acolhimento tão entusiástico por parte do Ocidente.  Para a maior parte dos países da Europa Central e de Leste os vinte anos que se  seguiram à queda do Muro de Berlim foram duas décadas de experiência democrática  recém-adquirida. Na Rússia, contudo, o balanço político dos acontecimentos pós-1989  é muito mais controverso.</p>      <p>Talvez isso possa ser explicado pelo facto de as liberdades  do final dos anos 1980 terem dado rédea solta não só a forças liberais/pró-ocidentais,  mas também a forças conservadoras/tradicionalistas do nacionalismo e do nativismo  que eram - e ainda são - inimigas da abertura da Rússia a uma integração na comunidade  internacional. No que diz respeito ao Kremlin, este tira, de forma bastante pragmática,  todo o partido possível dos benefícios políticos que a Rússia obteve com a queda  do Muro de Berlim (incluindo as relações "especiais" entre Moscovo e Berlim) sem,  no entanto, prestar o devido reconhecimento às forças que tornaram possíveis os  acontecimentos de 1989.</p>      <p>Mas, a um nível mais profundo de análise, esta assimetria de percepção mais    ou menos visível entre a Rússia e as nações europeias levanta dois problemas    cruciais para a minha análise. Primeiramente, a discrepância de discurso entre    a União Europeia (UE) e a Rússia sintetiza-se em formas drasticamente diferentes    de reactualização das questões da identidade. Alguns dos autores liberais russos    defendem que é perfeitamente natural para qualquer identidade sã desafiar o    seu "não-ser" social, ou uma espécie de estado de barbárie dentro de si própria<sup><a href="#3">3</a><a name="top3"></a></sup>.    Na Europa esta abordagem foi apresentada através da referência ao conceito de    "o passado como outro", radicalmente diferente da percepção holística dominante    na Rússia, que vê na sua história algo de divino e axiomaticamente glorioso,    que atesta a grandeza da nação.</p>     <p>Esta diferença de percepções só pode ser complementada por disposições mais    acentuadamente políticas que tiveram lugar no rescaldo do fim da Guerra Fria.    Discutivelmente, a entidade europeia do pós-Guerra Fria assenta implicitamente    na ideia de que os europeus foram bem-sucedidos no cumprimento das suas obrigações;    portanto, a subjectividade da UE é actualmente construída através de uma espécie    de oposição aos perigos emanados do exterior: "A Europa que se costumava definir    a si própria através de uma revisão crítica da sua história, vê agora o seu    passado em casa dos seus vizinhos mais próximos."<sup><a href="#4">4</a><a name="top4"></a></sup>    Escusado será dizer que esta mudança de rumo discursiva só veio alargar o fosso    que separa a Rússia da Europa.</p>     <p>Em segundo lugar, a forma como o mundo bipolarizado deixou de existir influenciou  enormemente a mentalidade e o comportamento das elites da política externa russa.</p>      <p>Assim, o legado de 1989 é recuperado de cada vez que a Rússia tem de remodelar  as suas relações com os seus mais importantes parceiros internacionais, incluindo  os seus países vizinhos, e com as instituições internacionais, como a NATO ou  a UE. No entanto, o problema-chave é o facto de a interpretação da Rússia acerca  do fim da Guerra Fria ser bastante ambígua, e é essa incerteza que desorganiza  e divide a identidade internacional daquele país. Este é um dos exemplos mais  notórios da inconsistência da narrativa internacional da Rússia: a Guerra Fria  é maioritariamente vista como uma confrontação irracional e dispendiosa baseada  na ideologia. E, no entanto, o seu fim foi retratado por Vladimir Putin como sendo  a maior catástrofe geopolítica do século passado. Entretanto, nas palavras de  Sergei Lavrov, o final da confrontação bipolar abriu novas possibilidades para  a democratização de todo o sistema de relações internacionais. A ideia da democratização  neste contexto tem duas componentes essenciais:</p>      ]]></body>
<body><![CDATA[<p><i>a)</i> a construção da "ordem mundial genuinamente democrática", na perspectiva    de Dmitri Medvedev, está intimamente ligada à "desideologização da vida internacional"<sup><a href="#5">5</a><a name="top5"></a></sup>;    e <i>b)</i> a democratização pressupõe o repúdio do princípio conhecido como "dilema    da segurança" ("não devemos construir a nossa segurança às custas dos outros"<sup><a href="#6">6</a><a name="top6"></a></sup>).    Contudo, tal como alguns diplomatas russos reconhecem, as expectativas causadas    pelo fim do conflito bipolar eram largamente infundadas: "Depois da derrocada    soviética tínhamos a esperança de entrar num período de paz e prosperidade...    Mas seria por pouco tempo, uma vez que os conflitos religiosos, étnicos e geopolíticos    substituíram a curta euforia do pós-Guerra Fria"<sup><a href="#7">7</a><a name="top7"></a></sup>.</p>      <p>Segundo uma das interpretações "oficiais", a Rússia não só sofreu mais com    o regime comunista do que as restantes repúblicas soviéticas, como ainda desempenhou    um papel crucial na destruição da URSS, contribuindo assim para evitar o confronto    militar e para promover a paz na Europa. "O estabelecimento da democracia nos    três estados bálticos foi um resultado directo da democratização da União Soviética.    […] Foi a democracia russa que se tornou a garantia da não-aplicação da força    militar contra os novos estados independentes"<sup><a href="#8">8</a><a name="top8"></a></sup>,    defende um académico russo. "A democracia russa não foi seguramente um perdedor    na Guerra [Fria]; a sua sensação é de que foi uma vencedora"<sup><a href="#9">9</a><a name="top9"></a></sup>,    salienta um outro analista.</p>      <p>Como é óbvio, esta versão entra em nítida contradição com a narrativa que interpreta    a desintegração da União Soviética como sendo o maior desastre geopolítico do    século xx. Assim, a Rússia deseja retratar-se simultaneamente como a destruidora    do comunismo e como a herdeira da União Soviética, consoante pretenda substanciar    as suas credenciais europeias ou a sua grandiosidade geopolítica. Aparentemente,    o papel de sucessora da União Soviética dá à Rússia muito menos vantagens reais,    principalmente por duas razões. Em primeiro lugar, a forma como a Rússia inscreve    a experiência soviética na sua actual identidade parece ser inconsistente e    enganadora. Tal como um grupo de autores suíços observa, os diplomatas russos,    por um lado, podem afirmar com orgulho "assinámos a Acta de Helsínquia" e, por    outro, insistem que os russos não deveriam ser culpados pelas intervenções soviéticas    nos estados bálticos, na Hungria, na Checoslováquia e no Afeganistão<sup><a href="#10">10</a><a name="top10"></a></sup>.    Em segundo lugar, a solidariedade pós-soviética na arena internacional é muito    fraca e episódica. Para além disso, a insistência da Rússia na sua "posse" do    legado soviético é interpretada por países como a Ucrânia, a Geórgia ou as repúblicas    bálticas como uma prova da sua predisposição para reavivar as políticas imperiais    que visavam os seus vizinhos mais próximos.</p>      <p>Neste ensaio ilustrarei este e outros aspectos  baseando-me em vários exemplos notórios das relações conflituosas da Rússia com  estados adjacentes pós-soviéticos como a Estónia, a Geórgia e a Ucrânia. Alargarei  posteriormente a minha análise às relações controversas com a Grã-Bretanha e a  NATO, e terminarei abordando o caso do oblast de Kaliningrado. Na minha opinião,  todos estes casos são ilustrativos do seguinte: demonstram a dificuldade em ultrapassar  a herança soviética na política externa russa e o tipo de choques que a inevitável  reactualização desta herança poderá originar.</p>       <p><b>RÚSSIA-ESTÓNIA: DUAS ENTIDADES POLITIZADAS</b></p>       <p>Nas relações da Rússia com a Estónia, a questão da selecção de pontos de referência    temporal para a construção de narrativas fundacionais é um tema a debater. Por    exemplo, segundo um determinado autor, a perspectiva russa dos acontecimentos    de 1989-1991 como um "novo" ponto de partida nas relações bilaterais "entrou    em choque frontal com a doutrina estónia da continuidade legal, que via no Tratado    de Tartu, de 1920, a única base legítima para relações políticas. Enquanto a    maioria dos estónios viu no colapso da URSS o momento do regresso à "normalidade"    europeia, a maioria dos russos viu tudo menos isso..."<sup><a href="#11">11</a><a name="top11"></a></sup>.</p>     <p>O conflito de 2007 com a Estónia, provocado pela trasladação do monumento de homenagem  aos soldados soviéticos mortos na II Guerra Mundial da Baixa de Talin para o cemitério  militar, veio acentuar ainda mais o mútuo afastamento entre os dois países.</p>      <p>Uma  das principais fontes de controvérsia foi a tentativa russa de desempenhar dois  papéis simultâneos neste conflito: o de herdeira da URSS e o de país alegadamente  empenhado nos valores europeus. Ambos assentam na condenação das tentativas de  repensar e reescrever a parte do guião da II Guerra Mundial que acusa explicitamente  o fascismo.</p>      <p>Por um lado, a Rússia agiu como sucessora da União Soviética e defensora  da sua glória militar. O discurso oficial russo arcou com a responsabilidade de  ter questionado o papel libertador do Exército soviético em 1941-1945 e de ter  reabilitado a Alemanha fascista para as elites políticas dos três países bálticos.  Aparentemente, a Estónia foi a mais censurada pela sua relutância em reconhecer  o contributo excepcional da URSS na derrota da Alemanha nazi. Os gestos simbólicos  que visavam equiparar os papéis de Hitler e de Estaline ou destruir a interpretação  consensual sobre os resultados da II Guerra Mundial foram recebidos em Moscovo  com uma irritação ostensiva e foram interpretados como a confirmação das alegadas  transgressões da Estónia no plano dos princípios fundamentais da constituição  do pós-II Guerra Mundial.</p>      <p>Por outro lado, a Rússia usou esta situação como um  exemplo acabado das supostas intenções de alguns dos "novos europeus" representarem  de forma errada, ou até de corromperem, a ideia europeia. Com este pano de fundo,  é compreensível que no debate russo a Estónia seja comparada em contraste com  a União Europeia, a suposta autoridade definitiva que deveria obrigar aquele país  báltico a obedecer às normas dos direitos humanos.</p>      ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Na sua política em relação  à Estónia, a Rússia frisou de forma bem clara dois marcos normativos, procurando  desse modo representar-se como um país que defende resolutamente os "verdadeiros  valores europeus", que Talin alegadamente desafia. Em primeiro lugar, a Rússia  aderiu ao princípio da inviolabilidade da condenação internacional do fascismo,  tendo em mente aquilo que é visto como uma tentativa por parte da elite política  estónia de equiparar os papéis históricos da Alemanha e da União Soviética durante  a II Guerra Mundial. Em segundo lugar, a Rússia fez referência a normas de protecção  de minorias, um gesto que aponta a insatisfação de Moscovo com o facto de uma  parte significativa das comunidades que falam russo nos estados bálticos estar  privada de direitos eleitorais.</p>      <p>A maioria dos comentadores russos acredita que  a política oficial de Talin de "distanciamento cultural" (para não falarmos em  "vingança cultural") relativamente aos residentes de língua russa da Estónia entra  em conflito com as normativas europeias. Um representante presidencial, referindo-se  à política russa da UE, apresentou o assunto de forma bastante crua: as autoridades  estónias</p>      <blockquote>       <p>"a pouco e pouco levam os países europeus a repensar completamente as consequências      da II Guerra Mundial. As acções levadas a cabo pelas autoridades estónias      são um desafio às tradições políticas do pós-guerra estabelecidas na Europa,      incluindo as que apontam para a negação do nazismo. Não pretendemos que os      chamados neófitos, pessoas com uma sobreavaliação exacerbada e com profundos      complexos históricos, afectem negativamente a opinião pública europeia"<sup><a href="#12">12</a><a name="top12"></a></sup>.</p> </blockquote>     <p>Acusou assim os recém-entrados na UE ao expor o radicalismo político e "uma    russofobia bastante primária". Na sua opinião, estes países estão a tentar,    de forma activa, "dificultar o diálogo entre a Rússia e a UE", o que parece    contradizer os interesses dos "velhos residentes" da UE<sup><a href="#13">13</a><a name="top13"></a></sup>.</p>     <p>A Rússia recorda de forma directa à UE que é suposto, de acordo com a percepção  russa, ela assumir a responsabilidade pelo comportamento dos seus novos estados-membros.</p>      <p>Em 2004, a Duma declarou que na sequência da entrada da Letónia e da Estónia    na UE estes dois países reforçaram as suas atitudes anti-Rússia ao promulgarem    um conjunto de iniciativas que visavam fazer reivindicações materiais e políticas    à Rússia, e ao reconsiderarem os resultados da II Guerra Mundial (querendo com    isto referir-se a uma alegada tendência de reabilitação dos combatentes nazis)<sup><a href="#14">14</a><a name="top14"></a></sup>.    Com base neste cenário, as controvérsias estónio-russas têm de ser inseridas    no meio de dois contextos discursivos mais amplos: os da dicotomia de uma "Nova    - Velha Europa" e o seu respectivo "Europa falsa - verdadeira". A "Europa falsa"    inclui países com fortes sentimentos anti-russos, que perderam os "genuínos    valores europeus", ao passo que a "verdadeira Europa" é discutivelmente povoada    de nações amigas da Rússia que estão ligadas ao que a Rússia considera "o espírito    original da Europa". O que é significativo é um nexo lógico entre os dois parâmetros    diferentes, identificáveis na visão russa através da dicotomia "verdadeiro-falso":    presumivelmente é esta evaporação do espírito nacional que faz com que certos    países sejam incluídos na "lista negra" da Rússia. Por outras palavras, algumas    nações poderiam ser colocadas na categoria "falsa" justamente porque se desviaram    daquilo que a Rússia considera ser a corrente normativa europeia.</p>      <p>A estratégia discursiva russa para delimitar  fronteiras pode manifestar-se sob a forma de atribuição aos estados bálticos do  epíteto de "Europa falsa", o que implica que aos olhos da Rússia, eles não coincidem  com os critérios da "verdadeira" Europa no que toca ao tratamento das minorias  e à protecção dos direitos humanos. Um dos resultados indirectos das duras polémicas  da Rússia com a Estónia foi a clara integração do tratamento dos monumentos da  II Guerra Mundial por parte das autoridades leste e centro-europeias num conjunto  de critérios que a Rússia se comprometeu a usar no futuro como forma de avaliar  o estado das relações bilaterais. Por exemplo, em contraste com os estados bálticos,  a Áustria e a Eslováquia poderiam ser mencionadas entre os países que, aos olhos  do entendimento russo, demonstram a necessária sensibilidade relativamente às  campas dos soldados soviéticos mortos durante a II Guerra Mundial; como tal, esses  países são designados como europeus "bons" e/ou "construtivos".</p>      <p>Depois de espancar os "recém-chegados", a Rússia tenta dirigir-se à UE como    um definidor de normas. A "nova Europa" é representada como um grupo de arruaceiros    que perturbam tanto a Rússia como a própria UE. Através da ideia de uma "verdadeira    Europa", a Rússia tenta não só exibir a sua identidade europeia mas procura    também definir o seu "círculo de amigos". Poder-se-ia argumentar que esta "complexa    estrutura do mundo tal como é encarada desde a Rússia permite sempre descartar    determinadas posições políticas como sendo "falsamente europeias" e insistir    no papel do Estado russo como defensor dos "verdadeiros" valores europeus"<sup><a href="#15">15</a><a name="top15"></a></sup>.    De certa forma, as reflexões acerca de uma Europa "verdadeira" e "falsa" fazem    parte de batalhas discursivas mais vastas para definir a essência da Europa,    sendo que cada parte envolvida afirma representar a "Europa genuína". Este discurso    salienta a presumível capacidade da Rússia para se tornar um país capaz de cuidar    da "verdadeira europeidade".</p>     <p>E quais são as maiores contradições consequentes, guardadas no seio destes dois  papéis que a Rússia procurar desempenhar? No que diz respeito ao primeiro, o Kremlin  queixa-se de que a Estónia vê (de forma errada, segundo eles) na Rússia a extensão  directa da URSS, um derrotado da Guerra Fria e um país que ainda carrega a culpa  histórica da ocupação dos estados bálticos. Esta percepção entra presumivelmente  em conflito com a autopercepção da Rússia como um país que se livrou do comunismo  exactamente da mesma forma que a Estónia. Segundo esta interpretação da identidade  russa, todos os países pós-soviéticos foram vítimas da tirania comunista, e a  Rússia merece o reconhecimento pelo seu contributo decisivo para a destruição  do regime soviético. Escusado será dizer que este ponto de vista contradiz não  só a narrativa estónia dominante mas - paradoxalmente - também a narrativa da  interpretação da identidade russa como genealogicamente derivada das práticas  da era soviética.</p>      ]]></body>
<body><![CDATA[<p>O segundo papel também não está isento de conflitos internos.  Na sua reacção ao que é considerado anti-russo discriminatório por parte das autoridades  estónias, a Rússia parece fazer referência/apelo de forma explícita às normas  europeias e, de certa forma, dá desesperadamente as boas-vindas à interferência  da UE de uma maneira ou de outra.</p>      <p>No entanto, tal como Viacheslav Morozov sugeriu, "no entanto, o facto de os    comentadores russos se arrogarem o direito de fazer julgamentos acerca dos estados    bálticos desde o ponto de vista de uma "Europa verdadeira" não quer dizer necessariamente    que o discurso da política externa russa se estruture em termos europeus. A    Rússia faz valer as normas da Europa mas estaca no momento de aplicar essas    mesmas normas à sua própria política"<sup><a href="#16">16</a><a name="top16"></a></sup>,    o que torna a posição da Rússia muito pouco convincente.</p>      <p>A estratégia russa de comparar pela negativa a Estónia com o resto da UE tem    uma outra falha importante, competentemente revelada por Alexandr Astrov<sup><a href="#17">17</a><a name="top17"></a></sup>.    Na sua perspectiva, na verdade, o Governo estónio não desafiou as normas europeias.    Pelo contrário, agiu em plena conformidade com a lógica da europeização assente    na construção gradual de uma leitura consensual das memórias do passado através    da despolitização das narrativas assentes na história e da deslocação das interpretações    alternativas para a esfera da "vida privada". O paradoxo é que foi a suposta    despolitização que desencadeou um dos mais agudos conflitos políticos entre    os estados pós-soviéticos.</p>      <p>Tendo  desempenhado dois papéis em simultâneo - o de herdeira da União Soviética e o  de "verdadeira" nação europeia - a Rússia não conseguiu alcançar resultados palpáveis:  o estado das relações políticas entre Moscovo e Talin é marcado pelo afastamento,  a posição da UE foi mais favorável ao Governo estónio e a Rússia não foi capaz  de obter qualquer apoio significativo por parte de outros países da CEI, embora  houvesse soldados de diferentes origens étnicas entre as tropas soviéticas. O  facto de nenhum dos países da antiga URSS se ter posto ao lado da Rússia é um  bom indicador do isolamento político da Rússia e da fragilidade da sua capacidade  de apelo normativo, mesmo entre as nações do "estrangeiro próximo".</p>       <p><b>RÚSSIA-GEÓRGIA: UM ECO DA DERROCADA DA URSS</b></p>       <p>O conflito Rússia-Geórgia, que culminou na guerra de Agosto de 2008, relaciona-se    com o legado de 1989 em dois sentidos. Primeiramente, a Rússia tratou os confrontos    militares entre a Geórgia, por um lado, e a Abcásia e a Ossétia do Sul, por    outro, como resquícios dos tempos da dissolução espontânea da União Soviética.    Mais uma vez, o Kremlin tentou fazer dois jogos em simultâneo: recorreu a uma    leitura "catastrófica" do desmantelamento da URSS e tentou jogar a cartada do    anticomunismo. Assim, não foi só Mikhail Saakashvili que recebeu o epíteto pejorativo    de "herdeiro de Estaline e de Beria"; segundo Putin, "aqueles que insistem que    a Abcásia e a Ossétia do Sul devem pertencer à Geórgia são estalinistas, uma    vez que apoiam a decisão tomada por Estaline"<sup><a href="#18">18</a><a name="top18"></a></sup>.    Este tipo de analogias políticas, extrapolado à Ucrânia, só pode reforçar a    narrativa anticomunista, uma vez que é sobejamente sabido que foi Kruschev que    tomou a decisão autoritária de transferir a Crimeia - uma península do mar Negro    povoada principalmente por falantes de russo e que estava em conflito com as    autoridades centrais de Kiev - para a possessão formal da Ucrânia.</p>      <p>Em segundo lugar, a operação vitoriosa contra a Geórgia foi implicitamente    retratada na Rússia como uma vingança por quase duas décadas de humilhação e    retirada geopolítica iniciada com a queda do Muro de Berlim. Explica em parte    as razões por trás das declarações de Medvedev sobre uma esfera de interesses    privilegiados da Rússia em Agosto de 2008. Um dos manipuladores de opinião do    Kremlin reconheceu abertamente que "ao termos cruzado a linha vermelha dos desejos    de segurança colectiva entrámos no mundo dos adultos e começámos a falar a sua    linguagem de idade madura"<sup><a href="#19">19</a><a name="top19"></a></sup>.    Numa declaração mais radical, um jornalista político afirmou que para a Rússia    não há qualquer benefício em jogar de acordo com as regras, já que neste caso    parecemos "idiotas sorridentes pró-americanos. […] Não há qualquer vantagem    em ser simpático. O que é que eles [o Ocidente] nos deram em troca por termos    sido dóceis?"<sup><a href="#20">20</a><a name="top20"></a></sup></p>      <p>Em locuções destas é muito nítida a referência  óbvia ao legado de 1989.</p>      <p>Segundo a interpretação oficial russa, a guerra com a  Geórgia de Agosto de 2008 foi um acontecimento que serviu de marco para dividir  o tempo entre o que foi o "antes" e o que vem "depois". A Rússia interpretou esta  guerra como uma continuação lógica das suas tentativas desesperadas de se posicionar  como uma entidade internacional "normal". O entendimento russo de "normalidade"  surge (pelo menos) em três versões interligadas:</p>      <blockquote>       ]]></body>
<body><![CDATA[<p> &#183 anda a par com a capacidade de se defender de criminosos externos;</p>       <p> &#183 considera uma imitação do comportamento de outras potências (nas palavras      do Presidente Medvedev, "na Ossétia do Sul fizemos o que outros fizeram no      Kosovo"<sup><a href="#21">21</a><a name="top21"></a></sup>);</p>       <p> &#183 pressupõe o poder de "normalizar" ("disciplinar e punir") os vizinhos      que causem problemas de segurança.</p> </blockquote>     <p>Neste contexto, o Presidente Medvedev apareceu para "reparar" a ineficaz (na perspectiva russa) arquitectura  de segurança europeia. Medvedev e Putin questionaram os principais elementos institucionais  da sociedade internacional: o G8 foi apelidado de "organização deficiente", a  Organização Mundial do Comércio (OMC) não era tão instrumental como parecia, a  NATO passou de "parceiro" a "inimigo", etc. Contudo, em vez de fornecer um pano  de fundo para uma nova e mais coerente compreensão da identidade russa, a guerra  tornou difusas as linhas de identificação e levantou um conjunto de questões que  ainda permanecem em aberto. Quando analisada de perto, a Rússia auto-assertiva  do pós-guerra parece encontrar-se num impasse. Uma observação mais cuidada da  narrativa de guerra nos meios de comunicação social russos e no discurso político  dá-nos uma visão de um país em pedaços, dividido por múltiplas controvérsias,  tanto conceptuais como práticas.</p>      <p>Tal como nos tempos da União Soviética, a Rússia reactualizou uma longa tradição    de utilização do conceito de "Ocidente" enquanto o Outro constitutivo da Rússia,    perfeitamente dominado e manipulado pelos Estados Unidos. "A Europa tem falta    de vontade política - essa encontra-se apenas na posse da América"<sup><a href="#22">22</a><a name="top22"></a></sup>,    segundo considera um analista russo. Aos olhos de Putin, por vezes a Europa    age de forma demasiado branda na gestão de questões de segurança, e "alguns    dos países europeus desejam ardentemente servir os interesses externos (não    europeus)"<sup><a href="#23">23</a><a name="top23"></a></sup>. Nas palavras    de um jornalista russo, a Europa não se atreve a contrariar os Estados Unidos,    não tem uma voz própria internacional, não consegue levar a cabo acções autónomas    e demonstra incapacidade e até paralisia<sup><a href="#24">24</a><a name="top24"></a></sup>.</p>     <p>E no entanto não é claro se a suposta unipolaridade que emanou do final da    Guerra Fria realmente existe aos olhos do Kremlin. Lavrov afirmou que o mundo    unipolar deixou de existir imediatamente a seguir a Agosto de 2008, presumivelmente    como consequência directa da vitória da Rússia contra a Geórgia. Desta forma,    a Rússia emerge da "realidade do mundo multipolar"<sup><a href="#25">25</a><a name="top25"></a></sup>,    que, de acordo com esta versão, já é um facto e como tal não necessita de ser    defendido. Portanto, o problema-chave não é a demolição da "hegemonia americana"    que presumivelmente terá amadurecido depois de 1989, mas sim qual o tipo de    ordem internacional que terá de substituí-la. Como o director do Instituto de    Avaliações Estratégicas, sediado em Moscovo, muito bem defendeu, a resistência    aos ditames de um poder isolado e o desejo de um "mundo multipolar" são duas    estratégias diferentes.</p>      <p>O que vem dificultar o entendimento do discurso do Kremlin é o facto de Medvedev    tender a encontrar as causas das actuais falhas da segurança internacional quer    nas "abordagens por blocos" quer na unipolaridade<sup><a href="#26">26</a><a name="top26"></a></sup>.    O problema lógico que começa a surgir nesta conjuntura é que se trata de dois    conceitos diferentes que dificilmente podem ser equiparados entre si num único    enquadramento de análise. Em certa medida, aquilo a que Medvedev chama "abordagem    por blocos" - que necessita de pelo menos dois grupos de estados aliados em    competição e que representa uma forma elementar de multipolaridade - contraria    o modelo de mundo unipolar (ou seja, dominado pelos Estados Unidos).</p>     <p>O Kremlin tenta evitar a abordagem puramente geopolítica e, desse modo, introduz  um certo toque normativo na sua concepção da sociedade internacional, ao ligar  de forma lógica "multipolaridade" e "democracia". Esta última, à luz dessa interpretação,  é infelizmente reduzida à mera pluralidade de estados poderosos, independentemente  da natureza dos seus regimes políticos. Poder-se-ia entender que o ponto de vista  russo sugere que é a multipolaridade que gera o desenvolvimento das "instituições  democráticas" na arena internacional, e não o contrário. Não por acaso, a Rússia  recorre à retórica da "multipolaridade democrática" basicamente nas comunicações  com países como a China, a Bielorrússia, o Irão, a Venezuela, Cuba, entre outros,  todos eles sem experiência de governação democrática convincente.</p>      <p>Por outro lado, o discurso da multipolaridade não parece funcionar nas comunicações    da Rússia com a UE. Ao lidar com a UE, a Rússia prefere empregar conceitos como    "espaço comum euro-atlântico" e "Europa mais ampla". No rescaldo da guerra de    Agosto de 2008 as relações Rússia-Europa ganharam alguma força, tal como demonstraram    as conversações Medvedev-Sarkozy, apesar da decisão de Bruxelas de terminar    as negociações acerca do novo tratado bilateral com Moscovo. Explica por que    motivo o Presidente russo sublinhou que "é exactamente a UE que se tornou um    parceiro para nós, com recursos, responsável, e, o que é da maior importância,    pragmático"<sup><a href="#27">27</a><a name="top27"></a></sup>.</p>      <p>"A Europa é para a NATO ou a NATO é para a Europa?", perguntou de modo patético    o ministro russo dos Negócios Estrangeiros, salientando depois que cabe à UE    encontrar a "solução europeia" para os problemas do Cáucaso, em vez de "respeitar    os conselhos vindos de longe". Na opinião de um dos influentes manipuladores    de opinião do Kremlin, o verdadeiro problema para a Rússia é concentrar-se de    forma dogmática nas relações com os Estados Unidos em questões de segurança,    o que só vem justificar a necessidade de se encontrar uma nova agenda política    com a UE ("talvez seja difícil lidar com a Europa enquanto império de várias    cabeças, mas não há alternativa viável à orientação em direcção à Europa"<sup><a href="#28">28</a><a name="top28"></a></sup>,    segundo sugeriu um analista político russo).</p>      ]]></body>
<body><![CDATA[<p><b>RÚSSIA-UCRÂNIA: UMA VIDA EM COMUM MAS EM SEPARAÇÃO</b></p>       <p>A política da Rússia relativamente aos países das "revoluções coloridas" (e,    antes de mais, no que respeita à Ucrânia) pode dar-nos um exemplo interessante    da transformação da síndrome soviética do <i>big brother</i>, ao passar de fenómeno    principalmente ideológico para um fenómeno geopolítico e geoeconómico. Aqui    assistimos a um dos maiores fossos discursivos entre a UE e a Rússia: a primeira    prefere enquadrar a sua política em relação às "revoluções coloridas" em termos    normativos de continuidade da promoção da democracia e das liberdades civis    iniciadas há quase duas décadas, ao passo que a segunda está convencida de que    o cerne da interferência externa, independentemente da retórica normativa, acaba    sempre por dar lugar à <i>Realpolitik</i>. De facto, a Rússia rejeita a vertente normativa    do fenómeno das "revoluções coloridas", reduzindo-o a uma série de questões    pragmáticas e de busca de poder. E no caso particular da Ucrânia, a Rússia ainda    trata aquele país como um estado-satélite que se revoltou contra o seu centro    imperial. A feroz reacção da Rússia à Revolução Laranja na Ucrânia também poderia    ser explicada através da referência à crença anterior de Moscovo de que na sequência    do 11 de Setembro a Rússia seria vista como um país muito mais próximo do Ocidente    em geral e da Europa em particular do que outros países pós-soviéticos. Nesse    sentido, a Revolução Laranja demonstrou o falhanço da Rússia enquanto autoproclamado    "representante dos valores europeus através de todo o espaço ex-soviético"<sup><a href="#29">29</a><a name="top29"></a></sup>.</p>     <p>Na sua política em relação à Ucrânia a Rússia persegue dois objectivos políticos:  evitar a chegada ao poder de regimes anti-russos nos seus países vizinhos, e impedir  quaisquer possibilidades de a experiência das "revoluções coloridas" se projectar  no próprio país.</p>      <p>O Kremlin designa as chamadas "revoluções coloridas" como "uma trama ocidental    para instalar regimes pró-americanos na periferia da Rússia e para procurar    engendrar uma mudança de regime na própria Rússia"<sup><a href="#30">30</a><a name="top30"></a></sup>.</p>     <p>É por isso que para a Rússia os países das "revoluções coloridas" são vistos como  agitadores. A evolução após a revolução não é vista de forma alguma como sendo  radicalmente diferente dos padrões russos. Aliás, o sistema político da Ucrânia  sob o governo do Presidente Yuschenko é frequentemente apresentado como sendo  inferior ao russo.</p>      <p>Segundo a interpretação prevalecente na Rússia, a Ucrânia está  a atravessar um período de instabilidade e enfrenta a fragmentação e a desintegração,  que a Rússia já conseguiu ultrapassar com sucesso.</p>      <p>A Rússia está a utilizar a  pressão política para forçar Kiev a fazer concessões em, pelo menos, duas áreas  importantes. A primeira é o reconhecimento do estatuto oficial da língua russa  na Ucrânia. Neste aspecto, a Rússia detém um bom trunfo, uma vez que a maioria  dos ucranianos são falantes de russo. A outra exigência importante é a interrupção  do processo de integração da Ucrânia na NATO. Esta questão é importante no que  diz respeito aos planos estratégicos de a Rússia manter a sua presença militar  em Sebastopol, que poderia ser posta em causa com a pertença da Ucrânia à NATO.  A dura resistência que a Rússia oferece a uma hipotética integração da Ucrânia  na NATO deve-se em grande parte ao receio de que neste caso a frota russa do mar  Negro, estacionada na Crimeia, não possa lá permanecer. Embora tenha reconhecido  a Ucrânia como Estado independente, a Rússia tentou repetidamente jogar a "carta  da Crimeia", ou seja, estimular sentimentos anti-Ucrânia nessa península. Um representante  russo perante a NATO assumiu que é pouco provável que a Ucrânia venha a manter  as suas fronteiras actuais caso entre na Aliança. Este tipo de discurso revisionista  revela a insatisfação da Rússia acerca do modo como algumas questões territoriais  foram resolvidas no tempo da queda da União Soviética. Isso explica o motivo pelo  qual Moscovo ameaça os ucranianos afirmando que a sua entrada na NATO acabará  com a adopção de um regime de vistos entre os dois países e com a quebra da vasta  cooperação russo-ucraniana nos domínios da indústria da defesa e dos projectos  de alta tecnologia.</p>      <p>A posição de <i>Realpolitik</i> da Rússia - motivada pela intenção  de manter os países vizinhos dentro da sua órbita geopolítica - provocou um tipo  de reacção normativa por parte do Ocidente e dos próprios países das "revoluções  coloridas". Mais especificamente, o estabelecimento da Comunidade da Escolha Democrática,  assim como a maior inclusão dos "governos coloridos" nas esferas institucionais  sob influência da UE e da NATO poderiam ser bons indicadores desta tendência.</p>      <p>Entretanto, ao ir gradualmente perdendo influência política sobre países que    tradicionalmente se incluíam no seu "estrangeiro próximo", a Rússia faz alguns    esforços para se ver livre do passado soviético e tenta reenquadrar a sua identidade    nacional de uma forma mais objectiva. Assim, deu-se uma viragem significativa    na política russa relativamente à Ucrânia entre 2004 (o ano da Revolução Laranja)    e 2007 (quando as eleições parlamentares de Setembro reintegraram a coligação    laranja no Parlamento). Um dos exemplos mais reveladores foi a declaração do    Presidente Putin: "se o Ocidente pretende apoiar os movimentos laranja, deve    pagar as suas consequências. Caso contrário, ficamos com a impressão de que    querem apoiá-los e ao mesmo tempo querem que nós paguemos as consequências"<sup><a href="#31">31</a><a name="top31"></a></sup>.    Esta intervenção denota uma intenção por parte do Kremlin de contextualizar    a situação em termos muito pragmáticos - cínicos, até - e sem conotações ideológicas.    A afirmação de Putin é um bom indicador da mudança gradual das atitudes russas    perante a Ucrânia, que é cada vez mais reconhecida como um país de pleno direito,    uma entidade política cujas relações com a Rússia já não encaixam no tipo de    relacionamento protector-cliente.</p>       <p><b>RÚSSIA-NATO: OS PERIGOS DA MARGINALIZAÇÃO</b></p>       ]]></body>
<body><![CDATA[<p>No âmbito das relações Rússia-NATO o legado da Guerra Fria foi  o mais difícil de ultrapassar. O conflito da Rússia com a NATO teve origem na  queda do Muro de Berlim.</p>      <p>Na sua oposição ao alargamento territorial da NATO, a  Rússia recorreu à promessa supostamente feita pelos oficiais da NATO a Mikhail  Gorbachev de que não alargariam a sua área de influência às esferas de interesses  de Moscovo. Portanto, segundo a história russa, Moscovo pôs em prática as suas  obrigações, incluindo a retirada de tropas da Europa Oriental e dos estados bálticos,  mas os países da NATO não mantiveram a sua palavra.</p>      <p>Há certamente algumas inconsistências na atitude em relação à NATO no seio    das elites russas, o que pode gerar equívocos no Ocidente. A nível operacional,    os oficiais russos reconhecem a importância da cooperação militar com a NATO.    Alguns autores acham inclusive que "a Rússia quer ter uma palavra a dizer nas    deliberações da NATO e, na medida do possível, gostaria de ter influência nas    decisões da NATO"<sup><a href="#32">32</a><a name="top32"></a></sup>. Contudo,    no terreno político, as atitudes russas são significativamente menos cooperantes:    de aliado a NATO passou a ser uma das mais importantes referências na construção    mental do "Ocidente hostil", e como tal é integrada num contexto discursivo    altamente negativo.</p>      <p>No entanto, é pouco provável que a estratégia de tratar a NATO como a maior fonte  de insegurança da Rússia venha a surtir efeito a longo prazo. Sob diversos aspectos,  o papel de inimigo da Rússia não parece muito apropriado para a NATO: só uma pequena  minoria de russos entende com clareza que tipo de entidade se encontra por trás  daquele acrónimo; mas o que ainda é mais difícil de explicar é porque é que se  atribuem características ostensivamente negativas a um grupo de países com os  quais Moscovo mantém relações de trabalho normais, quer bilateralmente quer no  âmbito de corpos internacionais como o G8, quando se reúnem sob o título de NATO.</p>      <p>Todo o processo de transformar a NATO e os países que desejam fazer parte da Aliança  no Outro peca por falta de coerência lógica, uma vez que a Rússia parece recorrer  a dois argumentos que se excluem mutuamente. Por um lado, a NATO é representada  como um bloco militar hostil e perigosamente poderoso (se não omnipotente) que  ameaça os interesses da Rússia. Por outro, a NATO é representada como um resquício  da Guerra Fria, o que supostamente faz salientar a sua irrelevância para fornecer  segurança num contexto internacional que já não é o mesmo. No Fórum Económico  de São Petersburgo em Junho de 2008 o ministro russo das Finanças Igor Kudrin  afirmou que a NATO terá, mais cedo ou mais tarde, de passar à história. E foi  neste momento que se formulou um dos argumentos-chave russos: a NATO é vista como  uma organização que reage de forma errada a novos desafios de segurança que já  não estão circunscritos a um determinado território. Em particular, segundo Putin  e Medvedev, o chamado "pensamento por blocos" e a expansão <i>territorial</i> que lhe  está associada não é uma solução adequada contra ameaças <i>não territoriais</i>. Paradoxalmente,  nesta circunstância a Rússia - frequentemente descrita como um agente internacional  ao estilo <i>Realpolitik</i> - recorre a um argumento que se baseia em abordagens transnacionalistas  e em ideias desenvolvidas no contexto da procura da paz e das escolas europeias  de pensamento do novo regionalismo.</p>      <p>A Cimeira de Bucareste da NATO, realizada  em Abril de 2008, pareceu alargar ainda mais os fossos de percepção que dividem  a Rússia e a NATO. A maioria dos oficiais da Aliança exprimiu publicamente o seu  optimismo e a esperança de desenvolver uma interacção construtiva entre Moscovo  e Bruxelas, ao passo que a maioria dos comentários russos ficaram marcados pelo  pessimismo explícito e por uma total falta de entusiasmo. No entanto, só depois  da Cimeira de Bucareste é que se tornaram mais ou menos aparentes certos contornos  da estratégia russa em relação à NATO. O que é evidente é que a Rússia tenta utilizar  uma série de argumentos em conjunto.</p>      <p>Em primeiro lugar, a Rússia defende que as  candidaturas da Ucrânia e da Geórgia são a justificação perfeita para os movimentos  secessionistas na Crimeia e para o afastamento dos territórios da Abcásia e da  Ossétia do Sul. O Kremlin sempre insistiu em que nenhum deles votou a sua pertença  à NATO. De facto, a Rússia ameaça Kiev - tal como ameaçou Tbilissi - com a possibilidade  de vir a apoiar a derrocada dos dois países, uma estratégia no mínimo controversa,  especialmente à luz da oposição russa à independência do Kosovo.</p>      <p>Em segundo lugar,  a Rússia utiliza um raciocínio normativo ao argumentar que a vasta maioria dos  ucranianos estão contra a integração na NATO. Claro que este argumento não funciona  no caso da Geórgia, onde o referendo acerca deste assunto deu a vitória ao sim;  contudo, a Rússia persiste na exploração da retórica normativa ao salientar repetidamente  que a Geórgia não está à altura dos padrões ocidentais de democracia. Se continuar  a seguir esta linha de argumentação, Moscovo poderá ver-se encurralada numa contradição  lógica: por um lado, parece estar interessada em recorrer a argumentos normativos  contra a inclusão da Ucrânia e da Geórgia na NATO; mas, por outro, algumas das  afirmações públicas de Putin podem ser vistas como uma tentativa de contrariar  a inter-relação conceptual entre democracia e segurança (a este respeito é muito  significativa a observação de Putin quando afirma que seria absurdo ver na pertença  à NATO uma prova da qualidade democrática de um país).</p>      <p>Em terceiro lugar, existe  um debate relacionado com as fronteiras no arsenal da Rússia, que parece, uma  vez mais, constituir um desafio para o próprio país. Por um lado, a Rússia pretende  desempenhar o papel de defensor das fronteiras abertas com os seus vizinhos do  "estrangeiro próximo", o que explica que segundo a interpretação do vice-primeiro-ministro  Sergei Ivanov será a NATO que acabará por forçar a adopção do regime de vistos  entre a Ucrânia e a Rússia. Esta jogada poderá ser sobretudo prejudicial para  a própria Ucrânia, que perderá turistas russos nas estâncias do mar Negro; para  além disso, a empregabilidade de imigrantes ucranianos na Rússia será mais complicada.  Mas, por outro lado, sabemos bem que há alguns anos a própria Rússia introduziu  o regime de vistos com a Geórgia e inclusive cortou relações económicas com aquela  república.</p>      <p>De que modo se podem explicar todas estas inconsistências enraizadas  na posição russa? Em primeiro lugar, a atitude irregular em relação à NATO assenta  em parte nas dificuldades que a Rússia está a enfrentar na construção da sua identidade  internacional. O cerne da controvérsia na construção da identidade russa é o choque  entre duas tendências em competição. Por um lado, a Rússia procura redefinir-se  como um tipo de sujeito pragmático, individualista e despolitizado que joga de  acordo com as regras e reage basicamente a desafios ou incentivos de ordem económica  ou financeira. Mas, por outro, existe uma forte herança soviética que se reactualiza  em determinados casos para constranger as jogadas despolitizadas da Rússia. É  por isso que o auto-entendimento russo se baseia de forma tão inerente em narrativas  históricas e se encontra tão intimamente ligado a um passado glorificado e acarinhado.  As observações de Putin carregadas de emotividade acerca da impossibilidade de  se "pensar sequer" na hipotética localização de navios da NATO em Sebastopol foram  uma das muitas expressões do legado soviético russo que ainda persiste.</p>      ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Em segundo lugar, a Rússia tem alguma dificuldade em compreender a que conceito    de segurança a NATO vai aderir. Em especial, Moscovo parece ter ficado obviamente    irritada ao descobrir que a NATO inclui questões de transporte de energia na    sua agenda de segurança. As desconfianças russas são exacerbadas por algumas    declarações de oficiais georgianos (como, por exemplo, o ministro da Administração    Interna, Vano Merabishvili<sup><a href="#33">33</a><a name="top33"></a></sup>)    segundo os quais a integração deste país na NATO dará lugar a novas rotas de    transporte de recursos energéticos, que evitarão o território russo.</p>      <p>Contudo, não devemos deixar de reparar num vislumbre de promessa: apesar  da óbvia oposição ao alargamento da NATO, na Cimeira de Bucareste Putin assumiu  que se a NATO pretender desenvolver de forma consistente uma parceria estratégica  aprofundada com a Rússia, a reacção de Moscovo não será tão negativa às actividades  da Aliança nos seus países vizinhos. Outro ponto de partida positivo no âmbito  do discurso russo de segurança é a abertura de Medvedev à ideia de uma segurança  comum euro-atlântica, que deveria assentar, na sua opinião, numa parceria trilateral  Estados Unidos-UE-Rússia.</p>       <p><b>RÚSSIA-GRÃ-BRETANHA: UMA NOVA GUERRA FRIA?</b></p>       <p>A deterioração crítica das relações russo-britânicas em resultado do homicídio    de Alexander Litvinenko em Londres em 2006<sup><a href="#34">34</a><a name="top34"></a></sup>    poderia servir como um bom lembrete de que o regresso aos tempos da Guerra Fria    não deve ser completamente posto de lado.</p>      <p>Moscovo pareceu muito interessada em encenar uma demonstração do poder florescente da Rússia,  da sua auto-assertividade e da sua soberania plenamente desenvolvida.</p>  </p>Existem  dois objectivos tácticos e uma estratégia na política russa. No que se refere  ao objectivo estratégico, Moscovo rapidamente encenou uma demonstração do poder  florescente da Rússia, da sua auto-assertividade e da sua soberania madura. Entre  os objectivos tácticos, primeiro a Rússia pretendia desmentir as acusações generalizadas  de que tinha patrocinado o homicídio contratual de um antigo agente do KGB em  Londres. Em segundo lugar, a Rússia queria reorientar o caso contra um magnata  fugitivo, Boris Berezovski, e, por fim, pretendia que a Grã-Bretanha o extraditasse  para a Rússia. O Caso Litvinenko-Lugovoi ficou profundamente inscrito na agenda  política doméstica russa, que incluía figuras como Boris Berezovski, Akhmed Zakayev  e outros emigrados. Assim, o Governo russo acusa Berezovski - um "oligarca" com  residência em Londres - de "patrocinar o terrorismo" dentro da Rússia (mais especificamente,  no apoio à guerrilha da Tchetchénia) e de estar por trás do assassínio de Litvinenko  em Londres. Não é por acaso que a população russa viu no Caso Litvinenko-Lugovoi  uma interessante história de espiões. Estas impressões foram exploradas em várias  tentativas de fazer de Andrei Lugovoi uma personalidade de destaque nos media  e até uma figura política (ele era segundo candidato no LDPR - Partido Liberal  Democrático da Rússia - dirigido por Zhirinovski nas eleições de 2 de Dezembro  de 2007 para a Duma, de que é membro actualmente).</p>      <p>Oficialmente, a Rússia enquadrou  a questão no plano legal, preferindo não prestar atenção a quaisquer justificações  sérias para a sua politização. Foi a Grã-Bretanha que, aos olhos da Rússia, politizou  o problema, primeiro, ao aludir à necessidade de mudar a legislação russa que  impossibilitava a extradição de Andrei Lugovoi. Em segundo lugar, era o lado britânico  que se referia a uma "boa vontade" que Lugovoi pudesse vir a demonstrar para,  de forma voluntária, aceitar o julgamento no Reino Unido de modo a provar a sua  inocência. A introdução do conceito de "boa vontade", aos olhos da Rússia, atestava  a insuficiência de um contexto puramente legal para lidar com a controvérsia,  o que orienta o caso na direcção da política. Em terceiro lugar, afirma Andrei  Lugovoi, os serviços secretos britânicos estavam ao mesmo tempo a abordá-lo com  uma proposta para reunir informação acerca das políticas russas em geral e o Presidente  Putin em particular, por forma a "desacreditar tudo o que se passa na Rússia".  Esta declaração também nos retrata o lado britânico em tons explicitamente políticos.  Em contrapartida, o próprio Lugovoi descreve-se a si próprio como um "simples  homem de negócios", que constrói as suas relações profissionais em termos contratuais  e de gestão.</p>      <p>Moscovo parece sentir-se bastante à vontade no papel auto-atribuído de sujeito    apolítico, e no entanto é exactamente esse papel que é desafiado por toda a    Europa. O que, na verdade, está escondido nas entrelinhas dos argumentos russos    é um discurso de soberania, exemplificado por afirmações antibritânicas de <i>opinion    makers</i> na Rússia. "Tenho orgulho em viver num grande país" - esta confissão    reveladora de Lugovoi<sup><a href="#35">35</a><a name="top35"></a></sup> veio    realçar a articulação entre afirmações relacionadas com o poder e afirmações    centradas no Estado.</p>      <p>Os efeitos deste conflito foram  amplamente anormativos. No Caso Litvinenko-Lugovoi, o contexto internacional foi  explicitamente contrário à Rússia. Moscovo não conseguiu obter nenhum apoio significativo  por parte dos governos estrangeiros e acabou por ficar isolada. Este incidente  constituiu parte da imagem deteriorada da Rússia no mundo ocidental, juntamente  com o homicídio de Anna Politkovskaya e de outras figuras consideradas como duros  opositores do Presidente Putin.</p>      <p>O Caso Litvinenko terminou como um escândalo diplomático entre Moscovo e Londres,    com um grupo de quatro diplomatas de cada lado que acabaram por ser expulsos.    Como forma de retaliação contra o lado britânico, a Rússia anuncia a quebra    da cooperação bilateral contra o terrorismo. As questões de segurança mostraram    ser fonte de divisões: para a Grã-Bretanha, o assassínio de Litvinenko era um    caso relacionado com terrorismo, ao passo que para a Rússia um dos pontos fulcrais    era a relutância das autoridades britânicas em extraditar Akhmed Zakayev, que    era acusado de apoiar o terrorismo dentro da Rússia. Esta divergência de percepção    teve como resultado a avaliação do chefe do M15, Jonathan Evans, segundo a qual    a Rússia era um país hostil que desviou recursos britânicos usados para proteger    a Grã-Bretanha das actividades ilegais dos agentes dos serviços secretos russos<sup><a href="#36">36</a><a name="top36"></a></sup>.</p>     <p>A Grã-Bretanha também tomou providências para dificultar a sua política de    vistos para funcionários públicos russos. A resposta russa foi bastante explícita:    segundo Viacheslav Nikonov, "a partir de agora os negócios britânicos passarão    a enfrentar maiores dificuldades nos mercados russos"<sup><a href="#37">37</a><a name="top37"></a></sup>.    Esta reacção revela um importante aspecto do debate: a política não é vista    na Rússia como uma área auto-suficiente para regulamentar relações de poder,    e assume-se que ela necessita de factores adicionais para projectar poder (como    sanções económicas, por exemplo). Esta questão parece dar continuidade ao debate    sobre se os instrumentos económicos usados pela Rússia constituem a sua - muito    eficaz - "arma política" escondida. Contudo, neste jogo de pressão entre a Rússia    e o Reino Unido esta questão pode ser invertida: será que as contradições políticas    entre os dois países constituem uma razão suficiente para repensar as relações    económicas bilaterais? Ambos os países parecem responder positivamente à pergunta.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>A reacção da Rússia ao Caso Litvinenko transforma-o noutra tentativa de remodelar  aquilo a que poderíamos chamar o "mapa mental" da Europa, que, como já apontei  atrás, se baseia na distinção entre os "bons" e os "maus" europeus. Neste caso,  a Rússia tenta abrir uma excepção para as políticas hostis do Reino Unido, um  gesto discursivo que indica que a Rússia não pretende extrapolar a toda a UE as  dificuldades que enfrenta no seu relacionamento com aqueles países.</p>       <p><b>KALININGRADO: DO LEGADO SOVIÉTICO ÀS ABORDAGENS PRAGMÁTICAS</b></p>       <p>O conflito de Kaliningrado dá-nos  outro exemplo da reactualização da retórica da Guerra Fria e da sua revisão.</p>      <p>A estratégia política geral da Rússia consistia em manter o estatuto do <i>oblast</i> de  Kaliningrado como parte da Federação Russa, e na plena aplicação das leis russas  que regulam, quer os acontecimentos internos dessa região, quer a sua relação  com o centro federal. Os principais conceitos ideológicos articulados pelas autoridades  russas eram: "dignidade", "respeito", "orgulho", "honra" e "princípios". É neste  contexto que a UE foi amplamente considerada como uma potência que impedia a Rússia  de exercer os seus direitos de soberania sobre o <i>oblast</i> de Kaliningrado.</p>      <p>Um factor que dificultou a aplicação da lógica de <i>status quo</i> nesta situação foi a insistência  da UE na sua própria versão de <i>status quo</i>, que se baseava na aplicação de normas  do <i>acquis communautaire</i> ao enclave da Rússia. O choque entre duas lógicas de <i>status  quo</i> define a natureza do conflito, que, inevitavelmente, deu origem a</p>      <blockquote>       <p>"um processo interminável de construção de limites entre "nós" e "eles",      entre bom e mau, e um receio agudo de que se estes limites fossem postos em      causa a identidade da comunidade seria destruída. […] Escusado será dizer      que uma predisposição discursiva desta natureza dificilmente poderia conduzir      a um espírito de abertura e de derrube de fronteiras"<sup><a href="#38">38</a><a name="top38"></a></sup>.</p> </blockquote>     <p>O pensamento em termos de choque de identidades levou Moscovo a assumir que    a UE estava propositadamente a tornar o conflito mais complexo e que pretendia    enfraquecer os laços da região com a Rússia. Isto explica porque é que antes    de negociar assuntos específicos, a Rússia - seguindo o legado político soviético    - está de pré-aviso e assume uma posição de defesa contra os seus interlocutores.    Como resposta ao que foi considerado como gestos de hostilidade, por parte do    Ocidente, a Rússia é incitada a endurecer a sua posição relativamente à questão    de Kaliningrado - sem prestar atenção às implicações práticas dessa postura.    De modo muito significativo, Gleb Pavlovskii, um dos manipuladores de opinião    do Kremlin, utilizou a expressão "soberania" dezassete vezes numa entrevista    de duas páginas na sequência do encontro UE-Rússia em Svetlogorsk em Maio de    2009<sup><a href="#39">39</a><a name="top39"></a></sup>, e depois acrescentou    referências à "teoria do dominó" (que defende que a concessão de um estatuto    administrativo especial aos residentes de Kaliningrado provocaria uma reacção    em cadeia no Tataristão, nas ilhas Curilas e noutras partes potencialmente problemáticas    da Rússia).</p>      <p>Muitas personalidades russas com a mesma opinião colocaram deliberadamente    o conflito do <i>oblast</i> de Kaliningrado num contexto emocional, recorrendo    à retórica do nacionalismo ferido. O enclave russo foi descrito como um território    "cercado" de vizinhos hostis; logo, o que importa é restaurar a subordinação    do <i>oblast</i> de Kaliningrado ao centro federal, e demonstrar a firmeza da    posição russa. Bons exemplos disso são os ex-líderes do partido Rodina, que    contribuíram grandemente para a escalada do conflito de identidade ao sugerirem    que a Rússia tinha de ameaçar a Lituânia através de reivindicações territoriais    e da não-ratificação do tratado do estabelecimento de fronteiras<sup><a href="#40">40</a><a name="top40"></a></sup>.</p>     <p>Enquanto isso, no seio do <i>oblast</i> de Kaliningrado havia muitos apoiantes da    abordagem geopolítica. Por exemplo, um dos políticos locais comparou o processo    de alargamento da NATO com o "Drang nah Osten" alemão<sup><a href="#41">41</a><a name="top41"></a></sup>.    Há forças políticas locais que em 2003 emitiram uma carta aberta ao público    da região na qual protestavam contra as perspectivas de ratificação do tratado    fronteiriço entre a Rússia e a Lituânia, especulando que isso incitaria a Lituânia    a juntar-se à NATO e, em seguida, a chantagear a Rússia<sup><a href="#42">42</a><a name="top42"></a></sup>.    Os jornais locais que cobriram os primeiros dias de travessia da fronteira na    sequência da introdução de facilidades na obtenção de documentos para viajar    em Julho de 2003, aplicou de forma alargada o discurso do Outro ("passageiros    russos assustados" vs "cruéis oficiais de alfândega" da Lituânia, "atmosfera    nervosa" de verificação na passagem da fronteira, etc. <sup><a href="#43">43</a><a name="top43"></a></sup>).</p>      ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Uma explicação para este tipo de discurso é a de que a Rússia fica desorientada    em situações em que os limites das fronteiras ficam difusos, em que as identidades    mudam de orientação, e em que a hierarquia dos actores não está bem estabelecida<sup><a href="#44">44</a><a name="top44"></a></sup>.    É por isso que a Rússia tende mais a <i>reagir</i> do que a agir na região do mar Báltico,    e dá respostas sobretudo quantitativas e modernistas aos desafios muito mais    fundamentais e qualitativos que as estruturas territoriais de governo têm enfrentado.    Moscovo tem dificuldades significativas em percepcionar o <i>oblast</i> de Kaliningrado    como uma parte orgânica dos projectos emergentes do Báltico e/ou da região nórdica.    Os corpos executivos russos exprimiram repetidas vezes as suas preocupações    acerca da concessão de privilégios e direitos especiais a uma única região (por    exemplo, a travessia, sem necessidade de vistos, de fronteiras de países da    UE). Nas entrelinhas pode ler-se que este ponto de vista restritivo pode ser    explicado pelo receio de que o <i>oblast</i> de Kaliningrado pudesse estabelecer laços    mais fortes com a região do Báltico, e que acabasse por redireccionar as suas    relações para o Ocidente.</p>      <p>Contudo, o pensamento defensivo nos escalões superiores da elite federal é    seriamente desafiado pelos que aderiram ao que se podia designar como o discurso    da questão "orientada para dentro". Os seus defensores acham que, nesta região,    a Rússia defronta problemas de ordem técnica e não política e que se devia concentrar    em actualizar as comunicações aéreas e por <i>ferry</i> entre Kaliningrado e o território    russo continental, em providenciar passaportes internacionais aos residentes    e em dar as boas-vindas a novos consulados no <i>oblast</i> de Kaliningrado<sup><a href="#45">45</a><a name="top45"></a></sup>.    O que efectivamente ameaça o futuro de Kaliningrado não é o novo sistema de    regulamentação de vistos, mas a falta de recursos da Rússia para modernizar    de forma notória as comunicação da região para leste, e a baixa competitividade    das comodidades locais<sup><a href="#46">46</a><a name="top46"></a></sup>. São    sobretudo questões internas que exacerbaram a posição de Kaliningrado. Outros    afirmam que ninguém na região do mar Báltico está interessado na emergência    de uma quarta república báltica que seria incapaz de lidar eficazmente com a    corrupção, o desemprego e a degradação ambiental.</p>      <p>Também por isso a UE não tem obrigações financeiras para com o oblast de Kaliningrado<sup><a href="#47">47</a><a name="top47"></a></sup>,    o que faz com que a sua elite seja mais activa no estabelecimento de um lóbi    junto do centro federal em nome dos seus interesses regionais.</p>      <p>O que  resulta deste tipo de raciocínio é uma lógica de dessecularização que implica  o abandono de uma plataforma exclusivamente centrada no poder em favor de uma  plataforma mais orientada para as questões reais. Embora a Rússia na sua globalidade  não se sinta pronta para se comportar como um país báltico, alguns dos seus territórios  podem com maior facilidade e rapidez tornar-se "regiões bálticas". Kaliningrado  é um assunto que aguarda resolução, pelo que o seu modelo futuro poderia ser descrito  como "leis europeias num território russo". Isto poderá suceder como resultado  da aplicação de práticas-padrão num vasto grupo de esferas de política pública  - as regras internas de regulamentação de negócios, a protecção do ambiente e  os padrões de segurança de produtos têm de ser compatíveis com os dos países da  UE, etc.</p>      <p>Portanto, o conflito de Kaliningrado dá-nos um bom exemplo de dois significados  diferentes incluídos no discurso acerca da "escolha europeia" por parte da Rússia.</p>      <p>O entendimento de se "estar na Europa" é marcado por um forte sentido de política  de poder, o que implica que a Rússia está ansiosa por obter o mesmo tipo de tratamento  por parte da UE e por aceder ao seu mercado. A Rússia tem de ser aceite em pé  de igualdade independentemente dos seus acontecimentos internos, incluindo as  políticas eleitorais, o governo, as relações negociais, as liberdades dos meios  de comunicação, e por aí fora.</p>      <p>Entretanto, começa a surgir um entendimento diferente  acerca da "escolha europeia" da Rússia, que faz alterar as políticas russas, da  fobia para a cooperação, do semi-isolacionismo e das frequentes opções unilaterais  para soluções multilaterais. A "europeização" da Rússia é portanto interpretada  como uma política de reconstrução das regras internas da Rússia em consonância  com as normas da UE. O <i>oblast</i> de Kaliningrado parece ser um bom terreno para experimentar  movimentos que se devem, de um modo geral, a dois motivos principais. Em primeiro  lugar, há um sentimento bastante difundido de que o <i>oblast</i> de Kaliningrado, criado  como uma unidade administrativa governada directamente pelo centro e destinada  a agir de forma controlada de acordo com as regras ditadas de cima, parecia feito  à medida para o sistema soviético, mas parece desempenhar aspectos disfuncionais  num novo contexto pós-soviético. O <i>oblast</i> de Kaliningrado está à procura de novas  formas para a sua subjectividade transregional, presumindo que as hipóteses de  sucesso se consideram mais elevadas nos territórios que enfrentam a ameaça de  serem empurrados para a periferia e que se encontram profundamente insatisfeitos  com os seus papéis.</p>      <p>A segunda razão - que se relaciona com a primeira - diz respeito  à assunção de que, não só o próprio <i>oblast</i> de Kaliningrado, mas toda a região  do mar Báltico, representam um "quadro aberto" que sempre acolhe a chegada de  novas ideias. Uma vez que muitos especialistas assumem que "os velhos padrões  do regionalismo" se tornaram obsoletos, os novos ainda têm de ser desenvolvidos  para lá dos limites administrativos do Estado, que, por isso, têm de ser integrados  em contextos transnacionais. Em particular, a criação da euro-região "Báltica"  (que inclui o <i>oblast</i> de Kaliningrado) é uma das tentativas de "multilateralizar"  a agenda da região e de reorientar as estratégias regionais no sentido de promover  a inovação, soluções de <i>marketing</i>, a orientação para o consumidor, proporcionar  melhores acessibilidades aos bens e aos serviços públicos, e dar maior visibilidade  aos debates públicos acerca das condições de vida futuras.</p>       <p><b>CONCLUSÃO</b></p>      <p>Tal como  salientei neste ensaio, a análise dos discursos políticos tem de ter em conta  os acontecimentos que são escolhidos como pontos temporais constitutivos que substanciam  e legitimam as identidades dos sujeitos políticos. Partindo deste ponto de vista,  poder-se-ia assumir que os discursos contemporâneos russo e europeu assentam em  dois momentos-chave do século XX: a II Guerra Mundial e a queda do Muro de Berlim.</p>      ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Apesar desta aparente analogia estrutural entre os dois discursos, há uma diferença    notória entre os efeitos que eles causam na formação das duas identidades. Para    a Europa (e no sentido lato, para toda a comunidade euro-atlântica), estes dois    acontecimentos modeladores estão intimamente relacionados e inscrevem-se numa    "narrativa maior" da proliferação dos valores da democracia e da paz. O Presidente    norte-americano Barack Obama afirmou que a invasão das tropas aliadas na Normandia    há sessenta e cinco anos foi um momento essencial que permitiu que se alcançassem    os sucessos que se seguiriam à libertação da Europa: o Plano Marshall, a aliança    da NATO, e a prosperidade partilhada e a segurança que ambos proporcionaram<sup><a href="#48">48</a><a name="top48"></a></sup>.</p>     <p>Aquilo de que a Rússia sente desesperadamente falta é deste tipo de "grande narrativa".</p>      <p>A vitória da URSS na Grande Guerra Patriótica, instrumentalmente "apropriada"  pelo regime "tandemocrático" de Putin-Medvedev como uma das provas históricas  mais convincentes do estatuto de grande potência da Rússia faz ao mesmo tempo  parte de um discurso pró-comunista/neo-estalinista, que de outra forma seria rejeitado  pelo Kremlin. Os significados de celebração ligados ao 9 de Maio (o Dia V) nesse  sentido negam o potencial de emancipação do legado de 1989, o que se deve a dois  motivos.</p>      <p>Primeiro, o que se seguiu pouco depois da queda do Muro de Berlim - a  dissolução da União Soviética em 1991 - é comummente aceite como um símbolo do  desmembramento artificial do mesmo Estado que venceu a maior batalha do século  XX. Em segundo lugar, a desintegração vertiginosa do bloco socialista de estados-satélites  em 1989 desafiou a própria ideia da suposta "libertação" soviética de um grupo  de estados da Europa Oriental em 1945.</p>  No que diz respeito a esses antigos estados  da Europa de Leste, os seus discursos modeladores de identidade, ao contrário  dos da Rússia e da Europa, acrescentam intencionalmente outros pontos de referência  temporal às suas narrativas nacionais, fazendo com que o quadro geral seja mais  diferenciado e controverso. Por exemplo, a Estónia situa a sua identidade internacional  no tratado de paz de Tartu, de 1920, enquanto as autoridades ucranianas tentam  usar o <i>Golodomor</i> (grande fome) de meados dos anos 1930 como uma legitimação histórica  dos maus-tratos que esta república sofria às mãos das autoridades comunistas de  Moscovo. Os húngaros, certamente, mantêm as suas memórias constitutivas da invasão  soviética de 1956, ao passo que os checos comemoram os acontecimentos semelhantes  de 1968. Por diversas razões, estas memórias nacionais não estão inscritas de  modo particularmente profundo nem no discurso russo nem no europeu.</p>      <p>O que resulta  daqui é que a Rússia se encontra numa situação de duplo conflito discursivo: as  suas versões de acontecimentos-chave do século XX são desafiadas, quer pela narrativa  história euro-atlântica, quer pelos discursos auto-assertivos dos "novos europeus".  O pior erro que o Kremlin pode cometer é apelidar de "incorrectas" ou "malévolas"  todas as interpretações alternativas da história. A tentação de aplicar um argumento  ao estilo da <i>Realpolitik</i> - ou seja, equiparar as práticas comemorativas desafiantes  (e até hostis) a falsificações prejudiciais para os interesses da Rússia - numa  situação muito mais multidimensional de identidades em conflito e de discursos  em fase de viragem não só não aproximará a Rússia da Europa como não a ajudará  a reificar o potencial, ainda inexplorado, do legado de 1989.</p>       <p><b>TRADUÇÃO DE JORGE GARCIA</b></p>       <p>&nbsp;</p>      <p><b>NOTAS</b></p>      <!-- ref --><p><sup><a href="#top1">1</a><a name="1"></a></sup> BUTLER, Judith - <i>Precarious    Life. The Powers of Mourning and Violence</i>. Londres: Verso, 2006, p. 5.&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000121&pid=S1645-9199200900030000400001&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><p><sup><a href="#top2">2</a><a name="2"></a></sup> BADIOU, Alain - <i>Metapolitics</i>.    Londres: Verso, 2005, pp. 21-24.</p>      ]]></body>
<body><![CDATA[<p><sup><a href="#top3">3</a><a name="3"></a></sup> KARA-MURZA, Alexei - <i>Mezhdu    imperiei i smutoi</i>. Moscovo: Instituto de Filosofia, Academia Russa de Ciências,    1996, p. 23.</p>      <p><sup><a href="#top4">4</a><a name="4"></a></sup> MOROZOV, Viacheslav - "Russia    in/and Europe: identities and boundaries". Ensaio preparado para o <i>workshop</i>    "Identity Policies in Wider Europe. Mutual Perceptions in Germany and Russia",    Berlim, Friedrich Ebert Stiftung e Stiftung Wissenschaft und Politik, 6 de Junho    de 2009, p. 5.</p>      <p><sup><a href="#top5">5</a><a name="5"></a></sup> Cf. discurso de Dmitri Medvedev    na Conferência de Política Mundial, em Evian, 8 de Outubro de 2008. Disponível    em: <a href="http://archive.kremlin.ru/text/appears/2008/10/207422.shtml" target="_blank">http://www.kremlin.ru/text/appears/2008/10/207422.shtml</a></p>      <p><sup><a href="#top6">6</a><a name="6"></a></sup> <i>Ibidem</i>.</p>      <p><sup><a href="#top7">7</a><a name="7"></a></sup> BAZHANOV, Yevgeniy - "Overcoming    the Hobbesian instinct". In <i>The Moscow Times</i>, 15 de Maio de 2009, p. 8.</p>      <p><sup><a href="#top8">8</a><a name="8"></a></sup> OZNOBISCHEV, Sergey - "Vremia    vybirat". In <i>International Trends. Journal of International Relations Theory    and World Politics</i>. Vol. 2, N.º 1 (4), Janeiro-Abril de 2004, p. 92.</p>      <p><sup><a href="#top9">9</a><a name="9"></a></sup> BAZHANOV, Yevgeniy - "Russian    foreign and security policy in its global dimension". In SPILLMAN, Kurt, e WENGER,    Andreas (coords.) - <i>Russia's Place in Europe. A Security Debate</i>. Berna: Peter    Lang Publishers, 1999, p. 171.</p>      <p><sup><a href="#top10">10</a><a name="10"></a></sup> SPILLMAN, Kurt, e WENGER,    Andreas (coords.) - <i>Russia's Place in Europe. A Security Debate</i>, p. 221.</p>      <p><sup><a href="#top11">11</a><a name="11"></a></sup> SMITH, David J. - ""Woe    from stones": commemoration, identity politics and Estonia's "War of Monuments"".    In <i>Journal of Baltic Studies</i>. Vol. 39, N.º 4, Dezembro de 2008, p. 421.</p>      <p><sup><a href="#top12">12</a><a name="12"></a></sup> YASTRZHEMBSKIY, Sergey    - "Kto tormozit vagon?". In <i>MoskovskiiKomsomolets</i>, 16 de Maio de 2007.</p>      ]]></body>
<body><![CDATA[<p><sup><a href="#top13">13</a><a name="13"></a></sup> <i>Nezavisimaya gazeta</i>, 17    de Novembro de 2004. </p>      <p><sup><a href="#top14">14</a><a name="14"></a></sup> <i>Strana.ru</i>, 10 de Outubro    de 2004.</p>      <p><sup><a href="#top15">15</a><a name="15"></a></sup> MOROZOV, Viacheslav - "Russia    in the Baltic Sea region: de-securitization or de-regionalization?". In <i>Cooperation    and Conflict</i>, Setembro de 2004.</p>      <p><sup><a href="#top16">16</a><a name="16"></a></sup> MOROZOV, Viacheslav - "The    Baltic states in Russian foreign policy discourse: can Russia become a Baltic    country?", Copenhagen Peace Research Institute, COPRI Working Paper, 2004.</p>      <p><sup><a href="#top17">17</a><a name="17"></a></sup> ASTROV, Alexandr - <i>Samochinnoe    soobschestvo: politika men'shinstv ili malaya politika?</i>. Talin: Publicações    Avenarius, 2007.</p>      <p><sup><a href="#top18">18</a><a name="18"></a></sup> Entrevista de Vladimir    Putin à CNN, Sochi, 28 de Agosto de 2008. Disponível em: <a href="http://www.government.ru/#" target="_blank">http://www.government.ru</a></p>      <p><sup><a href="#top19">19</a><a name="19"></a></sup> PAVLOVSKY, Gleb - "Vozvraschenie    iz Gori". In <i>Expert</i>. N.º 33, 25-31 de Agosto de 2008, p. 60.</p>      <p><sup><a href="#top20">20</a><a name="20"></a></sup> DORENKO, Sergei - "Nam    prinesut Gruziyu v podarochnoy upakovke". In <i>Komsomolskaya Pravda</i>, 4-11 de Setembro    de 2008, p. 4.</p>      <p><sup><a href="#top21">21</a><a name="21"></a></sup> Entrevista de Dmitri Medvedev    à BBC, Sochi, 26 de Agosto de 2008. Disponível em: <a href="http://archive.kremlin.ru/text/appears/2008/08/205775.shtml" target="_blank">http://www.kremlin.ru/text/appears/2008/08/205775.shtml</a></p>      <p><sup><a href="#top22">22</a><a name="22"></a></sup> "Kto ubil "Bol'shuyu Evropu"",    in <a href="http://europe.inache.net/bigeuro.html" target="_blank">http://europe.inache.net/bigeuro.html</a></p>      ]]></body>
<body><![CDATA[<p><sup><a href="#top23">23</a><a name="23"></a></sup> Entrevista de Vladimir    Putin ao canal televisivo Vesti, 6 de Setembro de 2008. Disponível em: <a href="http://www.government.ru/#" target="_blank">http://www.government.ru</a></p>      <p><sup><a href="#top24">24</a><a name="24"></a></sup> VLASOVA, Olga - "Kak pobedit'    Evrosoyuz". In <i>Expert</i>. N.º 34, 1-7 de Setembro de 2008, pp. 66-69.</p>      <p><sup><a href="#top25">25</a><a name="25"></a></sup> LAVROV, Sergey - "Vneshniaya    politika Rossii i novoe kachestvo geopoliticheskoi situatsii". In Moscow: the    Diplomatic Academy of MFA, <i>Diplomaticheskiy ezhegodnik</i>, 2008.</p>      <p><sup><a href="#top26">26</a><a name="26"></a></sup> Discurso do Presidente    Medvedev na Conferência de Política Mundial, Evian, 8 de Outubro de 2008. Disponível    em: <a href="http://archive.kremlin.ru/text/apears/2008/10/207422.shtml" target="_blank">http://www.kremlin.ru/text/apears/2008/10/207422.shtml</a></p>      <p><sup><a href="#top27">27</a><a name="27"></a></sup> <i>Ibidem</i>.</p>      <p><sup><a href="#top28">28</a><a name="28"></a></sup> PAVLOVSKY, Gleb - "Vozvraschenie    iz Gori". In <i>Expert</i>. N.º 33, 25- 31 de Agosto de 2008, p. 60. </p>      <p><sup><a href="#top29">29</a><a name="29"></a></sup> REMIZOV, Mikhail - "Sud'ba    rossiyskogo nasledstva", APN Agency & National Strategy Institute, 12 de Abril    de 2005. Disponível em: <a href="http://www.apn.ru/publications/print1355.htm" target="_blank">http://www.apn.ru/publications/print1355.htm</a></p>      <p><sup><a href="#top30">30</a><a name="30"></a></sup> TRENIN, Dmitry - <i>Reading    Russia Right</i>, Policy Brief, Carnegie Endownment for International Peace, edição    especial, n.º 42, Outubro de 2005, p. 1.</p>      <p><sup><a href="#top31">31</a><a name="31"></a></sup> Encontro do Presidente    Putin com os membros do clube de debate Valday, Sochi, 14 de Setembro de 2004.    Disponível em: <a href="http://archive.kremlin.ru/text/appears/2007/09/144011.shtml" target="_blank">http://www.kremlin.ru/text/appears/2007/09/144011.shtml</a></p>      <p><sup><a href="#top32">32</a><a name="32"></a></sup> ADOMEIT, Hannes - "Inside    or outside? Russia's policies towards NATO". In ROWE, Elana Wilson, e TORJESEN,    Stina (orgs.) - <i>The Multilateral Dimension in Russian Foreign Policy</i>. Londres:    Routledge, 2009, p. 117.</p>      ]]></body>
<body><![CDATA[<p><sup><a href="#top33">33</a><a name="33"></a></sup> <i>Kommersant</i>, 28 de Maio    de 2008.</p>      <p><sup><a href="#top34">34</a><a name="34"></a></sup> O ex-agente do KGB, Litvinenko,    recebeu a cidadania britânica. As autoridades britânicas acusara§m Andrey Lugovoi    de ter envenenado Litvinenko em Londres.</p>      <p><sup><a href="#top35">35</a><a name="35"></a></sup> <i>Moscow News</i>. N.º 28 (1395),    20-26 de Julho de 2007, p. 12.</p>      <p><sup><a href="#top36">36</a><a name="36"></a></sup> <i>USA Today</i>, 6 de Novembro    de 2007, p. 2.</p>      <p><sup><a href="#top37">37</a><a name="37"></a></sup> <i>Moscow News</i>. N.º 28 (1395),    20-26 de Julho de 2007, p. 13.</p>      <p><sup><a href="#top38">38</a><a name="38"></a></sup> MOROZOV, Viacheslav - "Russia    in the Baltic Sea region: de-securitization or de-regionalization?".</p>      <p><sup><a href="#top39">39</a><a name="39"></a></sup> Disponível em: <a href="http://www.strana.ru/print/137124.html" target="_blank">http://www.strana.ru/print/137124.html</a></p>      <p><sup><a href="#top40">40</a><a name="40"></a></sup> <i>Mayak Baltiki</i>, 13 de Fevereiro    de 2003, p. 2.</p>      <p><sup><a href="#top41">41</a><a name="41"></a></sup> CHERNOMORSKII, P. - "Ni    transit, ni vizy kaliningradskuyu problemu ne reshat". Disponível em: <a href="http://www.globalrus.ru/index.html?section=review&id=57235" target="_blank">http://www.globalrus.ru/index.html?section=review&id=57235</a>  </p>      <p><sup><a href="#top42">42</a><a name="42"></a></sup> <i>Baltiiskaya gazeta</i>. N.º    6 (74), 20 de Fevereiro de 2003, p. 4.</p>      ]]></body>
<body><![CDATA[<p><sup><a href="#top43">43</a><a name="43"></a></sup> <i>Kaliningradskaya Pravda</i>.    N.º 213 (15616), 23 de Outubro de 2002, p. 6.</p>      <p><sup><a href="#top44">44</a><a name="44"></a></sup> MOROZOV, Viacheslav - "The    Baltic states in Russian foreign policy discourse: can Russia become a Baltic    country?".</p>      <p><sup><a href="#top45">45</a><a name="45"></a></sup> Disponível em: <a href="http://www.politcom.ru/print.php?fname" target="_blank">http://www.politcom.ru/print.php?fname</a></p>      <p><sup><a href="#top46">46</a><a name="46"></a></sup> SMORODINSKAIA, Natalia    - <i>Baltiiskaya zagvozdka (O desconforto báltico)</i>. Disponível em: <a href="http://www.expert.ru/sever/current/tema.shtml" target="_blank">http://www.expert.ru/sever/current/tema.shtml</a></p>      <p><sup><a href="#top47">47</a><a name="47"></a></sup> KOBRINSKAIA, Irina - "Pri    chom zdes vizy" [O que têm os vistos a ver com tudo isto]. In <i>The Moscow News</i>.    Disponível em: <a href="http://www.mn.ru/" target="_blank">http://www.mn.ru/issue.php?2002-25-26</a> </p>      <p><sup><a href="#top48">48</a><a name="48"></a></sup> OBAMA, Barack - "Remarks    of the President at D-Day 65th anniversary ceremony". Normandy American Cemetery    and Memorial, France. The White House, Office of the Press Secretary, 5 de Junho    de 2009.</p>      <p>&nbsp;</p>      <p><a href="#topa1">*</a><a name="a1"></a> Professor na Universidade de Nizhny    Novgorod, Rússia.</p>       ]]></body><back>
<ref-list>
<ref id="B1">
<nlm-citation citation-type="book">
<person-group person-group-type="author">
<name>
<surname><![CDATA[BUTLER]]></surname>
<given-names><![CDATA[Judith]]></given-names>
</name>
</person-group>
<source><![CDATA[Precarious Life: The Powers of Mourning and Violence]]></source>
<year>2006</year>
<page-range>5</page-range><publisher-loc><![CDATA[Londres ]]></publisher-loc>
<publisher-name><![CDATA[Verso]]></publisher-name>
</nlm-citation>
</ref>
</ref-list>
</back>
</article>
